Marta OliveriImagem criada por IA da Meta – 20 de janeiro de 2026, às 10:27 PM
I He calculado el rumbo de los pájaros lágrimas azules rocían el plumaje son restos de un diluvio que jamás ha pasado
he mirado mis manos vacías y mis hombros doliendo de alas truncas supe de lo finito en las fosas de los días, en el temblor de una joven después de la golpiza, abrazando su orfandad en su niño aún no nacido
sé de que se trata esta esta larga pesadilla, este infierno aún más duro que el mítico y dantesco de azufre y la bestia dominando su centro
por que este lo hicimos con perversa cordura con el frío talento que da el miedo con el fantasma corporal de nuestra muerte
y estamos en el límite en la zona de clivaje de la esfera en el punto final de nuestra furia camuflada en hábitos,desdén o parsimonia
ya no hay ángeles pacíficos. sobre cada templo se erige el cristo de la furia el cristo visceral que agobiado del cáliz tan amargo del mundo abdicó en un sueño de cruz y sacrificio ll Y Aquí en este territorio al sur del mundo “Isla de cristos solos” descansa el genocida en su atlántica mansión con treinta mil fantasmas que que mira de soslayo aquí donde condenan a un hombre moribundo negándole la visa a la esperanza
aquí donde golpean a los débiles degustando el contraste animal fuerza impune aseverando la mentira en la cúspide del gran mito imperial del dios plutócrata.
III En qué punto del espacio queda el cielo o al menos la metáfora del cielo, ciertamente muy lejos del esplendor soñado y más lejos aún del acaecido.
He calculado el rumbo de los pájaros … es el punto de fuga de lo que no retorna.
Renata BarcellosJairo Fará e Renata Barcellos – Foto por Renata Barcellos
Minicurrículo: Jairo Faria Mendes (Jairo Fará): escritor, artista visual, jornalista e professor do Curso de Jornalismo da UFSJ. Pós-doutor em Jornalismo pela Universidade de Coimbra (Portugal) e em Comunicação Social pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). Autor de livros sobre jornalismo como O Ombudsman e o Leitor (O Lutador, 2001), Minas Impressas (Literíssima, 2023) e Barão de Itararé: Riso é Resistência (Literíssima, 2024), além de obras literárias como Cidadezinha Biruta (Literatura infantil, Páginas, 2019), O Ovo do Minerim (poesia, Jararaca Books, 2011), Livro de Bolso (livro-objeto, 2014), Minas são Moitas (microlivro, 2024), Trégua e Paz (microlivro, 2025), Passe pela Catraca (poesia, Literíssima, 2026) de peças teatrais, roteiros e participações em inúmeras coletâneas.
Em 2022, lançou o CD de música e poesia Outras Esquinas (em parceria com Vaninho Vieira). Encontra-se com muitos projetos na gaveta e nos pensamentos, mas prefere viajar no mundo da poesia.
A partir da produção de Jairo Fará e da análise de seus textos, constatamos tratar-se de um artista multifacetado. Ao analisar sua produção, visualizamos como ele reordena as letras e as constituem em outros termos. Ele imprime cor em seus textos, seja no sentido real, seja no figurado. Utiliza o recurso do humor e aborda temáticas artísticas, literárias, sociais… O “olhos de águia” (como o caracterizaremos a partir da análise de sua obra), verificamos como explora as suas inúmeras possibilidades (orais e escritas) e de imagens, de modo que as linguagens verbal e icônica se complementem. Com muita técnica, ele utiliza os mais variados suportes e meios de difusão. Assim, criando suas surpreendentes soluções de apresentação da poesia.
O termo poesia experimental (nome que se dá a toda e qualquer forma de poesia moderna que utiliza recursos fora do texto versificado tradicional, aquele tipo de escrita que se ligava a um mundo em desaparecimento, ou, ao menos, em transformação) se desenvolveu por dois caminhos: da poesia sonora e o da poesia visual. Esta englobou todas as formas de recursos gráficos que a poesia moderna havia incorporado, enquanto a poesia sonora reuniu em seu interior todos os tipos de trabalhos com o som que os movimentos poéticos modernos tinham produzido. (MENEZES, 1998, p.15).
De acordo com E. M. de Melo e Castro (1993), a poesia visual aparece de uma forma consistente quatro vezes na história da arte ocidental: durante o período alexandrino, na renascença carolíngea, no período barroco e no século XX. Datando de 300 anos antes de Cristo e realizadas na Alexandria, as tecnofanias3 de Sírnias de Rodes constituem os primeiros poemas visuais conhecidos. São elas: “O Machado”, “As Asas” e “O Ovo”.
Quem é Jairo Fará? O que é Poesia Visual? Qual a relevância deste poeta? São perguntas que você, leitor, deve estar se fazendo… O que podemos lhe advertir: cuidado, você corre o risco de ter seu olhar extasiado com as múltiplas linguagens exploradas e, por consequência, seus olhos queiram percorrer as várias esferas da Poesia Visual deste poeta. Não hesite!!! Alumbre-se!!!
Uma característica própria da Poesia Visual é o hibridismo entre linguagem verbal e icônica e de gêneros textuais. A partir disso, a polêmica: qual o limite dos gêneros textuais? Entre poesia e artes? Segundo Menezes (1991, p.11), quando se pensa em Poesia Visual, devemos associá-la com o espírito de experimentação, ou seja, o desejo de ousar, de utilizar diferentes recursos para compô-la. E isso o poeta domina; a cada trabalho é capaz de surpreender seu leitor de modo diferenciado, como se fosse a primeira vez.
De acordo com Lopes (2007), podemos inferir que o poeta dispõe-se da linguagem como forma de buscar novas expressões, utilizando recursos que possibilitam transgredir a forma tradicional da palavra escrita. O poeta não só explora a linguagem comum, mas também a desvia do uso convencional, transformando-a em uma outra linguagem, a da poesia. O desvio e a transgressão da linguagem são a desverbalização da palavra, um modo de transformá-la em palavra imagética.
Podemos dizer ainda que a experimentação deste autor vai além do aspecto visual que adentra a profundidade do signo. Ele mobiliza elementos da contemporaneidade, dentre eles, a metalinguagem (a linguagem usada para descrever e explicar a própria linguagem, nos seus mais diferentes estilos: gramatical, artístico, musical, informacional etc. A sua poesia explora a capacidade poética por meio de diversos recursos.
