Hoje eu sonhei com você

Paulo Siuves: Poema ‘Hoje eu sonhei com você’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem gerada pela IA do Bing – 10 de março de 2026, às 12:34

Hoje eu sonhei com você.

E você jamais saberá disso,

a menos que tropece neste poema.

Sonhei — e foi bom — de um jeito simples,
como quem encontra abrigo numa varanda

enquanto a tarde desmancha.

Acordei sorrindo, sem pressa,

com a sensação de que o mundo, por um instante,

tinha se alinhado ao que eu queria sentir.

Não importa o que fizemos.
Nem o que dissemos.
Amor, nós não fizemos.

Ficamos vestidos, inteiros, leves,
como duas brasas que preferem o calor contido
ao incêndio.
Rimos. Flertamos.
E havia ali algo maior
do que o cotidiano comporta,
um brilho que não cabe
na claridade comum dos dias.
Foi bonito. Tão bonito
que quase doeu ao despertar.

Mas eu não vou te contar.
Não direi que sonhei,
que gostei,
que por segundos desejei
que tudo tivesse sido real.

Guardo o sonho comigo,
como se fosse uma garrafa de água fresca
que não se divide,
porque minha sede
não acabou no sonho.

Paulo Siuves

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Mulher

Loide Afonso: Poema ‘Mulher’

Loid Portugal
Loid Portugal
Imagem gerada pela IA do Grokhttps://grok.com/imagine/post/14ebdeed-9adf-49e8-893c-ec6d3183cb7a

Linda
Bela
Maravilhosa
Preta
Esbelta
De todos os nomes lindos,
Nenhum supera
O de uma mulher sorrindo
Cantando
Pulando
Gritando
É. Mulher é tudo isto
Um misto
De caos
Loucura
Alegria
Pureza
Dor
leveza,
É mistura
De bom
Mau
Lento
Frio
Rápido
E morno,
É compostura
Um livro mal
Lido
Atirado
E flor no
Jardim bem cultivado

Loid Portugal

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Desejo timoneiro

Marli Freitas: Poema ‘Desejo timoneiro’

Marli Freitas
Marli Fraitas
Imagem gerada pela Meta IA – 10 de março de 2026, às 07:56

Já exausta de tanto devanear,
Fui ao encontro da liberdade
E disse sim ao poder de voar.
Minha esperança, equidade.

Timoneiro era o meu desejo.
Junto ao sopro do vento, assobiei.
O céu se abriu como um beijo;
O milagre mais lindo presenciei.

Encantei-me pelo infinito.
Fiz do seu, meu Universo Favorito;
Concluí ser o sentimento – bendito.

Célebres são as atitudes pregressas;
Os sonhos mantêm as luzes acesas;
Assertivo poder advém das asas.

Marli Freitas

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Homenagem à mulher

Augusto Damas: Crônica ‘Homenagem à mulher’

Augusto Damas
Augusto Damas
Imagem gerada por IA do Grok – https://grok.com/imagine/post/2bea912f-e263-4d3f-ab65-f6bcf02ffd94

Não há razão para que o dia de hoje passe sem que se exalte a grandeza da mulher. Celebrar sua presença no mundo é, antes de tudo, um gesto de coerência e de reconhecimento. A mulher não é apenas parte da história humana — ela é, em muitos aspectos, o próprio caminho pelo qual a história se torna possível.

Na tradição cristã, acredita-se que, no princípio da humanidade, ecoou uma ordem divina: “multiplicai-vos e enchei a Terra.” Nessa missão sagrada de continuidade da vida, a mulher ocupa um lugar essencial, como guardiã do mistério da existência e da renovação das gerações.

Reconhecer as virtudes da mulher é também reconhecer a nossa própria origem. Cada ser humano que caminha sobre a Terra traz em sua história o primeiro abrigo do amor: o ventre de uma mulher. Assim se revela uma verdade simples e profunda — somos todos filhos de uma mulher.

Mesmo aquela que, por circunstâncias da vida, não venha a experimentar a maternidade, jamais deixa de carregar consigo esse elo primordial, pois também ela nasceu do cuidado e da esperança de outra mulher. Nesse laço silencioso e eterno repousa um dos fundamentos mais belos da condição humana.

