Manifesto 2025

SAÚDE INTEGRAL

Joelson Mora: ‘Manifesto 2026’

Joelson Mora
Joelson Mora
Imagem criada por Ia do Bing - 16 de fevereiro de 2026,
 às 13h30
Imagem criada por Ia do Bing – 16 de fevereiro de 2026,
às 13h30

Viver com presença, não no automático.

Cuidar do meu corpo como templo, da minha mente como ferramenta e do meu espírito como fonte.

Escolho a disciplina silenciosa: treinar mesmo sem plateia, estudar mesmo sem aplauso, descansar sem culpa.

Leio um livro por mês não para acumular informação, mas para expandir consciência.

Troco pressa por constância, comparação por gratidão e excesso por essencial.

Em 2026, eu escolho ser inteiro, não apenas produtivo.

Inspirar pelo exemplo, não pelo discurso.

Ser ponte entre ciência e espiritualidade, entre performance e sentido, entre resultado e propósito.

Usar minha voz para educar, despertar e curar, não para competir ou impressionar.

Formar pessoas mais conscientes do que seguidores.

Escolho liderar com escuta, verdade e presença.

Em 2026, eu escolho formar consciências.

Servir antes de aparecer.

Compartilhar saber sem vaidade e aprender sem orgulho.

Ser apoio emocional, referência técnica e exemplo de postura.

Construir ambientes seguros, humanos e espiritualmente saudáveis.

Em 2026, eu escolho somar energia, não sugar energia.

Pensar a longo prazo, não apenas no resultado do mês.

Inovar sem perder a essência.

Transformar saúde integral em cultura, não apenas serviço.

Conectar pessoas ao propósito pessoal e organizacional, não só às metas.

Ser guardião dos valores, da ética e da missão.

Em 2026, eu escolho deixar legado!

Joelson Mora

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Sala de estar

Lina Veira: Crônica ‘Sala de estar’

Lina Veira
Lina Veira
Imagem gerada por IA do Canvas

Lembro quando meus filhos eram crianças, eu costumava levá-los para brincar na praia e ver o mar. Lá sempre foi uma extensão da nossa sala de estar.

Eles adoravam, e eu aproveitava para estimular brincadeiras de bola e de corrida na areia, aprimorar os elogios e mergulhar no mundo deles. Eu tive esse privilégio, e eles também.

Tobias, o caçula, parecia ser o mais sintonizado com ambiente, com  o irmão e  com seu amor à família, um coração saudoso e amigo tem até hoje.  O mais velho, sempre  ativo e criativo, gostava de receber os amigos  na sala de estar,  de passar mais tempo no seu quarto e jogar bola com eles na beira do mar.

Mas o que tem  a ver ‘nosso lar’ com esse assunto? A praia  em muitas circunstâncias, foi minha sala de estar com meus filhos, nosso momento  de mais risadas e conversas, porque o  verbo  da vida em família precisa ser ESTAR.   E “ A verdadeira  beleza  é com certeza a do interior” do nosso interior.  Aquela que dura muito tempo e passa diretamente pelo coração imprimindo o caráter de um ser humano. Reconhecendo o território doméstico. Construindo um lar emocionalmente seguro em um mundo inseguro. Estar junto em família , foi um dos momentos mais sublimes enquanto eles cresciam, e DEVERIA ser a resposta da pergunta:  O que temos para todos os dias?

O lar precisa ser um refúgio , na qual os filhos voltassem repetidas vezes, por se sentirem mais seguros e protegidos.  E essa  expectativa positiva comunicasse com seguridade que existe uma família.

Uma família,  duas famílias… Um lugar em que as crianças aprendessem o significado de ser responsável e  de se importar com o outro, onde o coração e o tempo  de todos moram em paz.

–  Vamos  para o quintal de casa, saiam dos bastidores. O  verbo  de uma família precisa ser ESTAR.  

Compreenda a singularidade de cada filho, eles são ricas descobertas  silenciosas da vida. Dê a eles uma memória  e cultive seu caráter em vez de garantir que eles pareçam bons diante dos outros. Que fantástico ler isso!

E lembre-se , a sala de estar precisa ser um lugar espontâneo e lembrado para toda vida.  

E seu lar,  um lugar  onde vocês possam assistir a um filme juntos, lavar o carro num dia quente,  ter uma refeição surpresa toda semana, jogar jogos de tabuleiro e ser feliz.  

