Entre reconstruções e restauros, renascimentos ocorrem (II)
Jadson Porto
Crônicas da Ordem dos Cavaleiros Arqueiros Sarmathianos
‘Entre reconstruções e restauros, renascimentos ocorrem (II)
Logo da seção O Leitor ParticipaImagem gerada por IA do Gemini
As transformações pelas quais Gotland iria passar, como resultado da missão dos três arqueiros que expuseram as mudanças que o Império dos Godos de Oriente estava por enfrentar, foram ampliados após aos impactos não programados e ocasionados pela tempestade. Cidades e infraestruturas logísticas foram destruídas; plantações foram afetadas; registros de 10.000 óbitos e cinco mil desaparecidos; ampliação de doenças ocasionadas pelo uso da água de inundação (que ali permaneceu por dois meses até o seu completo escoamento); registros de 500 casos de ataques de animais peçonhentos, que adentravam às casas na inundação; dentre outras manifestações.
A Casa dos Lordes estava muito movimentada. Tudo era prioridade para a recuperação da reino. O General Elson de Gotland e sua equipe eram constantemente convocados para atualizarem os relatórios à Casa Real. Gradativamente foram se retomando as vidas em Gotland, mesmo que precariamente. À medida que as reconstruções da infraestrutura de logística foram se consolidando, retomavam-se as economias do reino e ampliavam-se suas dinâmicas sociais. Quando se restauravam os procedimentos públicos institucionais, o faziam com a modernização exigida pelos novos tempos que a Casa Real adotara como diretriz. Quanto ao renascimento, esta se materializava pelas novas gerações sobreviventes aos novos tempos.
O relatório entregue pelo General Elson, em seu terceiro volume, na página 350, referente ao capítulo de Cenários em construção, assim conclui: Após os investimentos efetuados pelo Erário Real; que contou com a participação da nobreza que doou 3 toneladas de ouro e prata de seus cofres; e dos comerciantes de Gotland, que concederam alimentos, roupas e equipamentos para aqueles que atuaram na reconstrução da cidade e da infraestrutura urbana afetadas pela tempestade em Gotland, vem retomando gradativamente a sua vida social, dinâmica econômica e atuação nos cenários regional e internacional. Entre reconstruções e restauros, o renascimento de Gotland ocorre mais forte, sólido, moderno e inserido com mais intensidade em seu protagonismo internacional.
A participação da Universidade Nacional de Ostrog foi de fundamental importância neste contexto. Pois seus docentes e cavaleiros aprendizes, que ali se preparam para o futuro da Casa Real. Foram cerca de 120 trabalhos de conclusões de curso de graduação cavalaresca, bem como de suas especialidades, em todas as áreas do conhecimento ali atuantes, enfatizando-se a área técnica sob a diretriz do Engenheiro italiano Labenini. S. A. R. I. Severino Teodoro, a partir da experiência germânica, que fora afetada por uma intensa tempestade há 60 anos, criou uma semana cultural por ano, que haveria eventos culturais de diversos modelos e estímulos ao entretenimento para gerar fundos financeiros à reconstrução de seu território caso houvesse outra possível tempestade intensa como ocorrera outrora: A Semana Medieval de Gotland, na cidade de Visby, em agosto de cada ano.
Para atrair investimentos culturais, o Cavaleiro Fabric de Gotland, filho do General Elson, sugere a criação do Prêmio Águia de Dourada de Gotland. Hoje, o prêmio é referência mundial de excelência cultural, notadamente no meio literário.
Jadson Porto
Jadson Porto
Duque Dom Jadson Porto Eurico Rodrigo I é geógrafo graduado em Bacharelado e Licenciatura em Geografia (UFPa, 1990, 1993); Mestre em Geografia (UFSC,1998); Doutor em Ciência Econômica (Unicamp, 2002); pós-doutorado em Desenvolvimento Regional (FURB, 2014); pós-doutorado em Geografia, pela Universidade de Coimbra (Portugal) (2015); pós-doutorado em Estudos Sociais, pela Universidad Nacional de la Patagonia Austral – Unidade Río Gallegos (UNPA/UARG), Argentina (2017); pós-doutorado em Desenvolvimento (UFT, 2020); pós-doutorado em Planejamento Territorial (Idega/Universidade de Santiago de Compostela, Espanha, 2025). Coordenador do Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos (Nesur/Unifap).
Professor Titular da Universidade Federal do Amapá. Professor do Mestrado em Desenvolvimento Regional da Unifap. Integrante efetivo da Academia de Letras José de Alencar (Curitiba, PR), cadeira de n. 3, patrono Alberto Oliveira (2022). Integrante efetivo da Academia Amapaense de Letras (Macapá, AP), cadeira 17, patrono Joaquim Caetano da Silva (2022). Tem se destacado em pesquisas sobre a Amazônia Setentrional brasileira e a Região das Guianas. Professor doutor doutor honoris causa multiplex. 5
Ramos António AmineImagem criada pela IA do ChatGPT– https://chatgpt.com/c/6a2abe96-1ce4-83e9-9cd9-378dfa25ec89
Após a fuga da aldeia com a brigada provincial e por recomendação do vigário, o carro da brigada foi conduzido até o mosteiro da capital provincial, onde o jovem foi acolhido no orfanato, enquanto aguardava os trâmites legais para a sua ida à capital do país, para frequentar o curso de Geologia, como prometido pelo vigário e confirmado pela brigada provincial.
Do outro lado do santuário, o vigário procurava formas discretas que lhe permitissem sair sem cruzar a mesma aldeia que quisera queimar vivo o jovem, pois seria ele o próximo alvo da fúria dos aldeões, por ter precipitado a saída do jovem da aldeia, quando este ainda tinha muito para dar.
Por isso, aguardava a noite.
Quando a noite chegou, disfarçado de motorista comum, o vigário colocou-se na viatura e dirigiu-se pela estrada que dava acesso à aldeia. Para sua surpresa, a aldeia estava totalmente calma, quase resignada consigo mesma. Nenhum dos seus habitantes se encontrava na estrada a vigiar os movimentos habituais. Este facto deixou o vigário incrédulo, pois não esperava tal situação, o que lhe permitiu atravessar a aldeia sem dificuldade, embora permanecesse atento a cada canto. Desconfiava sempre de possíveis ciladas por parte dos populares.
