Entre o céu e o interior

Clayton Alexandre Zocarato: um retorno às raízes entre memória, saudade e reencontro

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Homem retorna ao interior e contempla o céu ao reencontrar memórias, afetos e suas raízes.
https://gemini.google.com/app/a66f1ca5caf9ae14?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Quando o ônibus começou a descer a estrada de terra, Joaquim abriu a janela, apesar da poeira que entrava feita farinha de mandioca. Gostava daquele cheiro. Cheiro de terra quente, de capim amassado, de café passado na hora, de curral e de lenha queimando no fogão.

            Era um cheiro que não se explicava. Ou talvez se explicasse justamente porque não precisava de explicação.

            Fazia trinta e tantos anos que Joaquim tinha ido embora.

            Na cidade grande, aprendera a andar depressa, a falar olhando o relógio, a tomar café em copo de papel e a responder “tudo bem” mesmo quando nada estava bem.          Aprendera também que as pessoas podiam morar no mesmo prédio durante vinte anos sem saber o nome umas das outras. No interior era diferente. Lá todo mundo sabia de todo mundo.

            Sabia quem tinha casado, quem tinha separado, quem estava devendo na venda, quem tinha dado cria na vaca, quem estava doente e até quem tinha chorado escondido depois da missa.

            — Ô motorista, falta muito?

            — Uai, homem, cê já perguntou isso umas três vezes.

            Joaquim sorriu.

            — É que a gente fica meio ansioso.

            — Ansioso nada. Cê tá é com saudade.

            O motorista falou aquilo sem olhar para trás. Joaquim ficou quieto.

            Saudade…

            A palavra ficou dentro dele como um passarinho preso.

            Pela janela, reconheceu o velho morro. Já não havia tantas árvores como antigamente. Algumas cercas tinham sido trocadas por arame novo. Um sítio que antes pertencia aos Alves agora tinha uma placa de “vende-se”.

            A estrada continuava quase a mesma, mas ele sabia que não era.

            A gente volta para um lugar esperando encontrar o passado, pensou. E o passado nunca está lá. Quem está lá é a nossa lembrança dele.

            O ônibus parou perto da venda do Zé Bento.

            Joaquim desceu devagar, carregando uma mala pequena.

            — Ô, Joca!

            Ele virou.

            Era Dito.

            Ou o que restava de Dito.

            Os cabelos estavam completamente brancos, o corpo mais curvado, mas o sorriso continuava o mesmo.

            — Rapaz… ocê?

            — Eu mesmo, sô. Quem mais ia ser?

            Os dois se abraçaram.

            — Tá véio, hein?

            — Nós dois.

            — Eu tô nada.

            — Tá sim.

            — Então deixa eu fingir que não.

            Riram.

            Era assim no interior. A amizade também tinha sua maneira de envelhecer.

            Naquela tarde, Joaquim caminhou pela rua principal. A igreja continuava no mesmo lugar, embora a pintura estivesse mais clara.

            A praça tinha bancos novos. A antiga fonte havia desaparecido. A árvore onde ele e Dito costumavam sentar ainda existia, mas agora cercada por um pequeno canteiro.

            Passou diante da casa de Dona Alzira.

            A janela estava fechada.

            Joaquim parou.

            Ali morara Mariana.

            A menina que tinha cabelos compridos e uma risada que fazia a gente esquecer o mundo.

            Mariana…

            Ele não sabia se ela ainda vivia.

            Não perguntou.

            Algumas perguntas envelhecem mais depressa quando encontram resposta.

            Naquele tempo, Joaquim tinha dezoito anos e acreditava que o mundo começava e terminava naquela pequena cidade. De manhã ajudava o pai na roça. Depois do almoço, ia para a venda. À tarde, encontrava os amigos perto do campo de futebol. À noite, havia sempre alguém tocando viola em alguma varanda.

            A vida era pobre, mas tinha tempo.

            Talvez fosse isso que mais lhe fizesse falta.

            O tempo.

            Na cidade grande, tinha dinheiro suficiente para comprar quase tudo, menos uma tarde sem compromisso.

            No interior, uma tarde podia durar uma eternidade.

            Na sexta-feira, o povo se juntava na praça. As mulheres levavam crianças, os homens ficavam encostados nos carros ou sentados nos bancos.

            Tinha milho cozido, pamonha, bolo de fubá, café preto e aquele queijo curado que fazia a pessoa beber água depois.

            Quando chegava junho, era festa.

            Bandeirinha colorida atravessando a rua. Fogueira. Sanfona. Viola. Criança correndo. Moça escondendo o sorriso. Rapaz tentando parecer valente diante da moça que gostava.

            E tinha quadrilha.

            — Anarriê!

            — Alavantú!

            — Olha a chuva!

            Todo mundo fingia que acreditava.

            Depois vinha a fogueira.

            Os mais velhos contavam histórias.

            Falavam de assombração.

            Falavam de alma penada.

            Falavam de homem que tinha visto uma luz andando sozinha pelo pasto.

            Dito jurava ter visto uma vez.

            — Vi mesmo, Joca.

            — Cê tava bêbado.

            — Eu tava meio alegrinho.

            — Então.

            — Mas vi.

            — E o que era?

            — Não sei.

            — Então podia ser qualquer coisa.

            — Podia. Mas era uma coisa que não devia tá ali.

            Joaquim gostava dessas conversas. Talvez porque o interior tivesse o dom de deixar uma porta aberta entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

            Naquela noite, ele dormiu na casa antiga do pai.

            O quarto era pequeno.

            A cama ainda tinha o mesmo rangido.

            Na parede havia uma fotografia antiga, já amarelada.

            Seu pai estava de chapéu.

            Sua mãe estava ao lado.

            Ele, menino, aparecia na frente, com os cabelos penteados para trás.

            Joaquim aproximou-se.

            Passou o dedo pela fotografia.

            Foi então que percebeu que sentia falta até daquilo que, quando vivo, ele não tinha coragem de dizer que amava.

            A mãe morreu cedo.

            O pai depois.

            A casa ficou vazia.

            Mas as coisas continuaram esperando.

            Uma cadeira.

            Um rádio.

            Uma panela.

            Um terço.

            Uma fotografia.

            Talvez uma casa nunca fique completamente vazia. As pessoas continuam morando nela depois que partem.

            No domingo, Joaquim foi à missa.

            O sino tocava como antigamente.

            As pessoas chegavam aos poucos.

            Algumas de carro, outras a pé.

            Dona Nair vinha com o mesmo vestido escuro de sempre.

            Seu Agenor ainda carregava o chapéu debaixo do braço.

            As crianças continuavam inquietas.

            Um menino chorou no meio da missa.

            Uma senhora virou para trás e fez aquele olhar de quem queria que a criança ficasse quieta.

            Joaquim sorriu.

            Nada mudara completamente.

            O padre falou sobre esperança.

            Joaquim olhou para o teto da igreja.

            Pensou no céu.

            Desde menino imaginava o céu como uma espécie de continuação do interior.

            Um lugar de árvores grandes, sombra fresca, água limpa e gente conhecida.

            Achava que seu pai estaria lá.

            Sua mãe também.

            Talvez Mariana.

            Talvez todos os que tinham partido.

            Talvez o céu fosse simplesmente isso: um lugar onde ninguém mais precisava dizer adeus.

            Depois da missa, o povo ficou na calçada.

            Era costume.

            A missa acabava, mas ninguém tinha pressa de ir embora.

            Falavam da chuva.

            Da safra.

            Do preço da carne.

            Da política.

            Do casamento de alguém.

            Da saúde de alguém.

            Da vida dos outros.

            Mas, no fundo, falavam da própria vida.

            — Ocê ficou muito tempo fora — disse Dona Nair.

            — Fiquei.

            — Gostou de lá?

            Joaquim demorou para responder.

            — Gostei.

            — E foi feliz?

            Ele olhou para ela.

            Dona Nair não parecia estar perguntando por curiosidade.

            Esperava uma resposta.

            — Fui algumas vezes.

            Ela sorriu.

            — É. Felicidade também não mora num lugar só.

            Joaquim guardou aquilo.

            Mais tarde, encontrou Mariana.

            Foi na saída da farmácia.

            Ele a reconheceu antes.

            Ela também.

            Ficaram alguns segundos sem falar.

            — Joaquim?

            — Mariana.

            Ela estava mais velha.

            Naturalmente.

            Os cabelos já tinham alguns fios brancos.

            O rosto trazia marcas que não estavam ali trinta anos antes.

            Mas os olhos continuavam iguais.

            — Cê voltou?

            — Voltei.

            — Pra ficar?

            Joaquim respirou fundo.

            — Não sei.

            Mariana sorriu.

            — Ocê nunca soube.

            Ele riu.

            — É verdade.

            Caminharam juntos pela praça.

            Nenhum dos dois perguntou sobre os amores que vieram depois.

            Nenhum dos dois contou os fracassos.

            Há coisas que o tempo ensina a não perguntar.

            Sentaram-se no banco perto da igreja.

            — Lembra das festas?

            — Lembro.

            — Daquela quermesse em que você caiu dentro do barril?

            Joaquim começou a rir.

            — Não precisa lembrar disso.

            — Eu lembro.

            — Todo mundo lembra.

            — Você ficou três dias sem olhar na minha cara.

            — Eu tinha vergonha.

            — Eu achei bonito.

            Ele olhou para ela.

            — Bonito?

            — Você com vergonha.

