O cara encostado dormindo no semáforo

Clayton Alexandre Zocarato

Conto ‘O cara encostado dormindo no semáforo’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem gerada por IA do ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69ae393a-a428-832d-80a5-98b8f6b8081c
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No cruzamento barulhento da cidade, entre buzinas e pressa, havia um homem encostado no poste do semáforo, dormindo como quem tinha desistido de disputar lugar no mundo. 

Os carros aceleravam quando a luz ficava verde, mas ninguém parecia notar aquele corpo cansado ali, dobrado sobre si mesmo. Talvez tivesse sido pedreiro, pai, filho, alguém com histórias que a cidade esqueceu de ouvir.

 O sinal mudava de cor como se a vida tivesse regras claras: parar, seguir, esperar. Para ele, porém, todos os sinais já pareciam vermelhos há muito tempo. E enquanto a cidade corria atrás de seus compromissos, o homem dormia — não por descanso, mas por falta de onde acordar.

A cidade acordava todos os dias com pressa. Buzinas, motores, passos acelerados, vendedores abrindo as portas metálicas das lojas, ônibus lotados cuspindo gente em cada esquina.

 No meio desse turbilhão havia um cruzamento comum, daqueles onde quatro avenidas se encontram e a paciência das pessoas termina.

Ali funcionava um semáforo antigo, daqueles que demoravam demais para mudar de cor. Os motoristas odiavam aquele sinal.

Mas quase ninguém percebia outra coisa naquele lugar.

Encostado no poste do semáforo, havia um homem dormindo.

Ele se sentava sempre no mesmo ponto, com as costas apoiadas no metal frio do poste, as pernas estendidas e a cabeça inclinada para frente. 

Parecia ter aprendido a dormir no meio do barulho — habilidade estranha, mas necessária para quem não possui paredes.

Alguns passavam olhando de relance.

Outros fingiam não ver.

Na cidade, ignorar alguém é uma forma discreta de continuar vivendo sem culpa.

Ninguém ali sabia o nome dele.

Para os motoristas era apenas ‘o cara do semáforo’.

Ele usava uma camisa desbotada, calça gasta e um boné que já havia perdido a cor original. A barba crescia irregular, como mato abandonado.

Às vezes ele acordava quando o sinal ficava vermelho e caminhava entre os carros oferecendo balas ou limpando para-brisas. Mas naquela manhã ele estava dormindo profundamente.

O curioso é que sua expressão não era de sofrimento.

Era uma expressão estranhamente tranquila.

Como se o sono fosse um pequeno refúgio contra o peso da realidade.

Poucos imaginavam que, anos antes, aquele homem tinha uma casa pequena, um emprego numa oficina mecânica e uma filha que gostava de desenhar pássaros.

Mas as cidades têm uma capacidade cruel de apagar histórias.

Uma moça dentro de um carro vermelho olhou para ele por alguns segundos.

Ela estava atrasada para o trabalho e tamborilava os dedos no volante com impaciência.

— Esse sinal demora demais — murmurou.

Olhou novamente para o homem dormindo.

Por um instante breve, pensou em como alguém poderia dormir ali, no meio de tanto barulho.

Mas o sinal ficou verde.

Ela acelerou.

A cidade funciona assim: pequenas curiosidades humanas são rapidamente esmagadas pela urgência do relógio.

O homem continuou dormindo.

O trânsito continuou passando.

A vida dele não havia desmoronado de uma vez.

Quase nunca desmorona.

Primeiro veio a demissão da oficina. O dono fechou as portas depois de uma crise econômica. Depois vieram meses de bicos, trabalhos temporários, pequenas dívidas.

A esposa foi embora.

Não por maldade, mas por cansaço.

Ela levou a filha.

Ele ficou com as paredes vazias da casa.

Depois vieram o aluguel atrasado, a mudança forçada, o quarto alugado, a perda de outros empregos.

Até que um dia percebeu algo estranho: não havia mais lugar para voltar.

A rua não se torna casa de repente.

Ela vai se aproximando devagar.

Naquele cruzamento passavam milhares de pessoas todos os dias.

Executivos apressados, estudantes com mochilas, vendedores, motoboys, turistas.

Todos carregando suas próprias preocupações.

Para eles, o homem no poste era apenas parte da paisagem.

Como uma placa enferrujada.

Ou uma rachadura no asfalto.

A cidade possui essa estranha habilidade de tornar certas pessoas invisíveis.

Não porque elas desapareceram.

Mas porque ninguém quer realmente olhar.

Enquanto dormia encostado no semáforo, o homem sonhava.

No sonho ele estava sentado no quintal de sua antiga casa. A filha corria pelo gramado segurando um desenho.

— Olha, pai! — dizia ela.

Era um pássaro enorme, colorido, voando acima de uma cidade.

Ele ria.

No sonho o céu estava limpo e o mundo parecia simples.

Então uma buzina alta explodiu no cruzamento.

