O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho
‘O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN): fundação, finalidade e importância para a preservação da memória cultural brasileira’



Resumo
O presente artigo tem como objetivo analisar a trajetória histórica, a finalidade institucional e as principais atividades desenvolvidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão responsável pela proteção e preservação do patrimônio cultural brasileiro. Criado em 1937, em um contexto de consolidação do Estado nacional e de valorização da identidade cultural brasileira, o IPHAN tornou-se referência na formulação de políticas públicas voltadas à salvaguarda dos bens culturais. Ao longo de sua atuação, o instituto ampliou o conceito de patrimônio, incorporando bens materiais e imateriais, manifestações culturais, saberes tradicionais e paisagens culturais. O estudo busca compreender o papel estratégico do IPHAN na construção da memória coletiva, na valorização da diversidade cultural e na promoção do direito à cultura, destacando sua relevância histórica, social e educativa para a sociedade brasileira contemporânea.
Palavras-chave: Patrimônio cultural. IPHAN. Memória social. Políticas culturais. Preservação histórica.
Abstract
This article aims to analyze the historical trajectory, institutional purpose, and main activities developed by the National Institute of Historic and Artistic Heritage (IPHAN), the federal agency responsible for the protection and preservation of Brazilian cultural heritage. Created in 1937 within a context of national state consolidation and cultural identity valorization, IPHAN became a reference in the formulation of public policies aimed at safeguarding cultural assets. Throughout its history, the institute expanded the concept of heritage by incorporating tangible and intangible assets, cultural manifestations, traditional knowledge, and cultural landscapes. This study seeks to understand IPHAN’s strategic role in building collective memory, valuing cultural diversity, and promoting cultural rights, highlighting its historical, social, and educational relevance to contemporary Brazilian society.
Keywords: Cultural heritage. IPHAN. Social memory. Cultural policies. Historical preservation.
Introdução
A preservação do patrimônio cultural constitui um dos fundamentos essenciais para a manutenção da memória coletiva, da identidade nacional e da continuidade histórica das sociedades. Os bens culturais — materiais e imateriais — representam testemunhos das experiências humanas ao longo do tempo, expressando valores simbólicos, artísticos, religiosos, políticos e sociais que contribuem para a compreensão do passado e para a construção do presente. Nesse sentido, o patrimônio cultural ultrapassa sua dimensão estética ou histórica, assumindo papel estratégico na formação da cidadania e no fortalecimento do sentimento de pertencimento social.
No contexto brasileiro, marcado por intensos processos de colonização, escravidão, miscigenação e diversidade étnico-cultural, a preservação do patrimônio apresenta desafios específicos. O desenvolvimento urbano acelerado, a industrialização, a expansão imobiliária e as desigualdades socioeconômicas historicamente contribuíram para a perda de importantes referências culturais. Durante grande parte do século XIX e início do século XX, inexistiam políticas públicas estruturadas voltadas à proteção do patrimônio histórico e artístico nacional, o que resultou na destruição de edificações, acervos e manifestações culturais de valor inestimável.
Foi nesse cenário de transformações e ameaças ao legado histórico que emergiu, na década de 1930, a necessidade de criação de um órgão estatal responsável pela formulação de políticas de preservação cultural. A consolidação do Estado nacional brasileiro, especialmente durante o governo de Getúlio Vargas, estimulou iniciativas voltadas à valorização da identidade nacional, compreendida como elemento fundamental para a integração territorial e simbólica do país. Assim, a cultura passou a ser reconhecida como instrumento político, educativo e social.
A criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 1937, representou um marco decisivo na institucionalização da política patrimonial brasileira. Inicialmente denominado Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), o órgão foi responsável por estabelecer os primeiros critérios técnicos, jurídicos e administrativos de proteção aos bens culturais. Sua atuação inaugurou uma nova compreensão sobre o papel do Estado na salvaguarda do patrimônio, atribuindo-lhe responsabilidade direta pela preservação da memória coletiva.
Ao longo de sua trajetória, o IPHAN consolidou-se como referência nacional e internacional no campo da preservação cultural. A instituição ampliou significativamente o conceito de patrimônio, inicialmente restrito a monumentos arquitetônicos e obras de arte, passando a reconhecer também manifestações culturais imateriais, saberes tradicionais, práticas sociais, celebrações, formas de expressão e modos de fazer transmitidos entre gerações. Essa ampliação refletiu mudanças teóricas e metodológicas ocorridas no campo da cultura, especialmente a partir da segunda metade do século XX.
A Constituição Federal de 1988 fortaleceu esse processo ao estabelecer, em seu artigo 216, uma concepção abrangente de patrimônio cultural, reconhecendo a diversidade cultural brasileira como fundamento da identidade nacional. A partir desse marco constitucional, o IPHAN passou a atuar de maneira ainda mais integrada com estados, municípios e comunidades locais, assumindo papel central na formulação das políticas públicas culturais e na promoção do direito à cultura.
Além de sua função normativa e fiscalizadora, o instituto desenvolve atividades educativas, técnicas e sociais que visam democratizar o acesso ao patrimônio cultural. Programas de educação patrimonial, ações de inventário, projetos de restauração, registros do patrimônio imaterial e cooperação internacional configuram um conjunto de iniciativas que reafirmam o patrimônio como bem coletivo e instrumento de desenvolvimento sustentável.
Diante desse contexto, torna-se fundamental compreender a importância histórica, institucional e social do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Analisar sua origem, suas finalidades e suas atividades permitem reconhecer o patrimônio cultural não apenas como herança do passado, mas como elemento vivo, dinâmico e indispensável à construção da cidadania e da identidade brasileira contemporânea.
Assim, o presente artigo tem como objetivo analisar a trajetória do IPHAN desde sua fundação, destacando sua importância para a preservação do patrimônio cultural brasileiro, sua finalidade institucional e as principais atividades desenvolvidas ao longo de sua atuação. Busca-se, ainda, refletir sobre os desafios enfrentados pela instituição na atualidade e sua relevância para a consolidação de políticas públicas voltadas à proteção da memória, da diversidade cultural e da história nacional.
2 Contexto histórico e fundação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
A constituição de políticas públicas voltadas à preservação do patrimônio cultural no Brasil está diretamente relacionada ao processo de formação do Estado nacional e às transformações políticas, sociais e econômicas ocorridas nas primeiras décadas do século XX. Até o início desse período, inexistia no país uma política sistematizada de proteção aos bens históricos e artísticos, sendo a conservação do patrimônio realizada de forma pontual, geralmente por iniciativas isoladas de intelectuais, instituições religiosas ou administrações locais.
Durante o século XIX, especialmente após a Independência, a preocupação com a memória nacional manifestou-se sobretudo no campo historiográfico, com a criação de instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838. Contudo, apesar de sua relevância intelectual, tais iniciativas não possuíam instrumentos legais nem estrutura administrativa capazes de assegurar a preservação física dos bens culturais. A destruição de edificações coloniais, a descaracterização de centros urbanos e a perda de acervos documentais eram consequências recorrentes da ausência de uma política pública nacional.