Quando olhamos para o mundo sob as lentes da antropologia, da cultura, da ciência, da política e das artes, percebemos que a presença feminina não é apenas participação: é inspiração, é sensibilidade, é inteligência que molda caminhos e constrói futuros.

Pode haver vozes dissonantes ou ideias inflamadas que tentem diminuir esse papel. Contudo, tais discursos dificilmente resistem a uma reflexão honesta. A própria dinâmica da vida e da sociedade testemunha a interdependência entre homens e mulheres na construção da civilização.

A voz da demografia, silenciosa e firme, lembra-nos de que a continuidade da humanidade depende desse equilíbrio sagrado entre as forças da criação. A mulher, nesse contexto, permanece como símbolo de origem, de esperança e de permanência.

Por isso, em 8 de março, não celebramos apenas uma data do calendário. Celebramos um princípio da própria vida. Renovamos nossas felicitações a todas as mulheres do mundo — pela ternura que inspira, pela coragem que sustenta e pela beleza de sua existência na história humana. Porque, em última análise, celebrar a mulher é celebrar a própria vida.

Augusto Damas

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Professor Carlos Cavalheiro publica artigo em e-book da UERJ

O artigo escrito e apresentado pelo professor Carlos Carvalho Cavalheiro é parte de uma pesquisa de Doutorado em Comunicação e Cultura

Foto do arquivo pessoal de Carlos Carvalho Cavalheiro
Foto do arquivo pessoal de Carlos Carvalho Cavalheiro

Um rio de possibilidades: a comunicação rebelde dos pescadores da área urbana de Sorocaba” é o título do artigo do professor Carlos Carvalho Cavalheiro, publicado nesta semana (dia 09 de março) no e-book Comunicar o tempo – Memórias, vivências e visões, publicado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Comunicação Social.

Organizado pelos professores Ana Carla Longo, Guilherme Alves, Julia Barroso, Luís Fellipe dos Santos e Rafael Malhado, o livro é resultado das apresentações realizadas em 2024 durante a ocorrência do Simpósio Territórios, Tecnologias e Culturas (Tetecul).

O artigo escrito e apresentado pelo professor Carlos Carvalho Cavalheiro é parte de uma pesquisa de Doutorado em Comunicação e Cultura, e tem como tema a cidade compreendida como um sistema comunicacional em interação com seus habitantes. Desse modo, se debruça sobre a seguinte questão: a prática da pesca no rio Sorocaba, em área urbana, pode ser considerada como uma forma de comunicação rebelde? O objetivo é compreender de que maneira as práticas de pesca nessa área se configuram como formas críticas de interação com a cidade.

Cavalheiro é doutorando em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba (UNISO), sendo Bolsista CNPq pelo Observatório de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Sorocaba, o qual, por sua vez, tem se debruçado sobre os múltiplos aspectos que envolvem o rio Sorocaba. O professor Carlos Carvalho Cavalheiro resolveu pesquisar a ação da pesca como uma forma de comunicação, a qual denominou de ‘comunicação rebelde’, uma ‘rebeldia de persistência’, em que o corpo e o território tornam-se os principais dispositivos de contranarrativa frente ao apagamento histórico e ao racismo estrutural.

Carlos Carvalho Cavalheiro utiliza os pescadores do Rio Sorocaba no IV TETECUL (2024) para exemplificar a ‘comunicação rebelde’ como um ato de resistência que contesta o planejamento urbano focado no capital. A pesquisa demonstra que a presença desses pescadores nas margens poluídas atua como uma “rasura” na paisagem moderna, exercendo o ‘direito à cidade’ através do fazer cotidiano, e não por meios digitais. A prática da pesca, com seu silêncio e presença, transforma-se em um emissor da mensagem rebelde, segundo o trabalho apresentado no evento.

O conceito de comunicação rebelde tem sido desenvolvido e aprimorado pelo professor Carlos Carvalho Cavalheiro e por seu orientador no Doutorado, o professor Dr. Paulo Celso da Silva.
Cavalheiro e Silva têm se valido de diversos teóricos nessa construção, como Joice Berth, Paulo Freire, Michel de Certeau, David Harvey entre outros.

