Na senda do indomável
Na senda do indomável, Pietro Costa liberta o cavalo rubro da poesia contra o caos das horas


Não me detenho
na contagem dos anos.
O tempo, por si, não se explica.
Somamos enganos.
Nem no relâmpago a esbravejar
seu brevíssimo clarão de eternidade,
nem nos insetos que ficam a tramar
a política do ínfimo, da minuciosidade.
Pouco me pesa ou chega a estarrecer
se corvos guerreiam pelo azul do céu
ou se o sol, exausto de cálido, declina
como um deus que aprende a morrer.
Que importa o orvalho e sua poética,
quando a manhã já nasce fatigada?
Ou a ciência, sem assombro e patética,
olvida o espanto primeiro, melindrada?
Sonhei que sonhava o próprio sonho,
nada de estranho e sem merecer alarde:
nossa consciência é um labirinto bisonho
que é reconhecido tarde, bastante tarde.
Mas há um gesto,
um quase nada,
que redime o caos das horas:
o sinal do poeta.
Esse cavalo rubro, indomável,
que irrompe na noite dos homens
e fere o silêncio com sentido.
Ele cavalga
entre a vida e a morte,
sem pedir licença ao medo,
sem dobrar-se à lógica do útil.
E eu,
fugitivo da vida menor,
abandono os muros domesticados,
seus tijolos de cautela e hábito,
para subir,
ofegante e lúcido,
a ladeira do desassossego,
onde o verso não explica:
revela.