Mude o seu referencial

Guilherme Machado

Mude o seu referencial – A lição que Sheldon Cooper e meu avô me deram sobre a dor

Guilherme Cesar Machado de Araújo
Guilherme Machado

The Big Band Theory - https://www.flickr.com/photos/mysticsoul/6958430091
The Big Band Theory – https://www.flickr.com/photos/mysticsoul/6958430091

“Quem somente observa o vento nunca semeará,
e o que olha para as nuvens nunca segará.”
Eclesiastes 11:4

Há três anos, a data que marcava duas décadas sem meu avô mergulhou-me num oceano de memórias. A pandemia, com seu silêncio forçado, amplificou a dor. Foi preciso a insistência de amigos para eu buscar ajuda terapêutica.

Nesse processo, entendi algo crucial: eu carregava uma mentalidade de escassez como fortaleza. Vinda de uma família onde o trabalho duro foi a moeda de todas as conquistas, eu inconscientemente acreditava que minha vida não poderia ser “fácil” ou confortável. Para equilibrar a balança da perda, eu me agarrava à ideia de que o conforto material tinha um preço alto demais: a ausência de quem eu mais amava. A terapia me mostrou que aquela fortaleza era, na verdade, uma cela.

Uma conversa com uma amiga que perdeu a mãe na pandemia iluminou um vértice dessa dor. Ela não teve velório, nem enterro. E, em sua percepção, a falta do ritual a poupou de “cutucar a ferida”. Fiquei pensando no poder dos rituais para fechar ciclos. E essa reflexão me levou direto a uma das lições mais profundas que a televisão já me deu, escondida num episódio de The Big Bang Theory.

No ápice da série, os gênios Sheldon e Amy têm a obra de suas vidas — a “Teoria da Super Assimetria” e sua chance ao Nobel — completamente desmontada por um artigo acadêmico russo. A reação de Sheldon não é simples decepção; é luto em seu estado mais puro.

Ele passa pela negação e raiva (quebra um quadro, grita), pela depressão e paralisia (veste um pijama e afunda no sofá) e por uma crise de identidade radical (“Sobre o que mais estou enganado na vida?”, pergunta, enquanto prova um alimento que sempre odiou). Seus amigos tentam ajudar com conselhos de autoajuda (“é só uma derrota temporária”), mas a dor é profunda demais para esses placebos. O casal precisa de algo mais.

A sabedoria vem da mãe do amigo Leonard, uma psiquiatra, que diagnostica: “Pelo jeito ele pode estar de luto. Esse estado pode ser obtido por qualquer perda emocional”. Ela prescreve um ritual. Assim, os amigos organizam um “funeral” para a teoria falecida. Num momento de catarse, diante das folhas queimando numa banheira, Sheldon finalmente verbaliza a dor: “Ela descrevia um universo de uma forma nova e bela… Queria que fosse o universo em que vivemos”. Aquele ato simbólico de despedida foi a chave.

Mas a verdadeira reviravolta vem depois. Amy encontra uma fita antiga com um discurso do pai de Sheldon, um treinador de futebol americano, dirigindo-se ao seu time no intervalo, sendo humilhado no placar. Ele diz: “Se perdermos, precisam saber que isso não nos torna perdedores. Descobrimos quem somos e do que somos feitos, tanto com as derrotas quanto com o sucesso. Talvez até mais.”

Ao assistir, Sheldon tem um insight que redefine tudo. Ele sempre viu sua vida como o oposto da do pai (a genialidade da física versus o mundo esportivo comum). Agora, ele enxerga o paralelo: ambos enfrentaram reveses monumentais. A mesma metáfora do “jogo” que ele havia desdenhado antes, agora faz sentido total. Mais que isso, essa nova perspectiva — esse novo referencial — revela a solução científica: seu artigo russo rival não estava errado; eles apenas viam o problema de um ângulo diferente. A teoria não estava morta; estava incompleta.

Eis a lição universal que levo dali:

  1. O luto vai além da morte. É a perda de um sonho, de um projeto, de uma versão de nós mesmos ou do futuro que imaginávamos. É legítimo.
  2. Os rituais curam. Seja um funeral, uma carta queimada ou um café de despedida, dar concretude ao fim é um passo necessário para recomeçar.
  3. As respostas geralmente já estão conosco. A sabedoria que Sheldon precisava não veio de um novo conceito, mas de uma memória esquecida da própria história. Precisamos, muitas vezes, de ajuda (de amigos, de terapia) para encontrar e reinterpretar essas ‘fitas antigas’.
  4. Mudar o referencial transforma a realidade. Nós não podemos mudar o fato (a perda, o fracasso). Mas podemos mudar radicalmente o ponto de vista sobre ele. De ‘este é o fim’ para ‘este é um revés como outros que superei’. Essa mudança de perspectiva não é um pensamento mágico; é uma ferramenta cognitiva poderosa.

Machado de Assis já dizia que há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinhos, e outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas. O luto é a jornada dolorosa e íntima de aprender a ver as rosas novamente. É um processo, não um estado permanente.

Permita-se os rituais de despedida. Aceite a ajuda para encontrar suas próprias “fitas esquecidas”. E, principalmente, dê a si mesmo a permissão para mudar o referencial. Às vezes, a única coisa entre a paralisia e a solução é um novo ponto de vista — um novo ângulo a partir do qual a mesma história triste pode revelar um caminho adiante.

“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á.” — Mateus 7:7

Guilherme Machado

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