O Rei da Guitarra e o Dono da Caneta
Uma conversa informal entre um astro do rock and rol e um escritor no cachorródromo revela os bastidores, reflexões e o verdadeiro peso de se viver da arte


Não é todo dia, mas os encontros com o meu grande amigo Marcio Petracco, no cachorródromo de Tesourinha, sempre são carregados de histórias inusitadas, enquanto a Bebel e a Clarinha correm de um lado para o outro com o Coco e o Cacau, essas maravilhosas crianças focinhudas. Don Marcito invariavelmente desce do pedestal de guitarrista e fundador da icônica banda de rock TNT e dispara:
— Sabe, Edu, trabalhar com música nem sempre é fácil, mas é a vida que escolhi viver.
Observo atentamente o meu amigo e me surgem dúvidas caladas. Imagino que viver da música não deve ser para qualquer um. É verdade que, vez ou outra, imagino que deve ser incrível estar diante de uma plateia que sabe de cor suas músicas. E o que seria a literatura para mim? Um trabalho? A literatura não é o meu primeiro sustento, provavelmente morreria de fome se dependesse exclusivamente dela. Todavia, creio que definharia dolorosamente sem a sua presença.
— Don Marcito, mas deve ser legal demais tocar para uma multidão.
— Legal demais, Edu, mas há um peso nisso.
— Um peso?
— Meu irmão, nem todo dia você está bem, mas precisa subir no palco, tocar por uma hora e meia. Sabe, é muito complexo, o convívio com os caras da banda, com o público. O contato com os fãs é maravilhoso, a adrenalina dos shows, às vezes a galera quer conversar com a gente. É legal. E tu sabe quanto pesa uma Gibson Les Paul Custom?
— Hum… Dois quilos?
— Seis!
— Tudo isso?
— Seis quilos durante uma hora e meia, Edu. Mas isso é o de menos. Na verdade, nem sinto isso. Fico ligadão na música, no som, no público.
Nisso, o Cacau passa voando, enquanto a Bebel e a Clarinha tentam alcançá-lo. O Coco, mais ao fundo, parece ter desistido das carreiras tresloucadas. Eu o observo por um instante, é um cachorro branco com algumas manchas cor de areia. Posudo.
Há uns quatro anos, o Don Marcito me deu umas dicas sobre chimarrão. Aprendi a apreciar a boa erva durante praticamente um ano até que voltei o meu paladar ao café gourmet. Deve ser coisa de escritor, coisa de quem trabalha longe de uma plateia inebriada por mais um refrão, coisa de quem prefere derramar tinta de caneta sobre o papel a ter que carregar seis quilos no ombro durante seis horas. Parabéns, Don Marcito Petracco, o Rei da Guitarra do rock gaúcho! Se aconteceu exatamente assim, não posso afirmar, mas é como me lembro. Memórias afetivas, alguém pode dizer.