Adágio e seu ouvido absoluto

Eduardo Cesario-Martínez

‘Adágio e seu ouvido absoluto’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Adágio Allegro, desde menino, fora diagnosticado com algo raro. Não que fosse doença, porém, após alguns anos, passou a deixar a mãe colérica. Acredite ou não, o moleque havia nascido com ouvido absoluto. Isso mesmo! Absoluto!

          Por conta de tal característica, Adágio conseguia não somente distinguir todos os sons, mas também apontar, certeiro como as flechas impossíveis de Robin Hood, a nota musical. Todavia, não pense você que o menino falava apenas “dó”. Não mesmo!  Tacava logo “dó menor sustenido!”

          De tão afamado ficou, alguém teve a providencial ideia de apelidá-lo de Diapasão. A princípio, Adágio ficou furioso e, dizem, só parou de berrar quando percebeu o som do próprio choro em si bemol menor. No final das contas, acabou gostando da alcunha, que percebeu ser sua sina. 

          Já aos 10 anos, Adágio havia se tornado músico respeitado na banda do bairro. Tocava de tudo, desde flauta até trombone, passando por trompete e clarinete. Clarinete, sim, senhor! O guri era um prodígio. 

          Aos 12, não teve jeito de segurar o ímpeto do pirralho. Queria porque queria ser o maestro. E quem seria besta em não acatar tal desejo? Afinal, Afonso, que há quase seis décadas comandava aquela trupe, estava sem forças para manter a batuta firme. Resultado: aposentaram o velho. 

          Nas mãos firmes de Adágio, a antes banda de bairro, agora havia se transformado em uma orquestra. A fama correu a cidade inteira, até que chegou aos ouvidos do prefeito e, em seguida, aos do governador. Todos desejavam tirar uma casquinha da fama daquele prodígio. Diziam até que havia gente importante do exterior querendo levá-lo embora. 

          Pois foi justamente nesse tempo em que o governador, em conluio com o prefeito, pensou numa ideia quase infalível para manter Adágio na região. Uma namorada! Sim, isso mesmo! Isso porque, até onde se sabia, o rapaz, agora com 20 anos, estava solteiro. Solteiro e desimpedido.

          Os políticos inventaram um concurso de beleza para, assim, escolher a futura namorada de Adágio. Obviamente, ninguém sabia que aquele evento era para tal. Seja como for, houve centenas de inscrições, mesmo porque a premiação não era das piores e, além disso, a vencedora receberia um troféu, sem contar a faixa de rainha da beleza. 

          Para encurtar a história, o concurso aconteceu logo no mês seguinte. As finalistas, uma mais linda do que a outra, se esforçaram além da conta. Entre loiras e morenas, ganhou a única ruiva. Jéssyka! Uma belezura!

          Dois dias após a coroação, Jéssyka foi convidada para uma recepção no amplo salão da sede do governo estadual. A moça, assim como todas as rainhas, foi ladeada por algumas damas de companhia, que foram escolhidas pelo governador, que, esperto que só, mandou trazer as quatro últimas colocadas no concurso. Dessa forma, pensou, a beleza da rainha ficaria ainda mais evidente. 

          Adágio também foi convidado para a festança. Ele, além de comandar a orquestra naquele evento, iria se sentar à mesa com a rainha da beleza. Tudo arranjado, era questão de tempo para que os dois pombinhos se sentissem atraídos um pelo outro. 

          Conversa vai, conversa vem, Adágio, sempre com os ouvidos atentos, parece não ter gostado da voz esganiçada de Jéssyka. Ademais, a rainha da beleza também parecia ter outros interesses além de manipuladores de batutas. Dava até para ouvir os pensamentos do governador e do prefeito, que, antes confiantes, agora carregavam só lamúrias. 

          Jéssyka, cuja soberba lhe havia subido à cabeça, decidiu se levantar e ir embora. Aquela situação era uma afronta para uma rainha. Não uma rainha qualquer, diga-se de passagem. Rainha da beleza! Pois se levantou e, apenas com um olhar para as suas damas, disse para que todas a acompanhassem. E foi o que fizeram, mas ocorreu um incidente com a Berenice, justamente a última colocada do concurso. 

          Assim que a Berenice ergueu seu corpo ligeiramente roliço, eis que se ouviu um som vindo do seu orifício mais ao sul. Imediatamente, olhares repreendedores surgiram de todos os lados. A moça, sem ter onde enfiar o rosto de tão envergonhada, foi salva por Adágio, que ficou encantado. Tanto é que, após seis meses de namoro, os dois ficaram noivos e, parece, vão se casar no próximo ano. 

          Percebo que você ainda está aqui me lendo. Na certa, está curioso para saber como é que o Adágio salvou a Berenice daquele imbróglio. Pois bem, eis as palavras do gajo:

— Nem mesmo um saxofone consegue fazer um fá sustenido tão bonito.

Eduardo Cesario-Martínez

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Pena

Virgínia Assunção: Poema ‘Pena’

Virgínia Assunção
Virgínia Assunção
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Há pessoas que não ferem pela força,
Mas pela arte de fingirem ser do bem.
Vestem-se de ovelhas em pele de lobo,
E não se preocupam se machucam alguém.

Confesso: não desperta em mim revolta.
Pois a revolta exige que se tenha algum valor.
O que essas pessoas de fato, provocam
É pena, silêncio tecido de pesar e torpor.

Estranha palavra essa: pena.
No coração, compaixão; na lei, punição.
Talvez não tenham sentidos tão diferentes:
Pois quem inspira pena, já vive em condenação.

Porque o pior dos presídios não tem grades,
Nem juiz, sentença, ou qualquer legislação.
Está na mente de quem engendra as maldades
E faz da própria vida a sua eterna prisão.

Virgínia Assunção




Marimba Selutu

Marimba Selutu
jornalismo cultural de Angola para o mundo

Logo da seção Entrevistas ROLianas
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Entrevista com o jornalista Fernando Guelengue,
CEO do portal Marimba Selutu, de Angola

Entrevista com o jornalista Fernando Guelengue, CEO do portal Marimba Selutu, de Angola
Fernando Guelengue
CEO do portal Marimba Selutu, de Angola

PERFIL

Nome completo: Fernando Guelengue

Data de nascimento: 20 de janeiro de 1987

Naturalidade: Nascido em Luanda, com raízes familiares na província do Cuanza Sul.

Formação: Jornalista, Psicólogo do Trabalho, especialista em Comportamento Humano, palestrante, mentor e investigador nas áreas da liderança, comunicação e cultura angolana.

Fernando Guelengue é jornalista, investigador e comunicador angolano, reconhecido pelo seu trabalho na documentação, promoção e valorização da cultura angolana. Iniciou a sua carreira no jornalismo em 2008, no jornal comunitário Ecos do Henda, no município do Cazenga, em Luanda, tendo posteriormente integrado a redacção do Semanário Agora e do Novo Jornal.

Ao longo do seu percurso especializou-se no jornalismo cultural, realizando reportagens, entrevistas e investigações sobre património, música, literatura, artes, tradições e identidade cultural de Angola.

