Luciana Fisher

Escrever para existir

Luciana Fisher
Luciana Fisher

Você se lembra do que queria ser antes que o mundo começasse a opinar?

Luciana Fisher lembra.

Antes da economia, antes de Nova York, antes dos diagnósticos médicos, havia uma menina que organizava lançamentos de livros imaginários no próprio quarto.

Assinava autógrafos para leitores invisíveis e acreditava, com convicção infantil, que seria escritora.

A dislexia tornava o sonho improvável. Ler exigia esforço redobrado. Escrever, paciência. Ainda assim, o desejo permaneceu.

hospitalidade, longas jornadas e resultados concretos.

Mais tarde, a economia entrou em cena como campo de estudo e reflexão, oferecendo espaço para uma mente analítica.

Surgiam em guardanapos, cadernos, anotações soltas.

Sempre havia um fio puxando de volta para a escrita.

O adiamento virou hábito. “Depois” tornou-se resposta automática.

Até que o mundo parou.

A pandemia interrompeu a rotina e abriu uma brecha.

No silêncio global, Luciana voltou a escrever, não como projeto, mas como prática.

Não para provar algo, mas para existir com mais inteireza.

Meses depois, aos 38 anos, veio um diagnóstico avassalador de câncer de mama.

A experiência alterou a percepção do tempo, não como fim, mas como ponto de decisão, urgência e partida.

Em junho de 2025, aos 43 anos, nasceu Sob a Superfície (Beneath the Surface).

Mais do que uma coletânea de poemas, o livro convida o leitor a atravessar uma narrativa que entrelaça versos e memória.

Cada página conduz a uma travessia emocional que revela camadas com delicadeza.

Embora parta da história da autora, a experiência nunca é idêntica. Cada leitura é singular. Cada leitor encontra as próprias perguntas, lembranças e respostas.


“O livro se autoescreveu ao longo da minha vida, conforme eu refletia em prosa e poema as dores, os amores, as perdas, as vitórias e as alegrias através dos anos.”

Luciana Fisher


Hoje, estudante de Ciências Sociais com concentração em Economia na NYU, Luciana divide a trajetória entre pesquisa, performance poética e novos projetos literários e artísticos.

Já se apresentou em espaços icônicos da cena literária nova-iorquina, como o Nuyorican Poets Café e o Bowery Poetry Club.

A escritora que um dia imaginou leitores invisíveis agora escreve para leitores reais, mas a essência permanece a mesma: compreender e ser compreendida.

Sob a Superfície está disponível em português e inglês, com edições em francês e espanhol previstas para fevereiro e março de 2026.

E a jornada continua.

No momento, Luciana trabalha em três novos livros, além de uma nova coletânea de poesias.

Este é apenas o começo.

REDES SOCIAIS DA AUTORA

SOB A SUPERFÍCIE

SINOPSE

Em Sob a Superfície, Luciana Fisher convida o leitor a uma jornada íntima através do amor, da perda, da identidade e do renascimento.

Com uma honestidade cortante e uma graça lírica, esta coletânea de poemas dá voz às lutas silenciosas que todos enfrentamos, e às verdades que nos conectam.

Os poemas de Luciana exploram temas como o luto, a transformação e o amor em suas múltiplas formas.

Cada texto é um convite à pausa, à reflexão, à busca pela própria história dentro das palavras.

Seja navegando as complexidades dos relacionamentos, lidando com a dor da perda ou redescobrindo quem se é, esses poemas oferecem acolhimento e inspiração para quem procura sentido nos momentos mais vulneráveis da vida.

A voz de Luciana Fisher é autêntica, profunda, empática e ferozmente honesta, com um ritmo que é ao mesmo tempo pessoal e universal.

Entre nesta exploração sincera da experiência humana, e descubra o que vive Sob a Superfície e Por Trás das Linhas.

Assista a resenha do canal @oqueli no YouTube

OBRA DA AUTORA

Sob a superfície
Sob a superfície

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Resenhas da colunista Lee Oliveira




A Semana de Arte Moderna de 1922

Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho

‘A Semana de Arte Moderna de 1922 e a Construção da Cultura Moderna Brasileira’

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Capa do catálogo da exposição da Semana de Arte Moderna. Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural / Capa do programa da Semana de Arte Moderna de 22, autoria de Di Cavalcanti. Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural

Resumo

A Semana de Arte Moderna de 1922 representa um marco fundamental na história cultural brasileira, simbolizando a ruptura com os modelos acadêmicos tradicionais e a afirmação de uma nova concepção estética voltada à valorização da identidade nacional. Realizado no contexto do centenário da Independência do Brasil, o evento reuniu artistas e intelectuais que propuseram profundas transformações nas artes visuais, na literatura e na música. Este artigo analisa o contexto histórico e cultural da Semana de Arte Moderna, destaca os principais artistas e escritores envolvidos, examina a repercussão e as críticas ao evento e discute seu legado para as gerações posteriores, evidenciando sua importância na consolidação do Modernismo brasileiro.

Palavras-chave: Semana de Arte Moderna. Modernismo brasileiro. Cultura nacional. Identidade cultural.

Abstract

The Week of Modern Art of 1922 represents a fundamental milestone in Brazilian cultural history, symbolizing the rupture with traditional academic models and the affirmation of a new aesthetic conception focused on national identity. Held during the centennial celebrations of Brazil’s Independence, the event brought together artists and intellectuals who proposed profound transformations in visual arts, literature, and music. This article analyzes the historical and cultural context of the Week of Modern Art, highlights the main artists and writers involved, examines the reception and criticism of the event, and discusses its legacy for future generations, emphasizing its importance in the consolidation of Brazilian Modernism.

