Um liame entre Táxi Driver e o Homem do Subsolo, de Dostoiévski

CINEMA EM TELA

Marcus Hemerly

‘Um liame entre Táxi Driver e o Homem do Subsolo, de Dostoiévski’

Card da coluna Cinema em Tela - Um liame entre Táxi Driver e o Homem do Subsolo, de Dostoiévbski
Card da coluna Cinema em Tela – Um liame entre Táxi Driver e o Homem do Subsolo, de Dostoiévbski

O personagem de Robert De Niro em Taxi Driver (1976), o atordoado Travis Bickle, em seu estilo de narrativa voice-over, gravita como um autômato, e, ao mesmo tempo, completamente integrado — em seu desintegrar — em relação à metrópole. Enquanto verte suas concepções — até mesmo poder-se-ia dizer, delírios — acerca de sociedade, valores morais, ainda que distorcidos, sua função no mundo a partir do plano utilitarista, o motorista traça um ideário sobre si e quanto ao mundo. Inquietações catalisadas e concomitantemente diluídas entre os prédios da cidade, que figura como personagem de igual modo vivaz em sua inércia. Imperioso traçar um paralelo com a novela Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), na qual seu protagonista inominado, no introito da obra – o Subsolo – assim como Travis dirigindo seu táxi em meio a seus rompantes filosóficos notívagos, tece uma série de teses críticas acerca do conceito de construção social, do elemento humano e de seu papel nas organizações humanas. Um quê de reflexão sociológica, moral ou imoral, e de igual sorte existencial, é notado no discurso do Homem do Subsolo, como se convencionou chamá-lo. 

Nessa primeira parte do livro, de forma similar às cenas iniciais do filme, o personagem se apresenta, seja a partir de suas visões sobre a coletividade e sua decadência moral, seja a partir de sua atuação como elemento daquela sociedade. O Homem do Subsolo, de Memórias (1864), e Travis Bickle, de Taxi Driver (1976), dirigido pelo cineasta Martin Scorsese, compartilham um viés existencial marcado pela hiperconsciência, realismo cru sobre a decadência humana e crítica feroz à sociedade, culminando em insurgência social e conflito interno autodestrutivo. De forma relevada, a sátira irônica é moldada de forma sofisticada dentro de uma roupagem filosófica díspar dos demais romances do Russo, a título de exemplo, citamos o forte Gente Pobre que assente a característica realista.

No segundo plano da trama, intitulado “A propósito da neve molhada”, o personagem interage com outros elementos do enredo, quase pondo em prática suas teses, em uma autoanálise distorcida que, ao final, se revela catártica. Há um imbricamento entre o “eu” e o “outro”, o sujeito e sua subjetividade, como um indivíduo composto de valores e ações que, não raro, se contradizem. A evolução do ex-funcionário público, robótico e frustrado – impossível não lembrar do escriturário Bartleby, de Herman Melville – que amargurado, traduz o rebelde com causa, entoando “o homem, as vezes, ama terrivelmente o sofrimento, ama-o até a paixão, isto é um fato”.

Na película, acompanhamos o deambular do personagem de De Niro pelo submundo nova-iorquino. Entre prostitutas, cafetões, cinemas pornográficos, cafés 24 horas e traficantes de armas, levando todo tipo de passageiro em meio ao trânsito sempre caótico, tal como sua mente em perene ebulição. Em sua visão enevoada da realidade, ele idealiza, ainda que sem qualquer substrato fático, a pureza retratada na prostituta Iris, interpretada por Jodie Foster em um de seus primeiros papéis no cinema, e se vê como um baluarte heroico que irá salvá-la de sua agônica realidade. Divagações — (falsas?) percepções de seus derredores, nuances equivocadas entre significado e significante — fazem com que o personagem justifique a si próprio o frenesi violento que encerrá o iminente embate com os vilões, tão reais quanto imaginários. Enquanto evolui sua persona rumo ao plano concebido como uma libertação de seu cotidiano, Travis tenta um romance frustrado com a personagem de Cybill Shepherd, que trabalha como voluntária na campanha de um candidato às primárias presidenciais, Charles Palantine. Inicialmente, louvado pelo taxista solitário, mas que, após o rompimento de quaisquer chances com a moça — de igual modo idealizada —, transfigura suas frustrações na figura do candidato, transformando-o em seu nêmesis não correspondido, por assim dizer. Já foi dito que a celebrada obra de Martin Scorsese, escrita pelo brilhante Paul Schrader em um roteiro então quase autobiográfico, narra o próprio enlouquecimento de um indivíduo. Mas que tipo de enlouquecimento?

