Chove chuva, chove sem parar…

Sergio Diniz da Costa: ‘Chove chuva, chove sem parar…’

Sergio Diniz
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Imagem criada por IA do Grok - 30 de janeiro de 2026, às 10:38 PM - https://grok.com/imagine/post/0e286cf9-8e77-4b8b-8990-1c5ead7c2f48
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Final de tarde e o tempo já estava fechado, ameaçando cair outro toró, como já ocorrera no dia anterior. No entanto, sair com guarda-chuva na rua, enquanto ainda não está chovendo, é esquecê-lo no primeiro momento em que ambas as mãos estiverem vazias. Pelo menos para mim!

Eu estava, portanto, desguardachuvado, quando o céu resolveu cair sobre toda a cidade.

Relativamente longe do meu carro ─ onde o ‘tal’ se encontrava, ali inútil, tanto quanto uma roupa de mergulho num deserto ─, não me restou alternativa, senão me abrigar embaixo de uma marquise. E, comigo, aos poucos, mais a cidade inteira. Também, aos poucos, as muitas reclamações sobre as chuvas em excesso.

Sem muitas opções, enquanto esperava o tempo se recompor ─ e as pessoas, também! ─, detive-me a ouvir, discretamente, alguns comentários. Um em especial: um jovem, visivelmente apaixonado, cheio de cuidados com a bela e delicada namorada.

Pelo que deu para perceber, logo mais eles iriam a uma grande festa e ela tinha acabado de sair de um salão de beleza, onde passara horas ‘dando um trato’ no cabelo e, em contrapartida, tendo um maltrato nos bolsos.

Aquela chuva, digna de um novo Dilúvio, por conseguinte, se mostrava o suprassumo, a apoteose de todos os azares.

Enquanto chovia torrencialmente fora da marquise, sob ela a moça também começou a molhar, agora, os ombros do namorado que, visivelmente aflito, não sabia o que fazer, a fim de mitigar aquele sofrimento feminino.

Confesso que me compadeci da situação. E, dando asas à imaginação, vi naquele jovem um outro, um carioca de 18 anos, de nome Jorge Duílio Lima Meneses que, naquela situação, apelaria à chuva e a Deus: ‘Chove Chuva/ Chove sem parar…/ Pois eu vou fazer uma prece/ Prá Deus, nosso Senhor/ Prá chuva parar/ De molhar o meu divino amor…/ Que é muito lindo/ É mais que o infinito/ É puro e belo/ Inocente como a flor…/ Por favor, chuva ruim/ Não molhe mais/ O meu amor assim…’

Infelizmente, porém, sob aquela marquise, não estava ali o nosso querido Jorge Duílio, ou melhor, para o grande público, Jorge Ben* (posteriormente, Jorge Bem Jor), um guitarrista, cantor e compositor que, antes de enveredar pela música, queria ser jogador de futebol e chegou a integrar o time infanto-juvenil do Flamengo, mas, em tendo a música no sangue, seguiu a carreira e vem caminhando pelas trilhas do rock and roll, samba, samba rock, bossa nova, jazz, maracatu, funk, ska e até mesmo hip hop, com letras que misturam humor e sátira, além de temas esotéricos e de trazer influências árabes e africanas, oriundas de sua mãe, nascida na Etiópia.

Sua biografia aponta, ainda, que ele ganhou seu primeiro pandeiro aos treze anos de idade e, dois anos depois, já cantava no coro da igreja. Também participava como tocador de pandeiro em blocos de carnaval. Aos dezoito, ganhou um violão de sua mãe e começou a se apresentar em festas e boates, tocando bossa nova e rock and roll.

No início dos anos 60, apresentou-se no Beco das Garrafas, que se tornou um dos redutos da bossa nova. Em 1963, ele subiu no palco e cantou ‘Mas que Nada’, uma das canções em língua portuguesa mais executadas nos Estados Unidos até hoje, na versão do pianista brasileiro Sérgio Mendes com o grupo de hip hop norte-americano Black Eyed Peas.

