A FLAUS – Feira do Livro e Autores Sorocabanos chega à sua 9ª edição, consolidando-se como um dos mais importantes eventos literários da região. Idealizada em 2017 pelo historiador e escritor Carlos Carvalho Cavalheiro, a feira nasceu com o propósito de ser uma vitrine para a produção literária, especialmente de autores independentes, ampliando seu alcance e reunindo escritores, leitores, pesquisadores, educadores e amantes da cultura.
O evento será realizado nos dias 12, 13 e 14 de dezembro, no SESC Sorocaba (Rua Barão de Piratininga, 555 – Jardim Faculdade), e contará com feira de livros, palestras, oficinas, lançamentos literários, homenagens e atividades culturais.
Além de autores sorocabanos e da região, a FLAUS também abre espaço para escritores de outras localidades, fortalecendo diálogos culturais e ampliando o impacto da produção literária independente.
A FLAUS recebe apoio cultural do SESC Sorocaba, da Lexmediare, da Caravana Literária, de Dado Carvalho, da Editora Cubíle, Associação Cultural de Fomento a Arte e à Memoria de Sorocaba e Região e do Juca Pincel. Nas redes sociais da Feira há a ‘FLAUS Virtual’, com entrevistas realizadas por Adriana Rocha com diversos convidados.
PROGRAMAÇÃO OFICIAL
📅 Sexta-feira – 12 de dezembro 14h – Abertura com homenagem à Ana Maria Souza Mendes, por Carlos Carvalho Cavalheiro Homenagem póstuma a Ademir Barros dos Santos, Marcelo Boraczynski, Neide Baddini Mantovani e Érica Simoni P. Divino.
14h30 – Cerimônia de premiação do Concurso Literário da FLAUS 2025 Mediação: Cíntia Laud, Jéssica Belchiór e Juliete Vasconcelos
15h – Palestra: “Xadrez como auxílio pedagógico e inclusão social” – Roberto Camara
18h às 19h30 – Oficina: “Como escrever e publicar um livro infantil” – Maurício Dell’Osso
19h30 às 21h – Oficina de Crônicas – Carlos Araújo
📅 Sábado – 13 de dezembro 10h30 às 12h – Palestra: “Jornal Cultural ROL: 31 anos a serviço da cultura” – Sergio Diniz
13h30 às 15h – Oficina: “A arte do terror em palavras” – Jéssica Belchiór
15h às 17h – Oficina: “Cultura Popular e Políticas Públicas de Fomento” – Cataia
📅 Domingo – 14 de dezembro 10h30 às 12h – Sarauzinho: Um convite para o ler e o recitar infantil – João Almeida
13h às 14h30 – Palestra: “Anjos do caminho: peregrinação a Santiago de Compostela” – Salvador Mor
14h30 às 16h30 – Palestra: “O recomeço a partir do fim: Milagreiros e Milagreiras de Cemitério” – Thiago de Souza
LANÇAMENTOS LITERÁRIOS 📚 Sexta-feira – 12 de dezembro | 16h30 Maurício Dell’Osso • IL MONDO COLORATO DI JUCA PINCEL: MANGIANDO COLORATO Versão italiana de O Mundo Colorido de Juca Pincel – Comendo Colorido, premiado como Melhor Livro Infantil no Prêmio Sorocaba de Literatura 2019. Ensina alimentação saudável por meio de cores.
• THE COLORFUL WORLD OF JUCA PINCEL: THE LITTLE COLORFUL WITCH Versão em inglês de A Bruxinha Colorida, abordando diversidade, bullying e aceitação. Redes: IG: @jucapincel | FB: Juca Pincel | YouTube: Juca Pincel | Site: jucapincel.com.br
Antonio Luiz Pontes e José Osmir Fiorelli • Inferismos Reflexões curtas que combinam aforismos e inferências, com foco no autoconhecimento, filosofia de vida e comportamento humano.
Salvador Mor • Anjos do Caminho Relato sensível e bem-humorado da peregrinação do autor a Santiago de Compostela, alternando memórias, espiritualidade, filosofia e experiências de viagem. Podcast/ vídeo: https://youtu.be/ncIGJGoaThA?si=O1lrgL1Ievfif8xh
Gel Lima • O encontro de Pepo Livro infantil inclusivo que apresenta as formas geométricas de forma sensível, pensado para crianças neurodivergentes. IG: @lima_ilustra
Carlos Carvalho Cavalheiro • Caminhos, Viagens, Rumos e Trilhas – Relatos de aventuras Memórias de viagens do autor, da adolescência até 2023, incluindo um relato sobre o show de Raul Seixas em Sorocaba.
📚 Sábado – 13 de dezembro | 17h Fernanda Balloi • O silêncio que grita
Narrativa autobiográfica de trauma, sobrevivência e reconstrução, abordando abuso sexual, depressão, fé, terapia e cura. IG: @balloif | Livro: https://clubedeautores.com.br/livro/o-silencio-que-gritaMaria
Maria Teresa Coan • Versos miúdos e pequenos silêncios Poesias delicadas sobre cotidiano, afeto, memória e sensibilidade. IG: @psic_mariateresacoan
Pâmela Abreu • Um Mundo Só Meu (TEA) Poemas e reflexões que convidam o leitor a ver o mundo pelo olhar de uma criança autista. IG: @pamelaabreuescritora
📚 Domingo – 14 de dezembro | 16h30 Adelgício • EU, primeira pessoa do SINGULAR! Coletânea de poesias autorais em tom intimista, incluindo experimentos poéticos em russo, francês e inglês.
Gil Miri • Onde os sorrisos dormem Narrativa poética sobre afetos adormecidos e a transformação que nasce do encontro entre um senhor e um menino. IG: @gilbertomiri
Sandro Aranha • O forró de Sorocaba Registro histórico do forró universitário na cidade desde 2000, com personagens, memórias e espaços do movimento. Contato: (15) 99111-9830 | Email: sandroaranha@hotmail.com Redes: Forró de Sorocaba e Sorocaba Através da História
Sobre a FLAUS Criada em 2017, a FLAUS busca valorizar a literatura sorocabana, fortalecer o mercado editorial independente e criar um espaço permanente de encontro entre autores e leitores. Em sua 9ª edição, reafirma seu papel como um dos grandes eventos culturais da cidade, promovendo diversidade literária, inclusão e diálogo entre diferentes expressões culturais.
