A poesia de Brenda Beauvoir

Marta Oliveri

A poesia de Brenda Beauvoir – Uma poética além da palavra

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Brenda Beauvoir - Arquivo pessoal
Brenda Beauvoir – Arquivo pessoal

Como uma epopeia íntima e existencial, é a obra de Brenda Beauvoir notável estatura poética que surge em um universo desbordante, atravessando territórios de imensa beleza. A autora entelaça mitos e imagens oníricas em uma saga pessoal. Seu mundo percorre as metáforas de Prometeu, os grandes mitos de todos os tempos, os ausentes, as dores dos tempos presentes e os passos de fluir com a oscilação do rio de Heráclito. Utopias que afloram e se eclipsam, sonhos, sombras, fantasmas que nascem e se prefiguram como parte de uma história que trascende à poeta.

Brenda Beauvoir escreve em seu poema ‘Portas do labirinto’: “Não permitas que o esquecimento construa na humanidade uma nave de perenes ocasos e sombras nos infinitos crepúsculos sombrios, onde as horas morrem numa letargia.” Aqui a autora expressa a dor do esquecimento que assola a humanidade e determina de alguma maneira o estado de coisas que nos emergem no apocalipse que atravessamos nestes tempos escuros.

Outra figura notavelmente significativa em sua poética é a de Prometeo. Aqui estão as citações neste texto particularmente paradigmático em sua obra: “Prometeu se aproxima sem ladainhas, e nesses silêncios de partir o coração não consigo ver o destino ou a luz sagrada que os antigos celtas proclamaram”. O mundo se acumula nos pés de uma humanidade de sangue. E vazio de sombras e um presságio que não se dissipa e que não deixa ver a luz, me envolve como uma serpente que destruiu o universo da humanidade das tempestades fulminantes em que o próprio ser humano destruiu alevosamente seus sonhos.

Em síntese, Brenda Beauvoir se manifesta com dolorosa beleza em um registro épico e melancólico. A expressão clara de seu compromisso com a realidade que o acecha e nós aceitamos a todos, uma realidade que travemos ao poeta de maneira profunda e dolorosa. Sua expressão é a clara determinação de uma rebeldia, sua potência de verbo que se eleva por cima de todas as contingências na eternidade da palavra.

Trajetória de Brenda Beauvoir

Brenda Beauvoir - Arquivo pessoal
Brenda Beauvoir – Arquivo pessoal

Brenda Beauvoir é uma escritora argentina reconhecida em Buenos Aires. Foi criada como professora de língua e literatura em ensino secundário. Publicou uma ampla variedade de obras literárias, entre as quais se destacam títulos como ‘Cecilia. O rosto das sombras’, ‘As cartas’, ‘Assassinatos na noite’, ‘Nahla’, ‘Voz da Ausência’ e ‘Exegese do Esquecimento’, prologado pela candidata argentina ao Prêmio Nobel de Literatura Martha Oliveri. Sua obra foi reconhecida com vários prêmios e distinções, como a Menção de Honra da Sociedade Argentina de Escritores e o Prêmio Atrezo, entre outros.

Conversa com Brenda Beauvoir

MO: Como você descobriu sua paixão pela poesia e por que você se dedicou a ela?

BB: Desde a menina descobriu que a poesia é parte de minha misma e como decía Jorge Luis Borges à medida que um va transitando o labirinto da vida em qualquer surgimento de dores, instantes felizes, alegrias e todas as misérias que vemos neste remetente que transitamos sem argila para moldar a obra literária.

MO: Qual foi o momento ou experiência que a inspirou a começar a escrever poesia?

BB: Talvez o próprio labirinto. Talvez a felicidade e as sombras…

MO: Como você descreve seu processo criativo e como trouxe as ideias e temas que tratam em seus poemas?

BB: Eu descreveria isso como uma evolução constante do ser, sempre apoiada por filósofos, como foi o caso da minha última coletânea de poemas, “Exegese do Esquecimento”, mas uma única palavra basta para que um poema surja.

MO: Que influências literárias ou pessoais tiveram um impacto significativo em sua obra poética?

BB: Ter estudado literatura como professora me conectou com muitos autores; a princípio, parecia apropriado brincar com metáforas e recursos estilísticos. No entanto, como filha de imigrantes, acredito que a dor e o deslocamento podem ser ferramentas tão valiosas quanto o conhecimento.

