Nasci Homem em Corpo de Mulher

Por Bento Jamba Kawaya Tchongolola — Receção crítica da obra ‘Nasci Homem em Corpo de Mulher’ de Seth Marcelo, analisando seus contrastes sociais e desafios editoriais

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Título: Nasci Homem em Corpo de Mulher / Autor: Seth Marcelo; / Editora: Alexa Cultural; / Local de publicação: Embu das Artes, São Paulo, Brasil; Nº de páginas: 179; / País: Brasil. / Autor da receção crítica: Bento Jamba Kawaya Tchongolola. / Nacionalidade: Angolana

Apresentação e apreciação geral

Nasci Homem em Corpo de Mulher, de Seth Marcelo, é uma obra que convida à reflexão sobre questões sociais, políticas e humanas, apresentando situações que remetem para a realidade angolana. Através de personagens com nomes nacionais, o autor aborda dificuldades sociais, desigualdades e relações de poder, oferecendo ao leitor motivos para questionar a sociedade em que vive.

O título desperta curiosidade e cria expectativas sobre o conteúdo. Contudo, a ligação entre ambos não se torna evidente desde o início, demorando a revelar-se ao longo da leitura. Essa distância entre o título e a narrativa pode levar alguns leitores a questionar o rumo da obra. A capa também carece de ser revista, pois, na minha perspetiva, a imagem escolhida não representa claramente o conteúdo narrado. Além disso, o nome do autor não recebe o destaque necessário, podendo passar despercebido. Uma apresentação visual mais adequada poderia despertar maior interesse e valorizar a obra.

Conteúdo e relevância social

Ao longo da narrativa, destaca-se o trajeto do Mwangolé, tendo Tchipopi como personagem principal. A história apresenta as dificuldades que a vida lhe impõe e a forma como estas influenciam o seu percurso. Tchipopi casa-se primeiro com Teresa e posteriormente, com Liz. As relações entre as personagens apresentam diferentes situações da vida, incluindo desafios pessoais e familiares. A obra procura mostrar que, perante as adversidades é possível encontrar formas de mudança e transformação.

Um dos aspetos mais interessantes do livro é a sua capacidade de aproximar o leitor da realidade angolana. Inicialmente, nem sempre é fácil identificar o contexto nacional da narrativa; porém, quando surgem expressões características da linguagem angolana, a leitura torna-se mais familiar e desperta maior interesse. A obra aborda situações que muitos angolanos reconhecem no quotidiano, criando uma sensação de identificação e acolhimento. É como se alguém que nunca conhecemos pessoalmente compreendesse dificuldades que fazem parte da nossa experiência. Esta proximidade constitui uma das qualidades mais relevantes da narrativa.

Entre os temas abordados encontram-se o neocolonialismo, a desigualdade, a escassez, a religião e as relações entre poder e verdade. Algumas passagens apresentam reflexões de carácter filosófico, levando o leitor a questionar a realidade, o comportamento social e a importância de observar antes de falar. A narrativa também permite refletir sobre a forma como a falta de poder pode limitar a voz de determinadas pessoas, cujas verdades nem sempre recebem a devida atenção. Nesse sentido, o livro pode funcionar como um alerta para problemas sociais e políticos que continuam presentes na sociedade angolana. Apesar destas qualidades, considero que a narrativa perde força à medida que avança.

Os assuntos que mais despertam a minha atenção encontram-se sobretudo no início, enquanto algumas partes posteriores se tornam previsíveis para quem acompanha de perto a realidade do país. A repetição de questões políticas e sociais já amplamente discutidas pode diminuir o interesse e tornar a leitura menos envolvente.

Estrutura narrativa e aspectos editoriais

A organização do texto constitui um dos pontos que poderiam ser melhorados. A narrativa desenvolve-se continuamente, sem capítulos titulados ou divisões claramente identificadas. Embora essa possa ter sido uma opção do autor, a ausência de pausas estruturais torna a leitura, em determinados momentos, monótona e pode levar o leitor a perder o interesse. A divisão em capítulos, com títulos adequados, permitiria organizar melhor as ideias e tornar a leitura mais dinâmica.