Em 2017 fundou o Marimba Selutu, o primeiro portal angolano dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural, tornando-se uma referência na cobertura de festivais, património cultural, políticas culturais e produção artística, com especial enfoque na preservação da memória colectiva e do património imaterial angolano.

No plano académico, é licenciado em Psicologia do Trabalho, com especialização em Comportamento Humano (Behaviorismo) realizada no Brasil, e frequenta o Mestrado em Administração e Direcção de Empresas. A sua formação multidisciplinar permitiu-lhe desenvolver investigações e programas nas áreas da comunicação, liderança, desenvolvimento humano, comportamento organizacional e cultura.

Fernando Guelengue, CEO do portal Marimba Selutu, de Angola
Fernando Guelengue
CEO do portal Marimba Selutu, de Angola

Paralelamente à actividade jornalística, dedica-se à produção literária, à investigação cultural, à formação de líderes e oradores e à documentação das manifestações culturais angolanas, procurando aproximar a investigação académica da prática jornalística e da valorização do património nacional.

A paixão pela cultura e pelo jornalismo moldaram a senda que Fernando Guelengue usou para caminhar desde 2017, quando criou o portal Marimba Selutu. Guelengue percebeu que faltava espaço no jornalismo angolano para o tratamento de assuntos referentes às atividades culturais de seu país, mas, também, de países lusófonos que dialogam com Angola.

Assim como o Jornal Cultural ROL cumpre o mesmo papel no Brasil e no mundo, o Marimba Selutu tem sido porta voz da produção cultural ampla, abarcando assuntos relacionados à arte, à cultura, à história e à identidade dos povos africanos, sobretudo angolanos.

Nesta entrevista, realizada por Carlos Carvalho Cavalheiro, o jornalista Fernando Guelengue discorre sobre sua trajetória, sobre sua visita ao Brasil e sobre a criação do portal Marimba Selutu.

Carlos Carvalho Cavalheiro – Você já esteve no Brasil, correto? Em que ocasião? Qual foi a sua impressão sobre o país?

Fernando Guelengue – Sim. Estive no Brasil em 2014, na cidade de São Paulo, por ocasião da 23ª Bienal Internacional do Livro, onde lancei, pela primeira vez, o meu livro Pobreza: O Epicentro da Exploração das Crianças em Angola – Entre a Escravização e a Polémica, publicado pela editora brasileira Biblioteca 24horas.

Foi uma experiência profundamente transformadora, tanto no plano literário como no plano humano. Toda a programação da viagem foi organizada pela editora e permitiu-me viver intensamente aquele que considero um dos maiores eventos culturais da América Latina. Mais do que lançar um livro, tive a oportunidade de observar um ecossistema cultural extremamente organizado, onde escritores, pesquisadores, promotores culturais, professores e leitores dialogavam permanentemente sobre literatura, educação, cidadania e produção do conhecimento.

Durante a minha permanência participei igualmente em palestras, oficinas e formações ligadas à editoração, comunicação e à apresentação em público. Essas experiências influenciaram diretamente a minha atividade profissional em Angola e serviram de base para a criação, alguns anos mais tarde, do Programa OAP – Oratória e Apresentação Poderosa, um método próprio de formação em comunicação de alta performance, actualmente utilizado para as empresas, universidades e instituições públicas.

O Brasil deixou-me a convicção de que investir na cultura e no livro é investir no desenvolvimento de uma nação.

CCC – Você percebeu muitas diferenças culturais entre o Brasil e Angola? Se sim, quais?

FG – Apesar das diferenças históricas e sociais, encontrei muito mais pontos de aproximação do que de distanciamento entre Angola e o Brasil.

Partilhamos a língua portuguesa, fortes matrizes africanas, tradições musicais, religiosas e populares que dialogam constantemente entre si. Há inúmeros estudos históricos que demonstram que milhões de brasileiros descendem de povos oriundos do território que hoje constitui Angola, especialmente das regiões do antigo Reino do Congo e das áreas habitadas pelos povos Ambundu, Ovimbundu e Tchokwé.

Naturalmente, cada país construiu o seu próprio percurso histórico. O Brasil viveu e tem enfrentado processos políticos, econômicos e culturais diferentes dos de Angola, o que influenciou a forma como cada sociedade organiza a sua produção cultural e valoriza os seus diferentes patrimônios.

O que mais me chamou a atenção foi a dimensão da economia criativa brasileira, visto que notei uma forte articulação entre universidades, editoras, produtores culturais, museus, feiras e políticas públicas voltadas para o livro e para a cultura. Essa integração ainda constitui um grande desafio para o meu país, embora se observe um caminho evolutivo básico nos últimos anos.

CCC – Discorra sobre a sua produção literária: quando começou a escrever? Qual foi o primeiro livro publicado? Quantos livros você já publicou? Quais os temas abordados em seus livros?

FG – Escrevo desde muito jovem, mas comecei a desenvolver projetos literários de forma sistemática por volta de 2009, numa fase em que já conciliava o jornalismo com a investigação social. O exercício diário da profissão de jornalista levou-me a contatar diretamente com problemas ligados à pobreza, infância, cultura, liderança, desenvolvimento humano e cidadania.

Esses temas passaram naturalmente a fazer parte dos meus manuscritos. Publicar, porém, revelou-se muito mais difícil do que escrever. Durante muitos anos, a inexistência de políticas consistentes de incentivo ao livro em Angola e os elevados custos editoriais impediram-me de publicar boa parte daquilo que produzia. Foi então que procurei alternativas no Brasil, inspirado pelo percurso do escritor angolano Ribeiro Tenguna, que já editava nesse país.

Assim nasceu o meu primeiro livro, Pobreza: O Epicentro da Exploração das Crianças em Angola – Entre a Escravização e a Polémica, lançado oficialmente em 2014, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Ao longo dos anos escrevi mais de quarenta manuscritos, dedicados sobretudo às áreas da liderança, oratória, desenvolvimento humano, psicologia, comportamento organizacional, política, cultura, identidade africana e história de Angola. Muitos ainda permanecem inéditos.

A minha trajetória literária também conheceu momentos difíceis. Um dos episódios mais marcantes ocorreu quando procurei o prefácio para um dos meus livros e fui desencorajado a publicá-lo, sob o argumento de que a obra poderia colocar a minha própria segurança em risco. Essa situação levou-me a interromper alguns projetos durante vários anos.

Em 2023 decidi transformar essa limitação numa oportunidade, criando a minha própria editora, através da qual passamos a publicar novos autores e a construir condições para editar igualmente as minhas obras. Já em 2024 enfrentamos outro desafio inesperado: a perda de funcionamento do disco rígido onde estavam armazenados dezenas de manuscritos e anos de investigação. Felizmente, parte desse acervo vem sendo recuperada através de cópias dispersas em computadores, dispositivos móveis e mensagens de correio eletrônico. E deixo esse conselho a todos que escrevem: guardem os arquivos em diferentes locais. Hoje continuo a escrever com a mesma convicção, acreditando que os livros são uma das formas mais duradouras de transformar pessoas e sociedades.

CCC – Como surgiu o Portal Marimba Selutu? Qual é o objetivo desse portal?

