Água de bosta

Paulo Siuves

‘Água de bosta – Um conto de superação, fé e fezes’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem criada por IA o Bing – 06 de fevereiro0 de 2026,
às 11:41 PM

O Gole da Vitória

Na quebrada do Córrego do Esquecido, onde o esgoto corre a céu aberto como se fosse rio batizado, nasceu a revolução.
Ali, o cheiro não era vergonha: era costume, era chão. As crianças brincavam com barquinhos de garrafa, e os adultos falavam de política como quem discute futebol, entre um balde de roupa e outro.

Tudo começou numa terça de calor brabo, quando Dona Jacira, 68 anos, tropeçou num balde de água de bosta. Caiu de boca no líquido marrom e o milagre aconteceu: teve uma visão de Jesus, de chinelo de dedo da moda, camisa de time de futebol e sotaque de subúrbio.

— “Minha filha, essa água é santa. Cura, limpa e dá ibope.”

Quando recobrou o fôlego, sentiu o gosto do mundo inteiro: um amargo de derrota misturado a um azedinho de esperança.

No dia seguinte, estava na feira, vendendo garrafinhas PET com um rótulo improvisado:

ÁGUA DE BOSTA – 100% Natural, 0% Vergonha.

A primeira cliente foi uma influencer vegana em detox digital. Fazia jejum de mídia social e só consumia o que “vibrava na frequência da Terra”.

Tomou um gole, fechou os olhos e postou no TikTok:

“É como se eu tivesse bebido a alma do Brasil.”

Em três dias, a água de bosta viralizou.

A influencer chorava em vídeos, jurando ter sentido “a presença de algo maior”. As visualizações chegaram aos milhões, e as garrafinhas de Dona Jacira começaram a sumir da feira como pão quente.

Alguns meses depois, empresários visionários (ou oportunistas) apareceram oferecendo parcerias, licenças e rótulos com design minimalista.

Nas prateleiras do Pão de Açúcar, entre a água de coco e o kombucha, lá estava ela: ÁGUA DE BOSTA – 100% Natural, 0% Vergonha.

Quase um ano depois, o milagre virou política pública.

O Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional, com jingles e comerciais de TV:

“Beba com moderação. Mas beba”.


O Mercado se Adapta

O capitalismo, com seu faro apurado para a desgraça, farejou oportunidade.

Surgiram startups da noite pro dia.

A BostaTech lançou a linha premium: “Água de Bosta com carvão ativado e colágeno vegano”. A BostaNatura S.A. criou a versão “artesanal”, coletada ao nascer do sol por catadores certificados.

A classe média alta, sempre em busca de autenticidade, comprava caixas fechadas.

— É o gosto da periferia, engarrafado — dizia um publicitário da Vila Madalena, enquanto degustava o produto num copo de cristal.

A elite intelectual aplaudia nas colunas de cultura:

“Uma metáfora líquida da brasilidade. Um grito contra o saneamento opressor.”

Enquanto isso, no Córrego do Esquecido, crianças continuavam brincando perto do esgoto. A área do cano quebrado, agora, estava interditada por uma cerca com placa nova:

“Propriedade privada. Coleta exclusiva da BostaNatura S.A.”

A lama foi cercada.
O cheiro, patenteado.
E o povo, mais uma vez, ficou do lado de fora da própria miséria.


O Herói da Lama

Foi quando surgiu Jean Merde Jr., 23 anos — nascido Juninho, rebatizado pelo marketing. Ex-vapor, ex-nada, agora CEO da própria esperança. Dizia que “empreender é se limpar por dentro” e estampava isso num boné da sua marca revolucionária: MerdaChique™. O logotipo? Uma flor de lótus brotando de um cano de esgoto.

“Jean Merde Jr.” soava internacional, sofisticado — como se a lama tivesse aprendido francês. A imprensa adorou. O tradicional programa televisivo dominical da principal emissora do país fez matéria especial: “Do esgoto às passarelas do sucesso: conheça o criador da MerdaChique”. 