Não cedam à coisas que destroem as relações familiares.   

Lina Veira

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Carta ao ministro

Bruno Marquês Areno: Poema ‘Carta ao ministro’

Bruno Marques Areno
Bruno Marques Areno
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Senhor Ministro,
venho por meio desta não pedir nada.
Nem escola, nem pão, nem teto.
Já pedi antes.
Agora só queria entender
como é que se governa um silêncio
tão cheio de gritos.

E se for possível,
me mande de volta o meu tempo.
Aquele em que eu acreditava
que palavras mudavam o mundo.

Bruno Marquês Areno

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Entre máscaras e espelhos

Clayton Alexandre Zocarato

‘Entre máscaras e espelhos: o pecado necessário do Carnaval’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O carnaval é uma estação da alma antes de ser uma data no calendário. Ele não começa quando o tambor rufa nem termina quando a quarta-feira amanhece cinza; começa muito antes, na dobra íntima do desejo humano de suspender o peso da própria biografia.

É como se, por alguns dias, a sociedade respirasse por outra narina, inalando excesso e exalando contenção, num movimento alternado que a mantém viva. O carnaval é o intervalo necessário entre aquilo que somos obrigados a ser e aquilo que tememos ser. 

É festa, mas é também espelho; é riso, mas é igualmente vertigem.

Sua história se derrama como vinho antigo. Muito antes de ganhar as avenidas tropicais, já pulsava nos rituais de inversão do mundo, quando a ordem era colocada de cabeça para baixo para que pudesse, paradoxalmente, permanecer de pé.

Nas antigas celebrações da fertilidade, nas festas dedicadas a deuses que morriam e renasciam, havia sempre a permissão para a desmedida. 

Em certas épocas do império romano, durante as festas de inverno, os papéis sociais eram trocados, os senhores serviam e os servos riam. Séculos depois, sob o calendário cristão, a festa antecedia a quaresma como a gargalhada antecede o silêncio do arrependimento. 

A carne era celebrada antes de ser negada. O corpo era exaltado antes de ser disciplinado. A própria palavra carnaval carrega essa tensão entre a despedida da carne e sua consagração derradeira.

Quando atravessou oceanos e se enraizou em terras tropicais, encontrou solo fértil. No Brasil, tornou-se espetáculo de cores, ritmos e multidões. Nasceu nos entrudos coloniais, ganhou forma nos salões do século XIX, tomou as ruas com ranchos e cordões, e explodiu em potência nas escolas de samba do século XX. 

Em cidades como Rio de Janeiro, transformou-se em ritual coreografado, onde comunidades inteiras trabalham durante meses para contar histórias que misturam mitologia, crítica social e memória coletiva.

Em Salvador, tornou-se maré elétrica que arrasta milhões atrás de trios amplificados, dissolvendo fronteiras entre palco e plateia. 

Em Recife, pulsa no frevo que desafia a gravidade e no maracatu que evoca reis e rainhas ancestrais. Cada cidade inscreve no carnaval sua própria narrativa, mas todas compartilham o mesmo gesto: suspender a normalidade para revelar sua fragilidade.

Filosoficamente, o carnaval é o laboratório do excesso. Ele questiona a rigidez das normas ao permitir que o grotesco desfile de mãos dadas com o sublime.

Máscaras ocultam identidades ao mesmo tempo em que as revelam. 

Ao vestir-se de outro, o indivíduo experimenta a estranha liberdade de não ser ele mesmo. O anonimato torna-se licença, e a licença, risco. Há uma verdade paradoxal nessa encenação: ao representar, confessa-se; ao exagerar, desnuda-se. O riso coletivo não é apenas diversão, mas uma crítica disfarçada. 

Satiriza-se o poder, caricaturam-se as hierarquias, ironizam-se os costumes.

Durante alguns dias, o rei pode ser ridicularizado, o santo pode dançar, o pobre pode brilhar como nobre. A inversão não destrói a ordem; antes, recorda que ela é construção humana, portanto transitória.

Sociologicamente, o carnaval é válvula e vulcão. 

Válvula porque permite que tensões acumuladas encontrem escape simbólico. Vulcão porque, ao liberar essas forças, revela a energia subterrânea que sustenta a convivência social. A multidão que dança uníssona experimenta uma forma rara de comunhão.

Corpos comprimidos em ruas estreitas descobrem um ritmo comum, uma respiração partilhada. Ali, diferenças de classe, cor, profissão e origem parecem dissolver-se sob o suor e o confete. 

