Entropia íntima
Ella Dominici: ‘Entropia íntima’


Sozinha com os princípios, eu descubro: a palavra não é um abrigo. É um laboratório.
Entropia.
Digo baixo, como quem nomeia um animal que vive no escuro.
A entropia não consola. Não catequiza. Não faz promessas com voz de altar. Ela apenas registra a tendência: o universo gosta de se desfazer. E eu também.
Num sistema termicamente isolado, a entropia aumenta. E o tempo — esse operário invisível — vai desmontando a mobília do mundo. Até que a ordem se torne uma espécie de saudade.
Chamar isso de decadência é um vício moral.
A ciência não tem pecado: observa.
O que é decadência senão a tradução exata do que é vivo? Tudo o que respira se desorganiza para continuar respirando. Tudo o que ama se desarruma.
E então eu pergunto, com lucidez: qual o grau da desordem do teu nome no meu sistema?
Teu nome não é palavra. Teu nome é física íntima: vibração, colisão, deslocamento. Teu nome é uma partícula que insiste.
No meu quarto há objetos. E eu os olho como quem olha uma teoria. Quantas formas de dispor o mesmo copo? Quantas versões de uma cadeira? Quantas possibilidades de um livro que nunca fecha?
Quanto maior meu íntimo, mais combinações. E quanto mais combinações, mais improvável a paz. É simples. É cruel. É belo.
Os sentimentos não se organizam como biblioteca. Organizam-se como tempestade num copo. Um copo: pequeno. Uma tempestade: infinita.
Se eu te entregasse minhas moléculas, tu não preverias. Não por falta de inteligência, mas por excesso de vida.
Porque o sistema combinado produz o inumerável: átomos, encontros, desvios, acidentes, memórias — o acaso com sua assinatura de Deus.
Sim: Deus. Esse nome que alguns evitam, mas que eu reconheço no improvável.
No fim, a entropia não me entristece. Ela me purifica. Porque na desordem — na efemeridade — eu não tenho tempo de mentir.
Eu amo com urgência.
compreendo com humildade,
perdoo com grandeza. E cada gesto, por menor que seja, torna-se um milagre em miniatura.
Há dignidade escondida no caos. E talvez seja essa a forma mais alta de liberdade: não um direito proclamado, mas um instante íntimo em que eu me permito ser desordem — sem culpa.