Entre ausências e retornos

Adriana Rocha: ‘Entre ausências e retornos’

Adriana Rocha
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Há ausências que não fazem barulho, mas ecoam… A cada nova edição do Jornal ROL, reencontro a alegria de ler textos que inspiram e de ver novos colegas enriquecendo esse espaço de reflexão e diálogo. Sinto satisfação a cada voz que chega, a cada olhar que amplia horizontes.  Leio os textos, celebro a qualidade das reflexões, alegro-me com a chegada de novos colaboradores e percebo, com sincera admiração, um jornal cada vez mais plural e vivo. Mas, entre uma página e outra, também me visita um discreto incômodo: o da minha própria sazonalidade. Discretamente, entre uma leitura e outra, uma pergunta me acompanha: em que estação ficaram as minhas palavras?

Escrever como colunista nunca foi apenas produzir palavras; foi pertencer, participar e deixar, periodicamente, um fragmento de mim. Ser colunista nunca foi apenas publicar um texto. Era um compromisso silencioso com a escrita, um encontro periódico com leitores e leitoras que talvez eu nunca conhecesse, mas que, por alguns minutos, caminhavam comigo pelas linhas.

Talvez a escrita tenha mesmo esse poder: quando se afasta, não nos abandona. Apenas permanece em silêncio, aguardando o instante certo para voltar a florescer.

Há saudades que não se explicam. Apenas se revelam. A vida, por vezes, impõe seus ritmos, e a escrita também aprende a respeitar os intervalos. Ainda assim, confesso: minha sazonalidade me inquieta. Sinto falta da disciplina do pensamento que busca forma, da emoção que encontra morada nas palavras e da alegria serena de entregar um texto ao mundo.

Talvez escrever seja exatamente isso: um lugar para onde sempre voltamos. E, quando a saudade se transforma em palavra, já não estamos completamente ausentes. Estamos, aos poucos, reencontrando o caminho de casa…

Adriana Rocha

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A guerra

Laskiaf Amortegui: Crônica ‘A guerra’

Laskiaf Amortegui
Laskiaf Amortegui
Broto de planta verde nascendo em solo rachado e destruído pela guerra, com silhuetas sombrias ao fundo e raios de sol dourados rompendo as nuvens escuras.
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​“É um tumor a ser extirpado.”

​A guerra é culpada ou inocente?

Quem provoca a guerra?

​Dizem que a maldade nasce em um ato de amor ou paixão.

Ela nasce, sorri e se amamenta com leite; depois engatinha, aprende a caminhar e, quando cresce, saca o que há de pior em seu coração, psique ou mente.

São os ambiciosos, aqueles que perderam o sentido de humanidade e compaixão.

​Muitos inocentes são treinados para a guerra e, para os seus sedutores, não importa gerar a dor e o choro de suas mães ao nascer e muito menos ao morrer.

Não lhes dói mandar os mais desvalidos a derramar seu sangue, enquanto eles contam o dinheiro em seus cofres.
​A guerra destrói, danifica e contamina.

Às vezes, os desalmados abusam de crianças em nome da guerra, mas são suas baixezas internas escudando-se nela…

​A guerra empobrece a terra, os estados e o universo.

Até quando tomaremos consciência? O que mais devemos esperar!

Acaso devemos aguardar que os deuses venham e acabem conosco?

Será que nos é grande demais, como espécie, respeitar e viver em paz?

Laskiaf Amortegui

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O dia em que o Cid Moreira me deixou no vácuo

Eduardo Cesario-Martínez:

Crônica ‘O dia em que o Cid Moreira me deixou no vácuo’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Dia desses um sujeito me abordou na rua, e eu não o reconheci de imediato. Digo até que estranhei o modo que ele me chamou.

            — Ei, Eduardo!

            Se o meu nome é esse? Sim, mas praticamente ninguém me chama assim. Meus amigos costumam me chamar de Edu e, por conta do meu blog, de Dudu. Alguns até de Du e, creio que apenas o escritor J. Emiliano Cruz (Jota), de Ed. Ah, o meu amigo Marco Antônio também me chamava de Ed, mas não sei por quê.

            Pensando bem, creio que, no caso do Jota, seja por causa do personagem Ed Mort, do Luis Fernando Verissimo. É, provavelmente seja por isso mesmo. Dia desses vou questioná-lo a respeito. Quanto ao Marco Antônio, há tempos que não nos vemos e, pelo menos por enquanto, terei que conviver com essa incógnita.

