Verônica MoreiraCriador de imagem do Bing – 24 de abril de 2025, às 12:51 PM
Meu coração ficou ali, na sua mão. Eu senti quando você o acolheu. Ao mesmo tempo, senti o frio do medo.
Com um toque, tive esperança. Senti o calor da sua mão segurando a minha. Mas como é doloroso ter que soltar sua mão!
Ah, meu amor… Se você soubesse o quanto o amo, não me deixaria arriscar morrer sem o sentir.
Tenho certeza do que sinto. E, se não fosse tão escuro e apertado o meu esconderijo, eu o buscaria hoje mesmo pra morar comigo.
Queria uma casinha só nossa, com varanda para vermos o Sol nascer.
Como eu desejo deitar-me nos seus braços e deixar-me envolver para sempre no seu colo.
Meus dias estão contados, como os segundos que sonhei, segurando suas mãos entre as minhas.
Estavam frias, eu sei… Mas meu coração fervia de emoção. Meus pensamentos voaram para um encontro nosso — um encontro cheio de emoções, carícias e beijos que saciam a sede de amor.
‘Mais alguns papéis e alguns despejos’
Clayton A. Zocarato
Adaptado segundo a obra Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus
Criador de imagem do Bing – 24 de abril de2025, às 11:08 PM
Em algum lugar da miséria presente.
Mulher I – Empurrando um carrinho de compras, cheio de entulhos para reciclagem, encontra duas catadoras de papéis.
Mulher I – Até no despejo pode haver uma dignidade!
Mulher II – Dignidade não se faz favela, mas é carência na vida de um favelado!
Mulher III, olhando para suas companheiras…
– Desde quando dignidade e humanidade fazem parte de nossas vidas miseráveis?
Um breve silêncio e todas cruzam seus olhares.
A primeira solta um desabafo, e outras a seguem com o seu carinho.
– Não adianta querermos ter alguma dignidade, tudo já nos foi roubado, agora devemos procurar um novo quarto, para sermos despejadas novamente, diante de nossas misérias morais e espirituais…
Gemidos de angústia acompanham seus caminhos.
Encenação feita dia 23 de abril na E. E. Professor Mario Florence de 2º grau, localizada no município de Novo Horizonte (SP), com estudantes do 3º ano do Ensino Médio turma D, como parte de incentivo à leitura e escrita e na produção audiovisual, com o Projeto da Secretaria da Educação do Estadual, “Se Apaixone por um Obra”. Mediação e Linguagem.
Quanta responsabilidade na orientação desta resposta precisei potencializar mentalmente, diante da fascinante urgência de viver ressignificadamente cada dia, para o maior espetáculo da criação: nossa existência.
Meu filho era ótimo em língua portuguesa, então com o verbo no pretérito perfeito do indicativo, descrevi, detalhei, retratei, sem fugir do controle da caneta da consciência e do coração:
‘RESSIGNIFICAR’
Um verbo transitivo direto e indireto, que nos convida a dar um novo significado aos acontecimentos que já passaram, ou que ainda nos rodeiam, causando alguma dor ou sofrimento, acolhendo um novo olhar – com uma nova convicção de que é possível recomeços quando enxergamos a realidade e a fragilidade que nos cerca, quando acolhemos com tranquilidade e sabedoria o que temos – a vida.
Entretanto… Porque não começar colocando um ponto final em tudo que nos afasta do positivo, de alguma realização pessoal, de uma necessária evolução, já que tudo na vida tem um fim, e tudo passa e muda a todo instante. Com um propósito, um significado, um concluir, que mesmo do fim é possível recomeçar, honrar e curar qualquer história. Olhar diferente.
Primeiro, vamos conjugar o verbo ressignificar:
Eu ressignifico…
Tu ressignificas…
Ele ressignifica…
Nós ressignificamos…
Vós ressignificais…
Eles ressignificam…
Contudo, apesar de muitos não reconhecerem seus recursos e ferramentas pessoais para essa possível evolução pessoal, deixo um caminho: a compaixão – o autoaperfeiçoamento do amor por você e pelo outro – base de toda graça na vida. Perdoar e aceitar você, o outro. Ressignificar é isso!
