Nem o Botafogo explica o Banco do Brasil

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘Nem o Botafogo explica o Banco do Brasil’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Se existe o ditado que há coisas que só acontecem ao Botafogo, afirmo que outras tantas, por mais esquisitas que sejam, costumam frequentar as dependências do Banco do Brasil. E aqui vai uma dessas incongruências com a sanidade, testemunhada por Gilmarildo, amigo de longa data do ex-funcionário da casa Sérgio.

Lá pelos idos de 1992, talvez 1993 ou 1994, não importa, o Sérgio estava lotado na saudosa agência Figueiredo Magalhães, em Copacabana, o mais afamado, para o bem e para o mal, bairro carioca. Tempos divertidos, costuma dizer o sujeito, que ainda guarda na lembrança momentos divertidos e, não raro, constrangedores. No entanto, deixemos tais eventos de lado, pois a tinta é curta e periga não ser suficiente para terminar este causo.

Cecília, nome de poetisa, era a gerente de uma das inúmeras equipes da agência. E, por azar, sorte, calvário ou destino, eis que o Sérgio era um dos seus subordinados. A mulher, acredite, era difícil no trato, do tipo que buscava a discórdia só para ter a chance de apezinhar o alvo da vez. Uma peste, como os colegas a chamavam à boca pequena, pois ai da carrasca se os ouvisse. Era bronca na hora, com direito a meia hora de sermão.

— Sérgio, tu só pode estar de brincadeira! Já é a terceira vez que você me aparece aqui com diferença no caixa.

— Terceira vez no ano, né, Cecília!?

— E tu acha pouco?

— Foi mal, chefe! Ah, antes que me esqueça, feliz Natal pra você também.

Cecília, que nascera desprovida de uns 15 centímetros para atingir um metro e meio, só ia trabalhar de salto alto, sem contar a gastança de laquê para deixar os cabelos armados. Entretanto, por conta do incômodo de se equilibrar nas alturas, ela preferia retirar o calçado antes do final do expediente. E foi justamente essa a oportunidade que o Sérgio e o Gilmarildo estavam esperando, mesmo que, até aquele instante, não soubessem.

Soares, o maloteiro, costumava passar na agência já no final do expediente. Ele trazia e levava documentos nos malotes, que eram lacrados e rodavam o país inteiro. E não se sabe exatamente por que, mas Cecília era toda sorriso com o tipo. E, quando o fechamento do expediente estava tranquilo, fazia questão de convidá-lo para um café na cantina, que ficava no corredor à esquerda.

— O que você está fazendo, Sérgio?

Não é que o Sérgio, aproveitando-se da breve ausência da gerente, tinha pego um dos pés do sapato da Cecília sob a mesa e, pasmem, o jogou dentro do malote? Acredite, pois foi o que aconteceu.

— Fica na tua, Gilmarildo. Vê se não vai dar com a língua nos dentes! Olha lá, hein!?

Gilmarildo, do alto do seu físico de grilo, não era besta de criar imbróglio com o Sérgio, famoso por bíceps talhados em academia. Melhor era ficar calado, e ficou mudo que nem rato quando tem gato no sótão.

Sérgio, assim que a Cecília e o Soares retornaram, se despediu e, como era sexta-feira, decidiu caminhar pela orla até seu quarto e sala, que ficava na altura do Posto 2. Inebriado pela maresia e principalmente por conta da arte que acabara de aprontar, o bancário se sentiu vingado e nem se preocupou com os olhares esquisitos quando gargalhou.

Na segunda-feira, o Gilmarildo foi colocar o colega a par do desfecho do imbróglio, que certamente se deu por causa do desaparecimento de um dos pés do sapato da gerente.

— Tu acredita que ela nem desconfiou?

— Do que você está falando, cara?

— Do sapato da Cecília.

— Sapato? Que sapato, Gilmarildo?

— Ué! Do sapato que tu colocou no malote do Soares.

— Eu? Tu bebeu?

Enquanto Sérgio fez questão de não conter o cinismo, Gilmarildo, sem ânimo ou coragem para prosseguir aquela conversa, fingiu uma dor de barriga e foi cuidar da vida. Que aquilo era assunto morto e enterrado.

Alguns anos se passaram e, já em meados de 2012, Gilmarildo foi trabalhar em uma agência em Brasília. Sentiu falta do Rio, mas as vantagens do novo cargo eram recompensadoras. E foi assim, infeliz e de bolsos recheados, que ele presenciou algo inusitado.

Já no início de 2013, durante um curso para o alto escalão do Banco do Brasil, Gilmarildo reencontrou sua antiga gerente, a Cecília, cuja carreira meteórica lhe possibilitava tocar as nuvens, caso desejasse. Para relembrar os velhos tempos, o homem convidou a colega para um passeio no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que fica em uma área pouco afastada. E lá foram os dois sem nem desconfiarem que aquele momento marcaria para sempre suas vidas.