Com o avanço da urbanização e da industrialização no início do século XX, os riscos ao patrimônio histórico intensificaram-se. Reformas urbanas inspiradas nos modelos europeus, especialmente nas capitais brasileiras, provocaram a demolição de construções coloniais consideradas obsoletas frente ao ideal de modernidade. Esse processo contribuiu para o apagamento de referências históricas fundamentais à compreensão da formação social e cultural do país.
A partir da década de 1920, esse cenário passou a ser questionado por intelectuais, artistas e arquitetos ligados ao movimento modernista brasileiro. Figuras como Mário de Andrade, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Lúcio Costa e Carlos Drummond de Andrade passaram a defender a preservação do patrimônio como elemento essencial para a construção da identidade nacional. Para esses pensadores, a modernização do país não deveria implicar a negação de seu passado, mas sim o reconhecimento crítico de suas raízes históricas e culturais.
A Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder marcaram o início de um período de centralização política e reorganização administrativa do Estado brasileiro. Nesse contexto, a cultura passou a ocupar lugar estratégico nas políticas governamentais, sendo compreendida como instrumento de integração nacional e legitimação do projeto político do Estado Novo. A valorização do patrimônio histórico e artístico inseriu-se, portanto, em uma agenda mais ampla de construção simbólica da nação.
Foi nesse ambiente que, em 1937, por meio do Decreto-Lei nº 25, foi criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), órgão precursor do atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O referido decreto estabeleceu, pela primeira vez no Brasil, bases legais sólidas para a proteção dos bens culturais, definindo conceitos, critérios de reconhecimento e mecanismos jurídicos de preservação, como o tombamento.
A liderança de Rodrigo Melo Franco de Andrade na direção do SPHAN foi determinante para a consolidação institucional do órgão. Sua gestão, que se estendeu por mais de trinta anos, contribuiu para a construção de uma política patrimonial coerente, pautada por critérios técnicos, científicos e administrativos. Sob sua coordenação, foram realizados os primeiros inventários sistemáticos do patrimônio nacional e promovidos inúmeros tombamentos de igrejas, edifícios civis, centros históricos e obras de arte.
Paralelamente, o arquiteto Lúcio Costa desempenhou papel fundamental na definição dos parâmetros técnicos de preservação arquitetônica, conciliando os princípios do movimento moderno com a valorização da arquitetura colonial brasileira. Essa articulação entre tradição e modernidade tornou-se uma das marcas da política patrimonial implementada pelo órgão.
Nas décadas seguintes, o SPHAN passou por mudanças administrativas e institucionais, transformando-se em Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN) e, posteriormente, em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), denominação oficializada em 1970. Essas transformações refletiram a ampliação de suas atribuições e o fortalecimento de sua estrutura organizacional.
A partir da segunda metade do século XX, especialmente entre as décadas de 1970 e 1980, o conceito de patrimônio cultural passou por significativa ampliação, influenciado por debates internacionais promovidos por organismos como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). O patrimônio deixou de ser compreendido apenas como monumento artístico excepcional, passando a abranger bens culturais representativos da vida social, das práticas cotidianas e das identidades coletivas.
Esse novo paradigma foi incorporado progressivamente pelo IPHAN, culminando no reconhecimento do patrimônio cultural imaterial, oficialmente instituído no Brasil pelo Decreto nº 3.551, de 2000. Tal avanço consolidou o entendimento de que a cultura é dinâmica, viva e plural, exigindo políticas de preservação que respeitem os modos de vida e os saberes das comunidades.
Dessa forma, a fundação do IPHAN não pode ser compreendida como um evento isolado, mas como resultado de um longo processo histórico marcado por disputas simbólicas, transformações sociais e redefinições do papel do Estado. A instituição consolidou-se como referência na proteção do patrimônio cultural brasileiro, sendo responsável pela construção de uma das mais duradouras políticas públicas do país.
Assim, o IPHAN representa não apenas um órgão administrativo, mas um marco na história cultural brasileira, cuja atuação contribuiu decisivamente para a preservação da memória nacional, para o reconhecimento da diversidade cultural e para a valorização do patrimônio como direito coletivo e bem fundamental da sociedade.
3 Importância do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional para a sociedade brasileira
A importância do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para a sociedade brasileira ultrapassa significativamente sua função administrativa de proteção legal de bens culturais. Trata-se de uma instituição estratégica para a consolidação da memória coletiva, da identidade nacional e do reconhecimento da diversidade cultural que caracteriza o Brasil. Ao atuar na salvaguarda do patrimônio, o IPHAN contribui para a permanência dos vínculos históricos entre passado, presente e futuro, garantindo a continuidade simbólica da nação.
O patrimônio cultural, compreendido como construção social, representa um conjunto de valores compartilhados que expressam experiências históricas, práticas sociais e formas de organização coletiva. Conforme destaca Choay (2001), o patrimônio não é apenas herança material do passado, mas resultado de escolhas culturais realizadas pela sociedade. Nesse sentido, o IPHAN exerce papel fundamental ao mediar essas escolhas, definindo critérios técnicos e científicos para o reconhecimento de bens culturais de relevância pública.
No contexto brasileiro, marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, a atuação do IPHAN assume dimensão ainda mais relevante. A proteção do patrimônio cultural contribui para o fortalecimento do sentimento de pertencimento social, especialmente em comunidades historicamente marginalizadas. Ao reconhecer manifestações culturais indígenas, afro-brasileiras, populares e tradicionais, o instituto promove o respeito à pluralidade cultural e combate processos históricos de invisibilização.
A importância social do IPHAN também se manifesta na valorização das identidades locais e regionais. Cidades históricas, comunidades tradicionais e territórios culturais encontram na atuação do instituto um instrumento de reconhecimento simbólico e jurídico. O tombamento de centros urbanos, por exemplo, não apenas preserva edificações, mas assegura a continuidade de paisagens culturais que expressam modos de vida e relações sociais construídas ao longo do tempo.
Do ponto de vista jurídico, o IPHAN desempenha papel central na efetivação dos direitos culturais previstos na Constituição Federal de 1988. O artigo 216 estabelece que o patrimônio cultural brasileiro compreende bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, cabendo ao poder público, com a colaboração da comunidade, promover e proteger esse patrimônio. Nesse contexto, o instituto atua como principal agente executor dessa determinação constitucional, transformando o direito à cultura em política pública concreta.
A relevância do IPHAN também se expressa no campo da educação. Por meio de programas de educação patrimonial, o órgão contribui para a formação de uma consciência histórica crítica, estimulando a população a reconhecer o patrimônio como parte de seu cotidiano. Essas ações fortalecem a cidadania cultural e promovem o engajamento social na preservação dos bens culturais, reduzindo práticas de degradação e abandono.
Além disso, o IPHAN desempenha papel significativo no desenvolvimento socioeconômico sustentável. A preservação do patrimônio cultural impulsiona o turismo cultural, a economia criativa e a geração de empregos, especialmente em municípios históricos. Quando articulada a políticas de planejamento urbano e inclusão social, a proteção patrimonial torna-se vetor de desenvolvimento, conciliando conservação, uso social e dinamização econômica.
