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Corpo sem eixo

Clayton Alexandre zocarato: ‘Corpo sem eixo’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato

Imagem gerada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69eb61aa-85c0-83e9-af12-2ed9d5ed01b8
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A palavra começa antes de si mesma, tropeçando num pré-sentido que não chega a nascer — um quase-verbo, um verboide, um pulsar de linguagem que ainda não decidiu ser carne ou conceito. Digo ‘existir’, mas o som já se desfaz em eco, ecoante, ecoísmo, como se a própria noção de presença fosse um erro de gramática ontológica.

Há um eu, supostamente, mas esse eu é uma hipótese mal formulada: se penso, então, talvez; se sinto, contudo; se sou, por quê? Eis o silogismo falho que me sustenta: todo corpo é vazio, eu sou corpo, logo eu me esvazio — e, no entanto, algo insiste, uma anti-lógica, uma permanência absurda que se recusa a concluir.

As coisas ao redor não são coisas, são quase-coisas, espectros de utilidade, utilitários do nada. A cadeira não serve para sentar, serve para questionar o peso do sentar; a mesa não apoia, desapoia a certeza de que há superfície. Tudo é um exercício de desfunção, uma coreografia do inútil que dança sobre o abismo do significado.

Penso em termos que não existem ainda: des-ser, intra-vácuo, mentefratura. Palavras que não nomeiam, apenas insinuam um colapso, porque nomear seria fixar, e nada aqui quer ser fixo — tudo escorre, tudo é viscosidade metafísica, um lodo de ideias que se recusam a endurecer em conceito.

Se o mundo é, então ele não deveria ser assim. Eis outro silogismo torto: o real deveria ser coerente; o real é incoerente; portanto, o real não é — ou é um erro de cálculo em alguma equação cósmica que ninguém terminou de escrever. E nós, variáveis perdidas, tentamos resolver um sistema que já nasceu insolúvel.

Há uma tentativa de sentido que pulsa como um nervo exposto, mas sentido de quê? Finalidade para quem? O intelecto se dobra sobre si mesmo, cria labirintos de razão que levam sempre ao mesmo centro vazio. Raciocínio após raciocínio, constrói-se uma arquitetura impecável de nada — uma catedral do inexistente, onde cada argumento é um vitral que filtra a luz inexistente de um sol hipotético.

O corpo, esse objeto insistente, participa do absurdo. Ele sente fome de significado, sede de propósito, mas só encontra matéria. Carne, osso, impulso elétrico — uma mecânica sem manual, um dispositivo que opera sem saber por quê. E o pensamento, que deveria iluminar, apenas amplifica a escuridão, criando sombras mais complexas.

Invento, então, uma lógica alternativa: tudo aquilo que não faz sentido é, por definição, mais verdadeiro, pois o sentido é uma imposição, uma tentativa de domesticar o caos. O absurdo, ao contrário, é livre — livre de coerência, de finalidade, de necessidade. Ele apenas é, ou melhor, ele acontece sem ser.

Surge outro neologismo: absurdância. Estado contínuo de ser sem razão suficiente. Condição fundamental de tudo que insiste em existir apesar da ausência de justificativa. E, se tudo é absurdante, então nada precisa ser explicado — o que, paradoxalmente, nos condena a explicar tudo.

Penso, logo me complico. Sinto, logo me perco. Existo, logo me contradigo. Eis a tríade que substitui qualquer certeza cartesiana. Não há ponto fixo, apenas um deslizamento constante entre possibilidades que não se realizam plenamente.

A linguagem acompanha esse colapso. Frases começam e não terminam, ideias se interrompem no meio de si mesmas, como se o próprio ato de dizer fosse sabotado por uma força interna. Talvez, porque dizer seja já trair o indizível, reduzir o infinito a uma sequência de sons. E, no entanto, continuo. Continuo a falar, a pensar, a tentar organizar o caos em estruturas reconhecíveis. Talvez seja isso que nos define: a incapacidade de aceitar o vazio sem tentar preenchê-lo, mesmo sabendo que qualquer preenchimento é ilusório.

O mundo não responde. Ele não nega nem afirma, apenas permanece — ou pseudo-permanece — como um cenário que não precisa de espectadores, mas que ainda assim nos inclui. Somos figurantes de uma peça sem roteiro, atores sem personagem, vozes sem discurso. E, então, volto ao início, que nunca foi um início. A palavra que tropeça em si mesma, o sentido que se desfaz antes de se formar. Talvez tudo isso seja apenas um exercício de linguagem, um jogo de conceitos que tenta capturar o incapturável.

Ou, talvez, seja exatamente o contrário: talvez seja o incapturável que joga conosco, que nos usa como meio para se manifestar brevemente antes de desaparecer de novo no silêncio.

E, nesse silêncio — que não é ausência de som, mas excesso de indeterminação — algo persiste. Não como certeza, nem como dúvida, mas como uma espécie de tensão contínua entre ser e não ser.

Uma tensão que não se resolve. E, talvez, nunca precise.

Clayton Alexandre Zocarato

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