O livro ‘Comunicar o tempo – Memórias, vivências e visões’ pode ser acessado gratuitamente pelo link: https://drive.google.com/file/d/1S4-DN2zVrinSOFoPmWx8F-myAlufaV0Y/view
Carlos Carvalho Cavalheiro é professor da rede pública municipal de Porto Feliz, onde leciona História desde 2006. É historiador, tendo se destacado na produção historiográfica regional, abarcando cidades como Sorocaba, Porto Feliz, Itu, Capivari dentre outras. Paulo Celso da Silva é Doutor e Mestre em Geografia pela USP e desenvolve projetos de pesquisa que abordam as políticas públicas de alcance tecnocomunicacional na smartcity: principalmente no projeto 22@barcelona no campo das Geografias da comunicação. Atualmente, é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura pela UNISO.

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Perfect day

Jane Nash: Poem ‘Perfect Day’

Jane Nash
Jane Nash
Imagem gerada por IA do Grok – https://grok.com/imagine/post/1e2a24ed-3810-4b34-8234-7296950c7d9c

Coarse hair against hair against hair
Fingers drum down my scalp
Sleepy eyes open the clock is early
The shower blanket drains over fleshy me
Burnt into the brain black marks sing out
From curved wooden bodies and black hilo strings.

Sweet…… Salty……. Umami……
Smooth liquid strokes the inside of me
Hot in report
Comforting skin and stomach

The sun presses into our cheeks
As our rough hands explore skin investigating
Your powerful arms release me
A moment of weightless existence
Brings a smoothing
Of metal or wood for the delivery of stripey socks

Sweet…. Salty…. Umami
Smooth liquid strokes the inside of me
Hot in report
Comforting skin and stomach

Peaty breath with samphire tones
Waves break over me
Sending me
Away to my deep bed

Jane Nash

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Sombras, concreto e fumaça

CINEMA EM TELA

Marcus Hemerly

‘Sombras, concreto e fumaça: o crepúsculo noir de Remo Bellini’

Card da coluna Cinema em Tela - Sombras, concreto e fumaça: o crepúsculo noir de Remo Bellini
Card da coluna Cinema em Tela – Sombras, concreto e fumaça: o crepúsculo noir de Remo Bellini

Analisando de forma linear as metamorfoses da nossa cinematografia, de forma manente, revela-se fascinante a tentativa brasileira de domar o film noir, em seus acertos e desacertos. É um gênero que, por excelência, nasceu nas sombras da ansiedade pós-guerra americana, mas que encontrou no caos urbano latino-americano um terreno surpreendentemente fértil, adequando-se, quando aplicado de forma original, às nossas peculiaridades antropológicas. No centro desse debate, ergue-se a figura de Remo Bellini, o detetive particular criado por Tony Bellotto e transposto para as telas em ‘Bellini e a Esfinge’, (2001) e ‘Bellini e o Demônio’, de (2008).

A trajetória literária e cinematográfica de Bellini oferece um estudo de caso irretocável sobre como traduzimos a estética do hardboiled para a selva de pedra paulistana, subgênero que caminha de mãos dados com a versatilidade noir e suas derivações nas décadas vindouras e que obedece a um conjunto não escrito de regras. Observa-se comumente um protagonista cínico de moralidade dúbia, a femme fatale que o conduz à ruína, um submundo labiríntico e a corrupção institucionalizada que, não raro, também atua como fonte redenção. No entanto, quando aplicamos essas regras ao cotidiano de São Paulo através de Remo Bellini, elas perdem o glamour dos anos 40 e ganham o peso da desigualdade brasileira, nua e crua, de forma mais intensa – até forçadamente – na segunda adaptação, de 2008.

A moralidade em tons gris dos detetives clássicos, citemos Sam Spade de Hammett e Marlowe de Raymond Chandler, cobravam seus honorários para investigar maridos infiéis, mas mantinham um código de honra cavalheiresco. O Bellini de Fábio Assunção, imerso no cotidiano paulistano, lida com uma realidade muito mais elástica. O “caráter dúbio” no Brasil não é apenas uma escolha filosófica; é uma tática de sobrevivência. Bellini navega por um sistema onde o “jeitinho” dita as regras, fazendo acordos velados com policiais corruptos e informantes marginais porque, em São Paulo, a lei raramente alcança a justiça.