Em meio à insanidade, muitas vezes encontra-se a lucidez. Nessa linha de ideia, a personagem central — que podemos até chamar de anti-herói —, tratada em Memórias do Subsolo, sempre anseia por sua inserção social bem-sucedida, em meio ao próprio núcleo de pares a respeito dos quais lança críticas. Gravita aos extremos da mal contida subserviência instintiva, ao mesmo tempo em que nada em sua própria torrente de insurgência, distribuindo agressões, ironias e ataques verborrágicos àqueles cuja companhia e igualdade são ideadas/cobiçadas. 

E, ao fim da novela, o elemento do subsolo, o desajustado — remetendo ao próprio Travis —, apaixona-se ou se autossugestiona uma atração sentimental em relação à prostituta Liza, uma espécie de Sônia de Crime e Castigo, talvez nela vendo o reflexo de si próprio, como um elemento díspar entre o rebanho. Ainda que repudie veementemente aquela pecha. Se as conturbações interiores servem de matéria-prima à arte em todas as suas derivações, no contexto das duas obras citadas, filme e livro, é perceptível que tal vetor ganha mais robustez quando paralelizado ao senso de não pertencimento. Travis em sua narrativa sobreposta, descreve-se “a solidão me acompanha por toda a vida, em todos os lugares. Em bares, em carros, calçadas, lojas, em todo lugar. Não há escapatória. Sou o homem solitário de Deus”.

Sua insatisfação não diagnosticada deflagra uma odisseia investigativa de aprovação e desaprovação quando dirigidas as demãos seres, em forma de espelhamento, ainda que a explicação resida apenas em seu subconsciente. Ambos os personagens habitam um “subsolo” psicológico de isolamento existencial, onde a consciência, ou sua distorção hiperbólica paralisa a ação e gera prazer na própria ruína. O narrador de Dostoiévski reflete sobre o absurdo da existência, rejeitando racionalismos utilitaristas em favor de uma liberdade irracional e autodestrutiva, enquanto Travis vaga pelas ruas de Nova York em uma “cápsula existencial” de táxi, acumulando desgosto em diários obsessivos. Essa solidão não é passiva, mas corrosiva, transformando o mundo em espelho de suas falhas internas. 

Os dois traçam um retrato realista e impiedoso da degradação social, e como tal modus vivendi emoldura e condiciona seu pensar e existir. São Petersburgo úmida e sufocada para o Homem do Subsolo, e Nova York decadente, suja e imoral para Travis. Eles criticam a vulgaridade alheia com superioridade ressentida, vendo a sociedade como podre e indigna, mas projetam nela suas próprias ambiguidades recalcadas. Essa visão extremista de julgamentos morais solitários, lastreia a insurgência como explosão de uma tensão interna irresolúvel. O Eros, ou seja, o que falta, é o desejo de reconhecimento indo de encontro ao ódio à vulnerabilidade, levando a atos violentos ou humilhantes.

Trata-se em verdade, da eterna mágoa interna que se exterioriza ontra todos, flertando com a visão neurótico das cercanias sociais. Travis age como justiceiro autoproclamado, “purificando” a cidade, enquanto o narrador falha em conexões como com Liza, sabotando-as por crueldade; novamente direcionadas a si a a outrem. Ironicamente, ambos ganham “recompensa” ilusória — o narrador persiste na confissão, Travis é heróiizado —, revelando o ciclo vicioso de ilusão como forma, reitere-se, de autoengano e mecanismo de defesa psíquica. Enquanto que ao “salvar” a jovem Iris, Travis vira o herói que pretendia ser, mesmo que de outra forma, o Homem dos recônditos ratifica o que é sem querer ser, o anti-herói amargurado, sem a catarse que aguardava como se fosse seu direito.

Decerto, os Travis e o Homem Subterrâneo, igualmente fascinantes, também partilham outro ponto comum, a verve turbulenta da irresignação e o bálsamo ilusório que repousa na fantasia. Percebemos que ambos os homens pertencem de forma indissociável ao “subsolo”, ainda que iluminados pela luz do dia ou da noite; nas estrelas que atravessam a bruma russa ou no retrovisor de um taxi. O que muda é o contexto de sua busca, contudo, sem ponto de chegada.

Marcus Hemerly

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Teu sorriso combina com a vida

Ismaél Wandalika: ‘Teu sorriso combina com a vida’

Soldado Wandalika
Soldado Wandalika
Imagem crfiada por IA do Grok - 23 de janeiro de 2026, às 06:13 PM - https://grok.com/imagine/post/f07334c5-7ece-41be-b76d-649b2ef02f26
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Entoa poesia melódica, celebra mais um dia
A vida inspira poetas na via, tira da linha toda malícia
Agulha afia o som que consome a fome dos homens
No imo das mulheres, acelera a palavra dá a luz ao prazer

Viver
Fazer
To live, to see
A vida ensina aos pobres, versos que enriquecem o dinheiro que embriaga a caneta da dança!

