Linda, loira e mimada
Guilherme Machado: Poema ‘Linda, loira e mimada’


Kyra chegou de mansinho,
olhar doce, passo leve no chão,
um furacão de carinho
invadindo o meu coração.
Linda, loira e dourada,
toda cheia de querer,
um pouco louca, meio mimada…
mas impossível não se render.
Ela chega toda prosa,
dona do próprio olhar,
sabe bem que é charmosa
e nasceu pra brilhar.
Tem doçura no focinho,
tem coragem no seu jeito,
faz de mim seu humano
— e eu aceito esse feito.
Deitada diante do pote,
come sem se preocupar.
Pra que gastar sua beleza
se deitada dá pra jantar?
Quando decide que é hora
de o humano lhe entreter,
começa uma conversinha
que só falta mesmo dizer:
“Brinca comigo, por favor.”
E insiste em sua oração.
Não sei nomear aqueles sons,
mas sei sua tradução.
Linda, loira e mimada,
dona da casa e do irmão,
quer sempre a ração alheia —
a dela? Essa, às vezes, não.
Por isso, na hora da comida,
preciso os dois separar.
E basta a Kyra ir embora
pro Salsicha começar:
um uivo comprido e sentido,
protestando a separação.
Ela fala quando quer brincar.
Ele, quando sente solidão.
Mas nem sempre foi assim.
Antes dela, alguém faltou.
Salsicha conheceu a tristeza,
mas foi Kyra quem o iluminou.
Kyra nunca conheceu Nika,
nem a história que encontrou.
Só chegou sendo Kyra —
e, sem saber, tudo mudou.
Não veio ocupar seu lugar,
nem apagar o que passou.
Trouxe uma história diferente
e, com carinho, o restaurou.
E foi assim, sem perceber,
sem precisar sequer tentar,
que a menina mais levada
ensinou alguém a brincar.
Linda, loira e adorada,
meu furacão de carinho,
fez morada em minha vida
e eu amo o seu jeitinho!
Se ser mimada é seu jeito,
confesso sem disfarçar:
foi o melhor dos defeitos
que a vida pôde me dar.