De um lado, se no cinema clássico a sedução do abismo representada pela femme fatale era uma herdeira misteriosa em uma mansão esfumaçada, na São Paulo de Bellini ela se fragmenta nas contradições da cidade. Ela pode ser a prostituta de luxo que transita pelos hotéis da Rua Augusta, a dançarina de um inferninho da Boca do Lixo, ou a esposa entediada dos casarões de bairros nobres, escondendo esquemas de lavagem de dinheiro. Fátima (em A Esfinge) personifica essa mulher letal que usa o próprio corpo e os segredos da alta burguesia como moedas de troca em uma metrópole predatória, intensamente interpretada por Malu Mader.

O submundo, sempre atrativo nas fontes literárias e cinematográficas, eleva-se no gênero como uma personagem individual; na fonte estadunidense, esse vetor contrastava a vida pacata com o submundo do crime, criando extremos díspares. Em Bellini, essa fronteira é dissolvida pelo trânsito caótico e pelos muros altos, o submundo não está escondido em becos; ele divide a mesma calçada com a Faria Lima, a Avenida Paulista e Rua da Consolação. O crime de colarinho branco financia o tráfico nas periferias, e o detetive atua exatamente como o tradutor entre essas duas “realidades” que coexistem na mesma metrópole.

Nos romances, Bellotto criou um anti-herói que bebe da fonte de Raymond Chandler e Dashiell Hammett, conforme adiantada, mas transpira uísque barato, rock nacional e a poeira moral das delegacias do centro. Caminha pela cidade como que por ela amparado, e, de certa forma, inspirado. A literatura de Bellotto é seca, rítmica e direta, características que desafiam o cineasta a traduzir palavras em imagens sem perder a o fio da trama, afinal, tratam-se de formas distintas de story telling, e que demandam suas especificidades de ritmo.

Quando Roberto Santucci assume a direção de ‘Bellini e a Esfinge’, (2001), vemos a tentativa de estabelecer o mito em celuloide. A adaptação acerta ao mapear o contraste social de São Paulo, embora a película por vezes flerte mais com o thriller policial estilizado dos anos 90 do que com a desolação absoluta do noir. Sete anos depois, ‘Bellini e o Demônio’, dirigido por Marcelo Galvão, propõe uma descida ao inferno.

Se o primeiro filme era um labirinto lógico, o segundo rompe com essa estrutura. A fotografia torna-se mais crua, o contraste salta aos olhos e a trama mergulha no ocultismo e em assassinatos ritualísticos. Galvão aproxima a adaptação do neo-noir mais sujo e visceral, mostrando um Bellini mais cansado e amargo — a verdadeira face do detetive mastigado pelo submundo paulistano que ele mesmo tentou decifrar. Nesses membros, não se omite em lançar mão de um, ainda que fragmentado voice over, característica clássica do gênero, que o enriquece, (quando bem feito, à obviedade). 

Para entender o peso de Bellini, é vital analisar a pavimentação dessa estética no Brasil e observar pelo retrovisor as nossas próprias produções. Em ‘A Dama do Cine Shanghai’, de Guilherme de Almeida Prado, lançado em 1987, o espectador depara-se com uma homenagem consciente e luxuosa das produções dos anos 40, onde o protagonista e a mulher fatal movem-se como peças de um xadrez clássico em um ambiente onírico e artificialmente belo.

