Lata, barro e café com leite

Uma fascinante viagem no tempo onde a imigração italiana, a astúcia das ruas e a linhagem fictícia de um cãozinho revelam como se constroem as grandes oportunidades da vida

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Um homem pouco mais velho segurando um cachorro enquanto conversa com outro homem mais jovem.
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Meu bisavô, Salvatore Conti, chegou ao Brasil ainda no colo de sua mamma, Giuseppina Rossi, que acompanhava os passos aflitos do marido, Francesco Conti, um italiano que teria acreditado em promessas de vida farta na então capital do país, o Rio de Janeiro. Apesar da decepção inicial, o trio decidiu ficar, mesmo porque lhe faltavam recursos para a viagem de volta para a comuna de Paola, na Cosenza, parte da Calábria, região mais ao Sul da Itália. 

            Sem alternativas e pressionado pela situação, Francesco não titubeou em aceitar a primeira oferta de emprego: ajudante de pedreiro. O salário era pífio para tanto calo e suor, mas o suficiente para apaziguar o fantasma da fome que já rondava os seus. Giuseppina, olhos voltados para o rebento, preocupada com a unidade familiar, se fiava no discernimento do marido, ainda mais por se encontrar em terras estrangeiras tão distantes. 

            O pequeno, carinhosamente chamado de Sal, protegido por Giuseppina, levou alguns anos até perceber que a vida não era tão doce como imaginava. Não que tivesse luxos, mas criança sabe se divertir com qualquer pedaço de lata. Além do mais, gente tem o hábito de guardar com carinho o sabor de meros nacos de pão dormido molhados em café com leite pelos dedos macios da mãe.

            Sal estudou o necessário para entender que manchetes, não raro, direcionam para caminhos diversos do conteúdo. O resto aprendeu em casa ou, quando os assuntos não eram apropriados para uma mãe ter com a cria, nas ruas. 

           Várias tentativas para deixar de ser um peso morto para família, a partir dos nove anos, conseguiu alguns trocados, a maior parte entregue para sua mamma. Se fosse por ela, Salvatore se tornaria doutor. Porém, a mulher há muito teria deixado as tolices nas profundezas do Atlântico.

            Em 1922, após breve e respeitoso namoro com a filha de um determinado comerciante, Sal se casou. Orgulhoso, declinou de trabalhar em um dos prósperos negócios do sogro, preferindo manter o emprego de mascate, quando, em uma das viagens para o interior de Minas Gerais, conheceu um adestrador de cachorros. Achou aquilo interessante, mas não vislumbrou de imediato serventia. Que aquela coisa de fazer cachorro deitar, sentar, dar a pata e até fingir de morto era curiosa, como se o bicho tivesse passado anos em escola, mas a vida corrida não permitia que o sujeito se perdesse em contemplações.

            — Qual é seu ofício, amigo?

            — De tudo um pouco, o que a vida me oferecer, eu cato. E o seu?

            — Bem, meu amigo, a vida não tem me oferecido muita coisa. Então, ai de mim se não criar as minhas próprias oportunidades. Você está vendo este cachorro?

                Salvatore observou o pequeno animal, não mais de cinco quilos, calculou. Em seguida, voltou os olhos para Diego, era esse o nome do tipo, cujo forte sotaque indicava origem espanhola. 

                — Pois é, meu amigo, este aqui é o Peteleco. Esperto que nem a mãe, que era menor do que ele quando a peguei na sarjeta. Você acredita nisso? Que alguém possa largar uma criatura de Deus assim pra morrer? Era pele e osso, mais osso do que pele até, não sei como ainda estava viva. Era desses casos de querer resistir ao chamado da Senhora da Foice. 

                    — Onde ela está? Morreu?

                    — Não, não, não! Você acredita que hoje vive num palacete no Rio de Janeiro? Na capital, meu amigo. Na capital! E sabe por quê?

                    — Por quê?

                    — Grana, meu amigo. Grana! 

                    Salvatore passou a olhar com interesse aquele homem, que ele sabia ser deveras esperto e, por isso mesmo, precisaria ficar ainda mais atento do que de costume. 

                    — Uma madame, meu amigo, mais emperiquitada que mulher da vida. Não me enganei, e não foi por causa das joias, que todas lá têm as suas. Estilo, meu amigo! A dona era chique. E até a Teca, que de boba não tem nada, percebeu.

                — Teca?

                — A cachorra.

                — Ah, tá!