No domínio da revisão textual, identifiquei algumas falhas que merecem atenção. Nas páginas 77 e 78, existem problemas relacionados com a escrita e a acentuação. Na página 80, há um aspeto de pontuação a corrigir. Na página 160, a palavra «alembamento» aparece escrita incorretamente, devendo ser «alambamento», sem por de parte as páginas 59, 156, 157 , 169 e 174;. Estes exemplos evidenciam a necessidade de uma revisão ortográfica e gramatical mais rigorosa. Outro problema recorrente é o espaçamento duplo entre palavras, observado em grande parte das páginas. Essa irregularidade prejudica a uniformidade visual e demonstra a necessidade de maior cuidado na composição gráfica. A parte final da obra também merece atenção, pois o tipo de letra utilizado na conclusão dificulta a leitura e compromete a apresentação do conteúdo.

A informação biográfica e bibliográfica do autor poderia igualmente ser melhor organizada. Considero que seria mais adequado reservar uma página exclusiva para apresentar as obras de Seth Marcelo, separando-as da biografia.

Dessa forma, os seus livros teriam maior visibilidade e não correriam o risco de passar despercebidos aos leitores interessados. A própria apresentação da biografia poderia ser mais impactante, valorizando melhor o percurso do autor.

Em síntese, Nasci Homem em Corpo de Mulher, apresenta reflexões relevantes sobre a realidade social e política angolana. Destaca-se pela proximidade que estabelece com o leitor e pela abordagem de questões que merecem ser discutidas. A capacidade de despertar identificação e questionamento constitui um dos seus principais méritos. Desta feita, a obra beneficiaria de uma estrutura narrativa mais organizada, de uma revisão textual rigorosa e de melhorias na apresentação gráfica.

A capa, o espaçamento entre palavras, a tipografia da conclusão e a organização da informação sobre o autor são aspetos que merecem ser revistos. A minha apreciação é, portanto, equilibrada: reconheço o valor social e reflexivo da obra, mas considero que existem aspetos narrativos e editoriais que poderiam ser melhorados. Uma maior atenção a esses elementos contribuiria para uma leitura mais fluida, organizada e significativa, permitindo que as ideias do autor chegassem ao leitor com maior clareza e impacto.

Bento Jamba Kawaya Tchongolola

Bento Jamba Kawaya Tchongolola, natural do Município do Lobito e residente no município de Cacuaco, Angola, é bacharel em Filosofia da Religião no Seminário Católico de Benguela (secção Filosófico) e licenciado em Ciências da Educação, na especialidade de Psicologia no Instituto Superior Politécnico de Kangonjo de Angola, Província do Icolo e Bengo,

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O escrever

Milton Gaspar Domingos:
Uma jornada sobre como a arte e o conhecimento transformam o vazio em liberdade e dão voz ao silêncio da alma

Um jovem com cabelo escuro encaracolado e sardas está sentado a uma secretária de madeira, profundamente concentrado a pintar num caderno de esboços. A luz do sol entra por uma janela à direita, iluminando o espaço com uma luz quente e acolhedora. Ele está a pintar uma borboleta com um forte contraste: a asa esquerda é feita de traços pretos e caóticos a carvão ou lápis, enquanto a asa direita é vibrante, pintada com aguarelas e funde-se com flores coloridas. Uma linha que se assemelha a um batimento cardíaco atravessa a parte inferior do desenho. A mesa à sua volta está repleta de materiais de arte, incluindo uma paleta de aguarelas suja de tinta, copos com pincéis, aparas de lápis e vários papéis soltos com esboços geométricos e formas.
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Mais do que pintar o caderno é,
é ver o mundo como ninguém vê
é dar vida, também realidade
ao desejo, e à necessidade

Sim, é aprender no divertimento
Exteriorizar o pensamento
é criar do nada, sim, do vazio
Atender o espírito que em mim crio

É libertar-se, sim, da ignorância
luz ter, livrar-se da inconsciência
É transformar os feios em bonitos

sentir no coração o batimento
É do mudismo não permanecer,
do grito silencioso viver.

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).

Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.

