A literatura de Elisa Mascia reflete a alma da bela Itália, Berço do Renascimento, Berço da História e Cultura, O Coração do Barroco e da Ópera!
Elisa Mascia
Elisa Mascia, natural de Santa Croce di Magliano, e atualmente residindo em San Giuliano di Puglia, Itália, é uma escritora prolífica, palestrante, radialista, oradora, crítica literária, poeta bilíngue (italiano e espanhol), jurada de concursos de poesia, entrevistadora e ativista cultural, e atua também como editora de livros.
Membro da Immortal Academy, coordenadora na Itália e diretora de Comunicação e Eventos da prestigiada Alpap Academy e membro executivo da International Book Capital Foundation.
Membro registrada e cofundadora da Wiki-Boezia e possui uma página oficial na Wikipédia. Seu nome também consta no GroWikipedia.
Desempenha um papel fundamental no Panorama International Literary Festival, que conta com o apoio da UNESCO. Atuou como coordenadora do festival de 2021 a 2024 e como diretora da edição de 2025, recebendo o prêmio de Melhor Curadora Nacional do Mundo.
Elise também é uma figura de destaque na seção de artes e escultura do Panorama International Art Festival e uma das lideranças da Bienal Internacional de 2023.
As contribuições de Elisa vão além dos festivais literários; como editora de uma publicação voltada a escritores e uma distinta embaixadora cultural, ela conquistou inúmeros prêmios.
Elisa Mascia inicia sua jornada ROLiana com o poema O guerreiro do amor, abordando a resiliência após o luto ou o fim de um relacionamento, a superação da dor, a aceitação do silêncio e o amadurecimento emocional em busca do amor verdadeiro.
O guerreiro do amor
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Não bastou para você cair uma, duas ou cem vezes.
Você não valorizou as experiências que depositou na espada cravada na pedra de uma história de fadas e reis.
Havia também o cavaleiro e a imperatriz, agora eles aceitaram a metáfora de se tornarem vento e poeira estelar, pétalas de rosa que escrevem a música do silêncio.
Seu silêncio não é silencioso, é eloquente como o de uma mãe que compreende seu filho mesmo quando ele não fala.
Espalha pétalas de suave dignidade de seus dedos, enche a taça da amargura, há muito jogou fora a suntuosa tigela de açúcar usada para adoçar o café.
Talvez o mel âmbar tenha se dissolvido em rios no mar da tristeza, chegou a hora de separá-lo da água e, com maestria, compreender juntos com discernimento o mistério do cavaleiro que chamou aquele cavalo branco de volta para si na esperança de um novo, desejado encontro com o amor eterno.
Eduardo Cesario-MartínezImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/b57ad3dd8ec693d0?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Todos, ainda me lembro, acertavam os relógios assim que o delicioso cheiro do pão de queijo da dona Adélia tomava a rua. Quatro horas da tarde! E ninguém se atrevia a questionar tamanha precisão. Até o padre Horácio sabia que aquela hora era sagrada. Tanto é que, como de costume, ia ter com a senhora um tanto de minutos antes.
O sacerdote nem chegava a bater à porta da antiga casa da esquina, pois o arrastar daquelas sandálias sob a batina o anunciava. Um sorriso o recebia assim que ele subia o último vão da pequena escada.
— Que bom que o senhor chegou a tempo de provar o pão de queijo que acabei de retirar do forno.
Se era verdade ou não, sei lá, mas corria à boca pequena que aqueles dois possuíam algo além do apreço pelo pão de queijo. Não que fosse algo falado logo ali na pequena praça defronte à igreja. Era mais uma coisa de olhares e sorrisos maliciosos do povo, que não tinha coisa melhor para fazer ou, então, fruto da natureza tão própria dos humanos.
Padre Horácio, assim que a porta lhe era aberta, estendia o braço para dona Adélia, que lhe pousava os lábios sobre aquela mão quase tão alva como farinha de trigo. Isso acontecia tanto ao entrar como ao se despedir. E, quando estava de volta à calçada, o religioso pegava um pente de chifre de boi e o deslizava sobre os cabelos quase negros, se não fosse por duas mechas brancas próximas às orelhas. Aquilo, aliás, era mais um mote para o falatório maldoso.
