Mais importante do que a cor da pele é a cor do caráter. E esta cor é o transparente.
A raça negra, em contraste com a raça branca, é apenas como o dia e a noite: de dia, com o sol, externamos a alegria; de noite, com a Lua e as estrelas, sonhamos.
Muitas pessoas têm preconceito de raça, como se a raça branca, ou a negra, ou a amarela, fosse a raça mais pura, a mais perfeita. Isso nos faz lembrar as belíssimas pinturas de Da Vinci, ou de Rafael, em que o visitante de uma galeria de arte destacasse o azul, ou o vermelho, ou o amarelo deste ou daquele quadro, se esquecendo, contudo, que foram todas as cores reunidas que imortalizaram essas obras.
COSTA, Sergio Diniz da. Pensamentos soltos na brisa das tardes. Vol 2. Sorocaba/SP: Crearte Editora, 2014, pp. 15 e 15.
Os personagens desta crônica — o Senhor Dupont e a Senhora Lambert — são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas reais é, como se diz, mero sintoma do tempo em que vivemos.
O Senhor Dupont, homem de hábitos educados e opiniões leves, decidiu há algum tempo que saber demais atrapalha o humor. “A ignorância é uma bênção, meu caro”, costuma dizer, “é um silêncio que ninguém interrompe.” Há algo de poético nessa recusa: ele lê pouco, opina com serenidade e conserva um brilho tranquilo de quem já não se abala com o peso dos fatos.
Mas sua calma tem um preço. A sua é uma ignorância voluntária, cuidadosamente escolhida — um abrigo contra o esforço de pensar. Não é a falta de acesso ao saber, mas a recusa a atravessar o desconforto que o pensamento impõe.
Chamam isso, em certos círculos, de aliteracia: a capacidade de ler sem realmente integrar a leitura à vida. No caso do Senhor Dupont, a palavra ganha um novo sentido — o da incapacidade voluntária de ler o que desafia suas certezas. Ele lê apenas o que confirma o que já acredita. Evita atravessar a fronteira de outro espectro político, outra cultura, outro modo de ver o mundo. “É muito esforço”, diz. E é mesmo. Pensar exige o desconforto de se ver descobrindo.
A Senhora Lambert, ex-professora de História, segue caminho distinto, mas com idêntico propósito. Descobriu que a aparência de simplicidade é um poderoso instrumento de aceitação pública. Fala com doçura e erros calculados, simplifica ideias complexas até que caibam num slogan e aprendeu a transformar o ‘não sei’ em forma de carisma. Sua ‘autenticidade’ é uma estratégia: a encenação da ignorância como prova de pureza moral. Não é burrice, é cálculo. Um tipo de esperteza que entende o valor de parecer vulnerável num tempo em que pensar virou sinônimo de arrogância.
Entre Dupont e Lambert, a sociedade encontra o equilíbrio perfeito entre o alheamento e a conveniência. Um não quer pensar; a outra lucra por não parecer pensar. E ambos representam algo maior: o triunfo de uma cultura que premia o desinteresse e suspende a responsabilidade de compreender.
Talvez o desafio contemporâneo não seja mais iluminar os que estão no escuro, mas convencer os que se habituaram à penumbra de que vale a pena abrir os olhos. O problema é que, hoje, a escuridão é confortável — e o conforto é politicamente rentável.
A ignorância se tornou uma mercadoria emocional: vende-se como serenidade, compartilha-se como humildade, consome-se como estilo de vida. E o conhecimento, cada vez mais, parece um fardo: quem pensa demais, inquieta; quem lê o que o outro lado escreve, é suspeito; quem duvida, incomoda.
No fim, talvez a verdadeira lucidez esteja em não desistir de pensar — mesmo cansado, mesmo sozinho, mesmo quando o silêncio do mundo parece mais convidativo. Porque se há um luxo que ainda resiste ao tempo, não é o da ignorância tranquila, mas o da consciência desperta.
A história de Bárbara Vicente de Urpia aconteceu no século dezenove. O cenário, a praça 15, centro do Rio de Janeiro.
