10 horas em Angola

Osvaldo Manuel Alberto

’10 horas em Angola: quando o táxi chega, a conversa morre!’

Osvaldo Manuel Alberto
Osvaldo Manuel Alberto
Imagem gerada pela IA do Grok
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Na paragem de táxi, temos consciência de que quando o nosso táxi chegar, independentemente de a conversa ser fluída ou não, temos de partir. Enquanto o táxi não chega, aproveitamos o tempo da melhor maneira possível, puxamos e desenvolvemos diálogo com quem estiver próximo, mesmo sem saber o seu destino.

Este texto não é sobre viagem de táxi. É sobre a vida.

Mas então, o que é a vida?

Esta é uma daquelas perguntas que admite uma infinidade de respostas. E estas atendem princípios e contextos.

Há quem defina a vida como “o bem mais precioso que Deus nos deu”. Normalmente, esta definição surge quando estamos cônscios da nossa necessidade espiritual.

Quando a frustração e a depressão se apossam de nós, a vida é definida como “uma merda”.

Nos momentos de tristeza, luto e dor, a vida é definida como “um sopro”, “uma bruma”.

Mesmo sem consciência, a quem defina a vida sem sequer mencionar o termo vida. Em ambientes eufórico, de desbunda profunda, para se referir ao conceito vida uns recorrem ao seu antónimo “quem morre é burro, caixão faz calor”. Tudo isso, para se referir que a vida é aquele momento de éxtase.

Depois de algumas cucamicinas, a vida é definida como “isso”, ou seja, “isso é que é vida, páh!” (Lombadas). Para manifestar que a vida é o momento de alegria. Uma definição redutora e excludente, porque tudo fora disto, não é vida.

Há quem prefira definir a vida como “o contrário da morte”.

Graciano (2026) citando um velho amigo definiu a vida como sendo “esse bocado”. Repito, “a vida é esse bocado”. Sim, os poucos momentos que nos proporcionamos estar com alguém, conversar, ouvir com atenção, desejar o bem a outrem. Esse bocado de convívio em que por instantes chegas a pensar que não adoencerás porque atingiste a imortalidade. A vida é esse bocado que não temos consciência do quão poucochinho é, e de tão curta que é ou do quão efémera é.
Enquanto se define a vida como sendo esse bocado, o braço e o antebraço devem fazer um ângulo de noventa graus, enquanto o indicador voltado para baixo circunscreve sinalizando o bocado que a vida é.

A vida é a liberdade limitada pela morte.

A vida é uma sequência de episódios positivos e negativos num determinado tempo.

Na realidade angolana, 10 horas é a hora marcada. Para dizer não o que é, mas o que foi feito com a vida! Nesta hora, o táxi já terá chegado e as conversas interrompidas.

E para ti, o que é a vida? (Responda em uma palavra).

Osvaldo Manoel Alberto

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Entre a água e o amor

Clayton alexandre Zocarato: ‘Entre a água e o amor’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Há algo na água que nunca se explica por completo, mesmo quando a vemos escorrer entre os dedos como se fosse apenas matéria obediente à gravidade.

            A água parece simples, mas guarda em si um silêncio antigo, uma memória de tudo o que já tocou. Assim também é o amor: pensamos compreendê-lo quando ele nos atravessa, quando ocupa o corpo com sua presença leve e inevitável, mas basta um instante para que ele mude de forma, escorra, evapore, desapareça sem aviso, deixando apenas um vestígio úmido na pele da lembrança.

            E é nesse desaparecer que ele mais se revela.

            O amor nasce como a água brota: inesperado, subterrâneo, vindo de um lugar que não sabíamos existir. Primeiro é um fio tímido, quase imperceptível, um rumor que se anuncia antes de se mostrar.

            Depois cresce, se alarga, toma espaço, contorna pedras, insiste. A água nunca pede licença; o amor também não. Ambos chegam como quem sempre esteve ali, como se fossem uma continuação natural daquilo que somos.

