O caminho da liberdade interior

SAÚDE INTEGRAL

O colunista Joelson Mora convida a despertar do piloto automático, questionar crenças e descobrir a integridade além do ego

Joelson Mora
Joelson Mora
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Despertar não é deixar de sentir, pensar ou acreditar. É desenvolver discernimento para escolher como viver.

Quantas das nossas escolhas são realmente nossas?

Essa pergunta parece simples, mas pode nos conduzir a lugares profundos. Muitas vezes acreditamos estar escolhendo livremente quando, na verdade, estamos apenas repetindo padrões que aprendemos, pensamentos que incorporamos e comportamentos que foram construídos ao longo da nossa história.

“Eu sou assim.”

“Não consigo.”

“Isso não é para mim.”

“Na minha família sempre foi desse jeito.”

“Eu preciso provar meu valor.”

Frases aparentemente comuns podem esconder crenças que, silenciosamente, passam a determinar a maneira como enxergamos a nós mesmos, os outros e a própria vida.

É nesse território que começa uma das jornadas mais importantes do ser humano: o despertar da consciência.

Crenças fazem parte da nossa construção. Elas ajudam a organizar experiências, valores e percepções. O problema surge quando deixamos de perceber que uma crença é uma interpretação e passamos a tratá-la como uma verdade absoluta.

Uma criança que cresce ouvindo que é incapaz pode carregar essa ideia para a vida adulta. Alguém que sofreu uma rejeição pode começar a acreditar que precisa agradar a todos para ser amado. Uma pessoa que experimentou fracassos pode concluir que tentar novamente é perigoso.

Assim nascem muitas das chamadas crenças limitantes, mas existe uma pergunta poderosa:

“Isso é realmente quem eu sou ou é algo que aprendi a acreditar sobre mim?”

Essa pergunta não elimina automaticamente uma crença, mas cria algo precioso: consciência.

Porque aquilo que não percebemos nos conduz, aquilo que percebemos podemos questionar, e aquilo que podemos questionar pode, com discernimento, ser transformado.

Existe uma diferença enorme entre ter um pensamento e ser definido por ele.

Pensamentos aparecem. Alguns são conscientes; outros surgem quase automaticamente. Eles podem nascer de experiências, medos, expectativas, lembranças e interpretações.

O mesmo acontece com os sentimentos.

Sentir raiva não significa ser uma pessoa raivosa, sentir medo não significa ser covarde, sentir tristeza não significa ser uma pessoa triste, sentir insegurança não significa ser incapaz. O sentimento é real, mas ele não precisa se transformar automaticamente em comportamento. É justamente nesse espaço que surge o discernimento, entre o que acontece e aquilo que fazemos existe uma possibilidade de escolha. Talvez a maturidade não esteja em nunca sentir emoções difíceis, mas em aprender a não entregar a elas o controle absoluto das nossas decisões.

O ego pode ser compreendido como uma estrutura relacionada à identidade que construímos: aquilo que acreditamos ser, nossos papéis, nossas histórias, nossas conquistas, nossas feridas e também a necessidade de reconhecimento.

O problema não é necessariamente ter um ego. O problema começa quando acreditamos que somos exclusivamente aquilo que construímos.

“Meu cargo.”

“Meu dinheiro.”

“Meu corpo.”

“Minha reputação.”

“Minha opinião.”

“Minha história.”

Quando essas coisas são ameaçadas, podemos sentir que o próprio “eu” está sendo ameaçado. A consciência, por outro lado, nos convida a observar.

Eu consigo perceber meu pensamento sem necessariamente obedecê-lo?

Consigo reconhecer minha emoção sem transformá-la imediatamente em ação?

Consigo ouvir uma opinião diferente sem sentir que minha identidade está sendo destruída?

Esse espaço de observação é extremamente valioso. É nele que o discernimento começa a nascer.

Nem sempre o ego chega fazendo barulho.

Às vezes ele fala baixo.

Às vezes se apresenta como humildade.

Existe uma diferença entre ser humilde e precisar parecer humilde.

A falsa humildade pode aparecer quando alguém repete constantemente que não precisa de reconhecimento, enquanto, silenciosamente, espera que todos reconheçam o quanto é especial. Também pode aparecer quando o discurso diz uma coisa, mas a prática revela outra. Fala-se sobre empatia, mas não se escuta. Fala-se sobre simplicidade, mas existe necessidade permanente de destaque. Fala-se sobre servir, mas todas as situações precisam terminar com a própria pessoa no centro. Fala-se sobre não buscar aplausos, mas existe sofrimento quando o aplauso não vem. É o ego procurando uma forma sofisticada de permanecer no comando e existe uma pergunta desconfortável que pode ser muito saudável:

“Se ninguém soubesse o que estou fazendo, eu continuaria fazendo?”

