Seth Marcelo: conto ‘O Mingo e a Mingota’


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Mingo era um jovem governante, elevado rapidamente ao topo da poderosa Sonangol. Cercado de privilégios, recursos e influência, acreditava-se indispensável. Do alto do seu cargo, confundia autoridade com grandeza e poder com mérito.
Foi então que surgiu Mingota. Não vinha movida por lealdade nem por admiração verdadeira, mas pelo brilho do poder e pela promessa de ganhos fáceis. Aproximou-se com passos suaves e palavras melosas:
— Salve, excelência. Que honra estar diante de alguém tão distinto. O senhor é elegante, sempre impecável, quase celestial. Dizem que governa esta empresa com mãos firmes e sábias, como um anjo enviado para guiar os outros.
As palavras tocaram fundo. O ego de Mingo inflou-se. Orgulhoso da própria imagem, abriu um sorriso confiante e, na ânsia de impressionar, falou demais, concedeu demais, confiou demais. Sem perceber, entregou documentos, poderes e decisões a quem apenas fingia admiração.
A partir desse momento, Mingota passou de ouvinte a condutora. Cada elogio era um passo à frente; cada gesto de submissão, uma nova concessão arrancada. Até que, certa vez, perguntou com falsa reverência:
— Diga-me, excelência… como devo chamá-lo?
— Mingo — respondeu ele, vaidoso, como quem grava o próprio nome na história.
Então, sem rodeios, Mingota revelou a verdade:
— Pois saiba, senhor Mingo, que todo bajulador vive de quem lhe dá ouvidos. Nunca admirei sua virtude, apenas sua posição. A transferência que autorizou era tudo o que eu precisava. Agora, com parte da empresa em meu nome, sua utilidade chegou ao fim.
O silêncio caiu pesado. Mingo sentiu o chão fugir-lhe dos pés. Percebeu, tarde demais, que havia sido traído não por um inimigo declarado, mas por um elogio conveniente. Envergonhado, jurou a si mesmo que jamais voltaria a confundir bajulação com lealdade, embora já tivesse pago o preço.
Seth Marcelo
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