Trata-se de uma produção intersemiótica (base linguística relacionada às Artes Visuais), a fim de abordar temáticas diversas em termos de sua consciência crítica e de seu posicionamento na sociedade. Conforme Perrone (2003), a criação intersemiótica é definida como “a interação de signos linguísticos variados: a palavra impressa em múltiplas representações tipográficas e espaciais, o verso ilustrado, o projeto gráfico, a fotografia e a mistura disto tudo”.
Assim, o poeta possibilita o trânsito da poesia por novos espaços, com novos leitores e novos olhares. Sua produção é diferenciada dos outros poetas da mesma vertente de poesia pelo fato de ele apropriar-se da linguagem, de recursos e de suportes na forma singular como leva o leitor ao “espanto”. Sobre isso, conforme Smith, a Poesia Visual é “o espanto do falante perante a própria língua, concretizado em evento estético na frágil fronteira entre percepção óptica e linguística” (1983). Isso em quem lê/vê sua obra devido à forma como desbrava a linguagem em suas múltiplas possibilidades de expressão.
Por fim, a produção poética de Jairo Fará configura-se como um espaço de confluências de diferentes linguagens e formas de veiculação (redes sociais – livro digital – videopoema – exposições – publicações impressas …). O leitor comunga com a poesia e penetra no poema tendo a possibilidade de produzir sentidos diversos e a recriar em outros gêneros textuais. E é esse refazer ou reconstruir poético do leitor que revela o homem reflexivo e criativo no universo disponibilizado pela comunicação.
A Poesia Visual é um espelho de nossa cultura contemporânea e o retrato contundente dos caminhos que a literatura pode trilhar na era tecnológica. Que este ensaio tenha despertado o prazer da leitura e instigado a reflexão sobre os temas aqui abordados!
Dicas de eventos: o poeta visual Jairo Fará está com uma exposição na galeria de arte do Museu Regional de São João del Rei (para quem ainda não conhece a cidade, vale a pena conferir), no período de 10 de dezembro de 2025 a 22 de fevereiro de 2026. Nesta, estão poemas clássicos, que já participaram de várias exposições como o “Poomo”, “Poemaço”, “Meia Homenagem a Drummond” e “Cuidado com o Não”. E poemas mais recentes como “Minifúndio”, “O Pregador”, “Poema Não Objeto” e “Papelão Social”. A exposição já recebeu mais de 2 mil visitas, em pouco mais de um mês. Um destaque é o poema-interativo “Poetize Aqui”, um mapa do Brasil em tamanho A2, no qual os visitantes escrevem seus poemas ou suas ideias.
E o lançamento do livro “Passe pela Catraca”. Este ocorrerá dia 7 de fevereiro, na Casa Literíssima, em BH. O livro está sendo produzido pela Editora Literíssima, sem custo nenhum para o autor. Por enquanto, está ocorrendo a pré-venda. E em São João del Rei, será lançado dia 25 de fevereiro, na Taberna do Omar. Nos dois lançamentos, os poetas presentes poderão ler seus poemas. O livro é o resultado dos últimos 15 anos de trabalho do poeta Jairo Fará. São 80 páginas coloridas, com poemas visuais, poemas verbais e textos de prosa poética.
Eventos de arte e literatura de grande repercussão no Brasil
Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho
‘Eventos de arte e literatura de grande repercussão no Brasil: processos históricos, identidade nacional e construção da modernidade cultural’
Dom Alexandre Rurikovich CarvalhoA imagem representa a diversidade da arte e da literatura brasileiras ao longo do tempo, reunindo movimentos e eventos culturais marcantes. A composição simboliza o diálogo permanente entre tradição, inovação e identidade nacional. Imagem criada por IA do ChatGPT
Resumo
A Semana de Arte Moderna de 1922 ocupa lugar central na historiografia cultural brasileira, sendo tradicionalmente apresentada como marco fundador da modernidade artística nacional. Entretanto, essa centralidade tende a ocultar a complexidade do processo histórico que antecedeu e sucedeu tal evento. O presente artigo tem como objetivo analisar os principais acontecimentos de arte e literatura de grande repercussão no Brasil, desde o século XIX até o período contemporâneo, demonstrando que a formação da cultura brasileira resulta de uma longa trajetória de debates intelectuais, instituições, movimentos estéticos e eventos culturais.
A pesquisa fundamenta-se em revisão bibliográfica de autores clássicos da crítica literária, da história cultural e da sociologia da cultura, evidenciando que a modernidade artística brasileira é fruto de continuidades, rupturas e reinterpretações sucessivas. Conclui-se que a Semana de 1922 deve ser compreendida não como ponto inaugural, mas como momento de inflexão dentro de um processo histórico amplo e plural.
Palavras-Chave: Literatura brasileira. Arte brasileira. Modernismo. Identidade nacional. História cultural.
Abstract
The Week of Modern Art of 1922 holds a central position in Brazilian cultural historiography and is traditionally presented as the founding landmark of national artistic modernity. However, such centrality tends to obscure the complexity of the historical process that preceded and followed this event. This article aims to analyze the main artistic and literary events of great repercussion in Brazil from the nineteenth century to the contemporary period, demonstrating that Brazilian cultural formation results from a long trajectory of intellectual debates, institutions, aesthetic movements, and cultural events. The study is based on a bibliographic review of classical authors in literary criticism, cultural history, and sociology of culture. It is concluded that the 1922 Week should be understood not as an inaugural point, but as a moment of inflection within a broad and plural historical process.
Keywords: Brazilian literature. Brazilian art. Modernism. National identity. Cultural history.
1 Introdução
A constituição da arte e da literatura brasileiras esteve historicamente vinculada à busca pela definição de uma identidade nacional. Desde o processo de Independência, em 1822, intelectuais passaram a questionar o papel da cultura como elemento de legitimação política, simbólica e social do novo Estado.
Ao longo do tempo, diversos acontecimentos artísticos e literários marcaram esse percurso, assumindo diferentes formas: fundação de instituições, realização de eventos públicos, publicação de manifestos, congressos regionais, exposições de arte e movimentos literários organizados. Nesse contexto, a Semana de Arte Moderna de 1922 tornou-se o episódio mais difundido, frequentemente tratada como marco fundador da modernidade brasileira.
Entretanto, conforme observa Antonio Candido (2000), a literatura não se forma por rupturas absolutas, mas por processos históricos cumulativos. Assim, compreender a cultura brasileira exige analisar os eventos que precederam e sucederam 1922, reconhecendo a complexidade das forças sociais, políticas e estéticas envolvidas.