                — Pois como te falava, a Teca, sabida que nem Pedro Urdemales, começou a fazer os truques que sabia.

                Espanhol, Salvatore teve quase certeza. Todavia, preferiu não interromper o homem, que falava mais do que a própria língua.

                — E olha que eu não dei qualquer comando. A Teca parece que entendeu que a grande chance de comer caviar estava ali naquela criatura perfumada. E começou a sentar, deitar, dava as patinhas, ficava de pé, saltitava só com as patas de trás, depois rolava, rodopiava e, então, fingiu ter morrido. Um dos olhos fechado, o outro tão aberto que parecia jabuticaba. Funcionou! A madame se apaixonou e quis saber se eu vendia. Fiz cara de contrariado, a dona insistiu. Falei que a cadela era da família, que precisava valer muito a pena pra desfazer dela. A ricaça me olhou de cima a baixo, como se estivesse calculando a pobreza instalada. A primeira oferta foi de 50 mil-réis. Fiz cara de ofendido, e a dona ofereceu o dobro. Continuei indiferente, quando a madame pareceu irredutível: “Pois bem, meu senhor, 200 mil-réis!”

                — E é óbvio que você vendeu a cachorra.

           — Hum! Assim que a madame disse que 200 mil-réis era o limite, fiz cara de ofendido. Falei que a Teca era uma legítima pastora de Covadonga, de estirpe que não custa menos do que 400 mil-réis. Mesmo assim, disse que não vendia, que as crianças de casa ficariam desoladas, que a mulher também era apegada demais. 

                — Não vendeu?

                — Hum! Aquela madame era tinhosa, mais cabeçuda do que Miura. 

                Sim, o sujeito só podia ser espanhol, pensou Salvatore.

                — Sabe o que ela fez?

                — O quê?

                —  Abriu a bolsa e retirou um bolo de notas graúdas, meu amigo. A dona se aproximou de mim, esticou o braço e disse: “Toma aqui, meu senhor! É o que tenho! Agora me dê essa cachorra!”

                    — E você aceitou?

                     — É, meu amigo, chega uma hora que não dá mais pra esticar a corda. Tive que ceder, afinal, eram 500 mil-réis.

                    — E os seus filhos? E a sua esposa?

                    — Meu amigo, nem sou casado. Como é que vou ter filhos?

                    Salvatore, misto de incredulidade e admiração, quis esticar a conversa.

                     — Hum… Mas tem uma coisa que não entendo.

                    — O quê, meu amigo?

                    — Por que você me abordou? É óbvio que sou um tipo sem bufunfa.

                 — Você tem razão, meu amigo, mas percebi em você algo parecido comigo quando eu ainda era jovem. Quer ser meu sócio?

                   E foi assim que meu bisavô Salvatore Conti entrou para o ramo de adestramento de cachorros, que virou negócio da família. Ofício mais difícil do que parece, pois precisa ter paciência e saber escolher bem os cães para se trabalhar. Que nem aqueles filhotes ali no canto. Todos descendentes diretos da Teca, legítimos pastores de Covadonga, raça que não está catalogada em nenhum lugar.

Eduardo Cesario-Martínez

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La vida

Luz, fe y la fuerza del alma ante el dolor de la pérdida

Judy Parreño Baca
Judy Parreño Baca
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No mé golpeó con una pluma, no mé golpeó con el viento, ni con un suspiró que dejó mí corazón dolido, llorando lágrimas blancas dé aguas, qué queman encendidas una sonrisa, qué sé niega a llorar, porqué ella yá sabe, qué el incendió dé llamas ardiendo no es el fuego, qué té destroza sentimientos dé aires burlones, qué ahora ríen, pensando que los latidos dé un amor perdido, son los caballitos Mailes, que uno a uno sé los llevó él aire.

Pero no saben que ellos eran los latidos dé un amor verdadero, qué despierta de su sueño, sabiendo qué Nuestro Creador nos regala siempre más luz, en nuestra ceguera pará ver con más claridad!!!

Y ahora mi ojo izquierdo sonríe, porque el derecho sonríe iluminando la claridad dé la verdad.

