O preço do café gourmet

Eduardo Cesario-Martínez provoca o leitor com um jogo audacioso de sedução e rivalidade feminina onde o café gourmet surge como aperitivo

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Num corredor de supermercado junto à secção de cafés, um homem e uma mulher sorriem um para o outro com cumplicidade. O homem, à direita, segura um pacote de café em grão, enquanto a mulher, à esquerda, com cabelo escuro comprido e um casaco verde sobre uma blusa branca, o olha carinhosamente. Em fundo, prateleiras repletas de produtos e letreiros com as indicações "CAFÉS GOURMET" e "CAFÉS • CHÁS • CEREAIS".
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Geraldo não me chamou a atenção na primeira vez que o vi. Digo, talvez com uma nesga de remorso, que o achei feio. Melhor, não feio, mas desagradável. E não foi pelo dito, mas pelo olhar que julguei atravessado quando fomos apresentados no aniversário de um amigo em comum.

    Mal saí da festa, acompanhada por duas amigas próximas, fui enfática quando Lúcia e Rosa, já na calçada, começaram a tecer comentários elogiosos sobre aquele sujeito.

    — Vocês devem estar brincando.

    —  Como assim, Fabíola?

    — Aquele Geraldo é um horror, Lúcia.

    — Ah, me desculpe, mas ele é um tipão. Não é, Rosa?

    — Com certeza. Pena que está comprometido com a Márcia.

    — Com a Márcia?

    — Ué, Fabíola, ficou interessada agora?

    — Curiosidade, Lúcia, mera curiosidade.

    — Sei…

    Márcia Alves de Albuquerque. Uma metida desde os tempos de escola. Ela se achava a rainha da cocada preta. A safada me roubou o Lucas, meu primeiro namorado. Depois de alguns meses remoendo ódio por aqueles dois, tudo se evaporou em uma manhã de quinta ou sábado. Sobrou o rancor e nada mais. 

    Até hoje não sei o que me fez virar a chave em relação ao Geraldo. Quer dizer, sempre soube. Lindo, lindo, ele nunca foi, mas era o meu tipo, ainda mais depois que descobri que era o namorado daquela… Ah, da Márcia.

    Um olhar, talvez curioso, foi o primeiro sinal de que Geraldo estaria interessado em algo fora de qualquer coisa que ele tinha com a Márcia. Homens… Deixei os pudores guardados no fundo da gaveta de calcinhas beges e parti para o ataque. Não como guepardo naquela correria desvairada, mas como onça-pintada à espreita para dar o bote.

    Por um desses acasos tão corriqueiros em Brasília, encontrei o Geraldo no mercado aqui perto. Não necessariamente por acaso, já que ele mora no prédio em frente ao meu. Também notei que ele tem o hábito de fazer compras aos sábados, sempre por volta das três da tarde. E lá fui eu me fazer ser notada pela presa.

    Assim que entrei no mercado, fingi interesse em alguns produtos até que a minha visão lateral detectou o meu alvo. Lá estava o Geraldo na seção de café. Um apreciador da bebida nacional? E eu que o imaginava enchendo a cara para aplacar o desgosto de se relacionar com a Márcia. 

    Aproximei-me como se procurasse uma marca específica. Quando estava a poucos centímetros do Geraldo, dei aquela sacudidela nos cabelos, os meus fios negros lamberam o seu ombro. Será que ele sentiu o frescor da minha pele? Não sei, nunca lhe fiz tal pergunta. 

    Fixei meus olhos em um pacote e o tomei em minhas mãos.

    — Bela escolha.

    Certa de que ele se lembraria de mim, aguardei por míseros segundos. Nada. Nem sequer um olhar de que já havíamos sido apresentados. E não seria eu a entregar a isca de mão beijada.

    — O quê?

    — Adoro esse café.

    — Ah… É o que sempre levo.

    — Sou o Geraldo. E você?

    Ele estendeu a mão e esse foi o nosso segundo cumprimento no espaço de dois meses. Sorri simpatia, o que pareceu aguçar o desejo do homem. Já estava no papo, a questão, a partir daquele momento, era fazer com que aquilo não se tornasse apenas um caso.

    — Fabíola.

    Olhei para ele, inclinei levemente o rosto para o lado e sorri. Como foi bom todo aquele sofrimento usando aparelho nos dentes durante a adolescência. Obrigada, mamãe. Obrigada, Dr. Fabrício. Em seguida, eu me despedi com um breve aceno, fui em direção ao caixa e descobri que café gourmet é caríssimo.

    Passei o resto do dia aprendendo sobre café, quais os tipos, como preparar sem deixar aquele gosto de queimado. Ih, quando fui me deitar, já me sentia a maior especialista no assunto. E o meu paladar se tornou mais exigente, tanto é que, já na semana seguinte, não suportava o café do meu trabalho. 

    — Fabíola, tu é mesmo uma fresca!

    — Desculpe aí, Soraia, não é todo mundo que nasce com bom gosto.

    Soraia, a minha chefe, me olhou de cima abaixo. Por que fui falar aquilo? Ah, por que se lamentar depois que o leite foi derramado? Por sorte, ela sorriu. Na certa, melhor atriz do que eu. Ih, muito melhor!

    Para apaziguar qualquer possível desavença, no dia seguinte, levei um pacote do meu precioso café gourmet para a Soraia. 

    — Não é que você estava mesmo certa, Fabíola?

    — Não disse?

    — Pois é, Fabíola, disse mesmo. Não é à toa que você é a minha cretina favorita.

    Cretina favorita? Foi aquilo mesmo que ela disse? Foi aquilo mesmo que chegou sem qualquer pudor aos meus ouvidos? Sorri e as pazes pareceram seladas. 

    Emprego salvo, voltei a me concentrar no meu objetivo: roubar o Geraldo da Márcia. E o próximo passo se deu no sábado seguinte quando, por acaso provocado, esbarrei novamente com o meu alvo no corredor do café gourmet. Entre sorrisos, trocamos dicas sobre o preparo dessa bebida dos deuses africanos. 

     Durante a semana, tentava ao máximo manter a mente focada no serviço. Como é difícil deixar de pensar em algo que desejamos para não perder o nosso ganha-pão. Seja como for, resisti até o quinto encontro fortuitamente calculado no mesmo mercado ao sabor de café gourmet. 

    — Fabíola, há tempos quero te fazer um convite.

    — Convite?

    — É.

    — Que convite é esse?

    — Quero preparar uma xícara de café.

    — Hum…

    Antes que você imagine que sou do tipo fácil… Bem, a verdade é que o Geraldo me preparou não apenas uma xícara, mas um bule inteiro de café gourmet antes de nos entregarmos aos prazeres da carne durante meses. E aconteceu de uma maneira inesperada, pelo menos para mim. 

    — Fabíola, estou apaixonado.

    — Mas e a sua noiva?

    — Eu quero deixá-la. Eu te amo de verdade.

    — Não. Não faça isso. 

    — Mas…

    Como foi bom colocar a ponta do meu indicador nos lábios do Geraldo. Já vi isso em alguns filmes e sempre quis fazer o mesmo. Provoca um sentimento de poder. E não quero perder isso. Amo roubar o gosto gourmet daquela boca. E haja café para sustentar tanta disposição.

Eduardo Cesario-Martínez

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A promessa de qualquer caminho

Um conto sensível sobre a liberdade, a história e o cotidiano, inspirado na canção ‘Any Way You Want It’ (1980) do Journey – por Clayton Alexandre Zocarato

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Naquela noite, a música atravessou a janela como se soubesse o seu caminho. Vinha do rádio pequeno, de antena torta, apoiado sobre a geladeira, e ocupava a cozinha com uma confiança que ninguém ali possuía. “Any Way You Want It”, dizia o título, e para a menina sentada junto à mesa aquelas palavras pareciam menos uma promessa de amor do que uma ordem dirigida ao futuro: escolha, mova-se, seja.

Lá fora, o bairro seguia escuro, com seus postes falhando e seus portões fechados; dentro de casa, porém, o refrão abria uma estrada que não constava nos mapas. Ela não sabia ainda que toda liberdade cantada tem uma fronteira, nem que o desejo de escolher pode conviver com estruturas que escolhem por nós. Sabia apenas que a guitarra fazia o mundo parecer maior do que a sala.

Era o começo dos anos 1980, e o mundo parecia oscilar entre a promessa e o medo. Nos Estados Unidos, a eleição de Ronald Reagan, em 1980, anunciava uma década de conservadorismo político e de valorização do mercado; a Guerra Fria continuava a organizar o imaginário, como uma sombra extensa projetada sobre qualquer esperança de paz. 