MO: Como você vê o papel da poesia na sociedade atual?

BB: A poesia é um reflexo da sociedade, um espelho que mostra a realidade e a complexidade da condição humana.

MO: Como você vê seu lugar no mundo da literatura e o que a motiva a continuar criando?

BB: Eu vejo como um lugar abstrato em todos os sons e melodias fluentes que se elevam até o infinito no qual a obscuridade se converte em luz e em todo o mágico que pode dar ao universo da poesia e da palavra.

MO: Que influências literárias ou pessoais tiveram um impacto significativo em sua obra poética?.

BB: Ter estudado como professora de Literatura me conectou com muitos autores. No início, certamente parecia brincar com metáforas e recursos estilísticos, porém, e sendo filha de imigrantes, acredito que através do desenraizamento podemos ser uma ferramenta valiosa como o conhecimento que nos elevará, sempre foi usado para nos reconstruir e dar uma mensagem de resiliência e esperança à humanidade que

M.O.: Qual o papel que você acha que a poesia desempenha na sociedade atual e como ela pode influenciar a consciência coletiva?

B.B.: Não acho que ela desempenhe um papel tão preponderante quanto no século passado, mas desempenha. E é nossa tarefa, como trabalhadores culturais, reacender a chama eterna da poesia neste mundo tão desumanizado e carente de valores espirituais.

MO: Algum projeto ou tema específico que você está trabalhando para compartilhar com seus leitores?.

BB: Claro. Me angustiei profundamente as guerras no mundo inteiro e revivei o horror do holocausto na Segunda Guerra Mundial… Meu trabalho como fazedor da cultura é sempre pedir pela paz e pela união dos povos e que ninguém seja humano na parte da terra, cause sofrimento a outro mar da razão que fuere.

Meu último trabalho é uma novela titulada PALESTINA. Ruínas de um espanto anunciado e espero que através de todos eles tomemos consciência porque a este passo o ser humano será destruído por completo.

Epílogo

As palavras estão aqui

Queda da sombra de uma pergunta… É possível que a poética possa resgatar a obscuridade destes tempos, a esperança de uma nova humanidade? Se fizer à noite um raio de luz irradiar sua metáfora através da janela

A aurora é agora uma ideia que a alma do poeta abriga na luz do verbo Próximo.

Marta Oliveri

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Religião: Uma alternativa para a paz?

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

‘Religião: Uma alternativa para a paz?’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
Imagem criada por IA do Bing – 31 de julho de 2025,
às 11:16 PM

Nem só de ciência, de técnica e de recursos materiais vive o homem. Para além daquelas capacidades e possibilidades, existe mais vida, mais mundo, mais alternativas, outras dimensões, que podem contribuir para o bem-estar da Humanidade em geral, e de cada pessoa em particular. Ignorar, por mero preconceito, por descrença, por agnosticismo, ou por quaisquer outras razões, a dimensão religiosa do homem, é dificultar o processo para a pacificação, mesmo para aqueles que argumentam que a religião também está na origem de muitos conflitos, o que se julga ser verdade, uma outra face dos conflitos. 

Ao invocar-se a dimensão religiosa da pessoa humana, pretende-se sensibilizar cada um de per si e de QUASE todos, para a doutrina social das diversas religiões, excluindo-se, portanto, os fundamentalismos dogmáticos, os radicalismos mais sectários e as posições exacerbadas, aliás, estes excessos de algumas correntes, também precisam da ajuda dos moderados, e estes têm o dever, não só de compreender tais posições extremadas como, e principalmente, proporcionar as condições que conduzam ao diálogo, ao bom senso e à pacificação entre os grupos desavindos.

Pensando, portanto, nos interesses das novas e emergentes gerações, onde se incluem, porventura, os filhos de quem, neste momento, analisa este artigo e reflete sobre estes temas, urge desencadear ações que aproveitem ao objetivo último de, a curto prazo, se vislumbrarem melhorias no inter-relacionamento da Humanidade. 

A dimensão religiosa do homem crente deve ser respeitada e colocada a serviço da educação, e da formação destas novas gerações, a começar na família, porque o ser humano tem imensas dimensões, capacidades e possibilidades de as exercer, no seio do grupo e da sociedade, desejavelmente, no sentido do bem-comum.

A educação religiosa é, por tudo isto, essencial na construção de pessoas que também se pretendam íntegras, que possuam a liberdade de se autodeterminar, com responsabilidade e generosidade, para com os seus semelhantes. 