Na manhã seguinte, a aldeia descobriu que o vigário havia passado durante a noite e lamentou não tê-lo interceptado de dia, pois queria pedir desculpas pelo que acontecera ao jovem. Ainda assim, prometeu fazê-lo oportunamente, sendo aquela a única estrada de acesso ao santuário, por onde o vigário sempre passava.
No orfanato, o jovem não encontrava espaço para conversar com os outros miúdos ali acolhidos, não por preconceito das responsáveis do mosteiro, mas pela própria urgência da sua estadia. Ali, quase não havia tempo para conversas, todos estavam ocupados nos seus afazeres.
Apesar disso, observava os outros órfãos, marcados pela ausência de identidade e pela sede de futuro. Não via neles diferença essencial em relação a si. Apenas notava nos seus olhos um certo otimismo em relação ao presente e um automatismo nas suas acções, o que o distinguia, pois ele acreditava que cada um devia cultivar o seu próprio jardim, convicção que guardava desde a leitura de Cândido, de Voltaire.
Por outro lado, agradecia interiormente o cuidado das responsáveis do orfanato. Sem a sua abnegação, a rua teria sido o destino inevitável daqueles órfãos. Quis expressar a sua gratidão, mas encontrou barreiras, pois não era permitida qualquer aproximação, sobretudo de pessoas sem identidade definida, como ele. Ainda assim, guardou esse gesto consigo e prometeu fazê-lo oportunamente.
O mês foi passando.
Até que, certo dia, um dos comissionários do amparo da província, juntamente com o vigário, se fez presente na instituição. Após explicarem a razão da visita, informaram as responsáveis de que o jovem não ficaria ali de forma definitiva, pois tinha obtido a oportunidade de seguir para a capital do país para cursar Geologia, cumprindo-se assim a promessa feita pelas entidades envolvidas.
As responsáveis não resistiram. Além disso, o jovem não representava uma ligação afectiva forte para aquele lugar, que dependia sobretudo de crianças de presença recente e identidade em formação. Assim, assinaram os documentos que autorizavam a sua partida.
Porém, uma das funcionárias, a mais velha de todas, decidiu aproximar-se para se despedir do jovem. Esse gesto reabriu nele uma ferida que nunca cicatrizara: a memória da mãe e de um filho perdido há anos. No entanto, nem o jovem nem a funcionária sabiam que estavam diante de memórias vivas um do outro.
A mãe reconheceu o filho. O filho, porém, não a reconheceu. Ela ficou em choque, quase perdendo os sentidos ao ver o seu único filho transformado pelo tempo. Ainda assim, resistiu.
Decidiu revelar-se.
Mas não houve tempo.
A rotina da instituição não permitia conversas longas, e para evitar conflitos com as responsáveis, a mãe limitou-se a despedir-se do jovem, entregando-lhe um colar em formato de 7 e um papel com rabiscos apressados, onde se lia:
“Para trás, nunca, sob nenhum pretexto, pois o mundo está cheio de gente que te quer desviar do teu caminho.”
Assinado: a tua mãe.
A hora da saída para a capital já estava definida há muito. O jovem recebeu o colar e a carta, mas a sua atenção ficou presa noutro lugar. Afinal, precisava de se concentrar nos últimos dizeres vindos do vigário e dos comissionários do amparo.
Todo aquele tempo de espera permitira aos comissionários do amparo tratar de toda a documentação do jovem. Tinham prometido na aldeia, quando ele recebeu a confirmação da atribuição da oportunidade de estudos na capital, após ter respondido correctamente ao enigma elaborado pelo vigário.
Para além dos últimos dizeres, aquele momento serviu também para a entrega dos seus documentos, incluindo certificados que haviam sido esquecidos na quinta, quando da fuga da mãe e do menino. O jovem admirou-se da astúcia que levou os comissionários do amparo até à quinta dos ímpios, a ponto de tratarem de toda a documentação, sabendo que se tratava de um lugar de protecção reforçada. Ainda assim, não quis saber mais da quinta, como se pressentisse a morte do pai no garimpo daquela quinta, após ter encontrado algo de valor ímpar.
Enquanto isso, a mãe não tirava os olhos do jovem, culpando-se em silêncio por o ter deixado nas mãos do destino alheio. No entanto, nunca se culpava de ter fugido da quinta dos ímpios, decisão que os empurrou para caminhos diferentes. Dizia para consigo mesma que daria tudo para poder contornar o destino do filho. Porém, esse destino já estava traçado: curso de Geologia, na capital do país. Consciente disso, restava-lhe apenas manter-se serena e torcer pelo seu sucesso.
O jovem foi acompanhado até à terminal de transportes rodoviários da cidade, onde foi deixado sozinho para pernoitar e partir no dia seguinte. Da sua cidade para a capital, percorreria distâncias possíveis apenas com a coragem. A estrada principal não estava totalmente transitável, agravada pelo período de inverno, marcado por chuvas torrenciais e granizo.
A primeira tentação que o jovem enfrentou surgiu logo na terminal, onde, em plena noite sonolenta, sentiu que algo lhe era retirado por gente de má-fé. Era a sua pasta que, aos poucos, deixava de repousar como sua cabeceira e parecia querer ficar naquela cidade, como se os certificados vindos da quinta dos ímpios quisessem inviabilizar o seu destino. Mesmo assim, o jovem despertou a tempo e enfrentou os sem-vergonha, como se escutasse, dentro de si, as palavras ainda não lidas da carta da mãe. Apresentou-os imediatamente às autoridades da guarita e permaneceu vigilante.
Na hora de embarque, já na confusão da entrada da viatura, o jovem passou o teste da segunda tentação. Desta vez, quase perdeu o seu bilhete de passageiro, pressionado pelo fluxo desordenado de pessoas. Havia ali gente dura, marcada por uma vida que parecia não ter sido suficientemente amada pelo mundo. Ainda assim, recuperou o bilhete e seguiu viagem, guardando essa experiência consigo.
