Logo da seção O leitor ParticipaImagem criada por AI Arte – 03 de agosto de 2025, às 07:05 PM
Não me casei com o grande amor da minha vida, é verdade, mas é com ele que ainda vivo momentos de luxúria, até chegar o dia em que terei que prestar contas com Deus, isto é, se é que Ele exista ou, então, não passe de devaneio da mente humana. Que seja uma coisa ou outra, não estou preocupada hoje, diante do meu marido, que repousa no caixão ornado de flores. Um bom homem, creia-me, que, durante quase 40 anos, me fez companhia nas noites solitárias, enquanto eu, talvez ingrata, só possuísse pensamentos voltados para o outro.
O outro, por assim dizer, é meu primo Orlando, cujas promessas de um futuro juntos foram repentinamente quebras por uma gravidez inesperada. Não minha, mas de outra parenta, a Judite. Sem poder fugir da responsabilidade, meu grande amor desposou a mulher, com quem ainda vive sob o mesmo teto. Como ele próprio me confidencia durante os momentos de alcova, casamento é que nem fumo de rolo, tem que ir até a última tragada.
Não guardo rancor de Judite, que, aos 17 anos, se deixou seduzir ou seduziu nosso primo. E o que teria sido uma aventura, acabou em casamento antes da barriga despontar. E foi justamente nesse dia que conheci Júlio, amigo da família, que me fez par. Éramos padrinhos daquele casal, cujo noivo, pecadora que sempre fui, desejei passar a lua de mel. Não o fiz, obviamente. Pelo contrário, me afastei de todos alguns dias após. Fui estudar na capital.
Meti a cabeça nos livros e consegui passar no vestibular para o curso de ciências contábeis. Durante as férias na faculdade, evitava voltar para minha Belmonte. Resisti quase sempre, até que, já perto de concluir o curso, visitei meus pais. Tudo corria bem, mas mamãe fez questão de me levar para uma visita à casa do Orlando e da Judite, que já estava na terceira gravidez.
Ao chegarmos, fomos recebidos por Orlando, que ostentava um bigode, o que o deixou parecido com o jogador de futebol Rivelino. Um charme, por assim dizer. Conheci os dois pequenos, Lúcia e Joaquim, que timidamente me receberam. Judite, perto de parir novamente, sorriu e me deu um longo abraço. Apesar de querer me livrar daquela situação o mais rápido possível, acabei aceitando de bom grado, pois senti o cheiro impregnado do nosso homem nos cabelos de Judite.
Enquanto estávamos sentados no amplo sofá da sala, ouvindo as várias conversas sobre a vida de casados dos meus parentes, a campainha tocou. Para minha surpresa, era Júlio, que estava na cidade por causa do falecimento do pai. Aqueles olhos tristes me fizeram querer confortá-lo. Abracei-o de modo prolongado, o que despertou um olhar de ciúme em Orlando. Sei que não deveria sentir o que senti, mas meu coração se encheu de regozijo.
Dois dias depois, reencontrei Júlio na rodoviária. Por coincidência, ele havia comprado passagem de volta para a capital no mesmo ônibus que eu. Os nossos assentos não eram próximos, mas isso não foi empecilho, pois consegui convencer a senhora que estava ao lado dele de trocarmos de lugar. Como consegui? Simples. Agarrei Júlio pela cintura e menti que éramos recém-casados.
Durante o trajeto de Belmonte a Salvador, Júlio não parou de me chamar de doida por ter inventado que éramos casados. Falei para ele que aquelas horas de viagem seriam como nossa lua de mel. Não chegou a tanto, mesmo porque o ônibus estava lotado. Quase comportados, meu marido de mentirinha pegava na minha mão e a acariciava. À noite, enquanto a maioria dos passageiros adormecia ou fingia fazê-lo, tomei a iniciativa de beijar aqueles lábios tímidos. Apesar de surpreso, Júlio soube retribuir ardentemente.
Assim que chegamos a Salvador, combinamos de nos encontrar em breve. Não foi tão breve assim, pois eu precisava me dedicar aos estudos, já que enfrentaria o último semestre na faculdade. Falávamos por telefone uma ou duas vezes por semana, até que marcamos de tomar uma cerveja num domingo. Quando cheguei, percebi que Júlio estava ainda mais bonito.
