Dorme, meu filho, dorme
Bruno Marquês Areno: ‘Dorme, meu filho, dorme’


Dorme, meu filho, dorme, dizia ela, e as palavras tremiam como os braços com que o segurava, braços que já não sabiam se abraçavam a vida ou se enterravam nela. O ventre vazio, seco de leite e de esperança, parecia um poço onde o eco da fome fazia morada. Estendeu no chão o único pano que possuía, relíquia de tempos em que se sonhava lavar roupas em rios e não em lágrimas, e sobre ele deitou o filho, o pequeno resto do seu corpo, o pedaço mais vivo do seu cansaço.
O mundo estava mudo, calado não por respeito, mas por medo. O ar cheirava a pólvora, doce veneno que ensinava até os pássaros a calarem o canto, e os morcegos, esses senhores da noite, desistiram do voo, talvez por vergonha de tanta escuridão.
E quando o silêncio parecia enfim ter vencido, uma voz de criança, frágil e teimosa, rompeu a noite:
— Mãe!
Ela, cansada como quem ouve o próprio nome pela última vez, respondeu:
— Que foi, meu filho, ainda não dormes?
— Por que é que os atletas recebem tanto dinheiro?
A pergunta veio leve, mas caiu pesada, como caem as pedras que alguém atira para medir a profundidade de um poço.
— Porque correm, — disse a mulher, seca, quase muda.
— Como nós corremos, não é, mãe, de Cabo Delgado até aqui?
— Sim. Agora dorme.
Mas o menino não sabia o que era silêncio, e o silêncio não sabia o que era piedade.
— Quando a guerra acabar, mãe, também vamos receber dinheiro por tanto correr?
Ela calou-se, não por não saber responder, mas porque já não acreditava nas respostas. E o menino, sentindo o vazio crescer ao redor, continuou:
— Comprarei pães, mãe, pães que cubram o mundo inteiro, para que ninguém mais durma com a barriga vazia como nós.
A mulher quis sorrir, mas o sorriso morria antes de nascer, afogado em lágrimas que desciam não dos olhos, mas da alma. Chorava como quem se dissolvia aos poucos, e só conseguiu repetir, com voz de pedra e cansaço:
— Dorme, meu filho.
— E os lutadores, mãe, — disse ele de novo, insistente como a própria vida — ganham dinheiro por escaparem das porradas e do sangue? Eu também escapei, não escapei? Escapei das balas no teu colo.
Ela quis calar o menino, mas o menino já não cabia no silêncio.
— E vi sangue, mãe, vi o sangue todo.
A mulher gelou. Gritou-lhe:
— Cala-te! Não viste nada!
E nesse instante percebeu que a pior cegueira é a que chega tarde demais. Achou-se incompetente, palavra dura, mas justa, por não ter sabido esconder da criança o inferno que se chama mundo.
Mas o menino, doce e teimoso, respondeu com a voz de quem narra o impossível:
— Vi, sim, mãe. Vi a cabeça do papá sair do lugar, o corpo dele ficou coberto de sangue, vi tudo pelas frestas dos teus dedos.
E então o silêncio tornou-se pesado como uma lápide. O ar que saía dos dois era quente e doía, como se respirassem o próprio sofrimento. Ela quis gritar, mas o grito ficou preso na garganta, talvez porque o mundo já estivesse surdo de tanto ouvir gritos.
— Eu sei, mãe, que me mandaste fechar os olhos, mas a curiosidade é bicho que não obedece.
A mulher puxou o pano, sacudiu-o três vezes, como quem sacode o destino, cobriu o corpo pequeno e encolheu-se ao lado dele, encostando a cabeça numa árvore sem folhas, árvore que parecia também pedir perdão por estar viva.
— Mãe, — insistiu o menino, — quando Deus chama alguém, ele arranca a cabeça?
Ela não respondeu, só gritou, e o grito era feito de raiva, de desespero, de amor:
— Cala essa boca, merda!
E chorou, chorou até as lágrimas perderem cor, até se tornarem invisíveis, e pensou, entre soluços e fé já gasta, que talvez Deus não chamasse ninguém, que fosse o homem, sempre o homem, a chamar a morte e a baptizá-la de guerra.
O menino dormia agora, ou fingia, porque os olhos, mesmo fechados, pareciam ver o que não devia, como se a infância tivesse sido arrancada dele a dentadas. O vento frio passava por entre os dois, com a ousadia de quem não respeita o luto, e sussurrava coisas antigas, palavras que ela já não lembrava o sentido.
Ela pensou no marido, ou no que restava dele, e imaginou o corpo despido de nome, perdido entre tantos outros corpos que ninguém contará, porque a contagem da guerra é sempre feita em silêncio, e o silêncio não tem números, tem apenas ausências.