Estou farto de saber que sou capaz

Guilherme Machado reflete que a distância mais dolorosa do mundo é aquela que separa o orgulho de saber do que somos capazes da coragem de viver à altura desse potencial

Guilherme Cesar Machado de Araújo
Guilherme Machado
Fotografia conceitual de um homem observando a paisagem através de uma janela reflexiva.
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“Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos.”
Provérbios 16:3

Durante muito tempo, essa seria uma frase que eu diria com orgulho. Hoje, curiosamente, ela também me incomoda.

Talvez porque eu esteja começando a perceber que existe uma diferença enorme entre saber do que somos capazes e viver à altura dessa capacidade.

Recentemente, estabeleci uma série de metas para o meu processo de emagrecimento. Em vez de olhar apenas para um objetivo distante, decidi dividi-lo em pequenas etapas difíceis o suficiente para me exigirem, mas tangíveis o bastante para que eu pudesse alcançá-las.

Bati a primeira meta antes do prazo. Deveria ter sido combustível para continuar. Foi quase o contrário: eu me acomodei.

Passei cerca de dez dias sem me exercitar. Houve circunstâncias que contribuíram — inclusive a chuva, que dificultou minhas corridas e minhas idas à academia —, mas seria confortável demais responsabilizá-las.

A meta seguinte venceu e, dessa vez, precisei de alguns dias a mais para alcançá-la.

Poderia enxergar nessa pequena sequência apenas as oscilações naturais de um processo de emagrecimento. Mas percebi que a balança estava começando a me mostrar algo que não tinha relação apenas com meu peso.

Às vezes, o corpo também funciona como espelho. E eu não gostei completamente do que comecei a enxergar no meu.

Quando ser capaz também pode se tornar uma armadilha

Percebi um comportamento que não está restrito à balança. Ele aparece em diferentes áreas da minha vida.

Quando uma situação se torna crítica, alguma coisa parece despertar dentro de mim. Penso rápido, crio alternativas e encontro soluções — muitas vezes, não uma, mas várias.

Durante muito tempo, enxerguei isso apenas como uma qualidade. Hoje começo a perceber seu outro lado.

Não porque exista algo de errado em ser capaz de reagir. Pelo contrário. Essa capacidade já me foi extremamente útil.

Talvez o problema nunca tenha estado na ferramenta, mas na maneira como aprendi a utilizá-la.

Quando você sabe que consegue reagir muito bem diante de uma emergência, existe o risco de começar a tolerar demais a aproximação dela. É como se houvesse uma certeza silenciosa: depois eu resolvo.

E o pior é que, muitas vezes, eu resolvo. Talvez seja justamente esse o problema.

Talvez eu tenha aprendido a confiar tanto na minha capacidade de reagir que nunca tenha aprendido verdadeiramente a confiar na minha capacidade de permanecer.

Essa constatação doeu.

Porque existe um preço escondido nisso.

Você acaba utilizando sua capacidade para apagar incêndios que sequer precisariam existir.

Quando olho para minha vida sob esse novo referencial, surge uma pergunta desconfortável: até onde eu poderia ter chegado se tivesse colocado na constância a mesma capacidade que tantas vezes coloquei na reação?

Não sei. Só Deus sabe. E talvez nunca saber seja justamente uma das partes mais dolorosas dessa descoberta.

Porque algumas coisas podem ser recuperadas. Projetos podem ser retomados. Dinheiro pode ser reconquistado. Quilos podem ser perdidos novamente.

O tempo não aceita o desaforo.

O tempo que deixei queimar enquanto apagava incêndios não volta.

Mais do que um número

Existe um objetivo que, neste momento, significa muito para mim: quero voltar a enxergar dois dígitos na balança.

Para algumas pessoas, pode parecer apenas um peso. Para mim, não é.

Eu já emagreci antes. Já treinei, fui disciplinado e experimentei a sensação de olhar para meu corpo e reconhecer nele o resultado das minhas escolhas.

Depois me acomodei.

Posterguei por muito tempo a decisão de emagrecer novamente porque não queria passar por todo aquele longo processo outra vez.

Existe uma ironia dolorosa nisso: se eu tivesse cuidado daquilo que conquistei, não precisaria reconquistá-lo.

Dessa vez, porém, deixei a situação avançar a ponto de perder algo mais importante do que condicionamento físico.

Comecei a perder a confiança em mim mesmo.

Eu, que tantas vezes havia encontrado soluções quando tudo parecia perdido, comecei a duvidar se conseguiria resolver a minha própria situação mais uma vez.

Por isso, voltar a enxergar dois dígitos na balança não representa apenas emagrecimento. Representa retomada da confiança.

Mas comecei a perceber que meu desafio talvez não esteja apenas em acreditar que consigo chegar. Está também em aprender a atribuir àquilo que conquistei o mesmo valor que eu atribuía quando ainda parecia difícil de alcançar.