Em 1968, foi convidado para o programa Divino, Maravilhoso que Caetano Veloso e Gilberto Gil faziam na Tupi. Participou, também, de O Fino da Bossa (comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues) e da Jovem Guarda (de Roberto Carlos). Nessa época, obteve enorme sucesso com ‘Cadê Tereza?’, ‘País Tropical’, ‘Que Pena’ e ‘Que Maravilha’, além de concorrer com ‘Charles, Anjo 45’ no Festival Internacional da Canção, da TV Globo, em 1969.

Na década de 1970, venceria este festival com ‘Fio Maravilha’, interpretado por Maria Alcina. ‘País Tropical’ também teve êxito, na voz de Wilson Simonal. Ainda nos anos 70, Jorge Ben lançou álbuns mais esotéricos e experimentais, como ‘A Tábua de Esmeralda’ (1974), ‘Solta o Pavão’ (1975) e ‘África Brasil’ (1976). Embora não tenham obtido sucesso comercial, estes álbuns são considerados clássicos da música brasileira.

Não, debaixo daquela marquise não estava o inspirado Jorge Ben, mas tão somente um desconsolado jovem apaixonado, para o qual aquela chuva ruim, repentina e solidariamente, deu trégua e, assim como para a namorada, parou de molhar a todos nós.

Sergio Diniz da Costa

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Encontrando um ex-aluno bagunceiro

Clayton Alexandre Zocarato

‘Encontrando um ex-aluno bagunceiro, que foi criando responsabilidade’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagemcriada  por IA do Grok - 27 de janeiro de 2026, às 09h27 
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O tempo é um professor silencioso. Não grita, não aplica advertências, não escreve bilhetes na agenda.

Ele apenas passa — e, ao passar, ensina. Eu aprendi isso numa manhã comum, dessas que não prometem revelações, mas acabam entregando epifanias embrulhadas em simplicidade.

Estava na fila de uma padaria, observando o vapor do café subir como pensamentos indecisos, quando ouvi meu nome ser chamado com uma familiaridade quase insolente:

— Professor?

Virei-me devagar, como quem abre um livro antigo esperando encontrar rabiscos conhecidos. E encontrei. Ali estava ele: Lucas.

Ou melhor, o que restava do menino que um dia ocupou as últimas carteiras da sala, como se aquele espaço fosse um território sem lei.

Lucas, o bagunceiro.

O mesmo que transformava lápis em projéteis, risadas em epidemias e silêncio em desafio. O menino que parecia travar uma guerra pessoal contra regras, horários e qualquer tentativa de ordem. 

Naquela época, ele era como um vento inquieto: impossível de conter, difícil de compreender.

Mas o homem à minha frente não carregava mais o vendaval nos olhos.

— Sou eu, professor… o Lucas.

O nome caiu no chão entre nós como uma chave antiga, abrindo portas enferrujadas da memória. Vi, por um instante, a sala de aula reaparecer: o quadro manchado de giz, o relógio lento na parede, os colegas rindo enquanto eu tentava ensinar que palavras também tinham peso e direção.

— Eu reconheci o senhor na hora — ele continuou. — O jeito de observar as coisas… o senhor sempre olhava como se estivesse escutando o mundo.

Sorri. Nunca pensei que alguém notasse isso.

Lucas agora vestia uma camisa simples, mas bem passada. Havia algo novo em sua postura: os ombros firmes, o olhar atento, o corpo presente no próprio lugar.

A bagunça havia saído dele — ou talvez tivesse aprendido a se organizar por dentro.

Sentamo-nos. O café chegou. O silêncio entre nós não era constrangido; era reflexivo, como um intervalo entre dois parágrafos importantes.

— Eu era difícil, né? — ele disse, mexendo o açúcar com cuidado excessivo, como quem não quer derramar nada.

Difícil não. Inacabado, pensei. Mas respondi apenas:

— Você estava em construção.

Lucas riu. Um riso mais curto, mais contido. Um riso adulto.

— Eu não entendia isso naquela época. Achava que responsabilidade era uma prisão. Hoje vejo que era uma estrada.

Aquela frase ficou suspensa no ar, como poeira iluminada pelo sol.

Estrada. Sim. Alguns aprendem cedo que viver é escolher caminhos; outros precisam tropeçar bastante até entender que não escolher também é uma escolha.