Em entrevista ao canal JornalNews, ele declarou, com voz serena e sotaque ensaiado:

— “A água de bosta é mais que um produto. É identidade. É resistência líquida”.

Com a ascensão de Jean Merde Jr., a história precisou ser organizada.
Não dava mais para deixar o milagre solto, sem dono, sem narrativa oficial.

Dona Jacira passou a ser citada como “a origem simples”, “o acaso fundador”, “a senhora que tropeçou”. Seu rosto aparecia nos primeiros eslaides das palestras, sempre em preto e branco, antes que o gráfico de crescimento tomasse a tela.

Um acordo foi feito. Não houve briga, nem escândalo. Apenas documentos.
Dona Jacira recebeu um apartamento em Alphaville, um valor único pela cessão de imagem e uma cláusula de confidencialidade que lhe garantia conforto e silêncio.

Não precisava mais ir à feira.
Nem falar com jornalistas.

O milagre, agora, tinha CEO.

O sucesso foi tanto que Jean lançou sua autobiografia: Do Esgoto ao Sucesso – Como a Merda Salvou Minha Vida, um projeto aprovado por uma lei de incentivo à produção cultural, com patrocínio da marca de papel-toalha BrancoPuro™, que divulgava o livro como “um exemplo de resiliência nacional”.

O livro virou best-seller instantâneo, adotado pelo MEC no programa Leitura para Todos. Teve lançamento com coquetel vegano, sessão de autógrafos no MIS e trilha sonora composta por DJ influente da Vila Madalena. Depois vieram o documentário, a série de podcast e as palestras motivacionais com telão de LED e cachê em euro.

O Brasil aplaudia de pé — afinal, nada mais inspirador que ver a merda dar certo com incentivo fiscal e apoio de quem limpa a sujeira alheia.


O Fim da Sede

Com o tempo, o nome de Dona Jacira deixou de ser mencionado.
Não por desrespeito, mas por eficiência.

A marca não precisava mais de origem. Precisava de escala.

No apartamento amplo e silencioso, longe do cheiro do córrego, Jacira passou a acompanhar as notícias pela televisão. Viu Jean Merde Jr. discursar, sorrir, explicar o milagre com palavras limpas, neutras, pasteurizadas.

Tudo estava certo. Tudo estava melhor.
E, ainda assim, algo tinha sido retirado dela — embora ninguém soubesse dizer exatamente o quê.

Pressionado por ONGs, influenciadores e pelo lobby da indústria marrom, o governo federal lançou o programa “Água para Todos”. Agora, cada escola pública receberia mensalmente um lote de água de bosta pasteurizada.

— É nutritiva, sustentável e 100% brasileira — disse o ministro da Educação, sorrindo para as câmeras e tomando um gole em rede nacional.

 O país dividiu-se nas redes:

— É um absurdo! Água de bosta pros pobres e Perrier pros ricos!
— Deixem de mimimi! É melhor que nada!
— Eu tomo, mas a versão com colágeno. Ajuda no rejuvenescimento.

Enquanto a polêmica fervia, Dona Jacira vivia em Alphaville, cercada por vidros, jardins geométricos e um silêncio que não cheirava a nada. Tinha tudo o que lhe haviam prometido.

Às vezes, sonhava com o córrego. Não com a sujeira em si, mas com o barulho, com as vozes, com o mundo ainda em desordem.

Numa dessas noites, parou diante do espelho d’água da piscina. A superfície lisa devolvia um rosto tranquilo, bem cuidado, quase irreconhecível.

Ela suspirou, mais cansada do que triste, e murmurou:

— Saudade do tempo em que era só merda mesmo.

E o reflexo, por um instante, pareceu sorrir de volta.