           Mas lá estava aquele tipo me gritando na rua. Aliás, do outro lado da calçada, as mãos erguidas, como se fosse um náufrago em uma ilha isolada.

           — Ei, Eduardo! É você mesmo, cara?

           Confesso que, naquele instante, a dúvida se instalou bem ao lado da quase certeza. É que talvez ele tenha me confundido com um amigo homônimo. Afinal, são tantos Eduardos, que daria para lotar vários Maracanãs. E não estou falando do Maracanã de agora, mas do tempo das arquibancadas e geral. Acredite ou não, somos mais de 650 mil só no Brasil. 

           Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, eis que o homem se arriscou entre os automóveis e, milagrosamente sem nem mesmo um arranhão, atravessou a rua. Pior, o cara carregava aquele sorriso que me deixou ainda mais ressabiado, pois, por mais que eu tentasse, não conseguia me lembrar de onde eu o conhecia. E, antes que eu pudesse colocar tudo a perder, eis que o meu querido desconhecido, esbaforido por conta da carreira, estendeu a mão e se revelou:

            — Puxa, sou seu maior fã! Já li o seu livro duas vezes. Você é o melhor!

           Que falta faz um cinegrafista do Canal 100 nessas horas. Já pensou? E com aquela música de abertura, a voz do Cid Moreira narrando todo aquele espetáculo, a galera atenta a cada lance, o sujeito com o radinho de pilha grudado na orelha… De repente, surgem as pernas do Garrincha sambando pra cá, sambando pra lá, os marcadores no chão, lá vai o rei dos dribles em direção ao gol… Acorda, Eduardo! Literatura não é futebol!

           — Oh, meu amigo, muito obrigado! 

          Costumo falar que escritores não são astros do rock. Podemos sair tranquilamente, ir à padaria tomar um café, jogar conversa fora na esquina, passear com o cachorro, andar de mãos dadas com a namorada… Nós não sabemos o que são paparazzi na prática. Mesmo assim, lá estava eu diante de um fã. Pois é, meu amigo, um fã! Que isso chegue ligeiro aos ouvidos do meu grande amigo e escritor Daniel Marchi, o Dan, que, por acaso, só me chama de Edu. Fico aqui imaginando a sua reação.

           — Sério, Edu?

           — Pois é, Dan. Pra você ver. A coisa está de um jeito, que mal posso colocar os pés na rua. 

           — Que loucura!

           — Sim. Uma loucura! Mas é a vida, meu amigo. Não dá pra fugir do meu destino, que é brilhar, brilhar, brilhar…

          O meu fã, talvez o único no quarteirão inteiro, me arranca do devaneio.

            — Eduardo, posso tirar uma foto com você?

            Obviamente que disse sim e tratei de mostrar o meu melhor ângulo, caso ele realmente exista. Não queria que a captação daquele momento, que espero ficar para a posteridade, tenha me pegado de olhos fechados, boca torta ou… feio. Será? Quanta bobagem! O que importa mesmo é o texto que fica. Essa é a vantagem de ser escritor. Ninguém liga se você não tenha o rosto do Alain Delon ou do Tarcísio Meira. 

           Ser lido é muito bom! E digo mais, meu amigo, é especial. Veja bem, ninguém aumenta o volume quando está lendo. É íntimo, quase sempre solitário, escondido, no máximo bem lá no fundo do metrô ou do ônibus, correndo os olhos, sentimentos guardados no peito, folheando as páginas discretamente. 

         Virei ouvinte do meu leitor, cujas palavras me pareceram muito maiores do que as que o meu coração está acostumado. Coisa linda demais. Será que a minha esposa vai acreditar? O que as minhas filhas vão dizer? E o Dan? A vida tem dessas coisas, meu amigo. Se a gente não está preparado, melhor nem pisar na rua.         

            Será que saí bonito?

Eduardo Cesario-Martínez

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Acolhimento

José Antonio Torres: Crônica ‘Acolhimento’

José Antonio Torres
José Antonio Torres
Imagem de um pôster em papel de tom amarelado, com o título em letras grandes e escuras: "Sempre que for possível, doe ou doe-se". Logo abaixo, a frase menor "A generosity campaign" (Uma campanha de generosidade). Abaixo das frases, duas mãos se aproximam para segurar juntas um coração vermelho e tridimensional.
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Em algum momento da vida, você já parou para refletir e se perguntou se, e o quanto, ajudou alguém?

Ao fazer essa reflexão, talvez se surpreenda ao perceber que a sua vida está sendo inútil nesse quesito tão importante.
Faça uma retrospectiva e tente lembrar de quantas oportunidades teve para ser útil, para amparar ou socorrer alguém ou alguma instituição em dificuldades, e se omitiu.

