A bola negra que não me fez chorar

María Beatriz Muñoz Ruiz traz uma crítica sincera e corajosa sobre o badalado filme que tenta concluir a obra inacabada de Federico García Lorca

Maria Beatriz Muñoz Ruiz
Maria Beatriz Muñoz Ruiz
Cartaz do Filme ‘A Bola Negra

Três dias lutei para decidir se me atrevia a dar a minha opinião sobre La bola negra (A Bola Negra); três dias demorei para me arriscar a que o peso do ódio caísse sobre mim se escrevesse o que penso.

Se esperam um artigo sobre política, podem parar de ler agora mesmo; deixei muito claro que não acredito na política nem nos políticos. O que eu realmente amo é a história, a poesia e a literatura. Também sempre disse que o cinema e a música me parecem essenciais e belos, uma forma de arte que faz você sonhar e sentir.

Bem, uma vez contextualizados, gostaria de esclarecer que sou granadina e amo a poesia de Lorca; talvez por isso eu tenha colocado expectativas altas demais em La bola negra. As pessoas diziam que era o melhor filme que tinham visto em muito tempo, saíam chorando do cinema e até repetiam a experiência. Tinha tudo o que um filme precisa ter para dar vontade de assistir, e o meu ponto extra é que gosto dos Javis [diretores espanhóis] e tinha fé de que eles tinham feito um bom trabalho.

Antes de assistir, pareceu-me arriscada a ideia dos Javis de terminar a obra inacabada de Lorca, um grande das letras, um mestre da literatura. Mas, se alguém se atreve, é porque se vê capaz de continuar uma grande obra — fato que, do meu ponto de vista, eles não alcançaram: camuflaram um trabalho literário medíocre com outras duas histórias. Mas o pior de tudo é que atribuem esse trabalho a Lorca; e eu já sei que não pretenderam enganar ninguém e sempre esclareceram que se trata de uma continuidade fictícia da obra de Federico. No entanto, se desmembrarmos as três histórias do filme e as analisarmos separadamente, poderíamos resumir no fato de que Carlos, o protagonista da história de Lorca, vai duas vezes ao cassino para se submeter a uma votação e ver se o admitem como membro. Não vou contar mais para não dar muito spoiler, mas, convenhamos, também não havia muito mais para contar.

Haverá quem diga que sou estúpida e não entendi a essência da história; pode ser verdade, porque entendo que nas quatro páginas que Lorca deixou escritas ele desejava transmitir o quão socialmente inaceitável era a homossexualidade, mas nunca saberemos como teria desenvolvido a história de Carlos. E estou segura de que, se a tivesse terminado, duvido que fosse tão breve e simplista como a que os Javis contaram.

Também entendo que, como não tinham conteúdo suficiente com a história de Lorca, tiveram que criar mais duas histórias sem muita substância. Isso é como comprar uma camiseta sem graça e, para que fique bonita, ter que combiná-la com outras duas peças ainda mais sem graça. Mas, olhe, cinematograficamente me parece uma colcha de retalhos magnífica e acho que funciona bem; havia planos muito bem conseguidos e cenas que davam pinceladas do que foi a Guerra Civil Espanhola. Digo pinceladas porque o tema da guerra foi tratado como quem pisa na ponta dos pés para não acordar o cachorro dos vizinhos, e é uma pena, porque poderiam ter contado muito mais. Todas as guerras são ruins e todos os que morrem são marionetes nas mãos de pessoas que buscam poder e dinheiro. Há histórias da guerra que fariam qualquer um chorar, histórias contadas pelos nossos mais velhos, aquelas histórias que não se encontram em livros didáticos. Mas também há poucas pessoas que têm tempo de sentar ao lado deles e escutar essas histórias. Os irmãos da minha avó, por circunstâncias com as quais não vou entediar vocês agora contando, lutaram em ambos os lados, uns contra os outros, com o medo de que em algum daqueles ataques pudessem se matar entre si. E como esse exemplo existem muitos. Entendo que os Javis quiseram fazer este filme baseando-se na homossexualidade, mas também sou da opinião de que poderiam ter sido mais elegantes em seu propósito.

Na metade do filme, cansei de ver homens nus tomando banho, para não dizer que as actrizes brilharam pela ausência. Bem, a que brilhou em uma cena que me pareceu eterna foi Penélope Cruz, uma cena excessivamente longa e sem sentido que sobrou no filme; talvez por isso quase não mostraram a cidade natal de Lorca: Granada, minha Granada, a bela e querida Granada de Lorca, aquela que ele amou em cada verso, de onde era e para onde sempre voltava. Essa Granada que os Javis decidiram passar de raspão e não mostrar ao mundo.

Sinto muito, não gostei de nenhuma das três histórias, fiquei mortalmente entediada, só queria que o filme terminasse; se assisti até o final foi porque tinha fé de que daria uma reviravolta magistral e me faria chorar as pitangas, como eu via nos vídeos do TikTok.

A música é boa e a composição cinematográfica também, mas foram duas horas e meia da minha vida perdidas. Eu acho que vi outro filme, diferente daquele que as pessoas viam; me deu vontade de pedir que me dessem a mesma pipoca que deram a eles. Saí com meus lenços intactos e me sentindo marginalizada em meio a tanta emoção e euforia das pessoas.

Portanto, não me deem tanto crédito e vão assistir; afinal de contas, sou apenas um grão de areia no deserto, alguém que saiu do cinema frustrada por não experimentar o êxtase dos outros. Desejo-lhes muito sucesso e me alegra que tenham feito tanta gente sentir o que quer que seja.

María Beatriz Muñoz Ruiz

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A guerra em primeira pessoa

Ella Dominici discorre sobre memória, consciência e a reconstrução da condição humana

Ella Dominici
Ella Dominici
Fotografia em plano aproximado de uma flor cor-de-rosa de pétalas delicadas a crescer no meio de escombros e cinzas, em primeiro plano. Ao fundo, sob uma luz suave de nevoeiro ou fumo, avistam-se as ruínas destruídas de um edifício histórico com uma cúpula metálica esquelética, evocando uma atmosfera de desolação e resiliência.
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PREMISSA

“A verdadeira paz talvez não seja a ausência da guerra, mas a coragem de permanecer humano quando tudo parece conspirar contra a humanidade.”( Rute Ella Dominici)

A guerra costuma ser narrada pela história oficial através de mapas, tratados diplomáticos, estratégias militares e estatísticas. Conhecemos datas, números de vítimas e nomes de batalhas. Contudo, por trás de cada dado existe uma existência interrompida, uma memória fragmentada e uma consciência profundamente transformada pela violência.

Poucos acontecimentos revelam tão intensamente a fragilidade da condição humana quanto os conflitos armados. Eles não destroem apenas cidades, monumentos e fronteiras. Desorganizam a linguagem, silenciam afetos e alteram a forma como as gerações futuras compreendem a própria humanidade.

Este ensaio propõe deslocar o olhar da narrativa histórica para a experiência humana. A guerra deixa de ser observada apenas como um acontecimento coletivo para tornar-se experiência íntima, inscrita na memória de indivíduos, famílias e povos. É na primeira pessoa que a dor adquire rosto, voz e permanência.

A literatura ocupa, nesse contexto, um lugar singular. Enquanto a história registra acontecimentos, a literatura preserva aquilo que dificilmente pode ser quantificado: o medo, a ausência, a culpa, a esperança e a lenta reconstrução da dignidade humana. Ela transforma a memória em responsabilidade ética.

Ao refletir sobre Hiroshima, sobre as mulheres que sustentam a continuidade da vida e sobre a permanência das lembranças nas gerações seguintes, este texto não pretende oferecer respostas definitivas. Busca, antes, reconhecer que toda civilização depende da capacidade de recordar sem transformar a memória em instrumento de ódio.

Lembrar não significa permanecer aprisionado ao sofrimento, mas impedir que a violência seja naturalizada. Quando a memória permanece viva, ela se converte em consciência; quando a lucidez permanece desperta, torna-se possibilidade de paz.

 I — A Guerra em Primeira Pessoa

“Toda guerra começa quando o outro deixa de ser reconhecido como semelhante.”

Existe uma diferença profunda entre estudar uma guerra e sobreviver a ela. A primeira atividade pertence ao domínio da análise histórica; a segunda modifica irreversivelmente a percepção da existência. Nenhuma estatística consegue traduzir o instante em que uma criança compreende o significado da perda, nem o silêncio que permanece após o desaparecimento daqueles que davam sentido ao cotidiano.

A guerra rompe a continuidade da vida ordinária. O tempo deixa de ser organizado por projetos e passa a ser medido pela sobrevivência. Cada dia representa uma conquista incerta, cada despedida pode tornar-se definitiva, cada gesto cotidiano adquire inesperada dimensão ética.

Nesse contexto, a primeira pessoa deixa de ser mero recurso narrativo para transformar-se em lugar de resistência. Dizer “eu” significa afirmar que existe uma consciência que não foi completamente reduzida à lógica da destruição. A identidade sobrevive mesmo quando tudo ao redor parece destinado ao desaparecimento.

A literatura testemunhal tornou-se um dos maiores patrimônios da memória contemporânea exatamente porque restitui nomes, rostos e emoções às vítimas. Ao narrar a experiência individual, revela aquilo que permanece invisível nas descrições gerais da história: a singularidade da dor humana.

A guerra produz também deslocamentos interiores. Sobreviver implica conviver com lembranças fragmentadas, culpas silenciosas e perguntas sem resposta. O trauma não termina quando cessam os combates; prolonga-se na memória, influenciando relações familiares, escolhas pessoais e a maneira como novas gerações compreendem o passado.

