Um estranho no ninho
Sergio Diniz da Costa resgata memórias da infância e reflete sobre o bullying, a intolerância e o burilamento da alma pela vida


Introvertido, introspectivo, fantasioso, contemplativo, afetivo, empático, lírico. Sete adjetivos que descrevem um menino amante dos animais e da natureza, que sonhava brincar nas nuvens, feitas de algodão, e viajar pelas estrelas, nas noites invernais de céu limpo. Um menino-poeta! Um menino que chorava a dor do próximo tanto quanto ria o riso alheio. Uma imagem, a princípio, que transpira sentimentos nobres e felicidade.
Contudo, não era assim que o menino Sergio se sentia, pois era tido por outros meninos e alguns adultos como ‘estranho’. E, não bastasse isso, por ser espírita, sofria bullying. Era chamado de ‘macumbeiro’ e, para alguns católicos e evangélicos, o destino dos espíritas era o Inferno.
No antigo Primário, havia aula de religião, e eu era o único aluno a sair da classe, uma vez que os demais eram católicos e evangélicos. Na primeira vez que saí, os coleguinhas perguntaram à professora por que eu precisava deixar a sala. Eu tinha apenas oito anos de idade, mas senti, pela maneira como ela respondeu, que também havia preconceito em relação ao espiritismo.
Como não poderia deixar de ser, se nas ruas era visto com reservas, a escola representou mais uma das estações da minha via crucis, a ponto de, cumprida a educação básica, minha vontade ear nunca mais sentar num banco escolar.
As estradas da vida, contudo, nos levam por caminhos inimagináveis. Em algum momento, nos deparamos com uma espécie de ‘portal’, a nos conduzir para outra dimensão da vida. Diante dessa passagem, o menino-poeta, agora adulto, percebeu que o sofrimento íntimo não é castigo divino, mas lição, burilamento da alma.
O ser humano é semelhante ao mármore bruto, e a vida é o martelo e o cinzel. Ao contrário, porém, do mármore que, feito matéria, é impotente diante dos golpes do cinzel, o ser humano tem o poder de receber esses golpes não como feridas na alma, mas como preciosas lições de aprendizagem.
Assim, dor e humilhação, transmutadas, passam a ser pilares a sustentar o ‘edifício’ do entendimento de que, na jornada terrena, tudo é efêmero quando os olhos enxergam o horizonte da eternidade!