Não estou falando apenas de ajuda financeira, pois entendo as dificuldades e as despesas que a vida nos impõe. Considere-se um privilegiado se tem condições de quitar e resolver essas dificuldades próprias. Muitos se acham em situação desesperadora e não conseguem.

Diante dessa incapacidade, é como se um buraco no chão se abrisse, fosse se alargando e engolindo quem se encontra nessas condições.

Talvez o nosso primeiro pensamento seja o de julgar que a pessoa ou a instituição cavou o seu próprio buraco. Algumas vezes é verdade, mas, em outras, elas foram empurradas para esse buraco devido a inúmeros fatores.

Sempre que for possível, seja, com o mínimo que puder dispor financeiramente ou através do seu tempo livre, voluntário em alguma causa – sempre há quem precise – doe ou doe-se! Posso garantir que isso te fará sentir muito bem e renovado como ser humano.

É muito fácil criticar quando alguém erra ou encontra-se em dificuldades, mesmo sem sabermos o que levou àquela situação.
Nessas horas, deveríamos abrir mais os braços do que a boca.

O mundo precisa mais de quem acolha do que de quem critique.

José Antonio Torres

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O corredor que se reescreve

Clayton Alexandre Zocarato

‘O corredor que se reescreve’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Corredor surrealista e espiralado em tons escuros e enevoados. Suas paredes de pedra parecem se dissolver como fumaça. Ao longo do corredor, portas de madeira estão abertas, revelando paisagens impossíveis: céus tempestuosos sem estrelas e mares calmos sob um horizonte sem fim. Ao fundo, uma figura solitária caminha em direção ao centro da espiral.
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No lugar onde o fim começava a se desfazer, o corredor encontrou uma nova forma de permanecer. Já não era uma construção entre limites, mas um pensamento abandonado pela própria mente que o imaginara. Suas paredes perderam a certeza de serem paredes e passaram a oscilar entre matéria e lembrança, como se a existência fosse apenas um sonho tentando convencer o sono de que é real.

            A cada nova inscrição invisível, o corredor apagava aquilo que acabara de registrar. A escrita surgia no mesmo instante em que desaparecia, criando uma história sem passado e sem futuro, uma narrativa condenada ao presente absoluto de sua própria contradição. Nada permanecia, exceto o movimento silencioso de deixar de permanecer.

            As portas, antes imóveis guardiãs do desconhecido, começaram a se abrir para lugares que não aceitavam ser encontrados. Atrás delas havia paisagens sem horizonte, céus que recusavam estrelas e mares que não conheciam profundidade. Tudo parecia existir apenas para provar que a existência não precisava de explicação para continuar sendo inexplicável.

            O corredor avançava para dentro de si mesmo, como uma espiral sem centro procurando uma origem que talvez nunca tivesse existido. Cada curva revelava outra curva, cada resposta criava uma pergunta mais antiga, e cada tentativa de compreender transformava o entendimento em uma nova forma de ignorância.

            A solidão tornou-se o único objeto presente naquele espaço sem objetos. Não era uma solidão de abandono, mas uma condição fundamental, uma espécie de espelho onde o vazio contemplava sua própria imagem. Ali, existir significava estar diante de algo que jamais poderia ser completamente alcançado.

            As paredes começaram a murmurar através de pequenas deformações na pedra, como se o próprio silêncio tivesse aprendido a criar ruídos. Não eram palavras, nem mensagens, mas restos de significados perdidos no caminho entre o pensamento e a realidade. Eram vestígios de uma linguagem anterior aos nomes.

            O corredor percebeu que sua maior prisão era também sua única possibilidade de continuar. Se alcançasse um destino, deixaria de ser corredor. Se encontrasse uma resposta definitiva, perderia a razão de permanecer aberto. Sua essência estava justamente na ausência de conclusão.

            Então a ideia de fim tornou-se uma lembrança distante, uma invenção criada pelo medo diante do infinito. O término não era uma porta fechada, mas uma porta que continuava abrindo outras portas até que a própria abertura se tornasse o único lugar possível para existir.

            E assim o corredor prosseguiu através do próprio desaparecimento, reescrevendo-se em camadas de esquecimento e criação. Cada fragmento perdido retornava transformado, cada silêncio gerava outro silêncio, e no coração desse movimento impossível permanecia a pergunta sem rosto: se tudo pode ser reescrito, quem escreve aquilo que permanece apagado?