No âmbito científico e técnico, a instituição exerce função de referência nacional. O IPHAN atua na produção de pesquisas, inventários, publicações e formação de profissionais especializados, contribuindo para o avanço dos estudos sobre patrimônio cultural no Brasil. Sua atuação interdisciplinar, envolvendo áreas como história, arquitetura, arqueologia, antropologia e conservação, fortalece o campo acadêmico e técnico da preservação patrimonial.
A importância internacional do IPHAN também merece destaque. O instituto mantém cooperação permanente com organismos internacionais, especialmente a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), participando ativamente dos processos de reconhecimento de bens brasileiros como Patrimônio Mundial. Essa atuação projeta o Brasil no cenário internacional e reforça o compromisso do país com a proteção do patrimônio da humanidade.
Outro aspecto relevante refere-se ao papel do IPHAN na mediação de conflitos entre preservação e desenvolvimento. Em um país em constante transformação urbana, a instituição atua como instância técnica capaz de equilibrar interesses econômicos e valores culturais, buscando soluções que conciliem crescimento urbano, sustentabilidade e proteção do patrimônio histórico.
Por fim, a importância do IPHAN reside em sua capacidade de compreender o patrimônio como bem público, direito coletivo e elemento essencial da cidadania. Ao preservar bens culturais, o instituto protege não apenas edificações, objetos ou manifestações simbólicas, mas a própria história social brasileira, assegurando que as múltiplas vozes que compõem a nação permaneçam reconhecidas e valorizadas.
Dessa forma, o IPHAN configura-se como instituição indispensável à sociedade brasileira, pois sua atuação contribui para a construção de uma memória plural, democrática e inclusiva, capaz de fortalecer a identidade nacional e promover o respeito à diversidade cultural como fundamento da vida social contemporânea.
4 Finalidade institucional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
A finalidade institucional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) está diretamente vinculada à proteção, valorização e promoção do patrimônio cultural brasileiro, compreendido como um bem de interesse público e direito fundamental da sociedade. Sua atuação fundamenta-se na compreensão de que o patrimônio cultural constitui elemento essencial para a construção da identidade nacional, da memória coletiva e da cidadania cultural.
Desde sua criação, o IPHAN assumiu como princípio norteador a responsabilidade do Estado na salvaguarda dos bens culturais, rompendo com a lógica anterior, na qual a preservação ocorria de forma fragmentada e sem respaldo legal. O Decreto-Lei nº 25, de 1937, estabeleceu as bases jurídicas dessa finalidade ao definir que compete ao poder público proteger os bens de valor histórico, artístico, arqueológico, etnográfico e paisagístico existentes no território nacional.
Com o advento da Constituição Federal de 1988, a finalidade institucional do IPHAN foi significativamente ampliada. O texto constitucional reconheceu o patrimônio cultural brasileiro como um conjunto de bens materiais e imateriais portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade. Dessa forma, o instituto passou a atuar não apenas na conservação física de bens, mas também na salvaguarda de práticas culturais vivas, saberes tradicionais e expressões simbólicas.
Nesse contexto, a finalidade do IPHAN pode ser compreendida a partir de quatro dimensões complementares: jurídica, técnica, social e educativa.
Do ponto de vista jurídico, o instituto tem como finalidade garantir a aplicação da legislação patrimonial brasileira, assegurando o cumprimento dos instrumentos legais de proteção. Isso inclui o tombamento, o registro do patrimônio imaterial, a fiscalização de intervenções e a emissão de pareceres técnicos que orientam obras e projetos em bens protegidos. Ao exercer essa função, o IPHAN atua como guardião legal do patrimônio cultural, prevenindo descaracterizações e perdas irreversíveis.
Sob a perspectiva técnica, a instituição tem como finalidade desenvolver métodos, critérios e diretrizes de preservação fundamentados no conhecimento científico. A atuação do IPHAN é marcada pela interdisciplinaridade, envolvendo áreas como arquitetura, história, arqueologia, antropologia, conservação e urbanismo. Essa abordagem garante que as ações de preservação respeitem tanto os valores materiais quanto os significados simbólicos dos bens culturais.
Na dimensão social, a finalidade institucional do IPHAN está relacionada à promoção do reconhecimento da diversidade cultural brasileira. Ao valorizar manifestações indígenas, afro-brasileiras, populares e regionais, o instituto contribui para o fortalecimento das identidades coletivas e para a superação de processos históricos de exclusão cultural. O patrimônio passa, assim, a ser compreendido como expressão da pluralidade social, e não apenas como herança das elites políticas ou econômicas.
A finalidade educativa constitui outro eixo essencial da atuação do IPHAN. A instituição busca promover a educação patrimonial como instrumento de formação cidadã, estimulando a compreensão crítica da história e da cultura brasileiras. Por meio de ações educativas, projetos comunitários e produção de materiais pedagógicos, o instituto incentiva a participação da sociedade na preservação do patrimônio, reconhecendo que sua proteção depende do envolvimento coletivo.
Além dessas dimensões, a finalidade institucional do IPHAN inclui a articulação entre diferentes entes federativos e a sociedade civil. O instituto atua de forma integrada com estados, municípios, universidades, organizações não governamentais e comunidades locais, promovendo uma política nacional de preservação descentralizada e participativa. Essa articulação reforça o princípio constitucional da corresponsabilidade entre poder público e sociedade na proteção do patrimônio cultural.
Outro aspecto fundamental de sua finalidade consiste na promoção do uso social do patrimônio. O IPHAN compreende que a preservação não deve resultar no isolamento ou na musealização excessiva dos bens culturais, mas sim em sua integração à vida cotidiana. Dessa forma, busca-se compatibilizar conservação, fruição pública e desenvolvimento sustentável, assegurando que o patrimônio permaneça vivo e socialmente significativo.
A instituição também possui como finalidade fomentar a pesquisa e a produção de conhecimento sobre o patrimônio cultural brasileiro. Inventários, estudos técnicos, publicações e bases de dados constituem instrumentos essenciais para o planejamento das ações de preservação e para a difusão do conhecimento científico.
Por fim, a finalidade institucional do IPHAN está associada à proteção do patrimônio como direito cultural e bem coletivo, indispensável à democracia e à cidadania. Ao assegurar a preservação da memória social, o instituto contribui para que diferentes grupos sociais tenham suas histórias reconhecidas, promovendo justiça cultural e fortalecimento da identidade nacional.
Assim, a finalidade do IPHAN não se restringe à conservação material dos bens históricos, mas se estende à promoção da diversidade cultural, à educação patrimonial, à inclusão social e à garantia do direito à cultura, consolidando-se como uma das mais importantes instituições públicas do Brasil no campo da preservação cultural.
5 Atividades desenvolvidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
As atividades desenvolvidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) constituem o eixo operacional da política de preservação do patrimônio cultural brasileiro. Por meio de um conjunto articulado de ações técnicas, administrativas, jurídicas e educativas, o instituto atua na identificação, proteção, conservação, valorização e difusão dos bens culturais, garantindo sua permanência como referências históricas e simbólicas da sociedade brasileira.
