A metragem do vazio

Clayton Alexandre Zocarato

Crônica reflexiva existencialista: ‘A metragem do vazio’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Começa sempre com uma medida. Não de tempo, nem de distância, mas de ausência. Como se o vazio pudesse ser calculado em metros, pesado em silêncio, delimitado por coordenadas invisíveis.

            Ele acorda com essa sensação — a de que algo falta com precisão matemática — e passa a vida tentando descobrir quanto. Não é uma falta difusa, dessas que se resolvem com distrações ou afeto momentâneo; é uma lacuna exata, quase geométrica, como se houvesse um espaço escavado dentro dele, um negativo perfeitamente moldado àquilo que nunca existiu.

            Na parede do quarto, ele traça linhas imaginárias. Mede o ar entre seus dedos e o teto, entre o chão e o pensamento. Há uma obsessão discreta, quase científica, em quantificar o nada. Ele lê sobre o vácuo físico, sobre como o espaço interestelar não é realmente vazio, mas saturado de partículas, radiações, possibilidades latentes. Isso o irrita.

            Porque o vazio que sente não vibra, não pulsa, não promete nada. É um silêncio absoluto, uma ausência que não contém sequer a esperança de ser preenchida.

            Ele tenta nomear essa experiência, mas as palavras falham. Solidão’ é leve demais. ‘Angústia’ é imprecisa. ‘Nada’ é uma palavra cheia de história, de filosofia, de tentativas fracassadas de captura.

            O que ele sente é anterior à linguagem, ou talvez posterior — como se estivesse além daquilo que pode ser dito, numa zona onde o pensamento se dissolve antes de se formar completamente.

            Há dias em que ele caminha pela cidade como quem percorre um mapa de inconsistências. As pessoas falam, riem, compram, tocam-se, mas tudo parece deslocado por alguns milímetros.

            Como se o mundo estivesse levemente fora de alinhamento, como um quadro torto que ninguém percebe.

            Ele observa os gestos automáticos, as conversas repetidas, os rituais sociais, e tenta medir o vazio entre o que é dito e o que é realmente vivido.        Descobre que esse intervalo é vasto, quase infinito. Uma metragem invisível que sustenta a aparência de normalidade.

            Em certo momento, ele decide que o erro pode estar nele. Talvez o vazio não seja uma falha do mundo, mas uma característica da percepção. Talvez todos sintam isso, mas aprenderam a ignorar, a cobrir com camadas de sentido provisório. Ele tenta fazer o mesmo. Preenche os dias com tarefas, os pensamentos com ruído, o tempo com distrações cuidadosamente escolhidas.

            Funciona por algumas horas, às vezes dias.

            Mas o vazio retorna, sempre com a mesma precisão, como se tivesse um ponto fixo dentro dele, um centro gravitacional que atrai tudo de volta ao silêncio.

            Ele começa então a suspeitar que o vazio não é ausência, mas estrutura. Não aquilo que falta, mas aquilo que sustenta. Como o espaço entre as notas que permite a música, ou o branco da página que torna possível a escrita.

            Essa ideia o perturba mais do que conforta. Porque se o vazio é estrutural, então não há preenchimento possível. Não se trata de completar, mas de coexistir. De aprender a viver com uma falta que não será resolvida, apenas compreendida — ou, talvez, nunca.

            Numa noite particularmente silenciosa, ele se deita no chão e observa o teto como se fosse o céu. Imagina-se flutuando no espaço, cercado por um vácuo que não o oprime, mas o contém. Pela primeira vez, o vazio não parece inimigo.

            Há uma estranha neutralidade nele, uma ausência de julgamento. O vazio não exige nada, não cobra sentido, não impõe direção. Ele apenas é. E, por um instante breve, quase imperceptível, isso basta.

            Mas a consciência retorna, como sempre. E com ela, a necessidade de significar, de entender, de medir. Ele se levanta e volta às suas linhas imaginárias, às suas tentativas de quantificação.

            Mede o silêncio entre duas palavras não ditas, o intervalo entre um pensamento e outro, o espaço entre o que ele é e o que acredita ser. Cada medida falha, mas nenhuma é inútil. Porque no ato de medir, há um reconhecimento: o vazio existe, e ele está ali, presente, constante.

            Com o tempo, ele abandona a ideia de preencher. Começa a explorar. O vazio deixa de ser obstáculo e se torna território. Ele aprende a caminhar por dentro de si como quem atravessa um deserto — não esperando encontrar algo no fim, mas atento às nuances do caminho.