Contudo, essa dissolução é provisória. Quando o sol da quarta-feira se impõe, as fronteiras retornam, as desigualdades reaparecem, as fantasias são guardadas. O carnaval, então, revela sua face ambígua: ele tanto aproxima quanto evidencia a distância que separa.

E é nesse ponto que surge seu pecado. Não um pecado simples, moralista, reduzido a excessos de bebida ou luxúria. Seu pecado é mais profundo e mais antigo: é o pecado de lembrar ao ser humano que ele deseja mais do que a ordem lhe permite. 

O carnaval encarna a tentação da liberdade absoluta, ainda que por horas contadas. Ele celebra o corpo num mundo que frequentemente o vigia; celebra o prazer num contexto que o regula; celebra a mistura num sistema que classifica. Seu pecado é o de afirmar a vida em sua abundância desobediente.

Mas também há o pecado que nasce do próprio excesso. A liberdade pode converter-se em irresponsabilidade, o anonimato em violência, a alegria em alienação. A festa que promete comunhão pode reproduzir exclusões; o espetáculo que denuncia injustiças pode ser capturado por interesses econômicos; o rito popular pode transformar-se em produto turístico. 

O carnaval oscila entre resistência e mercadoria, entre crítica e consumo. Sua dubialidade de pecado reside justamente nessa oscilação: é transgressão que liberta e, ao mesmo tempo, transgressão que pode aprisionar em novos grilhões.

Historicamente, cada período tentou domesticar o carnaval ou dele se apropriar. Governos já o incentivaram como símbolo nacional e também o reprimiram como ameaça à ordem. 

Elites já o desprezaram como desordem vulgar e depois o celebraram como patrimônio cultural. 

Ele sobreviveu porque se metamorfoseia. É camaleão social: adapta-se, negocia, reinventa-se. 

A cada geração, renasce com novas músicas, novas críticas, novos corpos ocupando o espaço público. 

É memória viva de um povo que aprende a rir de si mesmo para não sucumbir ao peso da própria história.

No plano íntimo, o carnaval é confronto. Ao permitir que desejos ocultos venham à tona, ele questiona a narrativa que cada um constrói sobre si. 

A máscara não apenas esconde; ela autoriza. E, ao autorizar, revela. Quantos impulsos reprimidos encontram ali sua brecha? 

Quantas identidades silenciadas experimentam, por alguns dias, a luz? O pecado do carnaval é também o pecado da sinceridade súbita.

Ele escancara o quanto somos feitos de camadas e o quanto a moral cotidiana é um pacto frágil, sustentado por convenções.

No entanto, seria injusto reduzi-lo a um tribunal de culpas. O carnaval é igualmente celebração de criatividade, trabalho coletivo e herança cultural.

Por trás de cada desfile há costureiras anônimas, artesãos pacientes, músicos dedicados, comunidades inteiras que transformam escassez em esplendor. 

Há disciplina na aparente desordem, cálculo na espontaneidade ensaiada, organização no caos coreografado. O pecado e a virtude dançam abraçados, indistinguíveis.

Quando a festa termina, resta um silêncio peculiar. Não é apenas cansaço; é reflexão. A cidade parece estranhamente ampla sem os blocos, quase tímida sem as cores. Esse vazio revela que o carnaval não era mero excesso, mas necessidade.

Ele funciona como rito de passagem anual, lembrando que a vida não pode ser apenas trabalho, regra e contenção. 

Precisa também de delírio, de música alta, de encontros improváveis. 

Precisa da experiência do limite para reconhecer o valor da medida.

Assim, o carnaval permanece como paradoxo encarnado. É pecado porque ousa desafiar; é virtude porque ousa lembrar. 

É desordem que preserva a ordem; é crítica que reafirma a tradição; é fuga que devolve ao ponto de partida com novos olhos. Sua dubialidade não é falha, mas essência. 

Ele existe na fronteira entre o sagrado e o profano, entre o corpo e o espírito, entre a máscara e o rosto. E talvez seu maior significado seja este: ensinar que o ser humano é, ele próprio, carnaval — mistura de luz e sombra, regra e desejo, contenção e excesso — condenado e abençoado por sua eterna capacidade de celebrar e transgredir ao mesmo tempo.

Assim, o carnaval permanece como paradoxo encarnado. É pecado porque ousa desafiar; é virtude porque ousa lembrar. 