            A pergunta permaneceu suspensa no interior do corredor, não como uma busca por resposta, mas como uma presença invisível que ocupava todos os espaços deixados pelo silêncio. O próprio ato de perguntar tornou-se mais antigo que qualquer tentativa de compreender, como se a dúvida fosse a primeira forma de existência e todas as certezas fossem apenas suas sombras passageiras.

            As paredes, cansadas de sustentar aquilo que não podia ser sustentado, começaram a perder a distinção entre o dentro e o fora. O corredor deixou de possuir fronteiras e passou a se espalhar como uma ideia sem dono, uma extensão do indizível atravessando regiões onde a lógica chegava apenas para descobrir que já havia chegado tarde demais.

            O chão, antes destinado aos passos, transformou-se em uma superfície de memórias inexistentes. Sobre ele estavam gravadas marcas de movimentos que nunca aconteceram, rastros de percursos abandonados antes de serem iniciados. Cada marca carregava a ausência de uma passagem, como se até o vazio precisasse deixar vestígios de sua própria falta.

            O tempo, agora sem relógios para obedecer, tornou-se uma matéria estranha que escorria pelas paredes. Havia minutos que duravam séculos e séculos que desapareciam em um instante. A duração deixou de medir a existência e passou a ser medida por ela, invertendo a ordem das coisas até que o próprio universo parecesse um pensamento atrasado.

            No centro que nunca existiu, o corredor encontrou aquilo que sempre evitara: a possibilidade de ser apenas uma pergunta prolongada. Não havia propósito escondido em suas curvas, nenhuma mensagem esperando ser descoberta, nenhum segredo guardado além do próprio mistério. Sua razão de existir era permanecer incompleto.

            As portas começaram a desaparecer uma a uma, não porque fossem fechadas, mas porque já não havia diferença entre atravessá-las ou permanecer diante delas. O movimento perdeu seu significado, e a escolha tornou-se uma ilusão criada por uma consciência que precisava acreditar que caminhava para algum lugar.

            A ausência ocupou o último espaço ainda não ocupado pela ausência. E nesse paradoxo silencioso, o corredor descobriu uma espécie de liberdade: nada precisava ser encontrado, pois toda procura já era uma forma de encontro com aquilo que nunca poderia possuir forma.

            A cada nova reescrita, o corredor se aproximava menos de uma identidade e mais de uma transformação contínua. Tornava-se aquilo que deixava de ser, uma existência feita de perdas sucessivas, uma construção erguida com os próprios fragmentos que desmoronavam.

            No entanto, mesmo diante da dissolução completa, algo insistia em permanecer. Não era uma resposta, nem uma esperança, nem uma verdade escondida. Era apenas o movimento inexplicável de continuar. E talvez fosse essa continuidade sem razão aparente a única prova de que alguma coisa, em algum lugar impossível, ainda escrevia.

            Depois da inscrição que não fora escrita por nenhuma mão, o corredor permaneceu diante de sua própria impossibilidade. A frase desapareceu antes de ser compreendida, mas deixou no espaço uma marca semelhante à lembrança de algo que nunca aconteceu. O nada, por um breve instante, pareceu carregar uma cicatriz.

            A arquitetura começou a perder sua antiga rigidez. As paredes tornaram-se pensamentos endurecidos, os pensamentos tornaram-se poeira e a poeira tornou-se novamente aquilo que jamais havia deixado de ser: matéria sem explicação. Tudo retornava ao ponto anterior sem jamais alcançá-lo, como uma volta que percorre o caminho inteiro apenas para descobrir que o início também era uma invenção.

            O corredor percebeu que sua existência dependia daquilo que o negava.   Precisava do vazio para possuir forma, precisava do silêncio para produzir ecos, precisava do desaparecimento para continuar sendo reconhecido como presença. Era uma contradição sustentando outra contradição, um abismo construído sobre a ausência de chão.

            Em suas extensões infinitas, surgiram corredores menores que não levavam a lugar algum, mas guardavam a memória de todos os lugares possíveis. Eram caminhos feitos de escolhas não realizadas, destinos abandonados antes do nascimento, futuros que envelheceram antes de existir.

            Nenhuma porta permanecia fechada porque nenhuma porta permanecia aberta. O próprio conceito de passagem havia perdido sentido. Entrar e sair eram apenas palavras diferentes tentando descrever o mesmo movimento de permanecer preso ao fluxo interminável da transformação.