A preocupação, por uma educação e formação integrais, deve ser uma constante em todos aqueles que, de alguma forma, e a um qualquer nível social, têm responsabilidades em preparar o futuro, na medida em que: «Quando educamos os nossos filhos, todos pretendemos faze-los partilhar das nossas mais profundas convicções e enriquecê-los com o que nos parece mais válido. Cada um, segundo a sua própria escala de valores, dar-lhes-á, antes de mais, com prioridade absoluta, o que lhe parece importante. (…). Quando os pais são crentes, a sua fé em Deus é, certamente, desta ordem; eles têm, se são coerentes com as suas convicções, uma outra dimensão, uma outra óptica dos acontecimentos que os rodeiam. Pensamos que é importante fazê-la partilhar pelos nossos filhos desde a sua infância e falar-lhes muito cedo de Deus». (D’ARNUY, (1977:172).

O mundo: cada vez mais profanizado, precisa de Deus; os homens não podem viver, e não conseguem resolver todos os problemas, à margem da Bondade e Sabedoria Divinas; a Humanidade será reduzida à sua mais brutal animalidade se continuar a rejeitar Deus. O caminho seguro, que poderá conduzir à pacificação do mundo, tem de passar por Deus, e muitos seres humanos sabem que não há outra alternativa. 

Excluir Deus do processo de pacificação, é prosseguir o caminho para a destruição total da Humanidade. Não se pretende, nem seria compatível com a natureza pró-científica deste trabalho, profetizar o apocalipse, ou uma escatologia do Juízo Final condenatório de toda a Humanidade. O que se pretende desmontar, pela observação-participante, é a condição frágil, insegura e indefinida do ser humano.

 A demonstração da necessidade de Deus, na formação da pessoa humana, igualmente se comprova, sem dificuldades, nem argumentos científicos, porque a Humanidade, na sua esmagadora maioria, busca Deus e n’Ele a solução para todos os problemas, que a ciência e a técnica ainda não resolveram. 

A educação e formação religiosas são um argumento poderosíssimo, para que os sistemas educativos integrem nos seus cursos, currículas e conteúdos programáticos, os valores religiosos, aceitando que: «Os ensinamentos de uma religião devem influir na personalidade e na conduta diária do crente. Assim a conduta de cada pessoa, normalmente, será um reflexo, num maior ou menor grau, de formação religiosa dessa pessoa.» (SOCIEDADE TORRE DE VIGIA DE BÍBLIAS E TRATADOS, 1990:12).

Acontecimentos que comprovam, inequivocamente, a importância da religião, para se alcançar a pacificação, surgem, frequentemente: a preocupação dos mais altos dignitários das religiões maioritárias, em estabelecerem o diálogo ecuménico interreligioso; as grandes reuniões da juventude, por iniciativa pontifícia que, regularmente, ocorrem em locais diferentes da terra; as peregrinações de milhões de crentes, todos os anos, aos santuários e outros locais sagrados; o crescente número de peregrinos que, mundialmente percorrem os caminhos da Fé; a intervenção das Igrejas nos domínios sociais, assistência humanitária e moderadora de conflitos.

No contexto da pacificação da Humanidade, o papel da religião e das boas relações humanas, a todos os níveis, são fundamentais, não se excluindo os conhecimentos que a ciência pode proporcionar, assim como, o recurso à técnica e seus instrumentos, no que se refere a melhorar as condições de vida das comunidades, nas quais a origem dos conflitos se localiza em determinadas insuficiências e/ou carências de ordem social/material: saúde, educação, trabalho, habitação, segurança social e uma velhice tranquila. 

Toda esta complexidade levanta, porém, algumas interrogações que se deixam para reflexão: Filosofia, Ciência, Técnica e Religião são incompatíveis? A pacificação da Humanidade pode dispensar alguma daquelas, entre outras, dimensões do homem? E, afinal, as disciplinas sociais e humanas, bem como os domínios ditos não-científicos, qual o estatuto que lhes será reconhecido? A interdisciplinaridade será possível, desejável, útil ou cada ciência vai manter-se na sua ‘redoma de cristal’?

BIBLIOGRAFIA

D´ARNUY, Jo, (1977). Nós e os Nossos Filhos. Trad. António Agostinho Torres. Porto: Editorial Perpétuo Socorro.