            Descobre que há variações no nada, densidades diferentes de silêncio, formas sutis de ausência. O vazio, afinal, tem textura.

            E talvez seja isso que o salva — não a superação, mas a convivência. Não a resposta, mas a permanência da pergunta. Ele continua medindo, mas agora sabe que a metragem nunca será concluída. O vazio não tem fim, nem início. É um campo aberto, uma extensão sem bordas, onde o ser humano se move tentando deixar marcas que desaparecem quase imediatamente.

            No fim, ele entende — ou acredita entender — que a metragem do vazio não é uma tarefa a ser completada, mas uma condição a ser habitada.

            E que talvez, apenas talvez, o sentido não esteja em preencher o vazio, mas em reconhecê-lo como parte inseparável daquilo que somos. Porque é no espaço que falta que o ser se insinua, hesitante, incompleto, mas ainda assim presente.

            E ele continua.

            Medindo o invisível, habitando o indizível, vivendo na exata distância entre o que existe e aquilo que nunca existirá.

            E ele continua, não mais como quem busca, mas como quem consente — e há nisso uma inversão quase imperceptível, como se o gesto de medir tivesse sido substituído por um gesto mais raro: o de permanecer.

             Porque medir ainda pressupõe um fora, um ponto de referência, uma exterioridade possível; permanecer, não — permanecer é aceitar que não há margem, que o vazio não se circunscreve, não se opõe, não se resolve em contraste. Ele não está diante do vazio; ele é a dobra pela qual o vazio se reconhece.

            Nesse estágio, as categorias falham com maior violência. Ser e não-ser já não operam como distinções úteis, pois ambas supõem uma estabilidade que o vazio dissolve sem esforço.

             O que resta é uma espécie de flutuação ontológica, um estado em que o pensamento não se fixa, mas também não se perde completamente. Há um limiar contínuo, uma zona de quase-consciência onde as ideias surgem apenas para se desfazer, como partículas virtuais no vácuo quântico — emergências efêmeras que não chegam a constituir realidade, mas tampouco podem ser negadas.

            Ele começa a perceber que a linguagem, outrora ferramenta, tornou-se ruína.       Cada palavra que tenta usar para capturar o que vive carrega um atraso, uma defasagem inevitável. Dizer “vazio” já é preenchê-lo com um conceito; nomear é trair.

            E, no entanto, o silêncio absoluto não é uma alternativa, pois mesmo o silêncio implica uma escuta, e toda escuta pressupõe um sujeito. Assim, ele se move num campo paradoxal onde falar é falsificar e calar é pressupor — e ambos os gestos falham com igual precisão.

            É nesse ponto que o pensamento se curva sobre si mesmo.

            Não mais como reflexão, mas como colapso. Ele já não pensa sobre o vazio; o vazio pensa através dele, ou talvez nem isso — talvez não haja mais mediação suficiente para sustentar a ideia de um “através”.

            O que há é uma espécie de impessoalidade radical, uma experiência sem centro, onde a interioridade se dissolve e o exterior perde sua função. Tudo se torna superfície, mas uma superfície sem extensão, sem profundidade, sem orientação.

            E ainda assim, há uma estranha lucidez nisso. Não a lucidez da clareza, mas a da exaustão. Como se, ao esgotar todas as tentativas de sentido, restasse apenas aquilo que nunca precisou de sentido para existir.

             O vazio, então, deixa de ser problema e se torna condição anterior a qualquer problema. Ele não pergunta mais “por quê?”, porque o próprio gesto de perguntar se revela deslocado, quase ingênuo.

            A questão não é mais o sentido, mas a impossibilidade de sua ausência total — pois mesmo o vazio, em sua radicalidade, insiste em se apresentar.

            Há momentos em que ele suspeita que tudo isso é apenas uma forma extrema de consciência, um excesso que se volta contra si mesmo até se desfazer. Mas essa suspeita também se dissolve, pois não há critério externo que a valide ou invalide.

            Tudo acontece no mesmo plano, sem hierarquia, sem garantia.

            A verdade perde sua autoridade, não por ter sido negada, mas por ter sido esvaziada de função. Não há mais o que provar, nem a quem.

            E então surge uma nova forma de atenção. Não dirigida, não intencional, mas difusa, quase mineral. Ele observa sem objeto, percebe sem foco, como se a própria estrutura da percepção tivesse sido desarticulada.