Keywords: Week of Modern Art. Brazilian Modernism. National culture. Cultural identity.

Introdução

A Semana de Arte Moderna de 1922 constitui um dos acontecimentos mais emblemáticos e transformadores da história cultural brasileira, não apenas por sua ousadia estética, mas sobretudo por seu profundo significado simbólico e ideológico. Realizada entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana marcou o início oficial do Modernismo no Brasil e representou um divisor de águas na maneira de pensar, produzir e interpretar a arte nacional.

Inserida no contexto das comemorações do Centenário da Independência do Brasil, a Semana de Arte Moderna surgiu como uma resposta crítica ao conservadorismo cultural que ainda predominava no país. Até então, as manifestações artísticas brasileiras permaneciam fortemente atreladas a padrões acadêmicos europeus, especialmente franceses, que pouco dialogavam com a realidade social, histórica e cultural do Brasil. Diante disso, um grupo de jovens artistas e intelectuais passou a defender a necessidade de uma arte autenticamente brasileira, capaz de refletir a pluralidade étnica, regional e cultural da nação.

Mais do que um simples evento artístico, a Semana de 1922 foi um movimento de contestação intelectual. Seus idealizadores propunham a ruptura com o passado estético tradicional e a construção de uma nova linguagem artística, marcada pela liberdade formal, pela experimentação e pela valorização do cotidiano, da cultura popular e das raízes nacionais. Essa proposta inovadora não se restringia às artes plásticas, mas abrangia também a literatura, a música, a poesia e o pensamento crítico, promovendo um verdadeiro diálogo interdisciplinar.

É importante ressaltar que a Semana de Arte Moderna não nasceu de forma espontânea, mas foi fruto de um processo de amadurecimento cultural influenciado pelas vanguardas europeias do início do século XX, como o futurismo, o expressionismo e o cubismo. No entanto, ao serem reinterpretadas no contexto brasileiro, essas correntes ganharam novos significados, adaptando-se às particularidades históricas e culturais do país. Assim, o evento consolidou a ideia de que o Brasil poderia dialogar com o mundo sem abdicar de sua identidade própria.

Dessa forma, a Semana de Arte Moderna de 1922 não apenas inaugurou um novo período artístico, mas também lançou as bases para uma profunda reflexão sobre o que significa ser brasileiro. Seu impacto ultrapassou os limites daquele momento histórico, influenciando gerações futuras e redefinindo os rumos da cultura nacional, tornando-se um marco permanente na construção da identidade artística do Brasil.

Contexto histórico e cultural

A realização da Semana de Arte Moderna deve ser compreendida à luz das profundas transformações vivenciadas pelo Brasil nas primeiras décadas do século XX, período marcado por intensos processos de modernização econômica, social e urbana. A expansão da industrialização, o crescimento das cidades e a consolidação de uma nova elite urbana, especialmente em São Paulo, alteraram significativamente as dinâmicas sociais e culturais do país. Essas mudanças contribuíram para o surgimento de um ambiente intelectual propício à revisão crítica dos valores artísticos tradicionais até então dominantes.

No campo cultural, o Brasil ainda se encontrava fortemente influenciado pelos padrões acadêmicos europeus, sobretudo franceses, que orientavam a produção artística e literária nacional. As academias de belas-artes, os salões oficiais e os círculos literários valorizavam modelos estéticos clássicos, caracterizados pelo rigor formal, pela temática erudita e pela imitação de cânones estrangeiros. Tal orientação, entretanto, mostrava-se cada vez mais distante da realidade social brasileira, marcada pela diversidade cultural, pelo hibridismo étnico e pelas contradições próprias de um país em processo de modernização.

Nesse contexto, a elite intelectual paulista desempenhou papel central na articulação de um movimento de renovação cultural. Influenciados pelas vanguardas artísticas europeias do início do século XX — como o futurismo, o expressionismo e o cubismo — jovens artistas e escritores brasileiros passaram a defender a necessidade de uma arte que rompesse com o academicismo e dialogasse de forma mais direta com o presente. O Teatro Municipal de São Paulo, símbolo da cultura erudita e do prestígio artístico da cidade, foi estrategicamente escolhido como palco da Semana de Arte Moderna, conferindo legitimidade institucional às propostas inovadoras apresentadas.

A proposta modernista confrontava diretamente os valores estéticos tradicionais, ao defender a liberdade formal, a experimentação artística e a valorização de temas ligados ao cotidiano, à cultura popular e às especificidades nacionais. Ao rejeitar a mera reprodução de modelos estrangeiros, os modernistas buscavam construir uma linguagem artística autônoma, capaz de expressar a complexidade da identidade brasileira. Essa postura refletia, também, um posicionamento ideológico mais amplo, que questionava as hierarquias culturais estabelecidas e reivindicava o direito à diferença e à pluralidade estética.

Dessa forma, a Semana de Arte Moderna de 1922 deve ser entendida não apenas como um evento artístico, mas como a manifestação de um projeto cultural e intelectual comprometido com a redefinição da identidade nacional. Ao propor uma nova relação entre arte, sociedade e cultura, o movimento modernista lançou as bases para uma produção artística mais crítica, consciente e conectada às transformações do mundo moderno, sem abrir mão de suas raízes históricas e culturais.