Enquanto menino, não atentava para tais conversas. Pensava apenas naquele pão de queijo, cujo cheiro inebriava minhas narinas infantis. Na verdade, apenas quando me tornei homem feito é que tive o prazer de degustar um ou dois. Confesso que não o achei nem melhor nem pior do que os demais que já havia comido. Seja como for, é uma parte da minha infância que gosto de lembrar, ainda mais porque era justamente quando a meninada começava a sair para se divertir na rua.
Adorava brincar de queimada, principalmente quando não ficava no time da Fernanda, uma garota bem magrinha, cujos olhos me causavam arrepios. E, todas as vezes que ela arremessava a bola, eu me deixava ser queimado apenas para olhá-la soltando aquela gargalhada tão gostosa.
— Te queimei de novo, Carlinhos!
E lá ia eu para o outro lado. Fingia-me emburrado, enquanto sentia meu coração palpitar dentro do peito. Coisas de menino, cuja voz começava a engrossar. Todavia, jamais consegui fazer com que a Fernanda me fitasse de maneira especial. Isso, aliás, ela fazia, ainda que discretamente, para o Toninho, que morava justamente na casa ao lado da minha.
Cheguei a ter ódio daquele garoto. Um intrometido, que impediu que eu desfrutasse o primeiro amor da minha vida. Por ironia, viramos melhores amigos dois anos após. E, confesso, fui eu que me aproximei por ciúme e despeito, pois ele e Fernanda se tornaram namorados. Tal comportamento doentio ou, ao menos, contraditório, também fez com que a menina dos meus sonhos se tornasse minha grande confidente.
— Você gosta de alguém, Carlinhos?
— Sim.
— E eu posso saber quem é?
— É segredo.
— Hum. Você está me deixando curiosa. Eu conheço essa sortuda?
Eu não sabia onde enfiar a minha cara, ainda mais diante daqueles olhos tão inquisidores, daqueles lábios maravilhosamente delineados. Menti descaradamente.
— Não conhece. É uma menina que conheci numa festa. A gente ficou, mas ela preferiu terminar.
— Por quê?
— Ah, ela me disse que estava gostando de outro cara.
— Qual o nome dela?
— Por que quer saber?
— Porque sou curiosa e também sou sua melhor amiga.
— Mara.
— Mara? Eu conheço uma Mara. Como ela é?
— Magra, um pouco alta.
— Da minha altura?
— Por aí.
— Qual a cor dos cabelos dela?
— Ruiva.
— Ruiva? Não é possível!
— Por quê?
— Não é possível que existam duas Maras, magras, altas e ruivas. Eu conheço essa sua namorada!
Fiquei estático. Não sabia o que falar. Tentei convencê-la de que era óbvio que existiam duas Maras, magras, altas e ruivas. Falei até que era bem provável que existissem dezenas de garotas assim. Que nada! Como fui burro em inventar que namorava uma Mara, magra, alta e ruiva.
Lembro-me de que, na noite daquele dia, levei muito tempo para pegar no sono. Morria de medo de ser pego naquela mentira tão deslavada. E, pior, justamente pela Fernanda, a garota mais linda da minha rua. E se aquela história se espalhasse? Os supostos comentários me perseguiram por dias: “Você viu o Carlinhos? Pois é, tá inventando que ficou com a Mara, aquela ruiva amiga da Nanda!”, “Ah, o Carlinhos nunca nem beijou uma garota!”, “O Carlinhos mente que nem sente!”
Não sei se a Fernanda se esqueceu da nossa conversa ou, então, preferiu não tocar mais no assunto. Por conta disso, meu medo foi se esvaindo, até que, por fim, nem eu me lembrava. Isso até a semana passada, quando, após quase 20 anos, esbarrei com o amor da minha infância na entrada do cinema. A princípio, não me dei conta da sua presença, até que ela tocou meu ombro.
— Carlinhos! Não é possível! Há quanto tempo!
— Nanda!
