Zé Dadá, o invencível

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Zé Dadá, o invencível’

Eduardo Cesario-Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Cesario-Martínez –
Foto por Irene Oliveira
Imagem gerada pela IA do Gemini - 08 de março de 2026, às 11:26
Imagem gerada pela IA do Gemini 08 de março de 2026, às 11:26

O homem, da sacada da casa de dois andares, ali no Menino Deus, observava o neto, não mais de 10 anos, entretido com joguinhos no aparelho celular. Do nada, quase sem querer, começou a resmungar com seus botões, até que o moleque desviou os olhos da telinha e os manteve firmes aos do avô. Apesar de menino, sabia que daquela boca saíam histórias interessantes. Na verdade, quase sempre. Por isso, tratou logo de aprumar as orelhas para não perder uma palavra que fosse. 

     Zé Dadá era afamado em briga. Não perdia uma. Era murro daqui, chute dali, cabeçada acolá, sobrava rabo de arraia pra todo lado. Pobre adversário, se fosse esperto, caía logo para não apanhar mais. Um olho roxo, um dente quebrado, uma costela partida, tudo era troféu de guerra, mesmo que perdida. Afinal, com Zé Dadá, ninguém podia.

    De boca em boca, os feitos do brigão logo chegaram aos ouvidos de toda a Caxias, terra de Gonçalves Dias. Não demorou, até a polícia evitava cruzar o caminho do Zé Dadá. Isso porque o povo não respeita policial que toma tapa na cara.

      A despeito de tamanho temor, havia um rapazola franzino chamado Raimundo, que dizia não tremer que nem vara verde como tantos ali. Ele levantou o braço e, com a voz mais apagada do que a própria covardia, disse: “Se ninguém tem coragem de enfrentar o Zé Dadá, eu enfrento!” Pra quê? Isso foi cair justamente nos ouvidos do Zé Dadá, que logo quis saber quem era o tal atrevido.  

    A notícia correu toda a cidade, especialmente entre os alunos do Colégio Caxiense, onde o Raimundo penava para passar em matemática. Diante de tantas contas complicadas, chegou a desejar que a luta contra o brigão se desse o mais rápido possível. Antes a cabeça rachada que quebrar a cuca com tantos números. 

    A luta foi marcada. Dali a três dias, lá no Largo de Santa Luzia, que ficava atrás do Caxiense. Em vez de futebol, o lugar seria palco da batalha mais esperada desde que Lampião passou pelo município, fato este que jamais aconteceu. Entre lendas e verdades, o tempo voou, especialmente para o pequeno Raimundo, que já pensava em se escafeder pelo mato, tamanho seu arrependimento por sua irracional impulsividade. Por que diacho ele havia erguido o braço, quando ninguém mais esperava por nada além de um ato de contida covardia?

    O local estava abarrotado, saindo gente pelo ladrão. Até o padre, dizem, teria feito sua fezinha. Obviamente que apostara toda a oferenda do mês no Zé Dadá. Afinal, não dá para brincar com o dinheiro divino sem ter certeza do resultado. 

    De um lado, surgiu o grande Zé Dadá. Perto de 1,80 m, quase 80 kg de puro músculo. Já sem camisa, desfilou no círculo de entusiasmada plateia. Ficou ali por quase cinco minutos à espera do desafiante, que ainda pensava em fugir. No entanto, acabou sendo empurrado para o meio da arena. 

    Raimundo suava frio, apesar dos quase 40 graus. As mãos tremiam, enquanto os dedos tentavam desabotoar a camisa branquinha. Ele não queria sujá-la. Se chegasse em casa com a roupa encardida, teria que enfrentar a fúria de sua mãe. Tomou coragem, apanharia do Zé Dadá, mas manteria o couro livre do açoite certeiro da genitora.

    Apesar de franco favorito, Zé Dadá não estava acostumado a enfrentar um adversário tão atrevido. Como é que aquele magricela teve coragem de desafiá-lo? Seria ele um lutador experiente? Saberia dar golpes ainda desconhecidos pelo campeão dos campeões de Caxias? Ou seria apenas mais um pobre coitado morto de fome? Olha essas costelas finas que nem gravetos secos. Seja como for, tais dúvidas pairavam pela mente ligeira de Zé Dadá.

    O público gritava. Todos queriam ver o sangue jorrar longe. Os oponentes se estudavam, a cautela tomava cada atitude daqueles dois, até que, num gesto ligeiro como bote de louva-deus, Zé Dadá acertou em cheio a fuça do pobre Raimundo. Caiu de bunda! Pensou em revidar, mas a prudência falou mais alto. Zé Dadá partiu para cima com o intuito de dar cabo do adversário, mas logo surgiu a turma do deixa-disso, que apartou a contenda. Foi a deixa para que Raimundo abrisse uma brecha no meio da multidão e se evadisse do local. 

