Palmeiras esguias

Ella Dominici: ‘Palmeiras esguias’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada por IA no Bing. 27 de março de 2025,
às 13:18 PM

A história dos lugares não é apenas a história dos lugares. Quando um espaço carrega as marcas das almas e dos corpos que nele existiram, a geografia se dissolve na memória. O que se conta, então, não é sobre a terra em si, mas sobre a experiência de estar, pensar e descobrir.

Há quem observe apenas formas. Eu, porém, busco enxergar além das aparências. Vejo as mentes em seu estado bruto, sem contornos definidos, até que se revelam. Com o tempo, compreendi que as matérias se desgastam e que o homem, tão sólido quanto pensa ser, se esfarela na passagem do tempo. No entanto, é na consciência que a história permanece – uma resiliência silenciosa, muito além da inércia das coisas.

Os lugares não guardam suas histórias em muros ou ruínas, mas no ar que se respira, nos pulmões que sustentam a existência.

A memória é meu ponto de partida. O que fui e o que serei se entrelaçam em um tempo fluido, onde sou tanto a lembrada quanto a esquecida. O passado é um tecido rendilhado, com suas lacunas preenchidas por recordações, devaneios e descobertas. Minha trajetória é uma reconstrução, um resgate que se materializa nas ruas literárias desta cidade que se reinventa.

Ao me deparar com um vilarejo vazio de letras, sigo rumo à Ilha de Dentro*. O caminho é moldado por palmeiras esguias, que oscilam entre a rigidez e a leveza, tal como os espíritos das novas gerações que ali se firmam. Mas há também aqueles que chegam para modificar a paisagem, desfazendo a essência bucólica e romântica dos arredores. O que era belo não resiste à repetição do presente, e Sophia* percebe que a mesmice do hoje apaga as cores do que poderia ter sido.

O encontro com seu próprio Eu é paradoxal, mas real. A felicidade, quando autêntica, nasce do contato mais profundo com o ser. A vida não é um documento imutável, mas um fluxo de pensamentos, conversas íntimas consigo mesma, com Deus, com lembranças ancestrais. É um diálogo contínuo entre finitude e eternidade.

As ondas, ao se chocarem contra a terra, esculpem palavras. As memórias e imaginações se transformam porque um dia existiram.

Reconhecer a sombra é perceber a casca do ovo que se rompe e encontrar, na gema, o legado da criação. Na escrita, a metamorfose acontece. Sophia compreende que, ao se lançar na liberdade da linguagem, está também recriando sua própria existência.

Ela ainda tem muito a dizer, muito a ouvir. O tempo, afinal, não é um limite.

As palmeiras, eretas, enfrentam os ventos em desalinho. Não obedecem a paralelismos, não se submetem a métricas rígidas. Sua dança imprevisível na planície aberta é poesia sem rimas, liberdade sem fronteiras.

* Sophia e Ilha de Dentro: uma concepção e gestação que prometem, em breve, levar os leitores num mergulho literário a profundeza e descobertas inimagináveis!

Ella Dominici

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Grelhados

Loide Afonso: Poema ‘Grelhados’

Loid Portugal
Loid Portugal
Imagem criada por IA no Bing - 27 de março de 2025, 
às 13:48 PM
Imagem criada por IA no Bing – 27 de março de 2025,
às 13:48 PM

Sem cheiro
Cor
Rústico
E leve

Um pouco empoeirado
Confuso
E nebuloso

Com um jeitinho
Assanhado
Embaraçado
E tímido
Você chegou aqui

Invadiu tudo
Que era inatingível
Estava guardado
Fechado

Não era pra ser agora
Queria esperar mais um pouco

Até
Grelhar chocos
Salsichas
Chouriços
Pra acompanhar
Com você

Mais não deu tempo
Caí
Senti
Amoleci
E dei conta que
Nunca morri.