Teu sorriso combina com a vida
Teu sorriso combina com o amor
Teu sorriso é perfeito para o livro na capa
Teu sorriso humilha a dor.

Soldado Wandalika

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Abóboda celeste

Marli Freitas: Poema ‘Abóboda celeste’

Marli Freitas
Marli Fraitas
Imagem de Domínio Público - 21 de janeiro de 2026, às 10h31 - https://share.google/images/DzL1t9eFdoGARIsU6
Imagem de Domínio Público – 21 de janeiro de 2026, às 10h31 https://share.google/images/DzL1t9eFdoGARIsU6

Dócil colóquio – ágora notório.
Guardo inviolado o momento
Do espanto de possuir o mistério
De todas as estrelas do firmamento.

Minha abstração não tem limites,
Tem a graça de milhões de anos.
Na abóboda celeste – o deleite;
Querência e afeto – soberanos.

Tudo que fazemos se mistura
À beleza do mundo e costura
Versos que consagram a ventura.

Se somos poeira, também a euforia
Do destino; se somos epifania,
Para o milagre da Terra – alegria.

Marli Freitas

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Mentes conscientes, vidas saudáveis

Márcia Nàscimento

‘Mentes conscientes, vidas saudáveis: a neuroeducação como caminho para a saúde mental’

Márcia Nàscimento
Márcia Nàscimento
Imagem crfiada por IA do Gimini - 21 de janeiro de 2026, às 12:03 PM
Imagem crfiada por IA do Gimini – 21 de janeiro de 2026, às 12:03 PM

Na história da humanidade, jamais se viveu um período de tamanha desconexão. Embora o universo digital conecte seres humanos de um país a outro em questão de segundos, o vazio existencial que assola a humanidade na atualidade revela-se avassalador.

As pessoas buscam freneticamente saciar o âmago de seus seres por meio de experiências efêmeras e, muitas vezes, funestas, que conduzem a mente a um estado profundamente fragilizado no que tange ao equilíbrio dos sentimentos e das emoções. Torna-se, portanto, imprescindível uma tomada de consciência para a conquista de uma vida saudável, pois toda e qualquer mudança nasce do princípio de escolhas assertivas, iniciadas desde o primeiro pensamento ao despertar e conduzidas, sucessivamente, ao longo do dia.

Infelizmente, diante do excesso de informações disponibilizadas em velocidade vertiginosa, a mente humana acaba apenas absorvendo dados, sem transformá-los em conhecimento e sabedoria. Isso ocorre pela dificuldade de filtrar, analisar e aprofundar-se naquilo que, de fato, convém ser investigado em uma dimensão mais ampla de entendimento e de realidade.

A Neuroeducação apresenta-se, assim, como um caminho para aqueles que buscam o ponto de equilíbrio entre a saúde física e mental. Por meio de uma pesquisa derivacional, conduzimos o indivíduo a compreender os princípios causais de sua dor e, a partir desse entendimento, ressignificamos sua história de vida. Esse processo o retira de um estado limitador e o conduz a um patamar amplamente possibilitador, permitindo-lhe reconhecer quem verdadeiramente é neste planeta.

Compreender a si mesmo, desenvolver a capacidade de enxergar a própria existência sob a luz de uma consciência expandida e alinhada à verdade do ser é o alicerce de uma vida equilibrada e feliz. Uma vida permeada por sonhos reais, e não por promessas infaustas que levam o indivíduo a se desconectar de sua própria realidade e, em seguida, a frustrar-se por tentar viver expectativas idealizadas por outros.
Por isso, é tão essencial conhecer a verdade sobre si mesmo: identificar aquilo que o move com paixão genuína, reconhecer o verdadeiro propósito de sua trajetória existencial e, a partir disso, alcançar a plenitude em todas as dimensões que compõem a mente, a consciência e o corpo físico.

Ter uma mente saudável também é uma decisão!

É a decisão de não aceitar tudo como uma verdade absoluta, de não permitir que regras externas ditem sua realidade sem análise e discernimento. O acesso ao seu reino interior está sob o seu controle. Portanto, não permita que sua saúde mental seja abalada por não exercer a liderança plena sobre sua mente consciente.