FG – O Marimba Selutu nasceu da conjugação de duas paixões que carrego ao longo destes anos, que são o jornalismo e a cultura. Iniciei a minha carreira em 2008, no jornal comunitário Ecos do Henda, no município do Cazenga, em Luanda. Posteriormente integrei a redação do renomado Semanário Agora, dirigido pelo jornalista Aguiar dos Santos, onde pude acompanhar de perto os principais acontecimentos políticos, econômicos e sociais do país.

Entretanto, percebi que o jornalismo cultural ocupava um espaço extremamente reduzido na comunicação social angolana. As manifestações culturais eram frequentemente tratadas de forma superficial e quase inexistiam meios especializados capazes de documentar, investigar e valorizar o patrimônio cultural nacional.

Foi essa constatação que motivou a criação, em 2017, do Marimba Selutu – Portal de Notícias Culturais, o primeiro veículo angolano dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural.

O nosso propósito sempre foi contribuir para a valorização da identidade cultural angolana, promovendo artistas, investigadores, escritores, festivais, patrimônio, tradições, literatura, música e todas as expressões que ajudam a compreender a riqueza cultural do país. Inspirado igualmente na minha colaboração no Por dentro de África, da jornalista brasileira Natália da Luz, mais do que divulgar notícias, procuramos construir memória cultural do nosso país.

CCC – Hoje o Portal Marimba Selutu é uma referência na área cultural? Você o vê dessa forma?

FG – Acredito que sim, mas essa avaliação pertence sobretudo aos leitores, pesquisadores e profissionais da cultura que acompanham o nosso trabalho.

Ao longo dos anos, o Marimba Selutu consolidou-se como um espaço de referência para o jornalismo cultural em Angola. Os nossos conteúdos têm servido de fonte para pesquisadores, estudantes universitários e agentes culturais interessados na documentação e análise do patrimônio angolano. Há até estrangeiros que entram em Angola e usam as nossas informações como referências e isso anima-nos muito.

Mesmo sem financiamento externo permanente, procuramos privilegiar reportagens aprofundadas, entrevistas de investigação, cobertura de festivais, documentação de manifestações tradicionais e produção de conteúdos que dificilmente encontram espaço na comunicação social convencional.

O ex-ministro da Cultura Jomo Fortunato reconheceu o nosso trabalho por meio de uma carta institucional para que as empresas apoiem o nosso trabalho, fato que mesmo dando entrada para algumas instituições não obtivemos respostas favoráveis.

Outro aspecto que considero particularmente importante é a dimensão internacional que o projecto começou a assumir. Hoje contamos com colaboradores em vários países lusófonos, incluindo Brasil, Moçambique e outros especialistas ligados ao patrimônio e à cultura africana, reforçando a nossa missão de promover o diálogo cultural entre Angola, África e o mundo.

Por isso, entendemos que o nosso maior património continua a ser a credibilidade construída junto dos leitores.

CCC – Um último recado para os leitores.

FG – Quero, antes de tudo, agradecer a todos aqueles que acompanham, partilham e acreditam no trabalho desenvolvido pelo Marimba Selutu.

Fazer jornalismo cultural em África continua a ser um enorme desafio. Produzir conteúdos de qualidade exige tempo, investigação, deslocações, recursos humanos e financeiros. E apesar das limitações, nunca deixamos de acreditar que a cultura merece ser tratada com o mesmo rigor que qualquer outra área do conhecimento.

Continuaremos comprometidos com a missão de documentar, preservar e divulgar a riqueza cultural de Angola, dando voz aos seus criadores, investigadores e comunidades.

A todos os leitores deixo um convite: continuem a ler, a investigar, a apoiar os nossos artistas e a valorizar aquilo que somos. Um povo que conhece a sua cultura fortalece a sua identidade e prepara melhor o seu futuro. A todos, a minha profunda gratidão!

Carlos Carvalho Cavalheiro

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Un rey humano

Ana Cecília Cháves Zavalaga: ‘Un rey humano’

Ana Cecília Cháves Zavalaga
Ana Cecília Cháves Zavalaga
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Él ve lo que el mundo no quiere ver.

Desde la sucia azotea de un precario edificio lleno de polvo, al cual le sobrevuelan docenas de cables telefónicos y eléctricos, un dulce e inocente perrito se asoma por encima de un muro. Está parado sobre dos de sus pequeñas patitas, él observa desde la prisión de cemento a la cual fue condenado por ser mascota.

Estoy segura de que  él ve algo más de lo que nosotros, los seres humanos supuestamente evolucionados, podemos ver.

Una marcha acalorada, un grupo de personas gritando sus mejores ofertas políticas, candidatos para la presidencia de los próximos comicios electorales, tienen las mejillas rojas, quemadas por el sol y también por su eufórico deseo de conseguir un voto y uno más, ese voto que los lleve a alcanzar el poder y con ese poder convertirse en los conquistadores, repitiendo la historia de la conquista, solo que esta vez es doblemente nauseabunda porque los conquistadores no son  extranjeros, son, aunque no todos, parte de nuestro pueblo, estos  que se dejaron corromper por el poder, su líder el señor dinero.

La marcha acabó, le siguieron mil carros, uno tras otro, motores viejos despidiendo humo y más humo, contaminando el ambiente. No hay alternativa, el conductor debe sacarle el jugo a la máquina, en la casa, una familia espera sobrevivir el día.

Un grito desafinado:

¡Paltas, tamales, piñas!…¡Caserita, están ricas!…No se lo pierda… Todo por un sol… 

Un hombre flaco como un hueso, sucio y portando como vestido solo andrajos, está parado  en una esquina, se rasca la cabeza llena de mugre y, quizás, los piojos le comen hasta los sesos, su aspecto se convierte en el triste espejo de la perdición y desolación.

Un joven de aproximadamente 15 años está sentado sobre el peldaño de unas gradas. De manera impresionante, mueve los dedos tipeando en su celular, sus largas piernas no se inmutan ante el paso de la gente. Él no escuchó a los políticos, tampoco al vendedor, quizás no sintió el asqueroso olor de los gases producidos por los viejos autos. Su vida está ahí, transcurriendo en línea, en una vida online.

Wow, una guapa mujer camina elegantemente vestida con un traje negro y unos zapatos de taco muy fino, ella se contornea como una gata, esperando dejar huella a su paso. No se enteró de nada, ignoró al mendigo y sus piojos, al joven de vida online ni lo vio, tampoco escuchó los gritos del frutero, las propuestas políticas no le interesaban, es apolítica, continuó su paso tratando de dejar huella. 

Miles de mundos en un solo mundo, un mundo en donde existen  cárceles de todos los tipos, donde el hombre destruye y aplasta convencido  de su proba conciencia o inconsciencia, pocos hombres son los creadores de las leyes y del  sistema manejado por la culpa, pocos enriqueciéndose de vil manera.

La culpa, ante el pecado, la culpa del qué dirán, la culpa del rico por no tener un ‟Porsche”, la culpa del pobre por ser pobre, la culpa de la joven por usar minifalda y provocar al violador, la culpa de ser analfabeto y no tener derecho a soñar, la culpa frente a un injusto sistema judicial, la culpa instaurada solo para manipular.