            Ficaram em silêncio.

            O vento passou pelas árvores.

            Uma folha caiu entre os dois.

            Joaquim pensou que talvez a vida fosse feita dessas coisas pequenas.

            Uma folha.

            Uma praça.

            Uma pessoa que a gente amou.

            Uma lembrança que insiste em respirar.

            Naquela noite houve música na praça.

            Um velho violeiro chamado Chico Lampejo  sentou-se perto do coreto.

            A viola começou devagar.

            Primeiro vieram as notas.

            Depois a voz.

            Cantava uma moda antiga sobre um homem que deixara sua terra para ganhar dinheiro e, depois de muitos anos, descobrira que havia enriquecido de tudo, menos de si mesmo.

            Joaquim ouviu sem dizer nada.

            Dito sentou-se ao lado.

            — Essa moda é sua cara.

            — Por quê?

            — Porque ocê fez exatamente isso.

            — Fiquei rico?

            — Não.

            — Então?

            — Foi embora.

            Joaquim riu.

            A viola continuou.

            Havia alguma coisa naquela música que parecia conversar com o céu.

Talvez porque as modas de viola nunca falassem apenas de gente.

            Falavam de estrada.

            De boi.

            De roça.

            De amor.

            De morte.

            De promessa.

            De espera.

            Falavam do homem diante daquilo que não consegue entender.

            E o interior sabia disso sem precisar estudar.

            Na manhã seguinte, Joaquim acordou cedo.

            O galo cantava.

            O céu ainda estava meio azul, meio cinza.

            Ele tomou café passado no coador de pano.

            Comeu pão com manteiga.

            Depois saiu para caminhar.

            Passou pela venda.

            — Bom dia, Joca.

            — Bom dia.

            — Café?

            — Café.

            Zé Bento colocou a xícara sobre o balcão.

            — Forte.

            — Do jeito que tem que ser.

            — Aqui ninguém toma café fraco.

            — Na cidade tomam.

            — Então a cidade tá errada.

            Joaquim sorriu.

            Ficou ali algum tempo.

            Ouviu conversa sobre chuva.

            Ouviu conversa sobre um bezerro desaparecido.

            Ouviu falar que a ponte precisava de conserto.

            Ouviu uma senhora reclamar do preço do açúcar.

            Era uma conversa sem importância.

            E, justamente por isso, era importante.

            Naquele instante, Joaquim percebeu que passara a vida procurando grandes acontecimentos, quando talvez a felicidade estivesse escondida nas coisas que ninguém fotografava.

            O café.

            A prosa.

            A sombra da árvore.

            O canto dos passarinhos.

            A porta aberta.

            A vizinha chamando do outro lado da rua.

            O menino correndo atrás de uma bola.

            O sino da igreja.

            O cheiro de chuva chegando.

            O rádio tocando uma música antiga.

            Tudo aquilo parecia pequeno.

            Mas era o tamanho exato da vida.

            No fim da tarde, Joaquim foi até o sítio onde trabalhara com o pai.

            O mato tinha tomado conta de parte da estrada.

            A antiga porteira ainda estava lá.

            Ele colocou a mão sobre a madeira.

            Sentiu uma espécie de tremor.

            Lembrou-se do pai dizendo:

            — Segura firme, menino. Cerca mal feita derruba até boi teimoso.

            Ele sorriu.

            Entrou.

            O pasto estava quase vazio.

            Havia algumas vacas.

            Um cachorro latiu ao longe.

            O sol começava a desaparecer atrás do morro.

            Joaquim sentou-se numa pedra.

            Ficou olhando.

            Foi então que entendeu.

            O céu não estava distante.

            O céu estava ali.

            Naquela luz.

            Naquela terra.

            Naquela lembrança.

            Na voz do pai que já não existia.

            Na mãe que ele ainda procurava em sonhos.

            Em Mariana andando pela praça.

            Em Dito fazendo piada.

            Na viola de Chico Lampejo.

            No cheiro do café.

            Na poeira da estrada.

            Talvez o céu não fosse um lugar para onde se ia depois da morte.

            Talvez fosse aquilo que a gente conseguia reconhecer enquanto ainda estava vivo.

            Joaquim ficou ali até escurecer.

            Quando voltou para casa, encontrou Mariana sentada na varanda.

            — Vim trazer isso.

            Ela entregou uma pequena caixa.

            Dentro havia fotografias antigas.

            Joaquim abriu.

            Havia uma fotografia dos dois.

            Eram jovens.

            Ele quase não se reconheceu.

            Mariana estava sorrindo.

            — Eu guardei esse tempo todo — disse ela.

            — Por quê?

            Ela olhou para o quintal.

            — Porque algumas coisas não pedem para ser esquecidas.

            Joaquim fechou a caixa.

            Não disse nada.

            A noite chegou devagar.

            Em alguma casa distante alguém tocava sanfona.

            Uma criança ria.

            Um cachorro latia.

            O sino da igreja bateu oito vezes.

            Joaquim olhou para o céu.

            Havia estrelas.

            Muitas.

            Mais do que conseguia contar.

            Mariana ficou ao lado dele.

            — Bonito, né?

            — É.

            — Na cidade não dá pra ver assim.

            — Lá também tem céu.

            — Mas não é igual.

            Joaquim concordou.

            Porque sabia.

            O céu era o mesmo.

            Mas o homem que olha para ele nunca é.

            Passaram-se alguns minutos.

            Mariana levantou.

            — Vou embora.

            — Amanhã você vem?

            Ela olhou para ele.

            — Uai, se ocê quiser.

            — Quero.

            Ela sorriu.

            — Então venho.

            Joaquim ficou sozinho na varanda.

            Pensou que talvez tivesse passado tantos anos procurando um lugar para voltar que não percebeu que o lugar sempre estivera dentro dele.

            O interior não era apenas a cidade.

            Não era a praça.

            Não era a igreja.

            Não era a roça.

            Não era a casa.

            Era uma maneira de guardar o tempo.

            Ali, os mortos continuavam vivos nas fotografias.

            Os amores antigos continuavam sentados nos bancos da praça.

            As músicas continuavam tocando mesmo quando ninguém mais sabia seus nomes.

            As festas acabavam, mas deixavam cheiro de fumaça nas roupas.

            As procissões terminavam, mas o som dos sinos permanecia.

            As pessoas partiam.

            As casas envelheciam.

            As árvores cresciam.

            As estradas mudavam.

            E ainda assim alguma coisa permanecia.

            Talvez fosse a memória.

            Talvez fosse Deus.

            Talvez fosse apenas a teimosia do coração em não deixar morrer aquilo que um dia lhe deu sentido.

            Joaquim entrou em casa.

            Antes de dormir, abriu a janela.

            O ar da noite entrou.

            Havia cheiro de terra molhada.

            Em algum lugar, um grilo cantava.

            Ele ouviu uma última vez a música distante da viola.

            E sorriu.

            Porque finalmente compreendia.

            Não havia distância entre o céu e o interior.

            O céu estava sobre a cidade pequena.

            Mas o interior estava dentro dele.

            E, depois de tantos anos correndo para longe, Joaquim descobrira que certas estradas não servem para ir embora.

            Servem para voltar.

            Naquela noite, dormiu sem medo.

            E sonhou com a mãe.

            Ela estava na cozinha, coando café.

            Seu pai estava sentado à mesa.

            Dito ria do lado de fora.

            Mariana caminhava pela praça.

            A igreja tocava os sinos.

            E a velha estrada de terra seguia para longe, entrando no horizonte.

            Joaquim caminhava por ela.

            Não sabia para onde.

            Também não precisava saber.

            Ao longe, o céu começava a clarear.

            E, pela primeira vez em muitos anos, ele não sentiu saudade do lugar onde tinha vivido.

            Sentiu saudade de si mesmo.

            Do menino que fora.

            Do homem que poderia ter sido.

            Da vida que passou.

            E compreendeu, com aquela simplicidade que só chega quando quase tudo já passou, que a gente nunca volta exatamente para casa.

            Volta para dentro de si.

            E às vezes isso basta.

            Porque há lugares que desaparecem do mapa, mas continuam existindo no coração.

            Há vozes que morrem, mas continuam chamando.

            Há músicas que envelhecem, mas nunca ficam antigas.

            Há amores que não acontecem, mas permanecem.

            E há um céu.

            Sempre o mesmo.

            Azul de manhã.

            Vermelho no fim da tarde.

            Escuro à noite.

            Cheio de estrelas.

            E há o interior.

            Com sua poeira, suas festas, suas rezas, suas modas de viola, seus causos, suas fogueiras, suas procissões, suas janelas abertas, suas cozinhas cheirando a café, suas mulheres na calçada, seus homens falando de chuva, seus meninos correndo descalços e seus velhos guardando histórias como quem guarda sementes.

            Talvez seja por isso que Joaquim tenha voltado.

            Não para recuperar o passado.

            Isso ninguém consegue.

            Voltou apenas para ouvir novamente aquilo que o mundo moderno havia feito tanto barulho para calar.

            O silêncio.

            O sino.

            A viola.

            O vento no quintal.

            A voz de quem chama pelo nosso nome.

            E, principalmente, aquele sentimento antigo de que, apesar de tudo, apesar do tempo, apesar da morte e das estradas que nos levam para longe, ainda existe algum lugar onde podemos sentar, respirar fundo e dizer baixinho:

            — Uai… cheguei.