Eduardo Cesario-Martínez, sempre “com um sorriso permanente nos lábios¨, é um premiado escritor carioca, atualmente radicado em Porto alegre, cidade pela qual é apaixonado. Seu primeiro livro, o romance ‘Despido de ilusões’, 2004, figurou entre os mais lidos do Centro Cultural Banco do Brasil.
Em 2025, foi o vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector, na categoria livro de contos com ’57 Contos e crônicas por um autor muito velho’, que saiu pela Joanin Editora.
Seus contos e crônicas, que já ultrapassaram a incrível marca de 1.000 publicações, são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP. É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).
Divide a editoria Café Literário do Notibras com o poeta e escritor Daniel Marchi e a jornalista e poeta Cecília Baumann.
Eduardo estreia como colunista do ROL com a saborosa crônica ‘O pai do rock foi um péssimo caçador’.
O pai do rock foi um péssimo caçador
Eduardo Martínez e o amigo Márcio Petracco. Foto por Irene Oliveira
Um dia desses, quando estava jogando conversa fora com o meu amigo Marcio Petracco lá no cachorródromo do Tesourinha, aqui na aprazível Porto Alegre, eis que ele diz algo que me deixou com um monte de pulgas atrás da orelha: “Dudu, o pai do rock and roll foi um péssimo caçador lá das savanas africanas”.
A princípio, imaginei que o meu amigo estivesse digerindo mais uma ressaca, até que ele prosseguiu com a sua tese de doutorado ao longo de mais de 40 anos de virtuose sobre os palcos da vida. Eu, um mero apreciador de música, decidi prestar atenção na fala do Marcio, mesmo porque estava com aquela tarde livre. Afinal, artista mais que tarimbado, o meu amigo entende muito mais de música do que eu.
— Dudu, o lance é o seguinte. Saca berimbau?
— Sim, sei o que é. Aquele instrumento usado na capoeira.
— Exato! Tire a cabaça. O que dá?
— Um arco?
— Sim, muito bem, meu garoto!
A tal tese do Marcio era sobre o berimbau ter surgido de um arco e flecha. Faz sentido, pelo menos para mim, logo que o meu amigo me disse que o primeiro instrumento de cordas nasceu depois que um caçador, aquele mesmo lá das longínquas savanas africanas, estava caçando, digamos, um antílope. Eis que ele erra o alvo, mas se surpreende com o som da corda, a única corda, que ecoa em seus ouvidos privilegiados.
Pois bem, para tornar a história mais interessante aos meus ouvidos, eis que o Marcio alcunhou aquele caçador malsucedido de Sol, uma das sete notas musicais. E lá estava o Sol, curioso como ele só, quando começou a tocar a corda do seu arco e flecha. Toca daqui, toca dali, começa a tirar ritmos e sons diversos, até que, usando sua capacidade criativa, resolve colocar a corda entre os lábios. Ele se surpreende com o som que ecoa por sua cavidade bucal.
Provavelmente o nosso amigo caçador precisava comer para sobreviver. Não dava para ele viver apenas de música. Isto é, até que um outro caçador, este muito bem-sucedido, gostou daqueles sons tirados pelo Sol. Vamos apelidar esse grande caçador de Talib.
De tão bom caçador que era, Talib resolveu fazer um banquete para todo o povoado. Obviamente que precisava de música para o rega-bofe. Então, o Talib chamou o Sol, que, a essa altura, já havia incrementado seu arco com uma cabaça. Estava criado o berimbau!
O sucesso foi tamanho, que a notícia daquela festança correu toda a savana africana. Sol ficou tão famoso, que a linda Zuri se interessou por ele. Casaram-se e tiveram seis filhos; Dó, Ré, Mi, Fá, Lá e a pequena Si.
O Marcio disse também que o nosso querido Sol deve ter incrementado seu berimbau com mais uma corda. Depois com três, quatro e assim por diante. E, se não foi o Sol, com certeza foi algum dos seus descendentes. Seja como for, o fato é que todos os instrumentos de corda são herdeiros do arco e flecha daquele péssimo caçador de antílopes lá das longínquas savanas africanas.
Confesso que gostei tanto da teoria do meu amigo, que hoje em dia não consigo ouvir Johnny B. Goode sem imaginar o velho Sol animando toda aquela gente há milhares de anos lá na África. Se isso aconteceu dessa maneira, não posso afirmar. Mas tenho certeza de que o Marcio, além de músico fantástico, é um excelente contador de histórias. Ele inclusive me confessou: “Dudu, isso que te contei não está documentado, mas é baseado em causo venéreo”.
Pajé Pitotó participará da FLAUS – Feira do Livro e Autores Sorocabanos
Pajé Pitotó– DivulgaçãoPajé Pitotó – Divulgação
O pajé Elias Samuel dos Santos Auã Adju, conhecido como Pajé Pitotó, estará presente na 9ª edição da FLAUS – Feira do Livro e Autores Sorocabanos, que acontece de 12 a 14 de dezembro, no SESC Sorocaba, localizado na Rua Barão de Piratininga, 555, Jardim Faculdade.
A FLAUS foi idealizada em 2017 pelo historiador e escritor Carlos Carvalho Cavalheiro e, desde então, consolidou-se como um espaço de valorização da produção literária, com especial atenção aos autores independentes de Sorocaba e região.
A feira, no entanto, mantém sua vocação aberta e plural, acolhendo também escritores de outras localidades — como é o caso de Pitotó, que vem de Peruíbe para participar do evento.
Esta será a segunda participação do pajé em atividades culturais na cidade. Em agosto do ano passado, ele esteve em Sorocaba durante a Feira Cultural Sorocaba, evento de temática mística realizado entre os dias 16 e 18 de agosto, na Rua Paes de Linhares, Vila Fiori.
Guardião de saberes tradicionais e profundo conhecedor da cultura Tupi-Guarani, Pajé Pitotó é autor de dois livros, ‘Saberes e conhecimentos ancestrais‘ e ‘História e vida tupi-guarani‘. Nesses livros, Pitotó apresenta histórias, práticas ancestrais, rituais, cantos sagrados, reflexões sobre território e espiritualidade, além de relatos sobre a vida e a memória de seu povo.