SOCIEDADE TORRE DE VIGIA DE BÍBLIAS E TRATADOS, 1990:12

Venade/Caminha – Portugal, 2025

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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Comenda Mérito Científico Galileu Galilei

A COMENDA MÉRITO CIENTÍFICO GALILEU GALILEI destina-se a galardoar personalidades nacionais ou estrangeiras como forma de reconhecimento das suas relevantes contribuições prestadas à ciência, à tecnologia e à inovação

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OUTORGA DA COMENDA MÉRITO CIENTÍFICO GALILEU GALILEI

Comenda Mérito Científico Galileu Galilei
Comenda Mérito Científico Galileu Galilei

A COMENDA MÉRITO CIENTÍFICO GALILEU GALILEI foi instituída em 29 de julho de 2025, conforme o decreto acadêmico 0729.008/2025, em homenagem a Galileu Galilei, frequentemente referenciado como ‘pai da astronomia observacional’, ‘pai da física moderna’, ‘pai do método científico’ e ‘pai da ciência moderna’.

Galileu Galilei nasceu na cidade de Pisa, Itália, no dia 15 de fevereiro de 1564. Foi um cientista, físico, astrônomo, escritor, filósofo e professor italiano que deixou legado importante em diversas áreas. Seus estudos e contribuições ajudaram a influenciar e aprimorar a Matemática, a Física e Astronomia, entre outras áreas.

A COMENDA MÉRITO CIENTÍFICO GALILEU GALILEI destina-se a galardoar personalidades nacionais ou estrangeiras como forma de reconhecimento das suas relevantes contribuições prestadas à ciência, à tecnologia e à inovação.

A COMENDA MÉRITO CIENTÍFICO GALILEU GALILEI é uma forma de valorizar e incentivar a produção científica e tecnológica no país, reconhecendo o trabalho daqueles que contribuem para o avanço do conhecimento e para o desenvolvimento do Brasil.

As áreas de atuação dos agraciados são diversas, abrangendo ciências biológicas, radiológicas, físicas, agrárias, da terra, química, matemática, sociais, humanas e tecnológicas, além de engenharias.

As solenidades de outorga, serão realizadas nas seguintes datas:

Dia 12 de setembro (sexta-feira) às 15h.

Local: Câmara Municipal de Niterói.

Avenida Ernani do Amaral Peixoto, 625, Centro – Niterói – RJ.

Dia 13 de setembro (sábado) às 16h. Evento virtual na plataforma Google Meet, com transmissão ao vivo pela TV CHANNEL NETWORK.

EDITAL DISPONÍVEL:

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Bicentenário do poeta Bernardo Guimarães

FEBACLA celebra o Bicentenário de Nascimento do Poeta Bernardo Guimarães, com outorga da MEDALHA COMEMORATIVA ALUSIVA AO BICENTENÁRIO DE NASCIMENTO DO POETA BERNARDO GUIMARÃES

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Medalha Comemorativa Alusiva ao Bicentenário de Nascimento do Poeta Bernardo Guimarães
Medalha Comemorativa Alusiva ao Bicentenário de Nascimento do Poeta Bernardo Guimarães

A MEDALHA COMEMORATIVA ALUSIVA AO BICENTENÁRIO DO POETA BERNARDO GUIMARÃES é uma condecoração criada pela FEBACLA, com objetivo de homenagear à memória do poeta Bernardo Guimarães, considerado o criador do Romance Sertanejo ou Regional, ambientado nas paisagens e costumes de Minas Gerais e Goiás.

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, é um escritor brasileiro do século XIX. Ele é um dos principais autores da prosa romântica regionalista. Sua obra mais famosa é A escrava Isaura.
Bernardo Guimarães nasceu em 15 de agosto de 1825, em Ouro Preto, no estado de Minas Gerais. Mais tarde, fez faculdade de Direito em São Paulo, onde se tornou amigo de escritores como Álvares de Azevedo (1831–1852) e Aureliano Lessa (1828–1861). Além disso, trabalhou como juiz e, também, professor.

O autor, que faleceu em 10 de março de 1884, na cidade de Ouro Preto, é um dos principais representantes do romance regionalista do Romantismo brasileiro. Suas narrativas, portanto, além de valorizarem a cultura regional, enaltecem o amor e a pureza feminina, como é possível verificar em seu romance A escrava Isaura.