A minha antiga confidente me deu um abraço apertado e nos beijamos no rosto. Naquele instante, muitas coisas passaram pela minha mente. O que ela fazia da vida? Morava perto? Será que ela estava solteira? Tais pensamentos, todavia, viraram fumaça assim que ela chamou uma amiga, que carregava um enorme saco de pipoca e dois copos de refrigerante.
— Lembra da Mara?
Apenas sorri. Finalmente, depois de tantos anos, fui conhecer o meu antigo caso que nunca existiu. Mara, magra, alta e ruiva. Aliás, como era linda!
Apesar do cinema praticamente lotado, conseguimos sentar juntos. Não por sorte, mas porque a Nanda convenceu um rapaz a trocar de lugar comigo. Fiquei entre aquelas duas mulheres maravilhosas por quase três horas de filme. Depois, convidei as duas para irmos a uma cafeteria ali perto. Por sorte, elas aceitaram.
Sentamos à mesa mais ao canto e fizemos nossos pedidos, praticamente idênticos, caso não fosse pelo cappuccino da Fernanda. Para acompanhar, pedimos pão de queijo.
— Carlinhos, você se lembra da dona Adélia e do padre Horácio?
— Aqueles pães de queijo fizeram história.
Entre lembranças e risadas, aqueles momentos foram os melhores da minha vida, que, na verdade, havia se tornado muito chata. É que me tornei gerente de um banco, mal saía com mulheres. Não por culpa delas, é que eu me transformara num homem desinteressante. Isto é, até que, após oferecer carona a Fernanda e Mara, agarrei-me à minha derradeira esperança. Como a Fernanda morava mais perto, a deixei primeiro em casa. Em seguida, quando voltei ao carro, ganhei um beijo inesperado.
— Carlinhos, ouço falar de você há tanto tempo, que é como se já nos conhecêssemos.
Rita Odeh: Poema ‘Para que a terra descanse um pouco’
Rita OdehImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/39aa0f5510bb2cf1?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Ó Deus do Universo, Tu prometeste que a injustiça deve inevitavelmente desaparecer… Então, até quando todos estes tormentos, todo este sofrimento? Até quando os pássaros morrerão, abatidos, sobre os muros da esperança? Até quando o nosso céu permanecerá apetrechado com aviões de guerra, e as brasas do ódio… sobre a terra… permanecerão acesas…? Até quando…!? Até quando permaneceremos como borboletas em teias de aranha… presos…? Até quando as crianças chorarão… famintas… nuas… as suas famílias, cadáveres espalhados pelas estradas…?! Que os vermes devoram…? Até quando…!? Até quando as hienas violarão… o sangue dos inocentes… para que eles partam, estrela… por estrela… cintilando no céu? Até quando…!? Ó Deus da Justiça… Tu prometeste: é preciso que um dia o sol dos trabalhadores… dos esmagados… dos oprimidos… dos deslocados… dos miseráveis… se levante. E que seja cortada… a mão daquele que é viciado na destruição… que arruinou e devastou… e devorou a honra… e manchou o sangue. Ó Deus da Paz, Ó Senhor dos Grandes Céus, Ó meu Deus… Ó Misericordioso… Ó Amparo dos fracos… Tu que… dizes a uma coisa… Sê… e ela é, aos mortos, levantai-vos… e eles levantam-se… Diz à ocupação… basta de obscenidades. Diz à ocupação… basta de soberba. Diz às consciências: “Acordai da vergonha do vosso sono. No rio sagrado… lavai-vos.” Ó Deus do Universo, Diz ao vento… para se acalmar um pouco… um pouco… Ó Deus da paz… Ó Deus da verdade… Ó Deus da justiça… Diz… a esta terra… para descansar um pouco… um pouco… antes que……… o julgamento chegue.
José Antonio TorresImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/cd228ad8e8d0b804?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
A energia das águas De tão nobres Cataratas, Lavam tristezas e mágoas Que ao coração maltrata.
Jane NashImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/30f75bc1f283920a?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Babylon still calls the young, while white whiskered fathers despair, but freeing them pray for their return. Languages of home mix in the distance, delete a culture, remove its language. It’s time to be linguistically challenged.
The nights reveal the other world. White whiskered fathers remember the allure their cynicism eschewed those complex values being tested, while their children search for that precise wonder that Babylon promises.