Este artigo propõe uma abordagem historiográfica ampla, examinando os principais eventos de arte e literatura de grande repercussão no Brasil, do século XIX à contemporaneidade, buscando compreender sua contribuição para a consolidação da modernidade cultural brasileira.
2 Instituições culturais e a formação do pensamento nacional no século XIX
A consolidação da arte e da literatura brasileiras no século XIX esteve profundamente vinculada ao processo de formação do Estado nacional. Após a Independência política, em 1822, emergiu entre os intelectuais brasileiros a necessidade de construir uma identidade cultural capaz de legitimar simbolicamente a nova nação perante si mesma e diante do mundo ocidental.
Nesse contexto, a cultura passou a ser concebida como instrumento estratégico de unificação territorial, coesão social e afirmação política. A literatura, a historiografia e as artes visuais foram mobilizadas como meios de produção de uma memória nacional comum, capaz de articular passado, presente e projeto de futuro. Como observa Antonio Candido (2000), a literatura brasileira não nasce espontaneamente, mas se estrutura a partir de um sistema de relações entre autores, instituições, público leitor e ideologias dominantes.
O século XIX, portanto, constitui o momento inaugural da organização institucional da vida intelectual brasileira, marcado pela criação de academias, revistas literárias, associações científicas e espaços de sociabilidade cultural.
2.1 O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)
Fundado em 1838, durante o período regencial, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) foi a principal instituição responsável pela sistematização do pensamento histórico e cultural do Império. Inspirado em modelos europeus — especialmente no Institut Historique de Paris — o IHGB tinha como finalidade explícita “coligir, metodizar e publicar os documentos necessários à história e à geografia do Brasil”.
Sua criação atendeu a um projeto político mais amplo: a necessidade de legitimar o Estado imperial por meio da construção de uma narrativa histórica unificadora. Segundo Schwarcz (1993), o Instituto atuou como um verdadeiro “laboratório simbólico da nação”, produzindo discursos que reforçavam a ideia de unidade territorial, continuidade histórica e harmonia social.
A atuação do IHGB não se restringiu à historiografia. A instituição tornou-se espaço privilegiado de encontro entre escritores, políticos, juristas e homens de letras, funcionando como núcleo organizador da intelectualidade oitocentista. Nomes como Gonçalves de Magalhães, Francisco Adolfo de Varnhagen, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar estiveram direta ou indiretamente vinculados ao Instituto.
Nesse ambiente, consolidou-se a noção de que a cultura deveria cumprir uma função pedagógica e civilizatória, contribuindo para a formação do “espírito nacional”. A literatura, nesse sentido, passou a ser entendida não apenas como manifestação estética, mas como instrumento de educação moral e política da sociedade.
2.2 O Romantismo brasileiro como projeto cultural do Estado-nação
O Romantismo brasileiro emerge diretamente articulado ao projeto nacional do século XIX. Diferentemente do romantismo europeu, marcado pela reação ao racionalismo iluminista e às transformações industriais, no Brasil o movimento assumiu caráter fundacional.
A publicação de Suspiros Poéticos e Saudades (1836), de Gonçalves de Magalhães, simboliza o início oficial do romantismo no país. A obra, fortemente influenciada pela estética francesa, já indicava a necessidade de uma literatura comprometida com os valores da pátria e da nacionalidade.
Segundo Coutinho (2004), o romantismo brasileiro foi essencialmente um movimento de afirmação cultural, cujo objetivo principal consistia em “inventar simbolicamente o Brasil”. Para isso, os escritores buscaram temas, personagens e paisagens que diferenciassem a produção nacional da literatura europeia.
2.3 Indianismo, natureza e construção simbólica da nacionalidade
Entre as estratégias adotadas pelo romantismo brasileiro, destaca-se o indianismo, que elevou o indígena à condição de herói nacional. A figura do índio, idealizada e romantizada, foi convertida em símbolo de origem e pureza moral, contrapondo-se ao colonizador europeu.
Autores como Gonçalves Dias, com poemas como I-Juca Pirama, e José de Alencar, em romances como O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874), elaboraram um imaginário épico voltado à fundação mítica da nação.
Embora posteriormente criticado por seu caráter idealizante e eurocêntrico, o indianismo desempenhou papel central na consolidação de uma identidade literária própria. Conforme observa Candido (2000), tratava-se menos de representar o indígena real e mais de criar um mito capaz de sustentar simbolicamente a nacionalidade.
Paralelamente, a exaltação da natureza tropical tornou-se elemento recorrente da poesia e da prosa românticas. A paisagem brasileira passou a ser descrita como espaço de grandeza, fertilidade e beleza singular, reforçando a ideia de excepcionalidade do território nacional.
2.4 A imprensa, as revistas literárias e a circulação de ideias
Outro fator decisivo para a consolidação da cultura letrada no século XIX foi o fortalecimento da imprensa. Jornais e revistas literárias tornaram-se espaços fundamentais de divulgação estética, crítica intelectual e debate político.
Periódicos como Niterói – Revista Brasiliense, fundada em Paris por Gonçalves de Magalhães e Araújo Porto-Alegre, tiveram papel decisivo na introdução do romantismo no Brasil. Posteriormente, revistas como Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e diversos jornais literários regionais ampliaram a circulação das ideias românticas.
Esses espaços de publicação contribuíram para a formação de um público leitor e para o estabelecimento de redes intelectuais entre diferentes províncias, fortalecendo o sentimento de pertencimento cultural à nação brasileira.
2.5 Limites e contradições do projeto cultural oitocentista
Apesar de sua importância histórica, o projeto cultural do século XIX apresentava contradições profundas. A identidade nacional construída pelas elites letradas excluía amplos segmentos da população, especialmente negros escravizados, libertos, indígenas reais e camadas populares.
A cultura oficial promovida pelas instituições imperiais privilegiava uma visão idealizada do país, frequentemente silenciando conflitos sociais, desigualdades raciais e tensões políticas. Essa limitação seria posteriormente questionada por movimentos literários posteriores, como o Realismo, o Naturalismo e, sobretudo, o Pré-Modernismo.
Ainda assim, o século XIX foi responsável por lançar as bases estruturais da vida intelectual brasileira, criando instituições, públicos, tradições literárias e modelos interpretativos que permaneceriam ativos ao longo do século XX.
2.6 O legado do século XIX para a modernidade cultural brasileira
A importância das instituições culturais oitocentistas reside no fato de terem organizado o primeiro sistema literário nacional. Conforme define Antonio Candido (2000), somente a partir desse período é possível falar em literatura brasileira enquanto sistema orgânico, dotado de continuidade histórica.