Recordar, portanto, não significa cultivar ressentimento. A memória transforma-se em exercício de responsabilidade. Ela impede que a violência seja reduzida a simples acontecimento histórico e recorda continuamente que cada conflito nasce, antes de tudo, da recusa em reconhecer plenamente a humanidade do outro.

Assim, toda narrativa em primeira pessoa torna-se também uma narrativa coletiva. Ao escutar uma única voz, reconhecemos milhares de outras que permaneceram silenciadas pela destruição.

II — A Mulher em Primeira Pessoa

“Onde a guerra interrompe a vida, muitas mulheres preservam a memória.”

As guerras foram frequentemente narradas pelos vencedores, pelos generais e pelos líderes políticos. Entretanto, existe uma outra história, menos visível e igualmente decisiva: aquela preservada pelas mulheres.

Enquanto o conflito reorganiza fronteiras e estruturas políticas, mulheres sustentam aquilo que permanece essencial à continuidade da existência: o cuidado, a transmissão da memória, a preservação da infância e a reconstrução cotidiana da esperança.

Elas experimentam perdas múltiplas. Perdem companheiros, filhos, lares, estabilidade e, muitas vezes, a própria identidade construída antes da violência. Ainda assim, assumem silenciosamente o trabalho de reorganizar a vida quando os combates terminam.

Não se trata de idealizar a figura feminina, mas de reconhecer uma dimensão histórica frequentemente negligenciada. A memória coletiva de inúmeros povos foi preservada por relatos orais, diários, fotografias, cartas e gestos cotidianos mantidos sobretudo pelas mulheres.

A maternidade, compreendida aqui em sentido amplo como capacidade de proteger e transmitir a vida, converte-se em resistência ética diante da destruição. Mesmo quando tudo parece perdido, permanece o compromisso de impedir que o esquecimento complete aquilo que a guerra iniciou.

A literatura registra inúmeras personagens femininas que atravessam conflitos sem perder completamente a capacidade de compaixão. Elas não representam ingenuidade, mas coragem moral.

Ao narrar a guerra em primeira pessoa feminina, a literatura amplia nossa compreensão da violência. Ela mostra que a reconstrução de uma sociedade começa muito antes da assinatura de tratados diplomáticos.

III — A Modernidade e a Guerra em Terceira Pessoa

“A técnica amplia o poder humano; somente a consciência pode limitar seu uso.”

A modernidade proporcionou extraordinários avanços científicos, tecnológicos e econômicos. Contudo, o mesmo conhecimento capaz de prolongar a vida também produziu instrumentos de destruição jamais imaginados pelas gerações anteriores.

Ao longo do século XX, a guerra deixou de depender exclusivamente da coragem individual dos combatentes para tornar-se resultado de sistemas burocráticos altamente organizados. A violência passou a ser administrada por estruturas impessoais.

Hannah Arendt observou que o mal pode apresentar-se não apenas como manifestação de crueldade consciente, mas também como resultado da incapacidade de pensar criticamente sobre os próprios atos.

Nesse cenário, a literatura recupera aquilo que a burocracia tende a apagar: a singularidade humana. Ao devolver nomes às vítimas e sentimentos às estatísticas, rompe a impessoalidade produzida pelas grandes máquinas administrativas da guerra.

A técnica não possui, em si mesma, orientação moral. Ela amplia possibilidades. Cabe à consciência humana decidir se o conhecimento será utilizado para preservar ou destruir a vida.

A verdadeira modernidade talvez não resida apenas na capacidade de criar tecnologias cada vez mais sofisticadas, mas na maturidade de utilizá-las em favor da dignidade humana.

IV — Cartografia da Memória

“A memória não pertence apenas ao passado; ela orienta a responsabilidade do futuro.”

A memória constitui um dos fundamentos da identidade humana. Não é apenas um arquivo de acontecimentos, mas um processo vivo pelo qual indivíduos e sociedades interpretam a própria existência. Após os grandes conflitos do século XX, recordar tornou-se também um imperativo ético.

As guerras não terminam quando cessam os disparos. Permanecem inscritas nos corpos, nas narrativas familiares e na cultura dos povos. O trauma atravessa gerações, moldando percepções, medos e formas de compreender o mundo.

Paul Ricoeur observa que recordar exige responsabilidade. A memória precisa preservar a verdade sem alimentar o ressentimento. Esquecer completamente favorece a repetição da violência; permanecer aprisionado ao passado impede a reconstrução da vida.

A literatura torna-se espaço privilegiado dessa elaboração. Ela transforma lembranças em linguagem, oferecendo à dor um lugar de permanência que não se reduz à repetição do sofrimento. Assim, a memória deixa de ser apenas recordação e converte-se em compromisso com o futuro.

Cartografia da Memória — Os grandes massacres do século XX

Primeira Guerra Mundial (1914–1918): cerca de 20 milhões de mortos. Deixou uma Europa devastada e inaugurou a guerra industrial em larga escala. �

HISTORY · 1

Genocídio Armênio (1915–1917): aproximadamente 1,5 milhão de vítimas, considerado um dos primeiros genocídios do século XX. �

thoughtco.com

Segunda Guerra Mundial (1939–1945): entre 70 e 85 milhões de mortos, incluindo o Holocausto, o maior conflito da história humana. �

HISTORY · 1

Holocausto (1933–1945): cerca de 6 milhões de judeus assassinados, além de milhões de outras vítimas perseguidas pelo regime nazista. �

HISTORY

Hiroshima e Nagasaki (1945): aproximadamente 200 mil mortos entre vítimas imediatas e posteriores à radiação, marcando o início da era nuclear. �

HISTORY

Guerra da Coreia (1950–1953): cerca de 3 milhões de mortos, consolidando a divisão da península coreana. �

PubMed Central (PMC)

Guerra do Vietnã (1955–1975): aproximadamente 2 a 3 milhões de mortos, deixando profundas marcas humanas, ambientais e políticas. �

PubMed Central (PMC) · 1

Genocídio Cambojano (1975–1979): cerca de 2 milhões de vítimas, consequência do regime do Khmer Vermelho. �

thoughtco.com

Guerras dos Bálcãs (1991–1999): aproximadamente 140 mil mortos, marcadas por limpeza étnica e pelo massacre de Srebrenica. �

PubMed Central (PMC)

 Estima-se que mais de 100 milhões de pessoas tenham perdido a vida em guerras e conflitos do século XX, tornando-o o período mais violento da história contemporânea e um permanente chamado à responsabilidade ética e à preservação da memória. �

V — Hiroshima: Quando a Ciência Ultrapassou a Consciência

“O conhecimento alcança sua grandeza quando permanece inseparável da responsabilidade.”

Hiroshima permanece como um dos símbolos mais contundentes da capacidade humana de produzir destruição em escala inédita. Em poucos segundos, milhares de vidas foram interrompidas, e os efeitos físicos, psicológicos e ambientais prolongaram-se por décadas.

O episódio não representa apenas um marco militar. Ele inaugura uma reflexão permanente sobre os limites éticos do progresso científico. A inteligência técnica mostrou-se extraordinária; a consciência moral revelou-se insuficiente para impedir a devastação.

O Memorial da Paz de Hiroshima permanece como testemunho silencioso dessa responsabilidade histórica. Mais do que preservar ruínas, convida a humanidade a reconhecer que nenhum avanço científico pode ser separado de suas consequências humanas.

VI — Como a Flor de Hiroshima

“Hiroshima, mon amour”À Marguerite Duras

“À memória daqueles cuja ausência continua a ensinar a humanidade a florescer”

Uma bomba julgou estéril o solo da fertilidade. Apesar da devastação homicida, houve um impulso; na vila morta, célere, a vida.

A flor de Hiroshima floresce. Se apenas sobrevivesse, seria somente um símbolo biológico.

Mas florescer é um verbo da alma, metáfora da resiliência, a serenidade que ensaia novamente a vida.

A cinza acreditava possuir a última palavra. A flor respondeu em perfume: imagem singela  da extraordinária continuidade.

O perfume não tem corpo nem ocupa espaço. Não se deixa aprisionar; expande-se, transcende. E do massacre, gesto agreste, a poesia se consagra.

Não reconstrói edifícios, nem desfaz explosões. Não devolve os mortos às suas imensidões.

A flor não explica a tragédia, mas transforma suas dimensões.

A bomba definia a terra como o último vazio. A vida, porém, recusa o verbo desistir.

A consciência, em floração, renasceu na natureza, porque florescer é escolha da alma, e quando a  cinza imaginou ser a última palavra,

 A flor de Hiroshima poetizou o perfume na forma mais delicada de negar a violência.

O amor permanece em plena liberdade, sem fronteiras nem espaços definidos.

Persiste quando a matéria desaparece e o silêncio dialoga com as memórias que não cabem na linguagem:

colecionam perfumes que devolvem à humanidade, não os seus mortos, mas o fôlego que a dor acreditava ter extinguido.

Porque a matéria do absurdo torna-se cinza: o obscuro

mas  na alma o último verbo é florescer:

Hiroshima, mon amour.

Rute Ella Dominici

Epílogo — Eu, Sobrevivente

“Sobreviver é transformar a memória em responsabilidade.”

Não sobrevivi apenas às guerras inscritas na história. Sobrevivi às guerras silenciosas que atravessam consciências, fragmentam afetos e desafiam continuamente a condição humana.

Compreendi que a paz não se estabelece apenas pelo fim dos conflitos. Ela começa quando reconhecemos no outro a mesma dignidade que desejamos preservar em nós. Esse reconhecimento transforma a memória em compromisso ético e impede que a violência encontre no esquecimento um novo abrigo.