El inocente y dulce perrito mira, él lo piensa, estoy segura de ello.

Son absurdos los humanos, se matan, nos matan, se hieren, nos hieren, acaban con la naturaleza, con su especie y con la nuestra. ¡Qué estúpidos son algunos seres humanos! Yo soy un perro vestido de pelos, solo ladro y aúllo y ellos creen que soy un perro sin cerebro, pero veo lo que ellos no quieren ver, la autodestrucción de un mundo en el cual el rey y verdugo es  el ser humano.

Ana Cecília Cháves Zavalaga

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Dores

Jacob Kapingala: Poema ‘Dores’

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Fotografia conceitual com iluminação suave e dramática de uma pessoa de perfil, com expressão de profunda saudade. Uma lágrima translúcida escorre por seu rosto, transformando-se sutilmente em partículas de luz dourada que flutuam no ar. Ao fundo, formas abstratas e translúcidas sugerem sorrisos e memórias afetuosas do passado, criando um contraste poético entre a tristeza e o conforto.
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Três legiões de dores me invadem,
Sempre que as memórias renascem,
E lembranças amargas me trazem,
Surrando meu corpo e quase que me partem.

De três para seis elas crescem.
Meu peito chora, as pernas tremem.
Essas lágrimas que agora caem,
São tão pesadas que meus olhos não conseguem,

Por isso é que no rosto elas descem,
Trazendo lembranças que não se esquecem,
De pessoas amadas que já se foram mas ainda vivem,
Nos nossos corações que sempre sentem,

As alegrias que nunca morrem,
E nem sequer envelhecem.
Pois os sorrisos do ontem,
Afagam as dores que dentro de nós se escondem.

Jacob Kapingala

Jacob Kapingala
Jacob Kapingala

Jacob Kapingala, 28, é natural da província de Huambo (Angola) e reside em Luanda. Estudou Pedagogia na Escola Missionária do Verbo Divino (Santa Madalena) e atualmente exerce a função de professor do ensino primário.

É escritor e poeta, com participação em algumas antologias e revistas literárias do Brasil e de Portugal.

Teve o desejo de colocar no papel aquilo que pensava somente em 2018, ano em que escreveu seus primeiros poemas. Porém, foi somente em 2019 que passou a se dedicar de corpo e alma à poesia.

É académico da CILA – Confraria Internacional de Literatura e Arte, da ABMLP – Academia Biblioteca Mundial de Letras y Poesía e da Academia Virtual dos

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Arquitetura para um vazio habitável

Clayton Alexandre Zocarato

‘Arquitetura para um vazio habitável’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato

Antes que o primeiro tijolo fosse assentado, o terreno já estava vazio. Não porque lhe faltassem construções, mas porque lhe sobravam presenças. 

Havia milhões de vozes atravessando o ar como enxames elétricos, milhões de imagens comprimindo os olhos, milhões de gestos transformados em arquivos, e, ainda assim, nenhuma existência parecia ocupar verdadeiramente o espaço que reivindicava.

O mundo havia aprendido a multiplicar contatos enquanto demolia encontros. A tecnologia não construíra uma nova civilização; apenas revestira de luzes um antigo deserto.

Toda arquitetura nasce de uma ausência. Levantam-se paredes porque existe o vento, fecham-se portas porque existe o medo, abrem-se janelas porque existe o desejo de olhar além daquilo que aprisiona. 

Contudo, havia surgido um novo tipo de construção cuja finalidade não era proteger corpos nem aproximar almas. Edificava-se o vazio. Cada tela era uma parede transparente. 

Cada perfil era uma janela voltada para um horizonte inexistente. Cada notificação era um pequeno martelo golpeando os alicerces da interioridade.

Nunca tantos haviam falado tão incessantemente para dizer tão pouco.

A palavra perdera sua espessura. Tornara-se um objeto descartável, produzido em escala industrial como copos plásticos destinados ao lixo poucos segundos depois de utilizados. 

As frases deixaram de carregar experiências para transportar impulsos. O pensamento foi substituído pela velocidade da reação. 

Já não importava compreender. Bastava responder antes que outro respondesse primeiro.

A inteligência passou a medir-se em segundos.

A sabedoria desapareceu dos relógios.

O silêncio converteu-se em uma espécie de escândalo moral.

Quem permanecia calado parecia culpado de alguma conspiração invisível. Era preciso comentar tudo, opinar sobre tudo, indignar-se diante de tudo, esquecer tudo logo em seguida. 

A memória coletiva começou a respirar como um animal asmático: inspirava acontecimentos gigantescos para expirar banalidades poucos minutos depois.

Nada permanecia.

Nem mesmo a dor.

Principalmente a dor.

A dor, outrora professora severa da condição humana, foi transformada em espetáculo portátil. Chorava-se diante da câmera e sorria-se quando ela era desligada. O sofrimento tornou-se uma estratégia de mercado. 

O luto passou a competir por curtidas. A solidão ganhou filtros capazes de torná-la esteticamente agradável. As cicatrizes precisavam ser fotogênicas.

O horror deixou de causar horror.

Precisava apenas gerar engajamento.

Era curioso observar como a humanidade aprendera a construir pontes digitais enquanto demolia todas as pontes invisíveis que ligavam uma consciência à outra. Aproximavam-se os aparelhos; afastavam-se os corações. 

Os dedos adquiriram uma intimidade impossível com superfícies lisas de vidro, enquanto desaprendiam o peso de outra mão.

O toque perdeu densidade.

O abraço tornou-se uma lembrança anatômica.

As pessoas passaram a existir como vitrines ambulantes. Cada fotografia era cuidadosamente polida para esconder o acúmulo de poeira interior. 

Produziam felicidade como quem produz cimento: em massa, rapidamente, sem perguntar se alguém realmente necessitava daquela matéria endurecida.

Viviam cercadas por espelhos que refletiam apenas versões editadas da própria inexistência.

Já não havia biografias.

Havia campanhas publicitárias.

Cada indivíduo transformou-se em departamento de marketing de si mesmo.

A sinceridade começou a parecer um erro de configuração.

Os algoritmos compreenderam antes dos próprios seres humanos que ninguém desejava conhecer a verdade. A verdade era lenta, contraditória, frequentemente desagradável. 

Preferia-se a confirmação das certezas, mesmo quando essas certezas conduziam lentamente ao abismo. A mentira tornou-se confortável porque se ajustava perfeitamente ao formato das expectativas.

Nunca a realidade foi tão opcional.

Era possível escolher qual mundo habitar sem sair do mesmo quarto.

Cada tela funcionava como um pequeno universo privado onde toda discordância podia ser eliminada com um simples toque. Assim nasceu uma geração incapaz de conviver com o diferente porque aprendera que toda divergência podia ser bloqueada. A alteridade transformou-se em defeito técnico.

Não havia mais adversários.

Havia inconvenientes.

A convivência foi substituída pela filtragem.

O amor sofreu a mesma mutação silenciosa.

Durante séculos, amar significava suportar a presença imprevisível de outra existência. Exigia demora, paciência, renúncia, escuta e, sobretudo, fracasso. Todo amor verdadeiro carregava inevitavelmente o peso da imperfeição.