Todos os dias o sol nasce e se põe, a cigarra canta o seu canto perfurando as rochas, e os dois anunciam a vida!
Ressignificar a vida e as relações, os desejos, suas escolhas, desapegar de… É um processo que pode doer, sim, no início, mas que precisa ser contínuo, que traz a melhoria pessoal.
Toda mudança é parte de um processo que permite evolução e aprendizado. Tudo tem um propósito e um significado. Não importa onde você parou, o que importa é que sempre é possível e necessário “Recomeçar”.
Avance em águas profundas, saia das margens… É Bíblico
O julgamento dos outros sempre teremos.
As pessoas são contraditórias e inconstantes, nem sempre é possível agradá-las, atendê-las, satisfazê-las. Desapegue
Seus sentimentos, seus negócios, seus relacionamentos, sua saúde, seu olhar e pensar ative sempre avistando para um horizonte com novas possibilidades. Cuide, recupere, modifique, honre, sinta-os.
– Como resolver tudo isso?
Quero deixar como dica alguns itens primordiais de meus estudos:
1. Autotranscedência e transparência é fundamental. O sofredor precisa ter
coragem de reconhecer-se frágil, reerguer-se da sua dor, projetar-se para fora de si. Em outras palavras, ele precisa voltar a querer viver e a sonhar, aceitar um profissional que possa lhe ajudar neste processo é necessário geralmente.
2. É preciso viver uma VIDA INTERIOR, buscar a espiritualidade com SENSIBILIDADE. Ler mais a bíblia ou uma leitura que lhe traga paz, contemplar, treinar o silêncio, sorrir mais. Lembre-se: A vida é constituída de momentos de luta e de coragem. A Ressurreição revela toda força transformadora que precisamos nos fracassos.
3. Ter COMPAIXÃO, tanto pela dor do próximo quanto pela humanidade que ainda geme em dores de parto, como pela sua dor.
Somente conectado a essas três dimensões( autotranscendência, espiritualidade, compaixão), é possível sensibilizar-se e viver a cura, ainda que muito ferido.
“Motivos se esforçam”. Outras possibilidades existem.
Graciela De Castro Maria: Conto ‘Karma certo e perfeito’
Logo da seção Jovens Talentos
Karma era um jovem estudioso e trabalhador, dono de muitas virtudes, apesar de uma vida marcada por infelicidades. Morava com a mãe, dona Mara, numa casa agradável, de bom tamanho. Mas a beleza da casa contrastava com o vazio do lar: fora abandonado pelo pai e desprezado pela mãe. Vivia debaixo de gritos, agressões e silêncio — um silêncio que doía mais que qualquer palavra.
Certa noite, ao voltar do trabalho, cansado não pelo esforço do dia, mas por saber que retornava ao mesmo ambiente hostil, respirou fundo e se jogou no sofá: – Mãe, estou de volta! – gritou. Nenhuma resposta. Sabia bem o porquê: mais uma vez, a mãe estava embriagada. Com desânimo, levou-a ao quarto. Amava-a? Não. Tinha por ela um ódio silencioso, uma mágoa funda e mal resolvida. Desejava apenas o fim do sofrimento. E o que o mantinha de pé era apenas o nome que carregava: Karma, talvez ali estivesse um destino a cumprir.
Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, dormiu em paz. Sem gritos. Sem medo. Apenas o silêncio da madrugada. – Que bela noite – murmurou, sentindo-se, por instantes, simplesmente… vivo.
No fim de semana, como de costume, Mara saiu pela manhã. Karma sabia que a procurar era inútil – os bares e becos da vila já a conheciam de cor. Resolveu apenas garantir que ela ainda estava viva. – Lá está ela – disse, ao avistá-la apostando dinheiro num bar de esquina. Evitou confrontos. Manteve o passo e voltou para casa.
No caminho, encontrou um casal estranho à porta de sua casa. – Quem são vocês? – perguntou, desconfiado. – Precisamos conversar – disse a mulher, com seriedade no olhar. – Este é seu pai. Ele quer levá-lo para casa.