Após alguns copos, comecei a imaginar como terminaríamos aquela tarde. Saímos do bar e fomos para o apartamento que eu dividia com uma amiga de curso. Ela, por sorte, tinha ido passar o final de semana na casa dos pais, em Feira de Santana. Todavia, para meu azar, Júlio se mostrou muito respeitador e fez questão de me acompanhar somente até a porta.
Nosso segundo encontro aconteceu apenas no mês seguinte, quando meu quase namorado me convidou para jantar. Era um sábado e o prato foi moqueca. Foi o encontro dos sonhos e, para minha sorte, Júlio me convidou para conhecer seu apartamento. Nem tive o trabalho de fingir constrangimento, pois era justamente o que esperava desde que passamos por marido e mulher naquele ônibus.
Não vou romantizar a noite que tivemos. Júlio, apesar de não ter se mostrado decepcionante debaixo dos lençóis, não conseguiu me impressionar. Seja como for, adorava estar ao seu lado e, após alguns encontros, ele me pediu em casamento. Aceitei como se fosse mais uma brincadeira e, duas semanas após minha formatura, oficializamos o noivado na casa de mamãe.
Casamos sem pressa quase um ano após na mesma igreja que Orlando e Judite. Por ironia, os dois foram nossos padrinhos. Lembro-me muito bem do beliscão que mamãe me deu ao perceber que eu não tirava os olhos do meu primo. O engraçado é que o romance que tivemos antes da gravidez de Judite foi breve, apesar de intenso, e, até onde sei, ninguém soube. No entanto, parece que mães sentem as coisas no ar. Soube disso após dois anos, quando Maria Clara, minha filha, nasceu.
Como morávamos em Salvador, mantínhamos pouco contato com os parentes em Belmonte, ainda mais após o falecimento de mamãe, ocorrido pouco antes do Natal de 1993. E, quando íamos, era coisa rápida e cada vez mais espaçada. De vez em quando, recebíamos um ou outro parente em nosso apartamento, momentos em que ficávamos sabendo que fulano havia se casado, sicrano morrido ou coisa assim.
Júlio e eu, que pensávamos que iríamos passar o resto da vida em Salvador, decidimos retornar para Belmonte em 2016, dois anos após nos aposentarmos. Maria Clara, casada com Paulo, um rapaz que havia feito faculdade com ela, nos deu duas netas lindas, Júlia e Roberta.
Alugamos nosso apartamento na capital e fomos morar na casa que recebi de herança de mamãe. Apesar de pequena, nos serviu muito bem, pois éramos somente dois velhos aposentados e sem muitas preocupações. Gostávamos de passear de mãos dadas pela orla, como se fôssemos namorados ainda.
Júlio, logo que retornamos para Belmonte, voltou a ficar próximo de Orlando, o que me obrigava a, vez ou outra, encontrar meu primeiro grande amor. Judite, que há tempos andava acamada por conta de um acidente de carro, mal conseguia andar. Júlio, alguns meses depois, me confidenciou que os dois não se relacionavam intimamente há mais de 10 anos, bem antes do acidente. Não sei se ele disse isso como forma de convite, mas passei a desejá-lo como nos meus 18 anos, quando tivemos nossa primeira vez.
Aconteceu quase por acaso alguns dias após. Meu marido precisou ir ao médico para exames de rotina. Ele me pediu para levar um livro de poesias para Judite, além de lhe fazer companhia, pois ela parecia cada vez mais definhada. Júlio me deixou na casa do meu primo e ficou de me buscar mais tarde, assim que saísse da clínica.
Sentada em uma cadeira ao lado da cama de Judite, comecei a ler o livro de poesias “A verdade nos seres”, de Daniel Marchi, autor que até então desconhecia. Lembro-me de vê-la emocionada, ao ponto de marejar aqueles olhos tão tristonhos. A inveja, até então entranhada em meu ser, se transformou em compaixão pela esposa de meu primo.
Em determinado momento, levantei e fui até a cozinha pegar um pouco de água, quando percebi a porta se abrindo. Era Orlando, que me sorriu aquele sorriso que há muito eu havia esquecido. Ele se aproximou para me cumprimentar e, não sei o que me deu, eu o abracei e comecei a chorar. Orlando me fitou e, antes que pudesse me perguntar o motivo daquele choro, aproximei meu rosto do seu e nos beijamos ardentemente.