A vinda de Pitotó para a FLAUS foi possível graças ao patrocínio e apoio cultural do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Sorocaba, de Adilene Ferreira Carvalho Cavalheiro, do Hotel Plaza Inn Trevo e da Lexmediare Câmara de Mediação e Estudos.
Sua presença na FLAUS reforça o compromisso da feira com a diversidade cultural, o diálogo entre saberes e a valorização das vozes indígenas no cenário literário contemporâneo.
A Cerimônia de Premiação do Troféu Mulher de Pedra – Mulher Empreendedora 2025 foi marcada pela emoção de mulheres que deixam um legado profissional e social para a posteridade
Mesa Plenária: da esquerda para a direita, Evelyn Maçulo,Margareth Rech, Augusto Damas, Príncipe Dom Alexandre Rurikovich Carvalho, Duquesa Cláudia Lundgren e Rita Mello – Foto por Eduardo Rivera
Em reconhecimento aos voos profissionais cada vez mais alto das mulheres, mister se faz, por justiça, o seu reconhecimento público. E foi com fundamento no reconhecimento da mulher nos níveis humano, econômico, literário, artístico, científico e religioso que, desde 2018, o Comendador Augusto Damas tem atuado como gestor da entrega do Troféu Mulher de Pedra.
No dia 27 de novembro, no concorrido Espaço Cultural Higino, deu-se a 3ª edição do Troféu Mulher de Pedra – Mulher Empreendedora 2025, tendo à frente o Comendador Augusto Damas, com o apoio do Comitê de Imprensa de Teresópolis, e tendo como empresários patrocinadoress: Angelus Barcelos Simões – Espaço Pedras e Eduardo José Menezes – Kadu Auto Elétrica.
A cerimônia de premiação foi conduzida pela mestre de cerimônia Patrícia Magno.
Composição da Mesa Plenária
Augusto Damas – Presente do Cite
Professora Rita Mello
Duquesa Cláudia Lundgren
Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho
Margareth Rech – Presente da Oficina de Poesia & Criação
Evelyn Maçulo – Diretora da UCA – Alterdata
Homenageados Especiais :
Príncipe Dom Alexandre de Silva Camêlo Rurikvich Carvalho – Presidente da FEBACLA
Carmelo Rocha – Ativista Social
Graciano Clein – Empresario
Marcelo Edu – Personalidade
Relação da Homenageadas com o Troféu Mulher de Pedra/ Mulher Empreendedora 2025
Arlete Medeiros Mizael – Cuidadora Geriátrica
Ana Cláudia Luiz Rosa -Advogada
Cristina Maria Amaral – Professora
Cláudia Lauand – Médica
Carla Rocha Ferreira – Fisioterapeuta
Cláudia de Souza Arruda – Empresária
Duquesa Cláudia Lundgren– Escritora
Evelyn Maçulo – professora diretora da Uca-Alterdata
Elvira Maria da Silva Crívano – Médica
Gisele Erthal -Odontologa Pediátrica
Isabel Cristina Peres – Fisioterapeuta
Yanara Albuquerque – prof.Dança do Ventre
Janine Simões Monteiro – Cabeleireira
Jéssica Meirelles Oliveira – Studio Jéssica de Oliveira
Patrícia Magno -Pedagoga
Pâmela Marques de Araújo – Esteticista
Rita Mello – Escritora
Rita Lusiê – Jornalista
Roselene do Santo Canto – Missionária evangelista Rosilene do Canto Clien– Fisioterapeuta Wellen Ferreira Barbosa – Professora – Beauty School
Mariana Arruda – Empresária
Solange Victor dos Santos
Luziene Toletino
Fotos do Evento
Banner da cerimônia Troféu Mulher de Pedra – Mulher Empreendedora 2025 – Foto por Eduardo Rivera
Troféu Mulher de Pedra – Mulher Empreendedora 2025– Foto por Eduardo Rivera
Augusto Damas e esposa, Arlete Medeiros Mizael– Foto por Eduardo Rivera
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho, duquesa Cláudia Lundgren e Rita Mello– Foto por Eduardo Rivera
Patrícia Magno – Mestre de Cerimônia– Foto por Eduardo Rivera
Anderson Cássio– funcionário público representante do Poder Judiciário– Foto por Eduardo Rivera
Evelyn Maçulo- professora diretora da Uca-Alterdata– Foto por Eduardo Rivera
Elaine dos Santos: Artigo ‘Príncipes também são sapos’
Elaine dos SantosImagem criada por IA do Grok em 05 de dezembro de 2025, à 15:33 PM (https://grok.com/imagine/post/12407eb8-33fe-4d06-8197-4e643f9a7497)
O casamento nesse formato que conhecemos hoje em dia, com festas reunindo famílias, é uma invenção da classe burguesa, que surgiu na Europa por volta de 1450 ou 1500, o que corresponde ao fim da Idade Média, início da Idade Moderna.
Philippe Ariès, no livro História Social da Criança e da Família, por exemplo, afirma que, antes disso, não havia sequer privacidade entre os membros da família: pai, mãe, filhos, avós, serviçais dormiam todos na mesma peça – geralmente, era o mesmo lugar em que todos faziam as refeições diárias.
Nas classes mais abastadas, o casamento selava uma relação comercial entre o pai da noiva e o futuro marido dela: uma sociedade, tanto que o pai oferecia um dote ao futuro marido dela para que empreendesse em suas novas atividades.
Uma obra exemplar, neste sentido, é Senhora (1874), romance de José de Alencar . Trata-se de um romance da fase mais madura de Alencar e a explicitação de sua crítica social encontra-se, inclusive, na divisão dos capítulos do romance: O preço; Quitação; Posse e Resgate.
Aurélia Camargo, a jovem pobre rejeitada por Fernando Seixas, que a troca por outra mais rica e com um bom dote, literalmente, ‘compra’ Seixas: qual o preço? Ela paga por ele, por sua presença masculina ao lado dela nas festas, nos saraus, nos teatros, até que ele consegue dinheiro suficiente para ‘resgatar-se’. Releia o romance, o final é clássico, classicamente, próprio do Romantismo, apaixonante para quem ainda acredita em príncipes encantados.
Desde a adolescência, eu sempre ironizei muito essa ideia do príncipe encantado: imagine um homem vestido com uma armadura dourada, montado em um cavalo branco, percorrendo a principal avenida da cidade procurando a sua amada. Sem cabimento!