Existe alguma coisa nos grandes desafios que me seduz. Quanto mais distante parece um objetivo, mais ele desperta o melhor de mim.

Às vezes penso em um gato brincando com um novelo de lã. Enquanto o novelo escapa, ele corre, salta, insiste. Quando finalmente o alcança, porém, parte do fascínio desaparece, embora o novelo continue sendo o mesmo.

O que mudou foi apenas a dificuldade de alcançá-lo.

Talvez eu tenha feito isso comigo mais vezes do que gostaria de admitir. Talvez eu tenha confundido, durante muito tempo, a dificuldade de conquistar com o valor da conquista.

Foi doloroso perceber que, dessa maneira, eu estava utilizando minha própria capacidade contra mim.

Quando o corpo começa a falar

Talvez essa seja uma das coisas mais fascinantes que a atividade física tem me ensinado: o corpo torna visível aquilo que, em outras áreas da vida, conseguimos esconder de nós mesmos.

Ele não conhece nossas intenções. Não sabe quantas vezes prometemos começar amanhã. Não se impressiona com nossos planos.

O corpo responde àquilo que repetimos.

E, enquanto observava minhas respostas aos exercícios, percebi que não estava conhecendo apenas meu corpo.

Estava conhecendo meus padrões.

A balança mede meu peso, o relógio mede meu tempo e a distância registra quanto percorri. Mas nenhum deles mede a maneira como tenho conduzido minha própria vida.

Essa parte precisei começar a medir sozinho.

Talvez meu maior problema tenha sido justamente o resultado. Eu conseguia, resolvia, chegava — e isso acabava funcionando como meu álibi.

Se no final eu conseguia chegar, por que questionar a maneira como percorria o caminho?

Agora me faço uma pergunta diferente: por que tantas vezes preciso chegar ao limite para começar a caminhar na direção que já sabia que deveria seguir?

Ainda estou atravessando

Não escrevo estas palavras como alguém que descobriu uma fórmula mágica para mudar.

Estou vivendo esse processo agora.

Voltei para a terapia, a cuidar do meu corpo e a estabelecer metas.

Tenho buscado em Deus direção para me reconduzir enquanto tento colocar em ordem aquilo que está do lado de fora. Talvez uma das coisas que esteja aprendendo seja justamente que reconhecer minha capacidade não significa acreditar que preciso resolver tudo sozinho.

Talvez parte desse processo seja também aprender a me esvaziar de mim mesmo — da necessidade de controlar, resolver e encontrar todas as respostas — para me encher do Espírito e da presença de Deus.

Não estou do outro lado da ponte.

Ainda estou atravessando.

Foi durante essa travessia que, ontem, depois de orar, parei diante do espelho.

Olhei para mim e disse que vou atingir meus objetivos. Eu creio nisso.

Mas, naquele momento, percebi que já não queria simplesmente fazer outra promessa motivacional ou convocar novamente aquela versão de mim que aparece quando tudo se torna crítico e consegue encontrar uma saída.

Eu conheço esse homem: sua criatividade, sua força e sua capacidade de encontrar caminhos quando aparentemente eles não existem.

Essa versão de mim já me salvou muitas vezes. E sou grato a ela.

Mas, diante daquele espelho, em lágrimas, reconheci algo que talvez estivesse demorando anos para admitir: estou farto de viver assim.

Não quero mais precisar da emergência para acessar minha capacidade nem transformar potencial em ferramenta de resgate. Sobretudo, estou farto de imaginar quanto tempo deixei pelo caminho simplesmente porque sempre confiei que conseguiria correr depois.

Conheço muito bem a versão de mim que aparece quando tudo parece perdido.

Agora quero conhecer outra.

Quero descobrir quem posso ser quando não existe uma emergência me obrigando a agir.

Eu ficaria encantado em conhecer essa versão de mim mesmo.

Talvez por isso uma pergunta tenha começado a me acompanhar:

Quanto da nossa capacidade usamos para construir — e quanto gastamos consertando aquilo que a constância poderia ter evitado?

Eu ainda não conheço todas as minhas respostas.

Também não sei exatamente onde esse processo vai me levar. Talvez esteja aprendendo justamente a não precisar saber.

Entreguei meus planos a Deus e o chamei para pelejar comigo essa batalha. Agora estou aprendendo a permanecer no caminho mesmo quando não existe uma emergência me empurrando por ele.

O passado deixou aprendizados, consequências e um tempo que não posso recuperar.

Mas ainda existe caminho pela frente.

Em uma das palavras dirigidas a Jó, encontro uma imagem que gosto de carregar comigo:

“Tudo o que você fizer dará certo, e a luz brilhará no seu caminho.”
Jó 22:28

Não sei exatamente onde esse caminho vai me levar.

Talvez, desta vez, eu não precise saber.

Preciso apenas permanecer.

Guilherme Machado

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