Márcia Nascimento

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Palavras clínicas

Loide Afonso: Poema ‘Palavras clínicas’

Loid Portugal
Loid Portugal
Imagem criada por IA da Meta - 21 de janeiro de 2026,  às 08:17 PM
Imagem criada por IA da Meta – 21 de janeiro de 2026,
às 08:17 PM

Ainda não sei
O que dizer
Pra o mundo
Quando de ti
Perguntarem

Não faço a mínima ideia
Do que dizer
Pra mim
Na hora de dormir

Minha boca
Meus olhos
Minha pele
Não sei o que
Responder
Pra todos eles

Poxa! Penso em me calar.
De ti
Nunca mais falar
Olhar
Ou pensar

Mas o meu mundo mal sabe
O que eu sentia
Todas as vezes que me dizias, sou teu.

Loid Portugal

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A prostituta ressuscitada

Ramos António Amine: ‘A prostituta ressuscitada’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem criada por IA do Grok - 21 de janeiro de 2021, às 07:45 PM - https://grok.com/imagine/post/80c83328-2e66-4bc9-8a23-f5c0d2bef7ab
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A sociedade foi programada para dar respostas rápidas a problemas complexos. Rotular alguém de prostituta tornou-se, ao longo do tempo, uma dessas respostas fáceis, uma forma insípida de encerrar qualquer debate sobre injustiça, estupros precoces, desigualdade, pobreza, violência e exclusão social. O rótulo basta. O contexto histórico deixa de importar.

A prostituta ocupa um lugar tão trivial quanto contraditório na ordem social. É visível, mas não reconhecida; abusada, mas descartada; tolerada na prática, condenada no discurso. Ela denuncia aquilo que muitos preferem ignorar: a decadência de um sistema que cria fossos e depois pune quem cai neles.

Ninguém ousa questionar como ela chegou ali. A pergunta que vem à tona é sempre por que não sai. Como se sair fosse apenas uma questão de vontade e não de oportunidades. Como se as oportunidades fossem distribuídas de forma justa. Como se a pobreza não fosse o gatilho diário que empurra milhares de mulheres para decisões que nunca escolheram plenamente.

A prostituta é imediatamente concebida como símbolo de decadência moral. Entretanto, a verdadeira decadência revela-se na hipocrisia social que absolve o cliente e condena a prostituta; que beija em surdina a boca da prostituta, mas a julga em voz alta. Nesse cenário, a prostituição nunca é causa, mas corolário de um mundo que preferiu vender tudo, inclusive a dignidade humana.

É nesse ponto que se dá a ressurreição.

A prostituta ressuscita quando cansa de ser apenas produto e passa a ser voz. Quando reconhece que há um sistema que a empurrou para a quinta dos ímpios e deixa de ser mero objeto de excitação ou repulsa dos próprios ímpios. Ressuscita quando descobre que a vergonha que lhe cobre o rosto nunca foi criação sua, mas obra de uma sociedade incapaz de assumir as próprias incoerências.

Essa ressurreição nada tem a ver com religião, muito menos com mito. É social e política. É o renascer de uma consciência que, ao longo do tempo, foi mantida refém de uma estrutura que sobreviveu do silêncio cúmplice. É a recusa em carregar sozinha o peso da culpa de uma autoridade que aplaude a exclusão e, depois, condena os seus efeitos para deles se afastar.

Em essência, a prostituta nunca esteve morta. Morta estava a sensibilidade coletiva que escolheu condená-la sem compreender a sua história. Morta estava a ética que exige pureza e inocência de quem nunca teve escolhas, enquanto normaliza a corrupção moral de quem pode pagar para sugar as tetas da prostituta.

A prostituta ressuscitada não pede salvação. Solicita humanidade. E, ao fazê-lo, interpela-nos com uma pergunta desconfortável, mas necessária: quem, afinal, precisa de salvação: ela ou a sociedade que a forjou?

Ramos António Amine

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Para sempre?

Evani Rocha: Poema ‘Para sempre?’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem gerada por IA da Gencraft – 20 de janeiro de 2026,
às 08:50

Para sempre?

É essa pergunta presa na garganta,

É a falta de palavras para explicar…

São as borboletas que brotam no estômago

Na iminência de voar!

Para sempre?

É somente até ali na esquina,

São os versos que brotam sem avisar,

Quando a gente pensa que nunca mais…

Para sempre…?

E o que fazer com as brasas na alma

Que a qualquer vento, reacendem?

E os olhos que se perdem no horizonte

A procura de algo…?

‘Sempre’ é essa procura fora,

Daquilo que se esconde dentro!

‘Sempre” é essa fé gigante,

Que faz das pedras, escadas,

E das águas que lavam a face,

Um riacho doce

Cascateando ao encontro do mar!

Evani Rocha

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