Se nesse formato, o noir se descortina como fetiche e fantasia, no filme ‘Cidade Oculta’, (1986), de Chico Botelho, por outro lado, respira a noite real e marginal de São Paulo.  A fotografia é azulada, pouco nítida, como a própria garoa que apelida a cidade, trazendo o tom underground como vetor mais explícito e não deglutível. Essa crueza das ruas, delineia o noir – afinal, filme da noite ou black movie – como realidade e sobrevivência, sem sofisticações estilísticas, mas induzindo metáforas imagéticas, 

Remo Bellini, nos cinemas, atua como a síntese imperfeita entre essas duas vertentes. O personagem carrega a aura romântica de “Cine Shanghai”, mas caminha pelas ruas sujas e lida com o apodrecimento institucional tão bem retratado por “Cidade Oculta”, indicando que ambas as roupagens acabam sendo, de certa forma, indissociáveis. Novamente, a cidade como elemento característica é tão poderosa como um personagem autônomo e igualmente pertinente, como que erigindo-se como uma própria Femme Fatale, que ao mesmo tempo apraz e seduz. E, fatalmente, destrói. Em seu brilhando livro analítico sobre o tema, ‘São Paulo: Cidade Azul’, Andrea Barbosa, (Ed. Alameda, 2012, pg. 106/107), aponta:

“(…) O indivíduo passa a ter um espaço não avistado nos contos de Edgar Alan Poe e nas análises da personalidade metropolitana de Simmel. Eles têm força sozinhos e não precisam da multidão para existir. Contudo, não são outsiders como os personagens de Cidade Oculta. Neste filme de Chico Botelho os protagonistas são personagens noturnos como ratos saídos das tocas ocultas da cidade diurna. Anjo, um ex-presidiário, mora numa draga que revira o lixo do fundo dos rios, Shirley é dançarina de cabaré e vive também de repasse de mercadoria roubada; Ratão, policial corrupto e viciado em drogas e Japa, um ingênuo ladrão que acha que vive num filme policial em que os bandidos são leais uns aos outros. (…) A Dama do Cine Shangai de Guilherme de Almeida Prado, também constrói uma cidade noturna e quase onírica, com personagens extraídos de um imaginário noir norte-americano. Um corretor de imóveis, numa quente noite de verão, vai ao cinema que está com ar refrigerado quebrado para assistir um filme policial. No cinema ele localiza uma bela mulher que parece ter saltado da tela e assim se inicia uma tortuosa história de amor e crimes. O interessante é que esses personagens do mundo cinematográfico (como Suzana, a dama do Cine Shangai) se misturam a personagens “comuns” como o corretor de imóveis. Os dois mundos se imbricam e se refazem. O cinema é o lugar do sonho e do inverossímil tornar-se real. O irreal torna-se verossímil. Neste processo, a cidade noturna, estetizada e onírica, pode revelar sentimentos e vivências da cidade da luz do dia e das situações cotidianas. (…)”

Em ambas as obras — e na literatura de Bellotto —, a cidade de São Paulo não é um mero pano de fundo; ela é a força antagônica principal. A arquitetura brutalista, os viadutos manchados de poluição e os letreiros em neon refletidos no asfalto molhado formam uma mise-en-scène* implacável onde a metrópole devora a inocência, e, de certa forma, desperta instintos. A câmera captura a melancolia de uma megalópole onde a luz do sol parece nunca penetrar a crosta de concreto, observada do alto no escritório da agência de detectives, que nos livros, situa-se no icônico Edifício Itália. 

Em última análise, a transposição de Remo Bellini das páginas de Tony Bellotto para as telas atesta a força do nosso cinema em absorver arquétipos estrangeiros e regurgitá-los com inegável sabor local. Como disse certa vez Ariano Suassuna, o “beber” de outras culturas a fim de que nos enriqueça e não nos paralise, num processo de neocolonização. Longe de ser um mero pastiche dos clássicos americanos, o detetive paulistano consolida a identidade de um detetive genuinamente brasileiro. Um universo onde a corrupção institucional não é apenas o desvio de uma maçã podre, mas a própria raiz do sistema, e onde o cinismo do protagonista se torna a única armadura possível contra o caos.

Em “Esfinge”, identifica-se um escaleta mais clássica e ortodoxa, seguindo o check-list do noir ortodoxo transposto às mazelas brasileiras. No segundo filme, a despeito de algumas falhas que levam a trama a perder-se em alguns momentos, com cenas desnecessárias e não aproveitamento mais contundente do material original, cotejado pelo final que recai no clichê americano, ambas as obras devem ser alisadas conjuntamente. É nesse asfalto rachado e encharcado de melancolia que o nosso cinema criminal encontra sua voz mais visceral, e, por que não dizer, real. 

Marcus Hemerly

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