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Entre o caminho e quem nos tornamos

Nicole Menezes Martins tece uma crônica sensível e profunda sobre as pressões do futuro, o luto das expectativas e a coragem de recomeçar

Logótipo do "Jovens Talentos - Jornal Cultural ROL". Na parte superior, vê-se a silhueta de um grupo de jovens a comemorar com os braços erguidos sob o texto "Jovens Talentos". Abaixo, lê-se "Jornal Cultural" em letras azuis e "ROL" em destaque com um símbolo laranja à esquerda.
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Existe uma inquietação silenciosa em tentar construir uma vida que faça sentido. Queremos saber para onde estamos indo, ter alguma ideia do que desejamos encontrar e acreditar que as escolhas de hoje nos aproximam de algo que vale a pena. Então traçamos planos, estabelecemos metas e imaginamos quem seremos quando finalmente chegarmos lá. Talvez precisemos disso. Afinal, é difícil caminhar sem alguma direção. Mas existe uma diferença entre saber para onde queremos ir e acreditar que precisamos chegar exatamente ao lugar que imaginamos.

Em algum momento, podemos começar a viver como se o futuro fosse uma promessa que precisamos cumprir. O presente passa a ser uma espécie de passagem, um intervalo entre aquilo que somos e aquilo que esperamos nos tornar. Adiamos a tranquilidade até resolver determinado problema, a felicidade até alcançar certa conquista, a sensação de que estamos vivendo até que a vida finalmente se pareça com o que planejamos. E, sem perceber, transformamos os dias em etapas de uma jornada cujo destino parece sempre um pouco mais distante. Mas, se estamos constantemente esperando chegar a algum lugar para começar a viver, em que momento a vida acontece?

Talvez seja por isso que desejamos tanto ter certeza de nossas escolhas. Não queremos apenas um caminho; queremos a garantia de que ele vale o esforço, de que as renúncias terão significado e de que, no fim, não descobriremos que passamos anos tentando chegar a um lugar que já não desejávamos. Só que a vida não costuma oferecer esse tipo de garantia. Escolhemos com o entendimento que temos, a partir de desejos que ainda estão se formando, sem conhecer todas as pessoas que seremos ao longo do percurso. Há coisas que só aprendemos depois de vivê-las, e há caminhos que só conseguimos compreender quando já estamos longe o suficiente para olhar para trás.

Isso não significa que devemos abandonar nossos planos ou viver sem qualquer compromisso com o futuro. Ter uma direção pode nos ajudar a atravessar períodos de incerteza, assim como uma estrada nos permite seguir mesmo quando não conhecemos tudo o que existe adiante. A questão talvez esteja em como nos relacionamos com essa direção. Podemos caminhar em direção a algo sem exigir que cada passo confirme a escolha inicial. Podemos desejar profundamente uma coisa e, ainda assim, permanecer abertos à possibilidade de que a vida nos apresente algo que não sabíamos desejar. Afinal, se não somos os mesmos ao longo do tempo, por que esperar que todos os nossos desejos permaneçam intactos?

Às vezes, o que nos prende a um caminho não é mais o desejo de chegar ao destino, mas a dificuldade de admitir que já não queremos chegar lá. Investimos tempo, energia e partes de nós mesmos naquela escolha. Contamos aos outros sobre ela, imaginamos nosso futuro a partir dela e, aos poucos, começamos a confundir aquilo que decidimos fazer com aquilo que somos. Mudar de ideia, então, parece significar mais do que alterar um plano: parece colocar em dúvida a pessoa que fomos quando o escolhemos. E talvez seja por isso que algumas pessoas continuem perseguindo uma vida que já não reconhecem como sua. Não porque ainda a desejem, mas porque não sabem o que fazer com tudo o que construíram ao redor dela.

Existe uma espécie de luto nas mudanças que não envolvem uma perda visível. É preciso se despedir de futuros que imaginamos, de versões de nós mesmos que acreditávamos que um dia existiriam, de possibilidades às quais dedicamos tempo sem saber se algum dia se realizariam. Nem toda escolha abandonada foi um erro. Algumas fizeram sentido durante anos e cumpriram seu papel, mesmo que já não tenham lugar no presente. Outras talvez tenham deixado de fazer sentido muito antes de termos coragem de reconhecê-lo. Como saber a diferença? Talvez não exista uma resposta que sirva para todas as situações. Mas vale a pena perguntar se continuamos caminhando porque ainda existe algo vivo naquele desejo ou porque temos medo de descobrir quem seríamos sem ele.