Agora, porém, o amor precisava caber na velocidade dos aplicativos.

Precisava ser eficiente.

Precisava ser reversível.

Precisava oferecer garantia de satisfação.

Como qualquer produto.

Quando duas pessoas deixavam de proporcionar prazer imediato, bastava deslizar um dedo. A esperança passou a funcionar como um catálogo infinito de possibilidades. 

O problema era que a abundância destrói o valor da escolha. Quem acredita possuir infinitas alternativas jamais mergulha verdadeiramente em uma delas.

A superfície venceu a profundidade.

Não porque fosse mais bela.

Mas porque era mais rápida.

A intimidade tornou-se perigosa. Conhecer verdadeiramente alguém implica descobrir rachaduras. 

E as rachaduras diminuem o valor de mercado das pessoas. Melhor permanecer na luminosidade dos primeiros encontros eternamente inacabados. Melhor colecionar começos do que enfrentar qualquer continuidade.

Assim nasceu uma multidão especializada em inaugurar relações, mas incapazes de construírem  permanências.

Tudo começava.

Nada amadurecia.

O tempo perdeu sua vocação agrícola.

Já não cultivava. Consumia-se.

Até mesmo a esperança passou a envelhecer antes de nascer.

As conversas transformaram-se em negociações emocionais. Cada gesto escondia cálculos invisíveis sobre retorno afetivo, reciprocidade, visibilidade social. 

A generosidade tornou-se investimento. A amizade converteu-se em rede de contatos. O afeto passou a obedecer às mesmas leis do mercado financeiro: rendimento, valorização, liquidez.

A alma aprendeu a falar a linguagem das bolsas de valores.

E faliu silenciosamente.

Talvez a maior tragédia não fosse a ausência do amor, mas sua simulação perfeita. Já não era necessário amar. Bastava reproduzir todos os sinais externos do amor. 

Fotografias, declarações públicas, aniversários comemorados diante de espectadores invisíveis, viagens cuidadosamente documentadas, beijos interrompidos pela necessidade de registrar o próprio beijo.

A experiência passou a existir para ser lembrada antes mesmo de ser vivida.

Toda felicidade precisava de testemunhas.

Caso contrário, parecia não existir.

Pouco a pouco, o ser humano começou a confundir existência com visibilidade. O invisível tornou-se equivalente ao inexistente. As emoções silenciosas perderam legitimidade. A contemplação foi substituída pela exposição.

Até Deus pareceria insuficientemente conectado para sobreviver naquele ambiente.

A eternidade não possuía perfil.

O infinito não publicava conteúdos.

O mistério era péssimo produtor de audiência.

Enquanto isso, uma estranha sensação espalhava-se sem fazer ruído. Era um vazio diferente daquele conhecido pelos antigos filósofos.

Não era o vazio provocado pela falta de respostas. Era o vazio produzido pelo excesso delas. Nunca houve tantas opiniões disponíveis. Nunca houve tão poucas perguntas verdadeiras.

A humanidade deixara de buscar sentido.

Passara apenas a administrar distrações.

E cada distração exigia outra ainda maior para esconder a anterior.

Assim se erguia, todos os dias, a mais sofisticada construção da história: uma arquitetura monumental feita de conexões instantâneas, emoções descartáveis, afetos terceirizados e consciências continuamente ocupadas para jamais perceberem que habitavam,  desde muito tempo, uma casa sem fundamento, cuidadosamente decorada para impedir que seus moradores escutassem o eco da própria ausência.

O paradoxo tornou-se invisível justamente porque se tornara absoluto. Nunca a humanidade produzira tantos mecanismos para evitar a solidão, e nunca a solidão alcançara tamanha sofisticação.

Ela já não precisava do isolamento físico para existir. Aprendera a sobreviver em cafés lotados, escritórios compartilhados, salas de aula, aeroportos, elevadores, festas e até mesmo entre corpos que dividiam a mesma cama. A solidão descobrira que o lugar mais seguro para esconder-se era exatamente no centro da multidão.

Não havia mais desertos.

As pessoas haviam se tornado desertos.

Cada consciência carregava um clima próprio de estiagem. O pensamento secava antes de amadurecer. As emoções evaporavam antes de encontrarem linguagem.

Tudo precisava nascer pronto, explicado, resumido, traduzido em imagens pequenas o suficiente para caberem entre dois anúncios. A lentidão passou a ser interpretada como defeito biológico.

O espírito tornou-se incompatível com a velocidade.

O silêncio, que outrora permitia ao ser humano encontrar-se consigo mesmo, passou a ser percebido como uma falha do sistema.

Era necessário preencher cada segundo com algum ruído: uma música, um vídeo, um comentário, uma conversa superficial, qualquer coisa que impedisse a aproximação daquela pergunta antiga que atravessa todas as épocas: “Quem permanece quando tudo se cala?”

Poucos ousavam escutá-la.

Responder era impossível.

Ignorá-la parecia mais confortável.

A tecnologia, que prometera ampliar horizontes, acabou reduzindo a paisagem interior. O infinito foi comprimido na dimensão de uma tela. A experiência humana passou a ser organizada por algoritmos cuja maior virtude consistia em impedir qualquer surpresa verdadeira. 

O inesperado tornou-se inconveniente. O espanto passou a ser tratado como erro estatístico.

Já não se descobria.

Consumiam-se descobertas previamente calculadas.

O acaso foi domesticado.

Até o destino começou a parecer previsível.

O ser humano deixou de caminhar para procurar alguma coisa. Caminhava porque o aplicativo indicava uma rota. 

Lia porque alguém recomendava. Pensava porque outro já havia pensado primeiro. Revoltava-se conforme o assunto do dia. Esquecia obedecendo ao calendário invisível das tendências.

A liberdade sobrevivia apenas como estética.

Era uma fotografia antiga pendurada na parede de uma casa abandonada.

A autonomia foi lentamente substituída pela personalização. Pareciam conceitos semelhantes, mas eram inimigos silenciosos. A autonomia exige decisão; a personalização apenas adapta a prisão ao gosto do prisioneiro. Escolhiam-se as cores da cela, mas jamais suas paredes.

Chamavam isso de liberdade.

Talvez porque toda prisão confortável dispense grades.

A própria identidade tornou-se um projeto interminável. Durante séculos, buscava-se descobrir quem se era. Agora, fabricava-se continuamente quem se desejava parecer. A existência converteu-se em design.

Cada dia exigia uma nova versão.

Cada versão precisava superar a anterior.

Nenhuma delas sobrevivia até a semana seguinte.

As máscaras deixaram de esconder o rosto.

Passaram a substituí-lo.

Houve um tempo em que a mentira precisava esconder-se da verdade. Hoje, a verdade pede licença para existir entre versões mais agradáveis dela mesma. 

A sinceridade tornou-se grosseira porque insiste em possuir arestas. As pessoas preferem narrativas cuidadosamente polidas, ainda que completamente vazias.

A realidade perdeu valor de mercado.

A aparência tornou-se o principal ativo financeiro da alma.

Tudo precisava parecer extraordinário. Um café deixava de ser café para tornar-se experiência gastronômica. 

