Entre lençóis, calçadas e carnavais

Clayton Alexandre Zocarato

Entre lençóis, calçadas e carnavais: Uma crônica crítica sobre o desejo brasileiro

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA do Grok - 06 de fevereiro de 2026, 
às 09:23 PM - https://grok.com/imagine/post/205a63c0-343b-45f5-84e3-d27291e0f6a3
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O brasileiro aprendeu cedo que o corpo é um território público. Antes mesmo de saber ler, já sabe dançar; antes de saber conjugar verbos, já aprendeu a rebolar. O corpo fala, grita, provoca. 

Ele se esfrega nos ônibus lotados, se exibe nas praias, se vende nos comerciais de cerveja, se absolve no Carnaval e se confessa no domingo à missa. O sexo, aqui, nunca foi apenas sexo: é linguagem, é moeda simbólica, é resistência e, muitas vezes, é fuga.

Há algo de paradoxal neste país que se diz moralista, conservador e de ‘família tradicional brasileira, mas que pulsa erotismo em cada esquina. O Brasil vive uma sexualidade que é ao mesmo tempo desenfreada e reprimida, celebrada e punida, explorada e negada. 

Somos um povo que goza e culpa, que deseja e se envergonha, que consome sexo como entretenimento, mas condena quem ousa vivê-lo fora do roteiro social aceitável.

Essa relação ambígua não nasce do nada. Ela é herança. O Brasil foi gestado no estupro colonial, no contato violento entre europeus, indígenas e africanos escravizados. O corpo, desde o início, foi instrumento de dominação. 

A mulher indígena erotizada nos relatos dos colonizadores, o corpo negro hipersexualizado e desumanizado, o senhor branco exercendo poder também entre lençóis. O sexo aqui nunca foi neutro; sempre foi político.

Enquanto a Igreja tentava impor culpa e pecado, a realidade tropical insistia em suar. O clima, a miscigenação, a vida nas ruas, tudo conspirava contra a moral importada da Europa.

Criou-se, então, um teatro: em público, recato; na prática, permissividade. Esse teatro atravessou séculos e ainda hoje estrutura nossa hipocrisia coletiva.

O brasileiro não odeia o sexo — odeia ser confrontado com a verdade de que o deseja.

A modernidade não resolveu isso; apenas sofisticou. A indústria cultural transformou o desejo em mercadoria. 

Corpos esculturais vendem carros, perfumes, planos de internet. O funk, o sertanejo universitário, a publicidade e as redes sociais erotizam o cotidiano até a exaustão. O sexo virou performance, espetáculo, ranking. Quem transa mais, quem atrai mais, quem exibe melhor. A intimidade virou vitrine.

Mas, paradoxalmente, quanto mais se fala de sexo, menos se fala de afeto. O brasileiro aprendeu a desejar sem necessariamente se responsabilizar. Ama-se o corpo, não a pessoa. 

Consome-se a experiência, descarta-se o vínculo. A sexualidade desenfreada muitas vezes não é liberdade, mas sintoma: uma tentativa desesperada de preencher vazios emocionais, desigualdades sociais, frustrações históricas.

Do ponto de vista sociológico, o sexo no Brasil funciona como válvula de escape. Em um país marcado por violência, pobreza e falta de perspectivas, o prazer imediato oferece um alívio momentâneo. 

Não é coincidência que o Carnaval — essa explosão coletiva de corpos, álcool e permissividade — anteceda a Quaresma, tempo de contenção e culpa. O gozo vem antes do castigo. Sempre veio.

Há também a dimensão filosófica do problema. O brasileiro raramente foi educado para pensar o desejo. Vive-o de forma impulsiva, quase instintiva, sem reflexão ética profunda. 

Falta-nos uma cultura do eros como construção consciente. Oscilamos entre o hedonismo raso e o moralismo punitivo, sem conseguir sustentar um meio-termo maduro. Ou tudo pode, ou nada deve. O resultado é confusão.

Essa confusão aparece nas estatísticas de violência sexual, nos relacionamentos abusivos naturalizados, na dificuldade de diálogo sobre consentimento, prazer e limites. Aparece também na solidão disfarçada de liberdade sexual. Nunca se transou tanto e nunca se esteve tão só. O toque virou banal; a escuta, rara.

É preciso dizer: a sexualidade brasileira não é problemática por ser intensa, mas por ser mal elaborada. 

Falta educação sexual que vá além da biologia e do medo da gravidez. Falta discutir desejo, poder, gênero, respeito. 

Falta entender que sexo não é apenas descarga, mas encontro — e todo encontro exige responsabilidade.

O naturalismo cru da nossa realidade mostra corpos em movimento constante, mas mentes pouco preparadas para lidar com as consequências. 