Clayton Alexandre Zocarato

Voltar

Facebook




O inusitado dentro do coletivo

O coração tem razões que a própria razão desconhece… e o transporte público também

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Uma foto tirada dentro de um ônibus urbano em movimento. No lado esquerdo, um jovem casal está se beijando apaixonadamente no assento, com o homem segurando a mulher no colo. No lado direito, uma mulher sentada ao lado da janela ri, cobrindo a boca com a mão, enquanto olha para o casal. Outros passageiros são visíveis ao fundo, e uma rua da cidade pode ser vista pelas janelas.
https://gemini.google.com/share/a611f23db665?skid=e9a88116-35ae-459d-8c06-c509dc3fbe4e

Entediada de ficar em casa, Salete decidiu, logo após tomar café, ir fazer uma visita à Paula, uma amiga que acabara de se separar. Não se sabe se houve traição ou, então, seriam meras incompatibilidades de convivência. O problema é que, já devidamente acomodada no banco do seu velho Chevette, girou a chave e nada do carango dar sinal de vida. 

          Salete girou duas, três, quinze vezes. E não era falta de gasolina, pois fazia apenas dois dias que ela enchera o tanque. Sem tempo de chamar um mecânico, resolveu se aventurar a andar de ônibus desde que trocara a minissaia por um emprego no Banco do Brasil. 

          Telefonou para Paula e disse que iria se atrasar. Aproveitou para saber qual o ônibus que passava mais perto. A colega lhe disse para pegar um táxi, que era mais rápido, mas Salete, talvez por economia, talvez por desejar um pouco de aventura, declinou.

          — Creio que será até bom relembrar os tempos de pobretona.

          — E por acaso ficou milionária e está escondendo o jogo?

          — Sou bancária e não banqueira, Paula.

          Já no ponto, Salete ficou atenta aos ônibus que chegavam e partiam, até que, finalmente, surgiu o seu. Um pequeno frio na barriga ao subir os degraus, pura falta de costume. Cumprimentou o motorista, um sujeito de bigode grosso e aparente educação. Em seguida, nova saudação, agora para o cobrador. Pagou-lhe, passou a roleta e, ainda perdida, escolheu um lugar no fundo do coletivo. Sentou-se.

          Salete buscou alguma distração olhando através da janela, mas duas vozes aflitas chamaram sua atenção. Era um casal, ao menos foi a impressão que teve, pois a conversa era carregada de sentimentos.

        — Você promete?

        — Vou ver se consigo, meu amor.

        — Ah, mas ontem você disse que iria.

        — Vou tentar. Te ligo antes do almoço. Pode ser?

         — Mas você promete?

         — Tá. Preciso descer no próximo ponto.

          O homem, antes de se levantar, deu um breve beijo nos lábios da mulher ansiosa por saber se a tal promessa se cumpriria ou não. Salete sorriu, como se desejando o mesmo para a conhecida de última hora, apesar de nem saber do que se tratava, muito menos quais eram os nomes dos pombinhos. 

        Voltou os olhos para fora do ônibus, quando viu o homem, passos apertados, indo em direção a uma padaria. Trabalharia ali ou, não era impossível, teria entrado apenas para comer algo ou comprar cigarros antes de ir para o emprego? 

           Quando ainda tentava desvendar aquele mistério, eis que um rapaz, 10 ou 15 anos mais jovem, entrou no ônibus e foi se sentar justamente ao lado da bonitona que queria porque queria que o marido (?) lhe prometesse algo que permanecia uma incógnita para Salete. E foi aí que algo inesperado aconteceu, como se quisesse provar que Blaise Pascal, filósofo e matemático francês do século XVII, não estava enganado: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

            — Você é louco!

            — Louco por você, meu amor!

            — Por que não esperou na outra parada? Você sabe que o Ademir sempre desce aqui.

            — Um pouquinho de perigo é bom pra apimentar a paixão.

            Beijaram-se, beijaram-se, beijaram-se, que Salete imaginou que talvez aqueles dois, certamente amantes, pensassem que estavam em uma boate ou num quarto de motel. 

            — Para! Não dá pra esperar?

            — Desculpe, Cíntia. É que estava com saudade. 

            — Também, tolinho. Ah, vem cá, Júlio!

            Salete, boquiaberta, tentou buscar algo fora do ônibus para disfarçar seu espanto. Óbvio que não iria falar nem sequer meia vírgula, mas não queria provocar constrangimento aos enamorados. Constrangimento? Será que aqueles dois sabiam o que era isso? Ela levou a mão à boca e sorriu sem provocar barulho. 

           Três pontos adiante, desceu quase em frente ao prédio da Paula. Conversaram por quase duas horas. Enquanto a agora separada falava mal do ex-marido, Salete não conseguia deixar de se lembrar do ocorrido dentro do coletivo. Tanto é que, durante quase um mês, visitou a amiga, não somente com o intuito de consolá-la, mas principalmente de reencontrar aquele trio inusitado.

            Nunca mais viu qualquer um dos envolvidos. Teria Ademir descoberto a traição? Ou Cíntia teria fugido com Júlio? Se ao menos ela tivesse a oportunidade de encontrá-los… Que fossem felizes. Era o que Salete desejou do fundo do coração. 

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




Contrato de permanência com o nada

Clayton Alexandre Zocarato desvenda as pequenas mentiras cotidianas e o abismo de um homem diante da própria consciência.

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
https://gemini.google.com/app/766f6d4e701592b6?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Naquela manhã, o homem acordou antes que o despertador tocasse. Não havia motivo para isso. O corpo simplesmente abandonara o sono como quem abandona uma cidade condenada. 

Durante alguns segundos permaneceu imóvel, olhando para o teto, tentando descobrir se havia alguma diferença entre acordar e continuar dormindo. O teto estava ali, branco, indiferente, perfeitamente inútil. Uma pequena rachadura atravessava a pintura e terminava exatamente sobre sua cabeça. 

Pensou que talvez aquela rachadura fosse a única coisa verdadeiramente honesta naquele quarto. Ela não prometia nada. Não escondia sua existência. Não procurava justificar-se.

Levantou-se lentamente. O chão estava frio. Caminhou até o banheiro e observou o próprio rosto no espelho. Não reconheceu imediatamente aquele homem. Havia olhos, barba, pele, rugas discretas e uma expressão que parecia pertencer a alguém que já havia desistido de esperar alguma coisa. Aproximou o rosto do espelho. Durante alguns instantes teve a impressão de que seu reflexo respirava depois dele. Recuou. Piscou. O reflexo continuou imóvel por uma fração de segundo antes de imitá-lo. Sorriu involuntariamente. O outro não sorriu.

Naquele instante compreendeu uma coisa que não conseguiu formular: talvez nunca tivesse sido o homem diante do espelho. Talvez tivesse sido apenas o reflexo de alguma coisa que se recusava a existir.

Preparou café. A água ferveu. O ruído da chaleira ocupou a cozinha com uma espécie de alegria mecânica. Colocou açúcar na xícara, mexeu lentamente e observou o líquido escuro girar. Pensou que a vida talvez fosse aquilo: uma substância amarga que alguém insistia em adoçar para suportá-la. O problema era que, depois de algum tempo, até o açúcar se dissolvia e deixava apenas o gosto original.

Saiu para trabalhar.

‘ Na rua, as pessoas caminhavam depressa. Todas pareciam saber para onde estavam indo. Ele desconfiava disso. Talvez ninguém soubesse. Talvez a pressa fosse apenas uma forma socialmente aceita de esconder o medo.

Os homens carregavam pastas, as mulheres carregavam bolsas, crianças carregavam mochilas maiores do que seus corpos. Os automóveis avançavam uns contra os outros como animais treinados para disputar alguns segundos de existência.

Parou diante de uma faixa de pedestres. Uma senhora ao seu lado segurava duas sacolas de supermercado. Ela respirava com dificuldade. Olhou para ele e perguntou se aquele ônibus passava pelo centro. Ele respondeu que sim, embora não tivesse certeza.

A mulher agradeceu.

Foi embora.

Ele continuou parado.

Pensou que talvez toda relação humana fosse construída sobre pequenas mentiras necessárias. Ela acreditara nele. Ele acreditara que precisava responder alguma coisa. Nenhum dos dois sabia a verdade. Ainda assim, por alguns segundos, tinham dividido uma certeza falsa. Talvez fosse isso que as pessoas chamavam de convivência.

No trabalho, cumprimentou os colegas. Sentou-se diante do computador. 

A tela acendeu e pediu uma senha. Digitou. O sistema carregou lentamente. Na parte superior aparecia seu nome completo, seguido de um número de identificação. Ficou olhando para aquilo durante muito tempo.

Seu nome parecia menor que o número.

O número parecia mais importante que seu rosto.

Sentiu uma estranha vontade de rir.

Havia passado anos tentando construir uma identidade e agora descobria que bastavam alguns algarismos para substituí-la.

Abriu os arquivos. Respondeu mensagens. Preencheu formulários. Conferiu documentos. O mundo continuava funcionando sem precisar de sua presença interior. Isso o incomodou mais do que deveria. Percebeu que poderia desaparecer naquele instante e, provavelmente, algumas pessoas só perceberiam depois de algumas horas. Outras depois de alguns dias. Algumas talvez nunca percebessem.

O pensamento não o entristeceu.

Pior.

O pensamento lhe pareceu lógico.

Durante o intervalo, foi até a janela. Lá embaixo, centenas de pessoas atravessavam a rua. Observou uma criança correndo atrás de um pombo. O animal levantou voo. A criança parou e riu.

