Memória de um cárcere

Sandra Albuquerque: ‘Memórias de um cárcere’

Sandra Albuquerque
Sandra Albuquerque
Imagem gerada por IA do Bing - 13 de dezembro de 2024
 às 2:05 PM
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às 2:05 PM

Querido Policarpo.

Se esta carta está chegando às suas mãos, não estou mais neste plano e foi o meu último desejo. Sentado na cadeira de execução, passou um filme da minha trajetória.

Espero que você jamais cometa erros que o leve a chegar aqui. Troque os maus pensamentos pela bondade e a vontade de viver. Veja como a liberdade é bela! Ter família e amigos e uma bela história de vida. Não seja ambicioso ao ponto de não ter o sono dos justos.

Foram dias, meses e anos e a maioria deles numa solitária. Em torturas, queriam extrair de mim toda a estratégia que levou à faceta tão perfeita do roubo. Emudeci e sofri horrores desumanos por calar-me.
Tirei o sono dos poderosos e sentia prazer ao ver o desespero deles em querer mostrar trabalho, sabendo como tudo aconteceu e onde eu coloquei tanto ouro.

Já cansado de sofrimentos e com idade avançada, dei a informação, com uma condição: de que essa carta chegasse a você ,meu único amigo, para que você, com isto, aprendesse que roubar não vale a pena.

Atenciosamente,

Seu amigo.

Comendadora poetisa Sandra Albuquerque

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À procura de uma dignidade duradoura

Ella Dominici: ‘À procura de uma dignidade duradoura’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem gerada por IA do Bing - 13 de dezembro de 2024
 às 7:38 AM
Imagem gerada por IA do Bing – 13 de dezembro de 2024
às 7:38 AM

Onde estiveste de noite?
noite-memória dos sinos,
Sondando Deus?

Iluminações em mistérios são alcance
da essência substancial das coisas

Onde estiveste quando no céu surgia a estrela….

E na epifania celeste surgia
o relance que passaria
como um cometa que viveu entre os homens
não estrelando poder, mas envergando brilho terreno na pacificação

Deixando caminho do alcance das dignidades

Onde estiveste na noite?
Noite-memória da vinda Criança-esperança,
Sendo tu sondado?

Alma personificada no ser perdido,
esta, sonda profundezas de memória no celeiro deixado,

nobre encontro com a identidade do eu verdadeiro,

procura da revelação do ser, é encontrar dignidade em Cristo

epifania celeste neste acampado divino corpo ,
ora propriedade terrestre
ora essência de perfume,
intangível com o olhar
invisível com as mãos, dedilhado com o âmago
saboreado com o paladar da plenitude da alma

Caia a neve como manto de amor em nossas almas,
Empalideçam as estrelas cadentes do orgulho e desafeto,

Despontem e venham estrelitas de humildade em forma de simples aceitação das diferenças

Caia a membrana que cobre os olhos e esconde de si a luz que quer brilhar

Cintilem noites despojadas de presunções e intenções

Cintile em lares e famílias com perdões e afagos em abraços e em orações

Que o presente alcançado por Deus brilhe fulgurante

Seja a dignidade de guardar o menino nos sentimentos,
trilhar os passos do
Homem que se fez carne

“amar ao outro como a si mesmo”
em todos os cantos,
aguardando não a próxima noite de festa
Mas vencendo os dias e noites na espera

Da almejada Manhã!

Eterna Dignidade

Ella Dominici

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 Zelig, de Woody Allen. A busca pela aceitação

CINEMA EM TELA

Marcus Hemerly: ‘Zelig, de Woody Allen. A busca pela aceitação’

Card da coluna Cinema em Tela - 'Zelig, de Woody Allen. A busca pela aceitação'
Card da coluna Cinema em Tela: ‘‘Zelig, de Woody Allen. A busca pela aceitação’

“Sou um quase não louco.”
John Cassavetes

“Esse programa pode não ser uma janela para o mundo, mas é certamente um periscópio sobre um oceano do social”, assim era iniciado o programa ‘Provocações’ quando comandado pelo entrevistador Antônio Abujamra. Se, de um lado, o saudoso apresentador, ator e diretor se enveredava por uma constante busca por extrair o máximo de seus entrevistados, não raro, de forma não ortodoxa, daí a ‘provocação’ que intitulava o semanal, o veterano diretor novaiorquino fez algo similar em seus filmes. 