Estava tendo uma exposição sobre o diretor de cinema Quentin Tarantino no CCBB, e a Cecilia, que tinha fama de adoçar o café com sangue, queria porque queria assisti-la. Gilmarildo, por sua vez, como bom anfitrião, desejou realizar o desejo da mulher.

Cecília se esbaldou com os filmes do aclamado diretor, o que fez com que o anfitrião de última hora se sentisse, de certa forma, satisfeito. E, quando a dupla já se preparava para ir embora, eis que a Cecília, curiosa que era, observou que havia um pequeno museu no local e quis entrar.

Entre tantas relíquias, algo chamou a sua atenção: uma enorme estante com vários objetos. E, acredite ou não, lá estava o sapato perdido da Cecília. Ao lado, uma placa de metal com a seguinte inscrição: “Há coisas que só acontecem no Banco do Brasil”.

Eduardo Cesario-Martínez

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Safe

Jane Nash: Horror story ‘Safe’

Jane Nash
Jane Nash
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‘You’ll be safe in my hands.’

She wasn’t so sure and even with no other option on offer, shook her head, no.

He glanced over his shoulder and spread his hands, palms up. The trusting Truth Plane.

‘I promise.’

His hands looked odd held waist height while he was sitting in his van, leaning towards the open passenger window. She didn’t like his balding head. A patch of his old skin shone like the side of Aladdin’s lamp. She could see his collar darkening from the beads of sweat running down his neck beneath a crescent of salt and pepper hair. She sensed him to be untrustworthy but what experience did she have at 17?

‘I promise.’

She hesitated until she heard footsteps running down a side street towards the plaza. She wanted to escape her stalker. She nodded and went to climb onto the passenger seat of his small white van.

‘Get in the back. They won’t see you there.’

Her stomach lurched. It was one thing to be a passenger but in the back of the truck?

‘Get. In. The. Back.’

She scrambled into the cave of the back of the van, toppling forward as it moved slightly and took off. Gravity and the lurching of her stomach held her to the metal floor. The scrape of her raw throat from bile’s acid took more of her attention than the chains beside her. She swallowed hard as her mouth filled with saliva. She vomited.

The van sped up. There was nothing to hold on to and her long hair was now threaded with pieces of sick around her face.

Her eyes adjusted to the lack of light in the back. She became aware of a shackled foot. She followed the leg up to the face of a boy, whom she estimated to be possibly 8 years old.

His eyes were wide open exposing the sclera all around his black pupils. Don’t worry, she whispered loudly to him, wiping stray vomit from her chin. The boy reached across to her and she held out her hand in return. His fingernails were encrusted with dirt, his skin smeared in patches, black.

His nails like talons ripped into her from the inside of her elbow cutting through the flesh like a hot knife to butter, all the way down to her wrist. Blood sprayed out over his face and began to sop the grimy metal floor.

She screamed as he sprang towards her, affixing himself to her wrist, blood covering his pallid, ecstatic face. She tried to shake him off but was frozen, her mind screaming to move but nothing in her body responded. She found her voice and screamed out to the driver

‘You said, I’d be safe in your hands.’

‘You’re not in my hands.’

The leech child drained her. She lay in her own vomit, looking at the ceiling of the van. He made busy with her arteries and veins. I don’t want to become a vampire she thought until she realised that was a silly childhood myth.

Jane Nash

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Adágio e seu ouvido absoluto

Eduardo Cesario-Martínez

‘Adágio e seu ouvido absoluto’

Eduardo Cesario-Martínez
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Adágio Allegro, desde menino, fora diagnosticado com algo raro. Não que fosse doença, porém, após alguns anos, passou a deixar a mãe colérica. Acredite ou não, o moleque havia nascido com ouvido absoluto. Isso mesmo! Absoluto!

          Por conta de tal característica, Adágio conseguia não somente distinguir todos os sons, mas também apontar, certeiro como as flechas impossíveis de Robin Hood, a nota musical. Todavia, não pense você que o menino falava apenas “dó”. Não mesmo!  Tacava logo “dó menor sustenido!”

          De tão afamado ficou, alguém teve a providencial ideia de apelidá-lo de Diapasão. A princípio, Adágio ficou furioso e, dizem, só parou de berrar quando percebeu o som do próprio choro em si bemol menor. No final das contas, acabou gostando da alcunha, que percebeu ser sua sina. 

          Já aos 10 anos, Adágio havia se tornado músico respeitado na banda do bairro. Tocava de tudo, desde flauta até trombone, passando por trompete e clarinete. Clarinete, sim, senhor! O guri era um prodígio. 