            O corredor começou a compreender que sua reescrita não era uma tentativa de corrigir a si mesmo, mas uma maneira de aceitar a própria incompletude. Cada erro era uma forma de criação, cada falha era uma nova arquitetura, cada ruína era o início secreto de uma construção desconhecida.

            A solidão, antes vista como um espaço vazio, revelou-se,  como a única companhia possível naquele lugar sem habitantes. Ela não caminhava ao lado do corredor; ela era o próprio corredor caminhando dentro de si. Não havia separação entre aquele que procura e aquilo que é procurado.

            O tempo, já sem direção, ajoelhou-se diante do instante e abandonou sua antiga promessa de continuidade. O passado deixou de ser uma lembrança, o futuro deixou de ser uma esperança, e o presente tornou-se um território absoluto onde tudo nascia e desaparecia ao mesmo tempo.

            No limite onde todas as fronteiras se desfaziam, o corredor encontrou sua última ilusão: a crença de que havia algo para encontrar. E ao perder essa crença, não encontrou vazio algum, mas uma liberdade estranha, sem nome e sem destino.

            Assim, continuou existindo não como resposta, mas como pergunta. Não como caminho para algum lugar, mas como o próprio movimento da procura. O corredor que se reescreve permaneceu escrevendo, porque talvez a única forma de vencer o fim fosse nunca permitir que ele tivesse a última palavra.

            No lugar onde a última palavra deveria existir, o corredor encontrou apenas o espaço vazio deixado pela sua ausência. Não havia conclusão esperando pelo momento certo de surgir, nem uma revelação escondida atrás das últimas paredes. O fim, cansado de ser esperado, tornou-se apenas mais uma passagem dentro da interminável arquitetura do impossível.

            As paredes começaram a esquecer que um dia foram paredes. Algumas transformaram-se em fragmentos de luz apagada, outras em sombras sem origem, outras simplesmente desapareceram sem deixar sequer a memória de terem desaparecido. O corredor não perdeu sua forma; apenas deixou de depender dela para continuar sendo.

            A existência tornou-se um movimento sem direção, semelhante a uma pergunta lançada ao universo que retorna antes de encontrar distância suficiente para se perder.         Tudo retornava modificado, tudo permanecia diferente, tudo carregava em si a marca de uma transformação que não podia ser interrompida.

            No centro inexistente do corredor surgiu uma ausência maior que todas as anteriores. Não era um buraco, nem um espaço vazio, mas uma espécie de presença silenciosa que observava sem olhos e aguardava sem tempo. Ali repousava aquilo que nenhuma linguagem conseguia alcançar.

            O corredor aproximou-se sem caminhar. Quanto mais perto chegava, menos havia para alcançar. A distância se dissolveu, e junto dela desapareceu a diferença entre aquele que procura e aquilo que é procurado. Pela primeira vez, o corredor percebeu que sempre esteve diante de si mesmo, mas nunca possuíra um rosto para reconhecer.

            As marcas deixadas pelas antigas reescritas começaram a retornar. Cada apagamento trouxe de volta uma possibilidade esquecida, cada perda revelou uma forma diferente de permanência. O que parecia destruído apenas aguardava outra maneira de existir.

            O absurdo deixou de ser um obstáculo e tornou-se a própria linguagem daquele lugar. A falta de sentido não representava o fracasso da existência, mas sua condição mais profunda. O corredor não precisava justificar sua presença; bastava continuar sendo aquilo que continuamente deixava de ser.

            O silêncio final aproximou-se lentamente, não como ameaça, mas como uma espécie de descanso impossível. Porém, antes que pudesse cobrir tudo, uma nova linha surgiu na superfície invisível do espaço: “Nenhum fim encerra aquilo que nunca terminou de começar.”

            A frase permaneceu por um instante que poderia ter durado uma eternidade ou apenas a fração de um pensamento. Depois, também desapareceu. Mas o desaparecimento não significou perda. Significou transformação.

            E assim o corredor permaneceu além de sua própria ausência, reescrevendo aquilo que não podia ser escrito, atravessando aquilo que não podia ser atravessado, existindo no intervalo infinito entre o ser e o nada.

            Além do intervalo entre o ser e o nada, o corredor encontrou uma região onde até o impossível parecia ter envelhecido.

            Ali não havia ausência nem presença, apenas uma espécie de espera sem objeto, um silêncio que aguardava algo que nunca havia sido prometido. O tempo permanecia imóvel, não por ter parado, mas por ter esquecido qual direção deveria seguir.

