O recado da foia de bananeira

Karla Dornelas: ‘O recado da foia de bananeira’

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Andando, querenu resposta das estrela no céu…
ela sentiu.

Sentiu quando recebeu o recado.

No caminho da roça,
leu na foia da bananeira:

“A moça aí,
que lê
essas palavra
nem tão expricada muidinha…

Ocê ama cumê pão de queijo?

Hoje, na noitinha,
lá pras banda
do mato arrumado…”

Foi um trem assim, ó—
mistura de “Nossinhora!”
com “Valei-me, misericórdia!”

Deu um frio na espinhela…
que eu vou te contá!

Caí foi estatelada!

Os zói?
Tudo esbugaiado!

Senti a terra tremê…
as perna bambiá…
e o juízo?
ficô foi pra trás!

O que era prova de amor…
virô foi horta chuvosa!

E eu pensei:
— uai… e agora?
o que mais pode miorá?

A resposta veio ligeirinha:

— Tudo!

É só ocê abri a boca
que eu como até furá a panela!

Cê queria resposta?

Então toma:

Eu amo, sim!

Mas amo mesmo…
igual queijo com goiabada —
grudado, doce
e impossível de largá!

Aê!!!

Agora dança o revortê,
que o trem aqui é sério…
mas nem tanto!

Karla Dornelas

Karla Dornelas
Karla Dornelas

Karla Dornelas, natural de Caratinga (MG), é escritora e poetisa. Membro da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA e da Academia Brasileira de História e Literatura – ABHL, com projetos literários em desenvolvimento, incluindo a reedição de seu primeiro livro de poesias, ‘Simplesmente Você’.

Ao longo de sua trajetória, foi contemplada com menções honrosas por sua dedicação à arte e à literatura.

Sua escrita nasce do olhar sensível sobre o cotidiano, transformando o mundo em experiências poéticas e afetivas.

Com linguagem marcada pela delicadeza, musicalidade e criação de vocabulário próprio, busca dar voz ao invisível e valorizar o que é essencialmente humano, dedicando-se à construção de uma trajetória literária voltada à arte de tocar e transformar o leitor por meio da palavra.

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Anjos do Asfalto

Marli Freitas: Conto ‘Anjos do Asfalto’

Marli Freitas
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Depois de um ano turbulento e embates com as dores do passado, Sarah precisava ver o mar e acalmar o seu coração. Mas tudo parecia estranho e mal planejado, pois dependia da disponibilidade do filho caçula e de sua nora. Num momento em que se sentia fragilizada, não poderia ser diferente.

No final da tarde, na véspera da viagem, o céu fechou repentinamente e um vento tempestuoso anunciava uma chuva torrencial. Mas tudo continuava sendo planejado e a chuva parecia ter se dissipado.

Quando saíram ainda era madrugada e bastou avançar alguns quilômetros, que a chuva não deu trégua. Ficaram ansiosos, mas mantinham a esperança de que seria uma chuva localizada, o que infelizmente não era verdade. Depois de subirem a serra, viria o momento mais tenso da viagem, que era enfrentar o desconhecido, que oscilava entre curvas sinuosas e terreno íngreme temperado com chuva e a cerração do amanhecer.

Não deu tempo de nada. O vidro do carro embaçou e nesse quadro complexo entre aflição e estranhamento, o carro girou em uma curva na descida da serra. Foram alguns segundos intensos, onde se sentiram dentro de um liquidificador. Mas os anjos estavam lá em forma de uma contramão deserta e um barranco úmido que amorteceu o impacto.

Saíram de dentro do carro atordoados pelo ocorrido, mas nenhum fio de cabelo havia sido arrancado e se lembrou que, por alguns dias consecutivos, fazia a oração do Salmo 91, que se inicia afirmando que, ‘quem morar no lugar secreto do Altíssimo, encontrará abrigo’ e mais adiante ele diz, ‘nenhum desastre virá sobre você, pois ele dará aos seus anjos uma ordem referente a você’ e ‘Deus disse: ele me ama, eu o protegerei’.