            Não há mais figura e fundo, nem sujeito e mundo. Apenas uma continuidade indistinta, onde tudo ocorre sem realmente ocorrer.

             O tempo, nesse contexto, também se desfaz. Não há passado a ser lembrado nem futuro a ser antecipado — apenas uma duração sem direção, um presente que não se acumula.

            É nesse estado que ele compreende — ou melhor, deixa de resistir à compreensão de que a metragem do vazio nunca foi uma tentativa de quantificar o nada, mas de escapar daquilo que sempre esteve dado.

            Medir era uma forma de manter distância, de preservar a ilusão de separação.      Agora, sem essa mediação, resta apenas a coincidência: ele não está no vazio, nem o vazio está nele — ambos são expressões de uma mesma indistinção.

            E, paradoxalmente, é nessa indistinção que algo como uma ética começa a emergir — não uma ética normativa, baseada em deveres ou valores, mas uma ética da não-interferência, da suspensão do domínio.

            Se não há centro, não há também justificativa para impor sentido ao que quer que seja. A ação, quando ocorre, não parte de um querer, mas de uma espécie de ressonância com o que se apresenta. Não há escolha no sentido tradicional — apenas resposta.

            Essa resposta, porém, não se traduz em gestos visíveis. Ele continua vivendo, aparentemente como antes, mas há uma diferença que não pode ser percebida de fora. Internamente, tudo foi deslocado.

            O mundo já não exige interpretação, nem oferece resistência. Ele atravessa os dias como quem atravessa um campo sem marcas, onde cada passo não deixa rastro e cada instante não se acumula.

            Não há progresso, nem regressão. Apenas continuidade.

            E talvez seja isso o mais difícil de aceitar: que não há clímax, nem revelação final, nem resolução.

            A metragem do vazio não conduz a um fim, porque o fim pressupõe uma narrativa, e toda narrativa exige sentido. Aqui, não. Aqui, o que há é uma persistência sem finalidade, uma existência que não se justifica, mas também não precisa fazê-lo.

            No limite, o que resta é uma espécie de transparência. Não no sentido de clareza, mas de ausência de opacidade.

            Nada mais se interpõe entre o que é e o que aparece, porque já não há distinção suficiente para sustentar essa diferença. O mundo não se revela — ele simplesmente não se esconde.

            E ele continua, não como sujeito de uma história, mas como ponto indistinto numa extensão sem bordas.

            A metragem foi abandonada, não por ter sido concluída, mas por ter se tornado irrelevante. O vazio permanece, mas já não é problema, nem mistério, nem ameaça. É apenas aquilo que sempre foi: o fundo sem fundo sobre o qual tudo, inclusive ele, insiste em acontecer — ou talvez nunca tenha começado.

            E ainda assim, mesmo nesse estado de dissolução silenciosa, algo insiste — não como vontade, nem como pensamento articulado, mas como uma espécie de contração mínima da consciência, quase imperceptível, como se o vazio, ao se tornar total, começasse a produzir suas próprias microfissuras internas.

            Não há evento, não há ruptura, apenas uma leve oscilação na continuidade, um tremor sem causa que não altera a estrutura, mas a revela como instável em sua própria estabilidade. Ele percebe — ou é percebido por isso — que o nada absoluto não é estático, mas respirante em sua impossibilidade.

            Essa respiração não pertence a nada vivo no sentido comum. Não há pulmões, não há organismo, não há interioridade que a sustente. É uma respiração lógica, se isso ainda puder fazer sentido: uma alternância sem sujeito, uma pulsação sem centro, um ritmo que não organiza nada, mas também não se desfaz.

            E é nesse intervalo mínimo que algo como uma memória sem conteúdo tenta emergir, não na lembrança de fatos, mas a lembrança de uma forma de existência em que ainda havia diferença entre o dentro e o fora.

            Essa lembrança, porém, não se fixa; ela escapa no mesmo instante em que é pressentida, como se o próprio ato de recordar fosse incompatível com a condição atual do ser.

            Ele já não sabe se ainda pode ser chamado de “ele”. O pronome parece excessivo, uma concessão linguística que pressupõe unidade onde já não há.

            Mas a linguagem insiste por hábito, como um reflexo antigo de uma estrutura que se desfez.

            E mesmo essa insistência não é vivida como erro, apenas como ruído de fundo, uma camada residual de significado que não consegue se atualizar, mas também não desaparece completamente. Tudo o que resta da identidade é esse atrito entre o que foi e o que não consegue cessar de ser nomeado.