Meu ímpeto era largar tudo e cair nos braços do meu primo. Falei que poderíamos voltar a ficar juntos, mas ele disse que não poderia abandonar a esposa, ainda mais com ela praticamente inválida. Apesar de tamanho comprometimento com o matrimônio, Orlando não resistiu ao apelo do coração. Passamos, a partir daquele dia, a ter momentos só nossos, quando tentávamos recuperar tantos desejos reprimidos por décadas.
Não sei se meu marido desconfiou de algo, até porque há tempos vivíamos praticamente como colegas de quarto. Discreto como sempre foi, nunca me tratou de modo diferente. Sempre foi muito gentil e atencioso, além de ótima companhia. Nosso casamento, que começou como uma brincadeira naquele ônibus, provavelmente duraria mais uma década ou duas, caso o infarto não o tivesse pegado à traição.
Orlando veio me consolar e disse que, se eu precisasse de qualquer coisa, ele estaria sempre perto. Judite não pode vir, pois está cada dia pior. Os médicos já a desacreditaram e, talvez, não chegue ao próximo Natal. Isso me entristece muito. Digo isso de coração, acredite. Você pode até pensar que não estou sendo sincera, pois seria a oportunidade para viver livremente o amor que sinto por meu primo. Porém, gosto das coisas como estão.
Edmar, filho mais novo do meu primo, também está aqui no velório. É incrível a semelhança com o pai. Minha filha também parece perceber, tanto é que não consegue tirar os olhos sobre o homem. Em vez de beliscão, seguro a mão de Maria Clara. Tenho certeza, mães sentem as coisas no ar.
Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez – Crédito Irene Araúo
Eduardo Cesario-Martínez é um premiado escritor carioca, com quatro livros publicados, além de participações em mais de 40 outras obras.
Seu primeiro livro, o romance ‘Despido de ilusões’, 2004, figurou entre os mais lidos do CCBB. ‘57 Contos e crônicas por um autor muito velho’ é seu mais recente livro.
Logo da seção O Leitor ParticipaFoto por Hánji Kiami
É consensual que o país está desorientado, que as coisas estão muito mal, que a população está revoltada. Olhando bem, os sinais de revolta estiveram há muito sob nossos olhos. No final, no século passado, as coisas eram semelhantes, mas o governo colonial português ignorou: havia apenas discursos do tipo “estes arruaceiros e vândalos sentirão as mãos pesados do Estado”… mais forças de repreensão.
O governo português ignorou as verdadeiras razões do descontentamento. Muitos morreram e outros foram presos, mas a revolta continuou.
Hoje parece que a história se repete. Por isso precisamos prestar mais atenção para evitar situações semelhantes, precisamos não ignorar ou menosprezar os factos. O problema não é apenas o mano João. O problema é a nova colonização que vem há anos a maltratar o povo.
O país é nosso e nem parece ser: eis o problema. Precisamos dar uma solução. Isto implica assumir novas posturas. Mas pronto! Entretanto… porém.
Ivo José Miguel Luís
Ivo José Miguel Luís é angolano, docente em Filosofia, Língua no Liceu do município do Libolo, província do Cuanza Sul em Angola.
O escritor Djalma Marquesani, de 44 anos, nasceu em Santo André, mas foi em Itanhaém, onde vive desde os 10 anos de idade, que suas ideias começaram a ganhar forma e profundidade.
Apaixonado por suspense, terror e ficção científica, Djalma constrói em seus textos uma atmosfera densa e intrigante, capaz de capturar o leitor desde a primeira página.
Suas histórias se passam no enigmático “Vale do Brasil”, um cenário fictício que serve de palco para tramas envolventes e cheias de mistérios.
Graduado em Música e Artes, com pós-graduação em Criminologia, Análise Criminal e Gestão em Segurança Pública, Djalma alia seu conhecimento acadêmico e experiência profissional na segurança pública a elementos do fantástico, uma combinação que dá ainda mais realismo às suas narrativas.
Ele também possui formação em Parapsicologia, o que amplia ainda mais o repertório criativo de suas obras.
Seu primeiro livro, Conectados, foi publicado em 2023 e já mostrou ao público o talento do autor para misturar suspense com elementos paranormais.