A inflação, o desemprego e as tensões internacionais faziam da estabilidade uma palavra desejada e, para muitos, distante. Ao mesmo tempo, as rádios difundiam canções que falavam de movimento, prazer, juventude, escolha. 

O rock oferecia uma sensação de desobediência que cabia num disco, numa jaqueta de couro, numa noite de dança. A liberdade parecia estar ali, na voz que não pedia licença para existir. Mas o som não apagava as desigualdades; apenas lhes dava, por alguns minutos, uma trilha sonora.

No Brasil, a esperança tinha outro peso. A ditadura militar ainda não havia terminado, embora a abertura política estivesse em curso, marcada por avanços, recuos e disputas. A censura deixara cicatrizes nas palavras, e a vida pública era atravessada pela cautela: havia frases interrompidas antes de chegar à mesa, notícias escutadas com atenção, silêncios que os adultos chamavam de prudência. 

A menina percebia esse clima sem conhecer seus nomes. Via no rosto da mãe a preocupação com as contas, no pai a raiva contida diante das notícias, nos vizinhos a conversa que mudava de rumo quando alguém se aproximava. A canção estrangeira, com sua energia luminosa, chegava como uma fresta. Não explicava o país, mas fazia imaginar um lugar onde o corpo pudesse decidir o próprio passo.

“Any way you want it”: de qualquer jeito que você quiser. Naquela frase curta, ela ouvia uma espécie de utopia pessoal. Não a liberdade dos discursos oficiais, feita de palavras solenes, mas uma liberdade miúda: poder escolher uma roupa, atravessar a rua sem medo, gostar de alguém sem pedir autorização ao mundo inteiro. 

O futuro, para ela, não era uma teoria; tinha a forma de uma cidade vista de longe, com luzes acesas e portas abertas. Mais tarde, aprenderia que a frase também podia ser lida como produto: a escolha oferecida pelo mercado, limitada às opções que alguém já preparou. Herbert Marcuse havia advertido que uma sociedade pode absorver a contestação e transformar o desejo de liberdade em consumo, oferecendo satisfações que não alteram as estruturas da vida (MARCUSE, 1964). Mas naquela cozinha ninguém discutia teoria. A música começava, e a menina dançava.

Ela dançava sem técnica, com os braços abertos e os pés descalços, como se pudesse desatar os nós que os adultos carregavam nos ombros. A mãe fingia que estava ocupada com a louça, embora sorrisse quando pensava que ninguém via. O pai, sentado perto da porta, acompanhava o ritmo com os dedos sobre o joelho.

Por instantes, os três eram menos uma família apertada por dificuldades do que três pessoas dividindo uma possibilidade. A canção não os libertava do aluguel, da instabilidade nem da história política que avançava por cima das suas vidas. Ainda assim, fazia alguma coisa importante: devolvia-lhes a percepção de que eram mais do que suas obrigações.

Michel Foucault escreveu sobre as formas pelas quais o poder atravessa os gestos cotidianos, moldando comportamentos e definindo o que parece possível (FOUCAULT, 1979). 

Talvez por isso dançar fosse também um gesto de resistência: não porque derrubasse o poder, mas porque recusava, por um momento, ser reduzida ao medo.

Na escola, a liberdade tinha outro vocabulário. Era uma palavra presente nos livros e ausente de certas conversas. Os professores falavam de datas, governos e civismo; alguns, porém, encontravam maneiras discretas de ensinar a fazer perguntas. A menina ainda não compreendia a dimensão política de uma pergunta bem colocada. Sabia apenas que havia respostas que pareciam prontas demais e que a realidade, quando observada com cuidado, nunca cabia inteira nelas. Em casa, os adultos falavam de mudança. A campanha pelas Diretas Já, em 1984, levaria multidões às ruas em defesa do voto direto para presidente; em 1985, o regime militar chegaria ao fim, e a Constituição de 1988 afirmaria novos direitos.

Os acontecimentos pareciam grandes demais para uma criança, mas ela os reconhecia no tom das conversas, na emoção de quem voltava das manifestações, no modo como a palavra “amanhã” começava a ser pronunciada com menos desconfiança.

A música continuou acompanhando os anos, sem pertencer inteiramente a eles. Reaparecia em festas, em rádios de carros e em lembranças inesperadas. A menina cresceu, mudou de bairro, estudou, trabalhou, amou e aprendeu que a vida não oferece escolhas em condições iguais. Para alguns, o caminho se abre com facilidade; para outros, cada porta exige uma prova de resistência.

A ideia de que basta desejar para conseguir pode ser cruel quando transforma obstáculos sociais em falhas individuais. O desejo, contudo, não se torna inútil por isso. Ele pode iluminar a distância entre o mundo existente e aquele que ainda precisa ser construído. A liberdade não é só fazer o que se quer: é também dispor de condições reais para escolher, participar e existir sem que a pobreza, a discriminação ou a violência decidam tudo de antemão.

Quando chegou o novo século, a promessa de escolha mudou de cenário. A vitrine já não ficava apenas nas lojas: cabia numa tela, cabia na palma da mão. As pessoas passaram a apresentar versões editadas de si mesmas, reunindo imagens, opiniões e pequenas provas de felicidade. 

O mercado aprendeu a falar a língua da autonomia: compre, personalize, expresse-se. A tecnologia aproximou vozes e encurtou distâncias, mas também tornou a atenção uma mercadoria disputada e a intimidade uma superfície exposta. A escolha parecia infinita; o tempo, cada vez menor. Zygmunt Bauman descreveu uma modernidade em que vínculos e certezas se tornam mais frágeis, enquanto os indivíduos são pressionados a administrar sozinhos os riscos de uma vida instável (BAUMAN, 2000). 

A velha utopia da canção permanecia, mas agora ecoava entre notificações, comparações e a ansiedade de estar sempre disponível.

A mulher que um dia dançara na cozinha observava esse presente com uma mistura de curiosidade e cansaço. Via jovens capazes de falar publicamente sobre direitos que sua geração aprendera a discutir com cautela. Via também discursos de ódio se espalharem com a velocidade de um clique e a desigualdade persistir sob formas que pareciam novas, embora carregassem histórias antigas. 

Pensava que a liberdade de expressão não significava que todas as vozes fossem igualmente ouvidas; a liberdade de escolher não anulava as barreiras que limitam certas escolhas; a liberdade de circular não era igual para todos. O sociólogo e filósofo não precisavam estar ao seu lado para que ela percebesse o problema. Bastava olhar para as ruas, para as diferenças entre os bairros, para quem podia errar sem perder tudo e para quem era punido por simplesmente ocupar espaço.

Em algumas noites, ela voltava a pôr a canção. O som tinha agora uma textura de memória: a guitarra parecia vir de muito longe, e a voz, de uma parte de si que não envelhecera por completo. Já não escutava a promessa como uma garantia de que tudo seria possível. 

Escutava-a como desejo, e talvez o desejo fosse mais honesto do que a promessa. Marcuse ajudava a pensar que uma sociedade verdadeiramente livre não se contentaria em oferecer prazer como mercadoria; precisaria transformar as condições que produzem a necessidade e a opressão. Paulo Freire, por sua vez, lembrava que ninguém se emancipa sozinho nem recebe a liberdade como presente: ela se aprende na relação com os outros, na leitura crítica do mundo e na ação coletiva (FREIRE, 1996).

A canção não dizia isso em palavras. Mas podia acompanhar esse pensamento, como uma luz que não revela tudo e, mesmo assim, impede a escuridão de parecer natural.

Talvez por isso a menina, agora adulta, tenha compreendido que a utopia não é uma fotografia de um futuro perfeito. É uma tensão dentro do presente, uma recusa a aceitar que as coisas devam permanecer como estão.

A liberdade cantada pelo Journey tinha o brilho de uma juventude que queria mover-se sem pedir desculpas; vista de hoje, ela também revela os limites de uma cultura que tantas vezes confunde autonomia com consumo e felicidade com desempenho. Não era preciso condenar a canção por isso. A música não tinha obrigação de oferecer um programa político. Bastava reconhecer o que ela despertara: a sensação de que a vida não precisava ser apenas repetição, de que o corpo podia desejar mais do que lhe haviam permitido imaginar.

Na última vez em que dançou ao som do rádio, a mulher percebeu que o gesto já não era o mesmo. Seus joelhos reclamavam, a cozinha tinha outras marcas, e muitas pessoas queridas já não estavam ali. Ainda assim, quando a guitarra tomou o espaço, alguma coisa se abriu.

Não era a mesma porta de antes; era uma porta construída com memória, lucidez e um pouco de coragem. Do lado de fora, o mundo continuava desigual, cheio de ruídos e promessas não cumpridas. Do lado de dentro, por alguns minutos, ela voltou a sentir que podia escolher o próximo passo. Não qualquer passo, nem em qualquer condição, mas um passo seu, consciente de que a liberdade individual depende também da liberdade dos outros.