O romantismo, o IHGB, a imprensa literária e os espaços de sociabilidade intelectual constituíram o alicerce sobre o qual se desenvolveriam os movimentos posteriores. O modernismo de 1922, longe de surgir como ruptura absoluta, dialoga criticamente com esse legado, reelaborando suas propostas à luz das transformações sociais do século XX.
Dessa forma, compreender o papel das instituições culturais e do romantismo no século XIX é condição indispensável para interpretar os grandes eventos artísticos e literários que marcaram a história cultural do Brasil.
3 O final do século XIX: transição estética, crise do romantismo e reorganização do pensamento intelectual
O último quartel do século XIX representa um dos períodos mais decisivos da história cultural brasileira. Trata-se de uma fase marcada por profundas transformações políticas, sociais e epistemológicas, que repercutiram diretamente na produção artística e literária. O enfraquecimento do modelo romântico coincidiu com a crise do regime imperial, o avanço das ideias científicas europeias e o surgimento de novas concepções sobre o papel da literatura na sociedade.
Nesse contexto, a cultura brasileira passou por um intenso processo de revisão crítica, caracterizado pela substituição do idealismo romântico por perspectivas fundamentadas no cientificismo, no racionalismo e na observação objetiva da realidade social. Conforme observa Schwarcz (1993), o final do século XIX foi marcado pela tentativa das elites intelectuais de interpretar o país à luz dos paradigmas científicos em voga na Europa.
3.1 A crise do Romantismo e o esgotamento do projeto idealista
A partir da década de 1870, o romantismo brasileiro passou a apresentar sinais evidentes de esgotamento. O distanciamento entre o discurso idealizado da literatura e a realidade social — marcada pela escravidão, pela desigualdade e pela instabilidade política — tornou-se cada vez mais evidente.
O modelo romântico, centrado na exaltação da pátria, do amor ideal e do heroísmo indígena, já não correspondia às demandas de uma sociedade em processo de modernização. O crescimento urbano, o fortalecimento da imprensa, a expansão do ensino superior e o contato mais intenso com a produção intelectual europeia contribuíram para a emergência de novas sensibilidades estéticas.
Esse período assiste, portanto, à transição de uma literatura fundadora para uma literatura crítica, voltada à análise dos mecanismos sociais, políticos e psicológicos que estruturavam a sociedade brasileira.
3.2 As Conferências da Glória e a renovação do debate intelectual
Entre 1873 e 1876, realizaram-se no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, as chamadas Conferências Populares da Glória, consideradas um dos mais importantes eventos culturais do período.
Essas conferências reuniram intelectuais, juristas, escritores e cientistas interessados na divulgação do conhecimento moderno. Entre os participantes estavam Joaquim Nabuco, Tobias Barreto, Sílvio Romero e Machado de Assis.
Os temas abordados incluíam:
positivismo;
evolucionismo darwinista;
crítica literária;
educação;
filosofia;
abolicionismo;
republicanismo.
Segundo Candido (2000), as Conferências da Glória funcionaram como espaço de transição entre a mentalidade romântica e o pensamento moderno, contribuindo decisivamente para a consolidação de uma cultura intelectual mais científica e secularizada.
3.3 O cientificismo e a influência das teorias europeias
O final do século XIX foi profundamente marcado pela recepção das teorias científicas europeias, especialmente:
o positivismo de Auguste Comte;
o evolucionismo de Charles Darwin;
o determinismo de Hippolyte Taine;
o naturalismo de Émile Zola.
Essas correntes influenciaram diretamente a crítica literária e a produção artística brasileira. A literatura passou a ser concebida como instrumento de análise social, subordinada às leis do meio, da raça e do momento histórico.
Tal perspectiva reforçou a crença na ciência como chave interpretativa da realidade nacional, embora frequentemente resultasse em leituras deterministas e racializadas, como aponta Schwarcz (1993).
3.4 Realismo e Naturalismo: novas concepções estéticas
O marco simbólico da virada estética ocorreu em 1881, com a publicação simultânea de duas obras fundamentais:
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis;
O Mulato, de Aluísio Azevedo.
Enquanto o romance de Aluísio Azevedo inaugurava o Naturalismo brasileiro, fortemente influenciado pelo determinismo científico, a obra de Machado de Assis introduzia uma forma singular de realismo crítico, marcada pela ironia, pela ambiguidade e pela análise psicológica.
O Realismo machadiano afastava-se do naturalismo mais ortodoxo ao questionar os próprios limites da razão científica, revelando a complexidade moral e social do indivíduo moderno.
3.5 Machado de Assis e a maturidade da literatura brasileira
A obra de Machado de Assis representa o ponto mais elevado da literatura brasileira no século XIX. Seus romances da fase realista — Quincas Borba, Dom Casmurro e Esaú e Jacó — aprofundam a crítica à sociedade burguesa, às relações de poder e às ilusões do progresso.
Segundo Candido (2000), Machado rompe definitivamente com o modelo pedagógico do romantismo, instaurando uma literatura autônoma, reflexiva e esteticamente madura.
Sua produção marca a consolidação de um sistema literário plenamente desenvolvido, capaz de dialogar em igualdade com as grandes tradições europeias.
3.6 Literatura, abolição e crise do Império
O período final do século XIX foi atravessado por intensos debates políticos, especialmente em torno da abolição da escravidão e da proclamação da República. Muitos escritores engajaram-se diretamente nessas questões.
Autores como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio utilizaram a palavra escrita como instrumento de militância, evidenciando o papel social da literatura como espaço de intervenção pública.
A proximidade entre literatura e política intensificou o caráter crítico da produção intelectual, reforçando a percepção de que a cultura era elemento fundamental na transformação da sociedade brasileira.
3.7 O Simbolismo e a reação ao cientificismo
No final do século XIX, emergiu também o Simbolismo, movimento que representou reação ao excesso de racionalismo do realismo-naturalismo. Influenciado por correntes espiritualistas e estéticas francesas, o simbolismo valorizava a subjetividade, a musicalidade e o mistério.
Autores como Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens introduziram novas possibilidades expressivas à poesia brasileira, ampliando o horizonte estético do período.
Embora menos institucionalizado, o simbolismo desempenhou papel relevante na diversificação da literatura nacional e na transição para a modernidade poética do século XX.
