Vício: a liberdade que estamos entregando sem perceber

Joelson Mora reflete sobre como as telas, o consumo e os impulsos automáticos estão moldando nossa rotina

Joelson Mora
Joelson Mora
Imagem criada pela IA da Meta

Nunca tivemos tanta informação. Nunca tivemos tanta tecnologia. Mas será que estamos mais conscientes das nossas escolhas? Essa é uma das grandes contradições do nosso tempo. Temos respostas instantâneas, mas pouca capacidade de esperar, Temos milhares de conexões, mas dificuldade de estar presentes, Temos acesso a informações sobre saúde, mas continuamos negligenciando o próprio corpo, Temos ferramentas para trabalhar melhor, mas muitos não conseguem mais desligar, Temos liberdade para escolher, mas cada vez mais estímulos tentando escolher por nós. Talvez o grande problema contemporâneo não seja a falta de informação, Seja perda de consciência.
Vício não precisa começar com uma substância, Pode começar com uma tela, Com a necessidade de conferir notificações, Com a comida utilizada para aliviar emoções, Com apostas que prometem dinheiro rápido, Com compras usadas para compensar frustrações, Com jogos que substituem experiências reais, Com o trabalho que nunca termina, Com a necessidade constante de aprovação, Com uma relação na qual já não sabemos quem somos sem o outro Ou até com o hábito de reclamar, julgar e alimentar conflitos.
Nem todo comportamento intenso é um transtorno. A própria Organização Mundial da Saúde reconhece especificamente alguns comportamentos, como jogo e gaming, quando existe perda de controle e prejuízo significativo na vida.
Por isso, talvez seja mais importante do que perguntar:
“Eu tenho um vício?”
perguntar:
“Existe alguma coisa que eu já não consigo escolher livremente?”
Essa pergunta muda a conversa. A consequência aparece onde menos percebemos,
O problema raramente fica restrito ao comportamento.
Ele transborda.
Para dentro de casa.
Para os relacionamentos.
Para o trabalho.
Para a saúde.
Para as finanças.
Para a autoestima.
Para a presença.
No Brasil, por exemplo, o Ministério da Saúde registrou aumento expressivo dos atendimentos relacionados a problemas com jogos e apostas entre 2018 e 2025.
No mundo, a OMS estima que cerca de 1,2% dos adultos apresentem transtorno do jogo e alerta para consequências que podem alcançar a saúde, as finanças e os relacionamentos.
Nas redes sociais, o cenário também merece atenção. Pesquisa da OMS com adolescentes de 44 países e regiões encontrou sinais de uso problemático em 11% deles, acima dos 7% registrados em 2018.
E não é apenas uma questão de tela.
O Brasil também vive uma mudança importante no cenário alimentar. Segundo o Vigitel, a obesidade entre adultos nas capitais e no Distrito Federal passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024.
Esses números não dizem que essas pessoas são “viciadas”.
Eles revelam algo mais amplo:
nossos comportamentos estão mudando e precisamos compreender para onde eles estão nos levando.
O vício contemporâneo tem uma característica poderosa
Ele frequentemente entrega alguma coisa antes de cobrar seu preço.
A rede social entrega estímulo.
A comida entrega prazer.
A aposta entrega esperança.
A compra entrega satisfação.
O jogo entrega recompensa.
O trabalho entrega reconhecimento.
A aprovação entrega pertencimento.
O relacionamento pode entregar segurança.
A reclamação pode entregar a sensação de razão.
Primeiro vem a recompensa.
Depois, a dependência.
E, algumas vezes, só percebemos o preço quando já estamos pagando com aquilo que mais importa.
Tempo. Saúde. Dinheiro. Presença. Confiança. Relacionamentos.
A tecnologia acelerou tudo. Inclusive nossos impulsos; Antigamente, existia um intervalo entre desejar e realizar, Hoje, esse intervalo pode ser de segundos.
Quero comprar.
Clique.
Quero apostar.
Clique.
Quero assistir.
Clique.
Quero aprovação.
Posto.
Quero esquecer um problema.
Abro o aplicativo.
A tecnologia reduziu a distância entre desejo e recompensa E talvez uma das competências mais importantes para o ser humano contemporâneo seja justamente recuperar aquilo que a velocidade está apagando:
a capacidade de esperar.
Esperar antes de comprar.
Esperar antes de responder.
Esperar antes de apostar.
Esperar antes de comer por impulso.
Esperar antes de publicar.
Esperar antes de reagir.
Nesse pequeno intervalo existe algo extraordinário:
a possibilidade de escolher.
Autorresponsabilidade não é culpa
Existe uma diferença enorme entre culpa e autorresponsabilidade.
Culpa olha para trás e pergunta:
“De quem é a culpa?”
Autorresponsabilidade olha para frente e pergunta:
“O que eu posso fazer a partir de agora?”
Não controlamos todos os fatores que influenciam nosso comportamento, Mas podemos começar a observar nossos padrões.
Podemos identificar gatilhos.
Podemos estabelecer limites.
Podemos mudar ambientes.
Podemos pedir ajuda.
Podemos substituir hábitos.
Podemos aprender a tolerar desconfortos sem precisar imediatamente anestesiá-los.
E, principalmente, podemos parar de negociar com aquilo que está destruindo aquilo que dizemos valorizar.
Um exercício simples
Durante sete dias, observe quatro coisas:
O que mais consumiu meu tempo?
O que mais capturou minha atenção?
O que fiz no automático?
O que deixei de viver por causa disso?
Não tente mudar tudo; Escolha um comportamento.
Observe-o.
Compreenda-o.
Descubra o que ele tenta entregar a você.
E então pergunte:
“Existe uma maneira mais saudável de atender essa necessidade?”
Esse é o início do autoconhecimento.
A verdadeira liberdade
Talvez liberdade não seja poder fazer tudo o que queremos.
Talvez liberdade seja não precisar fazer tudo o que queremos.
É conseguir fechar o aplicativo.
É conseguir dizer não.
É conseguir esperar.
É conseguir ficar sozinho sem sentir vazio.
É conseguir amar sem desaparecer dentro de alguém.
É conseguir trabalhar sem transformar trabalho em identidade.
É conseguir receber aprovação sem depender dela.
É conseguir sentir desconforto sem fugir imediatamente.
É conseguir escolher.
Porque aquilo que controla nossas escolhas também participa da construção da nossa vida; Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Do que eu preciso me livrar?”
Mas:
“O que está ocupando um espaço na minha vida que não deveria ocupar?”
A resposta pode incomodar, Mas consciência nem sempre chega para confortar, Às vezes, ela chega para despertar.
E despertar é perceber que ainda existe escolha.
Conhecimento nos informa.
Autoconhecimento nos revela.
Autorresponsabilidade nos movimenta.
E consciência nos devolve aquilo que nenhum algoritmo, substância, compra, aposta ou aprovação deveria possuir:
a liberdade de escolher como queremos viver. 

Joelson Mora

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