É desordem que preserva a ordem; é crítica que reafirma a tradição; é fuga que devolve ao ponto de partida com novos olhos. 

Sua dubialidade não é falha, mas essência. Ele existe no cabedal entre o sagrado e o profano, entre o corpo e o espírito, entre a máscara e o rosto. 

Mas há ainda algo mais profundo nesse teatro coletivo que se ergue e se desfaz como castelo de areia ao sabor da maré. 

O carnaval é também uma pedagogia do efêmero. 

Tudo nele é intenso porque tudo nele é breve. A fantasia que exigiu meses de trabalho dura algumas horas sob o brilho das luzes; o samba-enredo que embala multidões ecoa forte e depois se dissolve na memória; o beijo roubado na esquina pode nunca mais se repetir. 

A festa ensina, sem discursos, que a vida é feita de instantes que queimam rápido. Seu pecado talvez seja nos lembrar da finitude, mas fazê-lo dançando.

Há uma economia simbólica em curso durante esses dias.

O que é marginal torna-se central; o que é silêncio vira canto; o que é invisível ocupa o palco. Corpos historicamente oprimidos reivindicam beleza, talento e presença. A avenida transforma-se em território de afirmação. Não se trata apenas de espetáculo, mas de reescrita provisória da hierarquia social. 

O carnaval redesenha o mapa do poder, ainda que com giz que a chuva pode apagar. E nessa reescrita reside tanto sua força quanto sua fragilidade. 

Porque ao mesmo tempo em que ele abre espaço para vozes esquecidas, também pode ser capturado por estruturas que transformam expressão em produto, cultura em mercadoria, identidade em vitrine.

Essa tensão não o enfraquece; ao contrário, constitui sua pulsação. O carnaval vive de contradições como o coração vive de sístole e diástole. Expande-se na liberdade, contrai-se na disciplina. 

Exige planejamento rigoroso para que o improviso pareça espontâneo. Cobra patrocínios e investimentos enquanto canta a simplicidade da rua. 

Move milhões na indústria do turismo e, ao mesmo tempo, nasce da criatividade de comunidades que aprendem a fazer do pouco um luxo simbólico. Seu pecado é também o de negociar com o mundo que critica.

Há, ainda, o carnaval interior, aquele que não depende de trio elétrico nem de arquibancada. É o instante em que alguém decide ousar ser outro, ainda que discretamente; quando escolhe uma roupa mais colorida do que o habitual; quando permite ao riso escapar em meio à rotina rígida. 

O espírito carnavalesco é uma disposição para a metamorfose. Ele questiona identidades fixas e lembra que somos processos, não estátuas. 

Ao experimentar papéis, compreendemos melhor o nosso. Ao atravessar o excesso, voltamos ao equilíbrio com mais consciência.

Por isso, o carnaval carrega uma ética implícita. Não a ética da proibição, mas a ética da responsabilidade na liberdade.

A verdadeira transgressão não é destruir, mas criar; não é violentar, mas revelar; não é desumanizar, mas expandir a experiência humana. Quando a festa se desvia para o desrespeito, trai sua própria essência. 

Porque sua razão de ser não é o caos pelo caos, mas a catarse que purifica, a ironia que educa, o riso que humaniza. Seu pecado só é fértil quando gera reflexão; caso contrário, torna-se mero ruído.

E quando o calendário avança e a rotina reassume o comando, algo permanece como resíduo luminoso. 

Talvez seja a memória de uma música que insiste em tocar na mente; talvez seja a lembrança de ter pertencido a uma multidão sem perder a singularidade; talvez seja a certeza de que a ordem não é absoluta, de que sempre há brechas por onde a imaginação pode escapar. 

O carnaval deixa marcas invisíveis, pequenas fissuras na rigidez cotidiana. Por essas fissuras, entra ar.

No fundo, o carnaval é uma pergunta lançada à sociedade todos os anos: quem somos quando as regras afrouxam? O que fazemos com a liberdade que tanto desejamos? Conseguimos transformar a energia da festa em transformação duradoura ou a deixamos evaporar junto com o último acorde? Ele não responde; apenas encena. 

E nessa encenação nos entrega um espelho ampliado, onde virtudes e vícios aparecem em cores saturadas.

Talvez seu maior pecado seja este: recusar-se a ser simples. Ele não cabe na definição de festa nem na condenação moral. É rito e mercado, crítica e entretenimento, devoção e irreverência. 