Loid Portugal

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Esquizofrenia…

Clayton Alexandre Zocarato: Poema ‘Esquizofrenia…’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA no Bing - 27 de março de 2025,  às 12:08 PM
Imagem criada por IA no Bing – 27 de março de 2025,
às 12:08 PM

A loucura…

Tornou-se sua…

Doçura e cultura…

Aos quais transcorrem…

Uma lisura de presenteísmo…

Perdido no passado…

E incerto no futuro…

Pelo Dragão da indiferença…

Ocorre  uma forte eloquência biomédica…

Que seja (in)viável…

Para um fiador emocional…

Que lute contra o banal…

Passando por um espiral mental…

Nada legal…

Suas veias foram picadas…

Seus braços acorrentados…

Suas Almejadas…

Seus pés prendidos…

E o líquido sedativo, entra em suas veias…

Tudo vai se tornando vago…

A escuridão logo ganhará sua mente…

Sonhar, vai lhe trazer um pouco de lucidez…

Na sua pequenez existencial…

Continuamente é esmagado…

E humilhado…

No cárcere do seu esquecimento…

Muito lamento…

E pouco espiritual…

No seu astral…

Não há moral…

Mas vive no jogral…

Penando com um mal…

Institucional e boçal…

A Esquizofrenia é doce no seu ‘viajar’…

Amarga no ficar…

Na minuta de tentar…

Fugir do amargar…

Permanecendo com um medicar…

Que não tem nada de amar…

Nos níveis baixos de sua lucidez…

O afagar tem pouca vez…

Lições para a vida…

Resultados enclausurados para morte…

Tem sorte em morrer…

Antes de enlouquecer…

Por completo…

Sem nenhum ‘repeteco…

Para as construções, de novos mexericos

Fala sozinho…

E dialoga com o nada…

Quaisquer momentos…

Podem ser juramentos…

Com lamentos…

Metamorfoseados em tormentos…

A cama do seu catre…

 Clama por sua presença…

Afinal, entre eles…

Não há desavenças…

Mas sim crenças infiltradas pela distonia…

Multiplicando, sua agonia…

Nas tempestades noturnas…

Realizam plêiades alucinógenas diurnas…

De potestades, cheias de tempestades…

Subjetividade conscrita de poucos louvores…

Mas clamando por amores…

Que se tornam dores…

Nos seus neurônios…

Axônios de incongruências…

Virtudes de indecências…

A Esquizofrenia…

Não é sobre as sanidades…

Mas a insanidade…

Em se ter uma verdade…

Que seja sinônimo de maldade…

Clayton Alexandre Zocarato

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No meio da cidade tinha uma gruta…

Sergio Diniz da Costa

‘No meio da cidade tinha uma gruta…’

Sergio Diniz
Sergio Diniz
Imagem criada por IA no Bing – 26 de março de 2026,
às 20:45 PM

Meio século me separa de minha infância. E das primeiras lembranças da ‘Terra das Monções’, berço do velho ‘Juquita’, como a vida inteira foi conhecido meu pai, José Diniz da Costa, nascido na Rua Cândido Mota, no centro de Porto Feliz.

Em sua juventude, foi músico da banda da cidade e, das lembranças desse tempo, legou-nos um flautim. E trabalhou como químico prático da então próspera Usina de Açúcar.

Como consequência natural dessas atividades, dele recebi, geneticamente, o gosto pelas artes em geral, e doze anos trabalhando como técnico-químico.

Mas recebi, também, algo maior: uma segunda terra natal, um segundo lar.

Apesar de ter feito de Sorocaba sua nova terra até o final de seus dias, continuou umbilicalmente ligado a Porto Feliz e, duas ou três vezes ao ano, a família toda visitava os parentes e amigos. 

Naquela época, a magia das visitas começava pela estrada, então de terra, o que nos deixava empoeirados até a alma e fazia com que a viagem, de ônibus, e cheia de paradas, parecesse uma eternidade. Uma maravilhosa eternidade, cercada por paisagens inesquecíveis, quase sem nenhuma construção. Apenas um oceano verde, mesclado com marrom e azul, onde, ocasionalmente, rebanhos de bovinos pareciam, ao longe, em estado meditativo.

Um pouco antes de entrar na cidade, plantações de cana-de-açúcar e uma enorme vontade (nunca realizada) de parar ali e chupar cana até sair pelo nariz.

Após as plantações, finalmente se divisava a entrada da cidade, que se dava simplesmente atravessando a estrada que liga Itu, Boituva, e outras cidades da região.

E, já entrando na cidade, o ônibus nos deixava na Praça da Matriz, muito próximo da Casa das Tias de Porto Feliz, como a ela nos referíamos.

A chegada a Porto, invariavelmente, era aos sábados, ainda de manhã, e se estendia até o final da tarde de domingo. E, nos dois dias, após o almoço, um passeio deliciosamente obrigatório: na Gruta!