A atuação do IPHAN caracteriza-se por sua natureza interdisciplinar, envolvendo profissionais das áreas de arquitetura, história, arqueologia, antropologia, conservação, urbanismo, museologia e educação. Essa diversidade técnica possibilita uma abordagem abrangente do patrimônio cultural, contemplando tanto seus aspectos materiais quanto imateriais.
As principais atividades desenvolvidas pelo instituto podem ser organizadas em diferentes eixos de atuação, conforme apresentado a seguir.
5.1 Identificação, inventário e pesquisa do patrimônio cultural
Uma das atividades fundamentais do IPHAN consiste na identificação e no inventário dos bens culturais existentes no território nacional. Essa etapa antecede qualquer ação de proteção legal e envolve levantamentos técnicos, pesquisas históricas, registros fotográficos, análises arquitetônicas e estudos antropológicos.
Os inventários têm como finalidade reconhecer o valor cultural dos bens, documentar suas características e subsidiar políticas públicas de preservação. Além disso, contribuem para a formação de bancos de dados nacionais, ampliando o conhecimento sobre o patrimônio brasileiro e orientando ações de planejamento urbano e territorial.
A pesquisa científica constitui elemento central desse processo, permitindo compreender o contexto histórico, social e simbólico dos bens culturais e assegurando critérios técnicos rigorosos para sua proteção.
5.2 Tombamento do patrimônio cultural material
O tombamento é uma das atividades mais tradicionais e relevantes desenvolvidas pelo IPHAN. Trata-se de um instrumento jurídico previsto no Decreto-Lei nº 25/1937, utilizado para reconhecer oficialmente bens de valor histórico, artístico, arquitetônico, arqueológico, etnográfico ou paisagístico.
Por meio do tombamento, o bem passa a receber proteção legal especial, ficando sujeito a normas específicas de conservação e intervenção. Essa atividade envolve análise técnica detalhada, instrução processual, deliberação dos conselhos competentes e posterior acompanhamento permanente.
Entre os bens tombados destacam-se igrejas, edifícios civis, centros históricos, sítios arqueológicos, conjuntos urbanos e paisagens culturais. O tombamento não implica desapropriação, mas estabelece limites e responsabilidades compartilhadas entre poder público e proprietários.
5.3 Registro e salvaguarda do patrimônio cultural imaterial
A partir do reconhecimento do patrimônio cultural imaterial, formalizado pelo Decreto nº 3.551/2000, o IPHAN ampliou significativamente suas atividades. O registro de bens imateriais inclui práticas, celebrações, saberes, expressões artísticas e modos de fazer transmitidos entre gerações.
Essa atividade envolve intenso diálogo com as comunidades detentoras dos bens culturais, respeitando seus modos de organização social e suas formas de transmissão cultural. O processo de registro é acompanhado da elaboração de planos de salvaguarda, que visam garantir a continuidade das manifestações culturais sem descaracterizá-las.
Diferentemente do tombamento, o registro do patrimônio imaterial reconhece a dinâmica cultural, compreendendo o patrimônio como fenômeno vivo e em constante transformação.
5.4 Conservação, restauração e monitoramento dos bens protegidos
O IPHAN desenvolve ações permanentes de conservação e restauração dos bens culturais sob sua tutela. Essas atividades incluem acompanhamento técnico de obras, elaboração de projetos de restauro, análise de materiais construtivos e definição de métodos compatíveis com os valores históricos dos bens.
O instituto também realiza o monitoramento contínuo dos sítios protegidos, avaliando riscos estruturais, impactos ambientais e processos de degradação. Essas ações visam prevenir danos e orientar intervenções adequadas, evitando perdas irreversíveis do patrimônio.
Frequentemente, os projetos de restauração são realizados em parceria com universidades, instituições de pesquisa e organismos internacionais.
5.5 Fiscalização e licenciamento de intervenções
A fiscalização constitui atividade essencial do IPHAN. O instituto analisa e autoriza intervenções em bens tombados e em áreas de entorno, garantindo que obras públicas ou privadas não comprometam a integridade do patrimônio cultural.
Essa atuação envolve emissão de pareceres técnicos, acompanhamento de obras e aplicação de sanções quando constatadas irregularidades. A fiscalização contribui para o equilíbrio entre preservação e desenvolvimento urbano, assegurando o cumprimento da legislação patrimonial.
5.6 Educação patrimonial e ações formativas
A educação patrimonial representa um dos eixos mais relevantes da atuação do IPHAN. Por meio de programas educativos, oficinas, cursos, exposições e materiais pedagógicos, o instituto busca sensibilizar a população quanto à importância da preservação cultural.
Essas ações promovem a valorização do patrimônio local, estimulam a participação comunitária e fortalecem a cidadania cultural. A educação patrimonial é entendida como processo contínuo de diálogo entre poder público e sociedade, fundamental para a sustentabilidade das políticas de preservação.
5.7 Gestão de sítios reconhecidos como Patrimônio Mundial
O IPHAN atua diretamente na gestão dos bens brasileiros reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO. Essa atividade envolve elaboração de planos de gestão, monitoramento dos sítios e articulação entre diferentes níveis de governo.
O instituto é responsável por garantir que os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil sejam cumpridos, preservando o valor universal excepcional desses bens.
5.8 Cooperação institucional e internacional
A cooperação técnica constitui outra atividade relevante do IPHAN. O órgão mantém parcerias com estados, municípios, universidades, organizações não governamentais e instituições internacionais.
No plano internacional, o IPHAN participa de fóruns, comissões e programas da UNESCO e de outros organismos multilaterais, contribuindo para o intercâmbio de experiências e para o fortalecimento das políticas globais de preservação cultural.
5.9 Produção e difusão do conhecimento
O instituto desenvolve intensa atividade editorial e científica, com publicação de livros, revistas, relatórios técnicos e plataformas digitais. Essas ações visam difundir o conhecimento sobre o patrimônio cultural brasileiro e ampliar o acesso público à informação.
A produção de conhecimento fortalece a transparência institucional e contribui para a formação de pesquisadores e profissionais da área cultural.
5.10 Planejamento, gestão e formulação de políticas públicas
Por fim, o IPHAN atua na formulação, coordenação e avaliação das políticas públicas de preservação do patrimônio cultural. Essa atividade envolve planejamento estratégico, definição de diretrizes nacionais e acompanhamento das ações desenvolvidas em todo o território brasileiro.
A atuação do instituto busca integrar preservação cultural, desenvolvimento sustentável e participação social, consolidando uma política patrimonial democrática e descentralizada.
6 Desafios contemporâneos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
Apesar de sua reconhecida importância histórica e institucional, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) enfrenta, na contemporaneidade, uma série de desafios que impactam diretamente a efetividade das políticas públicas de preservação do patrimônio cultural brasileiro. Esses desafios refletem transformações sociais, econômicas, políticas e urbanas que exigem da instituição constante adaptação, inovação administrativa e fortalecimento de sua capacidade técnica.