          Aos 12, não teve jeito de segurar o ímpeto do pirralho. Queria porque queria ser o maestro. E quem seria besta em não acatar tal desejo? Afinal, Afonso, que há quase seis décadas comandava aquela trupe, estava sem forças para manter a batuta firme. Resultado: aposentaram o velho. 

          Nas mãos firmes de Adágio, a antes banda de bairro, agora havia se transformado em uma orquestra. A fama correu a cidade inteira, até que chegou aos ouvidos do prefeito e, em seguida, aos do governador. Todos desejavam tirar uma casquinha da fama daquele prodígio. Diziam até que havia gente importante do exterior querendo levá-lo embora. 

          Pois foi justamente nesse tempo em que o governador, em conluio com o prefeito, pensou numa ideia quase infalível para manter Adágio na região. Uma namorada! Sim, isso mesmo! Isso porque, até onde se sabia, o rapaz, agora com 20 anos, estava solteiro. Solteiro e desimpedido.

          Os políticos inventaram um concurso de beleza para, assim, escolher a futura namorada de Adágio. Obviamente, ninguém sabia que aquele evento era para tal. Seja como for, houve centenas de inscrições, mesmo porque a premiação não era das piores e, além disso, a vencedora receberia um troféu, sem contar a faixa de rainha da beleza. 

          Para encurtar a história, o concurso aconteceu logo no mês seguinte. As finalistas, uma mais linda do que a outra, se esforçaram além da conta. Entre loiras e morenas, ganhou a única ruiva. Jéssyka! Uma belezura!

          Dois dias após a coroação, Jéssyka foi convidada para uma recepção no amplo salão da sede do governo estadual. A moça, assim como todas as rainhas, foi ladeada por algumas damas de companhia, que foram escolhidas pelo governador, que, esperto que só, mandou trazer as quatro últimas colocadas no concurso. Dessa forma, pensou, a beleza da rainha ficaria ainda mais evidente. 

          Adágio também foi convidado para a festança. Ele, além de comandar a orquestra naquele evento, iria se sentar à mesa com a rainha da beleza. Tudo arranjado, era questão de tempo para que os dois pombinhos se sentissem atraídos um pelo outro. 

          Conversa vai, conversa vem, Adágio, sempre com os ouvidos atentos, parece não ter gostado da voz esganiçada de Jéssyka. Ademais, a rainha da beleza também parecia ter outros interesses além de manipuladores de batutas. Dava até para ouvir os pensamentos do governador e do prefeito, que, antes confiantes, agora carregavam só lamúrias. 

          Jéssyka, cuja soberba lhe havia subido à cabeça, decidiu se levantar e ir embora. Aquela situação era uma afronta para uma rainha. Não uma rainha qualquer, diga-se de passagem. Rainha da beleza! Pois se levantou e, apenas com um olhar para as suas damas, disse para que todas a acompanhassem. E foi o que fizeram, mas ocorreu um incidente com a Berenice, justamente a última colocada do concurso. 

          Assim que a Berenice ergueu seu corpo ligeiramente roliço, eis que se ouviu um som vindo do seu orifício mais ao sul. Imediatamente, olhares repreendedores surgiram de todos os lados. A moça, sem ter onde enfiar o rosto de tão envergonhada, foi salva por Adágio, que ficou encantado. Tanto é que, após seis meses de namoro, os dois ficaram noivos e, parece, vão se casar no próximo ano. 

          Percebo que você ainda está aqui me lendo. Na certa, está curioso para saber como é que o Adágio salvou a Berenice daquele imbróglio. Pois bem, eis as palavras do gajo:

— Nem mesmo um saxofone consegue fazer um fá sustenido tão bonito.

Eduardo Cesario-Martínez

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O velho e a mitral

Eduardo Cesario-Martínez: Conto

‘O velho e a mitral’

Eduardo Cesario-Martínez
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 Apesar de não me sentir tão velho, a maioria das pessoas costuma colocar um senhor logo antes do meu nome. E não pense você que possuo posição social de destaque. É verdade que também não preciso contar os vinténs no final do mês, isto é, desde que não surja algum imprevisto ou, porventura, eu resolva extrapolar o orçamento por conta de certas extravagâncias. Por sorte, gente da minha idade geralmente as usufruiu quase todas há tempos. 

    Como deve ter percebido, já passei dos 60. Para ser preciso, completei 67 no último julho. Devo confessar que, há muito, abomino meus aniversários. Não por conta do avançar da idade, mas porque todos, invariavelmente, acontecem no mesmo dia do mês mais frio do ano por aqui onde moro. Minhas carnes, antes firmes, agora não suportam mais os rigorosos invernos que cismam em chegar praticamente na mesma época.