Paulo Siuves

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O voo do poeta e os telúricos

Ella Dominici: ‘O voo do poeta e os telúricos’

Ella Dominici
Ella Dominici
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O homem de espírito voa como quem pensa: não para fugir, mas para sustentar a contemplação. Nas alturas, a dúvida não é falha — é método. Ali, o pensamento se torna tempestade e constelação, e cada ideia parece um lance lançado ao invisível.

Quando desce, encontra os telúricos. Eles vivem no imediato como se fosse verdade absoluta. Diante do poema, fazem do incompreensível um escândalo e do silêncio uma acusação. O caos nasce menos do texto do que do medo: o medo de que exista algo que não se possa reduzir, medir ou pisar.

O homem de espírito é humilhado não por suas fraquezas, mas por suas asas. E o golpe mais cruel não atinge o corpo: atinge o sentido. Até que, por fim, a cena se desfaz. Já não há ave, nem plateia, nem vaia. Resta apenas o lugar — o branco — onde o voo não precisa ser aceito para existir. Ali, o poema permanece: inteiro no indizível.

Ella Dominici

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Da Terra de Camões para o ROL, Laura Moura Nunes!

Da vinícolas portuguesas na região de Ribatejo, Laura Moura Nunes traz ao ROL a poesia dos campos verdejantes, do aroma agradável dos pinheiros e das flores silvestres!

Laura Moura Nunes
Laura Moura Nunes

Laura Moura Nunes, natural de Ribatejo, Portugal, é escritora, poetisa, promotora cultural e historiadora.

Membro da Association Cultive Club d’ Art  Littérature et Solidarité; União Brasileira de Escritores – UBE; colaboradora do jornal República Alternativa Cultural Recife e da Revue e ArtPlus – Editora Cultive, Genebra, Suíça e coautora de várias antologias, inclusive internacionais.

Por sua atuação literocultural, tem sido agraciada com inúmeras honrarias, pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA.

Laura Moura Nunes tem o Brasil como sua segunda pátria, pela sua hospitalidade e belezas naturais e culturais. Sua origem se fundamenta nos seus pais, que foram agricultores das vinícolas portuguesas na região de Ribatejo, local de belíssimos campos verdejantes, de aroma agradável dos pinheiros e das flores silvestres acompanhados pelo som dos vários animais e pássaros esvoaçantes.  

Com suas raízes construídas na tradição familiar, Laura é guardiã desse patrimônio, zela pelo intercâmbio Interdisciplinar e multicultural com promotores de culturas, e também busca as riquezas da história e da literatura através da leitura e da escrita.    

Laura apresenta aos leitores do Jornal ROL  o poema Terra Mater, sensibilíssimos versos sobre a Mãe Terra!

Terra Mater

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Terra nos és emprestada
Adoptados por algum tempo
O pão de cada dia das tuas entranhas
O tiramos
Aνό
Mãe
Filha
Por toda ela viajamos vagabundos inquietos
Procurando sombra viver não vegetar
Para uns doce avó
CçCarinhosa mãe
Abençoada filha
Terra coração albergador
Abrigas teus filhos
com a água que brota das fontes
Teu lençol freático cria teus Rios teus Mares
Alimento para o corpo o ar que respiramos
É limpo pelo Vento que fustiga teu rosto
O Sol impiedoso greta teu chão
As sementes não germinam
Pedes implorar chuva
Clamas pela Terra Mãe choras tuas sementes perdidas
Terra madrasta
O meu gado vai morrer sem alimento
A Terra o tirou
Lembras-te quem criou a Terra?
Rogas pedes perdão
Terra tu me criastes
No teu chão cresci
Do pó nasci
A ele voltarei.

Laura Moura Nunes

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Entre lençóis, calçadas e carnavais

Clayton Alexandre Zocarato

Entre lençóis, calçadas e carnavais: Uma crônica crítica sobre o desejo brasileiro

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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às 09:23 PM - https://grok.com/imagine/post/205a63c0-343b-45f5-84e3-d27291e0f6a3
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O brasileiro aprendeu cedo que o corpo é um território público. Antes mesmo de saber ler, já sabe dançar; antes de saber conjugar verbos, já aprendeu a rebolar. O corpo fala, grita, provoca. 