Ele contou que trabalha agora como encarregado em uma pequena empresa. Tem horários, pessoas que dependem dele, decisões que não podem ser adiadas. Disse isso sem orgulho exagerado, mas com um respeito silencioso pelo próprio esforço.

— Teve um dia — continuou — que percebi que ninguém viria me salvar do caos que eu mesmo criava. A bagunça cansa. A desordem cobra juros altos.

Enquanto ele falava, lembrei-me de quantas vezes tentei corrigi-lo com palavras que agora soavam pequenas diante da grande professora que é a experiência. Talvez o erro dos educadores seja achar que ensinam tudo, quando, na verdade, apenas plantam dúvidas.

Lucas não virou responsável de um dia para o outro. Ele foi se tornando. Como quem aprende a carregar água sem derramar, como quem descobre que liberdade não é ausência de limites, mas consciência deles.

— O senhor sabe — disse ele, olhando-me nos olhos —, eu só entendi o valor da responsabilidade quando percebi que ela era uma forma de cuidado. Com os outros… e comigo.

Ali, naquele instante, senti algo raro: a sensação de missão cumprida sem ter percebido o trabalho sendo feito. Talvez eu nunca tenha conseguido domar o vento que ele era. Mas, de algum modo, ajudei a ensiná-lo a navegar.

Pagamos a conta. Levantamo-nos. Antes de ir, Lucas apertou minha mão com firmeza.

— Obrigado por não desistir de mim — disse.

Observei-o sair, misturando-se à cidade como alguém que finalmente encontrou seu ritmo. Fiquei ali mais um pouco, pensando que a educação é isso: um encontro que só faz sentido anos depois.

O tempo, afinal, não reprova ninguém. Ele apenas dá novas provas.

E algumas pessoas, como Lucas, finalmente aprendem a respondê-las.

Clayton Alexandre Zocarato

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A prostituta ressuscitada

Ramos António Amine: ‘A prostituta ressuscitada’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem criada por IA do Grok - 21 de janeiro de 2021, às 07:45 PM - https://grok.com/imagine/post/80c83328-2e66-4bc9-8a23-f5c0d2bef7ab
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A sociedade foi programada para dar respostas rápidas a problemas complexos. Rotular alguém de prostituta tornou-se, ao longo do tempo, uma dessas respostas fáceis, uma forma insípida de encerrar qualquer debate sobre injustiça, estupros precoces, desigualdade, pobreza, violência e exclusão social. O rótulo basta. O contexto histórico deixa de importar.

A prostituta ocupa um lugar tão trivial quanto contraditório na ordem social. É visível, mas não reconhecida; abusada, mas descartada; tolerada na prática, condenada no discurso. Ela denuncia aquilo que muitos preferem ignorar: a decadência de um sistema que cria fossos e depois pune quem cai neles.

Ninguém ousa questionar como ela chegou ali. A pergunta que vem à tona é sempre por que não sai. Como se sair fosse apenas uma questão de vontade e não de oportunidades. Como se as oportunidades fossem distribuídas de forma justa. Como se a pobreza não fosse o gatilho diário que empurra milhares de mulheres para decisões que nunca escolheram plenamente.

A prostituta é imediatamente concebida como símbolo de decadência moral. Entretanto, a verdadeira decadência revela-se na hipocrisia social que absolve o cliente e condena a prostituta; que beija em surdina a boca da prostituta, mas a julga em voz alta. Nesse cenário, a prostituição nunca é causa, mas corolário de um mundo que preferiu vender tudo, inclusive a dignidade humana.

É nesse ponto que se dá a ressurreição.

A prostituta ressuscita quando cansa de ser apenas produto e passa a ser voz. Quando reconhece que há um sistema que a empurrou para a quinta dos ímpios e deixa de ser mero objeto de excitação ou repulsa dos próprios ímpios. Ressuscita quando descobre que a vergonha que lhe cobre o rosto nunca foi criação sua, mas obra de uma sociedade incapaz de assumir as próprias incoerências.

Essa ressurreição nada tem a ver com religião, muito menos com mito. É social e política. É o renascer de uma consciência que, ao longo do tempo, foi mantida refém de uma estrutura que sobreviveu do silêncio cúmplice. É a recusa em carregar sozinha o peso da culpa de uma autoridade que aplaude a exclusão e, depois, condena os seus efeitos para deles se afastar.