             E, de repente, já não sabemos mais viver sem o seu fluxo constante, sem o seu som repetido, quase musical, preenchendo os vazios que antes eram apenas silêncio.

            Mas o que mais assombra não é o nascimento, é a transformação. A água, quando aquecida, se torna invisível. Sobe, desaparece, se desfaz no ar como um suspiro que ninguém consegue segurar.

             O amor também conhece esse movimento. Ele se eleva sem aviso, deixa de ser presença para virar ausência, e quando percebemos, já não há corpo, já não há toque — apenas um vapor difuso, um eco que insiste em permanecer, embora não se possa mais tocar.

            Como compreender algo que existiu com tanta intensidade e que, ainda assim, se dissolve como se nunca tivesse sido?

            Há uma melancolia própria nesse ciclo, como uma canção tocada em tom menor, repetindo acordes que parecem familiares, mas nunca idênticos.

            A água que escorre hoje não é a mesma de ontem, e o amor que sentimos agora não é o mesmo que nos habitou antes. Ainda assim, carregam algo em comum: uma essência que se recusa a ser fixa.

            São feitos de passagem. São feitos de tempo.

            E o tempo, esse grande regente silencioso, conduz tanto a água quanto o amor em ritmos que não controlamos.

            Há dias em que o amor é chuva intensa, quase tempestade, invadindo tudo, transbordando, ocupando cada espaço disponível. Nesses dias, não há como fugir: somos inundados, tomados por uma sensação que mistura beleza e excesso, como se viver fosse demais.

            Mas há também os períodos de seca, quando o amor se retrai, se esconde, e tudo o que resta é um solo rachado, esperando por algo que talvez não volte.

            A água, nesses momentos, parece uma lembrança distante — e o amor, uma hipótese.

            E ainda assim, mesmo quando desaparecem, ambos deixam marcas. A água molda a pedra com sua insistência suave; o amor molda o coração com sua passagem silenciosa.

            Nenhum dos dois precisa de força para transformar — basta tempo. Basta permanecer, mesmo que em outra forma, mesmo que invisível.

            Porque a água que evapora retorna como chuva, e o amor que se desfaz talvez encontre outro caminho para existir, ainda que não seja mais reconhecível.

            Há uma música escondida nesse processo, algo que não se ouve com os ouvidos, mas com aquilo que resta quando o som termina.

            É um ritmo feito de idas e vindas, de presenças e ausências, de começos que já carregam em si o germe do fim. A água canta quando corre, quando cai, quando evapora — e o amor, de alguma forma, acompanha essa melodia, como se ambos fossem parte da mesma composição, executada em diferentes instrumentos.

            Talvez seja por isso que nos sentimos tão perdidos quando o amor se vai. Não é apenas a perda de algo que estava ali, mas a ruptura de um fluxo, a interrupção de uma música que parecia contínua.

            Ficamos como quem observa um leito seco, tentando lembrar o som da água que já passou por ali.

            E quanto mais tentamos segurar, mais escapa. Porque nem a água nem o amor pertencem a quem tenta possuí-los.

            Eles existem na liberdade de se mover, de mudar, de desaparecer.

            E há beleza nisso, embora doa.

             Há beleza na impermanência, na ideia de que algo pode ser intenso sem ser eterno. A água não precisa permanecer para justificar sua existência; o amor também não. Ambos cumprem seu papel no instante em que são, no toque que deixam, na transformação que provocam.

             O resto é memória — e a memória, assim como o vapor, é uma forma sutil de permanência.

            No fim, talvez amar seja aceitar essa natureza líquida, essa incapacidade de fixar o que por essência é movimento.

             Talvez seja compreender que o desaparecimento não anula o que foi vivido, assim como a água que evapora não deixa de ter existido.

            Ela apenas muda de estado, encontra outro lugar, outro tempo, outro modo de ser.

            E nós ficamos aqui, entre o que escorre e o que evapora, tentando dar nome ao indizível, tentando transformar em palavras aquilo que, como a água e o amor, insiste em escapar.