Ele ficou olhando.

Havia uma crueldade naquela cena.

A criança ainda acreditava que correr atrás das coisas era suficiente para alcançá-las.

Ele já sabia que não era.

Talvez crescer fosse exatamente isso: descobrir lentamente a distância entre o desejo e aquilo que o mundo permite. Primeiro desejamos brinquedos. Depois pessoas. Depois reconhecimento. Depois dinheiro. Depois tranquilidade. Finalmente desejamos apenas não desejar mais nada.

E mesmo isso nos é negado.

À tarde, recebeu uma ligação de sua mãe. Ela perguntou se ele estava bem. Respondeu que sim.

Outra mentira.

Ela perguntou se havia comido.

Disse que sim.

Outra.

Perguntou quando iria visitá-la.

Disse que no domingo.

Não sabia se iria.

Desligou.

Ficou olhando para o telefone.

A culpa apareceu, mas não como arrependimento. Era uma culpa antiga, quase doméstica, como um móvel esquecido dentro da consciência. Pensou na mãe envelhecendo. Pensou no pai morto. Pensou nas fotografias guardadas em caixas. Pensou nas pessoas que amamos apenas depois que percebemos que não poderemos mais conversar com elas.

Talvez amar fosse isso: assinar antecipadamente um contrato de sofrimento.

Quanto mais amamos alguém, mais garantimos a nós mesmos uma futura ausência.

Essa ideia lhe pareceu terrível.

Depois lhe pareceu verdadeira.

Ao sair do trabalho, caminhou sem destino. A cidade começava a acender suas luzes. As vitrines exibiam roupas caras, relógios, aparelhos eletrônicos, objetos que prometiam melhorar a existência. Entrou em uma loja e observou um relógio de pulso. Era bonito. Custava mais do que seu salário mensal.

O vendedor aproximou-se.

— Posso ajudá-lo?

Ele olhou para o relógio.

— Quanto tempo ele dura?

O vendedor sorriu, sem entender.

— É um excelente relógio. Tem garantia.

— Não perguntei sobre a garantia.

O vendedor ficou em silêncio.

— Perguntei quanto tempo ele dura.

— Muitos anos.

O homem agradeceu e saiu.

Na calçada, percebeu que não queria comprar o relógio. Queria comprar a sensação de que o tempo pudesse ser possuído.

Não podia.

Ninguém podia.

O tempo era o único proprietário de todos.

Continuou andando.

Entrou em um bar quase vazio. Sentou-se no fundo. Pediu uma bebida. O homem atrás do balcão serviu sem perguntar nada. Aquilo lhe agradou. Havia uma espécie de delicadeza no silêncio de desconhecidos.

Um homem mais velho estava sentado próximo à porta lendo um jornal. De vez em quando franzia a testa. Depois dobrava a página. Depois voltava a ler.

Ele perguntou:

— O senhor encontra alguma coisa importante aí?

O velho levantou os olhos.

— Nada importante.

— Então por que continua lendo?

O velho pensou.

— Porque preciso ocupar o tempo.

O homem sorriu.

— E se o tempo não precisasse ser ocupado?

O velho dobrou o jornal.

— Então teríamos de descobrir o que fazer com nós mesmos.

Nenhum dos dois falou durante alguns minutos.

Depois o velho voltou ao jornal.

Aquela frase permaneceu dentro dele.

Talvez o maior medo humano não fosse a morte.

Talvez fosse o intervalo.

O instante em que não houvesse mais distrações suficientes para impedir alguém de encontrar a própria consciência.

Pagou a conta e voltou para casa.

No caminho, começou a chover.

Não procurou abrigo.

Andou lentamente enquanto a água escorria pelo rosto. Algumas pessoas corriam para debaixo das marquises. Ele continuou.

A chuva não o incomodava.

Havia algo quase reconfortante em ser molhado por uma coisa que não tinha intenção alguma.

Chegou ao prédio.

O elevador estava parado no quinto andar.

Apertou o botão.

Esperou.

Nada.

Subiu pelas escadas.

No terceiro andar ouviu uma televisão ligada atrás de uma porta. Alguém discutia sobre política. No quarto, uma criança chorava. No quinto, um casal discutia.

No sexto, silêncio.

Parou diante da própria porta.

Antes de abrir, ouviu alguém atrás dele.

Virou-se.

Não havia ninguém.

Olhou novamente.

No corredor vazio, uma segunda porta aparecera onde antes havia apenas uma parede.

A porta era antiga, de madeira escura.

Havia uma placa pequena.

Nela estava escrito:

CONTRATO DE PERMANÊNCIA COM O NADA.

Ele ficou olhando.

Pensou que aquilo fosse uma alucinação.

Estendeu a mão.

A maçaneta estava fria.

Abriu.

Do outro lado havia o mesmo corredor.

Exatamente o mesmo.

Mas não havia portas.

Apenas uma extensão interminável de paredes brancas.

Entrou.

A porta desapareceu atrás dele.

Continuou caminhando.

Não havia chão visível, mas seus pés tocavam alguma superfície. Não havia teto, mas não sentia o céu. Não havia vento, mas sua roupa se movia.

Depois de algum tempo encontrou uma mesa.

Sobre ela havia, um folha de papel.

Sentou-se.

Leu:

“Você deseja permanecer?”

Abaixo havia duas opções.

SIM.

NÃO.

Ele ficou olhando.

Parecia uma pergunta simples.

Não era.

Se respondesse sim, permaneceria.

Se respondesse não, o que aconteceria?

Procurou uma terceira opção.

Não havia.

Pensou em tudo aquilo que havia vivido. Os trabalhos. As conversas. Os amores interrompidos. As pequenas alegrias. Os fracassos. As esperanças que morreram antes de se transformarem em alguma coisa concreta.

Pensou na mãe.

Pensou na criança correndo atrás do pombo.

Pensou no velho lendo jornal.

Pensou no relógio.

Pensou no espelho.

Pensou na rachadura do teto.

Talvez existir fosse sempre escolher entre duas formas de perda.

Escolheu SIM.

A folha desapareceu.

Outra surgiu.

“Você aceita permanecer sem promessa de sentido?”

Ele respirou profundamente.

A pergunta lhe pareceu quase ofensiva.

Sentido?

Durante anos procurara sentido como quem procura uma casa. Talvez tivesse imaginado que em algum lugar existisse uma resposta esperando por ele. Uma estrutura secreta organizando tudo. Uma razão escondida atrás das coisas.

Mas talvez não houvesse nada.

Talvez o universo não fosse um livro.

Talvez fosse apenas uma página em branco onde criaturas desesperadas escreviam justificativas para não enlouquecer.

Pegou a caneta.

Escreveu:

ACEITO.

A folha desapareceu.

Outra apareceu.

“Você aceita que nenhuma escolha sua seja capaz de derrotar a morte?”

Ele respondeu:

SIM.

“Você aceita que aqueles que ama irão desaparecer?”

SIM.

“Você aceita que também será esquecido?”

Demorou.

Depois escreveu:

SIM.

A sala ficou escura.

Uma voz perguntou:

— Então por que deseja permanecer?

Ele não respondeu.

A voz insistiu:

— Por quê?

Ele tentou encontrar uma resposta.

Não encontrou.

Talvez permanecesse porque não sabia partir.

Talvez a vida não fosse vontade de existir, mas incapacidade de desaparecer.

Lembrou-se de uma ideia que havia lido muitos anos antes: o sofrimento nasce porque desejamos aquilo que o mundo não tem obrigação alguma de nos oferecer. Outra lembrança surgiu: a existência não vinha acompanhada de instruções. 

Depois outra: somos lançados no mundo e obrigados a escolher mesmo quando nenhuma escolha parece boa. E uma última ideia, ainda mais terrível, apareceu dentro dele: talvez a liberdade fosse apenas o nome elegante que damos à nossa condenação de escolher.

A voz perguntou:

— Você ainda quer permanecer?

Ele respondeu:

— Não sei.

Pela primeira vez, a voz pareceu satisfeita.

— Finalmente.

As paredes começaram a desaparecer.

O corredor transformou-se no quarto de sua casa.

Ele estava deitado na cama.

O despertador tocava.

A luz da manhã atravessava a janela.

Levantou-se.

Foi ao banheiro.

Olhou para o espelho.

O reflexo sorria.

Dessa vez, ele não.

A rachadura continuava no teto.

O café estava sobre a mesa.

O telefone tocou.

Era sua mãe.

Ele atendeu.

— Filho?

Ficou em silêncio.

— Você está aí?

— Estou.

— Você vem domingo?

Olhou para a janela.

A cidade estava começando novamente.

— Venho.

Desligou.

Foi até a cozinha.

Preparou café.

Sentou-se.

Durante alguns minutos, permaneceu olhando para a xícara.

Depois percebeu alguma coisa escrita em sua mão.

Não se lembrava de ter escrito.

Era uma frase curta:

“Permanecer também é uma forma de morrer.”

Esfregou a pele.

A frase não saiu.

Lavou as mãos.

Continuou ali.

Naquele momento compreendeu que o contrato nunca havia sido assinado naquela sala impossível. 

Ele vinha sendo assinado todos os dias, silenciosamente, através de pequenas concessões: acordar quando não queria, trabalhar quando não acreditava, sorrir quando estava vazio, amar sabendo que perderia, esperar sabendo que a espera também envelhecia.

O contrato era a própria rotina.