Quando a música terminou, o silêncio não pareceu uma derrota. A mulher desligou o rádio e permaneceu imóvel por um instante, escutando a noite. Pensou nos anos 1980, na esperança política que saíra às ruas, no medo que ainda sobrevivia dentro das casas e na energia de uma canção que cruzara oceanos para pousar numa cozinha brasileira. Pensou também no presente, que oferece ferramentas novas sem resolver as antigas injustiças. 

Talvez nenhuma geração receba a liberdade pronta. Talvez cada uma precise reconhecê-la, disputá-la e ampliá-la, sem confundir uma promessa sonora com a realidade inteira. 

Do outro lado da janela, uma luz se acendeu. A vida continuava, imperfeita e aberta, e nela ainda cabia a possibilidade de escolher, junto com os outros, um caminho menos estreito.

Clayton Alexandre Zocarato

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Retratos de tia Gertrudes

Uma misteriosa figura familiar e sua persistente recusa em dividir os retratos do passado

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Uma cena rústica e nostálgica vista de perto. Sobre uma mesa de madeira envelhecida, encontram-se dois grandes álbuns de recortes abertos que exibem fotografias antigas a preto e branco de várias pessoas. Sobre a mesa estão também espalhados uma fotografia solta de uma mulher, uns óculos de leitura, um pequeno ramo de folhas secas, um bilhete com texto manuscrito, um naperão de renda e uma chávena. Ao fundo, uma janela de madeira rústica e aberta enquadra uma paisagem campestre serena com colinas verdes, palmeiras e algumas casas sob um céu ligeiramente nublado.
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Tia Gertrudes pouco conheci. Quer dizer, ainda guardo lembranças enevoadas daquela figura o quão taciturna pode ser alguém cuja magreza ultrapassasse as parcas carnes. Rabugenta que fosse, continuava da família. 

    Solteirona, vovó costumava dizer sobre a primogênita. Entretanto, a minha tia se recusava a carregar rótulos impostos pela sociedade, especialmente aqueles reverberados pelos lábios da própria mãe.

    — Livre, mamãe. Livre!

    — Você nasceu mulher, Gertrudes. Mulheres não são livres, jamais serão. É sina. Melhor que se aprume antes que seja tarde demais.

    Minha avó tinha lá suas ideias, a maior parte reproduções do que aprendera, seja nos parcos anos nos bancos escolares, seja nas cacetadas que levou na lida com os homens. Não a culpo nem a eximo, coisas que não vivi por completo.

    Talvez o hábito mais marcante de tia Gertrudes fosse a relutância em se deixar fotografar ao lado de quem quer que fosse, inclusive de parentes mais próximos e, em especial, de namorados de ocasião. Certa feita, fui eu o preterido.

     — Mas, titia, sou eu, seu sobrinho favorito.

    — A gente nunca sabe o dia de amanhã, Marquinhos.

    É engraçado quando alguém me visita e eu, quando a prosa é boa, resolvo lhe mostrar alguns álbuns de família. Vez ou outra, um observador mais atento fica intrigado com aquela figura isolada em inúmeros retratos.

    — É a tia Gertrudes, irmã de papai.

    — E por que ela sempre aparece sozinha?

    De vez em quando, sinto que algum espírito brincalhão me baixa e cisma em brincar com as verdades. 

    — Ah, é que a tia Gertrudes não gostava de ofuscar ninguém com a sua beleza estonteante.

    Até hoje, ninguém ousou contrariar a minha resposta, que segue como veredito de um tempo que passou mais rápido do que eu esperava. Dizer que tia Gertrudes pudesse ofuscar alguém com a sua aparência pode parecer um absurdo, e não travo imbróglios desnecessários contestando tal hipótese. O que importa, o que importa de verdade é que ela, apesar de não estar há anos entre nós, continua sendo da família.

Eduardo Cesario-Martínez

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Vekinha mineirinha virou princesa!

Descubra, com Verônica Moreira, o que acontece quando o jeitinho mineiro de uma menina sonhadora cai para dentro das páginas de um clássico conto de fadas

Verônica Moreira
Verônica Moreira
Capa do livro infantil "Vekinha: A mineirinha que virou princesa", de Verônica Moreira. Ao centro, uma jovem princesa sorridente com vestido cor-de-rosa e coroa dourada, cercada por gnomos de jardim, com um castelo ao fundo.
Imagem criada pelo ChatGPT

Era uma vez…

Na cidade de Caratinga (Minas Gerais), havia uma menina muito bonita e simpática chamada Vekinha, todos a conheciam e sabiam o quanto ela era sonhadora. Chamavam-na de Mineirinha, porque ela tinha o dom de cativar a todos com seu jeitinho mineiro de ser.

Vekinha tinha um sonho lindo: sonhava ser uma princesa bailarina e ter asas cintilantes como de borboletas. Isso, porque ela queria voar muito alto, tão alto quanto pudesse. Ela queria conhecer melhor a cidade onde vivia.

Ela nunca havia subido no topo das montanhas, e havia um lugar que ela adoraria conhecer de perto: o topo da pedra Itaúna.

Sempre ouviu seus irmãos dizerem que era o lugar mais alto da cidade e, lá de cima, dava pra ver todas as belezas da região; a praça das palmeiras, o coreto do jardim, o monumento Menino Maluquinho e até a estátua do cantor caratinguense Agnaldo Timóteo.

Acontece, que Vekinha era muito sonhadora, e isso é o que movia seu coraçãozinho. “Afinal” – pensava ela -, “tudo que eu quiser, eu posso fazer, basta eu acreditar que é possível!”

Vekinha gostava muito de sua amiga Kaká. Elas se divertiam e trocavam livros. Amavam ler histórias de fada e princesas, rainhas e reis, barões e baronesas e todas essas histórias de realeza.

Elas decidiriam ir à biblioteca Municipal de Caratinga e pegar um livro muito interessante que fala de uma princesa que se chama Branca de Neve. A pobre princesa do livro foi vítima de inveja de sua madrasta malvada.

Às meninas decidiram ler o livro para depois compartilhar a história e o que aprenderam. Isso, porque, ao ler uma história, cada pessoa tem uma interpretação daquilo que leu.

Vekinha chegou em casa com o livro na mão e disse para sua mamãe Conceição:  − Mamãe, vou começar a ler este livro da Branca de Neve e os Sete Anões. Vou para o meu quartinho e não quero ser interrompida, tá certo?

A mãe de Vekinha ficou feliz, afinal, a leitura desenvolve a criatividade, a forma argumentativa, melhora nossa comunicação e ainda nos ajuda a compreender muitas coisas.

− Ah, Vekinha! Claro que você pode ficar no seu quanto, vou cuidar para que ninguém a incomode.

No seu quarto, Vekinha começou a ler a história, cheia de acontecimentos curiosos. Ela chegou na parte em que o caçador corre atrás de Branca de Neve na floresta e, de repente, no decorrer da leitura, Vekinha pegou no sono e deixou o livro cair no chão …

O quarto da menina se transformou em um cenário estranho. Havia uma floresta com uma casa bem pequena. Na casa moravam sete anões, sete homenzinhos simpáticos.

Vekinha se levantou da cama e caminhou até a porta da casinha pequena. Quando entrou numa sala muito apertadinha, viu um dos homenzinhos deitado no sofá. Ela se aproximou e percebeu que ele estava bravo. Muito bravo! Tanto, que seu rosto  ficou vermelho, como se fosse soltar fogo pelas ventas.

Vekinha perguntou: − Olá, nobre senhorzinho, poderia me dizer por que você está bravo assim?

O pequeno homem lhe respondeu:

 − Claro que posso! É que acabei de chegar em casa e mais uma vez deu tudo errado! Todos os dias pela manhã, eu subo para escalar a pedra Itaúna e, às vezes, uso cordas para tentar chegar ao topo, mas ao chegar quase lá, fico totalmente frustrado, pois minhas pernas são curtinhas e sempre permaneço a um passo para chegar e as cordas nunca são suficientes Acredito que eu preciso de uma ajudinha.

Vekinha compreendeu e disse para o anão que, dá próxima vez, iria com ele para ajudá-lo.

O anão agradeceu e perguntou o que ela estava fazendo ali.

−  Estou apenas lendo este livro e, de repente, vim parar aqui dentro dessa história! − respondeu, ainda confusa com aquela situação.

Vekinha perguntou:

− Qual é o seu nome?

Ele disse:

− Zangado, menina. E o seu nome?