O espanto o paralisou. Mas algo no ar, no rosto daquele homem, parecia verdade. Os olhos, o semblante… Era como se se olhasse no espelho. Relutante, permitiu que entrassem. Metade do bairro já espiava a cena pelas janelas. A mulher, uma defensora dos direitos humanos, já o conhecia: sabia da violência que sofria, das noites choradas, do menino que não tinha para onde ir.
A casa estava limpa, organizada – exceto pelo cheiro estranho vindo do andar de cima. O homem, Zaqueu, era simpático. Acolheu Karma com carinho e respeito. Pela primeira vez, sentia-se amado. Era bem tratado. Tinha comida na mesa e palavras gentis. Mas havia algo inquietante: o quarto do segundo andar, malcheiroso e proibido, era evitado por todos. O pai sempre sorria, mas sua presença tinha um peso difícil de explicar.
– Kaká, meu filho, cuida da casa, vou sair para trabalhar – disse Zaqueu certa noite, saindo antes do costume. A casa ficou em silêncio.
Karma nunca foi curioso. Mas o cheiro que vinha do quarto era insuportável. A porta entreaberta o chamava. Hesitante, entrou. O que viu congelou seu corpo: cadáveres de crianças, em caixões alinhados, cobertos por um tapete vermelho de sangue seco. O horror subiu-lhe à garganta. – O que é isso? Quem faria tal coisa?
Correu para fora da casa, tentando respirar. A mente confusa, o coração em guerra. – Esse homem… tão carinhoso comigo… teria feito isso? – Mas ele me salvou, me acolheu, me deu um lar! Isso não pode ser sobre mim… talvez…, talvez, essas crianças tenham feito algo errado… Eu não! Eu sou diferente! Eu mereço essa vida!
A luxúria do conforto cegava Karma. Preferiu ignorar a verdade. Pôs seu melhor sorriso e voltou à casa. Nada mudou. Mas ele sabia: algo dentro dele havia se partido.
– Você é uma criança admirável – disse Zaqueu, sorrindo. – Uma das mais perfeitas.
E antes que Karma entendesse o que aquilo significava, antes que pudesse responder ou fugir, foi morto. Sem piedade. Zaqueu nunca foi bondoso. Nunca foi pai. Apenas mais um homem tomado por ganância, ódio e escuridão.
E Karma… Karma esqueceu o seu nome. Esqueceu que o verdadeiro karma – o certo e perfeito – não é o prêmio pelo sofrimento, mas a consequência das escolhas.
Edna Eliza Diyabanza: Conto ‘A grandeza da lealdade’
Logo da seção Jovens Talentos
Há muitos anos, andava pelas ruas um velho chamado Mateus, homem solitário de passado sofrido. Abandonado ainda criança, foi acolhido por Bento, um homem bondoso e milionário que o criou com amor e dignidade. Com o tempo, Bento adoeceu gravemente. Antes de ir para uma cirurgia delicada, reuniu forças para deixar um último pedido:
— Sinto que minha hora chegou. Promete-me que continuarás sendo fiel aos valores que te ensinei. Faça o bem a quem precisa. Ajude aos que sofrem e ensine-os a fazer o mesmo. Assim, o mundo poderá ser um lugar melhor.
Mateus, com os olhos marejados, prometeu cumprir esse desejo. Após a cirurgia, Bento não resistiu. Abalado, Mateus decidiu honrar sua memória: organizou a cerimônia fúnebre e iniciou sua missão de ajudar aos necessitados.
Em uma de suas caminhadas, encontrou um jovem chorando na rua. Chamava-se Douglas. Contou-lhe que perdera os pais recentemente e vivia sem rumo, sem casa, nem comida. Comovido, Mateus levou-o para casa, ofereceu abrigo, alimento e consolo, acreditando que aquele jovem seria digno de continuar o legado de Bento.