Ele abriu os olhos lentamente.

Por alguns segundos, não sabia onde estava.

O semáforo estava vermelho.

Carros formavam uma fila longa diante dele.

O homem se levantou devagar, ainda meio sonolento, e caminhou entre os veículos.

Alguns motoristas desviaram o olhar.

Outros fingiram mexer no celular.

Uma criança no banco de trás de um carro perguntou à mãe:

— Por que aquele homem mora na rua?

A mãe demorou alguns segundos para responder.

— Às vezes… a vida fica difícil para algumas pessoas.

O sinal ficou verde.

Os carros partiram novamente.

O homem voltou a encostar no poste.

Sentou-se no mesmo lugar de antes.

O semáforo continuava mudando de cor, obediente à lógica da cidade: vermelho, amarelo, verde.

Parar.

Esperar.

Seguir.

Mas para ele o tempo parecia diferente.

Ele apoiou a cabeça no metal e fechou os olhos outra vez.

Talvez estivesse cansado.

Talvez estivesse apenas tentando sonhar novamente com aquele pássaro desenhado pela filha.

E enquanto a cidade corria para todos os lados, o homem encostado no semáforo dormia.

Não porque quisesse fugir da vida.

Mas porque, naquele momento, o sono era o único lugar onde ela ainda fazia sentido.

O vento da tarde cortava como lâmina de navalha. O homem puxou a camisa velha mais para cima, tentando proteger o peito do frio, mas ela não fazia diferença.

 Cada rajada de vento parecia atravessar a alma, lembrando-lhe que a cidade jamais se preocupava com quem não tinha endereço.

Alguns passantes o olhavam de relance, curiosos, mas rapidamente desviavam o olhar. Ele conhecia bem esse ritual silencioso: ninguém quer ser lembrado de que a miséria existe, e ele era apenas um espelho desconfortável de uma verdade que todos fingiam não ver.

A fome apertava. O estômago reclamava, mas ele ainda guardava um pouco de dignidade — aquele pouco que resistia aos dias sem comida, à falta de chão, ao desprezo alheio. 

Dignidade, talvez, fosse a única coisa que a cidade ainda não conseguira roubar.

O homem voltou acordar. Olhou para os dois, tentando sorrir, mas seu rosto marcado pela rua não conseguia disfarçar a dor.

 Por um instante, ele desejou que a menina pudesse entender o que significava perder tudo e ainda ter que existir entre sinais vermelhos e verdes.

Então, como quem toma coragem pela última vez, ele se levantou. Não para pedir esmola. Não para limpar para-brisas. Mas para atravessar o cruzamento e desaparecer nas vielas atrás da avenida.

Enquanto caminhava, lembrava-se de cada porta fechada, cada olhar desviado, cada noite em que precisou dormir ao relento. 

E sentiu, finalmente, uma raiva silenciosa crescer dentro dele — não contra a cidade, nem contra os outros, mas contra si mesmo por aceitar, por tanto tempo, o papel que a vida lhe deu sem lutar por mais.

Algumas horas depois, o semáforo ainda estava lá, firme, indiferente ao mundo. O cruzamento continuava com seu movimento mecânico: parar, esperar, seguir. Mas algo mudara.

Para os motoristas, nada.

Para a cidade, nada. Mas para ele, tudo. Ele sentia que a rua, aquela que antes parecia sufocá-lo, agora era apenas um campo de batalha — o campo onde ele finalmente podia lutar contra suas próprias limitações, contra sua própria vaidade de se fazer invisível.

A noite caiu, e a cidade se iluminou com lâmpadas artificiais. Ele parou em um canto, observando as luzes refletirem nas poças de chuva. Sentiu medo, frio, fome… mas também uma centelha de vida que não havia sentido há anos.

O semáforo, vermelho, continuava lá, mas ele não precisava mais esperar. Ele não era mais apenas o homem encostado dormindo. Ele era alguém que havia decidido  voltar existir apesar de tudo, mesmo sem endereço, sem conforto, sem aplausos.

Na manhã seguinte, alguns passantes notaram um bilhete preso ao poste do semáforo. Escrito com tinta borrada, dizia apenas:

“Acordei. Finalmente. Agora sou meu próprio semáforo: vermelho, amarelo, verde… e sigo quando quiser.”

Ninguém parou para ler. Mas talvez não importasse. Ele havia desaparecido das ruas, sim, mas não da sua própria vida. Pela primeira vez, o homem se recusava a ser apenas parte da paisagem.

E enquanto a cidade continuava sua rotina mecânica, com buzinas e pressa, ele caminhava para longe, com passos lentos, determinados e furiosos, decidido a lutar contra tudo o que o reduziu à invisibilidade.

O semáforo continuava ali, parado, mas ele sabia que ninguém, nem a cidade inteira, poderia mais controlar o ritmo do seu tempo.

Clayton Alexandre Zocarato

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