A longeva carreira de Allan Stewart Konigsberg, ou ‘Woody Allen’, é marcada por sucessos que o levaram a premiações do Oscar e de Cannes, mas também o foi por escândalos.  Como sua turbulenta separação da companheira e atriz de mais de uma dúzia de suas produções, Mia Farrow, em decorrência do caso do ator com a filha adotiva do casal, a temática de suas obras, recorrentemente, se preocupa sobre as complexas questões psicológicas. 

Aliás, Allen foi adepto fiel da análise por várias décadas, refletindo uma visão social e psicanalítica do homem moderno inserido na sociedade estadunidense. Suas neuroses, paranoias, estilística e desvios, intercalam tramas mais densas sob o viés comportamental e de crítica social/sociológica – não política, ele faz questão de pontuar – e roteiros de formatação cômica mais acentuada. E, como consequência, de apelo comercial mais atrativo, pois é sabido que em determinados períodos, houve um decréscimo de público em seu próprio país.

É notório que Woody já foi considerado a maior mente cômica no cenário norte-americano, aspecto que remonta à sua atuação em shows de stand up, ainda em seus primórdios. Multiartista, é sempre o responsável pela roteirização de sua impreterível produção anual, que fatalmente recebe o título provisório de “filme de Woody Allen do outono”, estação na qual sempre começa as filmagens de seus longas.  É possível dizer que a própria evolução da sociedade Americana foi paralelizada em termos de mutação de costumes no universo Woodiano. Seu humor ácido, ágil, irônico e sagaz, inúmeras vezes foi encenado pelo próprio diretor, que transpôs, durante seu amadurecimento como realizador, um verdadeiro alter ego às telas, inserindo em seus roteiros, personagem que é sua cópia fiel, formatando-o em contextualização de acordo com cada argumento, mas mantendo seus maneirismos e peculiaridades. 

Decerto, os fãs mais ardorosos até mesmo se ressentem quando Woody não atua em seu projeto anual, inclusive, sua ausência tem sido mais recorrente nas últimas produções, que segundo os críticos, a partir dos anos 2000, retomou um diálogo, mas simples, remetendo às comédias pastelão dos anos 70, num raio de alcance maior de público. A crítica de cinema Neusa Barbosa (Gente de Cinema – Woody Allen, 2002, pag. 190), pondera “A alternância, em sua carreira, de obras de tons mais som- brios e mais leves, culminando na fase mais recente, em que parece ter definitivamente abraçado o objetivo de divertir o seu público, revela que em seu espírito convivem ao menos dois Woody Allens, um é de câmara, outro de vaudeville. Os críticos e o público podem preferir um ou outro, mas o fato é que os dois coexistem na poderosa imaginação do diretor, trocando figurinhas o tempo todo. Que um predomine sobre o outro pode ser apenas uma questão de momento”.

Dentre a evolução de seu cinema, destacamos o título Zelig, de 1983, que gira em torno de um verdadeiro camaleão humano, no qual o personagem que intitula a trama, Leonard Zelig, muda em termos de personalidade e. até mesmo, corporalmente, quando interage com as pessoas a seu derredor.  Num momento, enquanto confabula com cantores de jazz muda a pigmentação de sua pele, se conversa com um obeso, imediatamente adota proporções mais robustos numa simetria em tom de rapport não consciente.  Acompanhamos a trajetória do personagem tratado pela psiquiatra interpretada por Mia Farrow – fase pré-escândalo – que tenta decifrar e até mesmo curar o enigma que o homem sem passado e, possivelmente sem futuro, revela em sua passagem por fatos da história, de maneira muito inventiva que seria posteriormente levada a efeito em filmes como Forrest Gump. 