A literatura participa dessa reconstrução ao conservar aquilo que a destruição não consegue alcançar: a experiência humana. Enquanto houver quem escreva, leia e recorde, permanecerá viva a possibilidade de uma cultura fundada na responsabilidade, na compaixão e na esperança.

Talvez essa seja a mais profunda vocação da palavra: lembrar que, mesmo depois das maiores ruínas, a humanidade ainda pode escolher florescer.

Que este trabalho encontre leitores capazes de reconhecer que, mesmo diante da devastação da matéria , a literatura continua sendo uma forma de preservar a humanidade.

Dossiê Cultural

Referências bibliográficas

Hannah Arendt — Eichmann em Jerusalém.

https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788571649620/eichmann-em-jerusalem

Primo Levi — É Isto um Homem?

https://rocco.com.br/produto/e-isto-um-homem

John Hersey — Hiroshima

https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535902792/hiroshima

Companhia das Letras (catálogo)

https://www.companhiadasletras.com.br

Editora Vozes

https://www.vozes.com.br

Editora Record

https://www.record.com.br

Nova Fronteira

https://www.novafronteira.com.br

Todavia

https://todavialivros.com.br

Editora Unicamp

https://www.editoraunicamp.com.br

Sugestões culturais

Anne Frank House

https://www.annefrank.org

Elie Wiesel Foundation

https://eliewieselfoundation.org

Hiroshima Peace Memorial Museum

https://hpmmuseum.jp/?lang=eng

UNESCO – Hiroshima Peace Memorial

https://whc.unesco.org/en/list/775

Nagasaki Atomic Bomb Museum

https://nabmuseum.jp/en

Auschwitz-Birkenau Memorial

https://www.auschwitz.org/en

United States Holocaust Memorial Museum

https://www.ushmm.org

IMDb – Hiroshima mon amour

https://www.imdb.com/title/tt0052893

Filmografia Sugerida

Obras audiovisuais recomendadas para complementar o ensaio “A Guerra em Primeira Pessoa: Memória, consciência e a reconstrução da condição humana”.

Hiroshima mon amour

Direção: Alain Resnais (1959)

Reflexão sobre memória, amor e trauma após Hiroshima.

https://www.imdb.com/title/tt0052893

Schindler’s List

Direção: Steven Spielberg (1993)

Holocausto, memória e responsabilidade ética.

https://www.imdb.com/title/tt0108052

The Pianist

Direção: Roman Polanski (2002)

Sobrevivência durante a Segunda Guerra Mundial.

https://www.imdb.com/title/tt0253474

Grave of the Fireflies

Direção: Isao Takahata (1988)

Infância e devastação provocadas pela guerra.

https://www.imdb.com/title/tt0095327

Waltz with Bashir

Direção: Ari Folman (2008)

Memória, trauma e conflito contemporâneo.

https://www.imdb.com/title/tt1185616

The Thin Red Line

Direção: Terrence Malick (1998)

Dimensão filosófica da guerra.

https://www.imdb.com/title/tt0120863

Come and See

Direção: Elem Klimov (1985)

Impactos psicológicos da guerra.

https://www.imdb.com/title/tt0091251

Rute Ella Dominici

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Pingos sujos a sujarem o oceano da humanidade

Diamantino Bártolo evoca Gandhi e os Direitos Humanos em uma contundente reflexão sobre a ética no mundo moderno

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
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Preocupar-se-á a ciência com as questões da cidadania, da solidariedade, dos Direitos Humanos e com outros valores universais? Ou pelo contrário, tais assuntos não interessam à ciência em geral e aos cientistas em particular? Nesta perspectiva parece-me que a questão é pertinente porque vivemos numa sociedade difícil, complexa, em busca da satisfação pessoal, a multiplicação de experiências, a exploração do negativo, do espetacular, do sensacional, do escandaloso, o que estará a conduzir para uma desmoralização da vida pública, com reflexos na vida política, principalmente nos mais jovens, que se relaciona com a tentativa, sistematicamente organizada de, se não eliminar, pelo menos substituir os conteúdos morais e éticos, substantivos, valores orientadores, devidamente ajustados à prática.

Ao decidir realizar esta breve, insuficiente e deficiente investigação sobre a necessidade imperiosa de desencadear os mecanismos legais/académicos de sensibilização das consciências para o cumprimento dos Direitos Humanos, precisamente no âmbito da Epistemologia, tinha a indicação das dificuldades que iria encontrar, contudo: enquanto cidadão, no pleno exercício dos seus deveres e direitos; como eterno aprendiz de filósofo, tenho, igualmente, o dever de refletir sobre estes temas. 

Podemos abordar a problemática dos Direitos do Homem, a partir de várias possibilidades: estratégicas, metodológicas ou mesmo teleológicas, contudo, numa forma simples e clara, parece-me pertinente invocar a máxima: «Todos os Seres Humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.» (ONU: Declaração Universal dos Direitos do Homem, Artº 1º) e: «Não se deve perder a fé na humanidade: a humanidade é um oceano limpo e um par de pingos sujos não sujam o oceano.» (GANDHI).

A próxima comemoração do 78º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem (10 Dezembro 1948 – 10 de Dezembro de 2026) infelizmente com o recrudescimento de conflitos e fundamentalismos éticos e religiosos, deve constituir real incentivo e preocupação para que as problemáticas dos Direitos (e Deveres) Humanos, comecem a ser tratados com o devido e merecido discernimento e seriedade que merecem; estando sabido que hoje, ainda que, possivelmente, menos que ontem, os Direitos Humanos que abarcam um conjunto muito vasto das dimensões da vida humana, continuam a ser tratados como “boas intenções”, concretamente: por interesses económicos ou burocracias instaladas; por ditaduras e repressões políticas e religiosas.

A manifesta irrelevância com que os Direitos Humanos são invocados é, cada vez mais, alvo de denúncia por parte das Organizações Não Governamentais, do olhar indiscreto dos Média, dos biliões de pessoas que sentem a miséria, o analfabetismo, a intolerância, a discriminação, a violência e a guerra. Neste aniversário, quantos milhões de crianças, idosos e marginalizados estão a passar fome, sabendo-se que algumas Organizações pagam para não se produzir alimentos, para se controlar as matérias-primas, com o objetivo de se criarem condições para que a especulação tenha o caminho mais livre?

Por outro lado, novos desafios apareceram: eutanásia, tráfico de órgãos, clonagem, degradação e delapidação do meio ambiente, até mesmo o processo de globalização das economias. A subordinação dos cidadãos ao poder da força bélica dos que “querem, podem e mandam”, pode verificar-se em todos os cantos do mundo. Os Relatórios da Amnistia Internacional, das Organizações Não Governamentais e denúncias dramáticas da própria Igreja Católica, são a prova insofismável de que ainda “há muitos pingos sujos a sujarem o oceano da humanidade” que se pretende livre, justa, digna e pacífica!

BIBLIOGRAFIA.

GANDHI MAHATMA, (1869-1948) líder pacifista indiano. Principal personalidade da independência da Índia, então colônia britânica, ganhou destaque na luta contra os ingleses por meio de seu projeto de não-violência. (Grande deensor dos Direitos Humanos

ONU-ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (1948) Declaração Universal dos Direitos do Homem, Lisboa: Amnistia Internacional, Secção Portuguesa, 1998;

BIBLIOGRAFIA GERAL

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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A gratidão como exercício diário de saúde integral

SAÚDE INTEGRAL

O que a ciência diz sobre o impacto do autocuidado consciente e como pequenas práticas diárias podem transformar nossa percepção de bem-estar. Por Joelson Mora

Joelson Mora
Joelson Mora

O bem-estar não começa apenas quando a vida melhora. Ele também se constrói na maneira como cuidamos de nós mesmos e reconhecemos o valor daquilo que vivemos.

Vivemos em uma sociedade que nos estimula a buscar constantemente algo a mais: conquistas, reconhecimento, segurança e novas oportunidades. Estabelecemos objetivos e seguimos em direção ao futuro, muitas vezes acreditando que estaremos verdadeiramente bem quando alcançarmos aquilo que desejamos, mas, enquanto buscamos as condições ideais para viver bem, como estamos cuidando de nós mesmos durante o caminho?

Quantas vezes adiamos o descanso, negligenciamos nossas emoções e deixamos de valorizar experiências significativas porque estamos concentrados naquilo que ainda falta?

Essa reflexão nos conduz a um princípio fundamental da saúde integral: estar bem é uma prática diária; construir bem-estar é um processo que envolve a maneira como cuidamos de nós mesmos e nos relacionamos com a vida.

Estar bem não significa viver sem problemas ou experimentar felicidade o tempo inteiro. Significa desenvolver recursos para atravessar os desafios, reconhecer nossas necessidades, respeitar nossos limites e cultivar hábitos que favoreçam a qualidade de vida.

O bem-estar também está relacionado à forma como cuidamos do corpo, acolhemos as emoções, construímos vínculos e atribuímos significado às experiências. É nesse contexto que a gratidão ganha importância como exercício de consciência e autocuidado.

A Gratidão pode ser exercitada? 

A ciência tem investigado a relação entre práticas de gratidão e bem-estar psicológico.

Uma metanálise publicada em 2023 no International Journal of Applied Positive Psychology, que reuniu 25 estudos randomizados e 6.745 participantes, identificou efeitos positivos, em média pequenos, das intervenções de gratidão sobre o bem-estar psicológico.