‘Estudo de caso: a importância do treino da capoeira na evolução de Alice, autista nível 1 de suporte’
Claudia LundgrenCard da 4ª Copa REgiangola de Capoeira – Nova Friburgo (RJ)
A criança autista sempre será uma criança autista, porém, se cair nas mãos certas, ela pode desenvolver, e muito.
1 – O Transtorno do Espectro Autista e seus diferentes níveis de suporte
De acordo com o DSM-5 TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), revisado em 2022, o Transtorno do Espectro Autista (TEA), é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades persistentes na comunicação e interação social, associadas a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades
Neste manual, estão descritos quais os níveis de suporte do autismo, que significam o quanto de apoio a pessoa necessita em tarefas do dia-a-dia, principalmente no que diz respeito à comunicação/interação social e aos comportamentos restritos/repetitivos. São eles:
Nível 1 – requer suporte para realizar tarefas cotidianas, como socializar-se, lidar com seus comportamentos repetitivos, novas rotinas, com sua rigidez cognitiva, seletividade alimentar etc., no entanto o autista incluído neste nível apresenta uma certa independência.
Nível 2 – anteriormente conhecido como autismo moderado, autistas neste nível necessitam de suporte moderado. Alguns são não-verbais, podem necessitar de outros métodos de comunicação, apresentar dificuldades frequentes para realizarem suas atividades do dia-a-dia, como alimentar-se sozinhos, tomar banho, vestir-se. São mais rígidos cognitivamente, e devido a isso, sair da rotina para eles é muito sofrido.
Nível 3 – neste grupo estão presentes os autistas clássicos, graves, severos, muitos com deficiência intelectual, alguns não-verbais, os que apresentam mais estereotipias, e que necessitam de suporte e assistência diária. São os mais facilmente diagnosticados pelos neurologistas.
Para a população em geral, o autista clássico, ainda é, infelizmente, o estereótipo de uma pessoa autista. Os do nível 1, são os mais prejudicados, quase que invisíveis, pois necessitam igualmente de tratamento, e agora que estão surgindo profissionais com conhecimento suficientes para diagnosticá-los precocemente e encaminhá-los para as devidas terapias, que, quanto mais cedo iniciarem, mais funcional o autista pode tornar-se.
Lembrando que autismo não é doença; o cérebro apenas se forma de maneira diferente no ambiente uterino. Fazendo uma comparação, pensemos nos celulares com sistemas Android e iOS: tenho o meu Samsung, e minha irmã, o IPhone. O sistema operacional de cada um deles é diferente, mais ambos são smartphones.
As pessoas em geral possuem muita dúvida, e normalmente imaginam que suporte, para o autista, são somente as pessoas que o auxiliam em seu dia-a-dia, como mães, médicos, cuidadores especializados e professores, porém, podem configurar-se, por exemplo, em um abafador de ruídos, que pode ser utilizado em ambientes muito barulhentos, evitando que a pessoa tenha uma sobrecarga sensorial; em cartões, imagens plastificadas, pranchas de comunicação (contendo letras, símbolos, palavras, para que o indivíduo junte e forme frases) e na Tecnologia Assistiva, opções para que o autista não-verbal possa se comunicar; a arte, pela qual alguns autistas podem demonstrar melhor seus sentimentos; em terapias; adaptação e individualização em planos educacionais, como aplicação de avaliações orais para alunos que não escrevem, um AEE com especialistas no assunto; medicamentos e outros.
2 – Alice, autista nível 1 de suporte, diagnosticada aos 6 anos
Cada autista, assim como cada pessoa, é único; uns podem ter dificuldades em certas áreas; outros podem ‘tirá-las de letra’. Dentro do grupo dos autistas nível 1, por exemplo, uns podem saber amarrar seus sapatos e vestir suas roupas com facilidade; outros, poderão ser pobres na coordenação motora, porém, por sua vez, interagirem melhor com seus pares.