Por ser perto, íamos a pé. E, já na entrada, nas escadarias, um sentimento transcendente se apossava de mim e, certamente, de meus irmãos, também. No ar, percebia-se um cheiro, que, mais do que de mata, era um aroma de aventuras, que lembrava algo como “As Caçadas de Pedrinho”, que, com a coleção infantil completa de Monteiro Lobato, povoou de magia minha infância.

Descíamos as escadarias com o coração palpitando e a mente fervilhando. A impressão que tínhamos era que nós também éramos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, e nos uniríamos a Pedrinho, Narizinho, Emília, o Visconde de Sabugosa e outros personagens do Sítio.

Conforme descíamos, as imagens do Monumento aos Bandeirantes, do batelão, dos paredões salitrosos e da bica ─ cuja água gelada, de gosto adocicado, se bebida, segundo uma lenda, sempre trazia o visitante de volta à gruta ─, e, finalmente, a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, levava-nos a um passado longínquo, com a chegada dos primeiros bandeirantes.

Essa magia, renovada de época em época, durou por toda a minha infância e até certo momento da adolescência. O tempo, porém, aos poucos, levou para as terras espirituais os parentes e amigos de outrora. E, também aos poucos, foi depositando no Baú da Memória aquele lugar de sonhos e de aventuras.

Hoje, volto mensalmente a Porto Feliz, para buscar exemplares da Revista Bemporto (da qual sou um dos colunistas). E recentemente, visitei a gruta. Mas alguma coisa estava diferente nela, além da mudança de local do batelão. Senti um vazio profundo, um silêncio doído.

Tentei ouvir os ecos do passado longínquo quando, naquele local, surgiu a Vila de Araritaguaba. Em vão. Tentei, então, ouvir os ecos de um passado mais recente, da gruta da minha infância, cheia de visitantes e mesmo dos moradores da cidade. Mas só ouvi uma criança dentro de mim que dizia, como um Drummond: No meio da cidade tinha uma gruta/ Tinha uma gruta no meio da cidade/ Nunca me esquecerei desse acontecimento/ Na vida de minhas retinas tão fatigadas/ Nunca me esquecerei que no meio da cidade tinha uma gruta… Uma gruta onde um menino se perdeu, levado por um batelão, talvez para a Terra do Nunca.

Crônica publicada originariamente na Revista Bemporto, edição de setembro de 2015.

Sergio Diniz da Costa

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O que virá depois?

Evani Rocha: Poema ‘O que virá depois?’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada por IA do Gencraft - 26 de março de 2025,
às 06:02 PM
Imagem criada por IA do Gencraft – 26 de março de 2025,
às 06:02 PM

O que virá depois?

Depois do entrar do Sol

Do infinito no céu

Do adormecer das flores

Depois do anoitecer

O que virá depois do sim

Depois da curva do caminho

Depois das pedras

Do pó, dos espinhos…

O que virá depois do nunca

Depois do adormecer

Dos sonhos, do ranger da porta

Da entropia, do caos

O que virá depois da dor

Da remissão, do perdão

Da curvatura das costas

Do tremor das próprias mãos…

O que virá depois do fim

Depois da interjeição

Do silêncio da resposta

Do arrefecer do jardim

O que virá depois do sol

Dos olhos anuviados

Da amargura do fel

Da solidão na sacada,

Da boca cerrada…O que virá?

Evani Rocha

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Pra não dizer que não falei dos espinhos

Cláudia Lundgren: ‘Pra não dizer que não falei dos espinhos’

Cláudia Lundgren
Imagem gratuita do saite pixabay
Imagem gratuita do saite Pixabay

Uma hora da madrugada – isto são horas de ficar filosofando? De ficar querendo saber o porquê das coisas? De ficar supondo sobre o que jamais, de fato, saberei?

Pois é! Não sei se pelo avançar das horas, mas esses pensamentos viraram uma verdadeira salada, envolvendo rosas, espinhos, seres humanos e outros ingredientes.

Alguém saberia me explicar o porquê da existência dos espinhos nas rosas? Logo elas, as mais belas, com suas pétalas aveludadas de tons escandalosamente deslumbrantes, e o perfume que as indústrias do ramo buscam, a qualquer custo, sinteticamente imitar. Aqui em casa ninguém soube me responder.

