“A minha frustração é não conseguir ler todos os livros. Os livros funcionam como um veneno, mas também como antídoto para alma.” (Jessemusse Cacinda)
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Mano Jessemusse [2], as minhas entrevistas não são um arquivo bibliográfico. Se por acaso jorrar entre os meus lábios uma questão sobre quem tu és, acredita, trata-se de um puro e inocente acidente. Por esta razão, começo este nosso diálogo perguntando:
Bruno Areno — Quem é para ti o grande escritor moçambicano da actualidade?
Jessemusse Cacinda — Esta é uma pergunta muito difícil. A literatura moçambicana da actualidade é marcada pela coabitação entre a chamada geração charrua e as gerações posteriores, por isso tenho dificuldades a identificar um autor que eu chamaria de o grande da actualidade. Acho que o poeta Álvaro Taruma tem assumido um consenso interessante entre a nova geração e eu concordo.
Tenho particularmente muito orgulho pelo que o Mélio Tinga se tornou, estive a ler o seu livro ‘Arder no Gelo’ e conversei com o Professor Francisco Noa a respeito. Mélio Tinga é daqueles autores que se a Ethale tivesse condições de monopolizar o seu passe no mercado, faríamos um contracto para termos os direitos de toda sua obra. Entre os autores, tenho particular admiração pelo Ungulani Baka Khossa.
BA — A humanidade é feita de mentiras. Dizem-nos que a leitura faz bem para a alma, mas tu, Jessemusse, sabes muito bem que após uma leitura vem sempre a indagação, o questionamento, o desassossego. Nenhum académico ou leitor sob a face da Terra vive feliz, alegre, satisfeito. Felizes são os analfabetos, esses seres que desconhecem a hora da sua morte e que, mesmo depois de mortos, cantam como se os vivos continuassem a ouvi-los. Tudo isto apenas para saber o título do livro que te está a roubar a paz nestes dias. O que gostarias de ler e não estás a ler?

JC— A minha frustração é não conseguir ler todos os livros. Os livros funcionam como um veneno, mas também como antídoto para alma. Gostaria de ler mais livros da África do Norte, o chamado Magreb e da Ásia. Iniciei uma incursão por aquele mundo e estou profundamente surpreendido com a frescura com que os autores olham para a realidade.
BA — Diz-me algo: qual foi o grande autor que descobriste?
JC — Nunca descobri ninguém, apenas conheci grandes autores. Os meus autores favoritos continuam Albert Camus, Jean Paul Sartre e Alain Mabanckou. Este último que faz livros como se fossem álbuns de música congolesa. Voltei a ler Toni Morison, Jazz por conta de um novo projecto que ando a experimentar.
BA — E qual ainda não descobriste?
JC — Quando for a descobrir, terei resposta, por agora, não consigo desvendar o que me parece oculto.
BA — Queres falar da nova antologia poética organizada pelo Eduardo Quive e por ti?
JC — É um projecto que funciona como montra. Iremos apresentar em Portugal (Lisboa, Coimbra e Porto) e em Moçambique (em várias cidades onde temos autores). A ideia é fornecer um quadro da diversidade da literatura que se está a produzir no país.
BA — Numa conversa telefónica que tive com o grande Jordão Domingos, ele questionou: “Por que não houve uma chamada pública? É apenas para ‘escritores grandes?'” Transfiro essa questão a ti.

JC — Usamos o critério da acessibilidade, ou seja, juntamos os autores que conhecíamos e que de certa forma tínhamos acesso. Convidamos muitos autores que se mostraram indisponíveis e a antologia é o resultado que tivemos. Sobre chamada pública, a Ethale não tem sido bem-sucedida com isso. fizemos duas chamadas públicas desde a nossa fundação há 9 anos e não tivemos sucesso. Agora iremos celebrar 10 anos e pretendemos voltar a fazer chamadas públicas para a identificação de interessados.
BA — Tu entras em angústia? Para mim, os seres humanos são seres angustiados.
JC — Claro. Acho que viver é aprender a lidar com a angústia.
BA — Existe escrita sem dor?
JC — Provavelmente exista, mas a minha é de dor. No Kwashala Blues há dor nas várias mortes as quais somos condenados por viver em Nampula e a meio disso, procuramos o verso de um poema ou o ritmo de uma boa música. Assim, surgiu a minha proposta estética de um livro de estreia que superou as minhas expetativas.
BA — Do que não te arrependes de não ter feito?
JC — Ter editado livros num país de oralidade e que pouco valor dá a cultura.
BA — Ainda há possibilidade?
JC — Nada. Terei sempre orgulho disso.
BA — E do que fizeste e te arrependes?
JC — Não ter perdoado aos que me magoaram.
BA — Jessemusse fez coisas que jamais revelaria a ninguém?
JC — Claro. Temos sempre segredos que nos ajudam a construir uma mítica do que somos.
BA — Cometeste grandes gafes na vida?
JC — Claramente. E foram muitas.
BA — E imprudências?
JC— Também.
BA — Não queres contar uma?
JC — São várias, mas uma que me marcou foi por eu ter entregue a minha biscicleta a um ladrão em Cuamba.
BA — Sentes uma admiração especial por algum personagem da história?
JC — Várias.
BA — Onde gostarias de ter vivido?
JC — Interessante. Quando eu era miúdo sonhava em ser um peregrino e viver em vários lugares do mundo. Agora, sigo a onda. Vou para onde a vida me leva.
BA — Choras?
JC — Sim.
BA — Quando choras, choras por quê?
JC — Por nada. Geralmente para mim mesmo. Não peço apoios porque tive de aprender a me virar sozinho muito cedo.
BA — O amor é horrível e chato?
JC — Não. O amor é uma das melhores coisas. Entretanto, como toda viagem, há acidentes. No Kwashala Blues, a Amália diz que a vida é uma viagem longa, e eu acrescentaria que é preciso não se arrepender por ter amado.
BA — A morte é terrível?
JC — E inevitável. É uma condição existencial. Por causa da morte, podemos ter limites enquanto humanos.
BA — Como gostarias de morrer?
JC — Ainda não pensei nisso.
BA — Como estás em matéria de amores?
JC — Muito bem resolvido.
BA — Para terminar, mano. Diz-me como está a Saúde mental dos moçambicanos, uma merda?
JC — Acho que um Doutor em Medicina, especialidade de Psiquiatria ou Doutor em Psicologia Clínica poderia melhor dizer isso. Agora, enquanto um entusiasta das discussões filosóficas, concordo com Byang Chun-Han sobre o excesso de narcisismo que provoca depressão. Todos querem ser vencedores e ninguém quer ser perdedor. Mesmo quando perdemos, acusamos os outros para a nossa derrota. E Jean Paul Satre muito disse, o inferno são os outros, e hoje, usamos essa máxima para justificar nossas loucuras.
Bruno Marquê Areno
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