O nada não precisava buscá-lo.

O nada já estava dentro de tudo.

Estava no café que esfriava.

No telefone que parava de tocar.

Na cadeira vazia.

Na fotografia de alguém morto.

No emprego que consumia anos.

Nas palavras que não foram ditas.

Nas palavras que foram ditas tarde demais.

No corpo que envelhecia enquanto a pessoa continuava fingindo ser a mesma.

Levantou-se.

Foi até a porta.

Antes de sair, olhou uma última vez para o espelho.

Dessa vez, o reflexo não o acompanhou.

Ficou parado.

Ele abriu a porta.

O reflexo ficou parado.

Desceu as escadas.

No terceiro andar, ouviu uma televisão.

No quarto, uma criança chorava.

No quinto, um casal discutia.

No sexto, silêncio.

Saiu para a rua.

A senhora das sacolas estava no ponto de ônibus.

Ela olhou para ele.

— Esse ônibus passa pelo centro?

Ele hesitou.

Dessa vez, respondeu:

— Não sei.

Ela sorriu.

— Tudo bem.

O ônibus chegou.

Ela entrou.

Ele ficou.

A cidade continuou.

Os carros passaram.

As pessoas caminharam.

As lojas abriram.

Os relógios avançaram.

E, em algum lugar invisível entre um segundo e outro, alguém assinou novamente o contrato.

Sem testemunhas.

Sem promessa.

Sem Deus.

Sem sentido.

Apenas a permanência.

E o nada, paciente, permaneceu esperando.

Clayton Alexandre Zocarato

Voltar

Facebook




Tempestade no rio

Jane Nash: ‘Tempestade no rio’ | Uma fábula tocante e mágica sobre o Rei dos Cisnes, o resgate de um menino perdido e o preço do dever e da redenção!

Jane Nash
Ilustração artística em realismo mágico mostrando um grande cisne branco ao lado de um menino sob um céu de tempestade, representando o conto Tempestade no Rio de Jane Nash.
https://gemini.google.com/app/bbbaaa8ecba35e25?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

O alto macho do cisne olhou rio abaixo. O céu estava se fechando, negro, e sua fêmea e os filhotes de cisne estavam amontoados nos juncos.

— Leve-os rio acima — ordenou ele.

Ela se desenrolou e avançou, com os fofos filhotes cinzentos atrás dela, sua curiosidade ganhando peso. O rei dos cisnes se lembrava dessa tempestade do ano anterior e, desta vez, estava determinado a não deixá-la levar nenhuma criatura viva, seja da água ou das margens. Este ano seria uma batalha para a qual ele havia se preparado.

Enquanto voava sobre os canteiros de juncos e as águas agitadas, podia ver novamente a queda e o arrasto do rio, levando-o para mais fundo até que não houvesse ninguém para resgatar; apenas um espaço vazio na margem onde antes um menino havia se sentado brincando, jogando gravetos diante da margem para vê-los acelerar rio abaixo. O riacho agora era um rio, o cruel sangue vital de sua existência. O rei dos cisnes ficou feliz por estar no ar.

Ainda se desenrolando, mal flutuando como feixes de penas de anjo, os seis filhotes de cisne tinham a cor das nuvens que rolavam rapidamente pelo céu. Ele passou sobre eles nos canteiros de juncos, ouvindo sua fêmea estender o chamado:

— Volte para mim.

O som de seu apelo penetrou em seu senso de dever. Ele pousou na margem, estendendo as asas. A tempestade logo desabaria sobre eles.

Perto dali, Jono estava pescando. Tinha oito anos e meio, com cabelos dourados que ficavam presos na gola de sua camisa xadrez vermelha e azul. Suas botas de borracha tinham um padrão de camuflagem azul e seus joelhos nus estavam cobertos de casquinhas, por ter caído das árvores. Ao lado dele estava uma pequena caixa de ferramentas de plástico verde, aberta, com alguns anzóis, tesouras e um saco de larvas vivas como isca. Ele não percebeu a tempestade que se aproximava. Sua cabeça estava cheia dos filhotes de cisne que havia visto durante a tarde e da concentração necessária para pegar uma perca. Ele sabia identificar uma perca.

Jono não percebeu o relâmpago que rasgou o céu, mas, quando o vento chegou, Jono vestiu um suéter tricotado à mão por sua avó, com a cabeça de um cachorro na frente e o corpo continuando até as costas. Uma cauda tricotada pendia das costas como um bônus adicional.

Aos oito anos e meio, sua destreza ainda não estava desenvolvida e ele rapidamente se viu enredado na linha de sua vara de pesca. O anzol e a larva estavam incrustados em algum lugar daquele suéter. Ele o encontrou, mas fisgou a mão no anzol farpado. Começou a chorar.

O rei dos cisnes elevou-se ao céu ao ouvir a situação daquele coração delicado. Poderosamente equilibrado e voando pouco acima da superfície da água, chegou diante de Jono, que prontamente parou de chorar, chocado ao ver uma ave tão magnífica diante dele.

— Seja corajoso — falou o rei dos cisnes.

Não ocorre a uma criança de oito anos e meio que cisnes não falam e, naquele momento, o menino respondeu:

— Ele pegou minha mão — e ergueu a mão esquerda para ser examinada.

O anzol estava enterrado na pele entre o dedo médio e o primeiro dedo.

— Isso parece dolorido.

A voz profunda da ave acalmou o menino, como se ele tivesse podido acariciar os cabelos do menino. Lágrimas e manchas de sujeira do rio lavavam o rosto angelical do menino. Seus olhos, safiras profundas e reluzentes, acompanharam a ave enquanto ela caminhava desajeitadamente atrás dele. O cisne estava cabeça a cabeça, da mesma altura que o menino.

— Abaixe sua vara de pesca e, com a mão direita, você vai cortar a linha. Deixe o anzol em sua mão.

Diante disso, Jono soluçou.

— Faça o que eu digo. Faça isso, faça isso agora.

A chuva podia ser ouvida à distância. Jono estava tão concentrado em conseguir manejar a tesoura e cortar a linha que se esqueceu do telefone celular que sua mãe havia colocado no bolso externo de sua mochila para emergências.

— Meu nome é Jono — disse o menino enquanto colocava a tesoura no chão.

— Eu sou o Rei dos Cisnes — respondeu o macho.

— E este é o meu rio.

A pele das pernas do menino se arrepiou. Usar shorts já não parecia uma boa escolha e ele desejou estar usando sua calça jeans.

— É hora de voltar para casa.

O rei dos cisnes o afastou da margem do rio com uma cutucada.

— É hora de ir para casa. Agora.

Jono levantou-se e, na confusão e no drama do tempo tumultuado, não conseguia se lembrar do caminho para casa. O céu escureceu e a pequena trilha de grama pisoteada que levava ao seu local de pesca havia desaparecido na atenção do vento. Ansioso para não desobedecer ao rei dos cisnes, Jono caminhou para o interior, sua pequena caixa de ferramentas de plástico em uma das mãos, a outra mão estendida em um ângulo desajeitado ao seu lado, como uma asa quebrada.

Jono sentou-se sob uma árvore ancestral, seus galhos labirínticos oferecendo algum pequeno alívio da chuva que agora estava presente. Ele estava perdido. O cisne voou através do pasto e pousou diante dele.

— Suba nas minhas costas.

Jono olhou fixamente para ele.

— Deixe sua caixa e suba nas minhas costas. Deixe suas pernas penduradas atrás das minhas asas e cuidadosamente envolva seus braços ao redor do meu pescoço e do meu corpo.

A ave recuou em direção ao menino que, encantado, fez o que lhe fora dito.

Um relâmpago dividiu o céu negro e iluminou a imagem mágica de um menino segurando desajeitadamente um grande cisne. Os cachos de linho do menino estavam empurrados para trás, afastados de seu rosto. Ele percebeu um grupo de patos que se curvaram diante do assombro dos sinais da ave e do menino enquanto eles passavam sobre suas cabeças.

Pouco tempo depois, e agora completamente encharcado, o rei dos cisnes mergulhou para baixo atrás do velho celeiro junto à casa da família de Jono.

— Desça. Você está seguro aqui.

Mas Jono foi descuidado e, em sua pressa, prendeu o anzol de sua mão esquerda no peito do rei dos cisnes e rasgou carne e penas. O cisne afastou-se, sibilando para Jono, que rapidamente correu para sua casa, de repente assustado com aquela poderosa criatura.

Nos canteiros de juncos, uma orgulhosa fêmea protegia seus filhotes da tempestade, mantendo-os sobre suas costas, usando as asas como barreiras contra os elementos. Ela levantou a cabeça para ver seu amor, seu rei, chegar ao seu lado. Podia sentir o gosto do sangue dele no ar enquanto ele voava em sua direção.

— O menino.

Sua voz ressoou como o trovão, despertando algumas das bolas de penugem e penas.

— Você fez o que tinha de fazer. O menino não estava seguro.

A fêmea olhou para ele, seu próprio coração doendo, cheio de amor e proteção por aquelas seis bocas famintas.

— Você salvou este aqui — continuou ela suavemente.

O rei dos cisnes conseguia se lembrar da tempestade anterior. Lembrava-se de um menino um pouco mais velho, caindo nos juncos e sendo levado pela correnteza, assustado demais para estender a mão para o cisne que havia voado até ele para ajudá-lo a permanecer flutuando.

— Não foi culpa sua — disse ela, lendo sua mente.