− Meu nome é VEKINHA, senhor anão

− Seja muitíssimo bem-vinda, menina! Gostei de você!

− Ah, obrigada senhor Zangado, também gostei de conhecê-lo, mas você poderia me dizer como faço pra voltar pra minha casa?

− Pra voltar para a sua casa eu não sei menina, mas você pode passar a noite aqui e me ajudar a escalar a pedra Itaúna amanhã. Se eu conseguir, prometo que a ajudo a voltar para casa.

Vekinha achou melhor não contrariar o anãozinho, porque, afinal, ele já estava zangado.

− Combinado… Eu fico aqui e amanhã bem cedo o ajudo. Vekinha ficou surpresa, pois não imaginava que numa floresta tão grande poderiam alcançar aa pedra Itaúna qu, até então só existia em sua cidade. Será só uma coencidência? Pensou ela…

De repente, Vekinha ouviu um ronco muito alto vindo da varanda da casinha e foi se aproximando para ver o que era. Avistou outro homenzinho, outro anão. Assustada, ela exclamou:

− Outro homenzinho!

Zangado disse a ela que não precisava ter medo, o anão era seu irmão, Soneca, que vivia dormindo por todo lugar, pobrezinho, mal conseguia trabalhar, pois vivia com sono. Vekinha achou melhor não acordá-lo, mas ele deu um pulo como se estivesse fingindo, e questionou:

− Quem é essa menina estranha? De onde veio essa criatura?

Zangado respondeu:

− Calma, Soneca, é só uma amiguinha que acabei de conhecer e que vai se hospedar aqui em casa até amanhã de manhã!

Como zangado era muito bravo, Soneca não o contrariou.

− Tá bom, pode ficar menina, mas não faça barulho, porque eu preciso dormir.

Vekinha saiu de fininho, “pé por pé” e viu uma porta que levava para um corredor. Viu uma cadeira de balanço e nela estava mais um homenzinho. Ela se aproximou, enquanto ele acariciava um gatinho, e perguntou:

− Você gosta de animaizinhos?

O homenzinho, assustado, pulou da cadeira e disse:

− Quem é você?

Vekinha chegou bem perto, acariciou sua barba enorme, e esclareceu:

 − Não se assuste, amiguinho, eu sou hóspede do senhor Zangado, e o vi sentado na cadeira. O senhor parecia tão bonzinho, que deu até vontade de lhe dar um abraço.

Dengoso se derreteu todo e, com às bochechas avermelhadas, disse a Vekinha:

 − Ah, menina! Perdoe esse meu jeito desajeitado. Pode ficar à vontade. Sinta-se em casa. Mas eu posso fazer um pedido?

− Claro que sim, senhor!

− Poderia fazer um cafuné na minha barba?

Vekinha se aproximou novamente e o acariciou com suas mãos de fada.

Dengoso ficou todo empolgado com o jeitinho doce da hóspede e a convidou para tomar um café. Foram à cozinha e, chegando lá, encontraram mais dois anões, que, ao vê-la, deram um salto da mesa e, com olhos arregalados, perguntaram:

− Quem é essa criatura desengonçada?

 Vekinha se chateou, e questionou:

− Desengonçada, eu? Respeitem-me, por favor! Sou apenas uma menina do interior, não precisam me ofender. Desengonçada eu não sou!

Dengoso, tomando as dores da menina, disse aos irmãos:

− Calma gente, essa é a Vekinha, ela veio parar aqui por acaso, mas não tem onde dormir. Podemos hospedá-la esta noite, afinal, lá fora está muito frio, e olhem como ela é frágil, pode pegar um resfriado e morrer!

Os irmãos concordaram, e responderam:

– Então tá bom, mas somente esta noite, mas temos uma condição: você fica, mas vai preparar o jantar…

Vekinha respondeu:

− Eu faço o jantar, não tem problema! 

De repente, o homenzinho soltou um espirro: atchim!

−  Você está gripado ? − perguntou Vekinha. − Quer que eu faça um chá?

O anão respondeu:

− Não precisa de chá, eu me chamo Atchim, e por isso eu espirro assim!

−  Ah, prazer, senhor Atchim!

− O prazer é todo meu, querida! Agora você pode se sentar que eu mesmo irei servir o seu café.

Vekinha se sentou e, percebendo que o outro anão estava muito calado, decidiu perguntar o seu nome:

−  Como você se chama?

O homenzinho respondeu. morrendo de rir:

−  Eu sou o Feliz, e estou muito contente por tê-la aqui na nossa casa. Vou até cantar uma música para alegrá-la:

Vekinha feliz, lá,lá lá lá lá!…

Se quiser podemos dançar!!

Me concede essa dança, princesa?

Vekinha ia se levantar para dançar com seu feliz cavalheiro anão, quando, de repente, ouviu um grito:

− Nem pensem em levantar-se dessa mesa! Não é hora de jantar. Vamos tomar o nosso café, porque precisamos trabalhar bem cedo. E você, mocinha, precisa cozinhar, portanto, tome logo esse café!

− Quem é você, senhor? −  perguntou Vekinha.

− Eu sou o Mestre. Aqui ninguém faz nada sem minha permissão, e eu não dei permissão para você dormir aqui, exceto se você me pedir com muito jeitinho. Aliás, implore!

− Eu não vou implorar! −  disse Vekinha.

− Então, vá embora! – gritou Mestre, bravo.

O outro anão ouvia a conversa e veio do quintal, dizendo:

−  Acalme-se Mestre! Nós não podemos deixar esta menina solta na floresta, pois as feras podem devorá-la, e isso seria muita maldade da nossa parte. Devemos dar abrigo a esta menina, mas somente esta noite!

Todos concordaram, e Vekinha agradeceu o simpático senhor anão, perguntando seu nome.

Ele disse: meu nome é Dunga. Seja muito bem-vinda à nossa casinha, e agora vamos tomar café.

− Certo. E onde está a cafeteira?  − perguntou Vekinha. Porém, quando, olhando para a pia, percebeu que o café foi coado numa meia suja e “chulezenta”, disse imediatamente:

− Eu não vou tomar esse café e nem vocês irão! Vou fazer um café novo, mas antes me arrumem uma agulha e um pano limpinho.

Os anões buscaram agulha, linha e um pano limpo. Vekinha cortou com a tesoura e fez um coador de café, costurou e, finalmente terminando a obra, foi até o fogão, ferveu a água e passou o café no coador novinho que fez para os anões. Eles ficaram muito gratos e, juntos, beberam aquele delicioso café, feito pelas mãos de uma mineira de “mão cheia”.

Vekinha nasceu no interior de Minas Gerais, na cidade que ela amava e que se chamava Caratinga. A cidade era conhecida por ser uma região muito importante para a produção do café, e, por isso, todos amam o café mineiro.

Os anões ficaram tão felizes, que convidaram Vekinha para morar com eles para sempre, mas Vekinha agradeceu dizendo que ama muito sua família e não poderia ficar longe nem um dia mais.

Os anões compreenderam e fizeram de tudo para agradar a menina, afinal, nunca haviam provado um café tão saboroso quanto o café de Vekinha.

A noite veio chegando e, enquanto Vekinha cozinhava um guisado de chuchu com pedacinhos de carne de boi, arroz, feijão preto e um anguzinho à moda mineira, os anões ficaram cheios de água na boca com o cheirinho da comida de Vekinha, que fez todo com muito amor, afinal, os anões a tratavam com muito carinho; inclusive, arrumaram a melhor cama da casa para ela pernoitar.

E chegou o grande momento! Vekinha chamou todos para jantar, deliciando-se com aquele guisado. Depois que estavam todos de barriga cheia, Vekinha leu uma história muito bonita sobre um “Menino Maluquinho”, personagem do livro de Ziraldo Alves Pinto, que foi um grande escritor e cartunista que morou na cidade de Vekinha, na amada Caratinga.

Os sete anões ficaram deslumbrados com a história e queriam ouvir mais histórias, mas Vekinha já estava morrendo de sono. Quando, finalmente, adormeceu no sofá, os anões, com muita dificuldade por serem muito pequenos, levaram-na pra cama e a deitaram, indo cada um pra sua caminha, pois, no dia seguinte, teriam que trabalhar bastante e Vekinha precisava voltar para sua casa.

Os anões, por sua vez, ficaram imaginando como seria essa cidade de Vekinha, sabiam que a culinária era maravilhosa, já que nunca haviam provado uma comida tão saborosa como a dela. Dormiram, sonhando com a possibilidade de um dia poderem conhecer mais dessa cidade maravilhosa.

No dia seguinte, Vekinha acordou cedo e fez novamente o café, mas percebeu que os anões não estavam em casa. Saiu pela floresta, gritando: Mestre! Dunga! Atchim! Soneca! Feliz! Dengoso! Zangado! Cadê vocês todos! Venham tomar café!

