Milton Gaspar: Poema ‘Aquela triste madrugada’


Naquela triste madrugada,
Quando tocou silenciosamente o telefone
Despertei-me e senti um palpitar pesado
Um palpitar que ascendia do tutano da minha alma
Quando fiz com que o telefone do outro lado soltasse o grito de desespero,
Vi a voz que anunciava trespassar,
trespassar a cortina de mais de quatrocentos e cinquenta quilómetros de espessura que nos unia.
Anunciava ela naquela triste madrugada.
Um anúncio que gelou o epicentro das minhas emoções,
Um anúncio que as comprimiu em mil canções,
Um anúncio que me fez impotente até ao fim.
Anunciava uma eterna escuridão que agora existe entre ti e mim.
Naquela triste madrugada, eu senti,
Senti o universo denunciar a insignificância do homem sem o tutor,
senti o amargo e o salgado da mais profunda dor
A cama parecia grande e pequena
Todas as vozes do universo pendiam nas pontas das minhas orelhas.
Naquela triste madrugada, o ar sabia a tudo e a nada.
Reclamaram-se os ganhos não partilhados
Os bens, os risos, os choros, todos privados
As conversas, as tristezas, os sentimentos, todos negados
Os olhares, as lembranças, os afetos, todos guardados
Naquela triste madrugada tudo mudou
Uma posição de autotutor você me deixou
Sempre a lembro com choros
Acordado ou no sono
Aquela triste madrugada ao mundo impotente me revelou
Abençoada seja a sua maldição 23 de novembro de 2022,
Foi naquela triste madrugada
em que tudo se calou para que se nascesse voz entre nós dois!
Milton Gaspar Domingos
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