Ele se esfrega nos ônibus lotados, se exibe nas praias, se vende nos comerciais de cerveja, se absolve no Carnaval e se confessa no domingo à missa. O sexo, aqui, nunca foi apenas sexo: é linguagem, é moeda simbólica, é resistência e, muitas vezes, é fuga.

Há algo de paradoxal neste país que se diz moralista, conservador e de ‘família tradicional brasileira, mas que pulsa erotismo em cada esquina. O Brasil vive uma sexualidade que é ao mesmo tempo desenfreada e reprimida, celebrada e punida, explorada e negada. 

Somos um povo que goza e culpa, que deseja e se envergonha, que consome sexo como entretenimento, mas condena quem ousa vivê-lo fora do roteiro social aceitável.

Essa relação ambígua não nasce do nada. Ela é herança. O Brasil foi gestado no estupro colonial, no contato violento entre europeus, indígenas e africanos escravizados. O corpo, desde o início, foi instrumento de dominação. 

A mulher indígena erotizada nos relatos dos colonizadores, o corpo negro hipersexualizado e desumanizado, o senhor branco exercendo poder também entre lençóis. O sexo aqui nunca foi neutro; sempre foi político.

Enquanto a Igreja tentava impor culpa e pecado, a realidade tropical insistia em suar. O clima, a miscigenação, a vida nas ruas, tudo conspirava contra a moral importada da Europa.

Criou-se, então, um teatro: em público, recato; na prática, permissividade. Esse teatro atravessou séculos e ainda hoje estrutura nossa hipocrisia coletiva.

O brasileiro não odeia o sexo — odeia ser confrontado com a verdade de que o deseja.

A modernidade não resolveu isso; apenas sofisticou. A indústria cultural transformou o desejo em mercadoria. 

Corpos esculturais vendem carros, perfumes, planos de internet. O funk, o sertanejo universitário, a publicidade e as redes sociais erotizam o cotidiano até a exaustão. O sexo virou performance, espetáculo, ranking. Quem transa mais, quem atrai mais, quem exibe melhor. A intimidade virou vitrine.

Mas, paradoxalmente, quanto mais se fala de sexo, menos se fala de afeto. O brasileiro aprendeu a desejar sem necessariamente se responsabilizar. Ama-se o corpo, não a pessoa. 

Consome-se a experiência, descarta-se o vínculo. A sexualidade desenfreada muitas vezes não é liberdade, mas sintoma: uma tentativa desesperada de preencher vazios emocionais, desigualdades sociais, frustrações históricas.

Do ponto de vista sociológico, o sexo no Brasil funciona como válvula de escape. Em um país marcado por violência, pobreza e falta de perspectivas, o prazer imediato oferece um alívio momentâneo. 

Não é coincidência que o Carnaval — essa explosão coletiva de corpos, álcool e permissividade — anteceda a Quaresma, tempo de contenção e culpa. O gozo vem antes do castigo. Sempre veio.

Há também a dimensão filosófica do problema. O brasileiro raramente foi educado para pensar o desejo. Vive-o de forma impulsiva, quase instintiva, sem reflexão ética profunda. 

Falta-nos uma cultura do eros como construção consciente. Oscilamos entre o hedonismo raso e o moralismo punitivo, sem conseguir sustentar um meio-termo maduro. Ou tudo pode, ou nada deve. O resultado é confusão.

Essa confusão aparece nas estatísticas de violência sexual, nos relacionamentos abusivos naturalizados, na dificuldade de diálogo sobre consentimento, prazer e limites. Aparece também na solidão disfarçada de liberdade sexual. Nunca se transou tanto e nunca se esteve tão só. O toque virou banal; a escuta, rara.