A MEDALHA COMEMORATIVA ALUSIVA AO BICENTENÁRIO DO POETA BERNARDO GUIMARÃES será concedida a escritores, poetas, jornalistas, juristas, probacla

medalhafessores da língua portuguesa, educadores, apreciadores da literatura e personalidades culturais brasileiras, cujos trabalhos ou ações mereceram especial destaque na defesa, promoção e valorização da literatura nacional.

As solenidades de outorga, serão realizadas nas seguintes datas:

Dia 12 de setembro (sexta-feira) às 15h.
Local: Câmara Municipal de Niterói.
Avenida Ernani do Amaral Peixoto, 625, Centro – Niterói – RJ.

Dia 13 de setembro (sábado) às 16h. Evento virtual na plataforma google meet, com transmissão ao vivo pela TV CHANNEL NETWORK.

EDITAL:

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Passarinhando

José Antonio Torres: Poema ‘Passarinhando’

José Antonio Torres
José Antonio Torres
Imagem criada por IA da Meta - 30 de julho de 2025, às 8:08 PM
Imagem criada por IA da Meta – 30 de julho de 2025,
às 8:08 PM

Passei em frente à tua casa e te vi na varanda…
Estavas com o olhar perdido, sabe-se lá onde.
Olhar de quem tem o coração partido,
Que procura encontrar ao longe,
Talvez, o amor perdido.

Não percebias o barulho dos carros passando…
Nem o movimento das pessoas circulando…
Tampouco o cantar dos pássaros nas árvores em frente. Nada!
Estavas imersa no vazio dos teus devaneios.

Quem teria machucado teu coração?
Que pensamentos povoam a tua cabecinha,
Para ficares assim, tão absorta?
Nada te despertava desse torpor…

Segui o meu caminho com o coração partido…
Uma mulher tão linda e meiga,
Que me inspirava o desejo de segurar a tua mão,
Estreitar-te num afetuoso abraço
E livrar-te desse sofrimento.

Ao final da tarde, retornei.
Ao passar novamente por tua casa, não te vi.
Aonde terias ido?
Ao encontro do amor perdido ou de um novo amor?

Nada posso fazer por ti,
A não ser cantar para espantar a tua tristeza.
Me sinto triste, mas impotente,
Pois sou apenas um passarinho.

José Antonio Torres

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Partenope

Julián Alberto Guillén López: Poema ‘Partenope’

Julián Alberto G. López
Julián Alberto G. López
Imagem criada por IA da Meta - 29 de julho de 2025, 
às 17:28 PM
Imagem criada por IA da Meta – 29 de julho de 2025,
às 17:28 PM

Você cura a lepra,
oh, minha senhora,
causando espasmos
na face das águas.

Você é como um anjo
que desce
com rosto luminoso
às ondas inquietas
da margem do lago.

Você cura as doenças mais mortais,
aflições
como o tédio.

Em seu odre, meu amor,
você carrega o remédio mais doce.

Minha Partenope,
dentro de você você guarda
a energia sagrada
da Natureza.

Tudo em você
é um exercício
de harmonia.
Seus lábios são estrelas
e sua voz uma amostra profunda
de melodia.

Eu me enraizo em você
para curar minha alma.
Só você tem
essa panaceia.

A chave
para remodelar
os cômodos
do meu coração.

Senhora do Lago
se você olhar para mim
a névoa se dissipa
e eu caio em êxtase completo.
Pura beleza,
pedra fundamental.

Com seu caduceu
você move as células mortas
para uma nova virtude.
Minha Flora,
seu rosto
é o rosto da primavera.

O amanhecer surge em minha vida
quando você chega.

A ampulheta
regenera seus grãos
de areia.

Encarna em mim mais uma vez
uma atitude mais otimista
porque você é
a representação mais fiel
da vida.

Julián Alberto Guillén López

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O triste ancião

Evani Rocha: Conto ‘O triste ancião’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada por |IA do Canvas - 29 de julho de 2025, às 09:30 PM
Imagem criada por |IA do Canvas – 29 de julho de 2025,
às 09:30 PM

Era uma enorme casa, daquelas feitas sobrado, com janelões de madeira e coloridos vitrais.