Porém, em 1981, parecia que um príncipe encantado e uma princesa haviam se encontrado e, no dia 29 de julho, no verão europeu, celebravam a sua união. Ledo engano.
Havia três pessoas no casamento; o príncipe era um sapo e a linda princesa sofreu muito, segundo contam. Não havia festas, castelos, viagens e, ao que parece nem os filhos que transformassem a vida de Charles e Diana, os príncipes de Gales.
A separação oficial aconteceu anos depois e, finalmente, um acidente em Paris, França, colocou fim à vida da princesa. O príncipe não era encantado, porque homens e mulheres não são perfeitos, são seres incompletos, com dúvidas, com erros, com medos, com traumas, que, por vezes, fazem muito mal ao (s) outros (s).
O príncipe é encantado nas narrativas, os amores são perfeitos nos romances, contudo, na vida real, as relações demandam compreensão, aceitação, paciência, sentimentos/percepções que parecem estar em falta em um ‘mercado’ que só valoriza estética, aparência, ‘fotos instagramáveis’, pouco conteúdo e zero diálogo.
Este texto representa o meu lamento pelo número desesperador de mulheres mortas por seus maridos, companheiros, ficantes ou mesmo por estranhos. Nunca a vida da mulher foi tão desrespeitada, tanto física quanto emocionalmente.
Há medo, há inquietação, há angústia no seio de uma sociedade que optou pela violência e descarrega-a nos mais frágeis, como mulheres e crianças.
Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘O mistério da rua sem saída’
Logo da seção O Leitor ParticipaImagem criada por IA do ChatGPT em 13 de novembro de 2025, às 07:57 PM
Duas meninas, gêmeas, sete anos, uma Ana Maria, outra Mariana. Ana Maria tinha grandes olhos de um castanho meio mel; Mariana também. Ana Maria com seus cabelos encaracolados, caídos um pouco abaixo dos ombros; Mariana também. Ana Maria adorava sorvete de flocos; Mariana, de morango.
As duas irmãs moravam em uma pequena rua, uma rua sem saída, num bairro bem distante, numa cidade bem grande, num país chamado Brasil. Havia outras crianças na rua da Ana Maria, que também era a rua da Mariana, mas que também era a rua de outras pessoas.
Juliana também morava nessa rua, era amiguinha das gêmeas, tinha cabelos lisos, loiros, caídos bem abaixo dos ombros. Todos a chamavam de Jujuba. Também havia a Gabriela, morena dos cabelos tão grandes que alcançavam o bumbum. Nossa, a Gabriela era tão mandona, gostava de chefiar tudo. Mandar era com ela mesma. Iago era um dos poucos meninos da rua, magro como um palito, negro, dois olhos de jabuticaba bem madura.
A criançada se divertia com as brincadeiras que seus pais e até avós já haviam brincado. Queimada, que essa nova geração cismava em chamar de queimado, pique-esconde, bandeirinha, o mestre mandou. Muitas e muitas brincadeiras. Puxa, como se divertia essa meninada!
Não só havia crianças nessa rua, mas árvores frondosas, principalmente amendoeiras. Quando chovia, e a criançada não queria acabar a brincadeira, todos se protegiam embaixo das árvores. E quando o sol estava muito forte, a galerinha também ficava sob as copas tão protetoras das mesmas árvores.
Alguns gatos circulavam pela rua, uns tinham dono, outros eram da rua mesmo. Um desses errantes era um lindo gato branco, a cauda mais peluda do que o resto do corpo, um pouquinho gordo, mas nada que o impedisse de escalar muros e até mesmo as belas árvores. E mesmo sendo um bichano das ruas, tinha nome e até sobrenome, colocado pelo pessoal da vizinhança. Pois bem, o dito cujo se chamava Virgulino Ferreira da Silva. Mas por que cargas d’água iriam dar um nome desses a um gato, você poderia perguntar. É mais simples do que parece: esse bichano recebeu esse nome como uma referência ao cangaceiro Lampião, que se chamava Virgulino Ferreira da Silva e só tinha um olho. Pois é, o gato Virgulino também só possuía um olho. Ninguém sabe na verdade como ele perdeu o outro ou, se sabe, já se esqueceu.
Quem sempre andava com o Virgulino era um gato de cor cinza azulado, olhos verdes e que sempre se metia em confusão. Já havia escapado da morte diversas vezes e, por esse motivo, ganhara o sugestivo nome de “Elvis não morreu”. Virgulino e Elvis eram amigos inseparáveis, sempre se metendo em encrencas juntos, sempre saindo delas juntos. Eram como unha e carne.
Não poderia deixar de existir nessa história uma gatinha, que por sinal se chamava Sonja ou, para os íntimos, Sonjinha. Uma bela bichana de cor cinza, tigrada, olhos verdes como os do Elvis, mas bem mais dóceis e confiáveis. Ao contrário de Virgulino e seu amigo inseparável, Sonja possuía dono, ou melhor, dona, ou melhor ainda, duas donas: Ana Maria e Mariana ou, se você preferir, Mariana e Ana Maria, as tais gêmeas de que falei logo no início desta história.
Sonja não era a única na casa das duas irmãs, dividia o caixote de madeira com seu filho único, o Dunguinha, um gatinho loiro e de olhos verdes. Ele ainda não havia completado três meses, mas já era o xodó da casa, da rua, enfim, de todos que o conheciam. Era uma coisa de Dunguinha para cá, Dunguinha para lá, todos queriam pegar o filhotinho no colo.
Não só de crianças, árvores e bichanos esta história é feita. Também havia os pais e mães da criançada. Ah, claro, também não podemos nos esquecer dos outros animais como, por exemplo, a Cuca, uma cachorrinha muito simpática, que morava na mesma casa da Sonja. Ela também pertencia às gêmeas Ana Maria e Mariana e, apesar do dito popular, se dava muito bem com os bichanos da casa e até mesmo com os da rua.
Atirei o pau no gato
A criançada estava brincando na rua, numa sexta-feira já perto das dezenove horas, que é a mesma coisa que sete horas da noite. Só que era horário de verão, e o dia continuava claro.