Um dos principais desafios enfrentados pelo IPHAN refere-se às limitações orçamentárias e financeiras. A redução de recursos destinados à cultura, observada especialmente nas últimas décadas, compromete a execução de projetos de conservação, restauração e educação patrimonial. A insuficiência orçamentária afeta tanto a manutenção dos bens protegidos quanto a ampliação das ações de inventário e fiscalização, dificultando o atendimento das demandas crescentes em um país de dimensões continentais.
Associada à questão financeira, destaca-se a carência de recursos humanos especializados. O quadro técnico do IPHAN apresenta déficit significativo de profissionais, resultado da ausência de concursos públicos regulares e da aposentadoria de servidores experientes. Tal cenário compromete a continuidade institucional, a transmissão do conhecimento técnico e a capacidade de resposta frente às demandas administrativas e emergenciais.
Outro desafio central diz respeito à crescente pressão exercida pelos processos de urbanização, expansão imobiliária e grandes empreendimentos de infraestrutura. O conflito entre preservação do patrimônio cultural e desenvolvimento econômico constitui uma das principais tensões enfrentadas pelo instituto. Obras viárias, projetos habitacionais, exploração mineral e expansão turística frequentemente impactam sítios históricos e arqueológicos, exigindo do IPHAN atuação técnica firme e diálogo constante com diferentes setores do poder público e da iniciativa privada.
A fragilidade da articulação federativa também se apresenta como obstáculo relevante. Embora a Constituição Federal de 1988 estabeleça a corresponsabilidade entre União, estados, municípios e sociedade civil na proteção do patrimônio cultural, muitos entes federativos ainda carecem de estruturas administrativas, legislação própria e equipes técnicas qualificadas. Essa desigualdade institucional sobrecarrega o IPHAN, que frequentemente assume atribuições que deveriam ser compartilhadas.
No campo do patrimônio cultural imaterial, os desafios tornam-se ainda mais complexos. A salvaguarda de práticas culturais vivas envolve fatores sociais, econômicos e geracionais que extrapolam os instrumentos tradicionais de preservação. Mudanças nos modos de vida, migrações, transformações tecnológicas e perda de interesse das novas gerações ameaçam a continuidade de manifestações culturais, exigindo políticas integradas de valorização, educação e inclusão social.
Outro desafio significativo relaciona-se às mudanças climáticas e aos desastres ambientais. Eventos extremos, como enchentes, deslizamentos, incêndios e elevação do nível do mar, representam riscos crescentes ao patrimônio material e arqueológico. A necessidade de desenvolver estratégias de prevenção, monitoramento e gestão de riscos torna-se cada vez mais urgente, demandando investimentos tecnológicos e planejamento de longo prazo.
A incorporação das tecnologias digitais também se apresenta como desafio e oportunidade. Embora ferramentas como digitalização de acervos, georreferenciamento e plataformas virtuais ampliem o acesso à informação, sua implementação exige capacitação técnica, infraestrutura adequada e recursos financeiros. A transformação digital do patrimônio é fundamental para a democratização do acesso e para a preservação documental, mas ainda ocorre de forma desigual.
No âmbito político-institucional, o IPHAN enfrenta desafios relacionados à autonomia técnica e à estabilidade administrativa. Mudanças frequentes na estrutura ministerial da cultura e interferências político-partidárias podem fragilizar decisões técnicas, comprometendo a credibilidade institucional e a continuidade das políticas públicas de preservação.
Além disso, a ampliação do conceito de patrimônio cultural impõe novos desafios conceituais e operacionais. O reconhecimento da diversidade cultural exige metodologias participativas, diálogo intercultural e respeito às especificidades das comunidades detentoras dos bens culturais. Esse processo demanda tempo, formação continuada e fortalecimento dos mecanismos de participação social.
Outro aspecto relevante refere-se à sensibilização da sociedade. Apesar dos avanços, ainda persiste parcela da população que percebe a preservação patrimonial como entrave ao desenvolvimento urbano. Superar essa visão exige investimento permanente em educação patrimonial, comunicação pública e transparência institucional, promovendo a compreensão do patrimônio como recurso social, econômico e cultural.
Por fim, o desafio da sustentabilidade das políticas de preservação exige integração entre patrimônio, planejamento urbano, turismo responsável, meio ambiente e economia criativa. A preservação cultural não pode ser tratada de forma isolada, mas como parte de um projeto de desenvolvimento que valorize a memória, a identidade e a diversidade cultural.
Diante desses desafios, o fortalecimento do IPHAN torna-se condição indispensável para a garantia do patrimônio cultural como direito coletivo. Investimentos públicos, valorização do corpo técnico, participação social e compromisso político são elementos fundamentais para assegurar que a instituição continue cumprindo seu papel histórico na proteção da memória e da identidade brasileiras.
Considerações finais
A análise desenvolvida ao longo deste artigo permitiu compreender a relevância histórica, institucional e social do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no processo de construção das políticas públicas de preservação do patrimônio cultural brasileiro. Desde sua criação, em 1937, a instituição consolidou-se como marco fundamental na organização do campo patrimonial no país, estabelecendo bases jurídicas, técnicas e administrativas que permanecem vigentes até a contemporaneidade.
A trajetória do IPHAN evidencia que a preservação do patrimônio cultural não constitui uma ação isolada, tampouco restrita à conservação material de edifícios ou objetos históricos. Trata-se de um processo complexo, dinâmico e profundamente vinculado às transformações sociais, políticas e culturais da sociedade brasileira. Ao longo das décadas, o instituto foi responsável por ampliar significativamente o conceito de patrimônio, incorporando dimensões simbólicas, identitárias e imateriais, em consonância com os avanços teóricos internacionais e com as demandas sociais internas.
A fundação do IPHAN representou um ponto de inflexão na relação entre Estado, cultura e memória social. A partir de sua atuação, o patrimônio cultural passou a ser reconhecido como bem público e direito coletivo, assumindo papel estratégico na consolidação da identidade nacional. O estabelecimento do tombamento, dos inventários sistemáticos e, posteriormente, do registro do patrimônio imaterial configurou instrumentos essenciais para a salvaguarda da diversidade cultural brasileira.
Observou-se que a importância do IPHAN transcende sua função normativa, estendendo-se aos campos da educação, da pesquisa, do desenvolvimento sustentável e da cidadania cultural. A valorização das manifestações indígenas, afro-brasileiras, populares e regionais contribuiu para o reconhecimento da pluralidade identitária do país, rompendo com visões restritivas que, durante décadas, privilegiaram apenas determinados bens associados às elites políticas e econômicas.
As atividades desenvolvidas pelo instituto demonstram sua abrangência e complexidade, envolvendo ações de identificação, proteção legal, conservação, fiscalização, educação patrimonial, cooperação internacional e produção de conhecimento. Essa multiplicidade de funções reafirma o caráter interdisciplinar da política patrimonial e a necessidade de atuação integrada entre diferentes áreas do saber e esferas governamentais.