Rosa Judy Parreño Baca

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Um dia na vida real

Um retrato cru da era digital, do desemprego e do silêncio na Avenida São João, por Evani Rocha

Evani Rocha
Evani Rocha
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Deita novamente no sofá, estica as pernas, levanta e aumenta a velocidade do ventilador de teto. Vai até a janela, puxa a cortina veneziana, olha a rua. O sol escaldante brilha no asfalto preto. Os carros se enfileiram no sinaleiro. Imagina o calor que os transeuntes devem estar sentindo. Vai até a geladeira, abre a porta, sente necessidade de comer algo, de preferência doce. Não está com fome. Começa abrindo os vários potes de plástico… quem sabe encontra algo interessante. Abre um, dois, três e, dessa vez, achou um pedaço de goiabada esquecido numa lata de sorvete.  Pensa rápido: ‘Acho que goiabada não estraga…’ Procura por um creme de leite, lógico, daria uma boa incrementada naquele achado. Oba! Encontrou na porta da geladeira em meio à algumas garrafas e potes com coisas não identificadas. Apanhou a caixa, balançou; tinha um restinho. Olhou a data. Estava vencido. Pensou novamente: ‘Creme de leite estraga…’. Resolveu deixar de lado. Ficou só com a goiabada mesmo.

Foi até ao armário da cozinha, abriu a segunda gaveta; os talheres estavam muito misturados. Mexeu, mexeu e finalmente encontrou um garfo. Espetou-o no pedaço de doce e jogou a lata dentro da pia, de qualquer jeito. Uma pilha de louça suja, saía para fora da cuba. Foi até ao sofá, deitou-se e recostou-se confortavelmente nas almofadas amassadas. Começou a degustar o doce. Seus olhos passeavam pelo ambiente. Seu cérebro processava, processava…reparou o lustre caindo, pendurado apenas por um fio, lembrou-se também da lâmpada queimada. Pegou novamente o celular. Passou rapidamente pelas redes, viu alguns vídeos e pulou vários. Abriu o Instagram, nenhuma novidade há vinte minutos. Começou a repassar algumas conversas antigas no WhatsApp. Ninguém havia falado com ele nas últimas seis horas. 

O doce acabou. Pôs o garfo sobre a mesinha de centro, juntamente com três copos sujos, que ali jaziam há pelo menos três dias. Continuou mexendo no celular. Nada lhe apetecia. Jogou-o no sofá; sentou-se. Foi até o banheiro e se olhou no espelho. Não tinha necessidade fisiológica. Enquanto se olhava no espelho, processava, processava…pensou em fazer a barba, talvez cortar um pouco os cabelos. As olheiras denunciavam as noites mal dormidas. Abriu a torneira da pia, enxaguou a boca, jogou água no rosto. De súbito ouviu um apito no celular, enxugou o rosto e correu para o sofá. Apanhou o celular, viu que havia uma mensagem nova no WhatsApp.

Um amigo perguntou se ele estava bem, porque estava sumido!? Teve vontade de responder que estivera muito ocupado, com muito trabalho…processou. Resolveu gravar um áudio; assim poderia explicar melhor. Começou a gravar: ‘Que nada, cara, estou sempre por aqui, sabe como é, as coisas estão difíceis, estou levando currículo em vários lugares…aguardando ser chamado em algum!’ Preferiu dizer a verdade. Não gostaria de aumentar seus problemas cometendo o primeiro pecado capital. 

Ficou à espera de que o amigo continuasse a conversa, mas nada, o aplicativo mostrava ‘mensagem não visualizada’. Processava, processava…Chegou à conclusão de que o amigo era só mais um daqueles que dizem: ‘Olha, você sabe como te considero, cara, se precisar de alguma coisa, é só falar!’. Estava cansado dessa hipocrisia disfarçada de amizade. Lembrou que sua conta bancária estava praticamente no vermelho; tinha que economizar o máximo que pudesse, pois não havia mesmo com quem contar. Também, lá se vão sete meses desempregado. Levantou-se novamente do sofá. Andou pela sala em círculos por algumas vezes. Processava, processava…o celular na mão, de segundo em segundo, passava por todos os aplicativos e redes sociais que frequentava. Nada, nada, nada…pensou que estava com ranço dessa tal tecnologia…

Foi até a geladeira pela enésima vez, agora não procurou comida, pois já sabia que seria em vão. Pegou uma garrafa de plástico transparente com água, procurou por um copo limpo, viu que toda a louça que tinha estava suja dentro da pia, pensou que não ligava para isso, pegou um copo de vidro com um resto de líquido escuro e jogou fora. Era certamente resquício do café fraco feito pela manhã daquele dia. Tomou a água em um só gole. Voltou à sala, rodou o dedo novamente nos aplicativos e redes sociais. Olhou a mensagem enviada ao amigo: ‘Não visualizada’. Processou, processou…Tinha certeza de que o tal amigo fingiu que não viu a mensagem. Pensou: ‘Ninguém quer se comprometer…’