Em essência, a prostituta nunca esteve morta. Morta estava a sensibilidade coletiva que escolheu condená-la sem compreender a sua história. Morta estava a ética que exige pureza e inocência de quem nunca teve escolhas, enquanto normaliza a corrupção moral de quem pode pagar para sugar as tetas da prostituta.

A prostituta ressuscitada não pede salvação. Solicita humanidade. E, ao fazê-lo, interpela-nos com uma pergunta desconfortável, mas necessária: quem, afinal, precisa de salvação: ela ou a sociedade que a forjou?

Ramos António Amine

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Corpo e espírito

José Antonio Torres: ‘Corpo e espírito’

José Antonio Torres
José Antonio Torres
‘Minha força vem da luz que me conduz’.
Imagem gerada por IA do bin – 20 de janeiro de 2026, às 08:25 PM

Sigo em minha estrada superando desafios.

Os obstáculos são imensos, mas não superam a determinação que possuo.

As lutas são ferrenhas neste campo de batalha que é a vida.

Rasgam as minhas entranhas e dilaceram o meu corpo.

Ainda assim, não conseguem abater meu espírito.

A minha determinação suplanta meus ferimentos.

Minha força vem da luz maior que me conduz, iluminando e fortalecendo a minha fé.

Embora meu corpo sofra as consequências das batalhas, meu espírito segue radiante e revigorado para novas disputas.

Meu corpo sente o cansaço e o peso do tempo.

Sinto minhas energias esvaindo-se lentamente…

Processa-se um efeito contrário em meu espírito.

Quanto mais me aproximo do fim, mais se expande a consciência de que estou indo ao encontro da verdadeira VIDA!

José Antonio Torres

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Depois que chegaram da Lua

Suziene Cavalcante: Poema ‘Depois que chegaram da Lua’

Suziene Cavalcante
Suziene Cavalcante
Imagem criada por IA do ChatGPT

Eles foram até a Lua
Com bandeiras, fé e razão. Queriam medir o espaço. E entender a humana razão.

Levaram números e máquinas. Planos, mapas e ambição.
Mas trouxeram algo invisível, que não cabe em explicação.

Só quem vê o Infinito, liberta-se dos ciclos, e ganha um livre coração.

Viraram o olhar pra Terra tão azul, tão só no escuro. E ali sentiram no peito que o amor é o foguete mais seguro.

Depois que chegaram da Lua, nada mais foi como antes. O dinheiro ficou pequeno. O poder ficou distante.

Eles viram que a vida é breve.E o agora é o que importa. Que o universo é nossa casa. E o coração é a porta.

Viram o silêncio falando. Viram luz sem precisar ver.
Entenderam que a grandeza é aprender a ser.

Voltaram com olhos novos. E o ego ficou pra trás. Quem vê o infinito de perto não é igual nunca mais.

Somos poeira de estrelas. Mas também luz a brilhar. Tão pequenos na imensidão. Tão imensos ao amar.

Só quem vê o Infinito e depois à Terra desce, descobre seu próprio espírito e nunca mais se envaidece.

Depois que chegaram da Lua, aprenderam a soltar o que pesa, o que divide, o que não deixa voar. A lua tem face humana. Ela também pisou na Terra c’a sua chama, ensinando a brilhar.

Se todo mundo pudesse ver a Terra lá do céu. Talvez cuidasse mais dela. Talvez rasgasse o véu! Talvez entendesse que estamos viajando.
E o Porto, a chegada, é o Infinito nos tocando.

Depois que chegaram da Lua, trouxeram algo maior. Não foi pedra, nem conquista. Foi consciência de que na vida não estamos sós. Que na vida tudo passa, mas o Universo é a nossa casa. Todos nós em um só pó.

Quem consegue deixar os sentimentos baixos, consegue subir ao espaço. E lá ver o espírito do infinito e seu abraço.

Quem se tornou leve conseguiu ir lá. E quando retornou, a alma quis mudar. Nunca mais quis competir, pois o Infinito em tudo está.
Quem já esteve a sós com Deus nunca mais quis odiar.