Clayton Alexandre Zocarato

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Os confinados

Sergio Diniz da Costa: Crônica ‘Os confinados’

Sergio Diniz
Sergio Diniz
São animais que têm por espaço uma garagem (algumas com dois carros) ou um pequeno terreno ou quintal e por horizonte uma nesga de paisagem, vista pelas frestas de portões - Foto por Sergio Diniz da Costa
São animais que têm por espaço uma garagem (algumas com dois carros) ou um pequeno terreno ou quintal e por horizonte uma nesga de paisagem, vista pelas frestas de portões.” – Foto por Sergio Diniz da Costa

Diariamente, passeio com meu cão (Tobby) pelas ruas do meu bairro e bairros adjacentes.

Esses passeios me levaram a constatar que em muitas residências e até mesmo em pequenas empresas têm cães, em alguns casos até dois ou três.

Num primeiro momento, a impressão é que, a cada dia, aumenta o número de pessoas que parecem gostar de cães. Essa impressão, entretanto, em muitos casos, é enganosa.

Constato, com uma imensa tristeza, que é significativo o número de cães que vivem confinados em suas casas ou em estabelecimentos comerciais. São animais que têm por espaço uma garagem (algumas com dois carros) ou um pequeno terreno ou quintal e por horizonte uma nesga de paisagem, vista pelas frestas de portões. Em alguns casos, os cães ficam presos por correntes o dia inteiro.

Esse enclausuramento, com o tempo, torna os cachorros doentes, física e/ou emocionalmente. Alguns se tornam violentos e, se conseguem escapar da casa, podem atacar pessoas; outros chegam a se automutilar.

A Lei nº 9.605/98, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências, prevê em seu art. 32, caput: “Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”.

O citado artigo não esclarece e, muito menos, enumera o que se configura como ato de abuso ou maus-tratos. A prática, contudo, aponta os atos mais comuns: abandono, manter animal preso por muito tempo sem comida e contato com seus donos/responsáveis, deixar animal em lugar impróprio e anti-higiênico, envenenamento, agressão física, covarde e exagerada, mutilação e utilizar animal em shows, apresentações ou trabalho que possa lhe causar pânico e sofrimento.

Manter cães diariamente confinados se configura, indiscutivelmente, como um ato de maus-tratos, pois, com isso, “os impede de desenvolver atividade física, independentemente da raça. E essa energia não gasta vai se acumulando cada vez mais até o cão encontrar um jeito de eliminá-la, sendo as maneiras mais comuns dessa energia ser dissipada roer ou destruir algo, latir, mostrar comportamentos compulsivos e às vezes até agressividade”.*

Outro aspecto do dano causado pelo confinamento reiterado se encontra no fato de que “os cães são animais gregários, ou seja, eles naturalmente vivem em grupos e precisam de interação social com os membros de sua própria espécie. Um cão que passa por essa privação social pode sofrer distúrbios emocionais e psicológicos graves, demonstrando timidez, medo excessivo ou agressividade com outros cães”.*

Presenciar diariamente esse atentado contra a saúde física e emocional de um animal historicamente alçado como paradigma da lealdade aos seres humanos leva-me a refletir que, ao contrário de seres humanos criminosos, os quais uma vez apreendidos pelos agentes policiais são posteriormente julgados, observando-se os trâmites e defesas legais e, somente depois, se condenados, encarcerados, os cães ‘de guarda’ de certas residências e empresas não têm o mesmo direito.

Até porque, o único ‘crime’ que cometeram foi o de confiar em seres humanos!

Humanos?

*  https://www.petlove.com.br/dicas/necessidades-basicas

Sergio Diniz da Costa

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Pensador




Quando o espírito está pronto para amar

Ella Dominici

‘Quando o espírito está pronto para amar’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem gerada por IA do Bing – 27 de março de 2026,
às 09:59

Há inícios que não chegam pelo corpo — chegam quando o espírito está pronto.