A viagem prosseguiu. Desamparado, o jovem foi-se perdendo em reflexões sobre a sua vida. Pela primeira vez, ninguém o incomodava, a não ser os rostos absortos e os companheiros de viagem isolados por ecrãs e auriculares.
Pensou que tudo na sua vida se encaixava: cada tragédia vivida preparava-o para uma etapa maior, até chegar ao ponto de se encontrar na viatura rumo à capital. Porém, por outro lado, sentia que o mundo à sua volta não era o melhor possível, daí que era imperioso começar a cultivar o seu próprio jardim.
Estas reflexões fortaleciam a sua determinação em prosseguir, apesar das estradas esburacadas e lamacentas. Só não entendia por que razão iria cursar Geologia, em detrimento de Filosofia, com a qual tivera contacto por meio de Cândido de Voltaire na quinta dos ímpios e, de A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset no santuário.
Até que o transporte parou em plena viagem, à procura de estratégias para escapar a um charco que se formara ao longo da estrada principal. O cenário chamou-lhe a atenção. Pensou, então, que a palavra Geologia, formada por “geo” (terra) e “logia” (estudo), poderia dar-lhe uma forma de compreender e talvez propor vias alternativas para o tráfego de pessoas e bens.
Depois de uma semana e meia de viagem, o jovem chegou à capital do país. Logo na descida, quis o destino que enfrentasse mais uma constatação dura: a existência de contentores de lixo espalhados, crianças desamparadas e, do outro lado da via, automóveis de luxo que passavam indiferentes. Notou também que, pela primeira vez, respirava um ar poluído, marcado por emissões que afectavam a camada de ozono.
Pela segunda vez, o jovem sentiu a razão de levar o curso de Geologia a sério. Porém, esse ânimo foi abafado ao recordar que, após o desembarque, cabia-lhe procurar a sua própria moradia.
Guilherme Machado Imagem criada pelo ChatGPT –https://chatgpt.com/c/6a298c3c-ae7c-83e9-8862-21242192b790
“O ladrão não vem senão a roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.” (João 10:10)
Certa manhã, um homem voltou para casa e encontrou tudo destruído. As gavetas estavam abertas. Os armários revirados. Papéis espalhados pelo chão. Portas escancaradas. Objetos quebrados.
A impressão era de que um ladrão havia entrado durante a noite e procurado algo com tanta violência que não se importou com o estrago deixado para trás.
Por alguns instantes, ele permaneceu imóvel. Tentava entender o que havia acontecido. Tentava calcular o prejuízo. Tentava descobrir por onde começar.
Primeiro recolheu os objetos caídos. Depois organizou alguns móveis. Mais tarde varreu o chão. Mas, quanto mais arrumava, mais bagunça parecia encontrar. Quando terminava um cômodo, outro ainda estava revirado.
A sala estava em ordem, mas o quarto continuava revirado. O quarto estava em ordem, mas a cozinha continuava um caos. A cozinha estava em ordem, mas o quintal parecia abandonado.
Passaram-se horas. Talvez dias. Talvez anos. Até que, exausto, ele sentou-se no meio da própria casa. Pela primeira vez, parou de tentar resolver tudo sozinho. Então, orou. Não foi uma oração bonita. Não foi uma oração elaborada. Foi apenas sincera.
Pediu ajuda. Pediu direção. Pediu forças. Pediu que Deus fizesse aquilo que ele já não conseguia mais fazer.
E algo começou a mudar.Não porque os móveis voltaram magicamente para seus lugares. Não porque as paredes se reconstruíram sozinhas. Mas porque o homem começou a enxergar o que antes não via. Percebeu que algumas coisas precisavam ser restauradas. Outras precisavam ser descartadas. Algumas perdas eram reais. Outras existiam apenas em seu medo – ou talvez fossem livramentos.
Pouco a pouco, aquilo que parecia impossível começou a encontrar ordem.Não uma ordem perfeita. Mas suficiente para voltar a viver em paz. Foi então que ele compreendeu algo. O ladrão não havia invadido apenas sua casa. Havia invadido sua paz. Sua esperança. Sua confiança.
E era justamente por isso que nenhuma solução humana parecia suficiente. A verdadeira restauração não começou quando ele pegou ferramentas. Começou quando dobrou os joelhos. Porque existem bagunças que a força reorganiza. Mas existem outras que somente a oração consegue colocar no lugar.
O telhado protege tudo. Se ele está ruim, entram chuva, vento e sol. Danificam cada cômodo. O homem descobriu, naquela manhã, que a oração era o telhado da sua alma. Sem ela, nenhuma parede se sustenta.
“Em paz me deito e logo adormeço, porque só tu, Senhor, me fazes habitar em segurança.” (Salmos 4:8)
Eduardo Cesario-MartínezImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/share/d67b9ce500a5
Bibiana Augusta Ferreira da Costa, do alto dos seus quase 120, conforme constava na carcomida certidão de batismo, praticamente nunca ouvia seu nome. Não que fosse surda, pois ouvia muito bem, mas apenas as coisas que queria escutar. A razão é que, desde menina, sempre fora chamada de Bibi, carinhoso apelido que a avó materna, Gumercinda dos Anjos Ferreira, lhe pusera.
Aliás, vale aqui um adendo sobre a longevidade de Gumercinda, cujos registros de batismo e civil eram incongruentes. Não a ponto de provocar discórdia tão significativa, ainda mais porque três anos não passavam de sopro diante dos 167 de existência grafados na lápide da velha lá pelos lados de Ouricuri, no nosso amado Pernambuco. Bibi, parece, herdara a capacidade da avó de se manter viva por tanto tempo.
Outra característica incomum em Bibi era a fertilidade. A mulher, entre vivos, natimortos e mortos de alguma ziquizira qualquer, havia parido 48 vezes, sendo a primeira aos 15 e, a derradeira, aos 74 anos. E, há os que arriscam a dizer, poderia ter tido mais duas ou três crias, caso não fosse pela falta de homens que se abateu na cidade por conta de moléstia até hoje não totalmente desvendada.
