Da Palestina ao ROL, Mona Al-Assi!
As letras de Mona Al-Assi exaltam o amor à terra, a resistência, a identidade e a memória da Palestina, a Senhora das Terras, a Mãe dos Começos e dos Fins, o Paraíso Perdido!

Mona Al-Assi, nascida no Campo de Yarmouk, em Damasco, e radicada em Lausanne, na Suíça, é poeta, jornalista e profissional da área de mídia palestina. Sua atuação e extensa trajetória abrangem o jornalismo cultural, a produção radiofônica, a realização de documentários e projetos artísticos multidisciplinares.
Trajetória literária
Sua poesia foi traduzida para o francês, inglês, alemão, italiano, espanhol e outros idiomas, e apresentada em festivais literários internacionais, leituras de poesia, eventos culturais e projetos artísticos na Suíça, em diversos países europeus e em outros continentes.
Entre seus livros e trabalhos literários estão Training in Barking e How to Raise a Window, coletâneas de poesia, além de Maqām al-Nāb, livro em prosa atualmente em processo de elaboração.
Entre suas antologias e publicações selecionadas estão Analectes de poésie mondiale (Antologia da Poesia Mundial), em francês, que reúne 188 poetas de diferentes partes do mundo, e Exile Named Homeland, antologia búlgara que apresenta trabalhos de 39 poetas palestinas.
Em voos literários cada vez mais altos, recentemente Mona recebeu o Prêmio da Paz em Poesia no Festival Internacional de Poesia de Naoussa, na Grécia.
Mona Al-Assi inicia sua contribuição no ROL com o impactante texto A sombra do sobrevivente: uma canção para Ahmad Manasra, poema sobre a infância roubada, violência, trauma, morte simbólica e a tentativa de sobreviver através da memória e da poesia.
A sombra do sobrevivente:
uma canção para Ahmad Manasra

Estações de sombras
vagam pelos aposentos
selando os últimos desejos
e os ossos pálidos
que tecem o meu medo.
Então sacudo as cordas da saudade—
e minha voz se abriga em minha mãe,
arrebatada pelo vento.
A estrada devora os olhos,
e na estrada
me falta a estrada —
aos treze anos, ainda um menino,
ponho tomilho no chá:
letras verdes
para uma menina
que ergue as unhas
para arranhar meu coração
e contar minhas feridas,
fissura
por fissura—
embora ela não saiba contar.
Ó Senhor, eu era bonito,
a semente da minha barba começava a florescer.
Mas a língua do vento
corrompe cada um dos meus nãos:
Eu não sei.
Eu não ouço.
Eu não falo.
Eu não faço nada.
Nããããããããão —
Não me lembro de nada além da minha mão
vindo até mim por trás de uma soleira,
trazendo um copo de chá
que canta ao tomilho,
enquanto a terra,
além da minha atenção,
continua girando.
Ó Senhor, estou morto—
então por que o tremor dos ossos
ainda me dói?
Como um abraço imenso,
as sombras sugam minha alma.
A fala seca em minha boca,
e um impulso me leva a latir
mais alto,
mais alto—
até que eu me esqueça de quem sou
e o bastão
pare de ofegar.
Torci o ferro da minha mão
por trás das minhas costelas
para bater à porta do meu corpo.
E a sombra na parede
tritura minha semente.
Leva-me, ó Ataba,
leva-me até a Mãe do Dia,
para que meu corpo se torne transparente
e os mortos
possam me ver.