Quando os desígnios tocam a alma com a precisão do tempo divino, o amor encontra sua forma mais alta: não nasce do sangue, nasce da prontidão interior.

A adoção é esse milagre silencioso em que duas vidas se reconhecem antes mesmo do toque. É o instante em que um filho prometido — gerado na alma, não no ventre — encontra o colo que já o aguardava.

Há encontros que redimem, há destinos que se abraçam, e há amor tão sublime que inaugura o lugar onde realmente mora a felicidade genuína.

Ella Dominici

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Caio Fernando Abreu e o Van Gogh da minha mulher

Eduardo Cesario-Martínez

‘Caio Fernando Abreu e o Van Gogh da minha mulher’

Eduardo Cesarino-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez
Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesarino-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez – Foto Irene Araújo

Eis que estava aqui no aconchego da sala admirando a réplica quase original de ‘Os Lírios’, famoso quadro de Van Gogh, quando a minha esposa, a Dona Irene, me despertou do transe:

– Amor, você acredita que o Caio Fernando Abreu morou aqui no nosso apartamento?

Levo alguns míseros segundos para concatenar as ideias aqui na cachola, que ainda estava presa a 1889, ano em que aquele Vincent, em momento de profunda inspiração, saiu do amarelo e atiçou a tela com verde e azul.

            — Sério?

            — Sério!

            — Não acredito!

            — Pois acredite!

            Antes de prosseguirmos nessa discussão, que já bem sei quem vai vencer, haja vista todas as anteriores e, certamente, as futuras, minha mulher me esfrega na cara a certidão vintenária. 

            — Tá vendo?

            — O quê?

            — Aqui, ó, seu bocó!

            Como não encontro o nome do Caio Fernando, a Dona Irene me explica que ele havia comprado o apartamento no nome dos pais. Aliás, até quem vendeu a propriedade para o famoso escritor foi o Leozinho, que ainda mora aqui no prédio. Mesmo assim, ainda era difícil acreditar nessa história, por mais que eu desejasse. Isto é, até que a minha esposa, em um gran finale, me mostra uma fotografia do Caio Fernando aqui na nossa sala, posando próximo à janela. Touché! Não é que ela estava certa?

            Volto a olhar o Van Gogh preso à parede, mas a minha mente viaja até a crônica “A Morte dos Girassóis”, do Caio Fernando. Apesar de não ser um grande conhecedor de sua obra, já li e reli esse belo texto algumas vezes ao longo dos anos. Meu devaneio me transporta para uma suposta relação entre a crônica e o quadro. Nada a ver ou, ao menos, não consigo vislumbrar qualquer paralelo entre os dois. Insisto, mas logo deixo de lado tal tese.

            Algo me perturba. Lembro que o Caio Fernando e eu ocupamos o mesmo espaço, mesmo que em épocas distintas. Será que ele escreveu algum conto ou crônica ou sei lá o quê cá onde estou? Bah! Aqui estou eu, carioca, me fazendo de gaúcho, tamanha a perplexidade que me domina. 

            Inquieto, preciso tomar um ar. Convido minha amada para beber um café na esquina. Já na portaria, olho a Getúlio. Em frente, o movimento no Bar do Vavá anuncia que hoje tem Colorado. 

Eduardo Cesario-Martínez

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Sensação de impotência

José Antonio Torres: Crônica ‘Sensação de impotência’

José Antonio Torres
José Antonio Torres
Imagem criada por IA do bing.com/create, em 16 de março de 2026.
Imagem criada por IA do bing.com/create, em 16 de março de 2026.

Caminhando pela praia, sentindo a areia fina como a sutileza do amor. A sensação de que algo desliza e se esvai impressiona pela percepção de impotência. A mesma de quando te perdi. Tão perto, tangível e, ao mesmo tempo, se esvaindo, te perdendo.

Dor e angústia por assistir ao teu sofrimento e nada poder fazer para minorá-lo. Tudo fazendo, como um ator, representando para não demonstrar a minha dor e não te preocupar. Sim, eu sabia. Mesmo você sofrendo e partindo um pouco a cada dia, ainda se preocupava para que eu ficasse bem.