Entretanto, os desafios contemporâneos enfrentados pelo IPHAN revelam fragilidades estruturais que comprometem a efetividade de suas ações. Limitações orçamentárias, déficit de recursos humanos, pressões do mercado imobiliário, conflitos com grandes empreendimentos, impactos das mudanças climáticas e instabilidades político-administrativas impõem obstáculos significativos à preservação do patrimônio cultural. Esses fatores evidenciam que a proteção da memória coletiva depende não apenas da existência de legislação, mas de compromisso político contínuo e investimentos públicos adequados.
A análise realizada permite afirmar que o fortalecimento institucional do IPHAN constitui condição indispensável para a garantia dos direitos culturais previstos na Constituição Federal de 1988. A preservação do patrimônio cultural exige políticas de longo prazo, valorização do corpo técnico, ampliação da participação social e integração com áreas como educação, meio ambiente, planejamento urbano e turismo sustentável.
Diante dos desafios do século XXI, torna-se imprescindível reafirmar o patrimônio cultural como elemento estratégico para o desenvolvimento humano, social e territorial. A memória, longe de representar obstáculo à modernização, configura-se como recurso fundamental para a construção de sociedades mais democráticas, inclusivas e conscientes de sua trajetória histórica.
Assim, o IPHAN permanece como instituição essencial para o Brasil, responsável não apenas pela proteção do passado, mas pela construção de um futuro que reconheça a diversidade cultural como fundamento da identidade nacional. Preservar o patrimônio significa garantir que as múltiplas histórias, saberes e experiências que formam a sociedade brasileira continuem vivas, reconhecidas e acessíveis às presentes e futuras gerações.
Conclui-se, portanto, que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desempenha papel insubstituível na defesa da memória social brasileira, sendo indispensável à consolidação da cidadania cultural, à valorização da diversidade e à afirmação do patrimônio como bem coletivo e direito fundamental da sociedade.
Referências
- PESSÔA, E. B. Cultural heritage, master plan, and the right to the city in contemporary debates. [artigo eletrônico], 2024.
- PINHEIRO, M. L. B. Antes do SPHAN: notas biográficas sobre a trajetória de Rodrigo Melo Franco de Andrade. Anais do Museu Paulista / USP, 2023.
- UNESCO. Convention for the Safeguarding of the Intangible Cultural Heritage. Paris: UNESCO, 2003. (texto da Convenção e versões atualizadas).
- IPHAN. Catálogo de publicações / Catálogo de Livros IPHAN (catalogue and editorial production). Brasília: IPHAN, 2014 (catálogo institucional, com listagem de obras e estudos recentes).
- IPHAN. Revista do Patrimônio — dossier sobre turismo, gestão e patrimônio cultural (ex.: Ano 2019, nº especial). Brasília: IPHAN, 2019.
- BANDEIRA, S. M. Cultural mediation in the preservation of the Brazilian heritage. RSD Journal / Revista acadêmica, 2022. (artigo sobre mediação cultural, design e educação patrimonial).
- IPHAN. Patrimônio cultural e desenvolvimento sustentável — Anais e textos do Fórum (documentos institucionais sobre políticas integradas entre patrimônio e desenvolvimento). Brasília: IPHAN, s.d. / 201x.
- KUHN, C. E. S. Are fossils mineral or cultural heritage? The perspective of heritage law and conservation. Geoheritage (Springer), 2022.
- RODRIGO MELO FRANCO DE ANDRADE — Perfil / documentação institucional (biografia institucional e acervo de correspondência). Brasília: IPHAN (documento/relatório), s.d. — importante para histórico institucional do SPHAN/IPHAN.
- IPHAN. Plano de Gestão e documentação técnica — candidatura e gestão do patrimônio (ex.: Rio de Janeiro) — documentos de candidatura e planos de gestão de sítios (exemplos práticos de gestão integrada). Brasília: IPHAN, 2014/201x.
- FGV / repositório. Estudos recentes e dissertações sobre políticas culturais e patrimônio no Brasil (ex.: relatórios e dissertações disponíveis no repositório FGV). FGV Administração / Repositório FGV, 2020–2023.
Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho
O passado não é um amontoado de fatos
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
‘O passado não é um amontoado de fatos’


Como se sabe, a compreensão envolve, permanentemente, a linguagem, a confrontação com um outro horizonte humano, um ato de penetração histórica, por isso, a Hermenêutica abarca uma teoria texto.
Compreender é uma operação essencialmente referencial; compreende-se algo, quando se compara com algo, que já se conhece. O homem não realiza o seu conhecimento a partir do nada, mas por meio de uma reestruturação, correção e integração dos seus próprios ‘a prioris’ e ‘a posterioris’, por isso, a interpretação é um conhecimento simultaneamente: reconstrutivo e integrativo. (cf. ORTIZ-OSÉS, op. cit.)
Do que foi escrito, facilmente se dá conta que a compreensão possui uma estrutura intrinsecamente histórica portanto: «Não precisamos cair numa atitude psicologizante para defender que a compreensão não pode ser concebida independentemente das relações significativas que tem com a nossa experiência anterior.» (PALMER, 1969:102), pois esta, como ato histórico, está sempre relacionada com o presente. Seria ingénuo falar-se de interpretações objetivamente válidas, porque isto implicaria ser possível uma compreensão que partisse de um ponto de vista exterior à história.
Na realidade, no seu situar-se mundano (responsável pelo mundo), o homem responde desde o seu posicionamento atual: quer a um passado a interrogar e a integrar; quer a um futuro a predizer (possibilidade), isto é, antes de tomar uma decisão fundamental, emprega a sua experiência, interpreta e está interpretado na sua própria circunstância: «A sua atitude fundamental não aparece nem como progressiva nem como regressiva, mas como ingressiva, integradora.» (ORTIZ-OSÉS, 1983:48).
Compreendemos um texto, não com a consciência vazia, mas porque mantemos um modo de ver já estabelecido, e algumas conceções prévias ideacionais, (pré-estrutura da compreensão): «O passado não se nos pode opor como objecto de interesse arqueológico. A autointerpretação do indivíduo é apenas uma luz trémula na corrente fechada da vida histórica. Por essa razão, os juízos prévios do indivíduo são mais que meros juízos; são a realidade histórica do ser.» (PALMER, 1969:185).
Os juízos prévios traduzem a capacidade que toda a pessoa tem para compreender a história: dentro ou fora das ciências, não pode haver compreensão sem pressupostos, resultantes da tradição em que cada indivíduo se insere (horizonte no interior do qual pensamos).
Uma dupla operacionalidade se apresenta: uma operacionalidade do presente no passado – não há uma visão pura da história, sem referência ao presente; e uma operacionalidade do passado no presente (consciência historicamente operativa) – o presente só é visto e compreendido através das intenções, modos de ver e pré-conceitos que o passado transmite: «Não podemos inventar nem recusar o horizonte que faz alteridade à nossa consciência.» (ORTIZ-OSÉS, 1983:12).
O passado não é um amontoado de factos, é antes um fluxo, em que nos movemos e participamos: «A tradição não se coloca, pois, contra nós, ela é algo em que nos situamos e pela qual existimos.» (PALMER, 1969:180). Dá-se no ato de compreensão uma simbiose do estranho e do familiar (simultaneidade).