Alice, está menina linda da foto, é a minha neta primogênita. O meu bolinho de chuva açucarado, de tão doce que é. Ainda não perdeu o jeitinho de bebezinho. Sempre tivemos muita afinidade, amo sem medidas. Claro, já nasceu autista, porém, só percebi quando ela ingressou na creche-escola onde eu trabalhava, aos 2 anos, no maternal, que ela era diferente das outras crianças. Ela sentava quase sempre junto às professoras, demonstrando preferência por adultos, e dificilmente interagia com as crianças; o ‘dia do brinquedo’ era na sexta-feira, porém todos os dias ela levava sua pelúcia, pois assim, sentia-se mais segura. A professora chamava a turma para o café da manhã e ela só ia na hora dela; na rodinha de música, também. Ela tinha os seus momentos. Chegava na sala de aula não-verbal, e só falava na hora que queria. Sua linguagem estava em desenvolvimento para a idade, porém ela não impostava a voz; falava muito baixinho com as tias. Realizava todas as atividades propostas: desenho, pintura, blocos de montar, sabia pendurar sua mochila e pegar a agenda e sabia os nomes dos colegas.
Alice era a aluna que toda professora queria: quietinha, empenhada, aprendeu cedo a usar o vaso sanitário. Sabia falar, sabia o significado da fala, mas sua comunicação era pobre. O dito ‘típico’, era ela se enturmar, tentar iniciar uma conversa, ir brincar se alguém chamasse… mas Alice era diferente. Eu comecei a desconfiar, mas ninguém a encaminhou, fiquei na minha também. Nos relatórios dela sempre estava a frase: “Possui dificuldade em interagir; dificuldade em desapegar do objeto de apoio (a pelúcia); tinha dificuldade em compartilhar brinquedos.”. Eu falei com minha filha, porém ela ficou aguardando o professor, a escola, se manifestar.
Alice formou-se na creche-escola e iniciou o pré-1 em uma outra instituição pública educacional. Somente no fim do ano, no último relatório, foi que a professora percebeu algo diferente e encaminhou-a para investigação neurológica.
Entre nós, quando ela vinha na minha casa, assim que ela chegava, era não-verbal; entrava e ficava quieta. A gente já sabia que era assim, que na hora dela, era falaria. Antes, ela dormia na minha casa; agora só aceita dormir com a mãe. Antes, comia de tudo, mas começou a ficar seletiva.
Chegou o dia em que minha filha a levou à neurologista infantil e especialista em TEA, dra. Gabriella Huber. Após investigação, foi laudada como autista nível 1 de suporte. Começou a tomar uma medicação prescrita pela doutora, e, conforme os dias foram passando, os resultados foram percebidos.
Ela começou o pré-2 na Escola Municipal Sebastião Branco, em Teresópolis – RJ, onde residimos, já com seu laudo, e a professora Raquel Rocha, que possui conhecimento e vivência no assunto, a acolheu, a incluiu, disse que ela poderia. Hoje, Alice tem uma ‘melhor amiga’, a Rebeca, e alguns coleguinhas.
A criança autista sempre será uma criança autista, porém, se cair nas mãos certas, ela pode desenvolver, e muito.
Ao meu ver, como professora de Educação Infantil aposentada e especialista em TEA, todas as professoras, cuidadoras, neurologistas e psiquiatras infantis deveriam dedicar mais seus estudos ao autismo, a fim de olharem as crianças com outros olhos, com outra percepção, de perceberem esse sutil ‘quê’ de diferença que existem no grupo nível 1, e saber como lidar. De cada 36 crianças que nascem no mundo, segundo a OMS, 1 é autista, e esse número tende a aumentar. Seria uma chuva de autistas? Não! Eles sempre existiram: os ditos associais, os esquisitos, os perfeccionistas, os ansiosos, os sinceros, os verdadeiros, os tímidos do fundo da sala, os rígidos (os populares ‘cabeças-duras’), os sensíveis, os mais puros. O que faltava era o conhecimento. É preciso conhecer, pois autista não tem cara, e muitos adultos estão aí, com seus diagnósticos tardios, cheios de comorbidades, pois não passaram pelas terapias, que felizmente, as crianças de hoje passam.
3 – O treino da capoeira como terapia alternativa no tratamento da Alice
Enquanto aguarda as terapias na rede pública de saúde minha filha teve a excelente ideia de inscrever seus dois filhos mais velhos, Apollo e Alice, no Projeto Acolhidos, que oferece a capoeira, jiu-jitsu etc., de forma gratuita.