A Semana de Arte Moderna de 1922 reuniu um conjunto expressivo de artistas e intelectuais que viriam a ocupar posição central na consolidação do Modernismo brasileiro. Esses participantes não apenas apresentaram obras inovadoras durante o evento, mas também desempenharam papel decisivo na formulação de um novo projeto estético e cultural para o país, fundamentado na ruptura com o academicismo e na busca por uma identidade artística nacional.

Comissão organizadora da Semana de 22. Da esquerda para direita de cima para baixo: o jornalista italiano Francesco Pettinati, Flamínio Ferreira, René Thiollier, Couto de Barros, Manuel Bandeira, Smapio Vidal, Paulo Prado, Graça Aranha, Manoel Vilaboin, Goffredo Telles da Silva, Mário de Andrade, Cândido Mota Filho. Sentados: Rubens Borba de Moraes, Luís Aranha, Tácito de Almeida, Oswald de Andrade. Fonte: A Semana de 22

Artistas e escritores em evidência

No campo da literatura, destacaram-se Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira, cujas produções literárias promoveram profundas transformações na linguagem poética e narrativa. Mário de Andrade destacou-se por sua reflexão teórica sobre a cultura brasileira e por sua defesa da valorização do folclore, da música popular e das manifestações culturais regionais, articulando erudição e brasilidade. Oswald de Andrade, por sua vez, assumiu uma postura radicalmente crítica e irreverente, propondo a desconstrução dos valores culturais importados e defendendo uma estética marcada pela ironia, pela síntese e pela provocação intelectual. Manuel Bandeira contribuiu para a renovação da poesia ao incorporar temas do cotidiano, da subjetividade e da experiência humana, utilizando uma linguagem simples, direta e emocionalmente expressiva.

Nas artes plásticas, a presença de artistas como Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Victor Brecheret foi fundamental para a ruptura com os padrões acadêmicos tradicionais. Anita Malfatti, considerada uma das precursoras do Modernismo no Brasil, apresentou obras marcadas por fortes influências do expressionismo e do cubismo, provocando intenso debate crítico ao desafiar os cânones estéticos vigentes. Di Cavalcanti contribuiu para a construção de uma iconografia nacional, ao retratar cenas urbanas, personagens populares e temas sociais, evidenciando a pluralidade cultural brasileira. Victor Brecheret, no campo da escultura, introduziu novas concepções formais, combinando influências modernas com referências simbólicas e históricas nacionais.

A música também ocupou posição de destaque na Semana de Arte Moderna, especialmente com a participação de Heitor Villa-Lobos, cuja obra representou uma síntese inovadora entre a tradição erudita e os elementos da música popular brasileira. Suas composições incorporavam ritmos, melodias e sonoridades inspiradas no folclore e nas manifestações musicais do povo, rompendo com os modelos europeus tradicionais e reafirmando a proposta modernista de valorização da identidade cultural nacional.

Assim, os artistas e escritores em evidência durante a Semana de Arte Moderna de 1922 não apenas protagonizaram um momento de ruptura estética, mas também estabeleceram as bases intelectuais e artísticas para o desenvolvimento do Modernismo brasileiro. Suas contribuições ultrapassaram o evento em si, influenciando decisivamente as gerações posteriores e redefinindo os rumos da literatura, das artes visuais e da música no Brasil.

Repercussão e críticas

A Semana de Arte Moderna de 1922 provocou reações intensas, imediatas e profundamente contraditórias no meio artístico e intelectual brasileiro. Parte significativa do público presente no Teatro Municipal de São Paulo reagiu com estranhamento, ironia e hostilidade às propostas apresentadas, manifestando-se por meio de vaias, protestos e comentários depreciativos. A imprensa da época, em grande medida alinhada aos valores acadêmicos tradicionais, também exerceu papel central na difusão de críticas severas, classificando as obras e performances como extravagantes, desordenadas ou desprovidas de rigor técnico.

Essas reações adversas estavam diretamente relacionadas ao caráter inovador e provocativo do movimento modernista, que rompia deliberadamente com os padrões estéticos consagrados. A rejeição à métrica tradicional, a fragmentação da linguagem poética, o uso de temas cotidianos e a incorporação de elementos da cultura popular foram interpretados por muitos críticos como sinais de decadência artística ou afronta ao “bom gosto”. Tal incompreensão revelava, na realidade, o choque entre duas concepções de arte: uma vinculada à tradição acadêmica e outra orientada pela experimentação e pela liberdade criadora.

Apesar das críticas iniciais, a repercussão negativa acabou por cumprir um papel paradoxalmente positivo. Ao provocar debates acalorados, a Semana de Arte Moderna ampliou a visibilidade das propostas modernistas e estimulou reflexões mais profundas sobre os rumos da cultura nacional. Com o passar do tempo, parte da crítica passou a reconhecer a importância histórica do evento, compreendendo-o como um momento inaugural de renovação estética e intelectual. Assim, a recepção conflituosa da Semana evidenciou seu potencial transformador e sua capacidade de questionar paradigmas artísticos consolidados.

O legado da Semana de Arte Moderna

O principal legado da Semana de Arte Moderna de 1922 foi a consolidação do Modernismo brasileiro como um movimento estruturante da cultura nacional. Suas influências estenderam-se amplamente à literatura, às artes visuais, à música, ao teatro e, posteriormente, ao cinema, redefinindo critérios estéticos, temáticos e conceituais da produção artística no Brasil. A partir de 1922, a busca por uma arte autenticamente brasileira tornou-se um dos eixos centrais do debate cultural.