Os anões desceram da montanha às pressas e foram ao encontro de Vekinha, tomaram o café e comeram pão de queijo que acabavam de sair do forno, sairam satisfeitos com tamanha gostosura e disseram pra Vekinha  ficar quietinha dentro de casa até o horário do almoço, que eles voltariam para ajudá-la a ir pra casa dela.

Disseram ainda:

− Vekinha, não abra a porta para ninguém, não temos amigos por aqui, mas temos um inimigo, na verdade, uma bruxa muito má que tentou matar a Branca de Neve. Isso foi há muito tempo. Branca de Neve também era nossa hóspede, e igualmente perdida na floresta e a bruxa veio, disfarçada como uma velhinha e deu uma maçã envenenada para ela, de modo que, ao comer a maçã, Branca de Neve entrou em um sono profundo. Todavia, graças a um príncipe que a beijou, o feitiço da bruxa foi desfeito e a Branca de Neve se casou com o príncipe e foi feliz para sempre!

Portanto, VEKINHA, como a Branca de Neve foi morar no reino com o príncipe, nós iremos adotar você como nossa princesa!

Vekinha se sentiu muito emocionada, de forma que às lágrimas de felicidade começaram a escorrer por sua face. Os anões a abraçaram e eles se alegraram juntos. Vekinha, então, disse para os anões que não se preocupassem, pois ela nem gostava de maçã; ela amava comer  era amoras e ficaria atenta caso alguém quisesse lhe oferecer algo para comer.

Os anões foram até a floresta e fizeram uma coroa para Vekinha com folhas de amoras. A coroa ficou linda e Vekinha ficou muito feliz por ter sido coroada como Princesa do Reino da Floresta e protetora do meio-ambiente e  das riquezas culturais de sua Minas Gerais.

Os sete anões voltaram ao trabalho e Vekinha resolveu deitar e dormir um pouco. Adormeceu rapidamente ouvindo o cantar dos passarinhos na janelinha do quarto dos anões. De repente, ouviu um grito: Vekinha!!!

− Acorda menina, você já está atrasada pra ir pra escola, deve ter lido o livro inteiro durante a noite, não é possível!

Vekinha acordou, olhou em volta e não viu mais a casinha na floresta. Percebeu que já estava novamente em casa e que precisava se apressar, pois queria contar pra sua amiga Kaká o que havia acontecido com ela naquela noite. Era como se ela tivesse entrado naquela história.

Feliz com o que aconteceu, Vekinha indagou: “será que fui mesmo coroada e agora sou uma princesa?” Ao sair às pressas, Vekinha tomou uma xícara de café na cozinha e se despediu da mãe,  com a mochila e o livro na mão.

A mãe perguntou:

− Conseguiu ler o livro todo, Vekinha?

− Não mamãe, eu não li o livro todo, mas pude viver uma grande aventura com o pouco que li, mas depois te conto tudo! Bença, mamãe. Tô indo pra escola; ah, se encontrar uma coroa com folhas de amoras, a senhora guarda pra mim com muito carinho. Até mais, mamãe. Até mais, amiguinhos! 

Verônica Moreira

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Taxa extra: conto de Eduardo Cesario-Martínez

Uma taxa extra leva o orçamento e a sanidade de um condomínio ao limite, transformando um pensamento sombrio em uma macabra coincidência real

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Uma fotografia autêntica, tirada na altura dos olhos, de um homem mais velho com cabelos grisalhos e um suéter azul, sentado em uma mesa de fórmica de meados do século e olhando para a câmera com uma expressão calorosa e sorridente. Ele está em uma cozinha compacta e acolhedora, com armários brancos simples e utensílios de cozinha. Na mesa à sua frente há uma caneca de café de cerâmica em suas mãos, uma tigela, uma caixa de leite azul e branca e um guardanapo amassado ao lado de um pano dobrado. A luz natural suave entra por uma janela ao fundo, e uma estante cheia de livros está parcialmente visível à direita. A atmosfera é confortável e natural.
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Taxa extra. Reunião de condomínio é ringue sem regras no escuro. Que até a mais elevada das almas perde as estribeiras, ninguém duvida.

    — Ninguém aguenta, Eleonora!

    — É o jeito, José. Você bem sabe que sou a última a querer taxa extra.

    — Última? Eleonora, me poupe!

    — Não precisa apelar pra ironia, Márcia. Fale na cara!

    — Hum! É a verdade!

    — A sua verdade, você quer dizer, né, Márcia?

    Ernesto, ao fundo da sala, tentou controlar a língua para não arrumar imbróglios particulares. Já bastavam os coletivos. Taxa extra. Ele pensou no que poderia cortar nas despesas. De cara, trocaria o café, uma marca popular. E nada de almoçar fora. Levaria marmita para o trabalho.

    — Então, meus amigos, o valor vai ser de duzentos e cinquenta e três reais.

    — Dividido em quantas prestações?

    — São dez parcelas de duzentos e cinquenta e três reais, Jorge.

    — Não vai dar.

    — O que não vai dar, Jorge?

    — Você sabe que vivo da aposentadoria, Eleonora?

    — Sorte a sua.

    — O quê? Tá zombando da minha cara?

    — E eu, Jorge, que nunca vou me aposentar? Como é que fico?

    Não teve conversa. A taxa extra foi imposta. 

    Ernesto foi um dos últimos a deixar o recinto. Muito burburinho para nada. Leite. Sim, o homem cortaria também o leite. Há muito não usava fraldas. Leite pra quê? Não era bebê.

    No elevador, Ernesto ouviu a indignação de Márcia e Lindaura. Vez ou outra, as moradoras encaravam o sujeito, talvez na esperança de incentivo. Nada! Nem mesmo uma mísera vogal.

    A porta do elevador se abriu. As mulheres saíram sem se despedir. E, antes que a caixa de transporte prosseguisse a viagem, Ernesto ouviu parte da conversa, que parecia se desenrolar pelo corredor.

    — A minha vontade era matar a Eleonora.

    — Márcia!

    — E não é?

    — Pois estou nessa contigo, amiga.

    O quê? Aquilo era sério? Ernesto pareceu estupefato. Que Eleonora era uma crápula, ele não carregava dúvidas. Que a síndica estava roubando o condomínio, bem, ele não tinha provas. Se bem que a falta de provas não o incentivava a colocar a mão no fogo por Eleonora. Mas assassinato? Aí, já era algo que extrapolava qualquer bom senso. 

    Abriu a porta do apartamento ainda atordoado pelo diálogo daquelas mulheres. Loucura. Ah, certamente palavras cuspidas da boca para fora. Será? Absurdo! Ou não?

    Ernesto pegou o resto de leite da geladeira. Mal deu para uma xícara. Esquentou e fez o derradeiro pingado até que a furtiva sorte lhe desse as caras novamente.  

    O homem puxou uma das cadeiras da mesa da cozinha e acomodou o fatigado corpo. Duzentos e cinquenta e três reais. Que afronta! De onde iria tirar tamanha quantia do seu já minguado orçamento? Voltar a trabalhar era impossível. Com tantas dores instaladas em cada junta do corpo, acabaria internado. E os remédios? De onde tiraria dinheiro para pagar os remédios? 

    Quando sorveu o primeiro gole, tudo lhe pareceu tão óbvio. E por que não? Sim! Ele se juntaria a Márcia e Lindaura. Um plano. Eles só precisariam de um plano. Pensou, pensou, pensou até que a voz lhe saiu mais alta do que o planejado: 

    — O elevador!

    Ernesto tapou os lábios, arregalou os olhos e sorriu. O maldito elevador vivia dando problemas mesmo. Uma fenda entre o elevador e o piso, algo tão corriqueiro. E lá iria a pobre Eleonora beijar o fundo do poço. Gargalhou.

    Levantou-se, foi até a sala, pegou um livro de poesias na estante, A verdade nos seres, de Daniel Marchi. Esparramou-se no sofá e, entre gargalhadas abafadas, leu páginas espaçadas. Adormeceu.

    No dia seguinte, Ernesto despertou com o burburinho nos corredores. Vozes nervosas persistiam. Ele tentou ignorá-las até que a curiosidade o levou a abrir a porta. Lá estavam José, Ruth e Soraia ruminando palavras. Ernesto colocou metade do corpo para fora.

    — Ei, José, o que aconteceu? Por que estão tagarelando tão cedo?

    — A Eleonora, Ernesto.

    — E o que tem ela? 

    — Não soube?

    — Não soube o quê, José?

    — Ela foi encontrada no fosso do elevador. Pobre mulher, não resistiu.