Atordoados ainda, perceberam uma chuva fina em suas cabeças e a patrulha da Polícia Rodoviária Federal encostou logo em seguida. Por um instante sentiram um certo alívio, pois não estavam sozinhos no meio do caos. Perguntaram se tinha alguém ferido e se o carro tinha seguro, mas como não havia ninguém ferido, imprimiram a ocorrência e se despediram dizendo que, quando tivesse área para seus celulares, entrariam em contato com um reboque, pois o carro havia quebrado o eixo traseiro. Ficaram ali, sem direção. Só o medo misturado com a euforia de estarem vivos, fazia companhia internamente. Mas externamente o perigo continuava rondando. O tempo parecia não passar, não tinham nenhuma noção se o reboque viria, e de que lado seria, pois não conheciam a região. A chuva continuava caindo e a cada automóvel que passava, havia o assombro da possibilidade de um outro acidente. Sarah tentou caminhar alguns metros à procura de alguém que pudesse socorrê-los, mas nem o freteiro quis sair de casa naquelas condições.

Desanimada e sem saber se esperava ou se pegava uma carona para algum lugar, onde pudesse encontrar socorro, mais uma vez o inesperado acontece. Passava na rodovia um veículo usado para rebocar automóveis, e seu condutor percebeu que precisavam de ajuda. Num primeiro instante, pensaram que teria sido enviado pela Polícia Rodoviária Federal, mas não era. Miguel e Paulo, estavam passando ali por uma coincidência, e então, Sarah sentiu mais uma vez as mãos de Deus se materializando bem diante de seus olhos.

Seguiram instantes de ‘graça’ e reinou entre eles as mãos dos ‘Anjos do Asfalto’, palavras que puderam ler em letras douradas nas costas daqueles dois homens, bem no lugar onde deveriam nascer as suas asas. Sim, eram anjos! Subiram o carro e os colocaram dentro, como anjos que abraçam seus protegidos e saem voando para um lugar onde tudo parece fantástico e misterioso. Pararam em um ‘Ferro Velho’, onde não encontraram nenhuma peça necessária para substituir as peças quebradas e mais um anjo se juntou a eles. Era Giuseppe, o dono do ‘Ferro Velho’. Sarah ainda não havia se dado conta do que estava acontecendo. O dono do reboque, o senhor Miguel e Giuseppe, haviam tomado para si o problema que era deles. Não os abandonariam até que estivessem seguros para seguirem viagem.

Se dirigiram para um outro ‘Ferro Velho’, que também tinha um depósito de peças novas, mas Miguel não os deixaria a mercê de pessoas que pudessem explorar a fragilidade deles. Assumiu o conserto da parte mecânica do Fiat Uno, juntamente com seu ajudante e envolveu uma grande equipe na tentativa de encontrar peças velhas e novas para substituir as peças quebradas, e até realizar reparos em peças não encontradas naquele local. Sarah olhava aqueles movimentos frenéticos com ar de espanto. Como podia Deus ser tão bom com eles? Como conseguiu enviar aquele reboque naquele momento, sem que ninguém tivesse chamado? Como havia conseguido reunir aquelas pessoas?

Giuseppe, que não teria nenhum lucro com aquela situação, também estava ali. Ela não entendia quem era ele naquele contexto, até que percebeu que contava histórias para distraí-los, pois sabia que estavam em estado de choque. Num primeiro momento, ela apenas notou que era um homem forte, calvo, que mancava de uma perna e tinha várias cicatrizes. Ele lembrava muito o Quasímodo, personagem central do livro ‘Notre-Dame’, de autoria de Victor Hugo, publicado em 1831. Um corcunda de nascença, Quasímodo habita o campanário da Catedral de Notre-Dame de Paris, afastado da sociedade e temido pelos habitantes locais. Foi assim que ele lhe chamou a atenção inicialmente, mas era muito mais do que isto. Ela tinha dúvidas se ele era real, pois agia de modo tão incomum e contava coisas tão bizarras que nada parecia real. Começou contando que era italiano, e que foi combatente em frentes de guerra, o que justificava as deformações e cicatrizes em seu corpo. Depois, que era casado com sua própria irmã, devido ao confinamento em que havia vivido, e com quem tinha vários filhos, e que para eles este fato não causava nenhuma estranheza. Vieram para o Brasil tentar a sorte, sonhando em conquistar um pedaço de terra e reconstruir a vida.