É preciso dizer: a sexualidade brasileira não é problemática por ser intensa, mas por ser mal elaborada. 

Falta educação sexual que vá além da biologia e do medo da gravidez. Falta discutir desejo, poder, gênero, respeito. 

Falta entender que sexo não é apenas descarga, mas encontro — e todo encontro exige responsabilidade.

O naturalismo cru da nossa realidade mostra corpos em movimento constante, mas mentes pouco preparadas para lidar com as consequências. 

Mostra homens ensinados a provar masculinidade pela quantidade de conquistas, mulheres pressionadas a serem ao mesmo tempo desejáveis e recatadas, e dissidências sexuais empurradas para a margem ou fetichizadas.

No fim, o brasileiro ama o sexo porque ama a vida, mas aprendeu a viver essa vida de forma fragmentada. 

Talvez o desafio não seja frear o desejo, mas alfabetizá-lo. Transformar a pulsão em escolha, o impulso em consciência.

Enquanto isso não acontece, seguimos entre lençóis e calçadas, gozando e julgando, desejando e negando — um país inteiro tentando se satisfazer sem nunca, de fato, se compreender.

Há ainda um elemento incômodo que raramente se assume com honestidade: o prazer, no Brasil, também é hierarquia. Nem todos gozam do mesmo modo, nem com a mesma legitimidade. 

O sexo ‘desenfreado é celebrado quando vem do corpo jovem, padrão, branco ou próximo disso, heterossexual e midiaticamente aceitável. Fora desse recorte, o desejo vira escândalo, doença, pecado ou piada.

A velhice erotizada causa nojo, o corpo gordo desejante causa riso, o corpo trans causa medo. O brasileiro diz amar o sexo, mas só aceita certos corpos desejando.

Esse filtro moral disfarçado de gosto pessoal revela o quanto nossa sexualidade continua atravessada por estruturas de poder. Michel Foucault já alertava: não é a repressão que silencia o sexo, mas a forma como ele é administrado.

No Brasil, administra-se o desejo com uma mão que estimula e outra que pune. Incentiva-se a excitação, mas controla-se quem pode exercê-la plenamente. O prazer, aqui, não é democrático.

Nas periferias, o sexo é sobrevivência, afirmação, fuga. Nos bairros ricos, é performance, terapia, capital simbólico. Em ambos os casos, raramente é silêncio compartilhado, cuidado mútuo ou construção lenta.

A pressa também é social. O país do jeitinho não aprendeu a esperar, e isso inclui o corpo do outro. Quer-se tudo rápido: o flerte, o toque, o orgasmo, o descarte. O sexo vira consumo rápido em um mercado saturado de estímulos.

A pornografia, amplamente acessível e pouco debatida, educa mais do que qualquer escola. Ela ensina gestos, expectativas irreais, violências normalizadas. Ensina que o outro é objeto, que o prazer é desempenho, que consentimento é detalhe.

O brasileiro aprende a transar antes de aprender a conversar. Aprende a invadir antes de aprender a perguntar. Depois, se espanta com os números de abuso, assédio e violência doméstica, como se fossem desvios individuais, e não sintomas coletivos.

Do ponto de vista histórico, isso também dialoga com nossa dificuldade de elaborar limites. Um país que nunca resolveu bem sua relação com autoridade, lei e cidadania tampouco resolveria bem sua relação com o corpo. 

Oscilamos entre permissividade caótica e repressão violenta. Quando o sexo é livre demais, vira terra de ninguém; quando é proibido demais, vira obsessão. Não construímos uma ética do desejo — improvisamos.

Filosoficamente, talvez o maior drama seja nossa incapacidade de sustentar o vazio. O sexo, muitas vezes, entra como anestesia existencial. Transa-se para não pensar, para não sentir, para não encarar o silêncio. 

A cama vira esconderijo. Mas o prazer que não nasce do encontro com o outro dificilmente gera sentido. 