Mostra homens ensinados a provar masculinidade pela quantidade de conquistas, mulheres pressionadas a serem ao mesmo tempo desejáveis e recatadas, e dissidências sexuais empurradas para a margem ou fetichizadas.

No fim, o brasileiro ama o sexo porque ama a vida, mas aprendeu a viver essa vida de forma fragmentada. 

Talvez o desafio não seja frear o desejo, mas alfabetizá-lo. Transformar a pulsão em escolha, o impulso em consciência.

Enquanto isso não acontece, seguimos entre lençóis e calçadas, gozando e julgando, desejando e negando — um país inteiro tentando se satisfazer sem nunca, de fato, se compreender.

Há ainda um elemento incômodo que raramente se assume com honestidade: o prazer, no Brasil, também é hierarquia. Nem todos gozam do mesmo modo, nem com a mesma legitimidade. 

O sexo ‘desenfreado é celebrado quando vem do corpo jovem, padrão, branco ou próximo disso, heterossexual e midiaticamente aceitável. Fora desse recorte, o desejo vira escândalo, doença, pecado ou piada.

A velhice erotizada causa nojo, o corpo gordo desejante causa riso, o corpo trans causa medo. O brasileiro diz amar o sexo, mas só aceita certos corpos desejando.

Esse filtro moral disfarçado de gosto pessoal revela o quanto nossa sexualidade continua atravessada por estruturas de poder. Michel Foucault já alertava: não é a repressão que silencia o sexo, mas a forma como ele é administrado.

No Brasil, administra-se o desejo com uma mão que estimula e outra que pune. Incentiva-se a excitação, mas controla-se quem pode exercê-la plenamente. O prazer, aqui, não é democrático.

Nas periferias, o sexo é sobrevivência, afirmação, fuga. Nos bairros ricos, é performance, terapia, capital simbólico. Em ambos os casos, raramente é silêncio compartilhado, cuidado mútuo ou construção lenta.

A pressa também é social. O país do jeitinho não aprendeu a esperar, e isso inclui o corpo do outro. Quer-se tudo rápido: o flerte, o toque, o orgasmo, o descarte. O sexo vira consumo rápido em um mercado saturado de estímulos.

A pornografia, amplamente acessível e pouco debatida, educa mais do que qualquer escola. Ela ensina gestos, expectativas irreais, violências normalizadas. Ensina que o outro é objeto, que o prazer é desempenho, que consentimento é detalhe.

O brasileiro aprende a transar antes de aprender a conversar. Aprende a invadir antes de aprender a perguntar. Depois, se espanta com os números de abuso, assédio e violência doméstica, como se fossem desvios individuais, e não sintomas coletivos.

Do ponto de vista histórico, isso também dialoga com nossa dificuldade de elaborar limites. Um país que nunca resolveu bem sua relação com autoridade, lei e cidadania tampouco resolveria bem sua relação com o corpo. 

Oscilamos entre permissividade caótica e repressão violenta. Quando o sexo é livre demais, vira terra de ninguém; quando é proibido demais, vira obsessão. Não construímos uma ética do desejo — improvisamos.

Filosoficamente, talvez o maior drama seja nossa incapacidade de sustentar o vazio. O sexo, muitas vezes, entra como anestesia existencial. Transa-se para não pensar, para não sentir, para não encarar o silêncio. 

A cama vira esconderijo. Mas o prazer que não nasce do encontro com o outro dificilmente gera sentido. 

Ele alivia, mas não transforma. E o brasileiro, cansado de promessas não cumpridas — políticas, sociais, afetivas — aceita o alívio como se fosse libertação.

No fundo, essa sexualidade intensa revela um povo faminto: de toque, de reconhecimento, de pertencimento. 

Um povo que aprendeu a usar o corpo como grito porque nunca foi realmente ouvido. O problema não está no desejo em si, mas na ausência de escuta, de elaboração, de consciência histórica sobre o próprio prazer.

Talvez o verdadeiro escândalo não seja o quanto o brasileiro transa, mas o quanto ele evita pensar sobre isso.

Pensar dá trabalho, exige revisão, quebra mitos confortáveis. É mais fácil rir, julgar ou fingir naturalidade. Enquanto isso, seguimos repetindo padrões antigos com roupas modernas, chamando de liberdade aquilo que muitas vezes é só repetição inconsciente.

A sexualidade brasileira, portanto, não pede censura nem exaltação cega. Pede maturidade. Pede coragem para olhar o próprio desejo sem folclore, sem glamour, sem culpa automática.

Pede que o prazer deixe de ser espetáculo e volte a ser experiência humana. Até lá, continuaremos nus em público e vazios em privado, dançando entre a excitação e a frustração, como quem goza, mas nunca descansa.

Clayton Alexandre Zocarato

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