    Ernesto foi tomado por um misto de culpa e dúvida. Será? Não, ele não teve qualquer coisa com aquilo. Mas e a Márcia e a Lindaura? Teriam aquelas duas roubado o seu pensamento? Não, não, não. Essas coisas não acontecem. Não mesmo! Será?

    Naquele mesmo dia, Ernesto encontrou as duas mulheres. Seus olhares se cruzaram. Nada foi dito, porém, os três sentiram que havia um acordo implícito. E o silêncio foi o caminho escolhido por todos. 

Eduardo Cesario-Martínez

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O funeral das galinhas – por Bahtiyar Hidayet

Entre a hipocrisia dos valentões e o heroísmo do galinheiro: uma mordaz sátira sobre a dignidade humana

Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
A fotografia mostra um grupo de homens vestidos com trajes tradicionais e lenços na cabeça, caminhando de costas por uma rua de terra em uma vila humilde. Um dos homens carrega um pequeno embrulho envolvido em um pano verde com contas de oração suspensas, acompanhado por outros que também seguram terços. No chão de cascalho, próximo ao grupo, há uma galinha branca. Ao fundo, vê-se um carro escuro estacionado perto de uma curva na estrada e colinas secas ao longe sob um céu nublado.
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— Você vai ao funeral?

— Não, não é para mim. E você?

— Não, eu também não vou.

— É assustador. Todos os líderes da oposição estarão lá.

Podemos tirar fotos com eles.

— Alguém deveria ter dito: Ahmed…

Afinal, o que você tinha a ver com a oposição?

— Agora ele está morto na prisão.

— Na prisão, ele não tinha respeito algum.

— É verdade. Ele nem sequer tinha um lugar nos escalões mais baixos do mundo do crime.

— Ha, ha, ha… ele trabalhava na biblioteca de lá.

Nesse ponto da conversa dos valentões do bairro,

um galo começou a expulsar as galinhas.

Um carro atropelou a galinha.

Elas se afogaram em um mar de tristeza.

A galinha havia morrido

heroicamente enquanto defendia sua honra.

Foram enterrar a galinha,

girando seus rosários enquanto caminhavam.

Bakhtiyar Hasanov

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Domingos de outubro

Clayton Alexandre Zocarato: os amores que o tempo não consegue apagar

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Havia domingos que pareciam ter sido inventados somente para lembrar aquilo que a gente jurou esquecer.

            Os domingos de outubro eram assim para Rúbia.

            Não todos. Alguns passavam como qualquer outro dia, com o barulho dos vizinhos, o almoço demorado, a televisão ligada sem ninguém prestar muita atenção, o cheiro de café requentado e aquela preguiça que parecia morar dentro das paredes.

            Mas havia certos domingos de outubro em que a tarde adquiria uma espécie de melancolia própria, como se o tempo, por alguma razão que ela nunca conseguiu compreender, resolvesse abrir uma gaveta antiga da memória.

            Era nesses domingos que Rúbia se lembrava de Renana.

            Não se lembrava apenas dela. Lembrava-se de tudo.

            Do cabelo de Renana preso de qualquer jeito. Do perfume barato que ficava no banco do carro depois que ela ia embora. Das mensagens enviadas pelo celular durante a madrugada. Das conversas no MSN que começavam depois das onze da noite e terminavam quando já era quase manhã. Dos scraps no Orkut que pareciam declarações públicas de sentimentos que nenhum das duas tinha coragem de dizer olhando nos olhos.

            Lembrava-se das danceterias, das filas, das pulseiras de papel, das luzes coloridas, dos CDs riscados, dos amigos que hoje já não sabia onde estavam e das músicas românticas que, naquela época, pareciam falar exatamente sobre elas.

            Era estranho pensar que uma pessoa pudesse desaparecer da vida cotidiana e, mesmo assim, continuar morando em algum lugar dentro da gente.

            Rúbia havia aprendido isso depois dos trinta.

            Na juventude, imaginava que esquecer alguém era apenas uma questão de tempo. Pensava que o coração obedecia à mesma lógica dos calendários. Passariam os meses, depois os anos, e aquilo simplesmente deixaria de doer.

            Não deixou.

            Mudou de lugar.

            Talvez fosse isso que ninguém contasse quando se era jovem. A dor não desaparece necessariamente. Ela aprende a ficar quieta.

            E foi assim que Renana permaneceu dentro de Rúbia.

            Quietamente.

            Naquele outubro, muitos anos depois, Rúbia estava sentada perto da janela, olhando a chuva fina cair sobre a rua. Não era uma chuva forte. Era quase uma garoa, dessas que deixam o mundo com aparência de fotografia antiga. Ela segurava uma xícara de café e observava os carros passando, as pessoas correndo para se proteger, os cachorros procurando abrigo debaixo das marquises.

            Pensou que o mundo havia mudado demais.

            Naquela época, ninguém tinha pressa de responder imediatamente porque ninguém podia responder imediatamente.

            Um celular servia para ligar, mandar uma mensagem curta e, às vezes, tirar uma fotografia de qualidade duvidosa. Não existiam redes sociais ocupando cada minuto do dia. As pessoas ainda desapareciam durante algumas horas.

            E talvez fosse justamente por isso que as saudades eram diferentes.

            Havia tempo para sentir falta.

            Rúbia fechou os olhos.

            E voltou para 2004.

            Naquele tempo, Renana ainda não sabia que seria uma lembrança.

            Era apenas Renana.

            E isso bastava.

            Elas se conheceram numa sexta-feira de outubro, embora Rúbia tivesse a impressão de que tudo havia começado antes. Talvez tivesse começado numa troca de olhares durante uma festa. Talvez numa conversa casual.

            Talvez naquela época em que a vida parecia cheia de acontecimentos insignificantes que, anos depois, se revelariam fundamentais.

            Renana tinha um jeito de sorrir que incomodava Rúbia.

            Não porque fosse desagradável.

            Pelo contrário.

            Era um sorriso que parecia saber alguma coisa que Rúbia desconhecia.

            — Você sempre fica olhando para as pessoas desse jeito?

            — Desse jeito como?

            — Como se estivesse tentando descobrir quem elas são.

            Rúbia riu.

            — Talvez eu esteja.

            — E já descobriu alguma coisa sobre mim?

            — Ainda não.

            — Então você está atrasada.

            A frase ficou na cabeça de Rúbia durante dias.

            Naquela época, elas tinham vinte e poucos anos e acreditavam que a vida era uma coisa que aconteceria depois.

            Depois da faculdade.

            Depois do emprego.

            Depois de ganhar dinheiro.

            Depois de sair da casa dos pais.

            Depois de descobrir quem realmente eram.

            O futuro parecia enorme.

            O passado parecia pequeno.

            E o presente, coitado, quase nunca recebia atenção.

            Era assim que os jovens viviam: sempre esperando o próximo acontecimento, sem perceber que estavam fabricando as próprias lembranças.

            Naquele fim de semana, Rúbia encontrou Renana novamente numa danceteria.

            As danceterias dos anos 2000 tinham uma espécie de inocência que hoje parece quase impossível de explicar. Havia fumaça artificial, luzes giratórias, paredes escuras, caixas de som enormes, DJs que pareciam sacerdotes diante de uma mesa cheia de equipamentos e uma multidão tentando esquecer, por algumas horas, os problemas da segunda-feira.

            As pessoas dançavam.

            Algumas muito bem.

            Outras nem tanto.

            Mas ninguém parecia se importar.

            Naquela noite, tocavam sucessos que vinham do rádio, músicas românticas, pop, dance, aquelas canções que hoje soam como cápsulas de uma época. Havia músicas de James Blunt, Coldplay, Avril Lavigne, Maroon 5, The Calling, Keane, além das canções nacionais que atravessavam as rádios e apareciam nos CDs gravados pelos amigos.

            Rúbia lembrava especialmente de “The Reason”, do Hoobastank.

            Não porque fosse a música favorita de Renana.

            Era porque, naquela noite, Renana segurou sua mão quando a música começou.

            Não disseram nada.

            Talvez porque, naquela idade, algumas coisas fossem mais fáceis de fazer do que de dizer.

            Elas ficaram ali.

            Entre a música alta e as luzes coloridas.

            Entre pessoas desconhecidas.

            Entre uma juventude que ainda não sabia que estava acabando.

            Renana aproximou o rosto e perguntou:

            — Você acredita que algumas pessoas aparecem na nossa vida por acaso?

            Rúbia respondeu:

            — Não sei.

            — Eu acho que não.

            — Então por quê?

            Renana deu de ombros.

            — Porque algumas pessoas parecem que estavam atrasadas para nos encontrar.

            Rúbia sorriu.

            — Você fala umas coisas estranhas.