            O espaço ao redor — se ainda faz sentido falar em espaço — não se expande nem se contrai. Ele simplesmente não responde mais às categorias de medida. A metragem do vazio, que antes parecia uma tentativa de compreensão, agora se revela como ficção de orientação.

            Não havia extensão a ser medida, apenas a ilusão de que havia um exterior observável. Essa constatação não produz choque, nem revelação. Apenas se acomoda como uma evidência tardia, sem importância emocional, sem consequência dramática.

            E, no entanto, há algo que persiste como forma de presença sem conteúdo: uma espécie de atenção sem objeto, uma vigilância que não vigia nada.

            Não é consciência no sentido clássico, mas também não é sua ausência. É uma zona intermediária onde os polos perderam sua função. Ali, pensamento e não-pensamento deixam de ser opostos e passam a coexistir como variações de um mesmo fundo indiferenciado. O que antes era abismo agora se mostra como continuidade sem fratura.

            Nesse ponto, qualquer tentativa de narrativa se torna impossível não por falta de acontecimentos, mas por excesso de equivalência entre eles. Tudo é igualmente intenso e igualmente indiferente.

            Uma pedra, um pensamento, uma ausência, uma lembrança inexistente — tudo participa da mesma textura ontológica, sem hierarquia possível. O mundo deixa de ser mundo porque já não há recorte suficiente para distingui-lo de si mesmo.

            E ainda assim, há uma espécie de movimento que não se pode nomear como avanço ou retorno. Ele não vai a lugar algum, porque lugar implica diferença espacial; não retorna a nada, porque retorno implica continuidade temporal.

            O que há é uma permanência sem eixo, uma presença que não se sustenta em nada, mas também não cai. Uma estabilidade paradoxal que não repousa sobre fundamento algum.

            Nesse estado, até a ideia de fim perde consistência. Finalizar seria pressupor uma linha narrativa, uma progressão, um ponto de encerramento. Mas aqui não há linha, apenas campo.

            Não há início que possa ser lembrado nem conclusão que possa ser antecipada.   O que existe é uma espécie de suspensão contínua, onde até a noção de continuidade se torna irrelevante, porque não há descontinuidade contra a qual ela possa se afirmar.

            E então, sem transição, sem resolução, sem qualquer gesto que possa ser identificado como encerramento, o que resta não é silêncio — pois silêncio ainda é uma categoria — mas a impossibilidade de distinguir som de ausência de som, palavra de ausência de palavra, existência de ausência de existência.

            Tudo se torna indiferenciado não por fusão, mas por esgotamento da própria diferença como princípio organizador.

            Ele — ou aquilo que já não pode ser nomeado — permanece nesse estado sem qualidades, não como sobrevivente de uma experiência, mas como expressão contínua de algo que nunca precisou começar para continuar.

            E se há algo que poderia ser chamado de conclusão, seria apenas isto: não há fora do vazio, nem dentro dele, porque essas distinções pertencem a uma gramática que já não opera.

            O que há, sempre houve e talvez sempre haverá, é apenas esta impossibilidade de sair do que nunca foi entrada — e mesmo essa formulação já é excesso, já é ruído, já é tentativa de borda onde nunca houve forma.

Clayton Alexandre Zocarato

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Mãe do coração

Marli Freitas: Crônica ‘Mãe do coração’

Marli Freitas
Marli Freitas
A autora e a 'mãe do coração', donaMarli Fernandes Grossi
A autora e a mãe ‘do coração’, dona Marli Fernandes Grossi

Hoje, como em tantos outros dias, me pego pensando: ‘Deus é bom, eu sou grata’. Basta abrir a primeira janela do nosso tempo, Marli mãe e Marli filha. Foi um encontro inesperado. Como meu pai dizia, “Menina você tem asas nos pés”, pois corria, não andava. A mente era mais rápida do que meus pezinhos delicados de menina miúda e, assim, vivia de joelhos e cotovelos ralados.

Bem, foi assim, ventando na rua Osvaldo Cruz, rumo à quadra de esportes que você, minha segunda mãe – também Marli, surgiu à minha frente. Com jeito de menina poesia, paralisei no espanto e me perguntei, ‘o que aquela mulher tão linda e elegante poderia querer comigo?’. Silenciei e ouvi aquelas doces palavras:

– Como você se chama?

Eu respondi, quase gaguejando, que também me chamava Marli.