Outra:

“Se outra pessoa receber o reconhecimento que eu esperava, consigo celebrar por ela sem sentir que perdi alguma coisa?”

O ego inflado pode transformar a vida em um palco permanente, onde precisamos ser protagonistas de todas as histórias.

Precisamos ser vistos.

Precisamos ser reconhecidos.

Precisamos ter razão.

Precisamos ser o “alecrim dourado” aquela pessoa que acredita, consciente ou inconscientemente, que precisa estar sempre no centro, ser indispensável, especial ou diferente de todos.

Mas consciência também é perceber que não precisamos diminuir ninguém para existir, nem ocupar todos os espaços para ter valor.

Humildade verdadeira não significa pensar menos de si.

Significa não precisar pensar mais de si do que é necessário.

E talvez a prova mais bonita da humildade esteja justamente na coerência:

aquilo que digo sobre mim encontra correspondência na maneira como trato as pessoas quando ninguém está olhando?

Porque consciência não se mede apenas pelo que falamos. Ela aparece naquilo que fazemos. O discurso pode impressionar. A prática revela. E quando discurso e prática caminham na mesma direção, nasce algo muito mais profundo que uma imagem de humildade:

nasce integridade.

O Caibalion, obra associada à tradição hermética, apresenta princípios filosóficos como mentalismo, correspondência, polaridade e ritmo.

Independentemente de concordarmos ou não com suas interpretações, algumas dessas ideias podem funcionar como provocações para a reflexão sobre a maneira como percebemos a realidade. O princípio da polaridade, por exemplo, apresenta a ideia de que aquilo que percebemos como extremos pode possuir diferentes graus dentro de uma mesma dimensão. Na vida cotidiana, isso pode nos levar a perguntar:

Será que uma situação é realmente “tudo ou nada”?

Será que um erro precisa definir toda uma história?

Será que um momento difícil precisa determinar todo o nosso futuro?

O discernimento começa muitas vezes quando abandonamos os extremos e conseguimos enxergar nuances.

A Bíblia também nos convida repetidamente a olhar para dentro e transformar nossa maneira de pensar.

Em Romanos 12:2, encontramos a conhecida orientação sobre a transformação por meio da renovação da mente. A ideia é profunda: transformação não começa apenas do lado de fora. Existe uma mudança de percepção, de pensamento e de compreensão. A fé, nesse sentido, não precisa ser entendida como ausência de questionamentos. Pode ser também uma caminhada de confiança enquanto aprendemos a discernir.

Fé não é necessariamente fechar os olhos.

Pode ser aprender a caminhar mesmo quando ainda não conseguimos enxergar todo o caminho. E talvez exista aqui uma importante integração entre espiritualidade e consciência: não basta acreditar; é necessário perceber como aquilo em que acreditamos está influenciando a maneira como vivemos.

Em meio a pensamentos acelerados e emoções intensas, o corpo pode ser uma porta de entrada para a presença.

A respiração consciente é uma prática simples que pode nos ajudar a interromper, ainda que por alguns instantes, o piloto automático.

Inspirar.

Perceber.

Expirar.

Observar.

Algumas práticas de respiração circular ou contínua são utilizadas em diferentes contextos de autoconhecimento e espiritualidade. Porém, práticas respiratórias intensas não são indicadas indistintamente para todas as pessoas e devem ser realizadas com orientação adequada quando houver técnicas mais profundas ou desconfortáveis.

O objetivo aqui não é buscar uma experiência extraordinária.

É algo mais simples: voltar para o momento presente.

Porque muitas vezes o corpo está em um lugar enquanto a mente está presa ao passado ou tentando controlar o futuro.

Respirar conscientemente pode ser um lembrete: “Eu estou aqui.”

A ayahuasca também aparece, em diferentes contextos culturais e religiosos, associada a experiências de introspecção, espiritualidade e alteração da percepção.

É importante, entretanto, não transformar uma experiência intensa em sinônimo automático de despertar, uma experiência pode provocar perguntas, pode trazer emoções, pode modificar temporariamente a percepção.

Mas transformação exige integração.

Aquilo que alguém vivenciou precisa encontrar espaço na vida cotidiana: nas escolhas, nos relacionamentos, nos hábitos, na responsabilidade e na maneira de tratar a si mesmo e aos outros.

Uma experiência extraordinária não substitui o trabalho cotidiano da consciência.

O verdadeiro desafio talvez não seja ter uma experiência transformadora, mas transformar a experiência em vida.

Despertar é conquistar liberdade?