Esse mistério ocorreu lá pelos idos de 1938 ou 1939. E, dependendo do contador desse causo, pode adiantar ou retroagir um par ou dois de anos. Na verdade, essa discórdia parece não ser importante, pois, até onde me consta, não atrapalha no desenrolar da história.
Pois bem, sem mais delongas, durante quatro ou cinco anos, todos os homens em idade fértil escafederam-se da região ou, então, foram dizimados por um mau agouro, que, segundo ainda se fala por lá, os impediu de passar suas desgraças às gerações futuras. Um desses casos, até onde se sabe, o derradeiro, foi do desaparecido até então Antônio Firmino, último a se deitar com Bibi, então no viço dos seus 73.
Alguns falam em caxumba que desceu para as partes, outros de reza da beata Iranilde Almeida, que não suportava os gemidos de prazer dos amantes, que pululavam naqueles cantos a qualquer hora do dia, da tarde e da noite, sem contar que não davam sossego nem na sagrada madrugada, quando todos os santos estão adormecidos, talvez pelas cantigas, rezas e orações. Isso como se houvesse distinção da primeira para a segunda e cada uma com as demais. Tudo levava ao mesmo fim, ou seja, à pura castidade, que, por mais desacreditada que fosse, era o objeto de desejo dos impuros solitários.
Aos 84, Bibi se viu sem regras. Os calores lhe tomaram todo o corpo, mas não aqueles dos tempos em que se deitava com um homem. Eram por conta da secura advinda com a infertilidade, mas que, vez ou outra, ainda trazia rescaldo de outrora. Continuava se deitando, mais por costume do que necessidade. E não fazia distinção de pretendentes, que, apesar de raros, ainda conseguiam arrancar um sorriso daquele rosto, cada vez mais enrugado.
Os que ainda se arriscavam sabiam que, quando houvesse um aceno, poderiam chegar sem receio de serem enxotados. Mesmo algum forasteiro sabia que teria o que precisava, inclusive uma cerveja gelada, desde que com paga adiantada. Nada de fiado, pois, até em contrato de amor, não se pode surrupiar o direito da mulher faturar o seu. Bibi, tarimbada que era, até onde me falaram, sempre havia recebido adiantado. Ademais, queixa também nunca se ouviu, mesmo dos mais exigentes.
Pois lá estava Bibi, perto de completar mais um aniversário, quando foi surpreendida pela visita de Antônio Firmino, duas décadas e meia mais novo do que ela. Não se sabe se foi por causa de reza ou da catuaba, o homem parecia ainda mais revigorado que nos áureos tempos de seus 25. Deitou-se com a velha Bibi, que, quase com o mesmo sorriso de outrora, caso não fosse pela completa falta de dentes, acendeu o cigarrinho de palha e o ofereceu ao amante, que aceitou de bom grado.
— Deus faz, o vento espaia, mas aí vem o Diabo e ajunta de novo — disse a velha.
Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Entre vinhos e livros’
Eduardo Cesario-MartínezImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/share/fd959b310406
Desde muito antes de se perceber velho, Augusto gostava de ler sentado em um dos bancos protegidos pelas copas das amendoeiras que circundavam o parquinho, onde crianças pareciam se divertir. Os gritos da garotada não incomodavam a leitura, mas a tornavam mais interessante. Eram como fagulhas que despertavam sentimentos esquecidos, que se misturavam sem cerimônia aos parágrafos que eram consumidos como iguarias fossem.
Casado e descasado por vezes, sentia-se viúvo desde que a derradeira ex-esposa sucumbiu à dor do enfrentamento de câncer de mama. E, apesar das inevitáveis rusgas diante do rompimento, reencontraram o caminho da amizade e, assim, trocaram confidências até o quase último suspiro da acamada.
No exato momento em que virava mais uma página, perguntou-se por que ele e Olívia nunca tiveram uma recaída. Quer dizer, ainda trocaram alguns afagos após o desenlace, mas nada além de duas ou três noites depois de esvaziar uma garrafa de Malbec. Ou teria sido Merlot? Não importa, mesmo porque Augusto nunca fora um especialista no assunto, ao contrário da falecida.
Olívia era bonita. Sim, bonita. Não obstante, tal beleza não chegava a ofuscar as mazelas do relacionamento, que eram óbvias até mesmo quando os dois ainda viviam a paixão inicial, momento em que os corpos gritam diante da razão.
Por que não tiveram filhos? Essa era uma questão que ainda o intrigava. Era notória a relação de Olívia com os pequenos, que sempre corriam para os seus braços. Quanto a ele, talvez fosse deveras egoísta para se ater aos cuidados de outrem. Gostava dos sobrinhos. Quer dizer, suportava-os por alguns instantes, nada além disso. Talvez Olívia, perceptiva, já havia notado essa característica indesejável no companheiro e, então, se abstivera da ideia da concepção.
O casamento, entre idas e vindas, durou além da conta. Gênios tão díspares, definitivamente, não se atraem ou, caso o façam, qualquer coisinha é motivo de separação. E deve ter sido mesmo por bobagem qualquer, dessas que, logo após o desfecho, são levadas pela ventania da insignificância.
Entre taças de vinho e afastamentos, nunca deixaram de se falar. E, após quase seis meses do velório de Olívia, o velho continuava a ler os livros recomendados por ela.
— Nada de clássicos, Augusto. Na nossa idade, precisamos olhar para o presente antes que o futuro nos alcance implacavelmente.
As palavras de Olívia ainda ecoavam nos ouvidos do velho quando um menino, não mais de cinco anos, reclamava aos berros.
— Não, mamãe! Não quero ir!
— Meu filho, vamos, que amanhã a gente vem de novo.
— Não!!!
— Augusto! Pare com isso! A vida não é um morango!
Enquanto a mulher puxava a criança pelo braço, que esperneava, Augusto sorriu pela coincidência e voltou os olhos para a capa do livro A verdade nos seres, de Daniel Marchi.
Não costumo escrever com frequência, mas hoje, isso é inevitável, pois aconteceu algo muito estranho comigo.