— É o meu rio.

Ela bicou um pouco de musgo e o arrancou das pedras junto às pedras acima da linha da água. Colocou-o no pequeno buraco em seu peito, danificado pelo anzol de pesca.

— Esta não é nenhuma penalidade que você precise pagar — seus tons suaves lembraram-lhe que sua casa era ao lado dela.

— É o meu rio. Posso garantir que isso nunca mais aconteça — e ele afundou ao lado dela, grato por seus olhos, por suas atenções e por suas forças.

— O menino está seguro agora.

E ele descansou a cabeça entre os feixes de penas de anjo aninhados sobre as costas dela. A excitação causada pela cabeça daquele macho de cisne, aconchegando-se em meio ao que até então fora o berçário deles, despertou todos eles, e seus guinchos excitados trouxeram conforto a ele.

Jane Nash

Voltar

Facebook




Três telefones em pensão para senhoras

Em um corredor silencioso, três telefones são o único elo com o mundo e com a esperança do reencontro

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem colorida mostra seis mulheres idosas num pátio de pedra. No centro, uma mulher de cabelo cacheado e casaco azul caminha. À esquerda, três mulheres sentadas, uma com andador. À direita, uma mulher numa cadeira de rodas e duas numa banca. O fundo tem paredes de tijolo e telefones pretos vintage.
https://gemini.google.com/share/ce684b871fe3?skid=7137bd75-4825-436d-aafc-b508f6398adf

Três telefones presos à mesma parede do corredor daquela pensão para senhoras. Enquanto aqueles três objetos permaneciam grudados, sempre no mesmo lugar, as hóspedes, ansiosas, olhavam para o vazio na esperança de que a próxima chamada fosse para elas. Nesse silêncio, até o zumbido de uma mosca poderia ser confundido com o toque do telefone.         

          Alice, uma das hóspedes mais antigas, imaginava estar em um hospício. Já Ruth, que há dois dias havia sido levada para lá, não tinha a menor dúvida. Mas outras opiniões saíam da boca daquelas mulheres, a maioria já passada dos 70, cinco ou seis beirando os 90, sem contar Clara, que insistia em permanecer sobre a terra, apesar dos 104 completados em janeiro. 

          Não eram maltratadas fisicamente, pois o tempo já se encarregara desse papel. Todavia, dor maior era aquela que todas sentiam: o abandono. É verdade que algumas recebiam visitas de parentes, que, aos poucos ou de modo mais ligeiro, iam escasseando até que restassem apenas datas especiais, quando muito. 

          — Isto é uma prisão!

          — Dona Laura, aqui estão os seus remédios. A senhora precisa tomá-los.

          A velha, olhos arregalados, torceu os lábios e, contrariada, obedeceu. Bebeu meio copo d’água e, em seguida, abriu bem a boca para mostrar que havia engolido tudo. A funcionária, assim que deu as costas para levar medicamentos para outras hóspedes, esboçou um sorriso com as palavras de Laura para a hóspede ao lado, Solange.

          — Essa aí é uma peste!

          Solange, que há tempos não falava e mal se movia, se esforçou ao máximo para concordar. Maldito AVC, que a limitou ao quase imperceptível movimento do indicador da mão esquerda. Por conta de toda essa limitação, era comum colocá-la em frente à televisão, onde era obrigada a assistir à mesma programação todos os dias. Ela sonhava em ter o controle do aparelho em suas mãos para poder trocar de canal. Melhor, desligaria aquela caixa falante e cheia de imagens distorcidas. Pobre mulher, sonhava com os dias em que possuía controle sobre suas próprias ações. 

          Hora para isso, hora para aquilo, hora que não era hora. Ora, vê se pode? Onde já se viu ter hora para tudo e para nada? Isso lá é vida? Até planta tem hora de abrir e fechar as flores. Ali, naquele lugar, não havia botões. Todas as pétalas já teriam caído há tempos. Há tempos! Quiçá não foram arrancadas por mãos truculentas. 

          Hora do pátio. A osteoporose comia solta naquele ambiente. Melhor tomar um solzinho. Era hora de relembrar tempos de praia, idas ao clube ou banhos de cachoeira. Por ali, no entanto, quando muito, um borrifador. 

          Aquelas velhas, algumas sentadas, outras em pé, praticamente todas com a face virada para cima tentando sentir os raios solares invadirem a alma. Momento em que se simulavam vivas. Eis que o telefone tocou. Todas se olharam, sorrisos estampados em lábios murchos. 

          Elizabeth, no auge dos 73, simulou uma corrida até o corredor. Não demorou, voltou para o pátio, onde ouviu várias vozes perguntando para quem era a ligação. A mulher, olhos tristonhos, voz quase muda, finalmente respondeu.

          — Era engano.

Eduardo Cesario-Martínez

Voltar

Facebook




A árvore centenária

Evani Rocha: Do tronco ressequido ao sopro do primeiro broto, um conto profundo sobre como o amor materno vence a barreira do tempo.

Evani Rocha
Evani Rocha
https://chatgpt.com/c/6a917a8f-dcc0-83e9-aec6-59d9905b6ce7

O céu escureceu de repente, bradou, rugiu e desabou em águas torrenciais. Um vendaval arrancou galhos e troncos das maiores árvores da floresta. Uma senhora-árvore centenária não suportou a força do vendaval. Lutou contra o vento, retorceu-se, mas foi vencida! Então, caiu desfalecida sobre os braços da terra-mãe. Deitou-se sobre o solo alagado e chorou, chorou muito…de seus estômagos abertos, as águas brotavam como nascentes, querendo viver…

Quando a tempestade cessou, tudo se acalmou e o burburinho da floresta voltou ao trivial. Exceto aquele espaço ocupado pela árvore, agora, era um triste vazio…

A árvore tentou mover seu grande tronco, muito dolorido. Mas viu suas raízes axiais expostas, dilaceradas, arrancadas…

Dos seus grandes galhos-braços, as folhas caídas estavam espalhadas pelo chão da floresta, à revelia.

Ela olhou em prece para o céu. Viu o azul profundo, abrindo-se num clarão…era o sol! A árvore esfacelada mal podia abrir seus olhos-estômatos das poucas folhas que ainda aderiam a seus galhos esguios. Mas esforçou-se ao máximo. Abriu-os vagarosamente e as lágrimas secaram!

Então, ela esperou…

Esperou pelos dias e pelas noites… Esperou o tempo passar, continuamente. Amanhecia e anoitecia, tudo igual! Mas a senhora-árvore continuava no mesmo lugar…

Perdeu todas as folhas e frutos…Foi secando-se, definhando, despedaçando-se aos poucos, no correr solitário do tempo. Tornou-se esquelética e fria. Tudo o que lhe restara foram os galhos e troncos ressequidos e quebradiços. À sua volta, formigas carregavam seus fragmentos, em fila indiana, incansavelmente.

No final do verão, a árvore soltava seus últimos suspiros, quando alguém cochichou ao seu ouvido: “mamãe…”

Era um bebê verdinho, quase pálido, recém-nascido. Despontava de uma semente sepultada sob ela…

A árvore, sem vida, sentiu algo renascer dentro de si… Era um bebê seu, que nascera de suas sementes jogadas pelo vento. Ali, sob ela, no solo encharcado pela tempestade, a sementinha alimentou-se de seus nutrientes e germinou.

Emocionada, a árvore-mãe pensou: “Minha morte não foi em vão! Ela trouxe vida, continuidade, sentido…”

Agora renascia em outro corpo, de um jeito próprio, fincando suas tenras raízes, ganhando novos pigmentos através do rei-sol…

Assim, de alguma forma, ela vivia novamente, para iniciar um novo e magnífico ciclo!

Evani Rocha

Voltar

Facebook




O imóvel que respira no escuro

Conto de Clayton Alexandre Zocarato narra os segredos de uma misteriosa casa viva

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
https://gemini.google.com/app/25f1c6dea0895103?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

O imóvel respirava.

            Ninguém sabia dizer quando aquilo havia começado, e talvez essa fosse a primeira mentira contada pela casa, porque toda coisa que respira já respirou antes de ser percebida.

            O problema não era ouvir o ar entrando pelas paredes, nem perceber o pequeno movimento das janelas durante a madrugada, nem mesmo a insistência de um ruído semelhante ao pulmão de um animal adormecido.

            O problema era que o imóvel respirava sem possuir pulmões, e isso fazia com que todas as explicações possíveis parecessem imediatamente ridículas.

            Durante o dia, a casa permanecia imóvel, obediente à geometria das coisas que não possuem vontade. Era um imóvel como tantos outros: paredes, portas, janelas, corredores, tomadas, uma escada estreita, um quintal coberto por uma espécie de silêncio vegetal.

            Havia poeira sobre os móveis e uma lâmpada que demorava alguns segundos para acender. Havia também uma torneira que pingava sempre às três horas da tarde, embora ninguém tivesse encontrado qualquer vazamento.

            À noite, porém, tudo mudava.

            Não era uma mudança visível. O imóvel não crescia, não se deslocava, não alterava a posição das portas. Nada acontecia que pudesse ser fotografado.

             Ainda assim, às duas horas e dezessete minutos, aproximadamente, as paredes pareciam adquirir uma espessura diferente, como se deixassem de separar o interior do exterior e passassem a separar o possível do impossível.

            Era nesse momento que começava a respiração.

            Primeiro, um sopro quase imperceptível.

            Depois, um longo recolhimento.