Talvez sim, mas não uma liberdade sem limites. Liberdade interior não significa fazer tudo o que desejamos, significa ampliar nossa capacidade de escolher. Uma pessoa dominada pela raiva não é necessariamente livre para escolher. Uma pessoa dominada pelo medo também pode ter sua liberdade reduzida. Uma pessoa que precisa constantemente da aprovação dos outros pode acabar vivendo de acordo com expectativas que nem sequer são suas, Por isso, despertar a consciência é também recuperar espaços de escolha.

Entre o pensamento e a ação.

Entre o sentimento e a reação.

Entre a crença e a decisão.

Entre o estímulo e a resposta.

É nesse pequeno espaço que a liberdade pode nascer. Equilíbrio não significa ausência de conflito. Existe uma ideia equivocada de que uma pessoa equilibrada deveria estar sempre tranquila, positiva e emocionalmente estável.

Não.

Equilíbrio não significa não sentir.

Significa aprender a atravessar aquilo que sentimos sem perder completamente a direção. Podemos estar tristes e continuar responsáveis. Podemos estar com medo e continuar caminhando. Podemos estar frustrados e escolher não ferir alguém. Podemos discordar e continuar respeitando. Podemos reconhecer nossas sombras sem permitir que elas definam toda a nossa identidade, e talvez essa seja uma das grandes lições da Saúde Integral: corpo, mente, emoções, relações, espiritualidade e comportamento não existem em compartimentos completamente separados. Quando uma dimensão se desequilibra, as outras podem sentir seus efeitos.

Evoluir não deveria significar olhar para outra pessoa e pensar: “sou mais consciente que ela”. Isso seria apenas o ego encontrando uma nova roupa. Evolução é comparar-se com quem fomos. É perceber uma reação que antes era automática e agora consegue ser observada. É reconhecer uma crença que antes parecia absoluta e hoje pode ser questionada. É pedir desculpas quando antes só existia orgulho. É estabelecer limites quando antes existia medo. É ouvir quando antes só queríamos responder. É escolher diferente quando a vida apresenta novamente um velho padrão. Talvez evolução seja menos sobre chegar a algum lugar e mais sobre tornar-se consciente do caminho enquanto caminhamos.

Não é necessário abandonar a rotina, buscar experiências extraordinárias ou mudar toda a vida de uma vez.

Comece observando.

1. Pare e respire

Durante alguns minutos, diminua o ritmo e observe sua respiração sem tentar controlar tudo.

2. Dê nome ao que sente

Pergunte:

“O que estou sentindo neste momento?”

Raiva? Medo? Ansiedade? Tristeza? Culpa? Alegria?

Nomear ajuda a criar distância entre você e aquilo que está experimentando.

3. Questione o pensamento

Pergunte:

“Isso é um fato ou é a interpretação que estou fazendo sobre o fato?”

Essa pequena pergunta pode mudar muitas respostas.

4. Investigue suas crenças

Escolha uma frase recorrente:

“Eu não consigo.”

Depois pergunte:

“Quem me ensinou isso?”

“Essa crença ainda faz sentido para a pessoa que estou me tornando?”

5. Observe o ego

Quando alguém contrariar você, antes de responder, pergunte:

“Estou defendendo um princípio ou apenas minha necessidade de estar certo?”

6. Crie um espaço entre estímulo e resposta

Quando algo provocar uma reação intensa, respire antes de responder.

Nem todo impulso precisa virar atitude.

7. Escolha conscientemente

Ao final do dia, pergunte:

“Hoje eu vivi de acordo com meus valores ou apenas reagi às circunstâncias?”

Essa pergunta, repetida diariamente, pode se tornar uma poderosa ferramenta de autoconhecimento.

Talvez despertar a consciência não seja alcançar um estado permanente de iluminação.

Talvez seja simplesmente começar a perceber.

Perceber o pensamento antes de acreditar nele.

Perceber o sentimento antes de reagir.

Perceber o ego antes de defendê-lo.

Perceber a crença antes de obedecê-la.

Perceber o corpo antes que ele precise gritar.

Perceber a fé não apenas como aquilo que dizemos acreditar, mas também como aquilo que orienta nossas escolhas.

No fim, liberdade talvez seja isso: não sermos escravos de tudo aquilo que sentimos, pensamos ou acreditamos. E evolução talvez seja aprender, um dia de cada vez, a colocar consciência onde antes existia apenas automatismo. Porque quando aumentamos nossa consciência, ampliamos nosso discernimento. Quando ampliamos nosso discernimento, ampliamos nossas escolhas, e quando ampliamos nossas escolhas, descobrimos que talvez exista dentro de nós muito mais liberdade do que imaginávamos.

Saúde Integral também é isso: cuidar do corpo, compreender a mente, acolher as emoções, cultivar relações saudáveis, fortalecer a espiritualidade e, acima de tudo, aprender a estar presente na própria vida.

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