            As antigas paredes, reduzidas a vestígios de uma arquitetura sem matéria, começaram a formar novas imagens que não pertenciam ao passado nem ao futuro.      Eram lembranças de acontecimentos que não aconteceram, memórias de instantes recusados pela realidade antes mesmo de nascerem.

            O corredor compreendeu que sua história não era feita de acontecimentos, mas de interrupções. Cada ruptura criava uma nova possibilidade, cada perda abria uma passagem invisível. O vazio que antes parecia destruir agora revelava ser a força secreta que mantinha tudo em movimento.

            Nenhuma certeza conseguiu permanecer naquele lugar. As verdades que surgiam transformavam-se imediatamente em perguntas, e as perguntas, ao envelhecerem, tornavam-se novamente silêncio. Era um ciclo sem início e sem término, uma dança imóvel entre aquilo que tenta existir e aquilo que insiste em desaparecer.

            O corredor começou a perder até mesmo a memória de sua própria forma. Já não sabia se era caminho, labirinto ou apenas uma ideia atravessando uma consciência desconhecida. Talvez nunca tivesse sido construído; talvez tivesse surgido no instante em que alguém, em algum lugar impossível, imaginou a existência de uma passagem.

            Mas essa possibilidade também se desfez. Pois se não havia criador, também não havia criatura. Se não havia escrita, também não havia palavra. Se não havia origem, então toda busca por uma origem era apenas outra curva do mesmo corredor infinito.

            No silêncio profundo dessa descoberta, uma estranha tranquilidade surgiu. Não era felicidade, nem esperança, nem aceitação. Era algo mais próximo de uma compreensão sem pensamento: a percepção de que a existência não precisava ser decifrada para continuar sendo misteriosa.

            O corredor então deixou de lutar contra suas próprias contradições. Aceitou suas portas sem destino, suas paredes sem certeza, seus caminhos sem chegada. Tornou-se inteiro justamente porque nunca poderia estar completo.

            A última sombra de uma antiga pergunta atravessou seus espaços vazios. Ela não procurava resposta, apenas continuava existindo como testemunha de uma busca interminável. E essa sombra, ao desaparecer, deixou atrás de si uma nova inscrição: “Tudo aquilo que permanece é aquilo que aprende a desaparecer.”

            O corredor leu a frase com sua ausência, guardou-a sem memória e seguiu adiante sem avançar. Porque naquele lugar onde todas as coisas terminavam antes de começar, continuar era a única forma possível de existir.

            E no último espaço onde ainda parecia existir alguma coisa semelhante a uma fronteira, o corredor encontrou aquilo que durante toda a sua existência havia evitado: a completa ausência de si mesmo. Não havia mais paredes para sustentar a dúvida, nem portas para representar escolhas, nem caminhos para alimentar a ilusão de movimento.             Restava apenas o silêncio observando o próprio silêncio.

            Por um instante impossível, o corredor deixou de se reescrever. Não porque tivesse alcançado uma forma definitiva, mas porque percebeu que toda forma já era uma passagem para outra transformação. A permanência absoluta era apenas outra maneira de desaparecer lentamente.

            O que antes parecia uma prisão revelou-se uma liberdade sem nome. Não havia destino para cumprir, nem sentido escondido esperando ser revelado. A existência não era uma mensagem cifrada, mas o próprio ato de permanecer diante do mistério sem exigir que ele se explicasse.

            As antigas marcas espalhadas pelas paredes retornaram como ecos de uma escrita esquecida. Cada palavra apagada, cada curva perdida, cada porta inexistente reapareceu não como lembrança, mas como possibilidade. Tudo aquilo que havia sido perdido continuava presente na forma de uma ausência criadora.

            O corredor finalmente compreendeu que nunca havia caminhado por um lugar.   Havia sido o próprio caminhar. Nunca havia procurado uma saída. Havia sido a própria procura. Nunca havia esperado uma resposta. Havia sido a pergunta prolongando-se através do infinito.

            Então o fim aproximou-se sem ruído. Não veio como destruição, mas como uma última transformação.

            O fim deixou de ser uma chegada e tornou-se apenas mais uma palavra escrita pelo corredor para depois ser apagada.

            E quando a última parede desapareceu, não surgiu o vazio esperado. Surgiu outro corredor, mais antigo e mais desconhecido, recomeçando onde tudo deveria terminar. Não era repetição, mas uma nova versão do mesmo enigma, uma continuidade sem origem.

            A escrita invisível voltou a surgir no espaço sem forma:     “Todo fim é apenas uma porta que esqueceu seu nome.”