De vilão a herói, a trajetória de Zelig é contada em forma de documentário fictício, subgênero batizado de mocumentário, do inglês to mock (zombar), em um dos filmes mais criativos e esmerados da carreira do diretor. Neste título em específico, inolvidável tracejar questionamentos que encapsulam proposições pertinentes e identificáveis na sociedade contemporânea, tais como a ânsia pela aceitação até o ponto da auto sabotagem e anulação em temor à detração e repúdio do grupo. Dentre os números filmes questionam o sentido da vida numa abordagem mais existencial, impossível não remetermos à obra de Bergman, fonte inspiradora indissociável da fase mais autoral de Allen, tema por ele explorado no percurso de suas quatro décadas de criação. 

Em que pese a mácula sobre sua popularidade e decréscimo de apoio popular e da classe artística após as acusações de abuso sexual nos anos 90, é sabido que suas produções mais filosoficamente apuradas sempre receberam ardorosa recepção no universo europeu. Certamente, herança da nouvelle vague e cultura de valorização ao cinema de autor, que apresentam profundas raízes naquele país. Não é por acaso que Allen, devotadamente apaixonado por Nova York a ponto de fazê-la coadjuvante recorrente em sua obra, ama Paris como a sua segunda cidade favorita. 

Seu mais recente filme, ‘Coup de Chance’, (2023), rodado na Cidade Luz, e em língua francesa, é provavelmente o último de sua carreira na sétima arte, pois o diretor manifestou seu interesse em dedicar-se à literatura e música, é uma declaração de amor não apenas ao cinema, mas a seus apoiadores constantes. Singelo, direto e eficiente, como nos antecedentes ‘Scoop’ e ‘Match Point’.  Não obstante a tendência ao ostracismo dos últimos anos, Woody Allen permanece como um dos mais importantes realizadores vivos. 

Marcus Hemerly

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Luzes natalinas

Denise Canova: Poema ‘Luzes natalinas’

Denise Canova
Denise Canova
Imagem gerada por IA do Bing – 11 de dezembro de 2024
às 7:23 PM

Luzes natalinas

Luzes do nosso amor

Luzes lindas

Que iluminam o nosso desejo

O ano todo

Dama da Poesia

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Um certo Joaquim Maria

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Um certo Joaquim Maria’

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Imagem gerada por IA - 7 de outubro de 2024, às 7h14
Imagem criada por IA – 7 de outubro de 2024 às 7h14

Não descarto a possibilidade de já ter esbarrado com aquele homem, que, em idade, provavelmente regulava com a do meu falecido pai. Talvez me deixei ser enganado pela maneira austera de se vestir. Seja como for, era mais velho do que eu e um tanto mais moço do que meu avô, que mal cheguei a conhecer. 

          Pois lá estava o dono de cavanhaque tão distinto, apesar de bastante popular por aqueles tempos. Sóbrio, parecia mordiscar metodicamente cada salgado folhado diante de si. Alguns goles longos na limonada. Não tardava, voltava o olhar vago em busca de possível aconchego. 

          Tive ímpeto de me fazer notado. Caminhei alguns passos em sua direção, o olhar fixo, mas, assim que o meu alvo se virou, também o fiz, mas em outra direção, como se procurando alguém com quem tivesse marcado um encontro. Pura interpretação de ator medíocre, coisa que sempre fui. Por sorte, alguém ao fundo da Confeitaria Colombo acenou para mim. 

          A princípio, não reconheci aquele rosto, até que me aproximei. Era tia Maricota, irmã mais moça de meu pai. Ela estava acompanhada da filha, Maria de Lourdes, que, para meu alívio, havia desistido de firmar compromisso justamente comigo. Na verdade, nunca acreditei em amores entre primos, muito antes de saber que os frutos podem não vir saudáveis. 