E ela continuou:

– Você está indo aos jogos, então, diga a eles, que estamos abrindo uma loja de artigos para vestuário em geral e se chama Bazar Rilyane.

Meu coração vibrou me dizendo, que aquela linda mulher precisava de mim e dei seguimento à missão de propagar a boa nova.

Este seria um encontro casual, mas já estava escrito no coração de Deus, que ela seria a minha segunda mãe.

O segundo encontro que me levou a ela, também parecia um acaso, mas uniu nossas vidas para sempre. Já havia passado como ajudante de doméstica em alguns lares e experimentado a casa dos padrinhos, mas, num domingo, tive a inspiração de pedir à madrinha para ir à missa. Vesti uma jardineira branca, presente da minha mãezinha de sangue (in memoriam) e a memória afetiva me levou de volta à casa materna, que era vizinha da minha mãe do coração.

Novamente a menina que tinha asas nos pés, fez ventar o beco estreito, que dava acesso à rua e, quando me dei conta, estava nos braços de ‘Maria’, uma mulher que nasceu para ser anjo. Foram poucas palavras e no mesmo dia me tornei babá da minha irmã caçula do coração. Fato que me aproximou da mulher mais linda, forte e perfeita, que pude ver na vida.

O seu olhar me acolheu e, dentro de um mês, eu não era mais babá, mas a sua filha do coração. Nos encontramos no coração uma da outra e muitas memórias afetuosas foram criadas, porém, sei que só o amor é capaz de explicar os encontros, a vontade de cuidar, de se entregar ao espanto, à paciência e às exigências de querer bem a outra pessoa.

O que posso dizer é que estava escrito que seria assim. Muitos arriscam em dizer que me pareço mais com você do que com os meus progenitores, mas eu sei que sou abençoada com duas mães e as amo por completo.

Marli Freitas

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A força da mulher na poesia

Laskiaf Amortegui

‘A força da mulher na poesia: para além dos títulos, a alma’

Laskiaf Amortegui
Laskiaf Amortegui
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Neste mundo globalizado, onde a tecnologia nos permitiu derrubar fronteiras, surgiu algo imparável: o grito de talentos que antes eram silenciados pela sombra. Hoje, não quero simplesmente escrever; quero erguer a voz pela importância da mulher neste despertar literário.

​A poesia real não vive apenas nos livros; ela pulsa nas ruas. Habita nas mãos das mulheres que servem café, que amassam o pão, que limpam hotéis ou que sustentam o silêncio de seus lares. São profissionais de todas as áreas, mas, acima de tudo, são poetisas do destino. Algumas possuem diplomas, outras trazem apenas as cicatrizes que a vida ensina, mas todas compartilham o sagrado: uma alma que sabe transmutar a dor em verso.

​Ao tocar esta poesia, sentimos cores e sabores que rasgam as estruturas. É um verso que fere e cura, que deixa uma marca a fogo na memória. Esta é a verdadeira inovação: uma voz com consciência, que canaliza o amor e o desamor com a força de quem sobreviveu.

​A poesia veste-se hoje com uma força renovada: a da mulher que é o pilar de sua família, a que busca o pão sob o sol, a que se levantou com dignidade após um divórcio, um fracasso ou o desprezo de uma sociedade dura.

​Apesar das barreiras e dos favoritismos, nossa luz está brilhando. O mundo está finalmente abrindo os olhos para a arte sem preconceitos. Hoje, a poesia não é um privilégio de elites; é o refúgio e o rugido de cada mulher que se atreve a ser luz em meio à tempestade.

Laskiaf Amortegui

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Availability

Jane Nash: Chronicle ‘Availability’

Jane Nash
Jane Nash
Pat Hunter (Nanna)
Pat Hunter (Nanna)

I rise at 4am as I have for the past 16 years but there’s no-one to call at this ungodly hour. I have ungodly needs. I’m tempted by Ouiji boards but in truth, I need to find me a necromancer. I fantasise about ayahuasca ceremonies that will let me speak to spirits of the dead, will let me see the dead not as they are but as they were at their best. Sadly this probably includes the darker souls who attach themselves to my memories. I only want to stand behind her and put my arms around her waist.

I am awake at 4.15am and I stare at the link we would use to chat about nothing. I regret my words carried so little of me. I am grateful to have been part of her jigsaw. I consider a mug of mugwort to help me escape this anchored state in these dark hours. But I am paralysed each morning when I wake. She is no longer available.