            Em seguida, o estalo das vigas.

            E então o imóvel inspirava.

            Inspirava como quem espera alguma coisa.

            Expirava como quem se arrepende.

            Ninguém morava ali havia muitos anos. Isso, entretanto, nunca significou que o imóvel estivesse vazio. O vazio é uma palavra inventada pelos vivos para nomear aquilo que não conseguem ocupar. Uma casa abandonada não está vazia. Está cheia de ausências. E algumas ausências possuem mais peso do que pessoas.

            O antigo proprietário havia desaparecido sem deixar explicações. Não havia sangue, não havia cartas, não havia roupas abandonadas sobre uma cama. Havia apenas uma fotografia encontrada na sala, virada para a parede. Nela aparecia a fachada do imóvel, ainda recém-construído, mas havia uma diferença perturbadora: todas as janelas estavam abertas, embora a fotografia tivesse sido tirada em um dia de inverno.

            No verso da fotografia havia uma frase:

            “Não venda a casa. Ela ainda não terminou de existir.”

            Ninguém compreendeu.

            Frases assim costumam sobreviver porque não precisam ser compreendidas.

            Durante anos, corretores tentaram vender o imóvel. Alguns desistiram depois de visitá-lo. Outros simplesmente desapareceram dos registros, como se nunca tivessem trabalhado com imóveis.

            Um deles afirmou que havia entrado na cozinha e saído pela infância. Outro jurou ter encontrado, no segundo andar, uma porta que dava para uma sala idêntica à sala de entrada, mas habitada por móveis que pertenciam à sua própria casa.

            Ninguém acreditou.

            É sempre mais fácil acreditar na loucura de alguém do que na arquitetura de uma casa.

            O imóvel permaneceu fechado.

            Até que certa noite alguém entrou.

            Não porque desejasse comprar.

            Não porque procurasse abrigo.

            Não porque estivesse perdido.

            Entrou porque teve a impressão de que a casa o chamava.

            Era uma sensação absurda, quase infantil. Um chamado sem voz. Uma inclinação invisível do mundo. Como se todas as ruas daquela cidade tivessem sido construídas para conduzi-lo àquela porta.

            Parou diante da fachada.

            A noite estava úmida.

            As árvores permaneciam imóveis.

            Nenhum carro passava.

            Então ouviu.

            Um som profundo.

            Lento.

            Respiratório.

            O imóvel inspirou.

            Ele recuou.

            O imóvel expirou.

            Ele aproximou-se.

            Durante alguns segundos ficou diante da porta, tentando decidir se aquilo que sentia era medo ou apenas a percepção tardia de que nunca havia estado realmente seguro em lugar algum.

            Tocou a maçaneta.

            Estava quente.

            Isso o perturbou mais do que qualquer outra coisa.

            Uma maçaneta quente significa que alguém esteve ali.

            Ou que a própria casa possui temperatura.

            Ou que a realidade é apenas uma forma educada de esconder aquilo que não conseguimos explicar.

            Abriu a porta.

            A sala estava escura.

            Não havia eletricidade, mas alguma luminosidade cinzenta penetrava pelas frestas das janelas. A poeira suspensa parecia formar pequenas constelações. Por alguns instantes ele teve a impressão de que o chão se movia.

            Não era o chão.

            Era a respiração.

            As paredes avançavam alguns milímetros e recuavam.

            Avançavam.

            Recuavam.

            Como se o imóvel estivesse tentando aprender a permanecer vivo.

            Ele entrou.

            A porta fechou-se atrás dele.

            Não houve estrondo.

            Apenas um clique.

            O tipo de clique que uma decisão produz quando já não pode ser desfeita.

            Olhou para trás.

            A porta estava lá.

            Mas parecia distante.

            Muito distante.

            Não fisicamente.

            Existencialmente.

            Aquela porta ainda era uma porta, mas havia deixado de ser uma saída.

            Foi então que compreendeu que certas coisas não precisam estar trancadas para impedir uma fuga.

            Caminhou pela sala.

            Havia um relógio sobre a parede.

            O ponteiro dos segundos girava para trás.

            Ele aproximou-se.

            O relógio marcava duas horas e dezessete minutos.

            Sempre.

            O ponteiro dos minutos tremia.

            O dos segundos recuava.

            O das horas parecia imóvel.

            Encostou o ouvido na parede.

            Ouviu um coração.

            Afastou-se imediatamente.

            Depois riu.

            Riu porque a alternativa seria aceitar.

            E rir diante do inexplicável é uma das últimas formas de soberania que restam ao homem.

            — É apenas madeira — disse.

            A parede respondeu:

            — Sim.

            Ele ficou imóvel.

            Não havia boca.

            Não havia voz.

            A resposta parecia ter surgido dentro de sua cabeça, mas possuía uma textura estranha, como se outra consciência tivesse utilizado sua memória para falar.

            — Quem disse isso?

            Silêncio.

            — Eu perguntei quem disse isso.

            A casa respirou.

            — Ninguém.

            Ele olhou para o teto.

            — Então quem respondeu?

            A casa permaneceu imóvel.

            — Você.

            — Eu não disse nada.

            — Ainda.

            A palavra caiu dentro dele como uma pedra.

            Ainda.

            O que significava ainda?

            Ainda não havia dito?

            Ainda não existia?

            Ainda não havia morrido?

            A casa respirou novamente.

            Ele começou a caminhar.

            No corredor havia sete portas.

            Tinha certeza de que eram seis.

            Contou novamente.

            Sete.

            Abriu a primeira.

            Um quarto vazio.

            Abriu a segunda.

            Outro quarto vazio.

            A terceira dava para uma pequena biblioteca.

            Livros ocupavam as estantes.

            Todos sem títulos.

            Retirou um volume.

            Abriu.

            As páginas estavam em branco.

            Virou outra.

            Em branco.

            Outra.

            Em branco.

            Até chegar à última página.

            Ali havia uma única frase:

            “Você está lendo o lugar errado.”

            Fechou o livro.

            Devolveu-o à estante.

            Foi então que percebeu que os livros respiravam.

            As capas se elevavam lentamente.

            Subiam.

            Desciam.

            Subiam.

            Desciam.

            Centenas de pequenos pulmões de papel.

            Ele saiu da biblioteca.

            A casa parecia observá-lo.

            Não havia olhos.

            Mas havia observação.

            Talvez os olhos sejam apenas uma forma primitiva de observar.

            Talvez observar seja algo que as paredes fazem melhor do que nós.

            Entrou em outro quarto.

            Havia uma cama.

            Sobre ela, um casaco.

            O casaco estava molhado.

            Ele reconheceu o tecido.

            Era seu.

            Passou a mão sobre a roupa.

            Estava fria.

            No bolso encontrou uma chave.

            Não sabia de que porta era.

            Guardou-a.

            Então ouviu passos no andar superior.

            Um.

            Dois.

            Três.

            Pararam.

            Depois quatro.

            Cinco.

            Seis.

            Ele contou.

            Eram os passos de alguém descendo.

            Mas não havia escada naquela direção.

            Mesmo assim, os passos aproximavam-se.

            O som atravessava o teto.

            Descia pelas paredes.

            Entrava no chão.

            Até que parou diante dele.

            — Quem está aí?

            A casa respondeu:

            — Você.

            — Eu estou aqui.

            — Não este.

            Ele sentiu frio.

            — Quantos de mim existem?

            A casa demorou a responder.

            — Depende de quando você pergunta.

            Ele começou a compreender que não deveria fazer perguntas.

            Mas o ser humano, diante do abismo, costuma fazer perguntas justamente porque não sabe fazer outra coisa.

            — A casa está viva?

            Silêncio.

            — A casa está viva?

            O imóvel respirou profundamente.

            — A pergunta é pequena demais.

            — Então o que você é?

            As paredes estalaram.

            — Aquilo que permanece quando ninguém mais acredita.

            Ele sentou-se na cama.

            Durante alguns minutos não disse nada.

            A casa também não.

            Foi o primeiro momento de paz.

            Talvez a paz seja apenas a suspensão temporária das perguntas.

            Fechou os olhos.

            Pensou em sua infância.

            Não lembrava do rosto da mãe.

            Isso o assustou.

            Tentou lembrar do pai.

            Também não conseguiu.

            Lembrou da escola.

            Dos corredores.

            Da primeira vez em que sentira vergonha.

            Do primeiro beijo.

            Da primeira morte.

            Mas tudo parecia acontecer dentro daquela casa.

            A casa não mostrava lembranças.

            Ela fabricava passado.

            E talvez essa fosse sua verdadeira perversidade.

            Ela não precisava matar ninguém.

            Bastava alterar aquilo que alguém acreditava ter vivido.

            Levantou-se.

            No corredor, agora havia oito portas.

            Depois nove.

            Depois dez.

            Cada vez que olhava, uma nova porta aparecia.

            — Isso não é possível.

            A casa respondeu:

            — Possível para quem?

            Ele não respondeu.

            A casa continuou:

            — Você chama de impossível tudo aquilo que não sabe suportar.

            — E o que é possível?

            — Tudo o que já aconteceu.

            — E o que não aconteceu?

            — Também.

            Ele fechou os olhos.

            — Você não faz sentido.

            A casa respirou.

            — Finalmente.

            Foi então que ele percebeu que o absurdo não era a casa respirar.

            O absurdo era ele esperar que o mundo tivesse obrigação de fazer sentido.

            A casa não era louca.

            Louca era a expectativa.