    Além do clima, outro desconforto me tomou nos últimos dias. Não sei se essa é a palavra adequada, mesmo porque, até aquele exato momento, havia suportado, certamente a contragosto, todos os invernos, por mais rigorosos que fossem. Todavia, desde então, algo tem me tirado o sono e me enchido de pesadelos. É que tive meu primeiro encontro com a morte.

    Calma, que explico antes que você se aborreça e me deixe aqui falando sozinho. Isso é até compreensível, já que não seria o primeiro a fazê-lo. Entretanto, peço-lhe um pouco de paciência com este velho. Prometo ser breve, como breves foram os anos que passaram diante dos meus olhos. Como deveria tê-los aproveitado melhor!

    Fui ao médico no início da semana. Exames de rotina, nada mais. Faço-os quase anualmente. Não porque seja tão preocupado com a saúde, que, é certo, me fez companhia durante décadas. Eu, que pensava que tínhamos uma relação harmoniosa, fui pego de surpresa quando o cardiologista me abriu os olhos para um problema em uma das válvulas do coração. Mitral. Pois é esse o nome da dita cuja, que, a essa altura da vida, resolveu me trair. E eu, ingênuo até aquele momento, nunca havia desconfiado. Ela agiu sorrateiramente.

    — Doutor, é grave?

    — Não muito, mas requer cirurgia o mais breve possível.

    — É arriscado?

    — Não se preocupe com isso. Já operei diversos casos até piores do que o seu.

    — Então, posso ficar tranquilo?

   — Certamente, mas, como diz aquele ditado, o seguro morreu de velho. Melhor apressar o testamento.

    Que todos vamos morrer um dia, sempre soube.  No entanto, quando a morte se aproxima de maneira tão sutil, nos pega desprevenidos. Seja como for, já decidi que não farei testamento. Que os herdeiros se engalfinhem pelas migalhas!

Eduardo Cesario-Martínez

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Geometria da redenção macabra

Clayton Alexandre Zocarato

Conto: ‘Geometria da redenção macabra’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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“Há homens que procuram a salvação como quem procura uma saída. Outros
descobrem, tarde demais, que a saída era apenas mais um corredor.”
(C. A. Zocarato)

Quando o velho Aristeu completou sessenta e sete anos, decidiu desenhar um quadrado.

Não uma casa.

Não um mapa.

Não um projeto.

Um quadrado.

Passou horas diante da mesa, observando o papel vazio como um sacerdote contempla um altar abandonado. A mão tremia. Os olhos ardiam. 

A vida inteira lhe pesava nos ombros como uma biblioteca construída com pedras.

Finalmente traçou quatro linhas.

Perfeitas.

Quatro limites.

Quatro fronteiras.

Quatro prisões.

Sorriu.

E chorou.

Naquele instante compreendeu algo que a maioria dos homens jamais percebe: toda existência humana é uma tentativa desesperada de desenhar formas geométricas sobre o caos.

O casamento.

A carreira.

A religião.

A moral.

A pátria.

A identidade.

Tudo não passava de linhas imaginárias riscadas sobre um universo que jamais pedira organização.

Você, leitor, talvez não goste dessa ideia.

Talvez prefira acreditar que sua vida possui um centro.

Uma finalidade.

Uma direção.

Mas responda sinceramente:

Quantas vezes você mudou de opinião?

Quantas vezes traiu os próprios princípios?

Quantas vezes chamou de verdade aquilo que depois chamou de erro?

O que mudou?

O mundo?

Ou apenas o desenho que você fazia dele?

Aristeu sabia.

Sabia porque carregava cadáveres dentro da memória.

Não cadáveres físicos.

Piores.

Cadáveres morais.

Os amigos abandonados.

Os amores destruídos.

As covardias justificadas.

As oportunidades assassinadas pela preguiça.

Cada erro era um ponto.

Cada culpa era uma linha.

Cada arrependimento acrescentava um novo ângulo à arquitetura secreta da alma.

Foi então que começou a construir sua geometria.

Durante meses, isolou-se.

Os vizinhos acreditavam que estivesse enlouquecendo.

Talvez estivesse.

Mas existe uma diferença entre o louco e o filósofo.

O louco acredita ter encontrado respostas.

O filósofo descobre perguntas.

E Aristeu estava afogado nelas.

Desenhava círculos.

Triângulos.

Espirais.

Poliedros impossíveis.

Cada figura representava um pecado.

Cada vértice representava uma escollha.

Cada linha simbolizava uma consequência.

Com o tempo percebeu algo perturbador.

Nenhuma figura era perfeita.

Todas possuíam falhas.

Pequenas deformações.

Assim como os seres humanos.