3.8 O legado do final do século XIX para o século XX
O final do século XIX legou à cultura brasileira um conjunto de transformações estruturais fundamentais:
consolidação da crítica literária moderna;
fortalecimento da imprensa e do público leitor;
profissionalização do escritor;
autonomia estética da literatura;
surgimento de uma consciência crítica nacional.
Esse período estabelece as bases intelectuais que permitiriam o surgimento do Pré-Modernismo e, posteriormente, do Modernismo de 1922.
Dessa forma, longe de representar um intervalo entre movimentos, o final do século XIX constitui etapa decisiva na formação da modernidade cultural brasileira, articulando tradição e ruptura em um processo contínuo de reflexão sobre o país.
4 O Pré-Modernismo e a problematização do Brasil
O chamado Pré-Modernismo, compreendido entre 1902 e 1922, não constitui uma escola formal, mas um momento de inflexão crítica. Obras como Os Sertões, de Euclides da Cunha, evidenciaram a existência de múltiplos Brasis, revelando conflitos sociais, regionais e raciais.
Autores como Lima Barreto denunciaram o racismo estrutural e a exclusão social, enquanto Monteiro Lobato problematizou o atraso econômico e cultural do país. Esse conjunto de obras rompeu com a visão idealizada da nação, preparando o terreno para as transformações modernistas.
5 A Semana de Arte Moderna de 1922
A Semana de Arte Moderna, realizada entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, constitui um dos acontecimentos mais emblemáticos da história cultural brasileira. O evento reuniu escritores, artistas plásticos, músicos e intelectuais que defendiam a renovação estética e a ruptura com os padrões acadêmicos vigentes desde o século XIX.
Participaram da Semana nomes centrais do modernismo brasileiro, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Heitor Villa-Lobos. Suas apresentações, exposições e conferências questionaram abertamente o formalismo parnasiano, a rigidez acadêmica e a dependência cultural em relação à Europa.
A proposta modernista fundamentava-se na liberdade de criação, na experimentação formal e na busca por uma linguagem artística capaz de expressar a complexidade da sociedade brasileira em processo de urbanização e industrialização. A incorporação da oralidade, do humor, da fragmentação narrativa e da crítica à tradição constituiu um rompimento significativo com os modelos estéticos anteriores.
Apesar de sua recepção inicial marcada por vaias, críticas e incompreensão do público, a Semana de 1922 estabeleceu um novo horizonte para a arte nacional. Conforme observa Bosi (2006), seu impacto não foi imediato, mas progressivo, consolidando-se sobretudo ao longo da década seguinte por meio da atuação intelectual e editorial de seus participantes.
Além de seu caráter estético, a Semana de Arte Moderna deve ser compreendida como um acontecimento profundamente simbólico, realizado no contexto das comemorações do Centenário da Independência do Brasil. Tal circunstância conferiu ao evento um significado político-cultural ampliado, associando a renovação artística à necessidade de repensar o projeto de nação no início do século XX. Ao propor uma revisão crítica do passado colonial e acadêmico, os modernistas reivindicavam uma cultura capaz de dialogar com a modernidade sem abdicar de suas especificidades históricas e sociais.
Embora sua repercussão imediata tenha permanecido restrita aos círculos intelectuais urbanos — especialmente à elite paulista —, a Semana instaurou um novo paradigma de reflexão sobre a cultura brasileira. Ao legitimar o experimentalismo, a linguagem coloquial e a valorização do cotidiano nacional, o movimento modernista abriu caminho para uma interpretação plural do Brasil, que seria aprofundada nos anos posteriores por meio de manifestos, revistas e novas correntes artísticas.
Desse modo, a Semana de Arte Moderna de 1922 consolidou-se como marco simbólico da modernidade cultural brasileira, não por representar uma ruptura absoluta, mas por catalisar transformações já em curso e projetar novos rumos para a literatura, as artes visuais, a música, a arquitetura e o pensamento social do país.
6 Desdobramentos do Modernismo Brasileiro: consolidação, pluralidade estética e projetos de interpretação do Brasil
A Semana de Arte Moderna de 1922, embora frequentemente tratada como evento fundador da modernidade artística brasileira, representou apenas o ponto inicial de um processo complexo de transformações culturais que se estendeu ao longo das décadas seguintes. O modernismo brasileiro consolidou-se não como um movimento homogêneo, mas como um conjunto plural de experiências estéticas, ideológicas e regionais, marcadas por diferentes projetos de interpretação do país.
A partir dos anos 1920, a produção artística e literária brasileira passou por um processo de diversificação, no qual conviviam propostas de ruptura formal, revisões da tradição, debates sobre identidade nacional e aproximações críticas com as vanguardas europeias. Conforme observa Candido (2000), o modernismo deve ser compreendido como um “movimento de longa duração”, cujos efeitos ultrapassam amplamente o evento de 1922.
6.1 A consolidação do Modernismo na década de 1920
Nos anos imediatamente posteriores à Semana de Arte Moderna, o modernismo enfrentou resistência por parte da crítica tradicional e das instituições acadêmicas. Entretanto, por meio da atuação intensa de seus principais protagonistas, o movimento gradualmente ampliou sua influência.
Revistas literárias como Klaxon, Estética e Terra Roxa e Outras Terras tornaram-se espaços fundamentais de divulgação das novas propostas artísticas. Nelas, os modernistas defendiam a liberdade formal, o experimentalismo linguístico e a ruptura com os modelos parnasianos e simbolistas.
Mário de Andrade destacou-se como articulador intelectual do movimento, desenvolvendo reflexões sobre música, folclore e literatura que buscavam compreender o Brasil a partir de suas manifestações populares. Sua obra Macunaíma (1928) constitui síntese exemplar dessa proposta, ao fundir oralidade, mito, humor e crítica social.
6.2 O Movimento Antropofágico e a redefinição da identidade cultural
Entre os diversos desdobramentos do modernismo, o Movimento Antropofágico ocupa posição central. Lançado simbolicamente em 1928, com a publicação do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, o movimento propôs uma revisão radical das relações culturais entre Brasil e Europa.
A antropofagia defendia a “devoração” crítica das influências estrangeiras, rejeitando tanto a cópia servil quanto o nacionalismo ingênuo. Ao transformar a dependência cultural em potência criativa, Oswald formulou uma das mais originais teorias culturais do século XX.
Segundo Haroldo de Campos (1992), a antropofagia representa uma verdadeira “teoria da tradução cultural”, antecipando debates contemporâneos sobre hibridismo, pós-colonialismo e identidade periférica.