É herança histórica e reinvenção anual. É memória ancestral que dança com tecnologia de ponta. É o grito coletivo que desafia o silêncio imposto. 

Em sua dubialidade, ensina que o humano não é linha reta, mas espiral.

E assim, ano após ano, ele retorna. 

Não como repetição, mas como renascimento. Traz consigo a promessa de que, por alguns dias, será possível experimentar o mundo ao avesso para compreender melhor seu direito. 

E ao final, quando as máscaras são guardadas, talvez descubramos que elas nunca estiveram apenas sobre o rosto — estavam também nas certezas. O carnaval as desloca, as embaralha, as expõe. 

E, nesse gesto ambíguo de pecado e revelação, cumpre sua missão mais antiga: recordar que viver é, inevitavelmente, dançar entre limites e abismos, entre culpa e graça, entre o que se deve e o que se deseja.

Clayton Alexandre Zocarato

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Para Clóvis, meu pai

Guilherme Machado

‘Para Clóvis, meu pai – Dez estações sem Você’

Guilherme Cesar Machado de Araújo
Guilherme Machado
Foto do arquivo do autor, tirada em 1991
Foto do arquivo do autor, tirada em 1991

Caiu como uma bomba sobre mim! Logo notei pela fisionomia carregada que as notícias traziam o peso do mundo. Ouvi, ecoando vazio, o mantra amargo: “é coisa da vida”… “é difícil, mas acontece”…

Vislumbrei, subitamente, cenários de um filme que eu jamais quis assistir. Imaginei se tratar de qualquer outro familiar. Sucumbi com a notícia. Captei os fatos de forma vaga, então, pedi para que minha tia se retirasse, mas ela se negou e suplicou-me para colocar a dor pra fora. Afirmei, ainda em negação, não querer ir ao velório, mas mesmo contrariado, para lá me dirigi. Roupa incompatível com o clima: um blazer pesado num calor infernal, evidenciando o caos e colapso no qual me encontrava.

Marcas deixadas na alma. Amor que machucou. Chocolates, cigarros e água por favor, desta forma fui brilhante e calculista, eficiente em disfarçar a dor.

Heranças ásperas, dias extremamente destrutivos. Algo encontrava-se deformado, deturpado, sentimentos fora do lugar. Dias que posteriormente mostraram-se edificantes, mas precisaram ser ressignificados e deixados para trás. Oposição de ideias – textualmente evidente – é o efeito que quero causar.

Descanse em paz, pai! Esse é o meu desejo, e, aos poucos, estou me curando.

Ano posterior, toda a família reunida para um casamento. Agora, todos estavam presentes, evento planejado. Uma mesa incompleta – e foi ali que jorraram as lágrimas; toda a frieza e calculismo foram insuficientes, e nem a totalidade da água do Oceano Pacífico seria capaz de conter aquelas emoções sufocadas.

Sextas feiras onde curo o que não pude salvar. Obrigado, Deus! Banquetes? Melhor é ir à casa onde há luto, rosto triste mutando-se em bom coração. Infinita é a bondade de Deus.

Nunca questione a razão pela qual foram os dias passados melhores do que estes, porque não provém da sabedoria esta pergunta.
Hosana nas alturas! Orgulhosamente seguirei com as homenagens!

Guilherme Machado

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Da Palestina para o ROL, Abdulla Issa!

Abdulla Issa é filho de um dos berços das civilizações mais antigas do mundo e reconhecida por sua rica história e Patrimônios Mundiais da UNESCO!

Abdulla Issa
Abdulla Issa

Abdulla Issa, 62, é um poeta palestino, filho de uma família que buscou refúgio na Síria após a ocupação da Palestina em 1948.

Ganhou o Prêmio de Poesia em 1983 e foi considerado um dos principais símbolos de renovação na poesia árabe contemporânea durante a década de 1980.

Formado no Instituto de Literatura Maxim Gorky, obteve um doutorado em Literatura pelo Instituto de Literaturas Asiáticas e Africanas da Universidade Estatal de Moscou em 2000, onde posteriormente lecionou e ministrou aulas de poesia. Em 2021, recebeu uma distinção acadêmica em reconhecimento às suas contribuições para a cultura e as artes criativas.