Assim como a própria moral.

Afinal, quem inventou o bem?

Quem definiu o mal?

Quem distribuiu certificados de virtude?

Os vencedores?

Os sacerdotes?

Os políticos?

Os mortos?

Você já pensou nisso?

Ou apenas repetiu as respostas que herdou?

A sociedade produz certezas da mesma forma que uma fábrica produz parafusos.

Em série.

Sem reflexão.

Sem profundidade.

Sem alma.

Aristeu percebeu que havia passado décadas vivendo segundo fórmulas que nunca examinara.

Era um homem educado.

Honesto.

Respeitável.

Mas também era um escravo.

Como quase todos.

Escravo de opiniões.

De expectativas.

De medos.

Principalmente de medos.

Numa madrugada de inverno encontrou um velho livro numa estante esquecida.

As páginas estavam amareladas.

Cheiravam a poeira e fracasso.

Leu uma frase que mudou tudo:

“A redenção não é apagar os erros. É compreendê-los.”

Fechou o livro.

Permaneceu imóvel.

Horas.

Dias.

Talvez anos espirituais tenham passado naquele silêncio.

Porque compreendeu uma verdade aterradora.

A humanidade construiu uma religião da absolvição.

Todos querem ser perdoados.

Ninguém quer ser compreendido.

Nem compreender.

Querem lavar as mãos.

Limpar o currículo moral.

Apagar manchas.

Como crianças que escondem sujeira debaixo do tapete.

Mas o universo não esquece.

A consciência não esquece.

A memória não esquece.

O passado é um arquiteto paciente.

Constrói silenciosamente os corredores pelos quais caminharemos amanhã.

Aristeu então abandonou a busca pelo perdão.

Passou a buscar entendimento.

E foi aí que começou sua redenção macabra.

Macabra porque exigia encarar os monstros.

Não os monstros externos.

Esses são simples.

Os monstros internos.

Os mais perigosos.

A inveja disfarçada de justiça.

A vaidade fantasiada de humildade.

O egoísmo vestido de amor.

A covardia escondida atrás da prudência.

Você conhece esses monstros?

Claro que conhece.

Talvez esteja alimentando um deles agora.

Talvez ele esteja lendo este texto através dos seus olhos.

Aristeu descobriu que o ser humano possui um talento extraordinário para mentir.

Principalmente para si mesmo.

Nenhum mentiroso é tão eficiente quanto a própria consciência tentando preservar sua autoimagem.

A alma fabrica desculpas como uma máquina produz fumaça.

Sem parar.

Sem descanso.

Sem vergonha.

Por isso a verdade é rara.

Ela exige sacrifício.

Exige mutilação.

Exige coragem.

A verdade não conforta.

A verdade opera.

Sem anestesia.

Os anos passaram.

As paredes da casa estavam cobertas por diagramas.

Milhares deles.

Quem entrasse ali acreditaria ter encontrado um laboratório secreto.

E de fato havia encontrado.

O laboratório da condição humana.

Cada figura representava uma conclusão.

Cada conclusão destruía uma ilusão.

Cada ilusão destruída aproximava Aristeu de algo que ele chamava de centro.

Não o centro geométrico.

O centro existencial.

O núcleo obscuro onde habitam nossas contradições.

Foi então que percebeu a maior descoberta de sua vida.

O ser humano não busca felicidade.

Busca distração.

Felicidade exige presença.

Distração exige apenas movimento.

Observe as multidões.

Correndo.

Comprando.

Consumindo.

Postando.

Acumulando.

Competindo.

Fugindo.

Sempre fugindo.

Mas de quê?

Da pobreza?

Da morte?

Do fracasso?

Não.

Fogem do encontro consigo mesmas.

O silêncio tornou-se o último terror moderno.

Porque no silêncio surgem perguntas.

E perguntas são mais perigosas que armas.

Na noite de seu aniversário de setenta anos, Aristeu terminou a obra.

Era uma figura gigantesca.

Formada por milhares de linhas.

Uma estrutura tão complexa que parecia impossível compreendê-la.

No centro havia apenas um ponto.

Um único ponto.

Nada mais.

Nenhuma explicação.

Nenhuma legenda.

Nenhuma resposta.

Apenas um ponto.

Sorriu novamente.

O mesmo sorriso do primeiro quadrado.

Sentou-se diante da figura.

Permaneceu observando-a até o amanhecer.

Então compreendeu.

Toda sua geometria apontava para aquele centro.

Todos os fracassos.

Todas as vitórias.

Todos os arrependimentos.

Tudo convergia para um único lugar.

A consciência.

O tribunal que jamais fecha.

O juiz que jamais dorme.

A testemunha que jamais desaparece.