O movimento modernista abriu espaço para a valorização da cultura popular, das tradições regionais, do folclore e da diversidade étnica e social do país, rompendo com a visão elitista e eurocêntrica que predominava até então. Essa nova perspectiva permitiu a construção de uma identidade cultural plural, na qual diferentes vozes, linguagens e experiências passaram a ser reconhecidas como componentes legítimos da expressão artística nacional.

Além disso, a Semana de Arte Moderna incentivou uma postura crítica e reflexiva diante da produção artística, estimulando a autonomia criadora e a experimentação formal. O legado modernista manifestou-se, ao longo das décadas seguintes, em diferentes fases e movimentos, influenciando gerações de artistas e intelectuais que passaram a compreender a arte como instrumento de questionamento social, afirmação cultural e reflexão histórica.

Dessa forma, o impacto da Semana de 1922 transcende o contexto específico de sua realização, mantendo-se como referência fundamental para a compreensão da cultura brasileira contemporânea. Mais do que um evento isolado, a Semana de Arte Moderna consolidou-se como um símbolo de ruptura, inovação e liberdade criadora, cujos desdobramentos continuam a orientar debates estéticos e culturais no Brasil.

Considerações finais

A Semana de Arte Moderna de 1922 consolida-se como um marco decisivo na história cultural brasileira, não apenas por representar uma ruptura simbólica com os modelos acadêmicos tradicionais, mas sobretudo por inaugurar uma nova forma de compreender a arte e sua relação com a sociedade. O evento revelou a necessidade de repensar os fundamentos estéticos vigentes e de construir uma produção artística comprometida com a realidade histórica, social e cultural do Brasil, rompendo com a dependência excessiva de padrões estrangeiros.

Ao reunir artistas e intelectuais de diferentes áreas do conhecimento, a Semana promoveu um diálogo interdisciplinar que redefiniu os rumos da literatura, das artes visuais e da música no país. Essa articulação contribuiu para a formação de um pensamento crítico voltado à valorização da identidade nacional, da diversidade cultural e das expressões populares, elementos até então marginalizados pelos círculos artísticos oficiais. Dessa forma, o Modernismo brasileiro passou a assumir um papel central na construção de uma cultura mais inclusiva, plural e representativa.

Embora tenha enfrentado resistência e incompreensão em seu momento inicial, a Semana de Arte Moderna demonstrou, ao longo do tempo, seu caráter visionário. As críticas recebidas evidenciaram a força transformadora do movimento, cuja influência se estendeu para além do campo artístico, alcançando debates sobre educação, patrimônio cultural e identidade nacional. O evento estimulou gerações posteriores a questionarem modelos estabelecidos e a buscarem novas formas de expressão, reafirmando a arte como instrumento de reflexão e transformação social.

Assim, a Semana de Arte Moderna de 1922 ultrapassa a condição de um acontecimento histórico isolado, configurando-se como um símbolo permanente de inovação, liberdade criadora e autonomia cultural. Seu legado permanece vivo na produção artística contemporânea e no pensamento crítico brasileiro, reafirmando seu lugar como um dos episódios mais relevantes da trajetória artística e intelectual do Brasil e como referência indispensável para a compreensão de sua cultura moderna.

Referências

ANDRADE, Mário de. Aspectos da literatura brasileira. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002.

ANDRADE, Oswald de. Manifesto antropófago e outros textos. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017.

BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43. ed. São Paulo: Cultrix, 2017.

BRITO, Mário da Silva. História do modernismo brasileiro: antecedentes da Semana de Arte Moderna. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 13. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011.

CANDIDO, Antonio. Iniciação à literatura brasileira. 6. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010.

FABRIS, Annateresa. Modernidade e modernismo no Brasil. Porto Alegre: Zouk, 2010.

LOPES, Telê Porto Ancona. Mário de Andrade: ramais e caminhos. São Paulo: Duas Cidades, 1972.

MORAES, Eduardo Jardim de. A brasilidade modernista: sua dimensão filosófica. Rio de Janeiro: Graal, 1978.

SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho

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Franklin Calvo

Carlos Javier Jarquín

Franklin Calvo, apasionado de las artes visuales y la docencia

Logo da seção Entrevistas ROLianas
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Franklin Calvo, mejor conocido como FranD’klin, nació en San José, Costa Rica, es artista plástico, escritor, docente y gestor cultural.

El arte, la cultura y las letras me han brindado el privilegio de conocer a personas increíbles, dignas de admirar. Es un honor coincidir con ellas, ya sea presencialmente o virtualmente. Hoy les presento, a través de esta entrevista, a Franklin Calvo Calvo mejor conocido como FranD’klin, nació en San José, Costa Rica. Es un destacado artista plástico cuyo trabajo ha viajado por numerosos países; además, es docente, escritor y gestor cultural. Actualmente labora en el Ministerio de Educación Pública (MEP), donde imparte clases de pintura y español. La Asociación Nacional de Educadores (ANDE) ha premiado su obra artística en dos ocasiones: con una mención de honor y un primer lugar en pintura a nivel nacional.

Conozco a Franklin desde hace muchos años y, con el paso del tiempo, nuestra amistad se ha fortalecido. Siempre le estaré agradecido: durante 2018 y 2019, él impulsó mi invitación como jurado en el Festival Estudiantil de las Artes (FEA) de la Escuela Rincón Grande, en Pavas, San José, donde es docente. Fue un honor compartir con esos niños talentosos; guardo gratos e inolvidables recuerdos. También extiendo desde aquí mi sincero agradecimiento porque él y sus alumnos han leído y estudiado algunos de mis poemas y artículos. Este noble gesto es, para mí, el regalo más hermoso que he recibido.