Outra revisão, publicada em 2023 na revista einstein (São Paulo), também encontrou resultados favoráveis em indicadores relacionados à saúde mental e às emoções positivas, embora as evidências variem em qualidade e consistência.

Esses resultados não significam que a gratidão, isoladamente, previna ou trate todos os problemas emocionais. Indicam, porém, que ela pode ser uma ferramenta complementar de promoção do bem-estar, especialmente quando integrada a outros hábitos de autocuidado.

Ao reservarmos alguns minutos para reconhecer experiências positivas, atitudes de apoio e oportunidades de aprendizado, criamos espaço para uma percepção que muitas vezes fica encoberta pelas preocupações cotidianas.

A gratidão não exige que estejamos satisfeitos com tudo. Podemos reconhecer o que tem valor e, ao mesmo tempo, trabalhar para transformar aquilo que precisa melhorar.

Cuidar de si também é aprender a perceber o que nos fortalece, e não apenas aquilo que nos desgasta.

Uma conversa acolhedora, uma palavra de incentivo, uma refeição compartilhada ou um momento de tranquilidade podem passar despercebidos em meio às exigências da rotina.

Quando escrevemos sobre essas experiências, interrompemos por alguns instantes o automatismo do dia e procuramos compreender o que aconteceu e por que aquilo foi importante.

A escrita transforma uma percepção passageira em um registro concreto. Mais tarde, podemos retornar a essas palavras e recordar experiências que mereceram nossa atenção.

As pesquisas sobre gratidão investigam os benefícios potenciais de práticas como escrever, refletir e expressar reconhecimento. Isso não significa que escrever à mão seja necessariamente superior a digitar, nem que visualizar palavras produza uma transformação garantida no cérebro. O valor da prática está na oportunidade de direcionar a atenção e elaborar o significado das experiências.

Por isso, proponho um exercício simples: escrever pelo menos dois motivos pelos quais somos gratos ao final de cada dia.

Reserve de dois a cinco minutos e responda:

1. Pelo que sou grato hoje?

2. Que outra experiência, pessoa, oportunidade ou aprendizado merece meu reconhecimento?

Não é necessário escrever textos longos. Duas frases sinceras podem ser suficientes. Pode ser a presença de alguém querido, uma tarefa concluída, um aprendizado, um momento de descanso ou a coragem de enfrentar uma situação difícil.

Nos dias mais difíceis, não precisamos forçar uma visão positiva nem diminuir a importância do sofrimento. Podemos reconhecer a realidade e, quando for possível, identificar algum apoio recebido ou recurso que nos ajudou a atravessar aquele momento.

Experimente fazer esse exercício durante sete dias consecutivos. Ao final, releia os registros e observe quais aspectos da sua vida apareceram com maior frequência.

O objetivo não é preencher uma lista por obrigação, mas desenvolver o hábito de reconhecer o que tem significado.

A prática pode ganhar uma dimensão coletiva por meio da dinâmica da árvore da gratidão.

Imagine uma árvore na qual cada folha representa um motivo de agradecimento, um aprendizado ou uma experiência significativa.

As raízes simbolizam os valores e vínculos que nos sustentam; o tronco representa a consciência que desenvolvemos; os galhos correspondem às diferentes dimensões da vida, como saúde, família, amizades, trabalho e desenvolvimento pessoal. As folhas registram os motivos de gratidão identificados ao longo dos dias.

Para realizar a dinâmica, basta desenhar uma árvore em um cartaz ou construir uma representação com galhos e folhas de papel. Cada participante escreve algo pelo qual é grato e acrescenta sua folha à árvore.

A atividade pode ser realizada individualmente, em família, em escolas ou no ambiente corporativo. Em uma empresa, as folhas podem representar atitudes de colaboração e oportunidades de aprendizado. Em família, podem registrar momentos de convivência e demonstrações de carinho.

Com o tempo, a árvore se torna um registro visual daquilo que merece reconhecimento.

Assim como uma árvore precisa de raízes e condições para crescer, nosso bem-estar também depende de elementos que nem sempre aparecem nas conquistas: os vínculos, os aprendizados, os cuidados e as experiências que sustentam nossa trajetória.

A árvore da gratidão não representa uma vida perfeita. Representa uma vida observada com mais consciência.

Ser grato não significa aceitar tudo como está ou desistir de mudanças necessárias. Podemos agradecer por um emprego e buscar melhores condições profissionais; valorizar uma relação e estabelecer limites; reconhecer nossas conquistas e continuar aprendendo.

A gratidão não interrompe o movimento. Ela pode nos ajudar a seguir adiante sem condicionar toda a nossa satisfação à próxima conquista.

Na perspectiva da saúde integral, isso significa cuidar de quem somos enquanto trabalhamos para construir aquilo que desejamos ser. A gratidão é uma das práticas que podem contribuir para esse processo, sem substituir o cuidado físico, o acompanhamento profissional, as relações saudáveis ou as mudanças necessárias.

Talvez estejamos esperando que algo aconteça para finalmente nos sentirmos bem: uma conquista profissional, a resolução de um problema ou a concretização de um plano. Mas a vida também acontece durante a espera.

É no cotidiano que cuidamos do corpo, reconhecemos nossas emoções, fortalecemos nossos vínculos e desenvolvemos a consciência sobre aquilo que realmente importa.

Não precisamos esperar que tudo esteja perfeito para começar. Podemos iniciar com pequenas atitudes de autocuidado e reservar alguns minutos para reconhecer aquilo que merece gratidão.

Por isso, deixo um convite ao leitor: hoje, antes de encerrar o dia, escreva dois motivos pelos quais você é grato. Faça isso durante uma semana. Depois, releia seus registros e observe o que passou a perceber com mais atenção.

Talvez você descubra que algumas das experiências mais significativas da sua vida não estavam ausentes. Apenas não recebiam a atenção que mereciam.

Estar bem não significa ter uma vida sem dificuldades, mas aprender a cuidar de si diante da vida que se apresenta. E construir bem-estar é um exercício contínuo de consciência, cuidado e transformação.

Afinal, a gratidão não muda necessariamente aquilo que vivemos, mas pode ampliar a maneira como percebemos o que vivemos. E é nessa atenção cotidiana que começa uma parte importante do cuidado com a nossa saúde integral.

Referências científicas

Joelson Mora

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A lua da noite, meus pensamentos encontram consolo nela

Mohamed Rahal resgata a imortalidade do gênero Malhoun e revela como o mais famoso poema folclórico da Argélia ergueu-se como uma indestrutível fortaleza de identidade e resistência contra a opressão colonial

Mohamed Rahal
Mohamed Rahal
Fotografia em tom melancólico de um homem vestido com vestes tradicionais argelinas (burnous e turbante) sentado sobre um tapete no deserto ao anoitecer, contemplando uma grande lua cheia brilhante no céu estrelado. Ao lado dele, na terra, há um livro de couro antigo, uma pena de escrever e uma lanterna a óleo acesa. Ao fundo, vê-se a arquitetura de uma antiga vila de oásis com palmeiras e construções de terra.
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Um dos poemas folclóricos mais famosos da história do patrimônio cultural argelino, composto durante o período de resistência colonial (1830-1954).

O poema “A Lua da Noite, Meus Pensamentos Encontram Consolo Nela” é uma obra-prima da poesia folclórica argelina (gênero Malhoun).

Seus versos foram escritos pelo ícone da poesia beduína e Malhoun na região de Laghouat e no Grande Sul, o renomado poeta Abdullah bin Kriou (1871-1921). Ele o escreveu sobre uma história de amor que viveu com uma bela jovem chamada Fátima Jamila, da cidade de Laghouat, em 1898. Este poema é considerado uma obra-prima que expressa a dor da separação, a comunhão com a natureza e a preservação da identidade cultural diante das tentativas coloniais de apagamento.

Quem é o autor do poema? (Biografia do poeta) O autor do poema é o grande poeta Abdullah bin Kriou, nascido na cidade de Laghouat, no sul da Argélia. Ele cresceu em um ambiente erudito, memorizou o Alcorão Sagrado e trabalhou na magistratura e no ensino. Era conhecido como o “Príncipe da Poesia Popular Melhoun” nas regiões do Saara e das estepes. Sua poesia se distinguia pela alta eloquência linguística, apesar de utilizar o árabe coloquial (melhoun), e pelo uso de símbolos inspirados no ambiente beduíno, como a gazela, a corça, ruínas e a lua.

Ele escreveu o poema “Lua da Noite”, expressando sua angústia após a separação de sua amada Fatna. Encontrou consolo e companhia na solidão da noite, usando a lua como uma lente através da qual podia medir sua dor e suas antigas mágoas.

A Fama do Poema Através das Gerações

Este poema tornou-se imensamente popular durante esse período e perdurou através das gerações.

Transformou-se de um poema escrito em uma escola distinta de música dentro dos estilos beduíno e aissawa, e foi cantada por artistas proeminentes no século XX, principalmente:

O artista Khalifi Ahmed: Considerado o decano da música beduína, foi o primeiro a levar este poema à fama em todo o mundo árabe. Ele o interpretava com sua voz melodiosa e vocal único, típico do deserto, tornando-o a canção oficial pela qual o poema é conhecido internacionalmente.

O artista Lazhar Djellali: Uma das vozes tradicionais mais proeminentes que revitalizou o poema com um autêntico mawwal saariano e uma magnífica interpretação que preservou o tom de saudade e dor com que foi escrito.

Abdelhamid Ababsa e Rabah Driassa: Muitos gigantes da música popular e beduína imitaram e foram influenciados por trechos deste texto.