    O derrotado ficou três dias com o nariz inchado. Temendo que sua mãe descobrisse a surra que havia levado, o rapaz passou todo esse tempo evitando encará-la. Não queria apanhar outra vez. Conseguiu, não se sabe como. Talvez a mãe já soubesse de tudo e, piedosa como ela só, não quis causar mais sofrimento ao filho. Nenhuma palavra sobre o acontecido. 

    Após quase uma semana da surra em praça pública, Raimundo desejou ser amigo do seu algoz. Encontrou o grandalhão, que repousava debaixo de uma mangueira. Trocaram poucas palavras, o suficiente para que as coisas se acertassem. Satisfeito com a audácia do adversário, o campeão aceitou quase que de pronto tal proposta. Tornaram-se amigos ou, ao menos, mantiveram uma diplomática relação de respeito mútuo pelos anos seguintes. 

    O avô, assim que terminou a história, percebeu que o neto, totalmente encantado, o encarava. Os dois sorriram, enquanto o aparelho celular parecia ter sido esquecido no canto. 

    — Vô, que coincidência!

    — O quê?   

— O Raimundo tem o mesmo nome do senhor.

Eduardo Cesario-Martínez

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O cara encostado dormindo no semáforo

Clayton Alexandre Zocarato

Conto ‘O cara encostado dormindo no semáforo’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Imagem gerada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69ae393a-a428-832d-80a5-98b8f6b8081c

No cruzamento barulhento da cidade, entre buzinas e pressa, havia um homem encostado no poste do semáforo, dormindo como quem tinha desistido de disputar lugar no mundo. 

Os carros aceleravam quando a luz ficava verde, mas ninguém parecia notar aquele corpo cansado ali, dobrado sobre si mesmo. Talvez tivesse sido pedreiro, pai, filho, alguém com histórias que a cidade esqueceu de ouvir.

 O sinal mudava de cor como se a vida tivesse regras claras: parar, seguir, esperar. Para ele, porém, todos os sinais já pareciam vermelhos há muito tempo. E enquanto a cidade corria atrás de seus compromissos, o homem dormia — não por descanso, mas por falta de onde acordar.

A cidade acordava todos os dias com pressa. Buzinas, motores, passos acelerados, vendedores abrindo as portas metálicas das lojas, ônibus lotados cuspindo gente em cada esquina.

 No meio desse turbilhão havia um cruzamento comum, daqueles onde quatro avenidas se encontram e a paciência das pessoas termina.

Ali funcionava um semáforo antigo, daqueles que demoravam demais para mudar de cor. Os motoristas odiavam aquele sinal.

Mas quase ninguém percebia outra coisa naquele lugar.

Encostado no poste do semáforo, havia um homem dormindo.

Ele se sentava sempre no mesmo ponto, com as costas apoiadas no metal frio do poste, as pernas estendidas e a cabeça inclinada para frente. 

Parecia ter aprendido a dormir no meio do barulho — habilidade estranha, mas necessária para quem não possui paredes.

Alguns passavam olhando de relance.

Outros fingiam não ver.

Na cidade, ignorar alguém é uma forma discreta de continuar vivendo sem culpa.

Ninguém ali sabia o nome dele.

Para os motoristas era apenas ‘o cara do semáforo’.

Ele usava uma camisa desbotada, calça gasta e um boné que já havia perdido a cor original. A barba crescia irregular, como mato abandonado.

Às vezes ele acordava quando o sinal ficava vermelho e caminhava entre os carros oferecendo balas ou limpando para-brisas. Mas naquela manhã ele estava dormindo profundamente.

O curioso é que sua expressão não era de sofrimento.

Era uma expressão estranhamente tranquila.

Como se o sono fosse um pequeno refúgio contra o peso da realidade.

Poucos imaginavam que, anos antes, aquele homem tinha uma casa pequena, um emprego numa oficina mecânica e uma filha que gostava de desenhar pássaros.

Mas as cidades têm uma capacidade cruel de apagar histórias.

Uma moça dentro de um carro vermelho olhou para ele por alguns segundos.

Ela estava atrasada para o trabalho e tamborilava os dedos no volante com impaciência.

— Esse sinal demora demais — murmurou.

Olhou novamente para o homem dormindo.

Por um instante breve, pensou em como alguém poderia dormir ali, no meio de tanto barulho.

Mas o sinal ficou verde.

Ela acelerou.

A cidade funciona assim: pequenas curiosidades humanas são rapidamente esmagadas pela urgência do relógio.

O homem continuou dormindo.

O trânsito continuou passando.

A vida dele não havia desmoronado de uma vez.

Quase nunca desmorona.

Primeiro veio a demissão da oficina. O dono fechou as portas depois de uma crise econômica. Depois vieram meses de bicos, trabalhos temporários, pequenas dívidas.