Uma caminhada precisava transformar-se em jornada de autoconhecimento. Um simples amanhecer exigia legenda filosófica. O cotidiano passou a sentir vergonha de sua simplicidade.

Mas a vida continua acontecendo nas coisas pequenas.

Enquanto todos fotografavam o pôr do sol, ninguém percebia a escuridão crescendo por dentro.

O amor sofreu a consequência mais devastadora dessa mutação invisível.

Antes, amar era reconhecer no outro um mistério impossível de possuir completamente. 

Havia humildade nesse reconhecimento. Existia beleza justamente porque sempre permanecia alguma região desconhecida.

Agora, desejava-se transparência absoluta.

Tudo precisava ser explicado, compartilhado, monitorado, validado. O mistério tornou-se ameaça.

A confiança foi substituída pela vigilância. O cuidado converteu-se em controle.

Chamavam ciúme de zelo.

Chamavam dependência de intensidade.

Chamavam posse de compromisso.

Pouco a pouco, o amor deixou de ser encontro entre duas liberdades para transformar-se em contrato entre duas carências.

Não se buscava alguém para caminhar ao lado, mas alguém capaz de anestesiar provisoriamente o próprio vazio.

O outro deixou de ser sujeito.

Transformou-se em remédio.

E todo remédio perde efeito quando utilizado para curar aquilo que pertence à própria existência.

Foi então que surgiu uma epidemia silenciosa.

Pessoas emocionalmente exaustas.

Não por excesso de sofrimento.

Mas por excesso de superficialidade.

A superfície exige esforço permanente. É preciso mantê-la brilhando. A profundidade, ao contrário, aceita até mesmo a escuridão.

No entanto, poucos ainda possuíam coragem para mergulhar.

Mergulhar tornou-se perigoso.

Ali habitavam perguntas.

E perguntas verdadeiras jamais oferecem conforto.

Elas retiram o chão.

Mostram que o edifício inteiro talvez tenha sido construído sobre areia.

Foi assim que a moral também começou a dissolver-se. Não através de grandes revoluções, mas pela lenta substituição da consciência pela conveniência. 

O certo passou a depender do número de compartilhamentos. O justo passou a obedecer às estatísticas da aprovação coletiva.

A ética transformou-se em enquete.

A consciência tornou-se refém da audiência.

Ninguém perguntava mais se determinada ação era boa.

Perguntava-se apenas se seria aceita.

A coragem desapareceu discretamente. Não foi assassinada. Foi ridicularizada. Tornou-se antiquada diante da eficiência das adaptações. Aprendeu-se a sobreviver modificando convicções conforme a direção do vento. 

A coerência começou a parecer fanatismo. A firmeza tornou-se sinônimo de inflexibilidade.

O caráter converteu-se em software.

Recebia atualizações constantes.

Até perder completamente sua versão original.

Nesse cenário, a esperança assumiu uma forma curiosa. Já não acreditava na transformação do mundo. Limitava-se a esperar pela próxima distração. Um novo lançamento. 

Um novo escândalo. Uma nova polêmica. Um novo consumo. A expectativa deslocou-se do futuro para a novidade.

O amanhã morreu.

Restou apenas o próximo minuto.

Talvez fosse essa a verdadeira arquitetura do vazio: construir uma civilização tão ocupada consigo mesma,  que jamais encontrasse tempo para perguntar por que existia. Uma engenharia perfeita da dispersão. Um urbanismo espiritual onde,  cada avenida conduzia inevitavelmente ao mesmo lugar: um centro completamente desabitado.

As cidades cresceram.

Os edifícios tocaram as nuvens.

As redes conectaram continentes.

As inteligências artificiais aprenderam a conversar.

Mas algo infinitamente mais simples desapareceu sem deixar vestígios.

A capacidade de permanecer diante de outro ser humano sem desejar escapar.

Porque fugir tornou-se um hábito.

Permanecer tornou-se um ato revolucionário.

E ninguém mais parecia disposto a habitar aquilo que mais temia encontrar: o silêncio onde a própria alma, finalmente despida de todas as conexões, perguntava se ainda existia alguém vivendo dentro dela ou se restava apenas uma bela construção erguida para proteger um vazio que, há muito tempo, deixara de ser ausência para tornar-se o único morador permanente da casa chamada humanidade.

O vazio possui uma inteligência silenciosa.

Ao contrário da dor, ele não grita. Ao contrário da tristeza, não exige lágrimas. Diferentemente do desespero, não ameaça destruir imediatamente aquilo que toca. Sua estratégia é mais refinada. Ele acomoda. 

Aprende a decorar os cômodos da consciência até que seus habitantes deixem de perceber sua presença. Um dia, descobre-se que toda a existência foi organizada ao redor dele, como uma cidade construída para proteger uma ruína cuja origem ninguém mais recorda.

Talvez por isso o mundo parecesse tão funcional.

Funcionava perfeitamente.

Produzia.

Consumiria ainda mais.

Compartilhava.

Competia.

Acumulava.

Exibia.

Apenas…  não vivia.

A vida fora reduzida à administração permanente da sobrevivência simbólica. Já não bastava existir. Era necessário provar continuamente que se existia. Cada fotografia representava um certificado provisório de presença.

Cada comentário era um pedido de reconhecimento. Cada aprovação pública funcionava como uma respiração artificial aplicada sobre uma identidade incapaz de sustentar-se sozinha.

A existência tornara-se dependente do olhar alheio.

Quando ninguém observava, algo dentro do ser humano começava lentamente a desaparecer.

Era curioso perceber que a maior invenção da época não fora a inteligência artificial.

Fora a artificialização da inteligência.

Pensar tornou-se perigoso porque pensar interrompe o fluxo. Quem pensa profundamente desacelera. Quem desacelera deixa de produzir.

Quem deixa de produzir torna-se invisível para uma sociedade cuja religião é o desempenho. Assim, até a contemplação passou a carregar uma aparência de culpa.

O descanso perdeu sua inocência.

Era preciso justificá-lo.

Era preciso transformá-lo em produtividade futura.

Até o lazer passou a trabalhar.

A alma nunca teve férias.

Esgotava-se em silêncio.

A exaustão tornou-se uma medalha invisível. Quanto mais cansado alguém estivesse, maior parecia seu valor social. O sofrimento deixara de ser um problema para converter-se em capital moral. 

Todos competiam para demonstrar quem suportava a agenda mais cruel, quem dormia menos, quem respondia mais rapidamente, quem permanecia permanentemente disponível.

A disponibilidade substituiu a presença.

Estava-se acessível.

Jamais presente.

A presença exige inteireza.

A conexão exige apenas sinal.

Pouco a pouco, o corpo começou a denunciar aquilo que a linguagem insistia em esconder. Ansiedade, insônia, crises de pânico, depressões sem nome, uma angústia difusa espalhando-se como neblina entre pessoas incapazes de explicar por que sofriam. Procuravam causas imediatas quando a origem encontrava-se muito mais profundamente enterrada.

O espírito havia sido amputado.

Continuava vivo.

Mas aprendera a caminhar sem parte de si.

A medicina oferecia diagnósticos.