  • Poetas e folcloristas que o louvam: Dezenas de poetas e folcloristas o cantaram novamente em eventos populares, acompanhados pela qasba e pelo rabab, incluindo El Hadj Bainine e outros pioneiros da arte beduína no sul e oeste da Argélia.

Seu valor e papel no patrimônio folclórico argelino

O poema “Qamar al-Layl” (Lua da Noite) representa um modelo ideal da literatura malhun argelina, e seu valor patrimonial reside em:

  • Documentação do ambiente beduíno: O poema preservou o dialeto autêntico do sul da Argélia e empregou metáforas e símiles beduínos profundos (como o mirsam, al-alali, al-reem e al-hadhar).
  • A literatura de contemplação em meio às ruínas: Por meio dele, Ben Kriou reviveu o estilo árabe clássico de contemplação em meio às ruínas (estilo este que era obra do enganador), mas dentro de um contexto argelino acolhedor e local.
  • Memória Coletiva: Tornou-se um ponto de referência musical e artística estudado para a compreensão de maqams beduínos, como o “Sikah” e o “Hijaz”, no canto tradicional.

O Papel do Poema e a Poesia de Ben Kriou na Revolução de Resistência Argelina

Embora o poema pareça, à primeira vista, ser um poema de amor e uma obra sentimental, a poesia popular durante o período colonial francês — especialmente a poesia de Ibn Kriou — carregava dimensões de resistência, tanto implícitas quanto explícitas:

  1. O Simbolismo da Lua e da Escuridão: Os poetas usavam a “noite” como símbolo da ocupação que pesava sobre os corações dos argelinos, e a “lua da noite” representava a esperança, a libertação e o alívio iminente em meio à escuridão do colonialismo. O medo de que “algumas nuvens a cobrissem” simbolizava o medo da traição do colonizador e de seus colaboradores.
  2. A Arma da Identidade e da Resistência Cultural: A França travava uma guerra contra a língua árabe e tentava afrancesá-la. Os poemas de Malhun, como “Qamar al-Layl” (Lua da Noite), emergiram como uma fortaleza linguística e intelectual, protegendo a identidade islâmica argelina do apagamento e da alienação.
  3. O Desafio Político e a Difusão do Espírito Nacional: O poeta Abdullah bin Kriou não estava isolado da resistência. Ele liderou movimentos anticoloniais em Laghouat, o que levou os franceses a exilá-lo primeiro para Koléa e depois para Hassi Bahbah, devido às suas posições nacionalistas e à sua incitação à sociedade através de sua poesia.
  4. Inspirando a Resistência: O tom de paciência e perseverança do poema (Suporto a febre intensa, o que é a minha perseverança?) era recitado em assembleias públicas para incutir um espírito de firmeza e não-rendição diante da brutalidade da ocupação.

Letra do Poema

A lua da noite, meus pensamentos encontram consolo nela, encontro nela qualidades que agradam meu coração.

Ó buscador da minha amada, por que ela se parece comigo? Minhas noites insones são adoçadas por ela.

Passamos as noites contemplando-a, a próxima é uma história de advertência.

Temo que algumas nuvens a cubram, e se sua luz desaparecer, meu estado piorará.

Ó tu que perguntas sobre meu coração, o que o perturba? Com a gazela que cativou meu coração.

Ó tu que consolas meu coração, o que o curará? Onde está o remédio que se adequa aos meus males?

Meu fígado está prejudicado, e eu o escondo, suporto a febre intensa, qual é a minha resistência?

Este desenho, a enganadora estava lá, tingido com hena, ela o deixou vazio.

Ó tu que me enlouqueces, vim ao desenho para reclamar com ele, mas ele não me respondeu. Escuta minha pergunta:
O estúdio do meu amado, por que ele me deixou lá? Lembro-me do passado, ele dilacera meu coração

Minhas lágrimas correm pelo estúdio, choro por ele, os vestígios me despedaçaram quando surgiram diante de mim
As nuvens da saudade sempre cobrem minha mente, sua chuva bloqueou os picos das montanhas

Ó mensageiro, vá com minha resposta e entregue-a, que ela me alcance com uma mão gentil e venha até mim

Traga-me boas notícias, eu as quero, e mostre-as aos que passam entre nós

Você estendeu a veste do amor e a dobrou, e agora seu amor é novo para mim

Você rasgou meu coração com uma lâmina que o esmagou, o dia da sua partida me deixou como um louco

Sua imagem é claramente visível aos meus olhos, para onde quer que eu me vire, a encontro diante de mim

Confiei a você a chave do meu coração, você a perdeu, você fez meus dias e meu trabalho desaparecerem

(Abdullah bin Kriou)

Mohamed Rahal

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Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina

Prof. Dr. h. c. mult. Alexandre Rurikovich Carvalho 

Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina: Valorização do Patrimônio Cultural, da Memória Histórica e das Raízes do Povo Nordestino

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
GRANDE COMENDA HERANÇA E IDENTIDADE NORDESTINA: Valorização do Património Cultural, da Memória Histórica e das Raízes do Povo Nordestino“. À esquerda, foto do Prof. Dr.h.c. mult. Alexandre Rurikovich Carvalho vestido de jaleco branco e gravata, ao lado de uma pilha de livros e de uma medalha dourada com o brasão da comenda. Ao fundo e à direita, ilustrações da paisagem, arquitetura e cultura do Nordeste brasileiro. No rodapé surge a assinatura do Jornal Cultural ROL. Imagem gerada por IA

RESUMO 

O presente artigo aborda a instituição da Grande Comenda Herança e Identidade  Nordestina, uma distinção honorífica de natureza cultural, acadêmica e memorial,  concebida com a finalidade de reconhecer personalidades e instituições que  contribuem para a valorização, preservação, promoção e difusão do patrimônio  histórico, artístico, científico, literário, educacional e cultural da Região Nordeste do  Brasil. A proposta fundamenta-se na relevância histórica da região para a formação  da identidade nacional, considerando a diversidade de seus povos, as manifestações  culturais, os conhecimentos tradicionais, a produção intelectual e as contribuições de  seus artistas, escritores, pesquisadores, educadores e agentes culturais. A honraria  também contempla pessoas que, mesmo não sendo naturais do Nordeste, possuem  ascendência nordestina e preservam os vínculos históricos, familiares e culturais  com essa herança, bem como indivíduos de outras origens que tenham realizado  contribuições relevantes para a cultura regional. Busca-se, assim, fortalecer o  reconhecimento da diversidade cultural brasileira, promover o sentimento de  pertencimento e estimular a transmissão do legado nordestino às futuras gerações. 

Palavras-chave: Grande Comenda; Identidade nordestina; Patrimônio cultural;  Memória histórica; Cultura brasileira; FEBACLA.

1. INTRODUÇÃO 

A cultura de um povo constitui um dos elementos fundamentais de sua identidade  histórica e social. Por meio das tradições, dos costumes, da literatura, das artes, da  música, da religiosidade, dos conhecimentos populares e das manifestações  intelectuais, as sociedades preservam suas memórias e transmitem às novas  gerações os valores que contribuíram para sua formação. 

No contexto brasileiro, a Região Nordeste ocupa lugar de expressiva importância na  construção histórica, social, econômica e cultural do país. Seus nove estados  Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas,  Sergipe e Bahia, apresentam uma diversidade de paisagens, tradições, expressões  artísticas e experiências históricas que integram o patrimônio nacional. 

Reconhecer essa riqueza significa compreender que a identidade brasileira é  formada por múltiplas heranças regionais, construídas por diferentes povos e grupos  sociais, incluindo populações indígenas, africanas, europeias e suas diversas  interações históricas. Significa, igualmente, valorizar os protagonistas que  contribuíram e continuam contribuindo para a preservação e a renovação desse  patrimônio. 

É nesse contexto que se apresenta a Grande Comenda Herança e Identidade  Nordestina, concebida como uma distinção honorífica destinada a celebrar trajetórias  relevantes na promoção da cultura, da memória e do conhecimento relacionados ao  Nordeste brasileiro. 

A iniciativa, no âmbito da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras  e Artes (FEBACLA), pretende instituir um instrumento de reconhecimento cultural  capaz de aproximar artistas, escritores, acadêmicos, pesquisadores, educadores,  intelectuais, instituições e representantes das tradições populares. 

A proposta parte do entendimento de que a herança nordestina não se restringe aos  limites geográficos da região. Ela também permanece viva nas famílias que migraram  para outras partes do Brasil, nas comunidades formadas por seus descendentes e  nas pessoas que, independentemente de sua origem, dedicam-se à preservação e à  divulgação das tradições nordestinas. 

2. A IMPORTÂNCIA HISTÓRICA E CULTURAL DA REGIÃO NORDESTE 

A Região Nordeste possui trajetória histórica fundamental para a compreensão da  formação do Brasil. Foi um dos primeiros espaços de ocupação colonial portuguesa,  palco de importantes atividades econômicas, conflitos, movimentos sociais e  processos de transformação que influenciaram a organização do território e da  sociedade brasileira. 

Essa trajetória, entretanto, não pode ser compreendida apenas pela perspectiva da  colonização. A história nordestina também é marcada pela presença ancestral dos  povos indígenas, pela resistência das populações negras escravizadas e de seus  descendentes, pela formação de comunidades quilombolas, pela participação de  trabalhadores rurais e urbanos e pela atuação de diferentes grupos sociais na  construção da vida regional.

Ao longo dos séculos, essas experiências produziram um patrimônio cultural  diversificado, expresso na arquitetura histórica, nos centros urbanos, nos acervos  documentais, nas manifestações religiosas, nas festas populares, na culinária, no  artesanato, na música, na dança e na literatura. 