Aos queridos leitores, venho dizer que relato um estudo de caso verídico e pessoal, específico, que deu muito certo para minha neta Alice. Creio que, para muitos autistas nível 1 pode ser muito positivo também. Mas conforme já escrevi em linhas acima, cada autista é único.
Observei muita evolução, determinação e força de vontade na Alice no treino da capoeira. Como atleta. Como pessoa. Ela quer vencer, e essa característica a impulsiona. Porém, certamente isto se deve a dedicação, à didática com a criança autista, à paciência. A equipe Regiangola de capoeira, sobre a liderança do mestre Sorriso, certamente soube fazer com que Alice permanecesse no esporte.
Alice aprecia muito ter como par, ao jogar capoeira, seu irmão Apollo; eles são extremamente amigos e ela se apoia muito nele. Porém, neste jogo, o par troca-se constantemente. Essa interação, ainda que em silêncio, com outras crianças, meninos ou meninas, é muito importante para o aluno autista. Representa superar-se a si mesmo, redundância sim! E com certeza teve alguém por trás que trabalhou na cabecinha da Alice, que a estimulou a ir além, com sabedoria.
Jogar capoeira trabalha o equilíbrio, a coordenação motora, a saúde corporal, como todo esporte, a superação do medo de realizar certos movimentos, importantíssimo para certos autistas.
Na capoeira há regras a serem seguidas. Alice possui rigidez cognitiva, mas sabe que ali as coisas não acontecem do jeito que ela quer. Ela não gosta de nenhum tipo de sapato quando encontra-se em casa, ou na minha casa, mas também não fica descalça de jeito nenhum. A mãe comprou para ela andar, no dia-a-dia, meias antiderrapantes, porém, ali, no jogo, as meias teriam que ser tiradas, até porque ela poderia escorregar; mas veja, caros leitores, que em algumas imagens ela aparece de meias. Para o aluno autista tem que haver uma coisa chamada flexibilidade, fator importante para que ele não desista. Outra coisa interessante é que neste esporte, a oralidade também é trabalhada através do canto. Assisti ao vídeo do contramestre Carvoeiro ensinando e incentivando-a carinhosamente a cantar. Ela evitou o contato visual, normal entre autistas, mas cantou, encorajada também pelo irmão e pela mãe.
Esta imagem muito me emocionou! Vale mais do que qualquer palavra! Ela vencendo seus limites advindos das dificuldade em interagir, em olhar nos olhos, porém, cantando. E atrás com certeza o coraçãozinho do seu irmão estava torcendo muito por ela.
É uma luta interior extrema, porque o autismo é interno.
Alice é competitiva, e joga com vontade de vencer. Ela terá que lidar com a frustração, que é muito difícil para um autista, pois nem sempre vencemos.
Na capoeira, Alice não somente joga, interage, aprende que há regras a ser obedecidas, trabalha a oralidade através da música, mas também toca instrumento, aprendendo ritmo, volume do som, coordenação, e isto é excelente para a criança autista. Ela sente-se verdadeiramente incluída, útil, importante. A equipe e o projeto estão de parabéns!
Aqui nesta imagem aparecem os irmãos Alice e Apollo em uma apresentação, juntamente com a professora Bonança, que também os treina.
4 – Considerações finais
Ressalto novamente a importância de se cair nas mãos certas. Nas mãos que acolhem, que encorajam; mãos carinhosas, mãos que também exortam, corrigem. O que funciona, aqui neste relato, é a junção destas mãos, que consistem na família, nos médicos, na escola, e aqui, no caso, no esporte, que envolve inúmeros componentes ajudadores no desenvolvimento da criança autista em questão. Acreditem nelas, e elas se sentirão autoconfiantes, e com certeza irão muito mais além. Deem a elas uma tarefa, e elas farão o seu melhor, a fim de não lhe decepcionar, e, de quebra, se sentirá parte integrante do grupo. Ela não é menor por ser autista, somente diferente; e poderá lhe surpreender.
Denise CanovaImagem criada pala IA do Gemini – Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/33c1163c67b73957?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all