Enquanto ouvia as histórias de Giuseppe, fazia um paralelo entre dois mundos: um que estava ali dentro do visível e outro que era invisível. Ela não conseguia ver de outra forma. No lugar das letras nas costas daqueles dois homens que trabalhavam no reboque, ela via asas, Giuseppe parecia ter saído de dentro de um livro, de tão exótico e exuberante que era. Sarah queria gravar todos os detalhes daquele milagre, então de vez em quando precisava fazer a leitura do ambiente, embora estivesse fascinada com suas histórias.

As outras pessoas envolvidas pareciam em outra dimensão. Era como se fossem os espectadores de um grande acontecimento. Mas era mesmo um grande espetáculo que se desenvolvia entre seres espirituais criados para servir a Deus, que naquele instante se aglomeravam em torno deles. Sarah não se conteve, pois precisava expressar àquelas pessoas a quão grata seria. E Giuseppe prosseguiu e contou-lhes mais histórias, mas desta vez se arriscou também a narrar algo sobrenatural ocorrido com seu filho, enquanto estava em um hospital entre a vida e a morte. Contou que, depois de um acidente, seu filho provavelmente perderia um braço e durante os dias mais traumáticos foram assistidos por alguém especial, que entenderam ser um médico.

Depois de ter findado os dias mais angustiantes de suas vidas e seu filho, além de não ter perdido o braço, também gozava de saúde estável; ao ter alta do hospital, procuraram pelo médico que descreveram com bastante detalhes, mas ninguém o conhecia.

Assim, mergulhada no encantamento, os acontecimentos se desenvolviam num ritmo acelerado. O anjo mestre, o dono do reboque, não cobrou pelo transporte do Fiat Uno, pois entendeu que não estariam preparados. Cobrou apenas um valor simbólico pelo seu trabalho. Ele parecia tão bem por fazer o que fez, que Sarah se conteve e deixou que ele se sentisse como anjo que era. Pagou pelas peças usadas no conserto do carro e partiram com uma sensação de querer ficar mais tempo ali conhecendo aquelas pessoas. Ela tem certeza que as poucas palavras usadas para descrever o evento jamais seriam suficientes para narrar todos os detalhes e sentimentos envolvidos.

Naquele estado de graça, que mais parecia um delírio, não duvidou, apenas acreditou e se entregou à magia daqueles anjos. Despediram-se com palavras afetuosas e partiram rumo ao mar. Sarah entendeu naquela viagem que nem as dores e nem as delícias tinham mais tanta importância.

Marli Freitas

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A seiva verdadeira

Pietro Costa: Poema ‘A seiva verdadeira’*

Pietro Costa
Pietro Costa
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No peito humano, arde a chama inquieta,
As beligerâncias são relâmpagos tardios,
Mas a paz, conforme nascente pura e reta,
Há de eclodir em silêncio sobre pátios frios.

Erguem-se muros alicerçados na vaidade,
Estrugem mísseis como trovões sem lume;
Porém, a paz, com sua alvinitente claridade,
Tece límpidos horizontes no tear do costume.

É a ponte que transpassa os vendavais,
O cântico que o desamor não alcança,
O fruto que amadurece lá nos quintais
da esperança, na qual o futuro balança.

Ó venturosa aurora, eterna e sem fronteira,
flor plácida e impoluta, acima da destruição,
seja nesse mundo insosso a seiva verdadeira,
raízes rijas e porfiosas na alma e no coração.

* 2º lugar no Concurso Maria Firmina dos Reis 2025, tema ‘A Paz’,
pelo Institut Cultive Suisse Brésil
.

Pietro Costa

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De Haifa, ao Jornal Cultural ROL, Rita Odeh!

Rita Odeh traz ao ROL a alma poética de Haifa, a ‘Linda Praia’, celebrada por sua beleza cênica, estendendo-se do Mar Mediterrâneo até as encostas do Monte Carmelo!

Rita Odeh

Rita Odeh, natural de Nazaré e residindo em Haifa, é poetisa, romancista e tradutora palestina, bacharel em Língua Inglesa e Literatura Comparada pela Universidade de Haifa, tendo lecionado Inglês no Ensino Médio Municipal de Nazaré.

Dedica-se à escrita criativa desde 2000, nos estilos poesia em prosa, microcontos, haicai, contos, romances, literatura infantil, cartas e leituras impressionistas, sendo vencedora de diversos primeiros lugares em concursos internacionais de haicai.

Publica seus trabalhos literários no saite ‘Ahewar’ e sua obra foi resenhada por diversos críticos, tanto locais quanto de todo o mundo árabe.