Entre as expressões que contribuem para a projeção cultural do Nordeste destacam se a literatura de cordel, o repente, o frevo, o maracatu, as festas juninas, as matrizes  tradicionais do forró, o bumba meu boi e as diversas manifestações culturais  presentes nos diferentes estados. 

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconhece a  relevância de expressões como a literatura de cordel e as matrizes tradicionais do  forró, evidenciando a importância desses saberes para a memória coletiva e para a  continuidade das tradições brasileiras. 

A literatura de cordel, por exemplo, reúne poesia, narrativa, oralidade e artes  gráficas, constituindo uma forma de expressão que registra acontecimentos,  personagens, valores, críticas sociais e aspectos do cotidiano. O forró, por sua vez,  articula música, dança, sociabilidade e experiências compartilhadas entre diferentes  gerações. 

Essas manifestações demonstram que o patrimônio cultural não se limita a  monumentos e edificações. Ele também compreende conhecimentos, práticas,  celebrações e modos de fazer transmitidos e recriados pelas comunidades ao longo  do tempo. 

A diversidade nordestina deve ser reconhecida sem simplificações ou estereótipos.  O Nordeste não se resume ao sertão, à seca ou a determinadas imagens folclóricas.  Trata-se de uma região plural, com metrópoles, áreas litorâneas, zonas rurais,  centros de pesquisa, universidades, polos industriais, manifestações artísticas  contemporâneas e comunidades que preservam tradições ancestrais. 

Valorizar essa complexidade é reconhecer a contribuição nordestina para a formação  da cultura brasileira e para o desenvolvimento do pensamento, das artes, da ciência,  da educação e da vida nacional. 

3. A INSTITUIÇÃO DA GRANDE COMENDA HERANÇA E IDENTIDADE  NORDESTINA 

A Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina é concebida como uma  distinção honorífica de natureza cultural, acadêmica e memorial, destinada a  reconhecer pessoas e instituições cujas trajetórias demonstrem contribuição  relevante para a valorização do patrimônio e da identidade cultural do Nordeste  brasileiro. 

Sua denominação reúne dois conceitos complementares. 

A palavra herança representa o conjunto de referências históricas, culturais,  familiares, artísticas e intelectuais transmitidas entre gerações. Compreende os  saberes, as tradições, os documentos, as obras, as memórias e as experiências que  ajudam a explicar a formação de uma comunidade.

A palavra identidade expressa os vínculos de pertencimento, a consciência  histórica, a diversidade de manifestações culturais e os elementos que permitem às  pessoas reconhecerem sua ligação com determinada tradição ou comunidade. 

A união desses conceitos traduz a finalidade da comenda: reconhecer aqueles que  preservam, valorizam, estudam, divulgam e mantêm viva a herança cultural  nordestina. 

A proposta encontra fundamento nos princípios estabelecidos pela Constituição  Federal de 1988, especialmente nos artigos 215 e 216, que tratam dos direitos  culturais e do patrimônio cultural brasileiro. Esses dispositivos reconhecem a  importância das formas de expressão, dos modos de criar, fazer e viver e das  referências que constituem a identidade e a memória dos diferentes grupos  formadores da sociedade brasileira. 

A comenda, nesse sentido, apresenta-se como uma iniciativa de reconhecimento  honorífico e incentivo simbólico à valorização cultural, sem substituir as políticas  públicas de preservação patrimonial nem os instrumentos oficiais de registro e  proteção dos bens culturais. 

Seu lema institucional é: 

“Raízes que nos definem, cultura que nos une, legado que nos eterniza.” 

A frase sintetiza o propósito da distinção: reconhecer as raízes históricas, promover a  união por meio da cultura e assegurar que as contribuições das gerações presentes  permaneçam como referência para o futuro. 

4. SIMBOLOGIA E IDENTIDADE VISUAL DA GRANDE COMENDA HERANÇA E  IDENTIDADE NORDESTINA 

A identidade visual da Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina foi  concebida para representar, por meio de elementos simbólicos, a riqueza histórica, a  diversidade cultural e a força das tradições que caracterizam a Região Nordeste do  Brasil. Sua composição artística reúne referências à paisagem, à memória, às  expressões populares e ao patrimônio cultural nordestino, conferindo à honraria uma  identidade própria e uma apresentação solene, compatível com sua finalidade  honorífica. 

Entre os principais elementos representativos da Comenda, destacam-se: 

I – O Sol: símbolo de luz, vitalidade, esperança e renovação, representa a força da  natureza nordestina, a perseverança de seu povo e a continuidade das tradições  transmitidas entre gerações. 

II – O Mandacaru: planta emblemática da Caatinga, simboliza a resistência, a  capacidade de adaptação, a perseverança e a relação histórica entre as  comunidades nordestinas e seu ambiente natural. 

III – Os elementos da xilogravura: inspirados especialmente na tradição gráfica  associada à literatura de cordel, representam a criatividade popular, a oralidade, a  expressão artística e a preservação das narrativas que registram a história, os  costumes e as experiências do povo nordestino.

IV – Os motivos do artesanato tradicional: representados por formas, ornamentos  e referências às técnicas artesanais regionais, evocam a habilidade dos mestres  artesãos, a transmissão dos saberes tradicionais e a continuidade das práticas  culturais que integram o patrimônio imaterial da região. 

V – As nove estrelas: dispostas na composição da medalha, simbolizam os nove  estados que integram a Região Nordeste — Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do  Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Representam a união na  diversidade, a pluralidade das identidades estaduais e a contribuição conjunta  desses territórios para a formação cultural brasileira. 

VI – O mapa da Região Nordeste: representa a unidade territorial e a abrangência  regional da honraria, reafirmando seu compromisso com a valorização da história,  das tradições e das manifestações culturais dos nove estados nordestinos. 

VII – As referências à paisagem, à arquitetura e às manifestações populares: elementos visuais que evocam o sertão, a vegetação da Caatinga, as construções  históricas, o litoral e as expressões artísticas regionais, ressaltando a diversidade  geográfica, histórica e cultural do Nordeste brasileiro. 

4.1. As cores institucionais 

A composição cromática da Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina  fundamenta-se na combinação de dourado, azul e tons terrosos, escolhidos para  conferir harmonia visual, distinção e solenidade à condecoração. 

O dourado representa a nobreza simbólica do reconhecimento, o mérito, a  valorização das realizações e a permanência do legado cultural. 

O azul transmite serenidade, confiança e continuidade, evocando também o céu e as  águas que integram as paisagens nordestinas. 

Os tons terrosos remetem à terra, à Caatinga, às paisagens do sertão, à cerâmica, à  madeira e a outras matérias-primas tradicionalmente utilizadas nas expressões  artesanais da região. 

A integração dessas cores confere à medalha uma apresentação visual marcante,  articulando elementos naturais, históricos e artísticos em uma composição de caráter  honorífico. 

4.2. A medalha como representação da memória e da identidade  regional 

A medalha da Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina constitui uma  representação simbólica dos princípios que orientam a honraria. Sua composição  procura reunir, em um único conjunto visual, referências à resistência, à criatividade,  à memória histórica, à diversidade cultural e à continuidade das tradições  nordestinas.

A presença dos símbolos regionais não se destina apenas à ornamentação da peça,  mas à expressão dos valores culturais que fundamentam a distinção. Cada elemento  contribui para comunicar a importância da preservação do patrimônio, do  reconhecimento das trajetórias individuais e coletivas e da transmissão dos saberes  às futuras gerações. 

Dessa forma, a identidade visual da Comenda reafirma seu compromisso com a  valorização do Nordeste brasileiro e com o reconhecimento daqueles que  contribuem para preservar e difundir sua herança cultural. 

A medalha torna-se, assim, um emblema de reconhecimento e memória, destinado a  representar o vínculo entre as raízes históricas, a diversidade cultural e o legado que  as gerações presentes têm a responsabilidade de transmitir ao futuro. 

5. FINALIDADES E IMPORTÂNCIA DA HONRARIA 

A instituição da Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina possui  finalidades que ultrapassam a entrega de uma medalha ou de um diploma honorífico.  Sua proposta é estimular o reconhecimento público de trajetórias que contribuam  para a continuidade da memória e da cultura nordestinas. 

Entre suas principais finalidades, destacam-se: 

• I – Valorizar o patrimônio cultural: reconhecer iniciativas voltadas à  preservação de bens materiais e imateriais, documentos históricos, acervos,  monumentos, tradições e referências culturais. 

• II – Reconhecer o mérito intelectual: homenagear escritores, poetas,  pesquisadores, historiadores, filósofos, cientistas e acadêmicos que  contribuam para o desenvolvimento do conhecimento relacionado ao  Nordeste. 

• III – Celebrar a produção artística: distinguir artistas plásticos, músicos,  compositores, atores, cineastas, artesãos, fotógrafos e outros profissionais que  promovam a cultura regional. 

• IV – Incentivar a educação e a pesquisa: reconhecer professores,  educadores, instituições de ensino, pesquisadores e projetos dedicados ao  estudo da história, das tradições e das manifestações culturais nordestinas. 

• V – Valorizar a cultura popular: prestigiar mestres e mestras dos saberes  tradicionais, cordelistas, repentistas, músicos populares, grupos folclóricos e  representantes das comunidades culturais. 

• VI – Preservar a memória das famílias nordestinas: reconhecer pessoas  que mantêm vivas as histórias, as tradições, os costumes e os vínculos  culturais transmitidos por seus antepassados. 

• VII – Fortalecer a identidade regional: estimular o conhecimento e o  respeito pela diversidade cultural dos nove estados nordestinos. 

