Por que me encanta essa língua, a portuguesa
Elaine dos Santos
‘Por que me encanta essa língua, a portuguesa’


No último dia 5 de maio, comemoramos o Dia Mundial da Língua Portuguesa (ou Dia da Lusofonia).
O Dia da Língua Portuguesa e da Cultura foi uma data criada pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em 2009, em reunião do seu Conselho de Ministros, sendo que, em 2019, a UNESCO referendou-a como Dia Mundial da Língua Portuguesa.
Para uma professora graduada em Letras – é bem verdade que desde o século passado, tematizar a língua portuguesa é abordar a própria vida, porque, a maioria de nós, nascidos no Brasil, aprendemos a falar, expressar sentimentos, emoções em língua portuguesa – claro, que uma língua portuguesa que sofreu influências do indígena, do negro, dos europeus.
Gosto tanto dela, dessa sonoridade, desses sons abertos, que são feitos por vogais tônicas e de algumas palavras como mãe, como saudade (dizem que não existe palavra igual em qualquer lugar do mundo que expresse saudade com a mesma carga semântica como saudade o faz em português).
Como professora de Literatura – lecionei Literatura produzida no Rio Grande do Sul, com suas características particulares; Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e Literatura de expressão africana, sou apaixonada por essa ideia que diferentes países, em distintos continentes manifestam a sua percepção do mundo em língua portuguesa.
Agrada-me saber que, por exemplo, em Moçambique e no Timor Leste, dois países tão distantes do Brasil, há uma língua portuguesa, muito irmã, cujos falantes olham para o céu, para as estrelas, para as árvores, para os pássaros e, provavelmente, nomeiam-nos de forma compreensível. Dizer amor lá e cá é dizer amor.
Quando refiro Moçambique, faço alusão a um país na costa oriental da África , banhado pelo Oceano Índico, com uma população marcadamente de origem banto. Há cerca de 3% de brancos em Moçambique e foi essa generosa terra que ofertou o poeta Mia Couto e toda a sua sensibilidade. Dele, repito, com certa frequência: “E a loucura nem sempre é uma doença. Por muitas vezes, é um ato de coragem.” Uma expressão que faz tanto sentido, tanto sentido!
Quando refiro o Timor Leste, um tanto mais adiante, localizado em uma porção da ilha do Timor, no sudeste asiático, que foi possessão portuguesa, possessão indonésia e, posteriormente, um país livre, desde 20 de maio de 2002, ufana-me certo bairrismo, orgulho de ser brasileira.
Durante a ocupação da Indonésia, mais especificamente, em 1991, houve um massacre que ultrapassou o número de 200 mortes, tendo sido realizado por tropas militares indonésias. Naquela época, começava um ponto de virada, sob influência internacional, em que se postulava a independência do país. Em 1999, o governo da Indonésia permitiu a presença de uma força multinacional de paz para reorganizar o país e, em 2000, o comando militar tornou-se responsabilidade da ONU (Organização das Nações Unidas).
Aqui, entra em cena o meu orgulho de ser brasileira, desse Brasil que legou ao mundo um diplomata como Sergio Vieira de Mello – ainda que grande parte da sua formação não tenha sido em nosso país, ele era um falante de língua portuguesa.
Sérgio Vieira de Mello foi fundamental para a independência do Timor Leste – não sei os métodos adotados, mas suponho que todos tenham sido pautados pela diplomacia e pela ordem legal que a ONU determina.
O diplomata brasileiro esteve no Timor Leste entre 1999 e 2002, ou seja, desde que a Indonésia liberou a entrada de uma força multinacional de paz até a independência do país. Ele esteve à frente da reconstrução do Timor-Leste, um país destruído e desestruturado pela violenta ocupação da Indonésia, e liderou a criação das bases que conformariam o país, que se tornaria independente em 2002.
Vieira de Mello lidou com a questão da soberania, com o retorno de milhares de refugiados, foi necessário fundar instituições essenciais para o funcionamento de um país, expedir normas legais, nomear funcionários para cargos chefes, tudo em busca da estabilidade social e política do Timor Leste. É bem verdade que não descuidou das questões econômicas, assistenciais etc.
Assim posto, o propósito deste texto é, de fato, reverenciar a língua de Camões , Machado de Assis e tantos outros autores que se expressaram e expressam nela, mas também nos lembrar que somos uma comunidade, a comunidade dos falantes da língua portuguesa, vivendo em latitudes e longitudes diferenciadas, certamente, com costumes, com crenças diversas, mas conservamos uma tradição que nos aproxima em qualquer parte do mundo, uma identidade que nos ‘aconchega’ entre os povos. Isso muito me agrada, repito!