Com os pés sobre a Lua, viram o mundo azul. E nesse vislumbre fiel, viram que a Terra pode ser o céu, já tem a cor do céu, e o céu és tú!

E o Céu és tú!

E o Céu és tú!

Suziene Cavalcante

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Ora alívio, ora tortura

Lina Veira: Crônica ‘Ora alívio, ora tortura’

Lina Veira
Lina Veira
Imagem por Lina Veira
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Alívio – Um substantivo que facilita a vida, que traduz a remoção de uma dor, a liberdade de uma angústia ou opressão – as vezes através de lágrimas.  Ali, onde um poeta se descobriu sem máscara, sem vestimenta, sem loucura, impalpável a definições. Gestos automáticos.

Os  falsos anjos se corrompem com as descrenças, misérias e falta de asas. Carecem do êxtase, de tudo que é pecado e santo. 

Quisera uma caixa de chocolates finos e  o livro de Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados. O alívio, já me acaricia só de esperar essa obra pelo correio à tarde.

Mas vamos as últimas notícias: Café: alívio tarifário não reduz pressão sobre cotações

Estoques baixos sustentam preços do café no curto prazo

O mercado global de café passa por um período de ajuste após a suspensão das tarifas adicionais de 40% sobre os grãos brasileiros — exceto o café solúvel — anunciada em 20 de novembro.

Para a analista da Hedgepoint, Laleska Moda, “esse comportamento reforça a percepção de que, mesmo com o alívio tarifário, a oferta disponível para exportação continua limitada”.

Agrolink – Seane Lennon
Publicado em 03/12/2025 às 13:37h.

E ainda:

Melhora nas chuvas darão alívio na conta de luz em dezembro

Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL)  4 dias atras   

A  noite calorenta arranca suores indevidos de uma vida cheia de artifícios e sonhos,  tem gente que parece incendio sem alívio. Como meu pai dizia: rapadura é doce, mas não é mole não.

O outono, já se foi, mas ainda é preciso se ver nu como as árvores sem folhas no inverno, primavera e verão.

A vida é uma confissão breve de crônicas, tenho escrito. Abrindo mão de  augúrios  ou previsões do futuro, como presságios ou vaticínios, que podem ser interpretados de diversas formas. A fragilidade dos argumentos se revela e o acaso pode ser um alívio desmembrando o talvez.

Já estava quase acostumada ao silêncio –  de dentro, quando o telefone tocou  e ouvi um “eu te amo” diferente. Chega estancou o barulho.

Nunca comeu rapadura para ser tão doce, nunca foi ao nordeste, nunca dançou forró.  

Tanta gente bonita aqui no Sul vivendo dentro de suas casas sem vidas. O quintal não tinha alegria, nem flores merecidas. A casa de alvenaria era uma prisão de depoimentos frustrados. Um homem distanciado do  universo feminino de sua mulher, sem alívios, gozos ou cheiros.

– O que fizemos para merecer isso?

– Escolhas.

Entenda: A paixão é um instante. E não precisamos torná-la compromisso ou construção.

O outro é um bom lugar para depositar  nossos desejos carnais  e solidão, completou se agachando no chão do quintal enquanto desenhava um girassol.

Algumas pessoas nem percebem que já morreram, outras tem sua existência inventada, algumas merecem conhecer a pessoa certa. Abandonei a linguagem sinuosa do amor. Escolhi o alívio do suicídio, dos fantasmas sem lucidez e do desanimo, às vezes. Sempre tive medo do amor, dos retratos antes das rugas, antes que o brio da vida se consuma. Depois esperança. A vida é uma contante escolha sem alívio de ser ou não ser,  entre a vida e a morte. Uma eternidade urgente  de duas horas no fim de tarde inquieta, na beira da praia apreciando o por do sol, ou de uma saudade dos lindos anos 80! 

Eu sonhava vestida do impossível, corria e via poema nas paredes da vida, nas metáforas,  e  no vento. O alívio era poder ser criança. Comer as frutas do pé de fruta de casa,  regar as folhas e flores do jardim, tomar banho de chuva nas bicas das calçadas, correr na rua sem medo de crimes ou guerras, ou desistências. 

