Pequenas permanências
Ella Dominici: Poema ‘Pequenas permanências’


A vida não começa em grandes inaugurações,
instala-se mansa nas frestas do instante.
As coisas mínimas guardam força secreta,
uma folha cai — mas cumpre seu trajeto.
Aprende primeiro o ar antes de tocar o chão,
que a acolhe antigo, sem qualquer alarde.
As formigas não pensam no amanhã distante,
carregam o agora com rigor delicado.
O peso que levam não as torna menores,
apenas ordena seu íntimo caminho.
O rio sabe bem do fim que o aguarda,
e ainda assim desenha curvas no tempo.
As flores não negam sua breve passagem,
abrem-se inteiras na exata duração.
Nós queremos fixar o que nasce em ciclo,
e esquecemos: crescer é também dissolver.
A finitude muda apenas a paisagem,
do visível tênue ao invisível pleno.
E viver, no fundo, é circular com o tempo,
como folhas, rios — retornando em silêncio.