Djalma também participa de coletâneas e revistas literárias, sempre dentro do gênero que mais o inspira: histórias sombrias, provocativas e intensas.
Foi justamente uma ocorrência vivida durante o trabalho que inspirou seu segundo livro, O Pacto de Joana Rocha.
A ideia surgiu a partir do contato com uma estelionatária e, a partir disso, Djalma começou a imaginar como seria se uma golpista tivesse o dom da hipnose e as inúmeras possibilidades que isso poderia abrir.
Com o apoio de amigos como a escritora Juliana Frank e o doutor Bruno, o enredo tomou corpo e se transformou em mais uma história de tirar o fôlego.
Em Vítimas do tempo, seu último livro publicado, Djalma cria um personagem, o perito criminal que enfrenta uma crise pessoal ao mesmo tempo em que precisa desvendar uma série de assassinatos brutais em Nova Vitória.
Uma trama repleta de perigos e mistérios que deixam os leitores em suspense, literalmente.
Sem vínculo com editoras, Djalma segue o caminho da publicação independente, com vendas diretas e presença ativa nas redes sociais.
Suas obras digitais estão disponíveis na Amazon, e os exemplares físicos são entregues pessoalmente, com todo o carinho de quem acredita no valor da literatura e no contato direto com o leitor.
Para quem ainda não conhece seu trabalho, fica o convite para mergulhar no universo de Djalma Marquesani, onde o medo encontra a fantasia, e a imaginação caminha lado a lado com o desconhecido.
SINOPSE : Experimente uma viagem emocionante como nunca visto, no livro de estreia de Djalma Marquesani.
Conheça a extraordinária história de Marcos, onde sua vida é levada ao caos depois que um acidente, quando jovem, lhe concede um poder mental.
Agora, prestes a completar 40 anos de idade, Marcos tem a oportunidade de usar seu dom para descobrir a verdade por trás de um misterioso sequestrador que está mutilando suas vítimas.
Este livro certamente trará arrepios e suspense a cada virada de página.
Com uma trama envolvente e escrita intensa, conheça um novo mundo cheio de mistério que se abrirá diante de seus olhos.
Conecte-se hoje e experimente um novo nível de tensão!
O PACTO DE JOANA ROCHA
SINOPSE : E se uma mulher, de maneira inacreditável, controlasse a mente de determinados homens? E se ela os usasse para enriquecer sem muito esforço?
Joana Rocha se aproveita do seu dom de hipnose para enganar as pessoas.
De golpe em golpe, construiu uma vida de luxos, atingindo um patamar com o qual nunca sonhara.
Entretanto, toda a sua fortuna não é suficiente para satisfazê-la.
Ela vive em Barreiras, uma pequena cidade do Vale do Brasil, que está um caos, aterrorizada por um assassino cruel, que desmembra suas vítimas.
Porém, isso não a impedirá de planejar o seu maior golpe, que a enredará numa teia de acontecimentos que podem ser fatais.
O Pacto está feito, não há como voltar atrás e seu preço será cobrado!
VÍTIMAS DO TEMPO
SINOPSE : O perito criminal Paulo Santos está à beira do colapso, afundando em um abismo pessoal enquanto a cidade de Nova Vitória é assombrada por um mistério macabro.
O sétimo corpo surge sem explicação, levando Paulo e seu irmão Téo, a uma investigação que desafia a lógica e seus maiores medos.
Conforme se aprofundam, descobrem que a força por trás desses assassinatos é mais brutal e impiedosa do que poderiam imaginar.
No entanto, a verdade que os espera pode ser pior do que a morte!