Cheguei ao meu consultório, cumprimentei minha secretária e entrei. Percebi que havia dois pacientes aguardando, sentados nas poltronas da saleta de espera. Olhei o relógio, eram 06h45. Vi que não estava atrasada. Então sentei-me, liguei o computador, abri meu bloco de anotações, e conectei à lista de pacientes do dia. A primeira paciente era uma jovem senhora, por nome Esmeralda Borlok, 48 anos. Suspirei aliviada, olhei em volta, como estava tudo em ordem, apertei o botão de chamada. Após alguns segundos, ouvi uma batida e o movimento leve na maçaneta da porta. Levantei o rosto e deparei-me com uma senhora obesa, de pele clara, porém com manchas semelhantes a melasma, no rosto. Os olhos fundos mostravam também uma margem de olheiras considerável. Pediu licença, com uma voz rouca e cansada. Parece que havia corrido alguns quilômetros. Disse-me:
— Com sua licença, doutora! Bom dia! — respondi de pronto.
— Bom dia! Dona Esmeralda?
— Sim, sou eu mesma, doutora! — respondeu-me, meio encabulada.
— Sente-se, fique à vontade! — Eu disse, apontando para um estofado à minha frente. Foi quando a mulher deu dois passos para se sentar que percebi que mancava de uma perna. Enquanto ela se ajeitava na poltrona, vi que suas pernas e pés estavam inchados. Vestia uma saia jeans desbotada, uma camiseta branca e sandálias de dedo.
Assim que ela se acomodou, olhei em seu rosto e forcei um sorriso simpático, afinal, eu precisava lhe passar confiança. Ela retribuiu o sorriso, deixando à mostra as falhas que possuía em sua arcada dentária. Confesso que tive compaixão da mulher… afinal, a medicina não nos tira a sensibilidade.
Levantei-me com o tablet nas mãos, e parei à sua frente. Puxei uma poltrona e sentei-me a um metro, mais ou menos, da mulher. Comecei a conversar com ela, conferindo alguns dados, como: idade, endereço, se tinha filhos e quantos, se fazia uso de algum medicamento…. Na verdade, eu queria ganhar um tempinho, para que aquela senhora respirasse melhor, pois julguei que estivesse muito ansiosa, pela respiração ofegante que apresentara, quando entrou. Assim que ela se mostrou mais serena, levantei-me e puxei outra poltrona que ficava ao seu lado, próximo a sua cabeça; mas de uma forma que eu não via diretamente o seu rosto. Via-o somente pelo reflexo no espelho do lado oposto da parede.
Planejei um ambiente aconchegante em meu consultório, pensando exclusivamente no bem-estar dos meus pacientes. A poltrona é reclinável e favorece a vista para um jardim de inverno, com muitas folhagens e flores, as quais podem ser apreciadas através da parede de vidro que o separa da sala do consultório. Penso que esse ambiente transmite serenidade e paz. Deixando os pacientes mais relaxados.
Comecei a consulta, propriamente dita:
— Então, dona Esmeralda, o que a trouxe aqui? — perguntei com a intenção de fazer as anotações necessárias no bloco de notas, de uma forma que ela não percebesse, para não se sentir coagida ou incomodada. — A mulher pigarreou, engoliu, tirou os óculos e segurou-o sobre a perna esquerda. Esfregou os olhos, como se quisesse enxergar melhor as situações vividas na história. Logo começou a me explicar:
— Olha, doutora, eu vim aqui porque preciso saber da senhora sobre esses problemas de cabeça, viu? Meu marido anda falando que estou ficando louca… embora eu não acredite, ele insistiu para que eu viesse me consultar. Então, eu não quero fazer a senhora perder muito tempo comigo, não. Eu vou lhe contar o motivo dessa contenda e daí a senhora só me responde, e pronto, eu vou-me embora!
— Sim, claro, pois me conte… — disse calmamente.
— A senhora veja, eu sempre pensei que tratava as minhas aves muitíssimo bem, dou lhes ração de melhor qualidade, milho somente colhido no ano… troco a água dos galinheiros duas vezes por dia! E mais! Os ninhos são feitos de caixote de madeira boa e forrados com capim seco, macio… Mas a senhora não há de ver que, há poucos dias, peguei a galinha carijó, cochichando ao pé da orelha da galinha preta, Efigênia, atrás do pé de capim cidreira?! Elas não me notaram, pois escondi-me atrás do tronco da jaqueira, que é bem grosso… Logo a carijó, Magá, em quem eu tanto confiava… — Perguntei-a:
— Hummmmm, o que diziam? Deu para ouvir…?
—Sim, sim! Deu para ouvir, porque fiquei bem pertinho. Elas reclamavam da quantidade e qualidade da ração e do milho, o mais estranho é que mostravam insatisfação, também, dizendo que a cama era dura, forrada com produto de última qualidade… cogitavam mobilizar todo o galinheiro, instigando a solicitação de melhorias. Efigênia confirmava tudo, balançando a cabeça positivamente.
Saí de fininho, porque não saberia como argumentar com elas, tamanha era a cara feia das duas… logo imaginei as mesmas, fazendo motim no galinheiro e greve. Com certeza seria greve ‘ovo zero’! Desesperei-me, pois como iríamos nos manter sem o dinheiro da venda dos ovos? Meu marido, mal faz a capinagem do pomar, e olhe lá!
Fui correndo contar ao marido, que me ouvia, mas tinha os olhos arregalados, parecia incrédulo. Na hora, eu não sabia se ele duvidava da história ou estava desesperado pela falta dos ovos e, consequentemente, do dinheiro. Mas depois, me disse de forma arrogante:
“Oxente, mulher! Desde quando galinha fala? Você está delirando? Deixa eu ver se tem febre…” — Eu já estava azucrinada, respondi-lhe:
“Ara homem, tu acha que sou mulher de faltar com a verdade! Vá lá fora, estão lá atrás das cidreiras! Já tem uma aglomeração de mais de 15 indivíduos! Logo vai ver a greve estourar! Vai vendo… depois não diga que não avisei!”