Também é possível se perder tentando evitar qualquer arrependimento. Se permanecer em um caminho pode nos afastar de quem estamos nos tornando, mudar constantemente pode nos impedir de construir qualquer coisa com profundidade. Nem toda dificuldade é um sinal de que escolhemos errado, assim como nem toda vontade de partir significa que precisamos ficar. Há momentos em que precisamos sustentar uma escolha mesmo sem entusiasmo, atravessar a incerteza e aceitar que algumas coisas só ganham forma com o tempo. Em outros, precisamos reconhecer que insistir já não é um gesto de coragem, mas uma maneira de não encarar o que mudou. Talvez a liberdade não esteja em poder abandonar tudo a qualquer momento, mas em conseguir olhar para as próprias escolhas com honestidade, sem transformá-las em prisões nem tratá-las como descartáveis.

O tempo torna tudo isso mais delicado. Enquanto vivemos, raramente sabemos com clareza o significado de uma experiência. Há encontros que parecem passageiros e permanecem conosco por anos; há objetivos que, depois de alcançados, perdem o brilho que tinham em nossa imaginação. Só mais tarde compreendemos o que certas experiências nos ensinaram, o que precisou terminar e o que levamos conosco sem perceber. Isso não torna o passado inútil, nem significa que deveríamos ter feito tudo de outra maneira. Significa apenas que a compreensão também muda, e que talvez não possamos avaliar uma vida inteira a partir daquilo que conseguimos enxergar em um único momento dela.

Talvez construir uma vida com sentido seja menos parecido com executar um projeto e mais parecido com aprender a caminhar por uma paisagem que nunca se revela por completo. Precisamos escolher uma direção, mas também prestar atenção ao que existe ao redor; reconhecer quando vale a pena continuar e quando estamos apenas tentando justificar o caminho percorrido. Podemos ter ambições sem fazer do presente um obstáculo, desejar mudanças sem desprezar o que já temos e sentir gratidão pela vida que existe hoje sem perder a vontade de transformá-la. Uma coisa não precisa anular a outra.

No fim, talvez não seja necessário encontrar uma única resposta para o que estamos fazendo da vida. Podemos construir sentidos ao longo do caminho, por meio do que escolhemos cultivar, das pessoas com quem compartilhamos o tempo e da atenção que dedicamos àquilo que, de outra forma, passaria despercebido. Isso não elimina a incerteza. Continuaremos sem saber se algumas escolhas nos levarão ao lugar que imaginamos, se nossos desejos permanecerão os mesmos ou se, um dia, olharemos para trás e enxergaremos tudo de uma maneira diferente. Mas talvez viver não exija que saibamos antecipadamente o significado de cada passo.

Podemos escolher um caminho sem precisar prometer que nunca o deixaremos. Podemos nos comprometer com aquilo que importa hoje sem exigir que o amanhã repita nossas certezas. E podemos mudar sem tratar tudo o que veio antes como um desperdício. Talvez a questão não seja encontrar o caminho perfeito, mas aprender a perceber quando estamos realmente vivendo aquele que escolhemos.

Se a vida que você está construindo hoje deixar de fazer sentido para quem você se tornar amanhã, o que fará você permanecer: o desejo de continuar ou o medo de recomeçar?

Nicole Menezes Martins

Nicole Menezes Martins, aluna do 3º ano do ensino médio do curso técnico com ênfase em Administração de Empresas da Etec de Novo Horizonte (SP), é orientanda do professor clayton Alexandre Zocarato.

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Estamos sozinhos?

Mistério no Triângulo Mineiro: Sônia Gomes cruza as fronteiras da ficção e da realidade com envolvente suspense infantojuvenil que desafia os segredos do universo

Cartaz de divulgação do lançamento do livro ‘Estamos Sozinhos?’, da autora Sônia Gomes.

A escritora, professora e revisora uberlandense Sônia Gomes lança o seu mais novo livro, ‘Estamos sozinhos?‘, sob o selo da Editora Baru. O evento de lançamento acontecerá na Diocese Sociocultural de Uberlândia, no dia 30 de outubro, às 19h, reunindo os amantes da literatura, jovens leitores e entusiastas dos grandes mistérios cósmicos.

Sinopse: Entre a Aventura e o Inexplicável

‘Estamos Sozinhos?‘ é uma narrativa magnética voltada para o público infantojuvenil que levanta um dos questionamentos mais antigos e fascinantes da humanidade: a existência de vida extraterrestre. Diferente das ficções comuns, a obra é baseada em uma história real, relatando várias situações de avistamentos e contatos imediatos que desafiam a nossa lógica e nos deixam constantemente em dúvida.