            Depois disso, nada permaneceu como antes, porque nunca houve um antes verdadeiro. O corredor continuou existindo naquilo que não podia ser encontrado, sendo reconstruído pela própria impossibilidade de desaparecer completamente.

            E assim, entre o silêncio e a palavra, entre o nada e a existência, o corredor permaneceu reescrevendo-se eternamente. Não para alcançar alguma verdade, mas para manter viva a única certeza que jamais conseguiu ser destruída: a de que o mistério continua sendo o último lugar onde tudo começa.

Clayton Alexandre Zocarato

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A Aldeia de Monsanto

Laura Moura Nunes

‘Encantos de Portugal: A Aldeia de Monsanto’

Laura Moura Nunes
Laura Moura Nunes
View of the medieval village of Monsanto, typical border village of Portugal next to Spain - https://www.istockphoto.com/br/foto/aldeia-medieval-de-monsanto-portugal-gm901349632-248665929
View of the medieval village of Monsanto, typical border village of Portugal next to Spain – https://www.istockphoto.com/br/foto/aldeia-medieval-de-monsanto-portugal-gm901349632-248665929

A Aldeia de Monsanto corta-nos a respiração, em cada casa-Pedra e acelera-nos as Batidas do coração em direção ao famoso Castelo com o Sol que nos abrasa.

O anoitecer é mágico, uma Aldeia carregada de história em cada esquina, em cada curva.

O vento sopra forte. Ao nascer do Sol, as casas parecem que falam, os penedos seduzem e o chão inspira-nos, pois estamos a falar da Aldeia histórica mais Portuguesa de Portugal. Foi inspiração para cineastas, abrigo para Vultos famosos tais como: Zeca Afonso, o escritor Fernando Namora e tantos outros. Um cenário autêntico para criar uma atmosfera épica envolvente.

A Aldeia testemunhou um verdadeiro arsenal de conflitos, pois o pior foi a invasão de Napoleão Bonaparte, que quase a destruiu.

Importantes acervos históricos muito transcendem como a Capela de Santa Maria e ruas muito apertadas entre Blocos graníticos onde cada centímetro conta. Cada viajante planeia em função de seus pulmões e a capacidade da caminhada. Todos os percursos são pedonais, sendo necessário calçados e roupas leves, água e alimentos para esta grande aventura.

As casas em Rocha por fora e pelo interior fazem brilhante o ambiente. A aldeia é um autêntico museu vivo recheado de Lendas e Mitos. É bastante deslumbrante a paisagem, devido à situação geográfica e Altitude.

Turistas não perdem de visitar este paraíso encantado que para sempre ecoará em vossas memórias.

Laura Moura Nunes

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O dia em que o silêncio venceu

Guilherme Machado

‘O dia em que o silêncio venceu’

Guilherme Cesar Machado de Araújo
Guilherme Machado
Imagem criada pela IA do Gemini, em 08/07/2026 - https://gemini.google.com/app/c3876b7bdd6b8064?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
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“A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito
foi confiado, muito mais será pedido.” (Lucas 12:48)

Era uma vez um país que parecia ter sido desenhado à mão por Deus.

Sua terra era fértil e produzia quase tudo.

Seus rios pareciam mares.

Suas florestas respiravam vida e guardavam riquezas que poucos lugares do mundo conheciam.

O sol visitava sua terra durante quase o ano inteiro.

A chuva caía na medida certa.

Seus campos produziam alimento.

Seu subsolo escondia riquezas.

Era uma terra que lembrava a antiga promessa de leite e mel.

Não conhecia terremotos capazes de engolir cidades.

Nem vulcões que escurecessem seus céus.

Nem furacões que apagassem sua história.

E naquela terra também vivia um povo tão abençoado quanto perseverante.

Trabalhava muito.

Inventava caminhos quando parecia não haver saída.

Ria com facilidade.

Cantava mesmo nos dias difíceis.

Caía.

Levantava.

Tinha o estranho dom de continuar acreditando depois de cada decepção.

Quando terminou sua criação, um anjo olhou para aquele lugar e perguntou:

— Senhor… não é privilégio demais para um só povo?

Deus sorriu.

— Espere até ver o que eles farão com tudo isso.

O anjo voltou os olhos para aquela terra.

Não compreendeu a resposta.

Compreenderia muitos anos depois.

O tempo passou.

O país cresceu.

Suas cidades se multiplicaram.

Como acontece com toda grande nação, também conheceu dias difíceis.

Vieram hospitais que já não conseguiam atender todos os que precisavam.

Escolas que esperavam por dias melhores.

Estradas que pareciam nunca terminar.