Era um corre-corre para cá, um corre-corre para lá. A patota já havia brincado de pique-bandeira, que alguns chamam de bandeirinha. Também se divertiram muito jogando garrafão. Ei, não pense você que jogar garrafão é sair atirando garrafas nos coleguinhas. Garrafão é o nome de uma brincadeira onde a gente desenha uma grande garrafa no chão. Aí, quem está dentro do garrafão só pode andar com um pé, a não ser que seja você que está tentando pegar seus amiguinhos. Quem está de fora pode usar os dois pés. Bem, mas como eu ia dizendo, a galerinha já havia gastado muita energia em inúmeras brincadeiras divertidas. Então, a Gabriela, a tal menina mandona, chamou todos para brincar de show de calouros. Cada um tinha de cantar uma música, mas podia cantar em dupla, trio ou, até mesmo, todos juntos.
— Eu posso ser a primeira? – Jujuba perguntou.
— Tá bem. Depois vai ser a Mariana – Gabriela disse.
— Mas eu posso cantar com a minha irmã? – quis saber a Mariana.
— Claro que pode, Mariana – concordou a Gabriela.
— E eu não vou cantar? – o Iago perguntou quase chorando.
— Claro que vai, Iago – todos responderam ao mesmo tempo.
Jujuba cantou “O trem maluco” e foi aplaudida por todos. Depois foi a vez das gêmeas cantarem “Cai, cai balão”. Outras crianças cantaram “Marcha soldado”, “Casa engraçada” e outras canções. Quando chegou a vez do Iago, ele não quis cantar sozinho e pediu para que todos cantassem juntos “Atirei o pau no gato”. Não pense você que eles maltratam os animais, mas apenas preferem a versão original àquela que diz “Não atirei o pau no gato”.
Quando terminaram de cantar “Atirei o pau no gato”, alguém, acho até que foi a Ana Maria, perguntou se uma das crianças tinha visto o Virgulino. Ninguém, mas ninguém mesmo soube responder. Pensando bem, a última vez que haviam visto o tal gatinho branco foi pela tarde do dia anterior. E acho que foi o Iago, isso mesmo, foi o Iago quando voltava da escola, que o viu pela última vez.
Gabriela imediatamente organizou duas turmas de busca. A primeira era formada por Jujuba, as gêmeas, Taís e Leila. A outra turma ficou sendo a Gabriela, Amanda, Iago e o Leo, que na verdade se chama Leonardo e é irmão da Leila.
A galera da primeira turma tinha de procurar embaixo dos carros; a outra procurou em cima das árvores. Procuraram, procuraram, procuraram… Puxa, mas como procuraram! E nada de acharem o Virgulino. Ainda estavam procurando quando a mãe da Leila e do Leo os chamaram.
— Leila! Leo! Já tá tarde! Vamos entrando!
Logo em seguida foi a vez da avó do Iago mandá-lo entrar. E as mães, pais e outras pessoas da família foram chamando a criançada para entrar. E todos foram se despedindo dos coleguinhas e entraram para as suas respectivas casas.
Pique-esconde
No dia seguinte, uma sexta-feira, lá estava a garotada da rua sem saída, a rua da Ana Maria e da Mariana, a mesma rua que também era de outras crianças, de árvores frondosas e de vários bichinhos.
— Gente, hoje é sexta-feira, amanhã não temos aula, pois será sábado. Então, podemos brincar até um pouco mais tarde – disse Gabriela, que você já sabe que era mandona.
— É mesmo! Que legal! – foi dizendo Iago.
— Mas estudar também é muito legal – falou a Mariana.
— É isso aí, Mariana! – concordou a Jujuba.
— Podemos brincar de pique-esconde – sugeriu a Ana Maria.
— Bacana! – disse a Taís.
— Maneiro! – concordou a Leila.
Como a maioria queria brincar de pique-esconde, a proposta da Ana Maria foi aceita. Logo estavam todos formando um círculo e gritando “zerinho ou um”. O último a sair contaria até 50 para que os outros se escondessem. E o último a sair foi justamente o Leo.
— Um, dois, três, quatro, cinco… – enquanto o irmão da Leila contava com o rosto virado para o pique, todos se escondiam.
A Ana Maria e a Jujuba se esconderam atrás de uma moita de capim limão, a Mariana foi para trás de um carro, o Iago e a Taís subiram em uma árvore, a Leila e a Gabriela ficaram atrás de uma outra árvore. As outras crianças também se esconderam, cada uma tentando escolher o esconderijo mais perfeito.
Pois é, a galerinha ficou nessa brincadeira por mais de uma hora. Depois do Leo, foi a vez da Jujuba contar até 50 para que todos se escondessem. Mariana e Taís a sucederam. E depois ainda vieram a Gabriela, a Leila e, por último, o Iago. Só a Ana Maria não teve de contar até 50. É, dessa vez, a danadinha teve sorte!
A brincadeira só acabou mesmo porque alguém se lembrou de procurar o Virgulino, que havia sumido e ninguém conseguiu achá-lo. Se não estou enganado, acho que foi a Mariana que se lembrou. Seja como for, a mandona da Gabriela dividiu os grupos como no dia anterior e todos foram procurar o Virgulino.
Era um tal de gritar “Virgulino” pra cá, “Virgulino” pra lá, mas nada do bichano aparecer. De tanto berrarem, as crianças já estavam ficando roucas. Gritaram até que a Taís percebeu que não era só o Virgulino que havia sumido. Ela notou que o amigo inseparável do gatinho desaparecido também não estava por ali.
— Galera, vocês notaram que o Elvis também sumiu? – perguntou a Taís.
Ninguém havia visto o amigo do Virgulino. Então, a Gabriela chamou todo mundo e fez uma grande roda.
— Pessoal, a Taís notou que o Elvis também sumiu. Ontem ele estava aqui, mas hoje desapareceu. O que será que houve com os dois? Será que foram embora da nossa rua? – falou a mandona.
Mas antes que alguém pudesse responder, o pai das gêmeas mandou que elas entrassem. Logo em seguida foi a vez da mãe da Leila e do Leo chamá-los. E assim a criançada foi entrando para as suas respectivas casas, sempre obedecendo aos chamados dos pais, das mães, das avós…
Cobra-cega
O sábado amanheceu ensolarado e logo a garotada estava na rua. A brincadeira já ia começar. A maioria escolheu brincar de cobra-cega, que alguns conhecem por cabra-cega. Só estavam faltando as gêmeas, que ainda não tinham saído de casa. Então, a Gabriela, que era mandona mesmo, falou pro Iago ir chamá-las.