A trama ganha vida quando um grupo de adolescentes se reúne para celebrar o aniversário de Celina, uma amiga em comum. Para injetar uma dose de adrenalina e suspense na noite, a jovem Quina decide entrar em uma mata fechada para investigar uma misteriosa luz que viram caindo do céu. Afinal, seres de outro mundo realmente existem?

Serviço

Título: Estamos Sozinhos? (2026)

Autora: Sônia Gomes | @soniagomes.escritora

Editora: Baru

Gênero: Aventura, suspense e ficção científica

Indicação: adolescentes, jovens e adultos.

ISBN: 9 786597 637805

Nº páginas: 178

Valor: R$ 59,90

Contato e venda: Editora Baru (34) 99905-1203 www.editorabaru.com.br

Sobre a autora: Uma Trajetória de Excelência

Sônia Gomes

Natural de Uberlândia (MG), Sônia Gomes é graduada em Letras pela UFU/MG (2011) e pós-graduada em Linguística (2015). Além do novo lançamento, é autora de “Fragmentos de um Despertar” (2021) e “40 Poemas escolhidos pelo autor” – Coletânea Poetas por Excelência (2024), acumulando participações em 14 antologias literárias e colaborações para a Revista Autorretratos.

Sua imensa contribuição à cultura levou-a a ocupar cadeiras de destaque internacional. Em 2024, tornou-se membro fundador da Academia Mineira de Belas Artes (AMBA-BH) e da Academia de Ciências, Artes e Letras de Saquarema (RJ), onde ocupa a cadeira nº 54, sob o patronato de Clarice Lispector. É também associada ao Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Portugal (NALAP) e, desde 2025, atua como diretora e membro fundadora da Academia de Letras de Uberlândia, ocupando a cadeira nº 03, dedicada a Cecília Meireles.

Sua prateleira ostenta honrarias internacionais e nacionais de peso recebidas em 2024, como o título de Chanceler Honorário das Artes (London International Prize of Arts pela Editora Mágico de Oz), o Prêmio O Homem Vitruviano (Vale do Loire, França), o prêmio Personalidades do Ano (Lisboa, Portugal), além dos troféus Minas Gerais de Saberes, Fernando Pessoa e Prêmio Carioca de Excelência Artística. É ainda detentora de comendas de prestígio, incluindo as condecorações em homenagem a Florbela Espanca e Evita Perón.

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A promessa de qualquer caminho

Um conto sensível sobre a liberdade, a história e o cotidiano, inspirado na canção ‘Any Way You Want It’ (1980) do Journey – por Clayton Alexandre Zocarato

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Naquela noite, a música atravessou a janela como se soubesse o seu caminho. Vinha do rádio pequeno, de antena torta, apoiado sobre a geladeira, e ocupava a cozinha com uma confiança que ninguém ali possuía. “Any Way You Want It”, dizia o título, e para a menina sentada junto à mesa aquelas palavras pareciam menos uma promessa de amor do que uma ordem dirigida ao futuro: escolha, mova-se, seja.

Lá fora, o bairro seguia escuro, com seus postes falhando e seus portões fechados; dentro de casa, porém, o refrão abria uma estrada que não constava nos mapas. Ela não sabia ainda que toda liberdade cantada tem uma fronteira, nem que o desejo de escolher pode conviver com estruturas que escolhem por nós. Sabia apenas que a guitarra fazia o mundo parecer maior do que a sala.

Era o começo dos anos 1980, e o mundo parecia oscilar entre a promessa e o medo. Nos Estados Unidos, a eleição de Ronald Reagan, em 1980, anunciava uma década de conservadorismo político e de valorização do mercado; a Guerra Fria continuava a organizar o imaginário, como uma sombra extensa projetada sobre qualquer esperança de paz. 

A inflação, o desemprego e as tensões internacionais faziam da estabilidade uma palavra desejada e, para muitos, distante. Ao mesmo tempo, as rádios difundiam canções que falavam de movimento, prazer, juventude, escolha. 

