Corpo lume em terra
Ella Dominici: Poema ‘Corpo Lume em Terra’


Nasci da argila e da espera.
Sou parte do barro que sonhou ser rosto e permaneceu espelho.
Carrego comigo as veias abertas do que sente demais,
e o pulso secreto das coisas que não sabem morrer.
Há em mim a casa e o exílio.
A casa é onde o olhar repousa,
o exílio é quando o olhar não se reconhece.
E sigo, em cada rua, plantando pequenas eternidades:
palavras, gestos, silêncios,
pedras transparentes que a vida deixa como migalhas do invisível.
O amor, esse desassossego manso,
anda comigo, calçado de areia e espanto.
Não pede posse — pede presença.
Ele chega como um sol que se desculpa por nascer tarde,
mas ainda aquece o corpo todo
Direi:
sou o que restou da travessia — e o que começa depois do naufrágio.
Sou mulher de sal e aurora,
carrego oceanos no peito e um punhado de luz no escuro.
Sigo, mesmo cega, coração conhece atalhos que a razão ignora.
E quando a noite cai, volto a ser
palavra de cura,de memória, de fogo.
Que sopra nas feridas e acende o invisível.
E ainda que o mundo me esqueça,
sei que a vida — essa antiga amante — sempre volta,
com o perfume do impossível.