            Aquela pequena crença humana de que paredes deveriam permanecer imóveis, relógios deveriam avançar, portas deveriam conduzir a lugares e mortos deveriam permanecer mortos.

            A casa apenas retirava essas convenções.

            E, sem elas, o mundo revelava sua verdadeira arquitetura.

            Uma arquitetura sem arquiteto.

            Caminhou até o fim do corredor.

            Encontrou uma porta diferente.

            Era branca.

            Sem maçaneta.

            Sobre ela havia uma inscrição:

            “ENTRE QUANDO TIVER CERTEZA.”

            Ele sorriu.

            — Nunca entrarei.

            A casa respondeu:

            — Já entrou.

            A porta abriu-se.

            Do outro lado havia uma sala completamente iluminada.

            Ele reconheceu o lugar.

            Era a sala de sua própria casa.

            Seu sofá.

            Sua televisão.

            Sua mesa.

            Seu relógio.

            Seu retrato.

            Mas havia alguém sentado no sofá.

            Ele mesmo.

            A outra versão levantou-se.

            Olhou para ele.

            Sorriu.

            — Você demorou.

            Ele não conseguiu falar.

            — Quanto tempo estou aqui?

            O outro respondeu:

            — Desde antes de você entrar.

            — Isso é impossível.

            — Você continua usando essa palavra.

            — Quem é você?

            — A pergunta errada.

            — Então qual é a pergunta certa?

            O outro aproximou-se.

            — Por que você precisa ser alguém?

            Ele ficou em silêncio.

            O outro continuou:

            — Você passou a vida inteira tentando transformar existência em propriedade. Meu corpo. Minha casa. Meu nome. Minha profissão. Minha memória. Meu passado. Meus medos. Até a morte você queria possuir.

            — Eu apenas fiquei.

            A frase pareceu produzir uma rachadura no ar.

            O imóvel respirou.

            As duas versões dele permaneceram diante uma da outra.

            Então o outro desapareceu.

            Não morreu.

            Não saiu.

            Apenas deixou de estar onde estava.

            Ele entrou na sala.

            Era sua casa.

            Mas não era.

            Sobre a mesa havia uma fotografia.

            Pegou-a.

            Era a fachada do imóvel.

            Virou.

            No verso estava escrito:

            “Não venda a casa. Ela ainda não terminou de existir.”

            Ele deixou a fotografia cair.

            Sentiu vontade de chorar.

            Não chorou.

            Talvez porque naquele momento percebeu que até suas lágrimas pertenciam à casa.

            Saiu.

            A porta estava novamente diante dele.

            Abriu.

            Do lado de fora amanhecia.

            A rua estava cheia.

            Pessoas caminhavam.

            Carros passavam.

            Um cachorro latia.

            Uma mulher varria a calçada.

            Tudo parecia normal.

            Olhou para trás.

            O imóvel estava silencioso.

            Nenhum movimento.

            Nenhuma respiração.

            Nada.

            Ele caminhou alguns metros.

            Sentiu alívio.

            Então ouviu um som.

            Inspirou.

            Expirou.

            Parou.

            Percebeu que o som vinha de dentro dele.

            Respirou novamente.

            A casa respirou junto.

            Ou talvez ele respirasse como a casa.

            Voltou-se.

            A fachada permanecia imóvel.

            No segundo andar, uma janela abriu-se lentamente.

            Ele não viu ninguém.

            Mas teve certeza de que havia alguém olhando.

            Continuou caminhando.

            Durante meses tentou esquecer.

            Conseguiu esquecer durante alguns dias.

            Depois durante algumas horas.

            Depois durante alguns minutos.

            Até perceber que o esquecimento também era uma forma de permanência.

            Começou a sonhar com o imóvel.

            Todas as noites.

            Nos sonhos, nunca entrava.

            Ficava diante da porta.

            Esperando.

            A casa respirava.

            Ele respirava.

            E ambos aguardavam alguma coisa que nenhum dos dois sabia nomear.

            Certa manhã, recebeu uma carta.

            Não havia remetente.

            Dentro havia apenas uma folha.

            Nela estava escrito:

            “Você deixou sua chave aqui.”

            Ele verificou os bolsos.

            A chave encontrada no quarto ainda estava consigo.

            Colocou-a sobre a mesa.

            Naquela noite, dormiu mal.

            Às duas horas e dezessete minutos, acordou.

            Ouviu o som.

            Inspirar.

            Expirar.

            Inspirar.

            Expirar.

            O som vinha do corredor.

            Levantou-se.

            Abriu a porta do quarto.

            A chave estava no chão.

            Não sobre a mesa.

            No chão.

            Brilhava sob a luz fraca.

            Ele pegou.

            Não sabia por quê.

            Vestiu-se.

            Saiu de casa.

            Andou pelas ruas vazias.

            A cidade parecia outra.

            Ou talvez ele fosse outro.

            Chegou ao imóvel pouco antes do amanhecer.

            A porta estava aberta.

            Entrou.

            Desta vez não sentiu medo.

            Sentiu reconhecimento.

            O que era pior.

            A casa respirou.

            — Você voltou.

            Ele respondeu:

            — Eu nunca saí.

            A casa permaneceu em silêncio.

            — Então acabou?

            — O quê?

            — Tudo isso.

            — Tudo isso ainda nem começou.

            Ele olhou para o corredor.

            Havia apenas uma porta.

            A mesma porta.

            Branca.

            Sem maçaneta.

            Sobre ela havia uma nova frase:

            “SAIA QUANDO TIVER CERTEZA.”

            Ele sorriu.

            Empurrou.

            A porta abriu.

            Do outro lado havia uma rua.

            A rua estava cheia.

            Pessoas caminhavam.

            Carros passavam.

            Um cachorro latia.

            Uma mulher varria a calçada.

            Era a mesma manhã.

            Era a mesma cidade.

            Era o mesmo mundo.

            Ele saiu.

            A porta fechou.

            Olhou para trás.

            Não havia imóvel.

            No lugar da casa existia apenas um terreno vazio.

            Nenhuma parede.

            Nenhuma janela.

            Nenhuma escada.

            Nenhum vestígio.

            Um homem passou por ele.

            Ele perguntou:

            — O senhor sabe o que havia aqui?

            O homem olhou para o terreno.

            — Nada.

            — Nunca houve uma casa?

            — Não.

            — Tem certeza?

            O homem sorriu.

            — Tenho.

            Ele continuou caminhando.

            Depois de alguns metros, colocou a mão no bolso.

            Encontrou a chave.

            Parou.

            Olhou para ela.

            Não havia nenhuma porta.

            Mas a chave existia.

            Talvez uma chave não precise de fechadura.

            Talvez sua função verdadeira seja lembrar ao homem que toda abertura contém a possibilidade de um fechamento.

            Guardou-a novamente.

            Continuou.

            A cidade despertava.

            O céu clareava.

            As pessoas começavam a falar.

            O mundo recuperava sua aparência habitual.

            Mas, em algum lugar atrás das coisas, havia uma respiração.

            Lenta.

            Profunda.

            Quase imperceptível.

            Ele caminhou mais depressa.

            A respiração acompanhou.

            Parou.

            Ela parou.

            Voltou a caminhar.

            Ela voltou.

            Então compreendeu.

            Não era o imóvel que respirava.

            Era o espaço entre ele e o imóvel.

            Era aquilo que permanecia quando a casa desaparecia.

            Era a distância.

            Era a ausência.

            Era o intervalo entre uma coisa e seu nome.

            Talvez fosse Deus.

            Talvez fosse o nada.

            Talvez fosse apenas o ruído do próprio sangue procurando uma saída.

            Ele não soube.

            E, pela primeira vez, não precisou saber.

            Sentou-se numa praça.

            Observou as pessoas.

            Todas caminhavam como se soubessem para onde iam.

            Ele achou aquilo profundamente comovente.

            Uma criança corria atrás de uma bola.

            Um homem discutia ao telefone.

            Uma mulher chorava discretamente.

            Um velho alimentava pássaros.

            Nada fazia sentido.

            Tudo continuava.

            E talvez esse fosse o único sentido possível.

            Continuar.

            Não porque houvesse destino.

            Não porque houvesse promessa.

            Não porque alguém tivesse escrito uma finalidade escondida atrás das paredes.

            Continuar porque o movimento é a forma mais discreta que o absurdo encontrou para não confessar sua derrota.

            Ele fechou os olhos.

            Respirou.

            Inspirou.

            Expirou.

            Por um instante, ouviu novamente o imóvel.

            Mas agora o imóvel estava dentro dele.

            Ou ele estava dentro do imóvel.

            Ou nunca existira imóvel algum.

            Abriu os olhos.

            A praça continuava ali.

            As pessoas continuavam ali.

            O mundo continuava.

            No bolso, a chave permanecia quente.

            Ele apertou-a entre os dedos.

            E ouviu, muito distante, uma porta se abrindo.

            Depois outra.

            Depois outra.

            Depois milhares.

            Todas ao mesmo tempo.

            Nenhuma levava a lugar algum.

            E, justamente por isso, todas levavam para dentro.

            Ele sorriu.

            Não havia mais casa.

            Não havia mais saída.

            Não havia mais pergunta.

            Apenas a respiração.

            Apenas o escuro.

            Apenas aquele estranho lugar onde o ser, cansado de existir, finalmente descobria que o nada também precisava respirar.

Clayton Alexandre Zocarato

Voltar

Facebook