O rock oferecia uma sensação de desobediência que cabia num disco, numa jaqueta de couro, numa noite de dança. A liberdade parecia estar ali, na voz que não pedia licença para existir. Mas o som não apagava as desigualdades; apenas lhes dava, por alguns minutos, uma trilha sonora.

No Brasil, a esperança tinha outro peso. A ditadura militar ainda não havia terminado, embora a abertura política estivesse em curso, marcada por avanços, recuos e disputas. A censura deixara cicatrizes nas palavras, e a vida pública era atravessada pela cautela: havia frases interrompidas antes de chegar à mesa, notícias escutadas com atenção, silêncios que os adultos chamavam de prudência. 

A menina percebia esse clima sem conhecer seus nomes. Via no rosto da mãe a preocupação com as contas, no pai a raiva contida diante das notícias, nos vizinhos a conversa que mudava de rumo quando alguém se aproximava. A canção estrangeira, com sua energia luminosa, chegava como uma fresta. Não explicava o país, mas fazia imaginar um lugar onde o corpo pudesse decidir o próprio passo.

“Any way you want it”: de qualquer jeito que você quiser. Naquela frase curta, ela ouvia uma espécie de utopia pessoal. Não a liberdade dos discursos oficiais, feita de palavras solenes, mas uma liberdade miúda: poder escolher uma roupa, atravessar a rua sem medo, gostar de alguém sem pedir autorização ao mundo inteiro. 

O futuro, para ela, não era uma teoria; tinha a forma de uma cidade vista de longe, com luzes acesas e portas abertas. Mais tarde, aprenderia que a frase também podia ser lida como produto: a escolha oferecida pelo mercado, limitada às opções que alguém já preparou. Herbert Marcuse havia advertido que uma sociedade pode absorver a contestação e transformar o desejo de liberdade em consumo, oferecendo satisfações que não alteram as estruturas da vida (MARCUSE, 1964). Mas naquela cozinha ninguém discutia teoria. A música começava, e a menina dançava.

Ela dançava sem técnica, com os braços abertos e os pés descalços, como se pudesse desatar os nós que os adultos carregavam nos ombros. A mãe fingia que estava ocupada com a louça, embora sorrisse quando pensava que ninguém via. O pai, sentado perto da porta, acompanhava o ritmo com os dedos sobre o joelho.

Por instantes, os três eram menos uma família apertada por dificuldades do que três pessoas dividindo uma possibilidade. A canção não os libertava do aluguel, da instabilidade nem da história política que avançava por cima das suas vidas. Ainda assim, fazia alguma coisa importante: devolvia-lhes a percepção de que eram mais do que suas obrigações.

Michel Foucault escreveu sobre as formas pelas quais o poder atravessa os gestos cotidianos, moldando comportamentos e definindo o que parece possível (FOUCAULT, 1979). 

Talvez por isso dançar fosse também um gesto de resistência: não porque derrubasse o poder, mas porque recusava, por um momento, ser reduzida ao medo.

Na escola, a liberdade tinha outro vocabulário. Era uma palavra presente nos livros e ausente de certas conversas. Os professores falavam de datas, governos e civismo; alguns, porém, encontravam maneiras discretas de ensinar a fazer perguntas. A menina ainda não compreendia a dimensão política de uma pergunta bem colocada. Sabia apenas que havia respostas que pareciam prontas demais e que a realidade, quando observada com cuidado, nunca cabia inteira nelas. Em casa, os adultos falavam de mudança. A campanha pelas Diretas Já, em 1984, levaria multidões às ruas em defesa do voto direto para presidente; em 1985, o regime militar chegaria ao fim, e a Constituição de 1988 afirmaria novos direitos.

Os acontecimentos pareciam grandes demais para uma criança, mas ela os reconhecia no tom das conversas, na emoção de quem voltava das manifestações, no modo como a palavra “amanhã” começava a ser pronunciada com menos desconfiança.

A música continuou acompanhando os anos, sem pertencer inteiramente a eles. Reaparecia em festas, em rádios de carros e em lembranças inesperadas. A menina cresceu, mudou de bairro, estudou, trabalhou, amou e aprendeu que a vida não oferece escolhas em condições iguais. Para alguns, o caminho se abre com facilidade; para outros, cada porta exige uma prova de resistência.