            — E você gosta.

            Ela gostava.

            Talvez gostasse justamente porque Renana dizia aquilo que ela mesma não sabia dizer.

            Depois daquela noite, começaram a se procurar.

            Primeiro com desculpas.

            Depois sem desculpas.

            Uma mensagem:

            “Você vai sair hoje?”

            Outra:

            “Tá fazendo o quê?”

            Depois:

            “Boa noite.”

            E, finalmente:

            “Saudade.”

            Era impressionante como uma palavra tão pequena podia causar tanto estrago.

            Naquela época, mandar uma mensagem pelo celular ainda tinha algo de ritual.    Não se escrevia qualquer coisa. Era preciso pensar antes. Cada caractere importava. Algumas mensagens precisavam ser reduzidas porque o limite de caracteres obrigava a economizar sentimentos.

            Rúbia ainda guardava um aparelho antigo numa caixa.

            Não funcionava mais.

            A bateria havia inchado.

            A tela estava arranhada.

            Mas, para ela, aquele objeto era quase um túmulo.

            Ali estavam escondidos anos de uma vida que não existia mais.

            Ela sabia que não havia mais mensagens.

            Sabia que o aparelho estava morto.

            Mesmo assim, algumas vezes o segurava nas mãos.

            Era ridículo.

            E profundamente humano.

            Porque nós não guardamos objetos apenas pelo que eles são.

            Guardamos aquilo que eles testemunharam.

            O telefone tinha visto Renana entrar na vida de Rúbia.

            Tinha visto as mensagens de madrugada.

            Tinha ouvido conversas.

            Tinha participado de esperas.

            Tinha acompanhado silêncios.

            Por isso continuava importante.

            Talvez os objetos sejam apenas testemunhas mudas das nossas ilusões.

            O relacionamento cresceu sem grandes promessas.

            Não houve pedido de casamento.

            Não houve juramento diante de testemunhas.

            Não houve aquela cena perfeita que aparece nos filmes.

            Houve coisas pequenas.

            Café.

            Passeios.

            Cinema.

            Danceterias.

            Domingos.

            Chuva.

            Discussões bobas.

            Ciúmes.

            Risos.

            Beijos roubados.

            Mãos dadas dentro do carro.

            Mensagens enviadas quando uma delas já deveria estar dormindo.

            Havia uma felicidade quase doméstica naquilo.

            E talvez justamente por isso tenha sido tão verdadeira.

            Rúbia gostava de observar Renana quando ela não sabia que estava sendo observada.

            Gostava de vê-la arrumar o cabelo diante do espelho.

            Gostava de vê-la escolher uma música.

            Gostava de ouvi-la falar sobre coisas que Rúbia considerava insignificantes.

            Renana falava de roupas.

            De filmes.

            De amigos.

            De músicas.

            De viagens que talvez nunca fizessem.

            Falava sobre ter uma casa com uma varanda.

            Falava que queria morar em um lugar onde pudesse ouvir chuva.

            Rúbia ria.

            — Você quer morar dentro de uma música.

            — Talvez.

            — Isso não existe.

            — Então eu invento.

            Na juventude, tudo parecia possível porque ainda não conhecíamos suficientemente a palavra impossível.

            O amor de Rúbia e Renana foi construído nessa ingenuidade.

            Não era perfeito.

            Nenhum amor é.

            Mas havia sinceridade.

            Elas acreditavam que o sentimento seria suficiente.

            Essa foi talvez a primeira grande ilusão da vida adulta.

            O amor é importante.

            Mas o mundo não para,  para que duas pessoas possam permanecer juntas.

            O tempo não tem delicadeza.

            As circunstâncias também não.

            Vieram empregos.

            Mudanças.

            Família.

            Responsabilidades.

            Problemas financeiros.

            Distâncias.

            A vida começou a cobrar aquilo que a juventude havia deixado para depois.

            E as duas começaram a perceber que amar alguém não significava necessariamente saber permanecer.

            A primeira grande discussão aconteceu numa noite de domingo.

            Renana havia recebido uma proposta de trabalho em outra cidade.

            Era uma oportunidade.

            Boa.

            Talvez excelente.

            Rúbia ficou feliz por ela.

            Ou tentou ficar.

            — Você vai aceitar?

            — Não sei.

            — Você quer?

            — Quero.

            Rúbia respirou fundo.

            — Então aceite.

            Renana ficou olhando para ela.

            — É só isso?

            — O que você quer que eu diga?

            — Não sei.

            — Renana, você sempre disse que queria crescer.

            — E você?

            Rúbia não respondeu.

            Era aí que estava o problema.

            Renana queria ir.

            Rúbia queria ficar.

            Nenhuma das duas estava errada.

            E talvez essa seja uma das maiores tragédias do amor: às vezes não existe culpado.

            Existem apenas direções diferentes.

            Durante algumas semanas, tentaram fazer funcionar.

            Telefonemas.

            Mensagens.

            E-mails.

            Conversas pela internet.

            O MSN aberto durante a noite.

            O famoso aviso “fulano está digitando…” provocava uma ansiedade que hoje parece quase infantil.

            Rúbia esperava.

            Renana escrevia.

            Às vezes demorava.

            Às vezes desaparecia.

            Às vezes uma delas estava online e a outra não dizia nada.

            E aquele silêncio digital tinha um peso enorme.

            A distância começou a transformar pequenas coisas em grandes problemas.

            Um “oi” que demorava.

            Uma ligação não atendida.

            Uma festa.

            Uma amizade.

            Uma fotografia.

            Uma frase mal interpretada.

            Era como se a ausência produzisse fantasmas.

            Quando estavam juntas, bastava um olhar para resolver.

            Quando estavam longe, era preciso explicar tudo.

            E o amor, quando precisa explicar demais a própria existência, começa a ficar cansado.

            Ainda assim, elas tentaram.

            Durante meses.

            Talvez durante mais tempo do que deveriam.

            Talvez durante menos tempo do que poderiam.

            Ninguém sabe.

            O fim não aconteceu de uma vez.

                        Foi acontecendo aos poucos.

            Primeiro diminuíram as mensagens.

            Depois os telefonemas.

            Depois as visitas.

            Depois as promessas.

            Até que um dia perceberam que estavam sustentando mais a lembrança do que o relacionamento.

            Foi numa tarde de outubro.

            Sempre outubro.

            Rúbia jamais conseguiu descobrir por que a vida escolheu outubro para lhe ensinar algumas das suas maiores tristezas.

            Renana estava sentada diante dela.

            As duas tinham ido a um café.

            Havia pouco movimento.

            A televisão estava ligada sem som.

            Do lado de fora, algumas folhas secas eram levadas pelo vento.

            — Você ainda me ama? — perguntou Rúbia.

            Renana demorou.

            — Amo.

            — Então por que está indo embora?

            Renana abaixou os olhos.

            — Porque às vezes amar não resolve.

            A frase ficou entre elas.

            Era cruel.

            E verdadeira.

            Rúbia queria odiá-la.

            Não conseguiu.

            Queria gritar.

            Também não conseguiu.

            Queria pedir que ficasse.

            Mas alguma coisa dentro dela percebeu que certas pessoas não podem ser mantidas pela força de uma súplica.

            Renana segurou sua mão.

            — Eu não quero que você pense que foi mentira.

            Rúbia respondeu:

            — Eu sei que não foi.

            — Então?

            — Então é pior.

            Renana chorou.

            Rúbia também.

            E ali terminou uma história que, para elas, ainda não tinha terminado.

            Porque os relacionamentos acabam antes das lembranças.

            Essa talvez seja uma das crueldades do tempo.

            O corpo aprende a continuar.

            A memória não.

            Depois daquele dia, Rúbia voltou para casa sozinha.

            Entrou no quarto.

            Sentou na cama.

            Pegou o celular.

            Abriu as mensagens.

            Leu tudo.

            Não apagou nada.

            Durante aquela noite, ouviu músicas antigas.

            Uma atrás da outra.

            Canções que tinham sido trilha sonora de uma juventude que agora parecia pertencer a outra pessoa.

            “Apologize”, “Because of You”, “I’m Yours”, “Chasing Cars”, “She Will Be Loved”.

            Cada música parecia carregar um pedaço de Renana.

            Rúbia descobriu naquele momento que as músicas não guardam apenas sons.

            Guardam versões de nós mesmos.

            Quando uma música antiga volta a tocar depois de muitos anos, não ouvimos somente a canção.

            Ouvimos quem éramos quando a escutamos pela primeira vez.

            E isso pode ser devastador.

            Anos passaram.

            A década mudou.

            Os celulares ficaram inteligentes.

            As redes sociais se multiplicaram.

            As fotografias deixaram de ser raras.