— Puxa, sempre sobra pra mim! – resmungou o garoto de olhos de jabuticaba.
Antes mesmo que o Iago tocasse a campainha da casa da Ana Maria e da Mariana, elas apareceram e falaram ao mesmo tempo:
— Iago, você viu a Sonjinha e o Dunguinha?
— Não. Por quê? Não vão me dizer que eles sumiram também?
— Isso mesmo – respondeu Ana Maria antes da sua irmã.
Os três correram para contar a novidade para a galerinha. Então, a Gabriela dividiu a turma em dois grupos para procurar os dois gatinhos. Aliás, os quatro, pois o Virgulino e o Elvis continuavam desaparecidos. Procuraram, procuraram, procuraram e nada de encontrar os felinos. Onde eles poderiam estar?
Depois de mais de uma hora procurando os gatinhos, a Ana Maria veio conversar com a Gabriela.
— Gabi, estive pensando numa coisa.
— No quê, Aninha? – quis saber a Gabriela.
— Olha, já procuramos os nossos amigos gatinhos em vários lugares, mas até agora nem sinal deles. Então, tive uma ideia!
— Que ideia, Aninha? – quis outra vez saber a Gabriela, que além de mandona era muito curiosa.
— Precisamos da ajuda de mais alguém! – disse a Ana Maria fazendo um certo mistério.
— E de quem? – mais uma vez a mandona e curiosa da Gabriela quis saber.
— Ora bolas, da Cuca! – finalmente disse a Ana Maria.
— Da Cuca? Mas por que da Cuca? – a Gabriela não entendeu.
— Olha, a Cuca é uma cachorrinha e tem um ótimo faro. Ela conhece o cheiro de todos os gatinhos que sumiram. Então, ela vai achá-los! Tenho certeza de que ela irá encontrá-los! – falou a Ana Maria.
— Boa ideia! – disse o Diogo, que estava por perto e acabou ouvindo a conversa das duas.
— É, pode dar certo – concordou a Gabriela.
Depois de chamar toda a criançada da rua, a Gabriela falou para o Iago ir buscar a Cuca, que era a cachorrinha da Ana Maria.
— Iago, vai lá na casa da Ana Maria e traga a Cuca aqui.
— Ah, tudo eu, tudo eu! – resmungou o Iago, mas mesmo assim obedeceu à mandona da rua.
Em menos de cinco minutos, o Iago estava de volta com a Cuca, que veio abanando o rabinho para a garotada. Ela gosta tanto das crianças que acabou por derrubar a Ana Maria e começou a lamber o seu rosto. A Mariana foi tirá-la de cima da irmã, mas a Cuca deu um pulo e a jogou no chão e também lambeu o seu rosto.
— Para, Cuca! Você está me fazendo cócegas – protestou a Mariana.
— Au, au, au! – a Cuca latia chamando todos para brincar.
— Quieta, Cuca! – ordenou a Gabriela.
Até a Cuca sabia que a Gabriela era mandona e, por isso mesmo, saiu de cima da Mariana e se sentou ao seu lado. A Mariana limpou seu rosto das lambidas da cachorrinha danada.
— Aninha, fala pra Cuca procurar os gatinhos – disse a Gabriela.
A Ana Maria se ajoelhou em frente à Cuca, pegou a cabeça da cachorrinha com as suas duas mãozinhas e olhou bem dentro dos olhos dela.
— Cuca, quero que você ache a Sonjinha, o Dunguinha, o Virgulino e o Elvis, que sumiram. Ninguém sabe onde eles estão. Você pode encontrá-los pra mim? – falou a Ana Maria.
— Au, au, au! – respondeu a Cuca.
A cachorrinha, então, colocou o focinho no chão e saiu em busca de uma pista. Ela vinha e voltava, vinha e voltava com o focinho quase arrastando no chão e a cauda levantada. Até que ela foi seguindo para o final da rua, onde parou em frente à casa de um tal Ubaldo Canastra, que havia se mudado há poucas semanas para o bairro.
A Cuca ficou de pé com as patinhas da frente apoiadas no muro da casa. Ela estava inquieta, o rabinho agitado, mas não latia para não chamar a atenção do dono da casa. A Cuca era danadinha, mas também não era boba.
A criançada correu até onde a Cuca estava. Jujuba foi a primeira a falar.
— Galera, os gatinhos estão aí dentro! Vamos entrar e pegá-los!
— Não podemos fazer isso, Jujuba. Quem mora aí é aquele homem estranho, o tal Ubaldo Canastra – disse a Taís.
— A Taís tem razão. Precisamos bolar um plano para salvar nossos amiguinhos – disse a Amanda.
Então, a Gabriela, que você já sabe que era mandona e curiosa, convocou toda a galerinha para uma reunião secreta. Só que quando todos já estavam na tal reunião secreta, a mãe da Gabriela a chamou para almoçar. Não demorou muito e todas a mães, pais, avós, avôs, tias e tios da criançada apareceram na rua para avisar que o almoço já estava na mesa.
O plano
Após o almoço, a gurizada foi saindo de casa. Primeiro foram as gêmeas Ana Maria e Mariana, depois a Jujuba, a Taís, a Gabriela, o Diogo, a Amanda, enfim, todos, menos um, o Iago. Bem, o Iago demorou porque ele é meio guloso. Também, naquele dia tinha feijoada e o Iago adora comer o feijão da sua avó. Aliás, o Iago come de tudo, dizem que até sopa de pedra!
Depois de esperar pelo amiguinho guloso, a criançada finalmente viu surgir o Iago, que vinha coçando a barriga de satisfação.
— Ah, que feijoada deliciosa! – disse o glutão.
— Puxa, até que enfim você apareceu, Iago – protestou a Gabi.
— É mesmo, Iago. A gente só estava esperando você pra começar a reunião – disse a Jujuba.
Então, a reunião teve início com as palavras da Gabriela.
— Amiguinhos e amiguinhas, debaixo desta linda castanheira digo que a reunião comece. A pauta é o salvamento dos nossos amiguinhos gatinhos – disse a mandona.
A Mariana levantou a mão para falar. A Gabriela olhou para ela e falou para todos prestarem atenção nas palavras da colega.