Marta OliveriImagem criada pela IA da Meta – 1º de setembro de 2025
Canto 1
Habrá un día que anochezca y nazca en el punto neurálgico del tiempo un océano de mares que fundan sus rompientes en una fuente única hacia el éter habrá en el horizonte, atisbo de lo eterno emigrando en violeta como Psique en alas de Cupido…
Mariposa rescatada de las sombras habrá lo que siempre ha estado entre nosotros descreídos y trémulos de olvido santificado por el agua de un ángel degollado y la sangre de un dios que desbordó los ríos dulce dios en harapos oscureciendo cielos transitorios la tormenta que da a luz el nuevo verbo el hijo del dolor y la ternura el que ha dicho :”Elí, Elí! lama sabactani” Padre mío porqué me desamparas y en devenir la metáfora una liviana urdimbre de plumas que refugian la memoria del vuelo o el viento en ascendente virtud de trascender esa quimera edénica que nos dejo en exilio
habrá el retorno en muerte-en vida donde rompen los brotes y se desangra el tronco milenario y tendremos un bálsamo de profundas heridas que nos dirá que todos hemos sido el madero los clavos y la carne desagarrada en el sitio donde gimieron padre e hijo hermanos de sepulcro que todos al fin hemos tejido el manto dando a luz la piedra irreverente que negó sepultura al irredento El poeta de luz, que abrió la noche en un alba angelical de rebeldía.
Canto 2
Y ahora en la promesa este logos aséptico de medianías tan gratas como el prolijo tic-tac del presente inmediato nos hemos olvidado del pasado nos hemos olvidado de los sueños ese recuerdo de un futuro aún no nacido
y nos vamos desvistiendo de absoluto en el lineal ropaje de este infierno mundano de esta trampa perfecta que nos regala un día de anhelos satisfechos y olvidos convenientes a merced de del los imperios esos fantasmas púdicos que se visten de ofrendas, protocolo y misiles que se esconden al buen gusto del publico selecto acribillando el sol de África
y los niños muriendo en sus costillas en Nagasaki o Palestina, Hiroshima o Irak según suponga el tiempo del ajedrez político que olvida que la vida, rebalsa las cuadrículas el tablero naufraga en abismo del Tártaro que en este mundo de inermes mortandades sólo hay un dios y es el amor del hacedor de cunas, la matriz celestial de los inicios.
Canto 3
Dormir profundamente y quedarse en el centro en la muda constelación de lo que brilla en esa lejanía de onírico horizonte. La verdadera eternidad es un regreso donde nos espera Penélope o Ariadna la matria del amor encapullado la ternura del cuenco que acurruca a Pandora pajarito que late la última esperanza. Cómo decir cuando el otoño acecha cómo seguir bajo estos rasgos que se apagan bajo esta máscara que que la vejez inventa el mismo corazón el mismo barco la misma llama en pos de lo absoluto. Qué dignidad de edades arrumbadas nos tiende la gran trampa de ir muriendo respirando memorias de azares y violetas abrigando firmamentos de dioses infantiles entre nubes de acuarela y brillantina qué letal mansedumbre nos ha precipitado a esta triste osadía de soportarlo todo heroísmo de náufragos asumiendo la broma de este barco que embriaga su deriva de esta burla de pipas quemantes en las alas. II Estamos perdiendo la humanidad en una sombra la vida en la caverna de esta ancestral falacia. estamos renunciando al paraíso en cada fosa de las horas quietas suponemos un dios, un escenario pero somos solo espectros de la ausencia y estamos muertos, más muertos todavía que todo lo que muere en este mundo cuando perdemos la voz del instrumento que templaba el nidal de la palabra.
Canto 4
Esta extraña altitud que da el destello de una fugaz mirada al firmamento esta súbita dicha de absoluto abrir la luz del río que asciende toda pena proeza aún mayor de sabernos tan mínimos latitud del polvo al fin donde no hay horizontes y se acaban las huellas en las aguas estigias.
mayor es el milagro más bello el testamento azul que le dejamos a estos nuevos capullos a estas cunas que esperan arrullando el futuro de un ser aun no nacido en los ciclos del tiempo.
mayor aun la grandeza mayor esta nodriza tejedora incansable desovillando olvidos para hacer la memoria de clara y santa urdimbre y platinar los brotes que mojará el rocío
Canto 5
Porque somos el temblor y a la vez el refugio el estigma de Caín y el trigo de otra ofrenda que librará al caído de su estigma
porque habrá que morir si de morir se trata como quien lleva las manos a la hondura de la última fuente de los tiempos la que abreva el espacio del dolor y consuela la sed las raíces.
porque somos el tronco milenario entrampado en las ruinas de un desierto que fue templo alguna vez o un hogar para amantes o herida selva atávica o playa de aquel bíblico mar que ya no es
porque habremos de ir tras el recodo de un horizonte intimo que esconde lo infinito.