Conta-se que a belíssima Bárbara foi uma imigrante portuguesa que viveu uma vida de luxo, horror e mistério. Reza a lenda, que Bárbara matou com as próprias mãos, o RICO marido português, ao se apaixonar por um belo negro, ex escravo. Para esconder as provas do crime, botou fogo na mansão onde morava e foi viver sua paixão em outro lugar. Tempos depois, o amante morreu em uma briga de rua, por ciúmes de Bárbara. Atormentada com o ocorrido, ela voltou para o centro da cidade. Porém agora pobre, virou prostituta!
Ali, viveu seu reinado. Foi a mulher mais disputada do Arco do Teles. Anos mais tarde, devido à idade e as doenças que adquiriu na profissão, perdeu a beleza e o encanto. Foi quando iniciou sua saga para recuperar a juventude. Acreditando no poder da magia, passou a fazer rituais macabros! Se banhava, com sangue de clientes e também das criancinhas que ela raptava da Roda dos enjeitados, na Santa Casa de Misericórdia.
A fama de Bárbara se espalhou pelo lugar, gerando pânico e terror! A polícia passou a caçar a vampira, mas foi inútil. Ela sempre se escondia, como num passe de mágica. Um dia, Bárbara simplesmente desapareceu! Ninguém sabe o que aconteceu e até hoje, o Arco do Teles é mal-assombrado. Os visitantes ouvem à noite o choro das criancinhas e as gargalhadas de uma mulher.
Esta é a lenda urbana mais famosa do Rio de Janeiro-Colonial, Bárbara dos Prazeres, a Bruxa Vampira do Arco do Teles. Como alguns sabem, sou Psicanalista e esta lenda urbana faz parte da minha pesquisa sobre psicopatas e serial Killers.
Apresentada com performance e leitura dramatizada no Memorial dos Autonomistas, na minha estada em Rio Branco-Acre (15.11.2025), por ocasião do aniversário de dez anos de fundação da Sociedade Literária Acreana-SLA e 88 anos da AAL.
Versão por Maze Oliver (adaptação de outras versões).
Há linhas que costuram mais do que tecidos — costuram histórias, memórias e destinos.
É assim que a escritora Sandra Lugli define “Uma Tênue Linha”, sua obra de estreia: um livro de 17 contos que mergulha nas relações humanas e no delicado elo que conecta cada pessoa à sua própria origem.
Ítalo-brasileira, nascida em São Paulo e moldada entre Portugal e a Itália, Sandra carrega em si o mosaico de duas culturas e a curiosidade de quem busca entender de onde veio para compreender quem é.
Sandra Lugli
Química de formação, empresária, mãe e esposa, ela sempre manteve a arte e a literatura como refúgios de expressão e pertencimento.
“A partir da pesquisa sobre minha ancestralidade genética, tudo começou a fazer sentido — os gostos, as escolhas, até as emoções. Foi como se eu finalmente reconhecesse a linha que me liga aos meus ancestrais.”
Sandra Lugli
Essa descoberta foi o ponto de partida para “Uma Tênue Linha”, uma coletânea de contos sobre amizade, família e os laços invisíveis que nos moldam mesmo quando não percebemos.
Cada história nasce de vivências ou observações, transformadas em reflexões sobre o tempo, a herança emocional e o que permanece em nós, mesmo depois das gerações passarem.
Mais do que uma obra literária, o livro é um convite à introspecção, a olhar para dentro e para trás, e perceber que talvez nada seja por acaso.
Com escrita sensível e olhar maduro, Sandra Lugli celebra, em palavras, o poder da memória e o mistério da continuidade.
Porque, afinal, a vida também é isso: uma tênue linha que nos atravessa e nos conecta, de ontem até sempre.
Narrativa detalhada, sensível e fluida, leva o leitor a refletir sobre identidade e laços interpessoais e a procurar beleza e esperança, mesmo nos momentos mais desafiadores.
Todos estão felizes. Uma nova vida se fez. Cuidados extremos, surpresas… o desconhecido sempre assusta. Um ser frágil e dependente. Olhar curioso. Sua conversa é pelo olhar.
Vai crescendo, fazendo descobertas. Seus pais se descobrindo também.