— Meus amiguinhos, minha irmã e eu tivemos uma ideia para salvar os gatinhos. Olha, um de nós vai ficar vigiando a casa do Ubaldo Canastra. Quando ele sair, a gente pula o muro e entra na casa dele. Aí, a gente pega os nossos amiguinhos e fugimos – disse a Mariana.
— Boa! – concordou a Jujuba.
— Mas e se ele aparecer de repente? – quis saber o Diogo.
— Bem, é só deixar alguém vigiando a rua. Quando o Ubaldo Canastra aparecer, quem ficar de vigia avisa os que entrarem na casa – explicou a Mariana.
— Legal! – disse a Jujuba.
— É, acho que o plano das gêmeas vai funcionar – concordou a Taís.
Então, a Gabriela perguntou se todos estavam de acordo com o plano, e ninguém foi contra. A mandona continuou a falar.
— Iago, você vai ficar vigiando a casa do Ubaldo Canastra. Assim que ele sair, você avisa a gente.
— Puxa, tudo eu, tudo eu – resmungou o Iago.
— E quem vai entrar na casa? – perguntou a Amanda.
— Eu, a Aninha, a Mariana, a Jujuba e a Taís – respondeu a Gabriela.
E assim ficou acertado o plano de resgate dos quatro gatinhos. Mas como o dia foi passando e nada do Ubaldo Canastra sair de casa, a garotada resolveu brincar de queimado. E o tempo foi passando, passando, até que as mamães, os papais, as avós, os avôs, as titias e os titios foram chamando a criançada para entrar. Brincadeira só no outro dia!
O resgate
Domingo! O primeiro a sair à rua foi o Diogo. Ele estava brincando de rodar pião. Logo chegou a Jujuba, que brincou um pouco também. Depois apareceram a Taís e a Gabriela quase ao mesmo tempo. A criançada foi chegando aos poucos, mas ainda faltava um. E você pode adivinhar quem era esse retardatário? Pois é, era o guloso do Iago, que não se contentava com um pão. Ele come pelo menos três! E olha que ele é magrinho que nem palito!
E brinca daqui, brinca dali… A meninada estava com todo gás esse dia. E o Iago, mesmo brincando, não desgrudava os olhos de jabuticaba madura da casa lá no final da rua, onde morava o tal Ubaldo Canastra.
Ih, agora me lembrei que não disse como era esse tal Ubaldo Canastra. Pois bem, ele é um homem de mais de 1,80 metro de altura, pelo menos uns cem quilos ou mais, mãos enormes com dedos grossos, as unhas são tão grandes e cheias de sujeira, é calvo e o pouco dos cabelos que lhe restam são quase pretos. Tem um enorme nariz de batata e sua pele é branca encardida de terra. Seus olhos são maiores do que os de uma coruja e sua boca mais fedorenta que um penico. Pois é assim mesmo esse Ubaldo Canastra!
De repente o Iago começou a pular e apontar para o final da rua. Mas ele não conseguia dizer coisa com coisa. Teve criança até que achou que o guloso da rua tinha pirado. Também teve uma menina, acho até que foi a Jujuba, que achou que o Iago estivesse com dor de barriga.
— Vamos turma! Temos de agir o mais rápido possível – disse a Gabriela.
Enquanto a criançada corria para frente da casa do Ubaldo Canastra, a Ana Maria e a Mariana correram para o lado oposto. A Gabriela não entendeu e as chamou.
— Ei, Ana Maria! Ei, Mariana! Aonde vocês estão indo? – falou a Gabriela.
— Vão indo na frente. A gente só vai pegar umas coisas lá em casa. Logo estaremos com vocês – respondeu a Mariana.
Então, a criançada ficou em frente à casa do Ubaldo Canastra. Em menos de cinco minutos apareceram as gêmeas carregando um balde e cinco ratoeiras.
— Pra que vocês trouxeram essas coisas? – quis saber a Gabriela.
— Depois a gente fala. Agora precisamos agir o mais rápido possível – disse a Ana Maria, já pulando o muro da casa do Ubaldo Canastra.
Então, a Mariana passou o balde e as ratoeiras para a sua irmã. Depois também pulou o muro. Vieram atrás dela a Gabriela, a Jujuba e a Taís. As outras crianças ficaram ajudando o Iago a ver se o Ubaldo estava voltando.
A porta da frente estava fechada. Então, as gêmeas tiveram a ideia de olharem se a porta dos fundos estava aberta. As cinco meninas deram a volta na casa. A porta de trás também estava trancada. Mas havia uma janela aberta, só que era um pouco alta para as meninas.
— Puxa, e agora? – falou uma desanimada Jujuba.
— Já sei! Já sei! – disse a Taís.
— O que você já sabe, Taís? – perguntou a Gabriela.
— Olha, a gente vai fazer uma pirâmide humana! Eu já vi isso no circo – respondeu a Taís.
— Pirâmide humana? Mas o que é isso? – quis saber a Jujuba.
— Pirâmide humana é o seguinte: a gente vai subindo uma em cima da outra até ficar bem alta. Entendeu? – respondeu mais uma vez a Taís.
— E isso vai dar certo? – perguntou a Gabriela.
— Só saberemos tentando – disse a Ana Maria.
Como a Gabriela era a mais velha e mais forte, ela ficou sendo a base da pirâmide. Então, ela encostou o corpo na parede da casa e falou para a Jujuba subir nos seus ombros. Ajudada pelas outras meninas, a Jujuba conseguiu ficar em cima da Gabriela. Depois foi a vez da Ana Maria subir nos ombros da Juliana. Ela foi ajudada pela Taís e pela Mariana. Com bastante esforço ela conseguiu.
— Vai logo, Ana Maria, pula logo a janela, pois não estou aguentando todo esse peso – disse a Gabriela.
A Ana Maria não perdeu tempo e entrou na casa através da janela. Ela estava no quarto do Ubaldo Canastra. Estava tudo escuro, apesar de ainda ser dia. É que as cortinas estavam todas fechadas. Tratou logo de descer a escada da casa de dois andares e foi abrir a porta de trás para a sua irmã e as suas amigas entrarem. Por sorte a chave estava na porta.
Assim que as meninas colocaram os pés na casa, ouviram um barulho…
— Miaaauuuuuu!
— É a Sonjinha!!! – explodiu de alegria a Mariana.
— Acho que o som veio dali – disse a Taís.