A economia oferecia soluções.

A publicidade oferecia desejos.

O entretenimento oferecia distrações.

Ninguém oferecia significado.

Porque o significado não pode ser vendido.

Ele exige demora.

Exige fracasso.

Exige silêncio.

Exige uma coragem que o mercado jamais conseguiu transformar em mercadoria.

As antigas religiões perderam espaço não apenas porque deixaram de convencer, mas porque o próprio mistério tornou-se insuportável.

O homem contemporâneo deseja respostas antes mesmo de formular perguntas. A dúvida tornou-se uma espécie de doença cognitiva.

Tudo precisa ser explicado.

Tudo precisa ser classificado.

Tudo precisa caber em categorias.

Mas a existência sempre escapou das classificações.

O amor, sobretudo.

Durante séculos, o amor era a experiência que desmontava qualquer arquitetura racional. Ele interrompia projetos, desmontava certezas, colocava o indivíduo diante de sua própria vulnerabilidade. Amar era aceitar perder parte do controle sobre si.

Agora ama-se,  exatamente para manter o controle.

Calculam-se compatibilidades.

Monitoram-se comportamentos.

Interpretam-se mensagens.

Cronometram-se respostas.

Mensura-se interesse.

Audita-se afeto.

O coração aprendeu contabilidade.

E esqueceu poesia.

O beijo transformou-se em protocolo.

O desejo converteu-se em algoritmo.

Até a saudade tornou-se inconveniente.

Ela demora demais.

A sociedade da aceleração não suporta aquilo que amadurece lentamente. Uma árvore é lenta. Um velho é lento. Um livro é lento. O perdão é lento. A confiança é lenta. O amor verdadeiro é quase geológico.

Mas tudo ao redor exige velocidade.

Por isso as raízes começaram,  a surgirem com defeitos.

Preferiram plantas artificiais.

Jamais crescem.

Jamais morrem.

Jamais vivem.

Também as relações humanas aprenderam essa estética do plástico. Tornaram-se resistentes, bonitas e absolutamente incapazes de produzir frutos.

Havia uma estranha economia afetiva em funcionamento.

As pessoas economizavam entrega.

Economizavam sinceridade.

Economizavam tempo.

Economizavam vulnerabilidade.

Guardavam tudo para um futuro que jamais chegava.

No fim, acumulavam reservas emocionais que nunca seriam utilizadas.

Morreram ricos de sentimentos nunca compartilhados.

Talvez esse fosse o maior desperdício da história.

Não petróleo.

Não ouro.

Não florestas.

Mas ternuras que jamais encontraram coragem para existir.

Enquanto isso, a infância desaparecia cada vez mais cedo. As crianças aprendiam a produzir versões de si antes mesmo de descobrirem quem eram.

Cresciam diante de espelhos digitais que devolviam imagens cuidadosamente corrigidas. O erro tornou-se proibido.

Mas somente quem erra descobre alguma coisa.

A perfeição é estéril.

O fracasso sempre foi mais fértil que o sucesso.

Entretanto, ninguém queria fracassar.

Fracassar significava desaparecer.

Assim nasceu uma geração inteira aterrorizada pela possibilidade de não ser extraordinária.

Como se a beleza da existência dependesse da exceção.

Quando, talvez, sua grandeza estivesse justamente na simplicidade de uma vida comum.

Uma conversa sem registros.

Um abraço sem fotografia.

Um passeio sem localização.

Uma lágrima sem testemunhas.

Um amor sem plateia.

Mas isso já parecia pertencer,  a outra civilização.

A intimidade tornou-se clandestina.

O recolhimento adquiriu aparência de resistência política.

Estar sozinho passou a ser quase um gesto revolucionário.

Porque quem suporta permanecer consigo mesmo já não pode ser facilmente manipulado.

Quem conhece o silêncio torna-se menos dependente do ruído.

Quem encontra sentido dentro de si compra menos ilusões.

Talvez fosse exatamente isso que tornava o vazio tão indispensável ao funcionamento daquela época. Ele precisava permanecer habitável. Não podia revelar sua verdadeira natureza. 

Precisava parecer confortável, moderno, eficiente, elegante. Precisava convencer seus moradores de que aquela ausência era, na verdade, liberdade.

E eles acreditavam.

Decoravam cuidadosamente suas celas.

Chamavam de autonomia aquilo que era apenas isolamento sofisticado.

Chamavam de independência aquilo que era incapacidade de confiar.

Chamavam de autenticidade a fabricação incessante de personagens.

Chamavam de felicidade a interrupção momentânea da angústia.

No fundo, a arquitetura permanecia intacta.

Belíssima.

Iluminada.

Premiada.

Inteligente.

Conectada.

Mas bastava apagar todas as telas por alguns minutos para que se ouvisse, ecoando entre as paredes invisíveis daquela construção monumental, um som antigo que nenhuma tecnologia conseguira eliminar.

O som da própria ausência.

Porque nenhuma civilização desmorona quando perde seus edifícios.

Ela começa a ruir quando seus habitantes já não conseguem reconhecer o rosto do outro, nem suportar o peso do próprio silêncio, transformando a existência numa sucessão interminável de corredores perfeitamente iluminados que conduzem sempre ao mesmo aposento vazio, onde a única coisa realmente habitável é aquilo que lentamente deixou de ser apenas falta e passou a constituir a própria estrutura da condição humana contemporânea.

Talvez nenhuma época tenha confundido tão profundamente progresso com deslocamento. Caminhava-se sem cessar, mas já não importava para onde. O movimento bastava como justificativa.

A velocidade tornou-se uma forma de esquecer que toda direção exige um destino. Assim, as estradas multiplicaram-se enquanto os caminhos desapareciam.

A humanidade passou a acreditar que avançava porque tudo ao redor se movia.

Mas o deserto também muda de forma quando o vento sopra.

E nem por isso deixa de ser deserto.

Houve um tempo em que as cidades eram construídas ao redor de praças. As praças permitiam que o olhar repousasse sobre outro olhar. Eram arquiteturas da convivência. 

Depois vieram os grandes centros comerciais, onde o encontro foi lentamente substituído pelo consumo. Agora surgiam espaços ainda mais silenciosos: ambientes onde nem mesmo o corpo precisava comparecer. Bastava a projeção de sua imagem.

O ser humano retirou-se da própria presença.

Delegou sua existência às representações.

Como,  antigos reis que governavam por meio de emissários, passou a viver através de perfis, fotografias, estatísticas, históricos de navegação, registros de localização, preferências calculadas e memórias armazenadas em servidores mais duradouros que sua própria carne.

Talvez nunca tenha existido uma época tão obcecada pela permanência.

E tão incapaz de permanecer.

Os vínculos dissolviam-se com a facilidade das palavras escritas sobre a água. Promessas tinham prazo de validade inferior ao entusiasmo que as produzia. Juramentos envelheciam antes da primeira dificuldade.

A fidelidade tornou-se um conceito arqueológico, como colunas de templos soterrados por uma civilização que já não compreendia a linguagem das próprias ruínas.

O amor continuava sendo pronunciado.

Mas sua gramática havia morrido.

Restavam apenas os substantivos.

