Carolina Maria de Jesus
Evani Rocha: Poema ‘Carolina Maria de Jesus’


às 08h20
Hoje eu a conheci, Carolina!
Vi você de perto, peito aberto, pés descalços…
Vi você nas dezenas de páginas de um diário…de muitos diários!
Carolina, você que descreve
A fome e a miséria,
Como se brotasse dos poros…
Mostra a vida pelo avesso,
Tinge o sofrimento com seu próprio sangue.
Carolina Maria de Jesus…
Carolina ‘Fortaleza’ Maria ‘Mulher Luz’ de Jesus!
Quão pesada foi a sua cruz, Carolina!
Mas a carregou com amor e coragem…
Nem por um momento, seus filhos abandonou,
Não que aceitasse, ou compreendesse a miséria…
Não por resignação,
Mas por ânsia de mudar seu mundo!
Porque sonhou e projetou um novo futuro,
Um castelo, que para você nada mais era que uma casa de tijolo!
Ah, Carolina, menina, sensível e humana…
Você é gente que ensina muita gente!
Mulher que estampou na face o sofrimento,
Que sentiu no corpo, as dores da fome e da humilhação…
Poetisa das noites solitárias, da chuva e da lama,
Poetisa das latrinas da vida, dos recônditos da alma!
Carolina, de sabedoria nata,
De coração gigante!
Nos diz que o mundo é pequeno demais,
Para quem ousa voar!
Mesmo sem asas, talvez plainando sobre seus papelões,
Catados no lixo,
Ou sobre as palavras que brotavam de suas mãos bailarinas,
Você voou alto e viu o mundo de cima!
Talvez, Carolina, do alto, ele tenha lhe parecido mais bonito…
Mais democrático, mais generoso!
Mulher guerreira, que acreditou em si,
Que soube mostrar sua razão,
Que reivindicou o seu e de outros,
O direito à dignidade…
Carolina! Forte, dócil, coração…
Você ainda vive, em cada mulher que sofre discriminação,
Que trabalha fora e dentro de casa,
Que sustenta os filhos com dor e suor!
Você está na essência das mulheres faveladas,
Das mulheres agredidas,
Das mulheres que batalham o dia a dia…
Mesmo com chagas, cansaço e fome.
Sim! Ainda há fome, Carolina!
Quase um século,
Mas a miséria e a pobreza
Reinam absolutas, nas milhares de favelas,
Que esse país joga todos os dias, nos quartos de despejos!