Ele alivia, mas não transforma. E o brasileiro, cansado de promessas não cumpridas — políticas, sociais, afetivas — aceita o alívio como se fosse libertação.

No fundo, essa sexualidade intensa revela um povo faminto: de toque, de reconhecimento, de pertencimento. 

Um povo que aprendeu a usar o corpo como grito porque nunca foi realmente ouvido. O problema não está no desejo em si, mas na ausência de escuta, de elaboração, de consciência histórica sobre o próprio prazer.

Talvez o verdadeiro escândalo não seja o quanto o brasileiro transa, mas o quanto ele evita pensar sobre isso.

Pensar dá trabalho, exige revisão, quebra mitos confortáveis. É mais fácil rir, julgar ou fingir naturalidade. Enquanto isso, seguimos repetindo padrões antigos com roupas modernas, chamando de liberdade aquilo que muitas vezes é só repetição inconsciente.

A sexualidade brasileira, portanto, não pede censura nem exaltação cega. Pede maturidade. Pede coragem para olhar o próprio desejo sem folclore, sem glamour, sem culpa automática.

Pede que o prazer deixe de ser espetáculo e volte a ser experiência humana. Até lá, continuaremos nus em público e vazios em privado, dançando entre a excitação e a frustração, como quem goza, mas nunca descansa.

Clayton Alexandre Zocarato

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Volta às aulas!? Alegria ou desespero?

Renata Barcellos: ‘Volta às aulas!? Alegria ou desespero?’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Renata Barcellos - Foto do arquivo da autora
Renata Barcellos – Foto do arquivo da autora
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Este período é de retorno às aulas. Adaptação dos pequenos, apresentação de alunos maiores, reunião com os responsáveis e com os professores. Estes às voltas com planejamentos. Muitas vezes, trabalhamos com colegas descompromissados, não se interessam em realizar um planejamento integrado ou (ao menos) que todas as turmas daquela disciplina tenham uma determinada ementa a ser cumprida a cada bimestre / semestre.

Pior ainda quando se lida com assédio moral e/ou sexual de gestores, colegas de trabalho ou alunos. Precisando ter aquele famoso ‘jogo de cintura’ para preparar o terreno (espírito) por todo o ano letivo. E isso só está começando!!! Disque 100 (direitos humanos/assédio geral), o Ligue 180 (específico para mulheres), ou o Ministério Público do Trabalho (MPT) de sua região.

Mais complicado é a sociedade pensar que voltamos de uma ‘longa’ férias desestressados… Na realidade, saímos um ‘caco’, temos nossos problemas particulares a lidar e resolver ao longo do ano letivo e dos dias de ‘descanso’. E, próximo ao retorno, para muitos (dependendo do ambiente de trabalho) já começam a passar mal. Entram em PÂNICO. Tomam medicação ou procuram um médico não para os exames de rotina mas para suportar a pressão do ano letivo. Triste realidade. O corpo docente agoniza de corpo e alma.

Após o período de planejamento, iniciamos com os alunos. Algumas turmas pela primeira vez, outras não…. Dependendo da relação professor x aluno, outro estresse se inicia. Entrarmos em uma sala de aula para construir conhecimento e não para ser ofendido, assistir a cenas de violência entre alunos ou deles para conosco. Sala de aula é para ser um ambiente harmônico, não um ringue, campo de batalha como parece em muitos casos.

Na maioria das vezes, trabalhamos em um espaço físico INADEQUADO. Sem recursos (quadro, ventilador…). Com este calor DESUMANO, como ministrar aulas sem ventilador, água…? E lembrando que, em média, são 45 alunos. Salas lotadas. Quando há disciplina que demanda uso de tecnologia, são diversos alunos por computador, notebook. Como lidar com isso e ainda ser uma aula produtiva?e início de ano letivo 2026, ao leitor (professor, aluno), reflitam sobre sua realidade. Comente aqui abaixo da matéria… E aos responsáveis, tenham paciência com professores e gestores despreparados para lidar com salas superlotadas e com alunos com diversas especificidades. Para cada um, uma abordagem, diversos formulários a serem preenchidos sobre seu desempenho… Quantas horas precisam ter o dia de cada um de nós???