          As duas bebiam chá, enquanto dois quindins repousavam docemente sobre a mesa. Quando menino, era meu quitute favorito. No entanto, homem quase feito, buscava sofregamente pelo sal na comida. Se bem que, de vez em quando, pegava um naco de cocada e o levava à boca, talvez como lembrança de tempos de criança. 

        O garçom se aproximou. Fiz o mesmo pedido do dono do cavanhaque distinto, certamente na ânsia de me aproximar dele. As parentas sorriram, como se percebessem como aquele garoto de outrora havia crescido. Devolvi o sorriso, enquanto tentava cofiar o ralo bigode, que teimava cultivar, apesar da quase total falta de pelos. 

          — Que coincidência, Julinho.

          — Não entendi, tia.

          — A limonada e o folhado.

          — Não gosta?

          — Você bem sabe que sou mais afeita a doces.

          — Já sou crescido para doces.

          — Percebe-se, Julinho.

       — Mas a senhora estava falando sobre coincidências. Que coincidências?

          — Reparou que você fez o mesmo pedido do Joaquim Maria?

          — O escritor?

          — Sim. Ele está sentado logo ali. Você passou por ele. Não percebeu, Julinho? 

       Olhei para trás e fingi espanto. Na certa, tia Maricota e Maria de Lourdes não desconfiaram da minha pequena mentira ou, por sorte, guardaram segredo para evitar pendengas desnecessárias. 

          — Onde estava com a cabeça, que nem notei tamanha presença?

         Minha prima riu e o pequeno ruído chamou a atenção do mais distinto cliente da confeitaria. Trocamos olhares e, num ímpeto de mocidade, ergui a taça de limonada. Ele fez o mesmo, o que me encheu de regozijo. 

         Não tardou, meu companheiro de limonada saiu do recinto. Tive vontade de ir até ele para cumprimentá-lo, mas minhas pernas bambas não me permitiram. Entretanto, assim que o garçom recolheu a taça do Joaquim Maria, chamei-o. Tomei-lhe a taça das mãos e coloquei uma nota graúda no bolso da camisa. E, antes que alguém percebesse, apesar dos olhos espantados das minhas parentas, que a tudo viram, a escondi no bolso interno do meu paletó. 

       Pois bem, eis que estou aqui sentado na sala da minha casa, cercado de netos barulhentos. Em frente, na ampla estante de mogno, lá está aquela taça, que me custou o dinheiro que não possuía na época, mas que, ainda hoje, me é tão cara.

Eduardo Cesario-Martínez

Sobre o autor

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez

Eduardo Cesario-Martínez é um premiado escritor carioca, que há quase três anos mora em Porto Alegre, cidade pela qual é apaixonado.

Seu primeiro livro, o romance “Despido de ilusões”, 2004, figurou entre os mais lidos do CCBB. “57 Contos e crônicas por um autor muito velho” é seu mais recente livro.

Seus contos e crônicas são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP. É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).

Divide a editoria Café Literário do Notibras com o poeta e escritor Daniel Marchi e com a jornalista e poeta Cecília Baumann.

Mídia social: Instagram

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Caatinga

Ceiça Rocha Cruz: Poema ‘Caatinga’

Ceiça Rocha Cruz
Ceiça Rocha Cruz
Imagem gerada por IA do Bing - 10 de dezembro de 2024
 às 2:47 PM
Imagem gerada por IA do Bing – 10 de dezembro de 2024
às 2:47 PM

Fim de tarde.
Na várzea do meu sertão,
mata seca,
chão ressequido,
solidão.

Galhos secos e avencas,
espinhos de mandacarus
perfuraram meu peito.
Feridas abertas de saudades
que se derramam na janela
do tempo.
Falta você…

Você é o meu sol
a desabrochar
inebriando o dia.
O vento a sussurrar
aos ouvidos, versos poéticos,
meu abraço,
meu tudo…

Lá do alto,
carcará e gavião sorridentes,
espreitam,
emolduram o cenário.

Hoje a caatinga voltou a sorrir.
Você trouxe a chuva,
guardou o sol,
aprisionou-me na sua história
e no seu amor.