Será que a rosa perderia a sua humildade, se não fossem seus espinhos? O que ela diria aos seus botões, caso eles não existissem? “Sou a rainha das flores, visto-me com uma roupagem ímpar e o meu perfume é o melhor dos jardins. Quando Deus me fez, Ele disse: ‘Desce e arrasa!’”. Ah, mas “que bobagem, as rosas não falam.” (OLIVEIRA, 1976); porque se falassem, não se vangloriariam, exatamente por possuírem espinhos na carne.

Os espinhos não tiram de forma alguma a majestade da rosa, mas assim como nós, ou como quaisquer seres vivos, ela tem seu lado obscuro. Ninguém pode orgulhar-se muito de quem se é; sim, devemos lutar, ferrenhos, dia após dia, para que o nosso lado bom sobressaia; devemos ser conhecidos por atitudes positivas; mas eles estão lá, e abatem nossa soberba; estão lá para nos lembrar da nossa natureza humana; nós não podemos vê-los a olho nu, mas assim como a rosa, somos cravejados de espinhos.

Certa vez, o cravo e a rosa brigaram, e ele saiu ferido; bem, a rosa não tem braços para bater nem pernas para sair do lugar e ir buscar paus, pedras, vassouras, facões ou outras espécies de arma. Ele foi ferido, certamente, por aquilo que havia na rosa: espinhos – objetos perfurocortantes inerentes à sua natureza. Quantas e quantas vezes ferimos os outros com as nossas próprias armas, com aquilo que temos de pior? Palavras que ferem e fazem sangrar a pele alheia, e doem, talvez, bem mais do que uma bofetada; palavras deixam marcas profundas, cicatrizes horrendas, que nem mediante microscópios somos capazes de ver; marcas na alma. Quantas vezes julgamos ter amigos, e nem sabemos que eles vivem nos apunhalando pelas costas com o punhal da falsidade. Quantas vezes humilhamos pessoas, e as fazemos sentir pequenas. Quantas vezes escarnecemos de alguém e ficamos de risadinhas. Quantas vezes, quantas vezes… São os nossos espinhos, lançados como dardos inflamados, capazes de ultrapassar as barreiras da pele e atingirem no profundo o nosso semelhante. Quem pode se vangloriar que atire a primeira pedra.

As situações também demonstram que nem tudo são flores – pra não dizer que não falei delas, de todas elas. Existem os percalços, os obstáculos, que a todo momento temos que ultrapassar; existe a brisa e o furacão; a bonança e a tempestade; existem os leões diários que temos que matar; flores e espinhos.

As reflexões vão ainda mais longe: é através das ‘espinhadas’ da vida que crescemos, que evoluímos, que nos tornamos ‘cascudos’. Os espinhos são maus, em contrapartida, são as armas de defesa das rosas contra cravos que tentam contra a sua honra; que fazem sangrar as mãos daqueles que tentam matá-la, arrancando-a vorazmente do solo. 

Vou encerrando por aqui porque já passou das três e preciso descansar esta mente bombardeada de achismos, suposições e reflexões, sabendo que certeza mesmo só quem tem é Deus, que gentilmente confidenciou aos biólogos e botânicos. Boa noite!

Claudia Lundgren

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Perdi-me nessa versão

Ismaél Wandalika: Poema ‘Perdi-me nessa versão’

Soldado Wandalika
Soldado Wandalika
“Em mim nasce vidas que respiram o ar engolido pelos ventos”
Imagem criada por IA no Bing. 25 de março de 2025,
às 13:04 PM.

Estou exausto da vida pesando em ombros
Vou dormir sem tédio, afogar-me nos copos
As coisas que reparei
Para longe dessa ilusão levarei
Fui feito trevas na luz dos ingénuos, quando tentei
Cobri o rosto com terço no peito, olhei
Rogo as águas que me lavem os pensamentos
Corro observando a retórica dos pássaros
Vou pelas ruas ameaçados pelos tempos
Em mim nasce vidas que respiram o ar engolido pelos ventos.

Fui herói nesta história
Minha glória está na boca de quem meu braço salvou
Às vezes brinco com o destino
Desafio os videntes deste ninho
Contra afirmo ao sacramento
Não busco paixões que se perdem no deserto
Resisto às tempestades sem medo.

Perdi-me nessa versão

Soldado Wandalika

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