 Write a letter. Remember the good times. Talk out loud. Look at old photographs. None of this helps. None of them. These suggestions can’t soothe the knife in my stomach, splitting me open, spilling internal organs over the floor.  I bleed tears; pints and pints of tears. There is no end to the concrete, the inanimate nor the silence in the house. The birds sleep and the insects of the night have taken their respite before dawn.

I wait at 4.30am when I would have got an injection of laughter, of gossip, of love. No amount of life in the present fills the gap. I loved her unconditionally I was loved by her unconditionally. Where will I find that again? I don’t bother yearning for a replacement. There can be none.

I lie down at 4.45am. My pillow soaks up the lifeblood of grief. I can’t seem to get rid of the knot in my throat. I wonder whether, after all this time, I am being indulgent after all, it’s been more than the cycle of seasons. Wet, my mouth allows rivers flow over my face to enter the darkness of my insides. Perhaps I don’t want these feelings to go away but I would like to sleep through the night instead of being exhausted on waking from the lack of interaction.

I often dream of her. She looks younger, the grandmother of my childhood. We roam the sand dunes with her dog and my uncle who is four years older than me. I want to reach out to him but I am sure his grief takes a different form than mine. As much as I might want to exchange experiences, I know this is sacred, this silence, this pain through me. It’s mine, not for sharing, as is his.

Jane Nash

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Vivo de noche, sueño de día

María Beatriz Muñoz Ruiz

‘Vivo de noche, sueño de día’

Maria Beatriz Munoz Ruiz
Maria Beatriz Munoz Ruiz
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Que el tiempo se detenga cada noche; que las horas sean elegantes y lentas ondas que avanzan, sin apenas ser vistas, en el lago, fruto del amor de dos cisnes enamorados que pasean invisibles bajo un techo estrellado. No deseo dormir; mi vida comienza cuando las calles descansan libres de los pasos agitados de aquellos que viven presos en el día, atados, enredados en un ciclo infinito de sueños desechados.

De día… una simple mortal, invisible, vulgar… sin desear ser más.

De noche… un alma que vuela en la oscuridad, acariciada sensualmente por Percy Shelley y atrapada entre los brazos de Lord Byron, acogiendo con agrado sus besos robados, sus labios, su mentira anunciada que me permito creer sin cuestionar nada. El villano de la historia, si la inocencia no hubiera sido borrada de mi cuerpo o simplemente deseara guardar la honra que en aquellos tiempos exigían los hipócritas.

John Keats pasea sus melancólicas palabras y recorre cada centímetro de mi cuerpo con su calma, pero Ibn Hazm me ama con su desgarradora pasión, me posee con cada declaración y me persigue con su mirada como el atributo al nombre, como alguien que nunca abandonará la batalla.

Y después de disfrutar entre las sábanas de versos y eternos ritmos de baladas, converso con Nietzsche sobre la prisión de los hombres, sobre su seguridad construida sobre una idea manipulada. A nuestra conversación se une Charles Baudelaire: cómplice, amigo, camarada… tan parecido a mí, que sus versos con mis opiniones se solapan.

Entonces paseo en la noche; Thomas Hardy me acompaña, pero es demasiado lento y no siempre estoy preparada, así que con una mirada me comprende y corro hacia la nada, hacia la mujer que me entiende como si fuera mi hermana: Emily Dickinson, aquella que apartó el mundo de su puerta creando una hermosa esencia entre aquellas paredes encerrada. Y con los dedos manchados de tinta, en pijama y algo extrañada, me pregunta: ¿Cómo puedes vivir en un mundo que no amas? ¿Cómo puedes ser dos personas tan distintas sin ser juzgada?

Yo me levanto de la cama, miro a través de su ventana y contesto: Cada día y cada noche libré mil batallas, suspiraba por un mundo inexistente, por un mar en calma; soñaba con vivir en un poema, en una de las historias narradas. Ansiaba que el mundo dejara de ser gris, que mi vida cambiara y la gente dejara de disparar a las almas.

Pero comprendí que mi felicidad estaba atada a sus actos, y aquello hizo que reflexionara. Depender de seres ajenos a mi causa es estar presa sin haber deseado entrar en la batalla. Solo yo consigo darme paz; solo yo sé que mi placer acaricia mi piel sin despreciar las cicatrices que de día me dañan. Soy la misma moneda, pero con diferentes caras: sol y luna, hielo y fuego, dulce y amarga. Soy Jane Austen de día y Virginia Woolf de noche, en su habitación propia. Soy complicada, un poco loca; amo la vida, pero detesto el mundo donde se aloja. Ingratas personas…

Vivo de noche, sueño de día, sonrío aunque el mundo no me sonría; porque no espero nada, tengo todo lo que necesito bajo la luna plateada.