Fui pisando duro para o quarto e fiquei observando a movimentação deles por quase duas horas, até adentrarem para o galinheiro. É isso, doutora, digo, essa movimentação das aves, sempre reclamando dos cuidados e do alimento, tem sido diariamente… eu falo para o meu marido todos os dias, mas ele repete a mesma coisa… dizendo que estou enlouquecendo. E foi por isso que ele marcou essa conversa. Mas eu juro para a senhora, por tudo que é sagrado, isso é a mais pura verdade!
É certo taxar alguém de louco quando se está falando a verdade? É certo…?
Eu também estava em choque, não sei se era pela possibilidade de crer na história da mulher ou se realmente eu achava, também, que ela era louca.
Respondi, com a voz trêmula, forçando para não mostrar insegurança.
— Claro, claro! A senhora tem razão!
Vamos fazer um combinado? Eu vou lhe passar um remedinho, mas veja bem, ele é um ‘placebo’ ou seja, não tem nenhum princípio ativo. A senhora vai levar e tomar na frente do seu marido, daí ele vai pensar que está tudo certo, que a senhora está medicada! — Ela arregalou aqueles olhos pretos e fundos, interpelando-me:
— E quanto às galinhas, a iminência de uma greve… o que eu faço?
— Respondi apressadamente:
— Essa situação eu vou resolver pessoalmente para a senhora. Eu vou comunicar a secretaria de agricultura para fazer-lhe uma visita, então marque uma reunião com as aves, para resolver tudo da melhor forma possível! Pode ficar tranquila!
A mulher recebeu a receita com um largo sorriso, até o andar mancado, parece ter desaparecido. Agradeceu-me e fechou a porta atrás de si.
Rapidamente chamei a secretária e lhe comuniquei que não estava passando bem, que ela deveria remarcar a consulta do próximo paciente. Pedi desculpas e saí apressada do consultório. Precisava chegar em casa e tomar um banho da cabeça aos pés. Aquela história havia deixado-me zonza e enjoada.
Quando abri a porta do meu apartamento, levei o maior susto da minha vida! Meu cão, Caramillo, estava sobre uma cadeira, à frente da pia, com a esponja nas patas dianteiras, lavando a louça. Eu dei um grito e joguei a bolsa para cima, a qual bateu no vidro da cristaleira, estilhaçando-o, ao chão.
Caramillo me olhou de um jeito zombeteiro e disse:
– Ai, ai, ai! Agora, além da louça, vou ter que juntar os cacos desse vidro!? Esse mês terei que pedir um aumentinho no salário! Senão, pensar na possibilidade de uma greve… Ou a senhora pensa que só essa ração seca que me dá e essa cama dura, paga toda essa trabalheira?!
Clayton A. ZocaratoImagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6a199272-57b8-83e9-b14a-eac43d0201db
O banco funcionava dentro de uma catedral submersa. As colunas eram feitas de vértebras humanas empilhadas como mármore antigo, e os caixas eletrônicos respiravam lentamente, como animais adormecidos no fundo do oceano.
Todas as manhãs, Augusto atravessava o grande salão inundado por uma luz azulada que parecia vir de um céu afogado e sentava-se diante de sua mesa, onde carimbava contratos invisíveis para pessoas sem rosto.
Ninguém sabia exatamente o que o banco financiava. Alguns diziam que eram sonhos interrompidos. Outros acreditavam que eram memórias falsas implantadas em idosos solitários.
Havia ainda quem jurasse que os empréstimos serviam para manter viva uma criatura enterrada sob a cidade, algo tão antigo que nem possuía nome, apenas fome.
Augusto jamais perguntou.
Há muito tempo aprendera que perguntas criam corredores. E corredores levam a portas. E portas, inevitavelmente, revelam espelhos.
Seu trabalho consistia em analisar pedidos de crédito enviados por pessoas que desejavam comprar pequenas eternidades: juventude provisória, amores artificiais, filhos obedientes, silêncio interior, esquecimento seletivo, reconhecimento social, sensação de pertencimento. O banco oferecia tudo. Parcelava a alma em até quarenta anos.
Naquela terça-feira chuvosa — embora nunca chovesse dentro da cidade subterrânea — Augusto recebeu um envelope preto sem remetente. Ao abri-lo, encontrou apenas uma frase escrita com letras tortas:
“Seu financiamento foi aprovado.”
Ele sentiu um frio percorrer o corpo.
Não se lembrava de ter solicitado nada.
Passou o resto do dia tentando ignorar o envelope, mas a frase parecia crescer sobre a mesa como fungo úmido.
Ao final do expediente, percebeu que os demais funcionários haviam desaparecido. As cadeiras estavam vazias. Os relógios giravam ao contrário. Um odor de terra molhada invadia o salão.
Foi então que ouviu os passos.
Lentos.
Moles.
Como pés descalços caminhando sobre órgãos vivos.
Do corredor principal surgiu uma mulher extremamente magra vestida de branco. Seus cabelos arrastavam-se pelo chão como raízes procurando cadáveres. O rosto era familiar, embora Augusto não conseguisse lembrar de onde.
— Você atrasou muitas parcelas — disse ela.
— Eu não fiz empréstimo algum.
A mulher sorriu.
Seu sorriso possuía dentes demais.
— Todos fazem.
Ela colocou sobre a mesa um enorme contrato encadernado em pele escura.
Na capa lia-se:
CONTRATO DE EXISTÊNCIA
Augusto tentou rir, mas sua garganta produziu apenas um ruído metálico.
A mulher abriu o documento.
Cada página continha momentos de sua vida.
Seu nascimento.
Seu primeiro medo.
A tarde em que o pai o abandonou num posto de gasolina durante quarenta minutos apenas para lhe ensinar “autonomia”.
O cachorro morto encontrado na infância.
A primeira masturbação.
O cheiro do quarto da mãe durante a depressão.
O instante exato em que percebeu que envelheceria.
Tudo registrado.
Tudo assinado.
— Isso é impossível.
— Não — respondeu ela. — Impossível é existir gratuitamente.
A mulher explicou que todos os seres humanos nasciam endividados. O simples ato de respirar já gerava juros. Cada desejo produzia uma taxa adicional. O sofrimento acumulava correção monetária. O medo de morrer era a principal garantia do sistema.