Publicações Literárias:

I.  Coletâneas de Poesia:

• Revolta Contra o Silêncio – 1994 – Ministério da Cultura e Educação, Nazaré.

• Espelhos da Ilusão – 1998 – Escola Municipal de Ensino Médio, Nazaré.

• Diários de uma Cigana Apaixonada – 2001 – Dar Al-Hadara Al-Arabiya, Cairo.

• E Quem Não Conhece Rita – 2003 – Dar Al-Hadara Al-Arabiya, Cairo.

• Antes de Me Engasgar com uma Lágrima – 2004 – Dar Al-Hadara Al-Arabiya, Cairo.

• Vou Te Tentar Mais Uma Vez – Casa Palestina da Poesia, Ramallah, 2008.

• Seu Amor Foi Repentino – Dar Al-Raseef, Ramallah, 2016.

• Serei uma Andorinha por Você – Editora Raya, 2025.

II. Coletâneas de Contos e Romances:

• Eu Sou a Tua Loucura (Coletânea de Contos) – Casa Palestina da Poesia, Ramallah,

2009.

• Até o Cacto Florescer (Romance) – Dar Al-Hadara Al-Arabiya, Cairo, 2017.

III. Obras Futuras:

• Amor aos Dez Anos (Romance).

• Que Haja Luz (Romance).

• O Chamado de Haifa (Coletânea de Contos).

• O Sol Desperta do Seu Sono (Coletânea de Histórias Infantis).

• Mais Longe que a Morte… Mais Perto que a Vida (Cartas).

Rita apresenta aos leitores do ROL sua chama poética, com o poema In Praise of Ruin: The City After the War (Em Louvor à Ruína: A Cidade Depois da Guerra):

In Praise of Ruin: The City After the War

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The city sheds its shadow…
Leaves it as a memento at the thresholds of sealed taverns,
And never looks back.
​Behind it, smoke seduces memory away from its reason,
And blood.
​The lamps that used to chatter with light,
Were struck by sudden muteness under the weight of gunpowder.
They began pointing toward the abyss,
As if guiding death to what remains of faces
In the void.
​No wailing in the alleys…
Only the echo of the wind’s broom gathering the shards of songs,
And cursing the resonance of the howling.
​The old newspaper seller
Folds his funeral under his arm and walks…
He walks behind a city that forgot,
In the midst of the shelling, its children and their names.
So they lost the way to their own selves,
And became firewood in the hearth of extinction.
​The city now…
Is not a pile of stones or cement,
But a tear petrified in the eye of an oppressed old man,
Who aged during the nights of bombardment,
And waits for someone who dares, amidst this ruin,
To say: “Farewell, O leaders.”

Em Louvor à Ruína: A Cidade Depois da Guerra

A cidade lança sua sombra…
Deixa-a como lembrança nos umbrais de tavernas seladas,
E nunca olha para trás.

Atrás dela, a fumaça seduz a memória, afastando-a da razão,
E do sangue.

As lâmpadas que antes chilreavam com luz,
Foram atingidas por um silêncio súbito sob o peso da pólvora.
Começaram a apontar para o abismo,
Como se guiassem a morte para o que resta dos rostos
No vazio.

Nenhum lamento nos becos…
Apenas o eco da vassoura do vento recolhendo os fragmentos de canções,
E amaldiçoando a ressonância do uivo.

O velho jornaleiro
Dobra seu funeral sob o braço e caminha…
Caminha atrás de uma cidade que esqueceu,
Em meio ao bombardeio, suas crianças e seus nomes.

Assim, perderam o caminho para si mesmos,
E se tornaram lenha na fornalha da extinção.
A cidade agora…
Não é um amontoado de pedras ou cimento,
Mas uma lágrima petrificada no olho de um velho oprimido,
Que envelheceu durante as noites de bombardeio,
E espera por alguém que ouse, em meio a esta ruína,
Dizer: “Adeus, ó líderes.”

Rita Odeh

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O velho e o devaneio

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘O velho e o devaneio’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez – Foto por Irene Oliveira
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Acabei de voltar da rua. Fui comprar meio quilo de cebola, um de tomate, além de algumas batatas. Demorei mais do que de costume, mas Arlete, minha esposa, parece que nem percebeu. Mesmo assim, puxei conversa, enquanto ela, sentada no sofá, mexia no jornal da semana anterior, talvez em busca de algo para abstraí-la dessa vida tão tediosa.