A verdadeira redenção não estava fora.

Nunca esteve.

Nenhuma instituição poderia concedê-la.

Nenhuma ideologia.

Nenhuma autoridade.

Nenhum guru.

Nenhum profeta.

A redenção nascia quando o homem abandonava a mentira sobre si mesmo.

Somente isso.

Nada mais.

Nada menos.

Na manhã seguinte, os vizinhos encontraram a casa vazia.

Aristeu havia desaparecido.

Nenhuma carta.

Nenhuma despedida.

Nenhum corpo.

Nenhum vestígio.

Somente a imensa figura geométrica cobrindo as paredes.

Durante décadas, estudiosos tentaram interpretá-la.

Fracassaram.

Matemáticos.

Filósofos.

Psicólogos.

Teólogos.

Todos fracassaram.

Porque procuravam respostas.

E a obra não continha respostas.

Continha espelhos.

Quem a observava enxergava apenas a si mesmo.

Como acontece com toda grande filosofia.

Como acontece com toda grande literatura.

Como acontece com a própria vida.

Agora chegamos ao fim desta história.

Ou talvez ao início.

E resta uma pergunta.

A única que realmente importa.

Se sua vida fosse transformada numa figura geométrica, que forma ela teria?

Um círculo de repetições?

Um triângulo de conflitos?

Uma espiral de desejos?

Um labirinto de desculpas?

Ou uma prisão construída pelas próprias mãos?

Pense com cuidado.

Porque um dia todas as linhas que você traçou se encontrarão.

Todos os ângulos convergirão.

Todas as máscaras cairão.

E quando isso acontecer, não haverá público.

Não haverá aplausos.

Não haverá seguidores.

Não haverá títulos.

Não haverá currículos.

Não haverá narrativas.

Apenas você.

E o ponto central.

O núcleo silencioso daquilo que realmente foi.

A geometria da redenção macabra começa exatamente aí:

No instante em que o homem percebe que passou a vida inteira tentando escapar de si mesmo, e descobre, tarde demais, que era justamente para dentro de si que todos os caminhos apontavam.

Clayton Alexandre Zocarato

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A hora do pão de queijo

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘A hora do pão de queijo’

Eduardo Cesario-Martínez
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Todos, ainda me lembro, acertavam os relógios assim que o delicioso cheiro do pão de queijo da dona Adélia tomava a rua. Quatro horas da tarde! E ninguém se atrevia a questionar tamanha precisão. Até o padre Horácio sabia que aquela hora era sagrada. Tanto é que, como de costume, ia ter com a senhora um tanto de minutos antes. 

          O sacerdote nem chegava a bater à porta da antiga casa da esquina, pois o arrastar daquelas sandálias sob a batina o anunciava. Um sorriso o recebia assim que ele subia o último vão da pequena escada.

          — Que bom que o senhor chegou a tempo de provar o pão de queijo que acabei de retirar do forno.

          Se era verdade ou não, sei lá, mas corria à boca pequena que aqueles dois possuíam algo além do apreço pelo pão de queijo. Não que fosse algo falado logo ali na pequena praça defronte à igreja. Era mais uma coisa de olhares e sorrisos maliciosos do povo, que não tinha coisa melhor para fazer ou, então, fruto da natureza tão própria dos humanos. 

          Padre Horácio, assim que a porta lhe era aberta, estendia o braço para dona Adélia, que lhe pousava os lábios sobre aquela mão quase tão alva como farinha de trigo. Isso acontecia tanto ao entrar como ao se despedir. E, quando estava de volta à calçada, o religioso pegava um pente de chifre de boi e o deslizava sobre os cabelos quase negros, se não fosse por duas mechas brancas próximas às orelhas. Aquilo, aliás, era mais um mote para o falatório maldoso.

          Enquanto menino, não atentava para tais conversas. Pensava apenas naquele pão de queijo, cujo cheiro inebriava minhas narinas infantis. Na verdade, apenas quando me tornei homem feito é que tive o prazer de degustar um ou dois. Confesso que não o achei nem melhor nem pior do que os demais que já havia comido. Seja como for, é uma parte da minha infância que gosto de lembrar, ainda mais porque era justamente quando a meninada começava a sair para se divertir na rua.

          Adorava brincar de queimada, principalmente quando não ficava no time da Fernanda, uma garota bem magrinha, cujos olhos me causavam arrepios. E, todas as vezes que ela arremessava a bola, eu me deixava ser queimado apenas para olhá-la soltando aquela gargalhada tão gostosa.

          — Te queimei de novo, Carlinhos!