Assistir à vida se esvaindo de alguém sem poder contê-la é um sofrimento atroz. Não temos como reter a vida em um corpo quando é chegada a hora. Como um vaso que se quebra e perde o seu conteúdo, assim a vida se esvai quando o corpo está consumido e alquebrado pela terrível doença.

Não sofre apenas quem sente as dores físicas, a fraqueza e as limitações do corpo, mas também os que convivem com o ser amado e que, em pouco tempo, não o terão mais em seus braços…

Conscientemente sabemos que é inevitável, mas, ainda assim, a percepção da perda definitiva machuca, consome e dilacera nossa alma. Não mais a presença, a voz, o riso, o abraço, o beijo…. nada!
Tudo em um único instante ficou no passado e na lembrança.

Uns partem em tenra idade, outros jovens, outros ainda, maduros e outros mais, idosos. São ciclos mais ou menos longos que serviram para cumprir uma etapa que havia ficado pendente.

O tempo vai passando, a dor se acalmando e a compreensão se faz. As lembranças dos momentos de alegria vividos juntos se sobrepõem aos momentos ruins. O entendimento de que o ser amado partiu para a verdadeira morada, livre do sofrimento terreno e onde vai se recuperar para alcançar novas conquistas, nos conforta.

A mensagem que fica é a de que precisamos amar, valorizar e desfrutar de cada momento junto de quem se ama. Agindo assim, não haverá espaço para culpas e arrependimentos, que são fardos extremamente pesados para se carregar ao longo da vida.

José Antonio Torres




Um certo professor Jordão

Jorge Facury: Crônica ‘Um certo professor Jordão’

Jorge Facury
Jorge Facury
Imagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69b95861-d7fc-83e9-8edb-be9a4d66939d

Estava na adolescência. Aula de educação física na escola Industrial ‘Sales Gomes’ da seresteira Tatuí.

Tarde de calor, daquelas de rachar mamona! Estávamos em uma atividade pra lá de esgotante e saí rapidamente para tomar um pouco de água numa torneira num ponto da quadra. Nem tinha começado a beber quando senti alguém me abraçando. Era o professor de educação física, chamado Jordão, uma montanha de músculos com aspecto imponente, que me abordou.

Não era um abraço confortante, mas, ameaçador. Ele disse:

– Está com sede? E emendou:  – Acaso eu disse que podia tomar água?

Bem, ninguém me disse que era proibido! Se houvesse uma ordem expressa nesse sentido, com certeza eu gravaria, mas, não lembro disso. Foi naquela surpresa da presença abrupta dele que logo me vi sentenciado a 25 flexões de braço para ‘aprender’ a não desobedecer a sua autoridade.

A atmosfera educacional da época ainda se via aguilhoada pela cartilha militar. Sofri para fazer aquelas flexões sem ter matado a sede. Na mesma semana, o diretor me chamou à Diretoria. Queria saber se acaso era eu que assinava uma coluna no jornal INTEGRAÇÃO que ele acabara de ler e estava sobre sua mesa. Confirmei. Ele me deu parabéns. Jordão estava presente e, com certa surpresa, dirigiu-se a mim, inquirindo:

– Então é esse o seu negócio?

Só fiz sinal positivo com a cabeça, pois ele me inspirava certo temor. Ele deve ter pensado: “Como esse moleque fracote escreve assim, pra jornal?”

Afinal, eu tinha apenas 16 anos e escrevia sobre Ufologia e outros assuntos, numa coluna generosamente ofertada pelo editor José Reiner Fernandes.

O homenzarrão que tinha nome de rio, notadamente bíblico, um símbolo de águas fluídas, quis me condenar à secura! Que ironia da vida! O tempo passou. Como afinal passam as águas e as nuvens, e, claro, jamais poderia esquecer aquela abordagem única:

– Então, é esse o seu negócio?!

Jorge Facury

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