          — Vi uns meninos jogando bola no campinho do final da rua.

          Arlete nem se deu ao trabalho de desviar os olhos daquelas páginas usadas. Ainda esperei por mais um instante, até que rumei para a varanda, onde me deitei na rede. Ouvi o ranger do tecido esticar com o meu peso, que, não tem como esconder, fez o ponteiro da balança da farmácia da esquina trabalhar um pouco mais nos últimos meses.

          Meu pensamento voltou para aqueles garotos batendo uma pelada. Isso me remeteu há quase 60 anos, quando era eu que corria atrás da bola. Jogava muito! Era o craque da minha rua! O problema, hoje percebo isso com maior clareza, é que no meu bairro havia um monte de outras ruas, cada uma com o seu craque. Sem contar que a cidade já possuía dezenas de bairros, todos com tantas ou mais ruas do que o meu. 

          Tudo bem que o meu senso crítico, ao longo dos anos, se tornou cada vez mais presente. Todavia, hoje não estou a fim de qualquer olhar de descrédito em relação aos meus dribles inimagináveis. Fui o maioral da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, do país inteiro e, obviamente, do mundo todo, incluindo a Austrália, que, para aquele grupo de terraplanista, não existe. Que assim seja, pois necessito de tal momento de mentira. Aliás, mentira é uma palavra muito pesada. Ilusão. Sim, ilusão!

          Pois lá estava eu, aos 10, driblando todos os marcadores implacáveis. Certamente, tiveram pesadelos na noite anterior, pois sabiam que iriam tentar o impossível, ou seja, marcar o imarcável. Sim! Eis que, velho que hoje sou, me imagino Garrincha nos meus tempos de menino. Que seja! Meus pensamentos são meus e pronto e acabou! Ademais, estou sozinho neste momento, até o som da rede se esticando já se foi. Silêncio lá fora, gritaria aqui dentro da minha cachola. Miragem sem fim.

          Uma abelha! Uma mísera abelha me transporta de volta à realidade. Não sou alérgico à picada desse inseto. Entretanto, minha sensibilidade à dor me faz um dos seres mais covardes da face da Terra. Por que fui deixar a janela aberta, se hoje está frio?

          A danada sobrevoa em círculos minha cabeça, até que decide pousar bem na minha testa. Fico paralisado, tamanho o medo que me domina. Meus olhos, de tão arregalados, quase são catapultados, talvez por não quererem ver o que vai acontecer. Plaft!!!

          — Dorival, o almoço está pronto – Arlete, que acabara de matar a abelha, me intima, enquanto sacode a arma do crime: o jornal.

Eduardo Cesario-Martínez

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homemágua – hidropoema em descompasso

Clayton Alexandre Zocarato

‘homemágua – hidropoema em descompasso’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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torneira do pensamento
goteja-mente
mente-goteja

um homem se dissolve em copos de silêncio
e bebe a si mesmo
em goles de ontem

azulcrânio
veiafluviária
corposalgado
respirágua

o tempo escorre
pela palma da mão
— ampulheta líquida —

        gota  
   gota  
gota

gota
mar

ele é mar
mas esquece de ser onda

no café da manhã
mastiga sede
engole nuvens
e arrota rios interrompidos

plim
plim
plim

notícias pingam na testa do dia
informágua
dadoslíquidos
transparêncifra

um peixe atravessa o pensamento
sem pedir licença
sem pedir pulmão

        homem  
   homágua 
 aguahomem

omemágua

(des)forma

a palavra evapora
condensa
chove dentro da boca

há desertos no olhar
e oceanos na língua

ele diz:
— sede

mas o som sai:
— cidade

e ninguém percebe
que a garganta é um mapa rachado

        beba  
   beba-se 
 beba-nos

bebe

até que o corpo
vire verbo

e o verbo
escorra

fim?

não.

ciclo.

Clayton Alexandre Zocarato

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Ramos para Jesus

Denise Canova: Poema ‘Ramos para Jesus’

Denise Canova
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Ramos para Jesus

Sua volta à Jerusalém

Seus últimos dias na terra

O povo o glorificou

Reflexão mundial.

Dama da Poesia

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