Conozcamos más sobre este talentoso artista costarricense. FranD’klin cuenta con una formación académica internacional y diversa: estudió Pedagogía en la Universidad del Valle, donde se tituló como profesor para los ciclos I y II. Además, se graduó en la Paramount Academy de Estados Unidos, especializándose en pintura oriental, acuarela, acrílico y óleo. Su pasión por el arte asiático lo llevó a ser discípulo de reconocidos maestros orientales, con quienes perfeccionó la técnica del Sumi-e (pintura a tinta) y la acuarela oriental. Complementó sus estudios en Oriente y Occidente una experiencia que califica como fundamental para comprender el “artista interior” y el respeto por el ser humano.

Aprovecho esta ocasión para felicitar a Franklin por el gran trabajo que ha realizado, realiza y seguirá haciendo por el arte, la cultura, la educación y la difusión del conocimiento. En esta entrevista, abordamos temas como su creatividad, los motivos que inspiran sus pinturas, su escritura, su labor educativa y su participación como coautor en la antología poética CANTO PLANETARIO. Estoy seguro de que disfrutarán esta charla con este excelente artista. Los invito a conocer más sobre su obra artística y literaria

Título "Amaneciéndo en el Manglar", 85x85 - Técnica: Acuarela - Autor: Franklin Calvo
Título ‘Amaneciéndo en el Manglar’, 85×85 – Técnica: Acuarela – Autor: Franklin Calvo

Entrevista

  1. ¿A qué edad tuvo su primer contacto con las artes plásticas

Desde muy niño, fue el todo como un modelador experimental, pero, considero que el artista nace y evoluciona con el arte.

  1. De pequeño, ¿quiénes lo inspiraron para que se enamorara de la pintura

El mismo contorno en el que fui creado, ya que, vivía rodeado de naturaleza; pero, siempre me impulsó mi madre y abuela materna, también le quiero agradecer a la gran dama la señora Olga Espinach que dio seguimiento a mi arte desde muy joven. 

  1. ¿Dónde inició sus estudios de arte

Inicié mis estudios desde la primaria y secundaria, cuando era adolescente mi alma máter fue la Casa del Artista -ahora pertenece al Ministerio de Cultura-, luego pasé a la Paramount Academy con sede en Costa Rica, posteriormente, fui alumno del famoso pintor Kan Yu Chien quien fue el que me instruyó durante 7 años en la técnica del Sumi-E y la pintura china, estudié artes plásticas para I y II ciclo en la UNED y continué con algunos talleres en USA. 

  1. ¿En qué consiste la técnica del Sumi-e

Consiste en comenzar a aprender la técnica de los 4 caballeros referidos con: 

  • la orquídea dando la belleza, 
  • el bambú dando la fuerza, 
  • el ciruelo expresando alguna de las estaciones del año y 
  • el crisantemo dando el movimiento en la técnica; 

Esta técnica es milenaria y toca el alma y espíritu del artista, cuando sea capaz de mirar a través del monocromo, los mil colores que tiene la vida. 

Titulo: Visita Inesperada - Técnica: Acuarela, 95x90 - Año: 2020 - Autor: Franklin Calvo
Titulo: Visita Inesperada – Técnica: Acuarela, 95×90 – Año: 2020 – Autor: Franklin Calvo

  1. ¿Cuáles son los principales temas que aborda en sus pinturas y escritos

Mis pinturas abordan la naturaleza en todas sus manifestaciones y mis escritos contemplan la caridad y humanidad para por medio de estos llegar a lo eterno. 

  1. En sus primeros años de juventud, mostró gran interés en los estudios religiosos, pero declinó continuar con esa carrera. ¿Qué lo motivó a dedicarse más a la docencia y las artes plásticas

Me inclinó un apostolado vivo entre las masas del contorno para poder aportar mi grano de arena de mis conocimientos.

  1. ¿De qué manera cree que la Inteligencia Artificial (IA) puede afectar o beneficiar a los artistas

Creo que todo lo que conduzca a lo bueno no tiene ninguna afectación a la humanidad y considero que la IA es un buen instrumento si lo sabemos direccionar. 

  1. Con su gran experiencia en las artes plásticas, ¿cómo define su arte de pintar

Soy yo mismo con puertas abiertas a la interpretación que donen al ser humano paz y tranquilidad al contemplar mis obras, ese es mi mayor sueño a través de mi arte. 

  1. ¿En qué países ha vendido más sus obras artísticas

Mis obras artísticas están en varios países de Centroamérica y Estados Unidos, pero,nal en dónde más he vendido es en mi propio país y USA. 

  1. ¿Cómo ha sido su experiencia como docente en las áreas de pintura y español con sus alumnos

El sistema pedagógico nos invita a ser creativos, a utilizar ejes trasversales y a través de la pintura y el contorno con mis alumnos he podido implantar mis enseñanzas como docente y con mi poesía embellecer la materia del español. 

  1. ¿Qué opinión le merece la frase del físico teórico Michio Kaku: “Todos los niños nacen genios, pero son aplastados por la sociedad y la educación”? 

Todo difiere, la sociedad te pone las oportunidades, la educación las retroalimenta, nada aplasta, si vemos la vida con esperanza sabiendo que el respeto a lo que otros escriben es primordial y solo se contempla.

  1. ¿Qué representó para usted ser parte de Canto Planetario: Hermandad en la Tierra (H.C. Editores, 2023)? 

Representó unirme a un todo, a través del Canto Planetario y a contemplar en diferentes poemas de iguales la belleza de la vida e inspirarme en la mente creativa de quién convocó al Canto Planetario.