Dias depois, uma mulher apareceu dizendo ser mãe de Douglas. Revelou que o rapaz mentia para enganar pessoas e roubar. Mateus, confuso, confrontou Douglas, que admitiu: mentiu sobre os pais, pois fugira da própria mãe por maus-tratos. Chorando, pediu perdão. O velho, tocado, respondeu:
— Se estiveres dizendo a verdade, estás perdoado. Mas, se for mentira, arrependerás.
Com o tempo, dúvidas surgiram no coração do velho. Decidiu aplicar um teste: deixou dinheiro e especiarias num quarto e proibiu Douglas de entrar. Fingiu sair, mas ficou observando. O jovem, tomado pela tentação, entrou e roubou.
Quando se virou, deu de cara com Mateus, sentado. Apavorado, perdeu o controle. Entre lágrimas e medo, só conseguia pedir desculpas. O velho, triste, disse:
— Era apenas um teste. Precisava saber se podia confiar em ti. Não se pode deixar uma fortuna a alguém sem lealdade.
Miguelito era um menino sem pai, sem mãe, e sem ninguém. O resto da família evaporara-se no tempo como poeira esquecida. Vivia no Benfica, em Luanda, numa casa improvisada de madeira, chapa e pedra — um abrigo que ele mesmo erguera com restos do mundo. Apesar da miséria, havia nele uma luz rara: era risonho, inteligente, engraçado, e nutria uma fé em Nzambi que nem o abandono conseguiu apagar.
Todos os dias saía à rua, batendo de porta em porta, remexendo lixos, bebendo o que encontrava. Num desses dias, tropeçou numa senhora e os pertences dela rolaram pelo chão. Tentou ajudar, mas foi logo chamado de ladrão. Desesperado, correu até sua casa, onde medo e lágrimas o apertaram sem pedir licença. Caiu de joelhos e orou:
— Nzambi, tu que não existes para mim, leva-me ao inferno celeste. Talvez lá encontre descanso. Serei eu um erro?
Sem resposta, adormeceu em pranto. Naquela cidade de desordem, bastava um “agarra o gatuno” para transformar uma criança em defunto. Mas ele escapou. No sono, sonhou com a mãe. Ela lhe disse que o amava, que Deus nunca o deixaria, e que o erro não era ele, mas o mundo que o pariu. Ao acordar, Miguelito sorriu como quem acabara de vencer a Copa do Mundo — era a primeira vez, em anos, que sonhava com a mãe.
Lavou o rosto e saiu. Encontrou o Sr. Zua, homem de bom coração, distribuindo comida a crianças. Aproximou-se, mas um menino roubou sua sacola e fugiu. Quis correr atrás, mas Zua o impediu:
— Deixa, meu filho. Nzambi tem o melhor pra ti. Toma outra sacola e volta sempre. Estou aqui às segundas e quartas.
A partir daí, Miguelito passou a voltar. Com o tempo, ganhou coragem e desabafou. Falou de sua vida, do sonho com a mãe, da fé em Nzambi, e dos anos de estudo que não lhe serviram de nada. Zua ouviu, emocionado:
— Entendo-te, meu filho. Mas não basta crer, é preciso lutar. Este país já deu o que tinha. Agora é correr atrás dos teus sonhos. Limpa essas lágrimas e diz: como posso te ajudar?
Miguelito calou-se. Então Zua, sentindo a solidão apertar, perguntou:
— Queres viver comigo? Como pai e filho?
— Quero, sim! — respondeu Miguelito, os olhos brilhando. — Mas por que eu?
— Porque te observo faz tempo. És especial. Sempre quis um filho como tu.
E assim foi. Com o tempo, Miguelito foi legalmente adotado. Num amanhecer, encostado à janela do quarto, contemplava a paisagem, e entendeu. Nzambi o ouvira: respondeu-lhe no sonho, confirmou-lhe no gesto de Zua. Ele percebeu que não era só questão de fé, mas de coragem. Que ser mendigo é condição, não destino. Que humildade, amor, empatia e fé formam a estrada do milagre.
Chorando, murmurou para si, enfim em paz: — Nunca fui um erro. Eu sou, e sempre fui, um acerto de Deus.