A ideia de que basta desejar para conseguir pode ser cruel quando transforma obstáculos sociais em falhas individuais. O desejo, contudo, não se torna inútil por isso. Ele pode iluminar a distância entre o mundo existente e aquele que ainda precisa ser construído. A liberdade não é só fazer o que se quer: é também dispor de condições reais para escolher, participar e existir sem que a pobreza, a discriminação ou a violência decidam tudo de antemão.

Quando chegou o novo século, a promessa de escolha mudou de cenário. A vitrine já não ficava apenas nas lojas: cabia numa tela, cabia na palma da mão. As pessoas passaram a apresentar versões editadas de si mesmas, reunindo imagens, opiniões e pequenas provas de felicidade. 

O mercado aprendeu a falar a língua da autonomia: compre, personalize, expresse-se. A tecnologia aproximou vozes e encurtou distâncias, mas também tornou a atenção uma mercadoria disputada e a intimidade uma superfície exposta. A escolha parecia infinita; o tempo, cada vez menor. Zygmunt Bauman descreveu uma modernidade em que vínculos e certezas se tornam mais frágeis, enquanto os indivíduos são pressionados a administrar sozinhos os riscos de uma vida instável (BAUMAN, 2000). 

A velha utopia da canção permanecia, mas agora ecoava entre notificações, comparações e a ansiedade de estar sempre disponível.

A mulher que um dia dançara na cozinha observava esse presente com uma mistura de curiosidade e cansaço. Via jovens capazes de falar publicamente sobre direitos que sua geração aprendera a discutir com cautela. Via também discursos de ódio se espalharem com a velocidade de um clique e a desigualdade persistir sob formas que pareciam novas, embora carregassem histórias antigas. 

Pensava que a liberdade de expressão não significava que todas as vozes fossem igualmente ouvidas; a liberdade de escolher não anulava as barreiras que limitam certas escolhas; a liberdade de circular não era igual para todos. O sociólogo e filósofo não precisavam estar ao seu lado para que ela percebesse o problema. Bastava olhar para as ruas, para as diferenças entre os bairros, para quem podia errar sem perder tudo e para quem era punido por simplesmente ocupar espaço.

Em algumas noites, ela voltava a pôr a canção. O som tinha agora uma textura de memória: a guitarra parecia vir de muito longe, e a voz, de uma parte de si que não envelhecera por completo. Já não escutava a promessa como uma garantia de que tudo seria possível. 

Escutava-a como desejo, e talvez o desejo fosse mais honesto do que a promessa. Marcuse ajudava a pensar que uma sociedade verdadeiramente livre não se contentaria em oferecer prazer como mercadoria; precisaria transformar as condições que produzem a necessidade e a opressão. Paulo Freire, por sua vez, lembrava que ninguém se emancipa sozinho nem recebe a liberdade como presente: ela se aprende na relação com os outros, na leitura crítica do mundo e na ação coletiva (FREIRE, 1996).

A canção não dizia isso em palavras. Mas podia acompanhar esse pensamento, como uma luz que não revela tudo e, mesmo assim, impede a escuridão de parecer natural.

Talvez por isso a menina, agora adulta, tenha compreendido que a utopia não é uma fotografia de um futuro perfeito. É uma tensão dentro do presente, uma recusa a aceitar que as coisas devam permanecer como estão.

A liberdade cantada pelo Journey tinha o brilho de uma juventude que queria mover-se sem pedir desculpas; vista de hoje, ela também revela os limites de uma cultura que tantas vezes confunde autonomia com consumo e felicidade com desempenho. Não era preciso condenar a canção por isso. A música não tinha obrigação de oferecer um programa político. Bastava reconhecer o que ela despertara: a sensação de que a vida não precisava ser apenas repetição, de que o corpo podia desejar mais do que lhe haviam permitido imaginar.

Na última vez em que dançou ao som do rádio, a mulher percebeu que o gesto já não era o mesmo. Seus joelhos reclamavam, a cozinha tinha outras marcas, e muitas pessoas queridas já não estavam ali. Ainda assim, quando a guitarra tomou o espaço, alguma coisa se abriu.

Não era a mesma porta de antes; era uma porta construída com memória, lucidez e um pouco de coragem. Do lado de fora, o mundo continuava desigual, cheio de ruídos e promessas não cumpridas. Do lado de dentro, por alguns minutos, ela voltou a sentir que podia escolher o próximo passo. Não qualquer passo, nem em qualquer condição, mas um passo seu, consciente de que a liberdade individual depende também da liberdade dos outros.