  1. ¿Qué mensaje les compartiría a las autoridades costarricenses para que apoyen a los artistas e inviertan en una educación de calidad?

El mensaje que considero más correcto sería, no saquen nunca el arte de los parámetros pedagógicos, el arte es una sala de descanso en el correr de la vida, aportando un avance dentro de un perfil diferente a la educación costarricense. 

Carlos Javier Jarquín

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Comenda Princesa das Camélias

Imortal Monumento Cultural Imperial | Comenda Princesa das Camélias. O mais prestigioso título da cultura lusófona contemporânea!

Comenda Princesa das Cámélias Imortal Munumento
Cultural Imperial

A Academia de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA, em comemoração ao seu aniversário, apresenta a nova edição do mais prestigioso título da ALSPA, destinado a reconhecer e homenagear os Monumentos Vivos da Cultura Lusófona Contemporânea.

A distinção é um reconhecimento à excelência e ao legado cultural de personalidades que têm contribuído significativamente para a promoção e o desenvolvimento da cultura lusófona.

Este prêmio, assinado por seis autoridades culturais do Brasil e exterior, outorga o troféu em azulejo estilo português e a Comenda Imperial Princesa das Camélias, em homenagem à Princesa Isabel, ilustre visitante de São Pedro da Aldeia. A Comenda é um símbolo de distinção e reconhecimento à sua contribuição para a cultura e a sociedade.

O prêmio consiste em:

  • Troféu em azulejo estilo português
  • Comenda Imperial Princesa das Camélias
  • Certificado de Reconhecimento
  • Publicação na revista cultural da ALSPA

Para saber mais sobre o processo seletivo e como participar, acesse: https://wa.me/message/JHL6OCC5EHNUF1

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Tempo regressivo?

Milton Gaspar Domingos: Conto ‘Tempo regressivo?’

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Imagem criada por IA do ChatGPT - 11 de fevereiro de 2026, às 16h26
Imagem criada por IA do ChatGPT – 11 de fevereiro de 2026, às 16h26

Estavam todos sentados à mesa, depois do jantar. Como de costume, Clemente, o pai, pergunta sobre como foi o dia da família.

Na sala, o ambiente, que sabia a leite, chocolate e muamba, acrescentou-se o sabor de ansiedade e de um aflitivo desejo que consumia a cada um dos presentes. Mas saiu na liderança de eclodir as suas inquietudes Mirosman. Desde que ouvira de sua professora que antes de Cristo a contagem do tempo era regressiva, o menino não parava de cogitar sobre o assunto.

– Sabe, papá, hoje na escola, a nossa professora nos disse que antigamente se contava o tempo de forma regressiva. Mas isso me deixou confuso. Como assim, o tempo regredia, papá?

O pai balançou afirmativamente a cabeça, com um ar de orgulho pelo profundo questionamento do filho de oito anos. E, olhou para Umblina, como quem lhe quer passar a bola.

Umblina consentiu e, olhando para o filho, comentou:

– Vejo que tem estado muito atento! Mas me diz uma coisa, Miros, de que que estavam a falar, para a professora dizer isso? – quis saber a mãe.

– É assim, mamã: estávamos a falar do Estudo do Meio; e aí, a professora disse que as embondeiras são árvores muito, muito antigas e que demoram muitos anos para morrerem. Aí, eu perguntei: “Quanto tempo um embondeiro pode viver?’ Ela disse que alguns dos embondeiros, que existem hoje, têm mais de 2000 anos. E aí, perguntei: “Como assim, professora, se nós só estamos em 2026?’ E a professora disse que antes de se começar a contar o tempo a partir do ano 1, a contagem do tempo era feita de forma regressiva e que antes do ano 1 já se havia passado muitos anos.

Enquanto o rapaz contava o que havia acontecido, o pai enchia-se de espanto pela destreza com que Mirosman narrava o evento.

Umblina, porém, procurava meios de rever o enigma que confundia o garoto. “Entendo… você se lembra, Miros, do rio Kwanza, onde a gente ia nas férias?”

– Sim, me lembro bem, mamã.

– Na sua opinião, é possível que as águas daquele rio voltem para trás?

– É isso mesmo, mamãe. Assim como as águas do rio não voltam para trás, o tempo também não volta para trás. Mas, então como é antigamente as pessoas contavam o tempo para trás, começaram a contagem a partir de que ano?

– Muito bem, Miros. Já sabemos que não é possível que o tempo volte para trás. Agora, precisamos de saber o que é que a Professora quis dizer quando disse que antes de Cristo a contagem do tempo era regressiva, certo?

– Está bem, mamã.

Clemente aproveitou a oportunidade e limpou a garganta com 3 leves tussidelas e disse: 

– Antigamente, as pessoas não viam grande interesse em contar o tempo da maneira como o contamos hoje. Por isso, era comum os historiadores olharem para um evento importante da época e contarem o tempo a partir daquele evento. Por exemplo, no 1º ano do rei Artaxerxes ou no 5º ano do X. E, se outro rei começasse a reinar no mesmo reino, seria a mesma coisa. Ou seja, a contagem começaria no 1º ano do rei seguinte. O mesmo acontecia em relação a eventos como guerras, conquistas ou queda de uma nação…

– Mas, papá, isso não quer dizer que o tempo regredia!?

– Certamente! Confirmou a mãe. “E como acha que os historiadores da nossa época nos ajudarão a entender o tempo lógico daqueles acontecimentos? Faria sentido que eles também continuassem a contar o tempo do mesmo modo que os da antiguidade?”