• VIII – Promover o intercâmbio cultural: aproximar personalidades e  instituições de diferentes regiões do Brasil que desenvolvam atividades  relacionadas à cultura nordestina. 

• IX – Estimular a transmissão intergeracional: incentivar iniciativas que  aproximem crianças, jovens, adultos e idosos na preservação dos  conhecimentos e das tradições.

• X – Combater preconceitos e estereótipos: contribuir para o  reconhecimento da dignidade, da diversidade, da criatividade e das  realizações históricas e contemporâneas do povo nordestino. 

A relevância da honraria está, portanto, na possibilidade de transformar o  reconhecimento individual em uma oportunidade de divulgação cultural e de  fortalecimento da memória coletiva. 

Cada personalidade homenageada poderá representar uma trajetória que merece  ser documentada, estudada e compartilhada, contribuindo para ampliar o  conhecimento público sobre a diversidade do patrimônio nordestino. 

6. QUEM PODERÁ RECEBER A GRANDE COMENDA? 

A Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina poderá contemplar pessoas de  diferentes áreas profissionais e culturais, desde que atendam aos critérios  estabelecidos pela instituição responsável pela honraria. 

A naturalidade nordestina não deverá constituir requisito obrigatório, uma vez que a  contribuição cultural pode ultrapassar fronteiras geográficas e familiares. 

Poderão ser indicados, entre outros: 

1. Escritores, poetas, cordelistas e autores de obras relacionadas à cultura  nordestina. 

2. Artistas plásticos, músicos, compositores, intérpretes, atores e produtores  culturais. 

3. Professores, educadores, pesquisadores, historiadores, cientistas e  intelectuais. 

4. Acadêmicos e membros de academias, institutos históricos, centros culturais  e entidades literárias. 

5. Mestres e mestras da cultura popular, artesãos, repentistas e representantes  das tradições regionais. 

6. Jornalistas, comunicadores, documentaristas e profissionais que contribuam  para a divulgação da história e da cultura do Nordeste. 

7. Gestores culturais e representantes de instituições que desenvolvam projetos  relevantes de preservação e promoção cultural. 

8. Pessoas que mantenham e transmitam as tradições familiares nordestinas às  novas gerações. 

9. Descendentes de nordestinos que preservem, valorizem ou divulguem a  herança cultural de seus antepassados. 

10.Personalidades de outras regiões do Brasil ou de outros países que tenham  realizado contribuições significativas para o reconhecimento e a difusão da  cultura nordestina. 

A indicação deverá considerar a trajetória do candidato, a relevância de suas  contribuições, o vínculo de suas atividades com os objetivos da comenda e a  documentação disponível para fundamentar o reconhecimento.

A distinção poderá contemplar tanto personalidades consagradas quanto pessoas  cuja atuação, embora desenvolvida em comunidades locais ou em espaços de menor  visibilidade pública, apresente mérito cultural e histórico. 

A análise das indicações deverá observar critérios de idoneidade, pertinência  cultural, relevância da contribuição e coerência com as finalidades institucionais da  honraria. 

7. O RECONHECIMENTO DOS DESCENDENTES DE NORDESTINOS 

Um dos aspectos relevantes da Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina é  a possibilidade de reconhecer pessoas que, mesmo nascidas fora da Região  Nordeste, descendem de famílias nordestinas e mantêm vínculos significativos com  essa herança. 

A história brasileira é marcada por movimentos migratórios internos que levaram  milhões de pessoas a estabelecer residência em outras regiões do país. Essas  mudanças contribuíram para a formação de comunidades, famílias e redes culturais  que preservam tradições de suas regiões de origem. 

Os descendentes de nordestinos podem manter vínculos com a cultura ancestral por  meio da culinária, da música, da literatura, das celebrações familiares, da  religiosidade, das histórias transmitidas pelos mais velhos, da preservação de  documentos e fotografias e da participação em associações e movimentos culturais. 

Em muitos casos, essas pessoas desempenham papel fundamental na continuidade  de tradições que poderiam perder visibilidade com o passar do tempo. Ao registrar  histórias familiares, organizar encontros culturais, divulgar manifestações artísticas e  transmitir conhecimentos aos filhos e netos, contribuem para a permanência da  memória regional. 

A experiência migratória também pode produzir novas formas de expressão cultural,  nas quais tradições nordestinas dialogam com os costumes das regiões de destino.  Essa interação não elimina necessariamente a identidade de origem; pode, ao  contrário, ampliar suas formas de manifestação e divulgação. 

A candidatura de descendentes de nordestinos à comenda poderá, portanto, ser  fundamentada em duas dimensões complementares: a existência de vínculos  familiares ou ancestrais com a região e a contribuição efetiva para a preservação,  valorização ou difusão dessa herança. 

A ascendência, por si só, poderá constituir elemento de contextualização da trajetória  do indicado, mas não deverá ser confundida automaticamente com mérito honorífico.  A concessão deverá observar os critérios definidos no regulamento da distinção,  valorizando a participação cultural, a preservação da memória e a contribuição  compatível com suas finalidades. 

Da mesma forma, pessoas sem ascendência nordestina poderão ser reconhecidas  quando demonstrarem contribuição relevante para o estudo, a preservação, a  promoção ou a difusão da cultura da região.

Essa perspectiva amplia o alcance da comenda e reafirma que a herança cultural  pode ser preservada tanto por vínculos familiares quanto pelo compromisso  intelectual, artístico, educacional e comunitário. 

8. A ABRANGÊNCIA NACIONAL DA COMENDA 

Embora esteja dedicada à Região Nordeste, a Grande Comenda Herança e  Identidade Nordestina poderá alcançar personalidades residentes em qualquer  estado brasileiro ou no exterior. 

Essa abrangência decorre do próprio caráter dinâmico da cultura. As tradições não  permanecem restritas aos locais em que se originaram: são levadas por pessoas,  reinterpretadas por novas gerações e compartilhadas em diferentes contextos  sociais. 

A música nordestina, a literatura de cordel, as festas populares, a culinária e outras  expressões culturais integram a vida de comunidades espalhadas pelo território  nacional e também alcançam públicos internacionais. 

O reconhecimento de personalidades que atuam fora do Nordeste poderá evidenciar  a importância das comunidades migrantes e de seus descendentes na preservação  da memória regional. 

Ao mesmo tempo, a participação de pessoas de diferentes origens poderá estimular  o intercâmbio cultural e ampliar o respeito pela pluralidade brasileira. 

A abrangência nacional não deve, entretanto, diluir a identidade específica da  honraria. Sua finalidade central continuará sendo reconhecer contribuições  vinculadas à herança, à memória e à identidade cultural nordestinas. 

9. CRITÉRIOS PARA INDICAÇÃO E CONCESSÃO 

Para assegurar a transparência, a coerência e a credibilidade institucional da Grande  Comenda Herança e Identidade Nordestina, os critérios e procedimentos para sua  concessão serão regulamentados pelo Decreto Acadêmico nº 01019.27/2026, datado de 19 de outubro de 2026, que institui a referida Comenda no âmbito da  Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA. 

O referido Decreto estabelecerá as disposições relativas: 

• Aos objetivos, à natureza e às finalidades honoríficas da distinção; • Às categorias ou áreas de reconhecimento; 

• Aos requisitos para indicação de pessoas físicas e instituições; • À documentação necessária para a análise das indicações; 

• Aos procedimentos de avaliação, apreciação e aprovação das candidaturas; • Aos mecanismos de registro histórico e documental das personalidades e  instituições agraciadas. 

As indicações poderão ser apresentadas por instituições culturais, academias,  associações, membros da comunidade acadêmica e demais representantes  autorizados, observadas as disposições estabelecidas no Decreto Acadêmico e nas  normas institucionais aplicáveis.

A apreciação das indicações deverá considerar a trajetória do indicado, a relevância  de suas realizações e a compatibilidade de suas contribuições com os objetivos e as  finalidades da honraria. Para subsidiar a análise, poderão ser apresentados currículo,  biografia, relação de obras publicadas, registros de projetos culturais, certificados,  publicações, documentos comprobatórios e outros elementos pertinentes. 

A observância das normas estabelecidas no Decreto Acadêmico nº 01019.27/2026  contribuirá para a uniformidade dos procedimentos, a legitimidade institucional e a  preservação do significado honorífico da Grande Comenda Herança e Identidade  Nordestina. 

Por fim, a divulgação pública da honraria deverá identificar claramente sua natureza  cultural, acadêmica e honorífica, bem como a instituição responsável por sua  concessão, distinguindo-a de títulos acadêmicos formais, de honrarias oficiais  concedidas pelos poderes públicos e de atos estatais de reconhecimento ou registro  do patrimônio cultural. 

10. A CONTRIBUIÇÃO DA FEBACLA PARA A VALORIZAÇÃO CULTURAL 

A Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), no  âmbito de suas atividades culturais e acadêmicas, poderá utilizar a Grande Comenda  Herança e Identidade Nordestina como instrumento de reconhecimento de trajetórias  dedicadas à produção intelectual, à criação artística, à pesquisa histórica e à  preservação das tradições. 

A proposta dialoga com a valorização das Ciências, das Letras e das Artes,  estimulando o reconhecimento de pessoas que contribuem para o conhecimento da  história regional e para a continuidade de suas expressões culturais. 

A iniciativa também poderá favorecer a aproximação entre academias, institutos  históricos, universidades, escritores, artistas, pesquisadores e organizações culturais  de diferentes estados brasileiros. 

Além da entrega da honraria, a FEBACLA poderá incentivar a produção de  biografias, entrevistas, registros documentais, encontros culturais e publicações  sobre os homenageados e suas contribuições. 