Promessas que se renovavam mais depressa do que eram cumpridas.

Escândalos que desapareciam da memória antes de desaparecerem da realidade.

Com o passar dos anos, aquele povo encontrou novas formas de dividir sua atenção.

Aprendeu a ouvir mais aqueles que confirmavam suas próprias certezas do que aqueles que apresentavam perguntas difíceis.

Passou a procurar culpados para todos os problemas e salvadores para todas as soluções.

Esqueceu que nenhuma nação é construída pelas mãos de uma única pessoa, nem destruída por apenas uma delas.

As mãos humanas podem conduzir caminhos, mas nunca constroem sozinhas o futuro de uma nação.

Criou muros entre pessoas que antes dividiam as mesmas ruas.

Enquanto discutiam quem estava certo, poucos percebiam que os mesmos problemas continuavam esperando.

Mas aquele povo também havia aprendido uma estranha forma de descansar.

A cada novo ciclo, acreditavam que agora as coisas mudariam.

E talvez essa fosse uma de suas maiores virtudes.

Ou uma de suas maiores fragilidades.

A cada quatro anos havia uma grande festa.

Durante noventa minutos, esqueciam os hospitais.

Esqueciam as escolas.

Esqueciam a violência.

Esqueciam os impostos.

Esqueciam as promessas.

Esqueciam até uns dos outros.

Enquanto a bola rolava, o país parava.

E parar era a única forma que conheciam de descansar.

Nas arquibancadas, abraçavam desconhecidos como irmãos.

Nos bares, erguiam copos em uníssono.

Dentro das casas, até as famílias desunidas sentavam-se lado a lado.

A grande festa não pedia nada.

Apenas que fechassem os olhos para todo o resto.

E eles fechavam.

Fechavam com tanta força que, por um instante, quase acreditavam que o país era aquilo:

Um campo verde.

Um hino cantado a plenos pulmões.

Um riso fácil diante da televisão.

Depois do apito final, o encanto se desfazia.

Mas durava o suficiente para aliviar o peso de mais quatro anos.

Com o tempo, a festa tornou-se tão importante que o próprio calendário aprendeu a respeitá-la.

Decisões esperavam.

Debates mudavam de data.

Promessas podiam aguardar.

Afinal, havia noventa minutos que ninguém ousava interromper.

Enquanto os olhos acompanhavam a bola…

Os problemas aprendiam a permanecer imóveis.

Não porque desaparecessem.

Mas porque quase ninguém os observava.

Um dia resolveram trazer a maior festa do mundo para dentro de casa.

Pintaram fachadas.

Ergueram monumentos.

Construíram arenas.

Prometeram que, quando tudo terminasse, o país seria diferente.

E talvez tenha sido.

Apenas não da maneira como imaginavam.

Descobriram que era mais fácil inaugurar arquibancadas do que esperança.

Mais fácil iluminar estádios do que bairros esquecidos.

Mais fácil preparar noventa minutos de espetáculo do que enfrentar décadas de abandono.

Naquele ano, porém, a festa ganhou o mundo.

Um povo escolheu abrir o espetáculo lembrando aqueles que atravessaram mares para construir sua história.

Cada remada era uma homenagem às raízes que ainda sustentavam a nação.

O outro escolheu celebrar o sucesso da estação.

Afinal, um povo sempre celebra aquilo que escolhe não esquecer.

Naquele ano, porém, a festa terminou cedo.

Pela primeira vez em muito tempo, não houve tempo suficiente para esquecer.

O apito final chegou antes que o encanto pudesse voltar.

E, quando a televisão foi desligada…

Os hospitais continuavam lotados.

As escolas continuavam esperando.

As ruas continuavam inseguras.

Os impostos continuavam altos.

As promessas permaneciam onde sempre estiveram: apenas nos discursos.

Foi naquele instante que a resposta dada ao anjo finalmente fez sentido.

Deus nunca havia perguntado apenas o que aquele povo faria com suas riquezas.

Perguntava o que faria com sua atenção.

Porque aquilo que um povo escolhe olhar todos os dias, pouco a pouco, também escolhe se tornar.

Um povo raramente perde seu futuro de uma só vez.

Primeiro, perde a capacidade de lembrar.

Depois, acostuma-se a esquecer.

E, quando já não consegue distinguir distração de esperança…

chama de descanso aquilo que apenas adiou.

Naquele dia…

o silêncio venceu.

“O meu povo foi destruído porque lhe
faltou conhecimento.” (Oséias 4:6)

Guilherme Machado

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