O tempo passa, aquele ser crescendo, se desenvolvendo, tornando-se independente.
Vai ganhando energia rapidamente.
Seus pais sentindo o peso do tempo.
Ele é adulto. Os pais, idosos. Os papéis se inverteram. Agora são eles que necessitam de cuidados. A vida deu voltas. A paciência e a compreensão do filho nem sempre estão presentes. Esquece que já dependeu.
A energia dos pais minguando… findou.
A chama da vida se apaga.
Por algum tempo ainda serão lembranças. Depois, nem isso.
“Nasci para consagrar as Letras e as Ciências”: ‘O Humanismo Científico do Imperador Dom Pedro II’
Dom Alexandre Rurikovich CarvalhoA imagem, criada por IA do ChatGPT, apresenta o Imperador Dom Pedro II retratado em um ambiente claramente intelectual e científico, reforçando seu reconhecido perfil de monarca erudito. O estilo visual remete à tradição dos retratos acadêmicos do século XIX, com iluminação suave, tons dourados e composição equilibrada.
Resumo. A frase “Nasci para consagrar as Letras e as Ciências”, atribuída ao Imperador D. Pedro II, condensa sua visão de mundo e sua autocompreensão enquanto monarca intelectual. Este artigo analisa o significado histórico da expressão, contextualizando-a na formação educacional do soberano, em seu engajamento com o desenvolvimento científico e cultural brasileiro e nas políticas públicas que implementou ao longo de seu reinado (1840–1889). Fundamentado em estudos historiográficos recentes e em documentação da época, o trabalho demonstra que a frase representa um programa de vida baseado no iluminismo tardio, na valorização da educação e no mecenato científico, características que consolidaram o Império do Brasil como centro de produção intelectual no século XIX.
Palavras chaves: Dom Pedro II; Letras; Ciências; Império do Brasil; História Intelectual.
1. Introdução
O Imperador Dom Pedro II (1825–1891) ocupa um lugar singular na história política e intelectual do Brasil. Educado desde cedo para o exercício da monarquia, foi instruído rigorosamente nos princípios do Iluminismo, da filologia, das ciências naturais e das artes liberais. Em diversos documentos, cartas e declarações, o monarca expressou sua profunda inclinação pelos estudos, sendo célebre a frase: “Nasci para consagrar as Letras e as Ciências”.
Essa afirmação, longe de figurar como mero recurso retórico, revela a identidade intelectual do imperador e seu projeto civilizatório: construir um país moderno, instruído e capaz de dialogar com os centros científicos da Europa e dos Estados Unidos. O presente artigo busca analisar essa frase como síntese do humanismo científico de Pedro II e como chave interpretativa de seu governo.
2. Contexto histórico e intelectual da formação do monarca
A educação de Dom Pedro II foi marcada por forte influência de pensadores liberais e humanistas. Seus professores – entre eles Silvestre Pinheiro Ferreira, Manuel Inácio de Andrade Souto Maior (Visconde de São Leopoldo) e Monsenhor Joaquim Gonçalves de Azevedo – estruturaram sua formação a partir de disciplinas como linguística, literatura, moral, filosofia, matemática, geografia, astronomia e história universal.
Aos 15 anos, o jovem imperador já dominava diversas línguas, entre elas francês, inglês, alemão, árabe, grego e latim, além de demonstrar interesse peculiar pela literatura clássica, paleografia, geologia e etnografia. Seus diários de leitura revelam uma rotina intelectual intensa, que incluía não apenas leituras sistematizadas, mas também resenhas, reflexões e traduções de textos antigos.
No século XIX, em que a ciência avançava rapidamente – com a ascensão do positivismo, da medicina higienista, da física experimental e dos estudos evolucionistas -, Pedro II posicionou-se como um mediador entre o Brasil e o mundo científico emergente.
3. A frase como expressão da identidade intelectual do imperador
A frase “Nasci para consagrar as Letras e as Ciências” funciona como síntese do ethos intelectual do soberano. A partir dela é possível observar:
3.1. Autopercepção como monarca ilustrado
Dom Pedro II via-se não apenas como governante, mas como estudioso. Há inúmeros registros de visitantes estrangeiros que se surpreenderam ao encontrá-lo em bibliotecas, observatórios e instituições de pesquisa, em vez de palácios ou cerimônias de caráter exclusivamente protocolar.