Muitos professores têm uma carga horária de 40 horas ou (até mesmo de 60). Como aguenta? A garganta aguenta?… Sinceramente, não sei. Em qual momento prepara e ou corrige as atividades? Nosso salário é baixo. Por isso, muitos têm esta sobrecarga. E com isso, muitas vezes, não há tempo para a formação continuada. Mesmo com a oportunidade maior de oferta de ser online, estamos exauridos. Sem fôlego para leituras, elaboração das atividades propostas… Lamentável cada vez mais a situação da categoria!!!

Para os professores comprometidos, entrar em sala de aula e se deparar com turma apática, desinteressada é como uma ‘apunhalada’ mortal. Passamos o ano letivo destruídos por tentar diversos recursos e nada motivar determinados alunos e ou turmas. No caso do terceiro ano do Ensino Médio, pior ainda, porque procuramos incentivar a continuarem os estudos. Cada um na sua área de conhecimento, aborda os conteúdos mais cobrados nas avaliações externas.

No meu caso, como professora de Língua Portuguesa e de Literaturas, preparando para a tão temida produção textual (ao longo do ano, redigindo diversos possíveis temas) e orientando as leituras de obras sugeridas para realização das provas externas e, concomitante, a leitura de obras da escola literária a ser trabalhada. Urge que alunos (e também professores) leiam contos, poemas, romances… dos clássicos aos contemporâneos. Enquanto professora destas duas áreas do conhecimento, está muito difícil conscientizar os alunos da importância do domínio da Língua Portuguesa, de sermos poliglota no nosso idioma como bem disse Bechara.

E de convencê-los a ler textos literários ou não. Sobretudo, devido a tanto texto midiático, a tanta poluição visual como bem disse Italo Calvino (particularmente em sua obra ‘As Cidades Invisíveis’, 1972). Nesta, aborda não só como o excesso de placas ou outdoors, mas também uma degradação da experiência urbana, a perda da identidade dos lugares e a saturação de imagens que escondem a verdadeira essência da cidade. Ele explora a dualidade das metrópoles modernas: o lado visível, turístico e atraente versus o lado oculto, caótico e abandonado.

Caro leitor (alunos, gestores, professores, responsáveis…), sejamos solidários e resilientes. Que possamos ter um ano letivo produtivo!!! Diga sim à PAZ e NÃO à violência!!!

Renata Barcellos

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Entre asas, silêncios e o fôlego de vida

SAÚDE INTEGRAL

Joelson Mora

‘Entre asas, silêncios e o fôlego de vida’

Joelson Mora
Joelson Mora
Imagem criada por IA do Bing - 02 de fevereiro de 2026, as 13:oo PM
Imagem criada por IA do Bing – 02 de fevereiro de 2026, às 13:oo PM

Há encontros que não pedem palavras. Apenas presença.

Na imagem, um homem estende a mão e uma ave repousa sobre ela. Não há jaula entre os dois naquele instante. Não há medo. Há confiança. Há troca. Há vida.

Mas, acima de tudo, há algo invisível unindo os dois:

o fôlego de vida.

O mesmo ar que entra nos pulmões do homem sustenta o bater das asas da ave. O mesmo sopro que mantém o coração humano pulsando é o que anima cada célula daquele pequeno ser. Não existem dois fôlegos, existe um só fluxo de vida compartilhado.

A natureza não grita, ela sussurra.

E só escuta quem desacelera o corpo, silencia a mente e permite que a alma volte a respirar.

O fôlego de vida como medicina esquecida

Vivemos numa era em que:

  • o corpo corre,
  • a mente acelera,
  • e a alma quase não respira.

Respiramos, mas não sentimos.

Inspiramos, mas não estamos presentes.