6.3 Regionalismos modernistas e pluralização do movimento
A partir da década de 1930, o modernismo deixa de ser predominantemente paulista e assume feições regionais. Esse processo amplia significativamente o alcance social e estético do movimento.
No Nordeste, destaca-se o Movimento Regionalista, articulado em torno do Congresso Regionalista do Recife, em 1926, sob liderança de Gilberto Freyre. Diferentemente do regionalismo romântico do século XIX, essa vertente valorizava a cultura local sem idealizações, enfatizando suas contradições históricas e sociais.Essa perspectiva influenciou profundamente o chamado Romance de 30, responsável por uma das fases mais expressivas da literatura brasileira.
6.4 O Romance de 30 e o compromisso social da literatura
A década de 1930 marca a consolidação de uma literatura fortemente comprometida com a análise da realidade social brasileira. Autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e José Lins do Rego produziram romances centrados em temas como:
desigualdade social;
seca e migração;
coronelismo;
exploração do trabalho;
violência estrutural.
Esses escritores combinaram inovação formal com denúncia social, ampliando o público leitor e fortalecendo a função crítica da literatura.
Para Bosi (2006), o Romance de 30 representa a maturidade do modernismo, ao integrar experimentação estética e consciência histórica.
6.5 Modernismo e Estado: cultura, nacionalismo e política
Durante o Estado Novo (1937–1945), parte dos ideais modernistas foi incorporada ao discurso oficial. O governo de Getúlio Vargas promoveu políticas culturais voltadas à valorização do folclore, da música popular e do patrimônio histórico.
Embora essa aproximação tenha possibilitado a institucionalização da cultura brasileira, também gerou tensões entre autonomia artística e instrumentalização política.
Intelectuais modernistas ocuparam cargos públicos e participaram da formulação de políticas culturais, contribuindo para a criação de museus, arquivos e órgãos de preservação do patrimônio.
6.6 As vanguardas do pós-guerra e a renovação estética
No período posterior à Segunda Guerra Mundial, o modernismo deu origem a novas vanguardas. Entre elas, destaca-se o Concretismo, consolidado com a Exposição Nacional de Arte Concreta (1956–1957), realizada em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O movimento concretista, liderado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, propôs uma poesia visual e experimental, marcada pela valorização da materialidade da linguagem.
Essa vertente reafirmou o caráter inovador do modernismo, aproximando a literatura brasileira das discussões internacionais sobre linguagem e comunicação.
6.7 Tropicália: síntese crítica da cultura brasileira
Na década de 1960, em contexto de ditadura militar, emerge a Tropicália, movimento que promoveu profunda revisão dos ideais modernistas. Inspirada diretamente na antropofagia, a Tropicália integrou cultura erudita e popular, tradição e indústria cultural.
Artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto e Hélio Oiticica produziram uma estética híbrida, crítica e provocadora, que redefiniu as fronteiras entre arte, política e mercado cultural.
A Tropicália representa, assim, a atualização do projeto modernista em meio às tensões do mundo contemporâneo.
6.8 O modernismo como processo histórico contínuo
A análise dos desdobramentos do modernismo revela que o movimento não se encerra em uma geração específica. Ao contrário, seus princípios — experimentação, crítica cultural e busca da identidade nacional — permanecem ativos ao longo do século XX.
Do Manifesto Antropófago à Tropicália, passando pelo Romance de 30 e pelas vanguardas concretistas, o modernismo consolidou-se como eixo estruturante da cultura brasileira.
Conforme afirma Candido (2000), trata-se do movimento mais duradouro e influente da história literária nacional, responsável por redefinir não apenas a linguagem artística, mas a própria forma de pensar o Brasil.
7 Vanguardas e cultura no pós-guerra
O período posterior à Segunda Guerra Mundial corresponde a uma fase de intensas transformações no campo artístico e intelectual brasileiro, marcada pela ampliação dos meios de comunicação, pela urbanização acelerada e pela consolidação da indústria cultural. Nesse contexto, a arte e a literatura passaram a dialogar de maneira mais direta com as vanguardas internacionais, ao mesmo tempo em que buscavam reinterpretar criticamente a realidade nacional.
A Exposição Nacional de Arte Concreta (1956–1957) marcou a consolidação do Concretismo no Brasil, movimento caracterizado pela experimentação visual da linguagem poética e pela valorização da materialidade do signo linguístico. Os poetas concretistas propunham uma poesia não discursiva, estruturada a partir da disposição gráfica das palavras, do ritmo visual e da economia verbal. Tal proposta aproximava literatura, artes visuais e comunicação, estabelecendo diálogo com as vanguardas europeias do pós-guerra e com o desenvolvimento dos meios técnicos modernos.
Paralelamente, na década de 1960, emergiu a Tropicália, movimento cultural que promoveu uma síntese inovadora entre tradição popular e cultura de massa. Inspirados pela antropofagia modernista, artistas tropicalistas incorporaram elementos da música popular brasileira, do rock, do cinema novo, das artes plásticas e da poesia experimental, rompendo com hierarquias entre cultura erudita e popular.
Em meio ao contexto repressivo da ditadura militar instaurada em 1964, a Tropicália assumiu caráter de resistência simbólica e contestação estética. Ao integrar música, artes visuais, literatura e performance, o movimento redefiniu as formas de expressão artística no país e ampliou o debate sobre identidade nacional, política cultural e indústria cultural. Dessa maneira, as vanguardas do pós-guerra reafirmaram o dinamismo da cultura brasileira e sua capacidade de reinventar, em diferentes contextos históricos, os princípios inaugurados pelo modernismo.
8 Eventos culturais contemporâneos
A consolidação da modernidade cultural brasileira ao longo do século XX resultou no fortalecimento de grandes eventos artísticos e literários responsáveis pela difusão da produção nacional e pela inserção do Brasil no circuito internacional das artes. Diferentemente dos movimentos anteriores, caracterizados por manifestos e grupos intelectuais restritos, os eventos culturais contemporâneos assumem caráter institucionalizado, permanente e plural.
Nesse contexto, destaca-se a Bienal Internacional de São Paulo, criada em 1951, considerada a segunda maior exposição de artes visuais do mundo, atrás apenas da Bienal de Veneza. A Bienal desempenhou papel decisivo na internacionalização da arte brasileira, possibilitando o contato sistemático entre artistas nacionais e tendências estéticas estrangeiras, além de contribuir para a formação crítica do público e para a profissionalização do campo artístico.