Maria Beatriz Muñoz Ruiz

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Diário de um Bobo

Entre risos e verdades, Koringa transforma o cotidiano em arte e reflexão

Diário de um Bobo. Entre risos e reflexões Crônicas do cotidiano
Diário de um bobo

Radialista, artista e eterno bobo da corte, Hilton Rufino reúne em livro um olhar bem-humorado e sensível sobre o dia a dia.

Há quem transforme histórias da vida em espetáculo.

Hilton Luiz Rufino, conhecido pelo público como Koringa, o Bobo da Corte, é desses artistas que fazem do riso uma ponte… e do humor, uma forma de dizer verdades.

Hilton Ruffino , o Koringa
Hilton Ruffino, o Koringa

Com uma trajetória que atravessa décadas, Hilton Rufino construiu sua carreira levando alegria por onde passa.

Radialista formado em Comunicação Social, palhaço, mágico e animador de palco, ele atua desde 1989 encantando públicos de todas as idades com apresentações que misturam música, brincadeira, interação e, claro, muito humor.

Radicado em Indaiatuba desde 1997, Koringa se tornou uma figura conhecida e querida na cidade e região, participando de eventos, projetos culturais e ações sociais que marcaram gerações.

De festas infantis a eventos corporativos, de programas de rádio e televisão a festivais internacionais, como sua participação em Cuba, em 2023, sua arte sempre esteve presente, levando leveza e conexão.

Mas, para além dos palcos, existe também o olhar observador.

A ideia do livro nasce justamente desse outro espaço: das palavras.

A partir de colunas semanais escritas para jornais da região, Hilton reuniu textos que, juntos, formam uma obra que reflete o cotidiano com humor e sensibilidade.

Inspirado na figura medieval do bobo da corte, aquele que, por meio da leveza, conseguia dizer verdades desafiadoras, o autor constrói uma narrativa que diverte, mas também faz pensar.

É um humor que não é vazio.

É um humor que observa, traduz e, muitas vezes, revela.

Com linguagem acessível e um olhar atento aos detalhes do dia a dia, o livro se torna um convite para enxergar a vida por outra perspectiva mais leve, mais humana e, quem sabe, até mais verdadeira.

Entre risadas e reflexões, Koringa nos lembra de algo essencial: Às vezes, é no riso que encontramos as verdades mais profundas.

E talvez seja justamente essa a maior arte, transformar o cotidiano em algo que toca, diverte… e permanece.

REDES SOCIAIS DO AUTOR

DIÁRIO DE UM BOBO

SINOPSE

Mais do que um registro de época, a obra é um mosaico de instantes vividos entre 2019 e 2021, onde humor e crítica caminham juntos, revelando que, às vezes, rir é a forma mais lúcida de compreender a realidade.

Um livro leve, humano e provocador, que mostra que o bom humor pode ser também uma forma de sabedoria.

OBRA DO AUTOR

Diário de um bobo. Entre risos e reflexões Cronicas do cotiadiano
Diário de um bobo

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Resenhas da colunista Lee Oliveira




Mi paz sin Elpis

María Beatriz Muñoz Ruiz: ‘Mi paz sin Elpis’

Maria Beatriz Muñoz Ruiz
Maria Beatriz Muñoz Ruiz
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Cuando la gente que me rodea descubre mi cara oculta de escritora y mi largo recorrido literario y periodístico, siempre me dicen: “Seguro que con alguna de tus novelas te haces famosa”. Yo sonrío y respondo que no me importa nada de eso; soy feliz escribiendo y haciendo feliz a mis lectores o, como yo digo, “soy feliz repartiendo felicidad”.

A todo el mundo le sorprende mi falta de ambición. Lo que no saben es que una vez, hace años, soñé con ganarme la vida escribiendo; soñé con el mejor trabajo del mundo y, como poetisa romántica y autora de bastantes novelas romántico-eróticas, me imaginaba escribiendo bajo un precioso sauce, sentada sobre un verde y mullido césped mientras los últimos rayos del sol bañaban mi piel, acariciándome dulcemente.