Foi até a janela novamente. O sol já havia abaixado. Dali a pouco seria noitinha. Talvez saísse para dar uma volta com Leocádio, seu cãozinho poodle. Por pensar em Leocádio, atentou-se que por horas não o via. Deu uma volta no pequeno apartamento. Olhou pela sala e cozinha e foi até seu quarto. O cãozinho dormia o sono dos deuses sobre seu edredom, embolado. Suspirou aliviado e pensou que pelo menos alguém conseguia dormir naquela casa. Com o celular na mão, foi novamente até a janela da sala. Olhava as pessoas passando apressadas sobre a calçada estreita, pensou que certamente a maioria delas estava indo ou voltando do trabalho. Teve vontade de gritar, sabe-se lá o quê. Chamar um nome aleatório.

Mas quem iria ouvir um chamamento do terceiro andar daquele prédio antigo da avenida São João, se o barulho do trânsito era insuportável. Olhou novamente o celular. Processou, processou, processou… Nada de novo, nem uma mensagem, nem uma curtida na última foto postada…, ninguém falou com ele nas últimas duas horas. Exceto o tal amigo, que não tinha tempo para responder à mensagem.

Evani Rocha

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Aldeias de xisto

Uma viagem literária e sensorial pelas memórias ancestrais, arquitetura única e paisagens deslumbrantes no coração de Portugal, pelos olhos de Laura Moura Nunes

Laura Moura Nunes
Laura Moura Nunes
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São casas tradicionais que possuem uma arquitetura única e simples, e as de maior destaque são as que têm balcões e varandas sombreadas por videiras.

Os edifícios particulares também construídos em Xisto são o ex-libris das Aldeias neste encanto do passado das emblemáticas Aldeias onde o turista atento tem muito mais para ver.

Desde as Pontes Romanas por onde passavam as mercadorias vindas de longa distância (rota comercial) na casa Museu estão expostos vários utensilios antigos do quotidiano dos habitantes mostrando ao visitante a mística forma de vida desses povos, a sua maneira de adaptação

com seu patrimônio religioso pois disso são exemplo as igrejas que se encontram datadas do século 1933 que sofreram várias remodelações ao longo dos tempos.

Têm torre sineira erguida em homenagem ao Patrono de sua devoção.

Quem quiser fazer uma viagem no tempo remoto pode visitar este patrimônio pois remonta como se vivia nessas Aldeias de Xisto com construções em pedra sobre pedra.

Uma paisagem luxuriante, deslumbrante, cultural e única no centro de Portugal, onde se mostram montanhas a perder de vista, água a brotar da terra em rios e ribeiros, um céu azul dos mais estrelados dado a sua situação geográfica, belas

água e a natureza que sobressai da diversidade destas aldeias em que o ser humano não pode alterar. Suas gentes, suas aldeias representam com grande magnitude Portugal, pois é o pulsar da terra Lusitana despertando os sentidos e evocando memórias.

São um mundo mágico de gigantescas dimensões

Patrimônio da Humanidade

Laura Moura Nunes

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Soneto do poeta imperfeito

As métricas da alma e as belas imperfeições humanas traduzidas na sensibilidade lírica de Pietro Costa

Pietro Costa
Pietro Costa
Pietro Costa – Soneto do poeta imperfeito

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Diário de poeta

As confidências da alma e os registros sentimentais nos versos sensíveis de Marli F. Freitas

Marli Freitas
Marli Freitas
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Ao amanhecer observo
O dourar do sol,
A andorinha no fio,
A voz que me guia.

Depois do café
Dou bom dia ao José, à Maria,
Abençoo a menina
E acredito na vida.

Ao pensar, agradeço
As lutas que venci,
O poder de sentir
E de nunca desistir.

Faço algo hoje
Diferente de ontem
Que, certamente,
Fará diferença amanhã.

O dia cresce,
Preciso crescer também.
Aguço a curiosidade
E sou pura animosidade.

Em busca do caminho
Troco sorrisos,
Puxo prosa,
É hora de beber o ocaso.

O homem sentado na calçada
Brinca (Vai chover!)
A cadela vem ao meu encontro
Para receber o carinho.

As crianças se exibem felizes.
Uns batem bola,
Outros andam de bicicletas
E alguns soltam pipas.

Debaixo da mangueira,
No vai e vem do balanço,
A avó e a neta se divertem
E meu coração está feliz.