No âmbito literário, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), criada em 2003, consolidou-se como o principal evento literário do país. A FLIP tornou-se espaço privilegiado de encontro entre escritores, editores, pesquisadores e leitores, promovendo debates sobre literatura, história, política e sociedade, além de estimular o mercado editorial e projetos de leitura em escala nacional.
Além de sua dimensão artística, os eventos culturais contemporâneos desempenham relevante função social e educativa, ao promoverem a democratização do acesso à produção cultural e o fortalecimento das políticas públicas voltadas à leitura e às artes. Tais iniciativas ampliam o diálogo entre criadores, pesquisadores e público, contribuindo para a formação de novos leitores e para a valorização da diversidade cultural brasileira. Ademais, esses eventos refletem as transformações do campo cultural no contexto da globalização, incorporando debates sobre memória, identidades, sustentabilidade e inclusão social. Dessa forma, consolidam-se como espaços estratégicos de circulação simbólica, reafirmando a centralidade da cultura na construção da cidadania e na projeção internacional da arte e da literatura produzidas no Brasil.
Considerações finais
A análise dos eventos de arte e literatura de grande repercussão no Brasil evidencia que a formação da cultura nacional constitui um processo histórico longo, complexo e marcado por permanentes disputas simbólicas. Longe de resultar de um acontecimento isolado, a modernidade artística brasileira consolidou-se por meio de sucessivas experiências estéticas, intelectuais e institucionais que atravessaram diferentes períodos históricos, desde o século XIX até a contemporaneidade.
O estudo demonstrou que, ainda no contexto imperial, a criação de instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a emergência do romantismo exerceram papel fundamental na construção de uma consciência nacional. Ao buscar temas, símbolos e narrativas próprias, a literatura oitocentista estabeleceu as bases do sistema literário brasileiro, promovendo a articulação entre produção intelectual, público leitor e projeto político de nação.
No final do século XIX, o esgotamento do romantismo e a incorporação das teorias científicas europeias provocaram significativa inflexão no pensamento cultural. O Realismo, o Naturalismo e o Simbolismo revelaram novas possibilidades expressivas e ampliaram o papel crítico da literatura, permitindo maior aproximação entre arte e realidade social. Nesse contexto, a obra de Machado de Assis representou a maturidade estética da literatura brasileira, consolidando sua autonomia formal e intelectual.
O período pré-modernista aprofundou esse movimento crítico ao expor as contradições estruturais do país, revelando a distância entre o Brasil idealizado e o Brasil real. Autores como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato desempenharam papel decisivo na problematização da identidade nacional, preparando o terreno para as rupturas estéticas do século XX.
A Semana de Arte Moderna de 1922, analisada neste artigo como marco simbólico e não como ponto inaugural absoluto, configurou-se como momento de inflexão capaz de catalisar transformações já em curso. Ao propor a revisão da tradição acadêmica e a valorização da linguagem cotidiana, o modernismo inaugurou uma nova forma de pensar a cultura brasileira, pautada pela experimentação, pela crítica e pela busca de autonomia estética.
Seus desdobramentos, expressos no Movimento Antropofágico, no Regionalismo nordestino, no Romance de 30 e nas políticas culturais do período varguista, evidenciaram a pluralidade interna do modernismo e sua capacidade de adaptação às diferentes realidades regionais e sociais do país. Ao longo do século XX, o movimento deixou de ser apenas uma vanguarda estética para tornar-se eixo estruturante da cultura brasileira.
As vanguardas do pós-guerra, especialmente o Concretismo e a Tropicália, reafirmaram esse legado ao atualizar criticamente os princípios modernistas diante das transformações tecnológicas, políticas e culturais do mundo contemporâneo. Em contextos distintos, tais movimentos evidenciaram a capacidade da arte brasileira de dialogar com tendências internacionais sem abdicar de sua singularidade histórica.
Por fim, os eventos culturais contemporâneos, como a Bienal Internacional de São Paulo e a Festa Literária Internacional de Paraty, demonstram a continuidade desse processo, ao institucionalizar espaços de circulação simbólica, formação de público e internacionalização da produção artística e literária nacional. Esses eventos reafirmam a cultura como campo estratégico para a construção da cidadania, da memória coletiva e da projeção do Brasil no cenário global.
Dessa forma, conclui-se que a história da arte e da literatura brasileiras deve ser compreendida como um movimento contínuo de diálogo entre tradição e inovação. A centralidade atribuída à Semana de Arte Moderna de 1922, embora justificada por seu valor simbólico, não deve obscurecer a multiplicidade de experiências que a antecederam e a sucederam. Reconhecer essa trajetória ampla permite compreender a cultura brasileira como espaço dinâmico, plural e permanentemente em construção, no qual diferentes gerações reinterpretam o país e reinventam suas formas de expressão.
Referências
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Eduardo Martínez: Conto ‘Tio Jurandir era um terror’
Eduardo MartínezImagem criada por IA do Gemini – 18 de janeiro de 2026, às 14:36 PM
Reunião de família é coisa rara, mas, de vez em quando, acontece por aqui. Tirando Natal, apenas aniversário de vovó ou alguma tia graduada. De resto, mensagem ou ligação curta já está de bom tamanho. Seja como for, o imbróglio que soube foi em confidência, já que é coisa antiga, e o pessoal se esqueceu ou não gosta de comentar.
A história se passou lá pelos idos de 1950, ali pelos lados de Luziânia, época em que a capital ainda era o Rio de Janeiro, e Brasília nem se cogitava e fazia parte do Goiás. A família de minha mãe morava por aquelas bandas, e o causo ocorreu em uma fazenda.
Meu tio Jurandir era um terror. Atrevido que nem macaco-prego, não se importava se a mulher era casada, solteira ou tico-tico no fubá. Se desse brecha, o danado não perdia a oportunidade. Prova disso é que ele foi se engraçar para o lado da Sônia, que era casada com o Tião, justamente o cabra mais brabo da região. No entanto, não foi por conta de suposta coragem do meu parente, que era praticamente nenhuma. A coisa desandou pela falta de juízo mesmo.
De tantas investidas que recebeu do tio Jurandir, Sônia deixou o resto de pudor na igreja e se engraçou para o lado do galanteador. O problema é que na roça as coisas acontecem de modo um tanto diferente. É que, enquanto as paredes têm ouvidos, o mato possui olhos. E era justamente no meio do capim que os amantes iam se refestelar.