Os verbos desapareceram.

Já ninguém sabia conjugar “cuidar”, “esperar”, “renunciar”, “perdoar”, “permanecer”. O amor foi reduzido a um sentimento, quando sempre fora, sobretudo, uma disciplina da presença. 

Amar exigia construir diariamente uma casa dentro do outro. Agora preferia-se,  alugar quartos provisórios na superfície das pessoas.

Era mais barato emocionalmente.

Também era infinitamente mais solitário.

A moral seguiu o mesmo destino. Não caiu por causa de grandes catástrofes ideológicas, nem foi destruída por revoluções sangrentas. Foi corroída pelo hábito aparentemente inofensivo da indiferença.

O mal já não precisava de convicções. Bastava distração. Bastava que todos permanecessem suficientemente ocupados consigo mesmos para não perceberem a dor alheia.

A crueldade perdeu o rosto.

Vestiu a máscara da pressa.

Enquanto isso, a consciência era lentamente terceirizada. Pensavam as plataformas. Escolhiam os algoritmos.

Recordavam os dispositivos. Calculavam as máquinas. O homem conservava apenas a sensação de decidir. Sua liberdade transformara-se numa elegante interface gráfica.

Nunca a servidão foi tão confortável.

As correntes aprenderam a sorrir.

Talvez fosse essa a mais perfeita realização do vazio: convencer seus habitantes de que ele era plenitude. 

Como um edifício cuja estrutura inteira repousasse sobre o nada, mas cuja decoração fosse tão sofisticada que ninguém ousasse perguntar pelos alicerces.

Entretanto, toda arquitetura possui fissuras.

E toda fissura possui memória.

Às vezes ela surgia durante a madrugada, quando a luminosidade das telas finalmente cedia lugar à escuridão do quarto. Às vezes aparecia diante de um espelho, onde a própria imagem parecia devolver um desconhecido.

Outras vezes manifestava-se em meio a centenas de pessoas, quando uma inexplicável sensação de abandono atravessava o peito sem qualquer motivo aparente.

Era o vazio chamando pelo seu verdadeiro nome.

Não um inimigo.

Não uma doença.

Mas a prova silenciosa de que nenhuma tecnologia conseguiria substituir aquilo que constitui a essência da experiência humana: a necessidade de sentido.

O problema é que o sentido jamais aceita ser produzido em escala industrial.

Ele nasce lentamente.

Como nasce uma floresta.

Como amadurece uma amizade.

Como envelhece um amor.

Como se constrói uma consciência.

Nada disso suporta aceleração.

Nada disso admite atalhos.

Por essa razão, a sociedade preferiu fabricar simulacros. 

Criou,  versões rápidas da felicidade, cópias instantâneas do pertencimento, reproduções digitais da intimidade, caricaturas do reconhecimento. E, durante algum tempo, acreditou que a encenação bastaria.

Mas toda representação depende da existência de um original.

Quando o original desaparece, resta apenas um teatro encenado para plateias igualmente fictícias.

No fim, ninguém mais sabia distinguir quem observava e quem era observado.

Quem desejava e quem apenas reproduzia desejos alheios.

Quem falava e quem apenas ecoava vozes produzidas em algum lugar invisível.

O silêncio, então, retornava.

Não como castigo.

Mas como a última linguagem ainda incapaz de mentir.

Porque o silêncio nunca promete.

Nunca seduz.

Nunca vende.

Ele apenas revela.

E aquilo que revelava era insuportavelmente simples.

Toda aquela civilização monumental, revestida de fibra óptica, inteligência artificial, comunicação instantânea, mercados globais e promessas infinitas, continuava incapaz de responder à pergunta que acompanha o homem desde que aprendeu a contemplar o próprio reflexo na água: Para que existir?

Talvez nenhuma resposta definitiva seja possível.

Talvez jamais tenha sido.

Mas houve épocas em que essa pergunta era compartilhada ao redor de uma mesa, de uma fogueira, de um livro, de um abraço ou de um olhar demorado. Agora ela era sufocada por notificações antes mesmo de terminar de nascer.

E uma pergunta que não pode amadurecer transforma-se em ansiedade.

Uma consciência que não suporta o silêncio transforma-se em ruído.

Uma sociedade incapaz de amar transforma o afeto em mercadoria.

Uma moral sem transcendência converte-se em estatística.

Uma liberdade sem interioridade reduz-se à escolha entre vitrines.

Foi assim que o edifício chegou ao fim de sua construção.

Não havia teto desabando.

Não havia incêndios.

Não havia guerras atravessando suas paredes.

Tudo permanecia impecavelmente organizado.

Os corredores brilhavam.

Os elevadores funcionavam.

As janelas refletiam um céu artificialmente azul.

As portas abriam-se automaticamente.

As vozes continuavam circulando por cabos invisíveis.

As imagens viajavam à velocidade da luz.

As máquinas aprendiam.

Os mercados cresciam.

As cidades respiravam.

As pessoas sorriam.

E, exatamente por isso, quase ninguém percebeu que o edifício nunca fora uma moradia.

Era apenas um monumento cuidadosamente projetado para tornar o vazio confortável o suficiente para ser confundido com lar.

Talvez essa tenha sido a maior obra arquitetônica da modernidade.

Não construir cidades.

Nem erguer impérios tecnológicos.

Nem conectar continentes.

Mas ensinar milhões de pessoas a habitarem a própria ausência sem jamais chamá-la pelo nome.

E quando o último brilho das telas finalmente se apagar, quando todas as conexões regressarem ao silêncio primordial de onde vieram, talvez reste apenas aquilo que sempre esteve escondido sob os alicerces dessa construção magnífica: um ser humano diante de si mesmo, sem testemunhas, sem algoritmos, sem máscaras, sem audiência, descobrindo tarde demais que nenhuma arquitetura, por mais perfeita que seja, consegue oferecer abrigo àquele que passou a vida inteira fugindo da única morada que jamais poderia abandonar: a própria consciência.

Clayton Alexandre Zocarato

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Entre o olhar e o beijo

Marli Freitas: Poema ‘Entre o olhar e o beijo’

Marli Freitas
Marli Freitas
https://www.meta.ai/share/c/dJQzRbIpeg?utm_source=android_meta_ai_sl&utm_campaign=wa_convo_share

Entre os ramos e o voo dos pássaros,
Há uma liberdade que clareia
O discorrer do milagre que traz poesia.

Entre o sonho e a realidade, posso sentir
Que tudo está como deveria – em
Movimento de renovação e expansão.

Entre as imponentes serras da minha
Terra e o céu, posso ver a beleza
Do mundo desenhando o infinito.

Entre o aqui e o agora, dançam
As mais ecléticas memórias que
Saúdam o instante – natureza notória.

Entre o ser ou não ser, a jornada
Acontece à sombra do pensamento, a
Gosto da vida, às respostas do tempo.

Entre a nudez e a flor, uma pausa
Faz refletir (tudo passa). Depois do medo
Vem a coragem; depois da dor, a alegria.

Entre o olhar e o beijo – vai-se o dia,
Vem a saudade – enquanto o sol
Deita-se em cálice sobre os arbustos.

Marli Freitas

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