            As pessoas passaram a fotografar tudo.

            Comida.

            Viagens.

            Aniversários.

            Tristezas.

            Felicidades.

            Até a solidão começou a ser publicada.

            Rúbia observava tudo aquilo,  com uma espécie de espanto.

            Na época dela, uma fotografia podia ficar dentro de uma carteira durante anos.

            Agora milhares delas desapareciam na velocidade de um toque.

            O mundo havia ficado mais conectado.

            Mas Rúbia não tinha certeza de que as pessoas estavam mais próximas.

            Às vezes parecia exatamente o contrário.

            Havia milhares de formas de encontrar alguém.

            E cada vez menos maneiras de realmente permanecer.

            Ela se casou.

            Teve uma vida.

            Trabalhou.

            Mudou de casa.

            Perdeu pessoas.

            Ganhou outras.

            Aprendeu a pagar contas.

            A resolver problemas.

            A fingir que estava tudo bem quando não estava.

            Aprendeu que ser adulta é, em grande parte, aprender a continuar mesmo quando alguma coisa dentro da gente ficou parada em determinado lugar.

            Renana também seguiu sua vida.

            Rúbia soube disso por acaso.

            Anos depois, encontrou seu nome em uma rede social.

            Ficou alguns segundos olhando para a fotografia.

            Renana havia mudado.

            Ou talvez fosse apenas a, fotografia que mostrasse aquilo que o tempo havia feito.

            Rúbia não enviou mensagem.

            Fechou a página.

            Passou a noite pensando nisso.

            Na manhã seguinte, continuou a vida.

            Mas a memória havia sido acordada.

            E certas memórias, uma vez acordadas, nunca voltam completamente a dormir.

            Foi em outro domingo de outubro que Rúbia decidiu visitar a antiga danceteria.

            Ela ainda existia.

            Mas estava diferente.

            O letreiro havia mudado.

            A fachada parecia menor.

            Talvez porque Rúbia tivesse crescido.

            Entrou.

            O lugar já não tinha o mesmo movimento.

            As luzes pareciam menos intensas.

            As paredes pareciam menores.

            O som era diferente.

            As músicas eram outras.

            Rúbia ficou parada durante alguns segundos.

            Foi tomada por uma sensação estranha.

            Não era exatamente tristeza.

            Era algo mais complexo.

            Era perceber que um lugar pode permanecer de pé depois que tudo aquilo que lhe dava significado desaparece.

            Ela caminhou até o salão.

            Ali havia dançado com Renana.

            Ali haviam se beijado.

            Ali tinham discutido.

            Ali tinham prometido coisas que o tempo não permitiria cumprir.

            Rúbia sorriu.

            Não porque estivesse feliz.

            Mas porque finalmente conseguia lembrar sem querer voltar.

            Talvez esse fosse o sinal de que havia amadurecido.

            Durante muito tempo, pensou que superar fosse apagar.

            Depois entendeu que superar talvez fosse conseguir lembrar sem desejar modificar o passado.

            A vida não é uma máquina de escrever onde podemos voltar e corrigir uma frase.

            Ela é mais parecida com uma fotografia antiga.

            Podemos olhar.

            Podemos ampliar.

            Podemos lembrar.

            Mas não podemos entrar novamente naquele instante.

            Rúbia saiu da danceteria.

            A noite estava começando.

            Outubro tinha aquele cheiro de chuva que ela conhecia desde criança.

            Andou pela rua sem pressa.

            Pensou em Renana.

            Pensou em si mesma.

            Pensou naquela garota de vinte e poucos anos que acreditava que o amor poderia derrotar o tempo.

            Hoje sabia que não.

            O amor não derrota o tempo.

            Talvez o amor seja justamente aquilo que o tempo não consegue destruir completamente.

            Porque, se o amor pudesse vencer o tempo, ninguém precisaria sentir saudade.

            E a saudade existe porque alguma coisa sobreviveu.

            Talvez fosse isso que Renana havia deixado.

            Não uma ferida.

            Não exatamente.

            Uma presença.

            Uma espécie de sombra luminosa.

            Algo que aparecia em determinadas músicas, em certos domingos, em algumas ruas, em outubro.

            Rúbia voltou para casa.

            Abriu uma caixa antiga.

            Dentro havia fotografias.

            Ingressos.

            Papéis.

            Um cartão.

            Um CD gravado.

            Ela encontrou uma fotografia das duas.

            Estavam sorrindo.

            Rúbia olhou durante muito tempo.

            Depois colocou a fotografia sobre a mesa.

            Não chorou.

            Pela primeira vez, não chorou.

            Pegou o celular moderno e procurou uma música antiga.

            “The Reason”.

            A canção começou.

            Rúbia fechou os olhos.

            E por alguns minutos voltou àquela danceteria.

            Àquela noite.

            Àquelas luzes.

            Àquele cheiro de perfume.

            Àquela mão segurando a sua.

            Àquela mulher que ainda era jovem.

            Àquele amor que ainda não sabia que teria fim.

            E, por alguns segundos, o tempo pareceu não existir.

            Foi então que Rúbia compreendeu uma coisa simples.

            O passado não volta.

            Mas também não desaparece.

            Ele muda de forma.

            Às vezes vira fotografia.

            Às vezes vira música.

            Às vezes vira uma rua.

            Às vezes vira um cheiro.

            Às vezes aparece num domingo de outubro, quando a chuva cai devagar e a casa parece grande demais.

            E, às vezes, o passado vira uma pessoa que já não está mais ao nosso lado, mas que continua existindo em alguma região secreta daquilo que fomos.

            Renana não fazia mais parte da vida de Rúbia.

            Mas fazia parte da história dela.

            E talvez essa fosse a única maneira verdadeira de permanecer.

            Não como promessa.

            Não como possibilidade.

            Não como alguém esperando voltar.

            Mas como lembrança.

            Uma lembrança que não precisava mais pedir licença.

            Rúbia terminou o café.

            A música acabou.

            Por alguns segundos, ficou apenas o silêncio.

            Depois começou outra.

            Ela sorriu.

            Não sabia qual seria o próximo domingo.

            Não sabia o que ainda aconteceria.

            Não sabia quantos outubros teria pela frente.

            Mas havia aprendido alguma coisa com o tempo.

            A juventude acredita que precisa possuir o futuro.

            A maturidade descobre que basta estar presente.

            E talvez o amor seja isso também: não a promessa de ficar para sempre, mas a capacidade de fazer com que um instante seja tão verdadeiro que nem mesmo o tempo consiga apagá-lo.

            Rúbia levantou-se.

            Foi até a janela.

            A chuva havia parado.

            A rua estava molhada.

            As luzes dos postes refletiam no asfalto como pequenas estrelas quebradas.

            Ela pensou em Renana uma última vez naquela noite.

            Não com tristeza.

            Com ternura.

            Porque algumas pessoas não permanecem na nossa vida.

            Permanecem em nós.

            E isso, por mais doloroso que seja, também é uma forma de eternidade.

            Naquela noite, Rúbia guardou novamente a fotografia.

            Fechou a caixa.

            Apagou a luz.

            E antes de dormir pensou que talvez os domingos de outubro nunca deixassem de trazer Renana de volta.

            Talvez nem precisassem.

            Há lembranças que não querem ser esquecidas.

            Querem apenas ser compreendidas.

            E, depois de tantos anos, Rúbia finalmente compreendia.

            Renana não havia sido o amor que ficou.

            Havia sido o amor que passou.

            E justamente por ter passado, havia deixado atrás de si aquilo que o tempo jamais conseguiu levar completamente.

            Uma música.

            Uma fotografia.

            Uma danceteria.

            Alguns domingos.

            E a certeza estranha, quase dolorosa, de que houve uma época em que duas pessoas acreditaram, com toda a inocência do mundo, que poderiam impedir o tempo de separá-las.

            Não conseguiram.

            Mas, durante algum tempo, foram felizes.

            E talvez seja isso que realmente importa.

            Porque a felicidade não precisa durar para sempre para ter sido verdadeira.

            Às vezes, basta ter existido.

            E Rúbia sabia que, quando outubro voltasse novamente, em algum domingo qualquer, talvez ela ouvisse uma música antiga e se lembrasse de Renana.

            Talvez sorrisse.

            Talvez sentisse saudade.

            Talvez olhasse pela janela.

            E deixasse a lembrança passar.

            Como quem abre uma porta para alguém que já foi embora.

            Sem pedir que volte.

            Sem perguntar por quê.

            Apenas reconhecendo, em silêncio, que um dia aquela pessoa esteve ali.

            E que, durante algum tempo, o mundo foi mais bonito por causa disso.

Clayton Alexandre Zocarato

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