A tensão, presente-passado, é, em si mesma, essencial e frutífera em Hermenêutica; a distância temporal tem, simultaneamente, uma função negativa e positiva, tanto faz com que se eliminem certos juízos prévios, como provoca o aparecimento daqueles que nos levam a uma compreensão verdadeira.
Os nossos pressupostos não podem ser tomados como absolutos, mas sim como algo sujeito a mudança. São positivos: quando conduzem à compreensão; e negativos, quando conduzem ao mal entendimento. Esta distinção faz-se no interior da própria experiência hermenêutica.
BIBLIOGRAFIA
ORTIZ-OSÉS, Andrés, (1983). Antropologia Hermenêutica. Tradução, L. Ferreira dos Santos. Braga: Eros.
PALMER, Richard E., (1969). Hermenêutica. Tradução, Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Lisboa: Edições 70
Venade/Caminha – Portugal, 2026
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal
O pomo da discórdia
Eduardo Martínez: Conto ‘O pomo da discórdia’


Não sou tiete, mesmo quando estava lá com meus 15, 16 anos, nunca tive ídolos, apesar de andar com outras garotas da minha idade, todas apaixonadas por algum cantor ou astro do cinema. Minha mãe sempre disse que, ainda no tempo da creche, era eu uma adulta de fraldas. Certo exagero, mas que talvez retrate um pouco sobre o meu íntimo, reservada que quase sempre sou.
Andei com uns problemas aí. Melhor, os problemas ainda continuam por aqui, enquanto tento lidar com eles de maneira racional. No entanto, por mais que busque seguir o caminho da razão, eis que o coração me faz tomar, vez ou outra, um desvio. Desvio? Não sei se a palavra exata seja essa, até porque fica parecendo que a vida é um jogo de xadrez, que você precisa sacrificar a felicidade para manter os pés calçados.
Descobri que andar descalça não é somente prazeroso, como também necessário. Além de massagear os pés sobre a areia macia, e mesmo que de vez em quando nos deparemos com alguma pedra pontiaguda ou um espinho, isso faz bem para a alma. A saúde mental agradece, e podemos, assim, buscar conforto em outras coisas.
Tenho me alimentado melhor, tenho saciado minha mente de poesias. Nossa, como isso é bom! E você, por acaso, já se deparou com Drummond? Já reparou que Drummond rima com bombom?
Não me entenda mal, mas confesso que tenho me interessado por outro. É verdade que o Carlos continua com seu cantinho reservado no meu coração. E como poderia ser diferente? Amo aquele jeito tímido e, ao mesmo tempo, atrevido desse mineiro com gosto de pão de queijo. Seja como for, confesso que tenho outro. E pode apontar todos os dedos para mim, que aceito a sina de ser culpada.
Antes de revelar o pomo da discórdia, deixe-me contar um pouco como tudo começou. Pois estava eu fragilizada pelo término trágico de um relacionamento, que nem eu, apaixonada que estava, tinha muita esperança de que vingasse. Coisa do tipo de encontro fortuito na balada, mas que insistimos, pura teimosia, esticar para ver onde vai dar. Durou pouco mais de mês, e poderia ir até o final do mês seguinte, caso não fosse por algo bobo, comum e, não obstante, derradeiro.
— Aurélio, o que você tá fazendo com a minha escova de dente?
— Ué, escovando os dentes.
— Que nojo!
Pois é, não tinha como continuar com alguém que mal conhecia, apesar dos tórridos momentos de puro prazer, e que se apossa de algo que é só seu. De tão possessa que fiquei, não tive dúvida e mandei o, até aquele momento, amado, pegar as suas coisas e ir embora.
— Laura, você é maluca!
Maluca? Eu? Bem, não vou tentar fazer defesa em causa própria. As palavras do Aurélio não me afetaram. Maluca? Creio que ele pegou pesado comigo. Pois maluca é a mãe daquele sem-noção, usurpador de escovas de dente alheias.
Não sei se isso acontece com você, mas quando sinto princípio de desavença interna, busco na poesia o apaziguamento do qual necessito. E foi assim que fiz. Peguei meu Drummond na estante e, em meus braços, o levei para cama. Mas eis que algo me incomodou.
— Carlos, por acaso estou errada?
Mudo, o poeta me encarou de maneira serena. Pior mesmo foi aquele sorriso discreto de canto de boca, como se querendo dizer: “Laura, Laura, dessa vez você pegou pesado!”
— Pois hoje você vai dormir novamente sozinho na estante, seu Carlos!
E lá fui eu para a sala devolver Drummond, o meu amado Drummond, companheiro de tantos anos, o meu mineirinho com gosto de pão de queijo, para a estante de madeira. Que passasse a noite entre Vinicius, Bandeira, Castro Alves e tantos outros. Pensei, de relance, puxar pelas mãos o Casimiro. Muito menino, queria alguém com mais maturidade.
Quase desistindo, eis que vi debaixo da porta um envelope. Hum! Pelo volume parecia algo substancial. Nada de contas e contas a pagar. Tomei-o em minhas mãos e logo percebi que a remetente era a minha grande amiga Sarah Munck, poetisa das melhores. Curiosa, abri o envelope e me deparei com o livro ‘A verdade nos seres’, de Daniel Marchi. Folheei e li a dedicatória.
Querida Laura,
Tenho certeza de que estes poemas chegarão a você em momento apropriado.
Da sua amiga,
Sarah Munck
Não quis parecer muito interessada a princípio, já que acabara de ter rusgas com o meu amor de longa data. Entretanto, como quem não quer nada, peguei o Daniel e o levei para meu quarto, onde passei a noite inteira tentando decifrá-lo. Se me sinto culpada por isso? Hum! Quem mandou o Carlos ficar do lado do Aurélio?
Eduardo Martínez
Conchas e o mar adentro
Ella Dominici: Poema ‘Conchas e o mar adentro’


conchas esmagadas em sofrido aperto
contritas consternadas pelo vento
constantes sopros desmesurados
neste amor que une graciosas pérolas
rochas com a sedimentação dos tempos
águas colam enquanto passam argolas
adentrando os montes pelas grutas
choro nas paredes lágrimas nos tetos
nas lástimas me inundo em lago interno
dentro vigora azul profundo água-estéril
pinga-pinga de arbustos-folhas-sacras
ondas desiguais do mar na praia
estrondos violência em sons espetaculares
como o mar se comporta mediante
Impassibilidade das rochas
recontam o amor louco e estupendo
em tuas rochas abres fenda e adentro
enquanto mar no ímpeto
Ella Dominici
A batalha
Bruno Marquês Areno: Conto ‘A batalha’


O cheiro do lixo misturava-se com o da roupa húmida, do peixe podre e da lenha mal queimada, um caldo de miséria que o ar se recusava a dispersar, talvez por pena, talvez por costume, e o bairro inteiro respirava aquilo como quem já não sabe distinguir o que é fora e o que é dentro, porque há muito o ar das pessoas se parece com o ar das ruas.
As moscas faziam carreira entre os sacos plásticos rasgados, pousavam no tomate esmagado, na xima fria, na pele dos que dormem de barriga vazia, e voltavam a voar, incansáveis, como se também tivessem fome e destino.
