Entre cinzas

Marta Oliveri: Conto ‘Entre cinzas’

Marta Oliveri
Marta Oliveri
Imagem criada por IA - 02 de agosto de 2025, às 14:37 PM
Imagem criada por IA – 02 de agosto de 2025,
às 14:37 PM

Quando o pássaro de fogo abriu suas asas, involuntariamente deixou para trás um pequeno monte de cinzas. Talvez fossem aquelas memórias desnecessárias deixadas pelo infortúnio de perecer. Assim conta o mito da Fênix. A ave que renasce continuamente das cinzas e morre novamente.

O fato é que, quando o grande pássaro da ressurreição alçou voo naquela manhã, como um sopro errante, ela nasceu: uma pequena mulher de cinzas que se elevou acima da tristeza daqueles restos, cinzenta e melancólica. Sem saber o motivo de seu estranho nascimento. Talvez uma mutação de algo que aconteceu fora dos limites aceitáveis do mito? Ela nasceu, sim, além da esperança, além da odisseia do ser, do voo, do fogo e da estatura.

Assim ela foi formada. E quando tocou seu coração, soube que era feito de sombras. Então sua tristeza aumentou. Que estranha perversidade do deus que habita o Olimpo? Por que ele a criou? Com que propósito? O que ela tinha que fazer no mundo? Ela se levantou daquele lugar e começou a caminhar. À sua frente, estendia-se um caminho de pedras, um lugar acidentado e rochoso onde corriam as águas de um rio cristalino. E lá ela podia se ver claramente: era magra como um junco, bela como a névoa, triste como o próprio desamparo. Era ela: a sensação do que lhe era negado. A lembrança do sacrifício, aquele sacrifício necessário que supostamente anuncia a ressurreição. Uma mulher de cinzas.

Mas há quanto tempo ela ouvia o crepitar do fogo? Lembrava-se dos gemidos do pássaro em chamas e, em seguida, do amanhecer de asas abandonando o corpo. Ocasionalmente, uma criança indesejada escapa dos milagres, alguém que vem nos dizer o que devemos esquecer: a tortura de morrer e nascer todos os dias, o tormento de ser majestosamente livre e pagar por isso com a pira da culpa eterna. Assim é o mito da Fênix.

Portanto, quando aconteceu de forma tão estranha, contrária a toda a lógica, a pequena mulher de cinzas devia ter algum motivo oculto para justificar a origem de sua criação. Por isso, decidiu cuidar de seu coração de sombras e fugir daquele lugar antes que o pássaro retornasse para se juntar a ela com o restante de suas cinzas próximas. Antes de morrer, precisava compreender o significado de sua origem.

Caminhando entre as pedras. Leve e fugaz, seu corpo efêmero não sentia a aspereza da terra, nem as pontas afiadas das rochas. O que a pesava era seu coração de sombras, e então partiu em busca do significado de sua origem, aquele mal-entendido que se revelara em meio a tantas fábulas com moral brilhante. Aquela pequena mulher de cinzas era apenas uma pária dos mitos.

Então, continuou sua jornada, para compreender: logo o sol se moveu lentamente do zênite ao nadir, enquanto ela caminhava sem parar, aparentemente sem rumo, para onde quer que seu coração de sombras a dirigisse. Finalmente, a noite caiu, repleta de estrelas como o manto de um grande imperador que governava os céus.

Então a pequena mulher de cinzas percebeu que algo dentro dela começava a pulsar; na verdade, não era uma batida, mas várias; era seu coração que crescia e se multiplicava até explodir para fora do peito. E a mulher de cinzas pôde ver outros corações nascerem dele, subindo e ascendendo em direção ao céu como nuvens que embaçam seu brilho.

Um leque de constelações sombrias então se abriu, e para cada uma desenhada acima, crescia uma lembrança há muito abandonada: a tristeza dos vencidos, a odisseia eclipsada pelo crime, a bondade crucificada na cruz dos traidores.

O magnífico céu estrelado gradualmente se tornara um coro de lembranças; os abismos celestiais cresciam, além de toda possibilidade real ou mítica. Uma obscura rebelião contra a placidez de tudo o que se podia imaginar fizera nascer a audácia da memória, a dura trama do reverso das coisas, o sentido legítimo de uma história eternamente silenciada pelo feitiço da vaidade humana.

Marta Oliveri

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