Na saúde integral, o fôlego de vida é a ponte entre corpo, mente e espírito. É ele que:

  • regula o sistema nervoso,
  • equilibra emoções,
  • oxigena pensamentos,
  • sustenta a espiritualidade no corpo físico.

Respirar é o primeiro ato ao nascer.

E será o último ao partir.

Entre esses dois momentos, toda a nossa história é escrita entre uma inspiração e outra.

Espiritualidade é consciência do sopro

Espiritualidade não é fuga.

É retorno.

Retorno ao corpo.

Retorno ao agora.

Retorno à percepção de que não somos separados da criação, somos extensão dela.

Quando tocamos um animal com respeito, quando sentimos o vento no rosto, quando fechamos os olhos e respiramos fundo, estamos participando de um ritual sagrado que acontece desde o princípio dos tempos:

o ritual de estar vivo.

Naquele instante da imagem, não é só uma ave sobre uma mão.

É o espírito lembrando ao homem:

“Você também é natureza.”

O corpo como templo do fôlego

Saúde integral é entender que:

  • o corpo é o templo do fôlego,
  • a mente é o campo de direção,
  • e a alma é o sentido do caminho.

Cuidar da saúde não é apenas fortalecer músculos.

É aprender a respirar com presença.

Não é apenas viver mais anos.

É viver mais inteiro em cada respiração.

Talvez o mundo não precise de mais técnicas…

Talvez precise de mais pausas.

Mais silêncio.

Mais gente sentindo o próprio fôlego.

Porque enquanto há fôlego, há possibilidade.

Enquanto há respiração, há recomeço.

E enquanto há consciência do sopro, há espiritualidade viva.

O fôlego de vida é gratuito.

Mas viver com consciência é uma escolha.

Joelson Mora

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O seguimento da mestra

Jorge Facury: Crônica ‘O seguimento da mestra’

Jorge Facury
Jorge Facury
Professora Almira Porciúncula e Jorge Facury - Foto do arquivo do autor
Professora Almira Porciúncula e Jorge Facury – Foto do arquivo do autor

Às 4h30 deste dia 03 de fevereiro, a querida e inesquecível professora Almira Porciúncula, de Tatuí, partiu para a Eternidade.

Mestra da língua portuguesa, marcou a vida de incontáveis jovens, entre os quais me incluo, por suas aulas divertidas e criativas. Escrevia uma frase na lousa para explicá-la gramaticalmente, mas, antes fazia a gente viajar no sentido da coisa escrita, como por exemplo – “um grande alarido veio da mata causando medo nos habitantes da aldeia”. Antes da explicação gramatical a gente viajava no mistério do que poderia ser o misterioso alarido. Era como um começo de história e assim, nesse instante mágico ela ia encantando a gente.

Nas últimas vezes em que nos vimos, bem-humorada, dizia que morrer não estava em seus planos e se pudesse iria discutir o assunto com Deus. Queria que a fila andasse e ela sempre ia para o final. Mas, não havendo jeito mesmo, afirmava querer uma placa assim expressa em sua lápide: MORRI SOB PROTESTO!

Amava a Vida, uma figura ímpar. Guardo comigo o estímulo dado ainda na quinta série quando me aconselhou a escrever sempre pois era algo que eu deveria desenvolver – “siga sempre escrevendo” – disse.

Em 2008 veio a Sorocaba para o lançamento de um livro meu, ocasião em que lhe fiz uma homenagem (vídeo gravado em poder da Editora). Guardo também com carinho inestimável o prefácio que me fez para outro livro – Assim Me Contaram, editado em 2010.

Amava a Língua Portuguesa e a Literatura, convidando-nos sempre a ler O Confiteor, do escritor tatuiano Paulo Setúbal.

Siga em paz, grande Mestra. Suas lições ficam para sempre; as escolares e mais ainda aquelas primorosamente vertidas de sua amável presença. 

Jorge Facury

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