A esposa foi embora.

Não por maldade, mas por cansaço.

Ela levou a filha.

Ele ficou com as paredes vazias da casa.

Depois vieram o aluguel atrasado, a mudança forçada, o quarto alugado, a perda de outros empregos.

Até que um dia percebeu algo estranho: não havia mais lugar para voltar.

A rua não se torna casa de repente.

Ela vai se aproximando devagar.

Naquele cruzamento passavam milhares de pessoas todos os dias.

Executivos apressados, estudantes com mochilas, vendedores, motoboys, turistas.

Todos carregando suas próprias preocupações.

Para eles, o homem no poste era apenas parte da paisagem.

Como uma placa enferrujada.

Ou uma rachadura no asfalto.

A cidade possui essa estranha habilidade de tornar certas pessoas invisíveis.

Não porque elas desapareceram.

Mas porque ninguém quer realmente olhar.

Enquanto dormia encostado no semáforo, o homem sonhava.

No sonho ele estava sentado no quintal de sua antiga casa. A filha corria pelo gramado segurando um desenho.

— Olha, pai! — dizia ela.

Era um pássaro enorme, colorido, voando acima de uma cidade.

Ele ria.

No sonho o céu estava limpo e o mundo parecia simples.

Então uma buzina alta explodiu no cruzamento.

Ele abriu os olhos lentamente.

Por alguns segundos, não sabia onde estava.

O semáforo estava vermelho.

Carros formavam uma fila longa diante dele.

O homem se levantou devagar, ainda meio sonolento, e caminhou entre os veículos.

Alguns motoristas desviaram o olhar.

Outros fingiram mexer no celular.

Uma criança no banco de trás de um carro perguntou à mãe:

— Por que aquele homem mora na rua?

A mãe demorou alguns segundos para responder.

— Às vezes… a vida fica difícil para algumas pessoas.

O sinal ficou verde.

Os carros partiram novamente.

O homem voltou a encostar no poste.

Sentou-se no mesmo lugar de antes.

O semáforo continuava mudando de cor, obediente à lógica da cidade: vermelho, amarelo, verde.

Parar.

Esperar.

Seguir.

Mas para ele o tempo parecia diferente.

Ele apoiou a cabeça no metal e fechou os olhos outra vez.

Talvez estivesse cansado.

Talvez estivesse apenas tentando sonhar novamente com aquele pássaro desenhado pela filha.

E enquanto a cidade corria para todos os lados, o homem encostado no semáforo dormia.

Não porque quisesse fugir da vida.

Mas porque, naquele momento, o sono era o único lugar onde ela ainda fazia sentido.

O vento da tarde cortava como lâmina de navalha. O homem puxou a camisa velha mais para cima, tentando proteger o peito do frio, mas ela não fazia diferença.

 Cada rajada de vento parecia atravessar a alma, lembrando-lhe que a cidade jamais se preocupava com quem não tinha endereço.

Alguns passantes o olhavam de relance, curiosos, mas rapidamente desviavam o olhar. Ele conhecia bem esse ritual silencioso: ninguém quer ser lembrado de que a miséria existe, e ele era apenas um espelho desconfortável de uma verdade que todos fingiam não ver.

A fome apertava. O estômago reclamava, mas ele ainda guardava um pouco de dignidade — aquele pouco que resistia aos dias sem comida, à falta de chão, ao desprezo alheio. 

Dignidade, talvez, fosse a única coisa que a cidade ainda não conseguira roubar.

O homem voltou acordar. Olhou para os dois, tentando sorrir, mas seu rosto marcado pela rua não conseguia disfarçar a dor.

 Por um instante, ele desejou que a menina pudesse entender o que significava perder tudo e ainda ter que existir entre sinais vermelhos e verdes.

Então, como quem toma coragem pela última vez, ele se levantou. Não para pedir esmola. Não para limpar para-brisas. Mas para atravessar o cruzamento e desaparecer nas vielas atrás da avenida.

Enquanto caminhava, lembrava-se de cada porta fechada, cada olhar desviado, cada noite em que precisou dormir ao relento. 

E sentiu, finalmente, uma raiva silenciosa crescer dentro dele — não contra a cidade, nem contra os outros, mas contra si mesmo por aceitar, por tanto tempo, o papel que a vida lhe deu sem lutar por mais.

Algumas horas depois, o semáforo ainda estava lá, firme, indiferente ao mundo. O cruzamento continuava com seu movimento mecânico: parar, esperar, seguir. Mas algo mudara.

Para os motoristas, nada.

Para a cidade, nada. Mas para ele, tudo. Ele sentia que a rua, aquela que antes parecia sufocá-lo, agora era apenas um campo de batalha — o campo onde ele finalmente podia lutar contra suas próprias limitações, contra sua própria vaidade de se fazer invisível.