— E quem criou isso?
Ela inclinou a cabeça.
— Vocês.
O salão pareceu expandir-se ao infinito.
Augusto sentiu as paredes respirarem.
A mulher desapareceu.
No lugar dela surgiu uma porta vermelha no centro do banco.
Uma porta que antes não existia.
Augusto sabia que não deveria abri-la.
Mas certas portas começam a nos abrir antes mesmo de serem atravessadas.
Ele girou a maçaneta.
Do outro lado havia um hospital abandonado.
As paredes estavam cobertas por fotografias de pessoas dormindo. Algumas sorriam. Outras choravam durante o sono. O chão era feito de água rasa, e peixes pequenos nadavam entre seringas enferrujadas.
No corredor principal, dezenas de pacientes permaneciam deitados em macas, todos usando máscaras sem expressão.
Uma enfermeira aproximou-se.
Seu rosto era completamente liso.
Sem olhos.
Sem boca.
Sem nariz.
Apenas pele.
Mesmo assim, Augusto teve a impressão de que ela sorria.
— Seja bem-vindo ao setor de inadimplência afetiva.
Ela conduziu Augusto pelos corredores.
Em um quarto havia um homem tentando arrancar o próprio reflexo do espelho.
Em outro, uma senhora costurava fotografias da juventude sobre a própria pele.
Mais adiante, crianças brincavam de funeral usando pequenos caixões de madeira.
— Quem são essas pessoas?
— Clientes.
— Do banco?
— Da realidade.
A enfermeira abriu uma porta metálica.
Dentro havia uma sala gigantesca cheia de gavetas catalogadas.
Cada gaveta possuía o nome de uma emoção.
CULPA.
VERGONHA.
DESEJO.
MELANCOLIA.
CIÚME.
NOSTALGIA.
— O que é isso?
— Arquivo central da psique humana.
Ela puxou uma gaveta marcada como “MEDO DE NÃO SER AMADO”.
Dentro havia milhões de pequenos corações batendo lentamente.
Augusto sentiu náusea.
— Isso é loucura.
— Loucura é apenas um quarto sem janelas dentro da consciência.
A enfermeira então entregou a Augusto uma chave dourada.
— O diretor deseja vê-lo.
— Diretor de quê?
— Do abismo.
Ela apontou para o elevador no fim do corredor.
As portas abriram-se sozinhas.
O interior estava cheio de areia.
Augusto entrou.
O elevador começou a descer.
Os números no painel não indicavam andares.
Indicavam idades.
Depois surgiram números negativos.
-1.
-8.
-23.
O elevador continuou descendo.
Augusto começou a ouvir vozes.
Milhares delas.
Eram pensamentos que tivera durante a vida inteira.
Pensamentos violentos.
Sexuais.
Covardes.
Ridículos.
Todos repetidos simultaneamente.
Tentou tapar os ouvidos.
Inútil.
As vozes vinham de dentro.
Quando as portas se abriram, Augusto encontrou-se diante de uma praia noturna.
O céu estava cheio de relógios derretidos.
No horizonte, um gigantesco coração mecânico pulsava lentamente dentro do oceano.
E ali, sentado numa cadeira de escritório enterrada parcialmente na areia, estava seu pai.
Morto havia quinze anos.
Usava o mesmo terno cinza do funeral.
— Você demorou — disse ele.
Augusto recuou.
— Isso não é real.
— Claro que não. Mas você sempre preferiu as coisas irreais.
O pai acendeu um cigarro.
Da fumaça surgiram pássaros negros que desapareceram no céu.
— O que é este lugar?
— Sua contabilidade interior.
— Eu estou sonhando?
— Não exatamente. Sonhos ainda possuem misericórdia.
O pai explicou que o banco era apenas a superfície administrativa de algo muito maior: uma estrutura metafísica alimentada pela incapacidade humana de aceitar o vazio.
Os homens criavam religiões, relações, dinheiro, consumo, ideologias e rotinas para evitar encarar o abismo primordial existente dentro deles.
Mas cada tentativa de preencher o vazio apenas aprofundava o próprio vazio.
Como cavar um buraco usando o próprio corpo.
— Então estamos condenados?
O pai riu.
— Condenados? Augusto, vocês transformaram a condenação em estilo de vida.
Ao longe, figuras humanas caminhavam para dentro do mar carregando televisores nas costas.
Outras enterravam os próprios rostos na areia.
Uma multidão inteira rezava diante de um enorme cartão de crédito pendurado no céu como lua.
— O que acontece com quem não paga a dívida?
O pai apontou para o oceano.
Das águas emergiam criaturas humanas sem olhos.
Elas carregavam maletas executivas presas aos pulsos por correntes.
— Tornam-se parte da máquina.
Augusto sentiu o chão tremer.
Então percebeu que a areia era feita de dentes.
Milhões deles.
O pai levantou-se lentamente.
— Existe algo que você precisa ver.
Caminharam pela praia durante horas ou segundos — naquele lugar o tempo parecia um animal ferido incapaz de mover-se em linha reta.
Chegaram a um prédio gigantesco construído inteiramente com espelhos.
Cada espelho refletia uma versão diferente de Augusto.
Augustos ricos.
Augustos miseráveis.
Augustos assassinos.
Augustos religiosos.
Augustos mendigos.
Augustos felizes.
Augustos suicidas.
— O que é isso?
— Todas as pessoas que você poderia ter sido.
Ao entrar no edifício, Augusto percebeu que os corredores eram feitos de carne pulsante.
As paredes sussurravam frases ditas por sua mãe durante a infância.
“Você precisa ser alguém.”
“Não decepcione seu pai.”
“Pessoas comuns desaparecem.”
Em uma sala encontrou centenas de versões de si mesmo sentadas diante de computadores antigos.
Todos trabalhavam compulsivamente.
Todos estavam exaustos.
Nenhum parecia saber o motivo.
Um dos Augustos ergueu a cabeça.
Seus olhos eram dois buracos vazios.
— Produzimos sentido artificial.
— Para quê?
— Para evitar o silêncio.