Essas ações permitiriam que a distinção assumisse uma dimensão memorial,  contribuindo para documentar trajetórias individuais e coletivas e para ampliar o  acesso às referências culturais do Nordeste. 

O desenvolvimento dessas atividades deverá observar a capacidade institucional, os  objetivos definidos e as normas internas aplicáveis, de modo que o reconhecimento  honorífico esteja associado a iniciativas concretas de valorização do conhecimento e  da memória.

11. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A instituição da Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina representa uma  proposta de valorização da memória histórica, do patrimônio cultural e das  contribuições intelectuais, artísticas e sociais relacionadas à Região Nordeste do  Brasil. 

Ao reconhecer personalidades e instituições que se dedicam à preservação e à  divulgação desse legado, a honraria pretende estimular o respeito à diversidade  cultural e fortalecer a transmissão de conhecimentos entre gerações. 

Sua abrangência permite contemplar pessoas naturais do Nordeste, descendentes  de famílias nordestinas e indivíduos de outras origens que contribuam efetivamente  para a valorização da cultura regional. Essa abertura reconhece que a identidade  cultural pode ser preservada por meio da ancestralidade, da convivência, do estudo,  da criação artística e do compromisso com a memória coletiva. 

A comenda também oferece uma oportunidade para valorizar agentes culturais cuja  atuação ocorre em comunidades locais, muitas vezes distantes dos grandes centros  de divulgação, mas cuja contribuição é fundamental para a continuidade de  tradições, saberes e práticas culturais. 

Para consolidar sua credibilidade, será importante estabelecer critérios de  concessão transparentes, manter registros das personalidades agraciadas e  estimular ações de divulgação e preservação cultural vinculadas às finalidades  institucionais da distinção. 

A Grande Comenda Herança e Identidade Nordestina pretende, assim, afirmar que a  cultura constitui um patrimônio vivo, construído pela experiência dos povos e  renovado pelas gerações que recebem, preservam e reinterpretam suas heranças. 

Mais do que celebrar o passado, a iniciativa busca reconhecer aqueles que mantêm  viva a memória e contribuem para a construção do futuro cultural brasileiro. 

Seu lema sintetiza essa missão: 

“Raízes que nos definem, cultura que nos une, legado que nos eterniza.” 

Por meio dessa proposta, a FEBACLA poderá contribuir para ampliar o  reconhecimento das riquezas culturais do Nordeste, celebrando a diversidade de  suas expressões e a importância daqueles que trabalham para que esse patrimônio  continue presente na história e na identidade do Brasil. 

REFERÊNCIAS 

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de  1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2026]. Disponível em:  https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 19  out. 2026.

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN).  Frevo. Bem Brasileiro: Bens Culturais Registrados. Brasília, DF: IPHAN, [2026].  Disponível em: https://bcr.iphan.gov.br/bens-culturais/frevo/. Acesso em: 19 out.  2026. 

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN).  Patrimônio Imaterial. Brasília, DF: IPHAN, [2026]. Disponível em:  https://www.gov.br/iphan/pt-br/patrimonio-cultural/patrimonio-imaterial. Acesso em:  19 out. 2026. 

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN).  Registro da Literatura de Cordel como Patrimônio Cultural do Brasil. Brasília, DF:  IPHAN, [2026]. Disponível em: https://bcr.iphan.gov.br/acoes-de-salvaguarda/registro da-literatura-de-cordel-como-patrimonio-cultural-do-brasil/. Acesso em: 19 out. 2026. 

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN).  Registro das Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Cultural do Brasil.  Brasília, DF: IPHAN, [2026]. Disponível em: https://bcr.iphan.gov.br/acoes-de 

salvaguarda/registro-das-matrizes-tradicionais-do-forro-como-patrimonio-cultural-do brasil/. Acesso em: 19 out. 2026.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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Pingos sujos a sujarem o oceano da humanidade

Diamantino Bártolo faz uma profunda reflexão filosófica sobre o papel da ciência e a urgência ética na defesa dos Direitos Humanos diante dos desafios da sociedade moderna

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
Fotografia realista de uma praça à beira-mar durante o pôr do sol, onde pessoas de diferentes idades interagem ao redor de um monumento central com um grande livro aberto da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Descrição detalhada:
Imagem em plano geral de uma praça de calçada de pedra à beira do oceano, banhada pela luz suave do pôr do sol.
 * Centro: No centro da praça, sobre um pedestal de pedra com uma placa explicativa, destaca-se um grande livro aberto estilizado como monumento, com o título “Declaração Universal dos Direitos Humanos” visível em suas páginas. Ao lado da base, há uma placa informativa com a inscrição “Praça do Conhecimento Compartilhado - Ciência Aberta Para Todos”.
 * Lado Esquerdo: Uma mulher idosa sentada em um banco de madeira conversa com uma jovem garota. Ao lado delas, um grupo de jovens e um homem mais velho observam um notebook exibindo gráficos coloridos. Ao fundo, no muro, há um painel pintado.
 * Lado Direito: Dois homens, um idoso e um mais jovem, conversam perto de um painel de exposição com o título “Ciência Aberta e Sociedade”. Próximo a eles, outros jovens conversam.
 * Fundo: Ao fundo, vê-se a orla com uma mureta de proteção, pessoas caminhando, o oceano calmo com pequenas embarcações e um farol ao longe no horizonte sob um céu levemente nublado iluminado pelo sol nascente ou poente.
Se precisar de uma versão mais resumida para redes sociais ou campos com limite de caracteres, basta avisar!
https://gemini.google.com/share/bf074abb46a6?social_preview=false&skid=8eec3e1a-bc6e-45e5-8a21-252ae5c84110

Preocupar-se-á a ciência com as questões da cidadania, da solidariedade, dos Direitos Humanos e com outros valores universais? Ou pelo contrário, tais assuntos não interessam à ciência em geral e aos cientistas em particular? Nesta perspectiva parece-me que a questão é pertinente porque vivemos numa sociedade difícil, complexa, em busca da satisfação pessoal, a multiplicação de experiências, a exploração do negativo, do espetacular, do sensacional, do escandaloso, o que estará a conduzir para uma desmoralização da vida pública, com reflexos na vida política, principalmente nos mais jovens, que se relaciona com a tentativa, sistematicamente organizada de, se não eliminar, pelo menos substituir os conteúdos morais e éticos, substantivos, valores orientadores, devidamente ajustados à prática.

Ao decidir realizar esta breve, insuficiente e deficiente investigação sobre a necessidade imperiosa de desencadear os mecanismos legais/académicos de sensibilização das consciências para o cumprimento dos Direitos Humanos, precisamente no âmbito da Epistemologia, tinha a indicação das dificuldades que iria encontrar, contudo: enquanto cidadão, no pleno exercício dos seus deveres e direitos; como eterno aprendiz de filósofo, tenho, igualmente, o dever de refletir sobre estes temas.

Podemos abordar a problemática dos Direitos do Homem, a partir de várias possibilidades: estratégicas, metodológicas ou mesmo teleológicas, contudo, numa forma simples e clara, parece-me pertinente invocar a máxima: «Todos os Seres Humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.» (ONU: Declaração Universal dos Direitos do Homem, Artº 1º) e: «Não se deve perder a fé na humanidade: a humanidade é um oceano limpo e um par de pingos sujos não sujam o oceano.» (GANDHI).

A próxima comemoração do 78º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem (10 Dezembro 1948) infelizmente com o recrudescimento de conflitos e fundamentalismos éticos e religiosos, deve constituir real incentivo e preocupação para que as problemáticas dos Direitos (e Deveres) Humanos, comecem a ser tratados com o devido e merecido discernimento e seriedade que merecem; estando sabido que hoje, ainda que, possivelmente, menos que ontem, os Direitos Humanos que abarcam um conjunto muito vasto das dimensões da vida humana, continuam a ser tratados como “boas intenções”, concretamente: por interesses económicos ou burocracias instaladas; por ditaduras e repressões políticas e religiosas.

A manifesta irrelevância com que os Direitos Humanos são invocados é, cada vez mais, alvo de denúncia por parte das Organizações Não Governamentais, do olhar indiscreto dos Média, dos biliões de pessoas que sentem a miséria, o analfabetismo, a intolerância, a discriminação, a violência e a guerra. Neste aniversário, quantos milhões de crianças, idosos e marginalizados estão a passar fome, sabendo-se que algumas Organizações pagam para não se produzir alimentos, para se controlar as matérias-primas, com o objetivo de se criarem condições para que a especulação tenha o caminho mais livre?

Por outro lado, novos desafios apareceram: eutanásia, tráfico de órgãos, clonagem, degradação e delapidação do meio ambiente, até mesmo o processo de globalização das economias. A subordinação dos cidadãos ao poder da força bélica dos que “querem, podem e mandam”, pode verificar-se em todos os cantos do mundo. Os Relatórios da Amnistia Internacional, das Organizações Não Governamentais e denúncias dramáticas da própria Igreja Católica, são a prova insofismável de que ainda “há muitos pingos sujos a sujarem o oceano da humanidade” que se pretende livre, justa, digna e pacífica!

BIBLIOGRAFIA.

GANDHI MAHATMA, (1869-1948) líder pacifista indiano. Principal personalidade da independência da Índia, então colônia britânica, ganhou destaque na luta contra os ingleses por meio de seu projeto de não-violência. (Grande defensor dos Direitos Humanos

ONU-ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (1948) Declaração Universal dos Direitos do Homem, Lisboa: Amnistia Internacional, Secção Portuguesa, 1998;

Bibliografia geral

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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