3.2. Missão civilizadora da instrução pública
Para Pedro II, a educação era instrumento de transformação social e motor do progresso nacional. Sua frase denota compromisso com a difusão do conhecimento, compreendido como condição essencial para o desenvolvimento de uma sociedade livre, moderna e racional.
3.3. Culto ao saber como fundamento moral do reinado
O imperador demonstrava profundo respeito pelos professores, cientistas e literatos, frequentemente afirmando que a figura do educador era mais nobre do que a do próprio imperador. Assim, a frase simboliza sua convicção de que o exercício do poder deveria estar subordinado ao conhecimento.
4. As políticas públicas de promoção das Letras e das Ciências
Durante seu reinado, Dom Pedro II promoveu o fortalecimento das instituições científicas, a valorização da cultura e inúmeras iniciativas educacionais. Entre as principais:
4.1. Incentivo às instituições científicas
Reestruturação do Museu Nacional, que se tornou referência em arqueologia, botânica e mineralogia.
Apoio direto ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).
Criação e financiamento do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro.
Patrocínio de missões científicas, como as expedições de naturalistas estrangeiros pelo território brasileiro.
4.2. Avanços na educação
Apesar das limitações estruturais do período, houve avanços notáveis:
criação de liceus provinciais;
ampliação da instrução primária;
incentivo ao ensino técnico, militar e científico;
envio de bolsistas brasileiros à Europa para especializações.
Pedro II defendia reformas educacionais mais profundas, muitas das quais só seriam implementadas no século XX.
4.3. Política cultural e literária
O imperador apoiou escritores, poetas, inventores e artistas. Manteve correspondência com nomes como Victor Hugo, Alexandre Herculano, Pasteur, Ernest Renan, Humboldt, Graham Bell e outros.
Sua aproximação com o universo artístico e acadêmico conferiu ao Brasil maior visibilidade cultural no cenário internacional.
5. Dom Pedro II no século da ciência
O século XIX foi marcado por grandes revoluções científicas, como a popularização da fotografia, a invenção do telefone, o avanço da física moderna, a consolidação da biologia evolucionista e a expansão do telégrafo.
Pedro II se envolveu pessoalmente em tais inovações. Foi um dos primeiros chefes de Estado a experimentar o telefone de Graham Bell. Adepto da fotografia, usou-a para registro documental e científico. Interessou-se por literatura oriental, arqueologia do Oriente Médio e estudos antropológicos, campos que ainda se estruturavam globalmente.
6. A dimensão simbólica e o legado da frase
O legado da frase “Nasci para consagrar as Letras e as Ciências” ultrapassa sua dimensão autobiográfica e se torna símbolo de um projeto nacional. Seu impacto pode ser observado em três níveis:
6.1. Histórico
A frase sintetiza um período de forte investimento cultural, científico e educacional, que posicionou o Brasil como centro intelectual da América Latina.
6.2. Político
Revela uma visão de Estado que reconhece a educação como instrumento de emancipação social.
6.3. Civilizacional
Materializa o ideal ilustrado: progresso, racionalidade, ciência e cultura como eixos do desenvolvimento.
Mesmo após a Proclamação da República, o imperador manteve seus estudos, demonstrando que sua dedicação ao conhecimento era componente intrínseco de sua identidade.
7. Considerações finais
A frase atribuída a Dom Pedro II reflete uma vida orientada pelo compromisso com a educação, a ciência e a cultura. Em um Brasil ainda politicamente instável e socialmente desigual, o imperador buscou construir instituições permanentes e fomentar a produção intelectual.
Seu legado permanece atual, sobretudo em um contexto em que a valorização da ciência e do pensamento crítico se mostra essencial para a consolidação de sociedades democráticas. Dom Pedro II tornou-se, assim, não apenas figura política, mas símbolo de respeito ao saber, ao humanismo e à construção de um país baseado na força da inteligência.