Depois de um tempo, a paixão arrefece, diminuímos o olhar doce sobre a vida,  ora alívio , ora tortura. 

Ainda lembro do BUQUÊ de rosas vermelhas que segurei entrando na igreja. Que alívio feminino tiveram as mulheres da família!  Miseráveis  verdades são ditas por mulheres para convencer o instante. Miseráveis verdades são sempre ditas em todas as fases, apenas isso.

Ora alívio , ora  tortura , vive a vida.

Lina Veira

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O café que nunca esfria

Paulo Siuves: ‘O café que nunca esfria’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem criada por IA do Gemini – 12 de dezembro de 2025, às 13:41 PM

Acordar costumava ser um ato silencioso. Aquele suspiro longo, talvez o canto de um pássaro, depois o tilintar da colher no pires lembrando que o dia existe… Hoje? Hoje, é uma avalanche de notificações. O celular começa o dia antes da gente — um maestro apressado que sacode a batuta e já nos empurra pra dentro da vida com vibrações, alertas e luzes piscando. Mal abrimos os olhos e já estamos em movimento — não físico, mas mental — navegando num mar de demandas que não deu nem tempo de pensar se queremos atender.

 O café, coitado, perdeu o protagonismo, tornando-se mero coadjuvante. Ele esfria na xícara enquanto os dedos deslizam pela tela. A música da manhã — que antes era de respiração tranquila, o borbulhar da água, o chiado da chaleira, o silêncio entre os goles — agora é substituída por uma mixtape remixada por algoritmos. Cada notificação é uma flauta desafinada. Cada mensagem, um tropeço no compasso.

 Vivemos uma sinfonia interrompida.

 A pausa, esse intervalo precioso entre um pensamento e outro, foi sequestrada sem direito a resgate. E com ela, a possibilidade de escuta ativa. Escutar o mundo, escutar o outro, escutar a si mesmo. O tempo do café, que deveria ser o tempo da contemplação, virou tempo de consumo. A gente consome tudo, notícias, imagens, ideias prontas. E, como sempre acontece quando se engole rápido demais, o sabor se perde.

 A música, metáfora que me acompanha em crônicas e poemas, também sofre. Porque a música precisa de silêncio para existir; música sem silêncio é só barulho. Sem pausa, não há ritmo. Sem escuta, não há harmonia. E o que temos hoje é uma overdose de ruído, uma apresentação solo de ansiedade em tempo real.

 O celular virou mais que ferramenta: virou maestro, palco e plateia ao mesmo tempo. Ele dita o ritmo do dia, ocupa cada brecha e exige presença constante. Ele nos desperta e nos embala para dormir. E nesse ciclo, o pensamento se torna refém. A primeira atividade cerebral do dia é desbloquear a tela. Último gesto antes de dormir, é verificar as notificações – talvez zerá-las – conferir se o mundo não explodiu enquanto a gente piscava.

 A vida virou trilha sonora de aplicativo. E o café, que nunca esfria porque nunca é bebido com atenção, transformou-se em símbolo dessa pressa que nos rouba a melodia.

 Talvez o café quente seja uma forma de resistência. Um manifesto silencioso contra a aceleração. Tomar o café com atenção é como ouvir um álbum inteiro sem pular faixas. É como ler um poema sem procurar o resumo no Google. É como viver um instante sem querer registrá-lo. É existir por um minuto sem querer provar nada pra ninguém.

 A Filosofia, que me acompanha na pós-graduação e na vida, ensina que pensar exige tempo. E tempo exige silêncio. E silêncio, ah… silêncio exige coragem. Coragem de não responder imediatamente. Coragem de deixar o celular vibrar sem atender. Coragem de ouvir o próprio compasso.

 No fim, talvez a pergunta seja simples: quantas melodias deixamos de ouvir por causa da pressa? Quantos cafés foram bebidos sem serem saboreados? Quantos pensamentos foram interrompidos por uma tela acesa?

 A resposta não está no celular.

Ela mora na pausa.

No gole de café quente.

Está na música que ainda podemos compor, se tivermos coragem de calar um pouco o mundo para finalmente nos ouvir.

Paulo Siuves

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