Entre a água e o amor

Clayton alexandre Zocarato: ‘Entre a água e o amor’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69d8953d-3604-83e9-bdb8-63fbf58df8ee

Há algo na água que nunca se explica por completo, mesmo quando a vemos escorrer entre os dedos como se fosse apenas matéria obediente à gravidade.

            A água parece simples, mas guarda em si um silêncio antigo, uma memória de tudo o que já tocou. Assim também é o amor: pensamos compreendê-lo quando ele nos atravessa, quando ocupa o corpo com sua presença leve e inevitável, mas basta um instante para que ele mude de forma, escorra, evapore, desapareça sem aviso, deixando apenas um vestígio úmido na pele da lembrança.

            E é nesse desaparecer que ele mais se revela.

            O amor nasce como a água brota: inesperado, subterrâneo, vindo de um lugar que não sabíamos existir. Primeiro é um fio tímido, quase imperceptível, um rumor que se anuncia antes de se mostrar.

            Depois cresce, se alarga, toma espaço, contorna pedras, insiste. A água nunca pede licença; o amor também não. Ambos chegam como quem sempre esteve ali, como se fossem uma continuação natural daquilo que somos.

             E, de repente, já não sabemos mais viver sem o seu fluxo constante, sem o seu som repetido, quase musical, preenchendo os vazios que antes eram apenas silêncio.

            Mas o que mais assombra não é o nascimento, é a transformação. A água, quando aquecida, se torna invisível. Sobe, desaparece, se desfaz no ar como um suspiro que ninguém consegue segurar.

             O amor também conhece esse movimento. Ele se eleva sem aviso, deixa de ser presença para virar ausência, e quando percebemos, já não há corpo, já não há toque — apenas um vapor difuso, um eco que insiste em permanecer, embora não se possa mais tocar.

            Como compreender algo que existiu com tanta intensidade e que, ainda assim, se dissolve como se nunca tivesse sido?

            Há uma melancolia própria nesse ciclo, como uma canção tocada em tom menor, repetindo acordes que parecem familiares, mas nunca idênticos.

            A água que escorre hoje não é a mesma de ontem, e o amor que sentimos agora não é o mesmo que nos habitou antes. Ainda assim, carregam algo em comum: uma essência que se recusa a ser fixa.

            São feitos de passagem. São feitos de tempo.

            E o tempo, esse grande regente silencioso, conduz tanto a água quanto o amor em ritmos que não controlamos.

            Há dias em que o amor é chuva intensa, quase tempestade, invadindo tudo, transbordando, ocupando cada espaço disponível. Nesses dias, não há como fugir: somos inundados, tomados por uma sensação que mistura beleza e excesso, como se viver fosse demais.

            Mas há também os períodos de seca, quando o amor se retrai, se esconde, e tudo o que resta é um solo rachado, esperando por algo que talvez não volte.

            A água, nesses momentos, parece uma lembrança distante — e o amor, uma hipótese.

            E ainda assim, mesmo quando desaparecem, ambos deixam marcas. A água molda a pedra com sua insistência suave; o amor molda o coração com sua passagem silenciosa.

            Nenhum dos dois precisa de força para transformar — basta tempo. Basta permanecer, mesmo que em outra forma, mesmo que invisível.

            Porque a água que evapora retorna como chuva, e o amor que se desfaz talvez encontre outro caminho para existir, ainda que não seja mais reconhecível.

            Há uma música escondida nesse processo, algo que não se ouve com os ouvidos, mas com aquilo que resta quando o som termina.

            É um ritmo feito de idas e vindas, de presenças e ausências, de começos que já carregam em si o germe do fim. A água canta quando corre, quando cai, quando evapora — e o amor, de alguma forma, acompanha essa melodia, como se ambos fossem parte da mesma composição, executada em diferentes instrumentos.

            Talvez seja por isso que nos sentimos tão perdidos quando o amor se vai. Não é apenas a perda de algo que estava ali, mas a ruptura de um fluxo, a interrupção de uma música que parecia contínua.

            Ficamos como quem observa um leito seco, tentando lembrar o som da água que já passou por ali.

            E quanto mais tentamos segurar, mais escapa. Porque nem a água nem o amor pertencem a quem tenta possuí-los.

            Eles existem na liberdade de se mover, de mudar, de desaparecer.

            E há beleza nisso, embora doa.

             Há beleza na impermanência, na ideia de que algo pode ser intenso sem ser eterno. A água não precisa permanecer para justificar sua existência; o amor também não. Ambos cumprem seu papel no instante em que são, no toque que deixam, na transformação que provocam.

             O resto é memória — e a memória, assim como o vapor, é uma forma sutil de permanência.

            No fim, talvez amar seja aceitar essa natureza líquida, essa incapacidade de fixar o que por essência é movimento.

             Talvez seja compreender que o desaparecimento não anula o que foi vivido, assim como a água que evapora não deixa de ter existido.

            Ela apenas muda de estado, encontra outro lugar, outro tempo, outro modo de ser.

            E nós ficamos aqui, entre o que escorre e o que evapora, tentando dar nome ao indizível, tentando transformar em palavras aquilo que, como a água e o amor, insiste em escapar.

Clayton Alexandre Zocarato

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