Era uma casa grande, dessas que já moraram muita gente…

Com seus largos corredores e seu piso antigo de peroba rosa. “Bons tempos aqueles…” diria o triste ancião sentado à varanda, sobre a velha cadeira de balanço, a qual rangia melancolicamente a cada movimento do homem: para frente, para trás, para frente, para trás…

Até parecia um gemido de dor, como se a cadeira lesse os pensamentos saudosos do pobre velho. Na mão direita o cachimbo de cabo feito de osso, seu único companheiro. Esse era levado aos lábios de minuto a minuto, sugava a fumaça e soltava em grossas nuvens retorcidas. Com o dedo indicador já calejado, ajeitava o fumo na boca do cachimbo. Os olhos anuviados ainda conseguiam enxergar a beleza da paisagem à frente, aquela mesma que estivera consigo por mais de meio século. Não fazia mal não enxergar os detalhes, pois estes estavam gravados em sua memória.

“Ohhhhh!” – resmungava baixinho o ancião. Ele via-se sobre o lombo da égua Serena, animal dócil, sagaz e inteligente. – pensava: “Branca feito plumas de algodão.” Lembrava-se que podia montá-la à pelo, agarrar a sua volumosa crina e cavalgar pelas veredas e banhados à cata da boiada.

Enquanto o Sol entrava preguiçoso, deitando seus raios por detrás das serras, a penumbra da noite ia invadindo o vasto terreiro de chão batido. Voltava o ancião seu pensamento para um passado ausente. Numa época em que eram um jovem casal com meia dúzia de filhos. Recorda-se do jardim que tomava conta de toda frente do casarão. Das roseiras brancas com seus copiosos cachos de rosa. Da algazarra das crianças correndo no gramado, ao entardecer…

Viu nos fundos da casa, vultos a balançar, por certo seriam os galhos das fruteiras, ao sabor do vento. Mas o velho quase atreveu-se a levantar para recolher as roupas. Lembrou-se que ali não havia mais o varal de arame liso, feito por ele, bem amarrado ao tronco das mangueiras. Eram ordens de sua esposa. “Mulher caprichosa!” – murmurou novamente. Num piscar lento de suas pálpebras cansadas, viu o varal cheinho de roupas a secar, tão alvas feito as nuvens em dias de verão.

“Se foram todos eles! Por certo andam cuidando de suas vidas, nesse mundão de meu Deus!”.  Agora, deixou escapar uma voz baixinha e rouca, que saiu acompanhada de mais uma baforada de fumaça. A esposa morrera, há anos. Os filhos cresceram e tomaram seus destinos, murmura o ancião: “Pudera! O que haveriam de fazer aqui nesse sertão, isolado de tudo?”. No fundo ele se conforma com a solidão: “É o destino, o que há de se fazer?”.  Até a cadela Estrela, partira, logo após a morte de sua senhora. 

Ultimamente, quase não abre mais as janelas. Locomove-se lentamente com o apoio da bengala. Muitos já lhe propuseram a compra da casa. “Ora! Se queres me dar uma pechincha! Aqui está depositado o suor de toda uma vida de laboro!” Tentam convencê-lo a ir para o lar dos idosos. Mas sem sucesso. A resposta do velho é sempre a mesma: “Daqui só saio depois de morto!”

A poeira e a fuligem cobrem as telhas antigas de cerâmica. As paredes de adob, demonstram o desgaste do tempo. Os móveis surrados, de madeira, guardam a história de uma grande família. Parece que são esses detalhes que ainda o mantêm vivo.

Um vento gelado chegou juntamente com a noite. Do ombro da cadeira, o homem puxa um blusão de lá grossa e o joga sobre as costas. Deposita o cachimbo no tamborete ao lado. Risca o isqueiro e acende a lamparina de querosene. O vento que entra na varanda faz a chama dançar de um lado a outro, e quase a apaga. O escuro gelado do inverno entra casarão a dentro. Nas matas ao fundo, o urutau solta um assovio penoso. “O silêncio da noite é mais doído”, – pensa o velho homem.

Aos poucos as estrelas vão apontando no céu. Os fachos de luz deixam as folhas das árvores prateadas. Só há um triste ancião, a lamparina e o zunido em coro das cigarras…

Deita a cabeça no encosto. Suas mãos trêmulas se soltam dos braços da poltrona, escorregam lentamente e caem. A luz da lamparina se apaga. Cessou-se o vai e vem da cadeira. A Lua despontou no céu…

O que diria o ancião, a respeito daquela bonita noite de luar, se a ele tivessem sido acrescidas algumas horas a mais de lucidez?

Evani Rocha

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