Ortografia
Fidel Fernando
‘Ortografia: tropeços, estigmas e caminhos para acertar o passo’


às 16:36 PM
Há quem diga que a ortografia do português é um labirinto sem saída, uma teia de regras e excepções que desafia até os mais experientes. E, de facto, quem nunca hesitou ao escrever palavras como ʻexcepçãoʼ, ʻascensãoʼ ou ʻabsorverʼ? Se para muitos adultos esse é um desafio, o que dizer então dos alunos que, ao tentarem se expressar por escrito, caem em armadilhas linguísticas e acabam sendo corrigidos com o peso do riso ou da reprovação?
Ao analisar um poema colectivo, referente a uma turma das classes iniciais, certa vez, li: “Ele é o mel se desejas charope”. Ainda, noutro texto descritivo, li: “…escola que eu amo muinto”. O primeiro caso ilustra a dificuldade na correspondência entre grafemas e fonemas. Ao escrever ʻcharopeʼ, o aluno associa o som [ʃ] com ʻchʼ (como em ʻacharʼ, ʻchamadaʼ), uma escolha incorrecta dentro das normas.
O segundo caso prova que há uma discrepância entre o modo de falar e de escrever. Não se fala da mesma forma como se escreve (e vice-versa). Reconhecemos um som nasal na palavra ʻmuitoʼ. Entretanto, não podemos nos apoiar na oralidade para a escrever.
Mas, os erros ortográficos não se restringem ao contexto escolar primário. O erro ortográfico está em todos sítios:
- Redes sociais (publicações no Facebook, Twitter, Instagram e TikTok. Mensagens no Whatsapp, Telegram e Messenger);
- Placas e anúncios públicos (cartazes, outdoors, avisos em lojas, mercados e transportes públicos, menus de restaurantes e bares, panfletos promocionais e propagandas);
- Textos académicos (monografias, dissertações, teses, enunciados de provas, materiais didácticos);
- Mídia e comunicação (sites de notícias, legendas de Tv, blogs, legendas de vídeos no YouTube e TikTok, legendas em filmes e séries; Documentos institucionais e administrativos (ofícios e circulares empresariais, currículos e cartas de apresentação, contratos e documentos oficiais).
- A esse respeito, recordo-me sempre do Pe. António Vieira, para quem “nos grandes, são mais avultados os erros, porque erram com grandeza e ignoram com presunção.” Essa proposição sugere, por exemplo, que, quando um órgão de imprensa (jornais, revistas, portais de notícia, emissoras de tv e rádio) — quer seja privada, quer seja pública — comete erros, esses erros são mais notáveis e têm consequências maiores. Além disso, ele critica a arrogância de quem, por se considerar superior, ignora sua própria ignorância. Em outras palavras, quanto mais alto o status de uma pessoa, mais impacto têm seu erro, e, muitas vezes, a presunção a impede de reconhecê-lo.
- Na verdade, uma escrita deficiente pode comprometer a credibilidade de qualquer pessoa, seja num exame, numa entrevista de emprego ou mesmo numa publicação nas redes sociais. Em tempos digitais, um erro pode transformar um argumento sólido em motivo de zombaria.
- Escrever correctamente, para além de uma exigência académica, é um factor de inclusão social. Um candidato que apresenta um currículo repleto de erros pode ter sua competência questionada. Uma mensagem formal mal escrita pode gerar constrangimento. E, numa sociedade onde a comunicação escrita tem cada vez mais peso, dominar a ortografia não é apenas um luxo dos eruditos, mas uma necessidade para qualquer um que almeje credibilidade e prestígio.
- Mas, afinal, quais são as possíveis causas que podem estar na base dos erros ortográficos?
- Em conformidade com os estudos de Tavares (2018), Gomes (2006), Mateus (2002), Pereira (1984), eis algumas razões dos erros ortográficos:
- Irregularidades e as especificidades ortográficas que têm fundamento na etimologia;
- Falta de correspondência unívoca entre os sons e grafemas;
- Interferência linguística;
- Influência do meio familiar e social da criança;
- Falta de hábito de leitura;
- Falta de consulta a dicionários e prontuários;
- Falta de revisão atenta dos textos;
- Aspectos psicológicos, como a memória e falta de atenção;
- Aspectos patológicos como disfasia, dislalia.
- Tendo em conta o exposto, surge o questionamento: Será que as estratégias didáctico-metodológicas adoptadas nas escolas ajudam os alunos a desenvolverem a competência ortográfica?
- Se a ortografia também se aprende por memória visual, como defende Tavares (2018), é fundamental expor os estudantes a práticas constantes de leitura e reescrita. Não basta apenas corrigir os erros. Não. É preciso criar um ambiente onde a palavra escrita esteja presente de forma natural e estimulante.
- Nesta hora, lembro-me de algumas soluções que funcionam:
- No Colégio Criança Feliz, em Angola, sem desejar fazer publicidade, algumas iniciativas mostram que o ensino da ortografia pode ser mais envolvente do que apenas decorar regras:
- ʻTarde de autógrafosʼ – Os alunos escrevem textos durante as aulas. Esses são coleccionados em livro. Organiza-se um evento onde autografam seus escritos, reforçando a importância da escrita correcta.
- ʻ15 minutos de leituraʼ – Um momento semanal dedicado à leitura, para que os alunos (e os funcionários) se familiarizem com a grafia correcta das palavras.
- ʻTexto na paradaʼ – Um momento diário, que é destinado à declamação, leitura, ou recital de poesia, incentivando o contacto frequente com a escrita padrão.
- Essas estratégias não apenas estimulam a aprendizagem ortográfica, mas também ajudam a tornar o hábito da leitura e da escrita mais prazeroso e significativo.
- À guisa de conclusão, a ortografia do português pode ser traiçoeira, cheia de armadilhas e excepções, mas não precisa de ser um pesadelo. Com metodologias adequadas, incentivo à leitura e uma abordagem menos punitiva e mais pedagógica, os alunos podem desenvolver segurança na escrita e, assim, evitar os tropeços que podem custar oportunidades e reconhecimento. Afinal, um bom texto abre portas. Um erro fecha-as.
Fidel Fernando