          E lá ia eu para o outro lado. Fingia-me emburrado, enquanto sentia meu coração palpitar dentro do peito. Coisas de menino, cuja voz começava a engrossar. Todavia, jamais consegui fazer com que a Fernanda me fitasse de maneira especial. Isso, aliás, ela fazia, ainda que discretamente, para o Toninho, que morava justamente na casa ao lado da minha. 

          Cheguei a ter ódio daquele garoto. Um intrometido, que impediu que eu desfrutasse o primeiro amor da minha vida. Por ironia, viramos melhores amigos dois anos após. E, confesso, fui eu que me aproximei por ciúme e despeito, pois ele e Fernanda se tornaram namorados. Tal comportamento doentio ou, ao menos, contraditório, também fez com que a menina dos meus sonhos se tornasse minha grande confidente. 

          — Você gosta de alguém, Carlinhos?

          — Sim.

          — E eu posso saber quem é?

          — É segredo.

          — Hum. Você está me deixando curiosa. Eu conheço essa sortuda?

          Eu não sabia onde enfiar a minha cara, ainda mais diante daqueles olhos tão inquisidores, daqueles lábios maravilhosamente delineados. Menti descaradamente.

          — Não conhece. É uma menina que conheci numa festa. A gente ficou, mas ela preferiu terminar.

          — Por quê?

          — Ah, ela me disse que estava gostando de outro cara.

          — Qual o nome dela?

          — Por que quer saber?

          — Porque sou curiosa e também sou sua melhor amiga.

          — Mara.

          — Mara? Eu conheço uma Mara. Como ela é?

          — Magra, um pouco alta.

          — Da minha altura?

          — Por aí.

          — Qual a cor dos cabelos dela?

          — Ruiva.

          — Ruiva? Não é possível!

          — Por quê?

          — Não é possível que existam duas Maras, magras, altas e ruivas. Eu conheço essa sua namorada!

          Fiquei estático. Não sabia o que falar. Tentei convencê-la de que era óbvio que existiam duas Maras, magras, altas e ruivas. Falei até que era bem provável que existissem dezenas de garotas assim. Que nada! Como fui burro em inventar que namorava uma Mara, magra, alta e ruiva. 

          Lembro-me de que, na noite daquele dia, levei muito tempo para pegar no sono. Morria de medo de ser pego naquela mentira tão deslavada. E, pior, justamente pela Fernanda, a garota mais linda da minha rua. E se aquela história se espalhasse? Os supostos comentários me perseguiram por dias: “Você viu o Carlinhos? Pois é, tá inventando que ficou com a Mara, aquela ruiva amiga da Nanda!”, “Ah, o Carlinhos nunca nem beijou uma garota!”, “O Carlinhos mente que nem sente!”

          Não sei se a Fernanda se esqueceu da nossa conversa ou, então, preferiu não tocar mais no assunto. Por conta disso, meu medo foi se esvaindo, até que, por fim, nem eu me lembrava. Isso até a semana passada, quando, após quase 20 anos, esbarrei com o amor da minha infância na entrada do cinema. A princípio, não me dei conta da sua presença, até que ela tocou meu ombro.

          — Carlinhos! Não é possível! Há quanto tempo!

          — Nanda! 

          A minha antiga confidente me deu um abraço apertado e nos beijamos no rosto. Naquele instante, muitas coisas passaram pela minha mente. O que ela fazia da vida? Morava perto? Será que ela estava solteira? Tais pensamentos, todavia, viraram fumaça assim que ela chamou uma amiga, que carregava um enorme saco de pipoca e dois copos de refrigerante.

          — Lembra da Mara?

          Apenas sorri. Finalmente, depois de tantos anos, fui conhecer o meu antigo caso que nunca existiu. Mara, magra, alta e ruiva. Aliás, como era linda!

          Apesar do cinema praticamente lotado, conseguimos sentar juntos. Não por sorte, mas porque a Nanda convenceu um rapaz a trocar de lugar comigo. Fiquei entre aquelas duas mulheres maravilhosas por quase três horas de filme. Depois, convidei as duas para irmos a uma cafeteria ali perto. Por sorte, elas aceitaram.

          Sentamos à mesa mais ao canto e fizemos nossos pedidos, praticamente idênticos, caso não fosse pelo cappuccino da Fernanda. Para acompanhar, pedimos pão de queijo.

          — Carlinhos, você se lembra da dona Adélia e do padre Horácio?

          — Aqueles pães de queijo fizeram história.

          Entre lembranças e risadas, aqueles momentos foram os melhores da minha vida, que, na verdade, havia se tornado muito chata. É que me tornei gerente de um banco, mal saía com mulheres. Não por culpa delas, é que eu me transformara num homem desinteressante. Isto é, até que, após oferecer carona a Fernanda e Mara, agarrei-me à minha derradeira esperança. Como a Fernanda morava mais perto, a deixei primeiro em casa. Em seguida, quando voltei ao carro, ganhei um beijo inesperado.