Quando a música terminou, o silêncio não pareceu uma derrota. A mulher desligou o rádio e permaneceu imóvel por um instante, escutando a noite. Pensou nos anos 1980, na esperança política que saíra às ruas, no medo que ainda sobrevivia dentro das casas e na energia de uma canção que cruzara oceanos para pousar numa cozinha brasileira. Pensou também no presente, que oferece ferramentas novas sem resolver as antigas injustiças. 

Talvez nenhuma geração receba a liberdade pronta. Talvez cada uma precise reconhecê-la, disputá-la e ampliá-la, sem confundir uma promessa sonora com a realidade inteira. 

Do outro lado da janela, uma luz se acendeu. A vida continuava, imperfeita e aberta, e nela ainda cabia a possibilidade de escolher, junto com os outros, um caminho menos estreito.

Clayton Alexandre Zocarato

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Meu quintal de infância

Sergio Diniz da Costa descreve uma emocionante viagem no tempo pelas memórias, cores e aromas de sua meninice

Sergio Diniz da Costa
Sergio Diniz da Costa
Uma criança alegre descalça num quintal simples com uma grande mangueira de mangas-rosa, um tanque de lavar roupa com brinquedos flutuantes, horta e a entrada de um porão de tijolos.
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Cansado de ser gente grande (que peso!)
decidi virar menino (que alívio!)
Entrei na máquina do tempo, que tem
na minha cabeça, vesti meu calção surrado
desentoquei a camisa pra lá de velha
e fui parar no quintal da infância

Ainda estavam lá a velha mangueira de manga rosa,
os pé de couve, árvores das formiga que
subiam e desciam, indo e vindo do murundum,
o tanque de lavar roupa cheinho de água,
lago onde meus indiozinhos nadavam.

Entrei no porão, ainda rezando pra não encontrá
a Manjaléu*, pavorenta que só ela queria ser
e também rezando pra encontrá os gibi que lá escondia,
feito tesouro que as traça analfabeta não comiam.

Triiiiiimmmmmmmmm!
Ih! O despertador da imaginação soou!
É hora de dar no pé, porque o jardim tá se indo
E o menino tem que voltá pra ser gente grande!

Manjaléu: Bicho-papão ou monstro: Um ser imaginário, frequentemente usado no folclore para assustar ou amedrontar crianças. É também o nome de uma famosa lenda da cultura popular brasileira, recolhida por Sílvio Romero, sobre um monstro invulnerável.

Poema da antologia Manoel de Barros – O Poeta das Miudezas, coorganizado por Verônica Moreira e Sergio Diniz da Costa, 2026

Sergio Diniz da Costa

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Como poderiam saber…

Uma sensível e perspicaz contestação das verdades absolutas da ciência diante da soberania do sentimento humano

Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
Fotografia realista num formato panorâmico que mostra um casal numa varanda à noite. À esquerda, um homem de cabelo escuro e casaco verde-escuro olha com carinho para uma mulher. À direita, a mulher, com um vestido branco e cabelo ondulado, sorri suavemente, envolvida por uma aura luminosa e brilhante como uma estrela. A varanda está decorada com luzes quentes e plantas. Ao fundo, vê-se o horizonte da cidade sob um céu noturno estrelado com a lua crescente.
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“A estrela mais próxima da Terra é o Sol.”

Mas como poderiam sabê-lo os astrônomos?

Pois, para mim, a estrela mais próxima

É minha amada — ela é a estrela na varanda.

“A era mais longa foi a Idade da Pedra.”

Mas como poderiam sabê-lo os historiadores?

Pois, para mim, a era mais longa

É o tempo em que esperei por você.

“A coisa mais difícil é conhecer a si mesmo.”

Mas como poderiam sabê-lo os filósofos?

Pois, para mim, a coisa mais difícil

É perder você.

“1 + 1 = 2.”

Mas como poderiam sabê-lo os matemáticos?

Que você e eu somos uma só alma.

…Ah, Quanta esperança deposito nas pessoas,

Quantos sonhos espero delas

Nem mesmo os eruditos conseguem me compreender,

Muito menos os tolos.

Bakhtiyar Hasanov

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