O dia se despede,
Minh’alma está serena…
Aos poucos o sol se esconde
E a lua reina absoluta.

Marli F. Freitas

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Quando o silêncio deixa de ser casa

Quando as paredes da mente ecoam o indizível: a escrita reflexiva e visceral de Adriana Rocha

Adriana Rocha
Adriana Rocha
Ilustração simbólica sobre o enfrentamento à violência doméstica, com uma mulher deixando um ambiente de medo e opressão por uma porta aberta para um caminho iluminado. Elementos em tons lilás representam proteção, escuta, diálogo, respeito, autonomia e dignidade. Em primeiro plano, flores, uma balança da justiça, uma fita lilás e materiais sobre mediação reforçam a mensagem de segurança e liberdade.
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Agosto Lilás nos convida a olhar para uma realidade que, muitas vezes, permanece escondida atrás das portas de uma casa, dos silêncios de uma família e das justificativas que tentam normalizar aquilo que jamais deveria ser normalizado: a violência doméstica.

Falar sobre enfrentamento à violência contra a mulher é falar sobre proteção, dignidade, autonomia e, sobretudo, sobre o direito de viver sem medo.

Nesse contexto, a mediação privada precisa ser compreendida com responsabilidade. Mediação não é sinônimo de reconciliação a qualquer custo, tampouco pode transformar uma situação de violência em uma simples divergência entre partes colocadas em condições aparentemente equivalentes.

A essência da mediação está no diálogo qualificado, na autonomia e na construção responsável de soluções. Mas esses princípios somente podem ser exercidos quando existem condições mínimas de segurança, liberdade e equilíbrio para que a pessoa possa se expressar e decidir.

Em situações que envolvem violência doméstica, o primeiro compromisso deve ser com a proteção da pessoa em situação de violência. Antes de perguntar “como podemos construir um acordo?”, é necessário perguntar: “há segurança para que essa pessoa possa escolher?” Essa mudança de perspectiva é fundamental.

A violência pode assumir diferentes formas: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Nem sempre deixa marcas visíveis. Algumas das feridas mais profundas são produzidas por ameaças, humilhações, controle, isolamento, medo e dependência econômica.

Por isso, o mediador e a mediadora precisam estar preparados para reconhecer sinais de vulnerabilidade, compreender os limites éticos e jurídicos de sua atuação e saber quando a mediação não é o caminho adequado.

A mediação privada não deve ser utilizada para silenciar conflitos, produzir acordos a qualquer preço ou conferir aparência de normalidade a relações marcadas pela violência.

Ao contrário: quando adequadamente compreendida, ela reafirma que autonomia não existe onde há coerção; consenso não existe onde há medo; e diálogo não pode ser confundido com submissão. Isso também nos leva a uma reflexão sobre a cultura da pacificação.

Pacificar não significa simplesmente fazer com que as pessoas parem de discutir. Pacificação verdadeira pressupõe respeito, segurança, reconhecimento de direitos e possibilidade real de escolha.

Em determinados contextos, a melhor intervenção do profissional da mediação pode ser justamente não mediar.

Reconhecer esse limite não representa fracasso. Representa competência, ética e compromisso com uma cultura de paz que não seja construída sobre o silêncio de quem sofreu violência.

O Agosto Lilás, portanto, não deve ser apenas um período de campanhas e manifestações simbólicas. Deve ser uma oportunidade para aprimorarmos práticas profissionais, ampliarmos a informação, fortalecermos redes de proteção e qualificarmos cada vez mais os espaços de acesso à justiça.

Na mediação privada, especialmente, precisamos compreender que acolher não significa substituir a vontade da pessoa; proteger não significa decidir por ela; e promover o diálogo não significa obrigá-la a dialogar.

Há momentos em que a escuta é o primeiro passo para a autonomia. Há momentos em que o silêncio é um pedido de proteção. E há momentos em que dizer “não” à mediação é, justamente, uma forma de dizer “sim” à dignidade.

Que o lilás de agosto não seja apenas uma cor. Que seja um compromisso!

Um compromisso com relações sem violência, com profissionais preparados, com instituições responsáveis e com uma sociedade capaz de compreender que a paz verdadeira jamais pode ser construída à custa da segurança, da liberdade ou da dignidade de alguém.

Porque, diante da violência doméstica, o primeiro consenso que precisamos construir é aquele que nenhuma mulher deveria precisar negociar: o direito de viver em segurança.

Adriana Rocha

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