O chão, esse, era barro vermelho, cacos, e cada passo nu deixava atrás de si um rasto de lama e sobrevivência, que é o mesmo que dizer: vida teimosa.
Mano Gito, doze anos contados com má vontade do tempo, parecia ter oito, e talvez fosse o tempo, mais do que a fome, quem o roía por dentro. Era só osso e olho, o peito seco de quem já chorou tanto que desaprendeu o gesto, e no estômago, um batuque fundo, que não era fome, era protesto, era grito que não encontrou boca.
Na mão levava um naco de pão duro, herança da generosidade involuntária da padaria do tio Balta, onde os miúdos aprendem cedo que a esperança é paciente, mas não eterna.
Levou o pão à boca com olhos de quem rouba o próprio destino, rápido, quase pedindo desculpa, como se o mundo o observasse e esperasse o momento certo para lhe tirar o pouco que tem, e tirou.
Um cão saltou das sombras, e o que dizer dele, senão que era um cão como tantos, sem nome, sem dono, com mais cicatriz do que pelo, com olhos fundos, secos, dois caroços de manga deixados ao sol, e o focinho coberto de terra e baba. Agarrou o pão com a fúria de quem já não acredita em justiça, e o Gito, primeiro espanto, depois raiva, depois lágrimas, gritou o que gritam os que não têm mais nada, um simples não, palavra pequena demais para conter tanta miséria.
Atirou-se ao cão. Rolaram na lama, o cão rosnava, o rapaz empurrava, arranhava, tentava abrir com as mãos pequenas a boca que o destino fechara. O cão lutava, mas não mordeu, e talvez soubesse, nas profundezas da sua fome, que aquele miúdo era mais bicho do que ele.
Então o Gito fez o que ninguém, nem Deus, esperava: mordeu o cão. Sim, cravou os dentes no pescoço do animal, como quem decide ser fera para não morrer homem. Sentiu o pelo, o sangue, o sal e o amargo, e por um instante quis cuspir, mas não cuspiu, porque o que é que se cospe quando o mundo inteiro está dentro da boca? O cão uivou, não apenas de dor, mas de espanto, porque até os animais têm o seu código, e naquele código estava escrito que só os homens mordem com vergonha.
O pão caiu, ficou entre os dois, sujo de lama, a tremer como se tivesse medo de ser escolhido.
O cão recuou, lambeu a ferida e desapareceu, sem ódio, sem ruído, talvez com respeito, talvez com cansaço, e o silêncio que ficou pesava mais do que qualquer fome.
Gito ficou parado, trémulo, os lábios vermelhos, as mãos suspensas, e o pão ali, tão perto e tão distante, porque há coisas que, depois de feitas, já não se tocam. Não sabia se o pão estava sujo demais ou sagrado demais, e talvez fosse as duas coisas, porque naquele instante aprendeu o que ninguém lhe ensinara, que há fomes que nem Deus se atreve a contrariar, e que, às vezes, sobreviver é o pecado mais puro que um homem pode cometer.
Bruno Marquês Areno
O preço da liberdade
Paulo Siuves: Conto ‘O Preço da Liberdade’

Nem toda história nasce de uma ideia que insiste enquanto estamos deitados, olhando o teto. Algumas chegam de fora, quase por engano, e ficam. Este conto veio assim. Eu o encontrei já contado, mas malcuidado, atravessado pela pressa. Havia algo ali que me incomodou — e não era a história, era a forma. Então fiz o que pude: fiquei com o que pulsava e deixei o resto cair. Não sei dizer se o reescrevi ou se apenas o acompanhei até um lugar mais silencioso. Sei apenas que, ao final, ele já não me parecia novo — parecia antigo. E talvez por isso tenha ficado.
Vamos ao conto.
Um sultão ouviu dizer que havia, no mercado, uma escrava cujo preço excedia o de cem outras. Intrigado, mandou chamar o mercador responsável pela venda.
— Por que pedes tanto por uma só mulher? — perguntou. — Que qualidade justificaria tal valor?
O mercador respondeu com cuidado, escolhendo as palavras:
— Majestade, dizem que essa mulher carrega algo raro. Pensa antes de falar e fala apenas quando é necessário. Há quem diga que, ao ouvi-la, se aprende mais do que se espera.
O sultão permaneceu em silêncio por um instante.
— Traga-a — ordenou.
Quando a escrava entrou no salão, manteve o olhar baixo apenas o suficiente para cumprir o protocolo. Parou diante dele com uma dignidade incomum àquele lugar. Não havia pressa em seus gestos, nem temor visível em seu corpo.
O sultão observou-a longamente.
— Dizem que há em ti algo que não se mede com moedas — disse. — Veremos.
Fez então a proposta:
— Far-te-ei uma pergunta. Se responderes de modo que me convença, conceder-te-ei a liberdade. Caso contrário, morrerás.
Diz-me: qual é a roupa mais bonita, o perfume mais agradável, a comida mais deliciosa, a cama mais macia e o país mais bonito?
Ela permaneceu em silêncio por um instante. Não era hesitação. Era cuidado.
Depois, respondeu:
— A roupa mais bonita — disse — é aquela que preserva a dignidade de quem a veste. É como a honestidade: não se rasga, não envelhece e sempre enfeita quem se cobre com ela.
Pausou. Olhou para o sultão com firmeza e continuou:
— O perfume mais agradável é o que não anuncia quem chega, mas permanece depois que a pessoa se vai. É como o perdão, que espalha suavidade até mesmo entre inimigos.
Ela pousou a mão sobre o estômago, respirou fundo e prosseguiu:
— A comida mais deliciosa é a que se reparte, porque o sabor cresce quando há outro à mesa. Assim é a sabedoria: alimenta a alma e jamais se esgota.
Abrandou o tom da voz.
— A cama mais macia é aquela onde se dorme com a consciência em paz. Nela, o sono vem sem ser chamado e não há sobressaltos durante a noite.
Por fim, ergueu os ombros e, com o olhar firme, concluiu:
— E o país mais bonito é aquele onde um ser humano não é comprado nem vendido, onde ninguém teme dizer a verdade.
O sultão não respondeu de imediato.
— Pedi coisas que costumam ser escolhidas — disse por fim. — E tu me falaste de estados que não se escolhem com facilidade.
Levantou-se. Caminhou pelo salão. As sedas acompanhavam seus passos, e os anéis pesavam nos dedos.
— Tenho roupas raras.
Perfumes trazidos de longe.
Mesas sempre servidas.
Leitos onde o corpo descansa.
Parou diante dela.
— Ainda assim, não sei onde repousa o que mais me escapa.
Fez um gesto breve. Os guardas soltaram os grilhões.
— Vai.
A escrava inclinou levemente a cabeça e partiu. O sultão permaneceu ali, cercado de ouro, sedas e poder.
Tudo continuava em seu lugar. Ainda assim, sentiu que algo se deslocara — não nos mapas, nem nos cofres, mas em um ponto impreciso onde costumava repousar a certeza.