Canto 6
Canto de una trama ennegrecida por el trágico verbo de lo oscuro en las ruinas sonámbulas que dejaron los cetros de los reyes que enlodaron al fluir en copas de oro o engoladas guillotinas descabezando almas atravesando muérdagos arrasando arquitecturas de nidales silvestres en el simple nacer de los naceres canto que se silencia
por épocas ceniza
por épocas aullido estepario y atónito
por antes una mueca avergonzada y álgida de monstruo malherido de enlodada metáfora
por después la belleza desertando las llagas
la máscara naciendo al transparente rostro
la melancolía azul de un saber silencioso que determina cielos remontando la tierra. Luego la pausa trágica y el abrazo seguro. Un aleteo de ausencias regresando al nido.
Y al fin, la isla donde acaba toda lágrima en la alianza de ríos transitorios.
Canto 7
Y será “la nueva alianza” en séptimo presagio refugio de los pájaros:
Ella DominiciImagem criada por IA do Bing – 31 de julho de 2025, às 17:23 PM
Liberdade mente-me.
Essa frase contém o abismo e a ironia de quem, ao desejar ser livre, percebe que a promessa da liberdade pode ser uma ilusão sedutora, uma quimera que queima as asas de quem voa em sua direção.
A liberdade, nesse paradoxo, torna-se uma entidade que mente ao nos prometer plenitude — e quando finalmente se apresenta, somos nós que não mais sabemos habitá-la.
O céu não desce, nem sobe. Apenas paira — imóvel como um olhar que sabe demais. A manhã acorda com os ombros tensos, e ninguém ousa nomear o absurdo.
O silêncio mastiga a dúvida, e o homem, ao tentar mover-se, tropeça na própria lucidez. Tudo nele é consciência, e essa consciência pesa mais que a morte. Ele vive, sim. Mas cada passo é um protesto contra o chão.
Ela caminhava como se arrastasse uma infância às costas. Os lençóis ainda tinham o cheiro das promessas não cumpridas. Ao lado, a pele do outro — morna, disponível — era uma ilha que ela não sabia habitar.
A liberdade entrou pela janela e ficou parada no meio do quarto. Era tarde demais. Ela já havia aprendido a respirar sem ela.
O sol invadia o quarto sem pedir licença. Ela não fechava as cortinas. Queria que a dor aprendesse a conviver com a luz. Mas a luz era cega e mostrava tudo: as rachaduras, os restos, as bonecas viradas para a parede. Ser livre era uma tarefa que exigia forças que ela havia doado a poemas. E os poemas? Amavam-na, mas não a salvavam.
Ela tocava nas palavras como quem toca numa pedra quente: não para colher, mas para reconhecer o calor. Tudo em volta pulsava sem sentido, como se o mundo tivesse desaprendido a nascer. Ela queria mais que voar — queria dissolver-se no ar. Mas ao tentar, percebeu que o ar também sangra. E então, nomeou o indizível com o silêncio.
As cartas, os cadernos, a máquina de escrever — hoje teclado — tudo a olhava como se exigisse confissão. Ela mentia com precisão.
A liberdade era o disfarce da desistência. E ela, embora tão jovem, já sabia dançar com as perdas. Sabia que o tempo não cura: apenas reorganiza os escombros para parecer paisagem.
Na escada, ninguém espera. A porta não se abre nem se fecha, apenas observa. Cada degrau range uma acusação sem língua. O homem carrega um nome que não lhe pertence.
E a liberdade? É uma senha esquecida. Um papel dobrado no bolso que nunca se ousou virar. Ele anda, não por vontade, mas porque parar é admitir que foi engolido.
A mente é um palco onde as cortinas nunca fecham. Sonhos desfilam nus, e medos gritam entre os bastidores. Ele fala consigo mesmo, mas escuta o mundo inteiro.
A liberdade mora num crânio vazio, ecoando ideias que nunca se realizam. Há mais dor em pensar do que em sofrer. E mais prisão na dúvida do que na cela.
Liberdade mente-me — com sua voz de vento e vestes de luz. Mas a luz também fere, e o vento não escolhe rota. Talvez sejamos apenas corpos tentando lembrar como se vive, depois da promessa não cumprida.
Talvez liberdade seja esse espelho onde a alma não se reconhece mais.