Pero aquello dolía demasiado. Tuve que caerme muchas veces hasta comprender que mi alma necesitaba paz. No deseo danzar en la brusquedad de un río agitado; necesito la paz de un apacible y escondido lago en el que únicamente pasean dos hermosos cisnes que se demuestran su amor bajo la plateada luna.

Es difícil de explicar, pero mi paz está en no esperar nada ni del universo ni de la gente. Pocas veces lo he comentado, porque mi visión del mundo y de las personas puede interpretarse como pesimista, oscura y en ruinas. Y lo cierto es… que no os equivocáis.

Los que me conocen se sorprenden al leer alguno de mis poemas llenos de melancolía y tristeza soñadora cargada de realidad grisácea, más que nada porque siempre tengo una sonrisa para cualquiera, porque los que se acercan a mí saben que van a pasar un buen rato, porque amo a los animales y soy demasiado empática con los que sufren.

Es difícil de decir, pero sigo pensando que la humanidad es el error más grande del universo. Cuando observo las estrellas y la luna bailando entre las olas del mar, cuando el rojizo atardecer muere cada día invisible a la mirada de la gente y los árboles mecen sus hojas en una sensual danza… me siento pequeña y feliz por saber que lo soy; porque nos creemos poderosos y, sin embargo, cuando la naturaleza ruge, huimos aterrados.

Os voy a contar una historia de la mitología griega que seguramente conoceréis bien: todo comienza con un desafío a los dioses. Prometeo, un titán que sentía un gran afecto por los seres humanos, decidió ayudarlos robando el fuego sagrado del Olimpo. Su objetivo era que la humanidad pudiera calentarse, cocinar y progresar. Sin embargo, este acto de rebeldía enfureció a Zeus, el rey de los dioses, quien decidió que tal regalo no quedaría sin castigo.

Para vengarse, Zeus ideó un plan ingenioso: ordenó crear a la primera mujer, Pandora. Cada dios le otorgó un don especial para hacerla irresistible: Hefesto la moldeó con arcilla, Afrodita le dio belleza y Hermes le dio elocuencia y una curiosidad insaciable. Pero Pandora no era solo un regalo; era, en realidad, una “trampa hermosa” enviada para equilibrar el beneficio que el fuego había traído a los hombres.
Zeus envió a Pandora a la Tierra como esposa para el hermano de Prometeo, Epimeteo. Con ella envió una vasija sellada, advirtiéndole que bajo ninguna circunstancia debía abrirse. Zeus sabía que la curiosidad que él mismo le había dado a la joven terminaría por ganar la batalla.

Un día, incapaz de contenerse más, Pandora levantó la tapa. En ese instante, una nube oscura de males salió disparada: la enfermedad, el dolor, la envidia, el hambre y la vejez se escaparon para siempre, llenando un mundo que hasta entonces había sido perfecto.

Aterrorizada por lo que había hecho, Pandora cerró el recipiente lo más rápido que pudo. Cuando el silencio volvió, se dio cuenta de que algo golpeaba suavemente contra las paredes del fondo. Era Elpis, la Esperanza.

Aunque los males ya estaban sueltos por todas partes, la Esperanza se quedó dentro de la vasija como el único consuelo para la humanidad. Hay muchas teorías acerca de esto; algunos dicen que esto significa que, por muy difíciles que se pongan las cosas, los seres humanos siempre conservarán esa chispa interior que permite creer en un mañana mejor.

Mis teorías, como no, se asemejan a las ideas de mi filósofo preferido, Nietzsche. ¿De verdad creéis que los dioses pensaron en Elpis como algo bueno para los humanos? Yo pienso que Elpis fue el mayor de los males, la esperanza que hace que el pueblo torturado piense que habrá tiempos mejores, y ahí es donde entra la siguiente manipulación urdida con el tiempo para seguir controlando a los tontos mortales: la religión. Esa que promete riqueza y salvación en un reino que nadie ha visto, esa que premia al que sufre y padece, al humilde, al que tiene la esperanza de ser mejor una vez muera.

Un pueblo vigilado por Dios no necesita cámaras, no necesita leyes; es fácil de controlar. Cuando Dios muera, los poderosos tendrán un grave problema, pero mientras tanto, algunos seguirán guardando a Elpis en su pecho y otros la dejarán encerrada, mientras puedan, en el lugar más oscuro. ¿Y tú? ¿Piensas que Elpis fue una bendición o una maldición?

Maria Beatriz Muñoz Ruiz

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