Há meses naquele vuco-vuco, a confiança batia na copa do jacarandá sem qualquer cerimônia. Tio Jurandir e Sônia, crentes de que faziam as coisas sem serem notados, acabaram por levantar suspeita no marido traído. Tião, caçador dos bons, começou a usar a tática de caça dos gatos. Sem fazer barulho, o homem seguiu a esposa, que, naquele dia, talvez por conta dos hormônios aflorados, saiu toda apressada rumo ao matagal na beira do rio.
Sônia, assim que avistou tio Jurandir, caiu em seus braços. Afoitos por carícias, não demorou e se deitaram sobre o capim, que aceitou o peso e o movimento daqueles corpos apaixonados. Mas eis que, no meio da brincadeira, foram flagrados pelo marido traído, que saiu detrás da moita com o facão na mão. Sem desculpas convincentes, os amantes, completamente pelados, nem tentaram mentir.
Tio Jurandir, receoso de ter as partes decepadas, tratou de cobri-las com as mãos. Sônia até tentou ficar na frente para protegê-lo, mas ela sabia que facão que corta um também corta dois. Melhor seria confessar o que estava engasgado na garganta há tempos.
— Não te amo, Tião. Nunca te amei. Casei com você porque papai quis assim. Se quiser me matar, mate-me de uma vez.
— Não vou te matar, Sônia. Mas quero ter um dedo de prosa com esse moleque.
Tio Jurandir, com os cambitos tremendo, ficou mudo.
— Olha aqui, Jurandir, vou falar uma vez só. Você vai se casar com a Sônia, vai tratar dela com todo respeito. Se eu ficar sabendo que você maltratou essa mulher ou anda arrastando asa pra mulher casada de novo, é melhor preparar o caixão, que eu volto e te mato, seu cabra safado. Você ama a Sônia?
— Amo, sim, senhor!
— Pois pode levá-la pra sua casa, pois na minha não entra mais. Vou jogar fora todas as roupas dela e tacar fogo. Trate de comprar roupa nova pra sua mulher.
Tião olhou mais uma vez aqueles dois, virou o rosto e cuspiu grosso. Levantou o facão e, com um golpe só, rasgou o chão. Virou as costas e se embrenhou no mato.
Depois de ouvir atentamente cada palavra, levei alguns dias para visitar meus tios, que ainda moram na fazenda da família em Luziânia. Olhando aqueles rostos enrugados e corpos curvados, é difícil imaginar que protagonizaram aquela história.
‘São diversos, graves e difíceis os dilemas sociais’
Diamantino BártoloImagem criada por IA do Grok https://grok.com/imagine/post/2294e146-0069-4cf8-98da-bfdf59c1781d
Acresce, a todo o desenvolvimento, que no âmbito do reconhecimento do direito à diferença cultural, existem vários instrumentos legais internacionais, nos quais Portugal é parte contratante, destacando-se, na circunstância, o “Convénio Internacional relativo aos Direitos Económicos, Sociais e Culturais”, e que agora abordamos alguns artigos mais específicos desta temática. É assim que, logo no primeiro artigo se declara: «1. Todos os povos têm direito de dispor de si mesmos. Em virtude desse direito, eles determinam livremente o seu desenvolvimento económico, social e cultural. 2. Para atingirem os seus fins todos os povos podem dispor livremente das suas riquezas e dos seus recursos naturais…» e, no seu artigo segundo: «2. Os Estados partes do presente Convénio comprometem-se a garantir que os direitos aqui enunciados serão exercidos sem nenhuma discriminação fundamentada na raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou qualquer outra opinião, origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou qualquer outra situação.»
Avançando na análise deste importante documento, encontraremos, concreta e especificamente, normas que reconhecem, de forma inequívoca, o direito à cultura, aliás o artigo quinze é claríssimo: «1. Os Estados partes do presente Convénio reconhecem a todo o indivíduo o direito: a) De participar na vida cultural; b) De beneficiar do progresso científico e das suas aplicações; c) De beneficiar da protecção dos direitos morais e materiais resultantes de toda a produção científica, literária ou artística de que for autor. (…) 4. Os Estados partes do presente Convénio reconhecem os benefícios que devem resultar do encorajamento e desenvolvimento da cooperação e dos contactos internacionais no domínio da ciência e da cultura.» (HAARSCHER, 1993: 183-4).
Para melhor se complementar a importância da cultura e em jeito de reforço da presente reflexão, também se poderia abordar a Ética, como projeto mundial, analisada na perspetiva da influência que a Religião tem, de resto, parte-se da premissa da importância vital que a (s) religião (ões) desempenha (m) no mundo da pós-modernidade, pensando-se que em todas as culturas, a dimensão religiosa está presente, e que os seus defensores intervêm no processo das relações humanas, desejavelmente para o bem.
É possível fundamentar os valores humanos a partir de uma argumentação religiosa: «A sociedade secular também tem interesse em que os valores humanos, o humanum, preservem o seu direito de cidadania, no âmbito de uma religião e, neste caso, da religião católica (…) justamente numa época de desorientação e da dissolução dos laços sociais, numa época de permissividade largamente disseminada e cinismo descarado, o cristianismo e de facto todas as religiões – mais do que a pedagogia, psicologia, jurisprudência e actividade política -, desempenham de novo um papel determinante em termos de consciência individual, no sentido de proporcionarem segurança, apoio emocional, protecção, tranquilidade, consolo e coragem para protestar (…), a religião pode fundamentar de modo inequívoco por que razão a moral, valores e normas éticas devem ser absoluta (e não apenas quando nos convém) e universalmente (para todas as castas, classes ou raças) vinculativas. O humanum só poder ser salvo na medida em que a sua justificação for encarada em termos de divinum.» (KUNG, 1990:156-7).
“Deparamo-nos, contemporaneamente, com diversos, graves e complexos problemas sociais, originados em diferentes comunidades, em contextos naturais ou artificiais, com objetivos explícitos ou intencionalidades inconfessáveis e, quaisquer que sejam as áreas de intervenção: política, religiosa, ecológica, económica, financeira, a dimensão cultural está, intrinsecamente, mais ou menos envolvida, por isso não se deve estranhar este permanente confronto de culturas, tanto mais acentuado quanto mais o fator étnico-rácico se revela e interfere.
Na verdade, nunca como hoje se fala tanto em culturas, multiculturas, interculturas, de tal forma que se coloca, cada vez com mais pertinência, se não estaremos a caminhar para uma hibridação cultural ou uma cultura transgénica, como quaisquer outros produtos do campo alimentar e biológico?
BIBLIOGRAFIA
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