– Não! Assim não saberíamos em que ano exatamente um evento ocorreu. Mas como é que se chegou a conclusão de certas datas, mamãe?”

– Um evento muito importante deu aos historiadores a base para se determinar, tanto as datas do lado dos antigos quanto as do nosso lado. Sabes que evento é esse, Miros? – interrogou o pai.

– Sim, já consigo perceber, pai: a existência de Jesus Cristo teve um grande impacto em muitas sociedades. Por isso, para a contagem do tempo, os historiadores levam em conta o antes e o depois de Cristo.

– Isso mesmo, Mirosman! Embora, hoje por hoje, já se fala em Antes da Era Comum, – AEC e Nossa Era, – EC. – Adicionou a mãe.

– Então trata-se apenas de um método que usamos hoje, para determinarmos quando exatamente um acontecimento antes de Cristo ocorreu. E que o tempo seguia a sua ordem normalmente.

Clemente e Umblina entreolharam-se, mostrando-se circunspetamente contentes face às questões e ao entendimento do pequenino. O pai abraçou o menino e acariciou-o na cabeça, demonstrando a sua aprovação. A mãe, porém, olhou para o filho mais velho e colocou-lhe a mesma questão: “E quanto a si, Agael, como é que foi o seu dia?”

Milton Gaspar Domingos

Sobre o autor

Milton Gaspar Domingos
Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é Professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).

Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.

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A deambulação trôpega do milagre econômico

CINEMA EM TELA

Marcus Hemerly

‘A deambulação trôpega do milagre econômico

Card da coluna Cinema em Tela - A deambulação trôpega do milagre econômico
Card da coluna Cinema em TelaA deambulação trôpega do milagre econômico

O título parece sugestivo ao espectador não familiarizado com a premissa da obra, pareceria mais uma das rotuladas pornochanchadas então produzidas na Boca do Lixo paulistana. Aliás, o comparativo pode lembrar o cinema de deambulação do cineasta Ozualdo Candeias, cria da Boca e mago em demonstrar as mazelas sociais brasileiras por meio de sua lente. Um dos seus filmes mais festejados, ‘A Opção ou As rosas da Estrada’, de 1981, também retrata o êxodo e consequente anulação individual dos migrantes em meio à metrópole. Em especial, as mulheres que se prostituem nas estradas, seja de maneira estática ou nômade. E nesse panorama é que conhecemos a história da personagem título do filme de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, Iracema – Uma Transa Amazônica, produzido em parceria com a tv alemã. 

Rodado em 1974/1975, o filme foi objeto de censura justamente pela crítica velada ao otimismo modernista do regime militar, retratado na construção da rodovia transamazônica, representado pelo personagem de Paulo Cesar Pereiro, veterano de nosso cinema. E, inquestionavelmente, o filme tem forte arquétipo de signos velados, ou nem tanto, daí o motivo à sua perseguição inicial.  

O caminhoneiro Tia Brasil grande é a promessa de prosperidade, que leva como caroneira a jovem indígena prostituída, Iracema, rumo a uma vida e dias melhores. Ela, de outro lado, assim como os coadjuvantes, revela a fragilidade e face real daquele contexto, o reverso do que o regime tentava impingir nas mentes populares. Na jornada que, se de um lado não guarda a pretensão de ‘Comboio do Medo’ de William Friedkin, de outro giro, não fica relegado em termos de aventura e grandiosidade. Queimadas, violência, desigualdades, exploração – em todas as suas gamas imagináveis – são mostradas em interação real com os participantes involuntários desses Brasis, em tom rasgado de denúncia ecológica e social.

Cediço que tais elementos não passaram ao largo da cinematografia brasileira, até mesmo em roupagem de road movie; citemos o ‘Bye Bye, Brasil’, de Cacá Diegues, e, mais recentemente, o delicioso ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’. No entanto, a mensagem curta, grossa e incômoda, é o diferencial da narrativa da fita de Bodanzky, que surgiu de uma observação em 1968, ocorrida num posto de gasolina na Belém-Brasília, onde viu caminhoneiros e prostitutas, inspirando uma narrativa rodoviária. Filmado em 16mm para mobilidade em áreas remotas, usou uma equipe pequena com liberdade formal, um roteiro-guia flexível e improvisação com não atores, empurrados pela câmera em tempo real, também “desbravando” a mata em odisseia de celuloide. Paulo César Pereio foi o único ator profissional como Tião Brasil Grande, enquanto Edna de Cássia, interpretou Iracema sem ensaios rígidos, garantindo naturalidade em cenas reais gravadas mercados e pontos de obra.

A linguagem mescla enredo ficcional mínimo – a viagem de Tião e Iracema pela Transamazônica – com footage documental de desmatamento, queimadas e vida ribeirinha, onde o real invade a trama em contornos mordazes. A câmera observadora costura ações sem cortes artificiais, priorizando closes improvisados e ritmos locais, criando um tom caótico que reflete o “fora de controle” da região. Essa modulação ficção-documentário revela corpos e espaços invadidos, da inocência indígena à corrupção urbana, sem narração expositiva, fluída e intuitiva. 

Enquanto o milagre econômico (1968-1973) exaltava o ufanismo desenvolvimentista com slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o” – estampados no caminhão de Tião –, o filme contrapõe propaganda oficial à realidade: grilagem, trabalho escravo, prostituição infantil e abandono de colonos. A Transamazônica, vendida como integração nacional pelo INCRA, simbolizava expansão, mas expunha fracassos como poeira, pontes precárias e mazelas sociais. Tião encarna o ufanista iludido, contrastando com a degradação de Iracema, espelho das vítimas do “progresso”, que intensificaram a criação e rompimento do sonho brasileiro, mormente naquele região. 