          — Carlinhos, ouço falar de você há tanto tempo, que é como se já nos conhecêssemos.

Eduardo Cesario-Martínez

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Genuíno, o sincero

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Genuíno, o sincero’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Genuíno Lhano é o que se pode chamar de homem peremptório. Sim, isso mesmo! Direto como uma flecha, não fazia rodeios para dizer o que tinha que dizer. Ou, como gostava de falar o seu amigo, o Juarez, Genuíno falava o que era para ser falido, dizia o que era para ser dizido. Seja com português rebuscado ou inventado pela sabedoria popular, esse homem diz o que pensa, mesmo que nem sempre pense o que fala. 

    Histórias não faltam sobre esse homem quase octogenário que não faz rodeio nem para montar cavalo xucro, caso seja necessário. Uma delas aconteceu justamente na primeira vez que viu o Augustinho, o primogênito da dona Augusta e do seu Augusto, os então novos moradores do bairro Menino Deus, na linda e acolhedora Porto Alegre. 

    O jovem casal, orgulhoso do seu herdeiro, passeava com aquele bebê de apenas seis meses. Os moradores paravam para elogiar aquela coisa mais fofa do mundo. Dona Lídia, uma das mais antigas, fez questão até de tascar um baita beijo naquelas bochechas rosadas. Nem a marca do batom vermelho pareceu incomodar os pais do menino. Na verdade, os dois pareciam acreditar que mereciam tudo aquilo, tão certos que estavam de que o pequeno Augustinho era mesmo um príncipe de tão lindo. 

        Nisso, eis que surgiu o Genuíno, que não entendeu o porquê daquela algazarra em volta daquele carrinho de bebê. Curioso, foi até lá, quando a Alzira lhe sorriu ao mesmo tempo em que apontou para o Augustinho. 

        — Vem ver, Genuíno! Vem ver esse menino mais lindo do mundo!

        O velho se aproximou do grupo e, finalmente, olhou olho a olho pro Augustinho. Para falar a verdade, bem que ele quis permanecer calado, dar as costas e ir embora. Mas foi impedido pela Alzira, que, eufórica, queria porque queria a opinião do Genuíno. O velho torceu a cara e acabou causando um mal-estar, que poderia ter virado até caso de polícia, caso o seu Valdo não interviesse.

    — Por que viraram o piá do avesso?

    Esse reboliço foi assunto no bairro durante os próximos anos, até que o Augustinho, já com seus quase 8, estava jogando bola na quadra em frente ao cachorródromo do Tesourinha. Chuta daqui, chuta dali, eis que um bicudo mais forte fez com que a bola ultrapassasse a grade e fosse parar justamente aos pés do Genuíno. 

    O idoso, que estava acompanhado do velho Ludo, um vira-lata de pelo rasteiro, fez questão de demonstrar suas habilidades futebolísticas, que não eram muitas. Agachou-se com certa dificuldade, pegou a bola e tentou devolvê-la com um chute. Sem sucesso, pois ela caiu no gramado do cachorródromo, bem ao lado da grade. Foi até lá e, com mais um esforço, conseguiu jogá-la do outro lado. Augustinho, já com a bola nas mãos, agradeceu o velho pela generosidade. O velho sorriu e disse uma coisa que o menino não entendeu.

    — Você ficou bem melhor depois que te reviraram.

    Parece que tal interlúdio foi parar nos ouvidos da dona Augusta, que, até aquele momento, guardava certa mágoa do Genuíno. Todavia, todo esse rancor de anos havia chegado ao fim. Na verdade, a mãe do Augustinho passou até a ser uma defensora do velho, que ainda guardava alguns desafetos no bairro. Tanto é que, certo dia, a dona Augusta resolveu fazer uma visita para o Genuíno. Sem saber o que levar, colheu algumas pimentas no jardim. Colocou-as cuidadosamente numa vasilha e, já na calçada, percebeu que o velho acabara de entrar em casa.

    Dona Augusta caminhou até a residência do Genuíno, tocou a campainha. Logo o velho surgiu. Ela, para desfazer qualquer mal-entendido, sorriu com todos os dentes, ao mesmo tempo em que cumprimentou o vizinho. Trocaram algumas palavras com promessas de uma visita para um café daqui a alguns dias. Nisso, a mãe do Augustinho se lembrou das pimentas e entregou o potinho para o mais sincero dos homens.

    — São para o senhor. 

    — O que é isso?

    — Ah, são pimentas do meu jardim. Eu que plantei.

  — Muito agradecido, minha filha. Mas as minhas hemorroidas não me permitem tal extravagância.

Eduardo Cesario-Martínez

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