A alegria invadiu o meu viver.
A caatinga do meu peito
transformou-se,
inundou com o seu rio,
a várzea do meu sertão.

Ceiça Rocha Cruz

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O valor semântico das preposições

Fidel Fernando

‘O valor semântico das preposições no ensino da Língua Portuguesa’

Fidel Fernando
Fidel Fernando
Imagem gerada por IA do Bing -  10 de dezembro de 2024 
às 2:25 PM
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às 2:25 PM

Na trajectória de ensino da gramática, há temas que se tornam quase automáticos, repetidos sem a atenção necessária a aspectos mais profundos de uso. É o caso das preposições e da crase, frequentemente abordadas com o foco em listas e regras, mas sem uma reflexão sobre os valores semânticos e os impactos dessas pequenas partículas na construção do sentido. O aluno acaba memorizando que ʻdeʼ é uma preposição, ou que ʻàʼ requer atenção, porém, ao deparar-se com frases como ʻbolo de chocolateʼ ou ʻjantar à luz de velasʼ, a interpretação do que esses termos representam em cada contexto torna-se um desafio.

A questão, então, vai além de saber que ʻdeʼ ou ʻparaʼ são preposições, ou que o acento grave indica crase. Trata-se de entender que cada uso tem um peso, um valor, que transforma o enunciado. Vejamos: em ʻcopo de águaʼ e ʻcopo com águaʼ, a escolha da preposição indica relações distintas. No primeiro caso, podemos inferir que o copo é destinado à água. No segundo, temos a ideia concreta de um copo contendo água. São nuances que, embora sutis, mudam a mensagem que transmitimos. Como bem afirmam Evanildo Bechara e Inês Duarte, conhecer a gramática vai além de decorar estruturas: é compreender a essência de cada palavra e seu papel na comunicação.

Outro exemplo emblemático reside nas diferenças semânticas entre ʻir à lojaʼ e ʻir para a lojaʼ. Enquanto o primeiro enunciado sugere uma ida temporária, um movimento de ida e volta, o segundo comunica uma ideia de permanência, algo mais duradouro. Sem essa compreensão, o aluno perde a oportunidade de escolher a preposição que melhor expressa seu pensamento, limitando-se a seguir regras: o verbo ir é regido da preposição ʻaʼ e ʻparaʼ. A crase, por sua vez, é um caso curioso de simplificação extrema. Muitos professores se restringem a ensinar as famosas ʻregras do usoʼ, ʻdo não usoʼ e ʻdo uso facultativoʼ do acento grave, esquecendo-se de explorar o valor semântico que essa contracção da preposição representa. Considere os enunciados ʻjantar à luz de velasʼ e ʻjantar a luz de velasʼ. No primeiro, o acento grave indica uma condição: o jantar ocorre na presença da iluminação das velas. No segundo, perde-se essa ideia, tornando a frase descritiva e menos íntima, diríamos, em outros termos, impensável no mundo real. E em ʻestar à mesaʼ versus ʻestar na mesaʼ? A primeira opção transmite um sentido mais social e formal, enquanto a segunda pode ser interpretada de forma mais literal, quase cômica.

É fundamental que o ensino vá além do decorativo e se debruce sobre os valores semânticos das preposições e do acento grave na crase. Afinal, o que faz um bom escritor ou orador é, como diria Celso Cunha e Cintra, a capacidade de escolher, entre todas as opções gramaticais, aquela que melhor traduz seu pensamento. Ensinar, então, é dar ao aluno o repertório que lhe permita seleccionar palavras com precisão, clareza e propósito.

Assim, ao reflectirmos sobre o ensino da língua portuguesa, que possamos nos lembrar de que cada preposição carrega consigo uma história, uma relação, um significado. Que os alunos não apenas aprendam o que são, mas também compreendam o que significam. E, ao final, que as palavras, com suas preposições, se tornem aliadas na busca por uma comunicação mais rica e significativa

Fidel Fernando

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