Recebeu inúmeros títulos honorários, entre os quais se destacam ‘O Poeta da Palestina no Exílio’ e ‘A Voz Poética da Palestina’. E muitos prêmios árabes e internacionais, dentre os quais:
Personalidade do Ano no Diálogo de Culturas e Civilizações – Fundo Mundial de Literatura (2014)
Medalha de Mérito em Cultura, Ciência e Artes (Nível Inovação) – concedida pelo Presidente Palestino Mahmoud Abbas (2015) – Medalha Chekhov de Criatividade (2017) – Prêmio Pena de Ouro (2019) – Medalha da Associação Internacional de Sindicatos de Escritores (2024) – Prêmio Internacional da Palestina de Literatura – Poesia (2024).

Publicou inúmeras coletâneas de poesia, incluindo:
Pessoas Mortas Preparando o Funeral, Alaa, A Tinta do Primeiro Céu, A Ressurreição dos Muros, Os Pastores do Céu, Os Pastores da Oleandro. Meus Irmãos, Ó Pai, Não o Lobo, Os Mandamentos de Fawzia Al-Hassan, Lá Onde as Sombras Gemem, As Obras Poéticas Completas, O Céu de Gaza e As Colinas de Jenin.

Entre suas obras de crítica, destacam-se ‘Critical Vision’, ‘Word and Spirit in Contemporary Poetry’, ‘Poetics of Aesthetic Creation’ e ‘Methods of Contemporary Arab Artistic Expression’.

Também escreveu para o teatro, notadamente ‘The Kingdom of Demons’.

Suas obras foram traduzidas para muitos idiomas, e ele foi homenageado em inúmeros festivais literários árabes e internacionais.

Abdulla Issa inicia sua jornada na Família ROLiana, com o retumbante texto O poema

O poema

Imagem criada por IA do ChatGPT - 16 de fevereiro de 2026, às 13h04 - https://chatgpt.com/c/69933efb-e5b4-8332-a62a-b9007b3301c9
Imagem criada por IA do ChatGPT – 16 de fevereiro de 2026, às 13h04 – https://chatgpt.com/c/69933efb-e5b4-8332-a62a-b9007b3301c9

Rinha de galos

Leve-me ao café.

Estou ficando louco com os passos que circulam a escada.

Já não tenho forças para ficar sozinho.

com os cheiros da cela cega

após os perigos da tortura.

No café, assim como na prisão,

Alcanço o limite máximo da minha primeira liberdade.

Que tolice nos levou à morte—

Como se uma ideia pudesse sobreviver aos nossos corpos!

Como se tivéssemos uma pátria mais querida que a própria vida.

Isso nunca aconteceu, nem uma única vez.

Uma vida que vale a pena ser vivida.

Como se, com o passar dos dias,

Tínhamos crescido em excesso em relação às suas necessidades.

Uma pátria feita sob medida para a derrota,

para que pudéssemos morrer chamando isso de vitória.

Não encontramos escapatória da morte.

que não nos esperaram em nossos túmulos.

Sou mulher e tenho o direito de me atrasar.

para meus encontros com tolos—

Todos os homens, tolos. E você—

Já não sirvo de ser o teu muro alto,

para você se apoiar

quando a terra se inclina sob seus pés.

Olha, isto é uma barreira entre mim e você.

Não há dignidade em um país.

que não possui dignidade própria.

Tenho uma pátria estranha aqui,

uma terra de cujos espelhos me expulsaram,

Assim, tornei-me sua sombra no chão.

Eles trocaram isso por uma sepultura segura em movimento.

e sudários de renda — privilégio daqueles que detêm o comando.

Não tenho pátria para me fazer companhia.

Onde você vive, como eu, na diáspora.

Não há mapas para indicar o caminho até lá.

Como eu, no exílio.

Minha liberdade não é mais meu exílio,

Nem a minha liberdade é a minha pátria.

Eu sou a minha liberdade.

Eu sou a minha pátria.

Se eu for levado embora,

Virei com as flores do meu túmulo.

e testas curvadas.

Leve-me à discoteca.

Quero dançar!

Você extraviou meu corpo?

Ao alcance da sua cama?

Quando danço, não me importo com nada.

o que vem ou não vem—

Nem eu mesmo.

Sou escravo de um escravo—

Como eu poderia dar à luz um mestre?

Não tenho nada para fazer

com prostitutas,

ou porta-aviões,

ou homens ocos,

ou um mensageiro dos deuses rezando com uma camisa de lã,

com censores e retóricos,

com água correndo para lugar nenhum

dos lombos dos animais.

