Sentimentos oceânicos tais Baudelaire
Ella Dominici
Poema ‘Sentimentos oceânicos tais Baudelaire


O sublime mora em minha mente,
confidente desse instante presente.
No tédio exalo o que se cala
obra viva, luta e fala
contra o caos persistente.
Mergulho no abismo, sem alarde,
irmão da música em tom grave.
Que beleza há no fim que invade,
e à dor, rainha tão suave,
minha alma inteira arde.
Nas letras, visões tão passageiras,
notas lúgubres, flores estrangeiras.
Como Flores do Mal, me tomam, nu,
com vaidade anarquista à flor do azul,
nesta conquista derradeira.
Vozes que não sei dizer,
mas que me fazem compreender.
Na partitura da lembrança,
ecoam cólera e esperança
dor vestida de prazer.
Despeço-me, em fim tardio,
do que fui — por desafio.
Aceito-me, enfim, na contradição
do que pulsa em meu coração:
silêncio e bravio estio.
No acorde final que me invade,
sou dois: saudade e claridade.
O outro de mim — tão real —
é pétala branda e madrigal
nas marés da eternidade.