Outro Augusto começou a bater a cabeça contra o teclado enquanto chorava sangue.
— O silêncio revela.
As luzes piscaram.
Todos os Augustos pararam simultaneamente.
Viraram os rostos na direção dele.
E disseram juntos:
— Você ainda acredita possuir alguma coisa?
Augusto correu.
Correu pelos corredores vivos.
Correu até encontrar uma escada infinita descendo para dentro de uma escuridão líquida.
No fundo havia uma única cadeira de dentista iluminada por uma lâmpada oscilante.
Sentada nela estava a mulher do banco.
— Chegamos ao núcleo.
— O que você quer de mim?
— Nada.
Ela sorriu novamente.
— Você é quem quer alguma coisa. Sempre quis.
A mulher pediu que Augusto se sentasse.
Ele obedeceu sem compreender por quê.
Acima dele surgiu uma máquina enorme feita de olhos humanos conectados por fios umbilicais.
— O que é isso?
— O mecanismo do desejo.
A máquina começou a funcionar.
Augusto viu sua vida inteira atravessá-lo.
Cada ambição.
Cada carência.
Cada humilhação escondida sob performances de normalidade.
Percebeu que jamais amara verdadeiramente ninguém.
Apenas buscara pessoas capazes de anestesiar temporariamente seu medo de existir.
Percebeu que trabalhara não por realização, mas para provar algo indefinido a fantasmas familiares.
Percebeu que seus sonhos eram anúncios publicitários infiltrados na alma.
Percebeu que nunca estivera sozinho porque sempre carregara dentro de si um tribunal inteiro.
Começou a gritar.
A mulher aproximou-se lentamente.
— O ser humano é a única criatura que transforma a própria prisão em decoração.
A máquina acelerou.
Os olhos giravam.
Milhares deles.
Observando.
Julgando.
Consumindo.
Augusto sentiu algo romper-se dentro de sua mente.
Então aconteceu o silêncio.
Um silêncio absoluto.
Branco.
Imenso.
Pela primeira vez desde a infância, não desejava nada.
Nem sucesso.
Nem amor.
Nem permanência.
Nem respostas.
Apenas vazio.
Mas o vazio agora não parecia ameaçador.
Parecia honesto.
As correias se soltaram.
A mulher observou-o com estranha ternura.
— Poucos chegam até aqui.
— O que acontece agora?
— Agora você decide.
— Decido o quê?
— Continuar financiando o abismo ou aprender a habitá-lo.
Ela entregou-lhe um espelho pequeno.
Ao olhar, Augusto não viu seu rosto.
Viu apenas um quarto escuro.
No centro do quarto havia uma criança sentada no chão.
Ela chorava silenciosamente.
Augusto reconheceu imediatamente quem era.
A criança ergueu os olhos.
— Você me abandonou.
Augusto começou a tremer.
Tentou tocar o espelho.
A superfície tornou-se líquida.
Então caiu para dentro.
Despertou num apartamento minúsculo.
O despertador tocava.
O sol atravessava parcialmente as cortinas.
Tudo parecia normal.
Por alguns segundos acreditou que tivera apenas um pesadelo.
Levantou-se.
Foi até o banheiro.
Lavou o rosto.
Ao erguer os olhos para o espelho, encontrou uma pequena frase escrita no vidro com vapor:
“Saldo devedor: infinito.”
Augusto recuou.
O apartamento começou a emitir sons estranhos.
As paredes respiravam.
Os móveis pulsavam como órgãos internos.
Da televisão desligada surgiu a voz da mulher:
— O sistema nunca esteve fora de você.
As luzes apagaram.
No escuro, Augusto ouviu milhares de teclas sendo digitadas.
Percebeu então que sua mente inteira funcionava como um escritório administrativo dedicado a organizar medos.
Cada memória era um documento.
Cada trauma, um contrato.
Cada desejo, um boleto vencido.
Sentou-se no chão.
Exausto.
O silêncio voltou.
Lentamente compreendeu que passara a vida inteira tentando comprar autorização para existir.
Dos pais.
Da sociedade.
Do trabalho.
Do amor.
De Deus.
Sempre esperando algum carimbo metafísico que legitimasse sua presença no mundo.
Mas talvez existir fosse justamente suportar a ausência desse carimbo.
Talvez maturidade fosse aceitar que nenhuma estrutura viria salvá-lo do vazio fundamental.
Talvez liberdade começasse quando o homem deixasse de pedir empréstimos emocionais ao mundo.
Augusto chorou.
Não de tristeza.
Mas de cansaço.
Um cansaço antigo.
Herdado.
Transgeracional.
Como se milhares de ancestrais frustrados ainda respirassem dentro de seus pulmões.
A noite caiu rapidamente.
Do lado de fora, a cidade parecia normal.
Pessoas caminhavam.
Carros passavam.
Casais jantavam.
Mas Augusto agora enxergava.
Via as correntes invisíveis ligando cada ser humano às próprias carências.
Via homens usando ternos costurados com ansiedade.
Via mulheres carregando aquários cheios de expectativas mortas.
Via crianças já hipotecadas ao futuro.
Todos sorrindo.
Todos cansados.
Todos pagando parcelas emocionais intermináveis.
Na madrugada, ouviu uma batida na porta.
Ao abrir, encontrou apenas um envelope preto.
Dentro havia um único papel.
“Parabéns. Seu refinanciamento foi autorizado.”
No verso havia uma assinatura.
A sua própria.
Augusto sorriu pela primeira vez em muitos anos.
Depois queimou o papel.
As chamas iluminaram brevemente o apartamento.
E por um instante, antes que o fogo apagasse, ele teve a impressão de enxergar dentro das labaredas a gigantesca catedral submersa onde o banco continuava funcionando eternamente.
Centenas de funcionários sem rosto carimbavam contratos.
Milhões de pessoas aguardavam atendimento.
E no centro do salão, sentado sozinho diante de uma mesa vazia, estava ele mesmo.
Trabalhando.
Ainda.
Sempre.
Enquanto, muito abaixo de tudo, no fundo do abismo financiado pela humanidade inteira, alguma coisa respirava satisfeitamente.