Não direi adeus a um cadáver caído;

Direi: solte minha mão.

Cinquenta mil vítimas morreram,

inteiramente acorrentado pelos mortos;

centenas de milhares às portas do desconhecido,

aguardando o retorno ao que a pequena Terra já foi um dia—

milhares e milhares de poços, árvores, pedras,

nomes, luzes e coisas—

enquanto buscamos refúgio,

no que restou das temporadas do Holocausto,

Em nosso desespero, por causa do nosso desespero.

Leve-me para um exílio distante. Qualquer exílio.

Onde, como uma dama de cristal, livre em meu primeiro eu,

Posso passear entre duas capitais

com um homem que flerta comigo,

e beba uma taça de champanhe.

na beira da calçada,

sozinha como uma deusa

contando às suas maçãs as biografias das serpentes.

Confesso a verdade:

Eu não sou nada mais do que

o lamento das minhas palmas

enrolado em meu pescoço

como uma corda de forca.

Como se o exílio fosse uma misericórdia.

Para aqueles que fogem — com a própria pele

e o fermento da dor — de suas terras natais.

Choramos pela pátria que perdemos aqui.

então se torna um exílio;

então sonhamos em retornar

para que possamos morrer lá—

como se fosse uma pátria:

cemitérios, aperfeiçoados.

Abdulla Issa

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De Porto Rico ao ROL, Mario Antonio Rosa!

Da ‘Ilha do Encanto’, com suas belezas naturais, praias paradisíacas, riqueza cultural e histórica para o ROL, a poesia caribenha de Mario Antonio Rosa!

Marco Antonio Rosa
Marco Antonio Rosa

Mario Antonio Rosa, natural de San Juan, Porto Rico, é poeta, editor, jornalista cultural e crítico Literário.

Autor dos livros: Misivas para los Tiempos de Paz; Tristezas de la Erótica; Duelo a la Transparencia; avaliado como Livro do Ano pelo jornal El Nuevo Día; Kilómetro Sur; La Tierra de Mañana; Poemas en la isla del incendio e Pasternak en el invierno.

Coautor da Antologia Poetas para el Mundo Voces para la Educación*, juntamente com Ernesto Cardenal e Raúl Zurita, do Chile, patrocinada pelo Sindicato dos Professores do Estado do México, e na Nueva Antología de Poesía Hispanoamericana, patrocinada pela revista Ómnibus, da Espanha.

Participou da Écfrasis, uma publicação da Liga de Arte de San Juan, vinculada à exposição permanente de mesmo nome, com seu poema Albea, inspirado na obra pictórica da artista Consuelo Gotay.

Recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Guajana no Festival Internacional de Poesia de Porto Rico;  Prêmio de Poesia Turpial de Ouro, da Sociedade Venezuelana de Arte Internacional; Prêmio Internacional de Poesia patrocinado pela Fundação do Patrimônio Latino em Nova York e, mais recentemente, o Prêmio Internacional de Arte (2023) concedido pela organização de mesmo nome em Nova Jersey.

Marco Antonio se apresenta aos leitores do ROL com o poema Memoria de los troncos viejos, uma Ode à Natureza!

Memoria de los troncos viejos

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Me gusta detenerme
a posesión lenta, con aire claro, casi rendido
y contemplar los troncos viejos, esa corteza,
donde el tiempo relucía con bostezo sus espadas.
Ese final, que terminaba extinguido,
porque el tronco era demasiado cielo, imantaba reinos,
sucedía primogénito por el río de la noche;
su silencio ¡mundo! era una sed tejida solo con abrazos
bordeada, mal vestida y a la vez hermosa.
Me pongo a contar sus vertientes,
seguirlas, una contra otra, como relojes cruzados
donde jamás ocurrirá la hora legítima.
Y el poro, donde se habla solo de un cargado infinito
y de los muchos brazos del hombre, los dulces,
los violentos, y los descalzos de amor;
miro siempre al tope de esa vieja estrella despeinada
donde una vez existía el atrio verde.

Quizá no sea modernidad,
estar bajo ese momento del siglo, de frente a este tronco,
como si algo de un milagro nos mostrara la cara;
no es oficio de pandemia, olvidar la tierra,
y solo brindarse a esta quietud profusa, en sangre vidrio,
brotando invisible al hambre de los ojos.

Y estas orquídeas ebrias de grandeza
flotando contra el signo.

Mario Antonio Rosa

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