Paulo Siuves
‘Água de bosta – Um conto de superação, fé e fezes’


às 11:41 PM
O Gole da Vitória
Na quebrada do Córrego do Esquecido, onde o esgoto corre a céu aberto como se fosse rio batizado, nasceu a revolução.
Ali, o cheiro não era vergonha: era costume, era chão. As crianças brincavam com barquinhos de garrafa, e os adultos falavam de política como quem discute futebol, entre um balde de roupa e outro.
Tudo começou numa terça de calor brabo, quando Dona Jacira, 68 anos, tropeçou num balde de água de bosta. Caiu de boca no líquido marrom e o milagre aconteceu: teve uma visão de Jesus, de chinelo de dedo da moda, camisa de time de futebol e sotaque de subúrbio.
— “Minha filha, essa água é santa. Cura, limpa e dá ibope.”
Quando recobrou o fôlego, sentiu o gosto do mundo inteiro: um amargo de derrota misturado a um azedinho de esperança.
No dia seguinte, estava na feira, vendendo garrafinhas PET com um rótulo improvisado:
ÁGUA DE BOSTA – 100% Natural, 0% Vergonha.
A primeira cliente foi uma influencer vegana em detox digital. Fazia jejum de mídia social e só consumia o que “vibrava na frequência da Terra”.
Tomou um gole, fechou os olhos e postou no TikTok:
“É como se eu tivesse bebido a alma do Brasil.”
Em três dias, a água de bosta viralizou.
A influencer chorava em vídeos, jurando ter sentido “a presença de algo maior”. As visualizações chegaram aos milhões, e as garrafinhas de Dona Jacira começaram a sumir da feira como pão quente.
Alguns meses depois, empresários visionários (ou oportunistas) apareceram oferecendo parcerias, licenças e rótulos com design minimalista.
Nas prateleiras do Pão de Açúcar, entre a água de coco e o kombucha, lá estava ela: ÁGUA DE BOSTA – 100% Natural, 0% Vergonha.
Quase um ano depois, o milagre virou política pública.
O Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional, com jingles e comerciais de TV:
“Beba com moderação. Mas beba”.
O Mercado se Adapta
O capitalismo, com seu faro apurado para a desgraça, farejou oportunidade.
Surgiram startups da noite pro dia.
A BostaTech lançou a linha premium: “Água de Bosta com carvão ativado e colágeno vegano”. A BostaNatura S.A. criou a versão “artesanal”, coletada ao nascer do sol por catadores certificados.
A classe média alta, sempre em busca de autenticidade, comprava caixas fechadas.
— É o gosto da periferia, engarrafado — dizia um publicitário da Vila Madalena, enquanto degustava o produto num copo de cristal.
A elite intelectual aplaudia nas colunas de cultura:
“Uma metáfora líquida da brasilidade. Um grito contra o saneamento opressor.”
Enquanto isso, no Córrego do Esquecido, crianças continuavam brincando perto do esgoto. A área do cano quebrado, agora, estava interditada por uma cerca com placa nova:
“Propriedade privada. Coleta exclusiva da BostaNatura S.A.”
A lama foi cercada.
O cheiro, patenteado.
E o povo, mais uma vez, ficou do lado de fora da própria miséria.
O Herói da Lama
Foi quando surgiu Jean Merde Jr., 23 anos — nascido Juninho, rebatizado pelo marketing. Ex-vapor, ex-nada, agora CEO da própria esperança. Dizia que “empreender é se limpar por dentro” e estampava isso num boné da sua marca revolucionária: MerdaChique™. O logotipo? Uma flor de lótus brotando de um cano de esgoto.
“Jean Merde Jr.” soava internacional, sofisticado — como se a lama tivesse aprendido francês. A imprensa adorou. O tradicional programa televisivo dominical da principal emissora do país fez matéria especial: “Do esgoto às passarelas do sucesso: conheça o criador da MerdaChique”.
Em entrevista ao canal JornalNews, ele declarou, com voz serena e sotaque ensaiado:
— “A água de bosta é mais que um produto. É identidade. É resistência líquida”.
Com a ascensão de Jean Merde Jr., a história precisou ser organizada.
Não dava mais para deixar o milagre solto, sem dono, sem narrativa oficial.
Dona Jacira passou a ser citada como “a origem simples”, “o acaso fundador”, “a senhora que tropeçou”. Seu rosto aparecia nos primeiros eslaides das palestras, sempre em preto e branco, antes que o gráfico de crescimento tomasse a tela.
Um acordo foi feito. Não houve briga, nem escândalo. Apenas documentos.
Dona Jacira recebeu um apartamento em Alphaville, um valor único pela cessão de imagem e uma cláusula de confidencialidade que lhe garantia conforto e silêncio.
Não precisava mais ir à feira.
Nem falar com jornalistas.
O milagre, agora, tinha CEO.
O sucesso foi tanto que Jean lançou sua autobiografia: Do Esgoto ao Sucesso – Como a Merda Salvou Minha Vida, um projeto aprovado por uma lei de incentivo à produção cultural, com patrocínio da marca de papel-toalha BrancoPuro™, que divulgava o livro como “um exemplo de resiliência nacional”.
O livro virou best-seller instantâneo, adotado pelo MEC no programa Leitura para Todos. Teve lançamento com coquetel vegano, sessão de autógrafos no MIS e trilha sonora composta por DJ influente da Vila Madalena. Depois vieram o documentário, a série de podcast e as palestras motivacionais com telão de LED e cachê em euro.
O Brasil aplaudia de pé — afinal, nada mais inspirador que ver a merda dar certo com incentivo fiscal e apoio de quem limpa a sujeira alheia.
O Fim da Sede
Com o tempo, o nome de Dona Jacira deixou de ser mencionado.
Não por desrespeito, mas por eficiência.
A marca não precisava mais de origem. Precisava de escala.
No apartamento amplo e silencioso, longe do cheiro do córrego, Jacira passou a acompanhar as notícias pela televisão. Viu Jean Merde Jr. discursar, sorrir, explicar o milagre com palavras limpas, neutras, pasteurizadas.
Tudo estava certo. Tudo estava melhor.
E, ainda assim, algo tinha sido retirado dela — embora ninguém soubesse dizer exatamente o quê.
Pressionado por ONGs, influenciadores e pelo lobby da indústria marrom, o governo federal lançou o programa “Água para Todos”. Agora, cada escola pública receberia mensalmente um lote de água de bosta pasteurizada.
— É nutritiva, sustentável e 100% brasileira — disse o ministro da Educação, sorrindo para as câmeras e tomando um gole em rede nacional.
O país dividiu-se nas redes:
— É um absurdo! Água de bosta pros pobres e Perrier pros ricos!
— Deixem de mimimi! É melhor que nada!
— Eu tomo, mas a versão com colágeno. Ajuda no rejuvenescimento.
Enquanto a polêmica fervia, Dona Jacira vivia em Alphaville, cercada por vidros, jardins geométricos e um silêncio que não cheirava a nada. Tinha tudo o que lhe haviam prometido.
Às vezes, sonhava com o córrego. Não com a sujeira em si, mas com o barulho, com as vozes, com o mundo ainda em desordem.
Numa dessas noites, parou diante do espelho d’água da piscina. A superfície lisa devolvia um rosto tranquilo, bem cuidado, quase irreconhecível.
Ela suspirou, mais cansada do que triste, e murmurou:
— Saudade do tempo em que era só merda mesmo.
E o reflexo, por um instante, pareceu sorrir de volta.
Paulo Siuves
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