As meninas foram andando sempre de mãos dadas pela sinistra casa. Os miados continuaram, agora mais fortes, agora de todos os quatro gatinhos. Finalmente descobriram onde o malvado Ubaldo Canastra os havia escondido: presos numa gaiola dentro do banheiro.
Assim que os gatinhos viram as corajosas meninas, eles começaram a miar, principalmente a Sonjinha e o Dunguinha. As garotas soltaram os gatinhos. A Gabriela pegou o Elvis no colo, a Jujuba ficou com o Virgulino, a Taís carregou a Sonjinha e o Dunguinha.
— Meninas, vocês vão indo na frente. A gente tem de preparar uma surpresa pra esse malvado Ubaldo Canastra – disse a Ana Maria.
— O que vocês vão fazer? – quis saber a Gabriela.
— Depois você vai saber – disse a Mariana.
As amigas das gêmeas, então, saíram da casa carregando todos os gatinhos. Lá fora estavam as outras crianças esperando ansiosas pelas cinco meninas. Mas só apareceram três.
— Onde estão as gêmeas? – perguntaram todos quase ao mesmo tempo.
— Elas já estão vindo. Foram preparar uma surpresa pro Ubaldo Canastra – explicou a Gabriela.
O tempo foi passando, passando… Dez minutos! Quinze minutos! Vinte minutos!
— O Ubaldo Canastra está voltando, galera! – anunciou o Iago.
— Temos de avisar as gêmeas! – disse a Jujuba.
Mas não foi preciso chamá-las, pois antes mesmo do malvado raptor de gatinhos aparecer na rua, as duas irmãs saíram triunfantes da casa. Aí, todos correram para debaixo da amendoeira que ficava em frente à casa da jujuba.
— O que vocês fizeram lá dentro? – perguntou o Iago.
— A gente colocou água no balde. Depois o pusemos em cima da porta do quarto do Ubaldo. E espalhamos as ratoeiras pelo chão – respondeu a Ana Maria.
— Ué, mas pra que vocês fizeram isso? – perguntou a Amanda.
Mas antes que uma das gêmeas respondesse, a criançada ouviu vários gritos vindos da casa do final da rua. Logo após surgiu o malvado Ubaldo Canastra todo molhado e com cinco ratoeiras penduradas pelo corpo: uma em cada mão, uma em cada orelha e uma pendurada no nariz de batata. A criançada caiu na gargalhada. E essa foi a última vez que todos naquela rua viram aquele homem malvado que, segundo as pessoas, pegava gatinhos para fazer churrasquinho e tamborim.
As duas irmãs continuam morando na mesma rua, uma rua sem saída, num bairro bem distante, numa cidade bem grande, num país chamado Brasil. Talvez seja até uma rua bem parecida com a sua.
Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Araújo
Eduardo Cesario-Martínez é um premiado escritor carioca, mas mora em Porto Alegre, cidade pela qual é apaixonado. Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos com “57 Contos e crônicas por um autor muito velho”, que saiu pela Joanin Editora.
Seu primeiro livro, o romance “Despido de ilusões”, 2004, figurou entre os mais lidos do Centro Cultural Banco do Brasil.
Seus contos e crônicas, que já ultrapassaram a incrível marca de 1.000 publicações, são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP. É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).
Divide a editoria Café Literário do Notibras com o poeta e escritor Daniel Marchi e a jornalista e poeta Cecília Baumann.
José Ngola Carlos: ‘Cooperar é melhor que competir’
Kamuenho NgululiaImagem criada por IA do Bing, em em 4 de dezembro de 2025, às 16:09 PM*
A vida em comunidade é uma que se faz melhor cooperando e não competindo. Cooperar é um ato coletivo com aspirações ao ganho comum ou de todos. Competir, por seu turno, é um ato igualmente coletivo, porém, com aspirações ao ganho individual ou particular.
O ego individual enfuna-se, muito mais facilmente, com a competição do que com a cooperação. Por ego individual quer-se dizer, a falsa noção de ‘eu’ que se separa de outros e do mundo, percebendo-se melhor, com a excessiva autoestima, ou pior, com a baixa autoestima.
O sentido de identidade, isolada do todo existencial, não acontece apenas aos indivíduos. As sociedades ou comunidades humanas também enfermam-se com o cultivo do ego comunal ou social. Este ego, conforme se identifica pelo nome, diz respeito ao desejo das sociedades de apartarem-se de outras ou do mundo, percebendo-se melhores ou piores.
Tal como o ato cooperativo não apela fortemente ao ego individual, o mesmo acontece com o ego comunal. Na sua individualidade, tanto as pessoas singulares quanto as pessoas coletivas, não são entidades com vida sem fim ou perene. Elas nascem, desenvolvem-se e morrem. Pelo que, para os seres de inteligência, competir é um ato de violência desnecessário porque se percebe que, no final, tanto a/o vencedor/a, quanto a/o perdedor/a terão o mesmo destino.
Só na cooperação é que os indivíduos e as sociedades se desenvolvem plena e harmoniosamente. A competição desenfreada e irresponsável, por seu turno, enferma os indivíduos, satisfaz mais ao ego do que ao desenvolvimento pessoal, social e planetário e causa pesares desnecessários.
A existência, a todos nós pode prover. Talvez conviesse competir em um mundo onde os recursos fossem escassos, mas a nossa realidade é diferente. No mundo em que vivemos, os recursos se escasseiam com a falta de produção ou com a pouca produção, pelo que, e neste sentido, cooperar, ao invés de competir, é a melhor estratégia de sobrevivência.
José Ngola Carlos, Msc
Malanje, 4 de dezembro de 2025
Como citar este artigo:
Carlos, J. N. (2025:11). Cooperar é Melhor que Competir! Brasil: Jornal Cultural ROL.
** Fonte da imagem: https://www.bing.com/images/create/pessoas-de-vc3a1rias-culturas-felizes-e-envolvidas-na/1-69316965fc5241dfb986a2aff11721b2?id=G6ImkMx4OkBdQPeMck4Spw.KbJahzV3zqgl%2BsJP9lmZMQ&view=detailv2&idpp=genimg&thid=OIG4.VYFQ7oAZHUEGI5Cu.IYV&sm=1&mdl=0&ar=1&skey=EKhn9CWi2gsIWFf3FZtfeMS5fHju8imqOKmbEdGuQGQ&form=GCRIDP