Conforme adiantado, proibido por seis anos no Brasil após exibição no Festival de Brasília em 1976, o filme foi barrado como “produção estrangeira” que contrariava a narrativa oficial, simbolizando o governo militar como um censor que sufocava vozes incômodas como prostitutas de beira de estrada – descartáveis e silenciadas. Sua distribuição clandestina em mostras e estreia internacional na ZDF em 1975 destacam o exílio forçado, enquanto o uso de não profissionais como Edna reforça o realismo brutal, tornando atores em símbolos vivos da Amazônia explorada, não encenações polidas. Após sua liberação, ganhou prêmios como Melhor Filme em Brasília, provando sua potência duradoura, que em verdade, já se mostrava quando das exibições privadas e sessão especiais promovidas por seus realizadores, ainda sob embargo federal. O título permanece inovador em sua técnica documental, pela qual em certos momentos a câmera foca em elementos aparentemente aleatórios na cena, enquadramentos e close ups sem propósito narrativo evidente, mas que apenas se preocupam em trazer a realidade dentro da “suposta ficção”. Pouco palatável, se a preocupação em agradar, romantizar ou florear. Ao revés, qualquer ideação romântica ou final feliz é decotado do plano de expectativa da plateia logo de início, ainda que inconscientemente. O final, segundo Hector Babenco em entrevista para o documentário ‘Era uma vez Iracema’, (2005), talvez seja um dos mais dramáticos em sua pungência na história do cinema brasileiro. 

Iracema, é a própria transamazônica, a promessa, a decepção, o sonho perdido. Afinal, a poética está presente tanto no lirismo fictício, quanto na brutalidade da realidade. O resto do caminho, se é que existe um final, fica a cargo daquele que assiste, e interpreta. 

Marcus Hemerly

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Da Índia para o ROL, Surendra Nagaraju!

Autor de geyams, poemas prosódicos (métricos), poesia e prosa experimental, ensaios sobre linguagem, ensaios críticos, dentre outros textos, Surendra Nagaraju traz ao ROL o universo da Índia!

Surendra Nagaraju - Elanaaga
Surendra Nagaraju – Elanaaga

Surendra Nagaraju, 73, natural de Elegandal, distrito de Karimnagar, no Estado de Telengana, Índia, pediatra aposentado, deixou a prática médica para se dedicar totalmente à literatura. Agora conhecido pelo pseudônimo Elanaaga, é poeta, escritor, tradutor e crítico renomado nas áreas de literatura telugu e inglesa.

Autor de 41 livros, dos quais 19 são obras originais e 22 são traduções. Seus trabalhos incluem livros de verso livre, geyams ou canções, poemas prosódicos (métricos), poesia e prosa experimental, ensaios sobre linguagem, ensaios críticos, contos, palavras cruzadas, traduções bidirecionais etc.

Traduziu histórias latino-americanas, histórias africanas, histórias de Somerset Maugham, histórias do mundo, Crônicas de um Coveiro de Cadáveres de Cyrus Mistry, Ghalib: O Homem, Os Tempos de Pavan K Varma e Não Apenas os Oceanos de K Sacchidanandan para o telugu, para citar alguns exemplos. Traduziu também para o inglês obras de escritores veteranos de língua telugu, como Vattikoata Alwaru Swamy, Dasarathi Krishnamacharya, Kaloji Narayana Rao e outros.

Em 2023, recebeu um prêmio internacional de ‘Melhor Poeta’, concedido pela organização Ukiato, por sua coleção de poemas em inglês, ‘Dazzlers’, traduzida para 25 idiomas. Seus artigos continuam a aparecer regularmente em periódicos em telugu e inglês. Alguns foram publicados em Indian Literature, Muse India, Rock Pebbles, Literary Vibes, Episteme etc.

No mesmo ano, foi vencedor do prestigiado Kendra Sahitya Akademi Award (Prêmio de Tradução da Sahitya Akademi) pela sua tradução da biografia “Ghalib Naati Kaalam” (do original em inglês Galib: The Man, The Times de Pavan K. Varma) para o Telugu.

Surendra é um grande fã de música clássica indiana, especialmente a música hindustani. Compôs muitos poemas sobre música clássica e músicos e escreveu inúmeros artigos sobre músicos e música clássica indiana.

Surendra se apresenta aos leitores do ROL com An absurd portreit, um poema questionador sobre as contradições da alma humana.

An absurd portreit

Imagem criada por IA do ChatGPT – 11 de fevereiro de 2026, às 13h20 – https://chatgpt.com/c/698caab6-fa14-832a-bbe6-c1f85557fdba

O the one who fitted soul lamps in our ribcages
and wrapped us in flesh, skin!
You forgot to put homogeneity in our hearts;
made us break up into groups, dance in rage. Why?
We are the ones who planted
the seedlings of rancor though.
You hadn’t fixed in us the genes
of monotheism at birth itself. Why?

You drew an absurd portrait
full of animosities, enmities.
Its name is the world; money is fuel for it,
and deception its cardinal feature.

We dream to mitigate misery in the world,
but fail to realize that dream.
Destruction is the aim everywhere;
devastation is the ideal.
We were born as seeds untainted,
yet polluted we are, now!

Overt resistance is better than
a covert conversation I feel,
hence this poser to you.
Won’t you sow seeds
of change in us, Ó God!

Surendra Nagaraju

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