A noite caiu, e a cidade se iluminou com lâmpadas artificiais. Ele parou em um canto, observando as luzes refletirem nas poças de chuva. Sentiu medo, frio, fome… mas também uma centelha de vida que não havia sentido há anos.

O semáforo, vermelho, continuava lá, mas ele não precisava mais esperar. Ele não era mais apenas o homem encostado dormindo. Ele era alguém que havia decidido  voltar existir apesar de tudo, mesmo sem endereço, sem conforto, sem aplausos.

Na manhã seguinte, alguns passantes notaram um bilhete preso ao poste do semáforo. Escrito com tinta borrada, dizia apenas:

“Acordei. Finalmente. Agora sou meu próprio semáforo: vermelho, amarelo, verde… e sigo quando quiser.”

Ninguém parou para ler. Mas talvez não importasse. Ele havia desaparecido das ruas, sim, mas não da sua própria vida. Pela primeira vez, o homem se recusava a ser apenas parte da paisagem.

E enquanto a cidade continuava sua rotina mecânica, com buzinas e pressa, ele caminhava para longe, com passos lentos, determinados e furiosos, decidido a lutar contra tudo o que o reduziu à invisibilidade.

O semáforo continuava ali, parado, mas ele sabia que ninguém, nem a cidade inteira, poderia mais controlar o ritmo do seu tempo.

Clayton Alexandre Zocarato

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Depois da quinta

Ramos António Amine: Crônica ‘Depois da quinta’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem gerada pela IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69ac27f7-bb78-8330-b474-e619921290a5

Depois da quinta, as desculpas tornam-se inúteis. A culpa deixa de ser abstrata: tem culpados, e a responsabilidade pesa, inteira, sobre os ímpios. Descobre-se então que a vergonha que nos cobre os rostos não nasceu de nós, mas foi cuidadosamente construída por aqueles que, ao longo do tempo, sobreviveram do silêncio cúmplice. O silêncio, afinal, sempre falou mais alto do que a voz dos ímpios.

Os neutros, que se diziam isentos, sem perceber que todos sabiam que sempre estiveram ao lado das forças invisíveis,  farejam agora o mesmo odor da injustiça que durante anos defenderam ou toleraram.

Os indiferentes apressarão por dizer que sempre souberam que a quinta iria ruir. São esses os verdadeiros hipócritas: não os que erraram, mas os que assistiram em silêncio e deixaram que outros errassem. Durante anos acomodaram-se na confortável ilusão da neutralidade, como se a distância moral os absolvesse daquilo que viam acontecer diante dos seus olhos.

Diferentes foram aqueles que sentiram o chão tremer quando ainda havia muros, os que ousaram questionar o calor infernal do poder instalado na quinta. A esses cabe agora uma tarefa mais difícil: desfazer-se da chave que manteve a porta da quinta fechada. Porque, depois da quinta, existe sempre o risco de se construir outra: com novos nomes e os mesmos gestos.

Depois da quinta, o silêncio já não é ausência de voz, mas o peso da verdade que resta quando tudo o mais cai. Não há muros a derrubar nem portas a arrombar, porque a quinta nunca foi apenas um lugar. Sempre existiu dentro de cada gesto cúmplice, de cada escolha de não ver, de cada conveniência moral que sustentou o sistema sem precisar de ordens explícitas. 

Quem ousou confrontá-la cedo percebeu que a sua queda não seria fácil, nem física. Não se tratava de destruir paredes, mas de romper consciências. A verdadeira derrubada começaria na recusa de dirigir-se de joelhos ao altar da hipocrisia; na coragem de acolher aquilo que o sistema julga em voz alta enquanto, em surdina, contempla os seus seios; na vigilância ética de quem permaneceu desperto quando era mais compensador dormir. Cada ato de honestidade tornou-se uma renúncia silenciosa à comunhão dos ímpios. Cada silêncio recusado abriu uma racha no cálice que sustentava a prostituta.

Depois da quinta, os muros desabam  e com eles desaparecem as línguas ensalivadas dos bajuladores. A miséria deixa de pagar IVA. Resta apenas o espaço nu da consciência: esse território sem máculas onde cada um é obrigado a decidir se reconstruirá a quinta com outros materiais ou se permitirá que a ética cresça livre sem altar, sem cálice e sem ídolos de teatro.

Depois da quinta não nasce o sagrado. Nasce o peso da escolha. Nasce a intimidade incômoda de olhar para si mesmo sem disfarces, sem rótulos, sem a proteção do corvo que se alimentava dos pintainhos das galinhas dos sem-teto. É aí  e apenas aí que a verdadeira derrubada acontece.

Os ímpios, incapazes de aceitar o que ocorreu, procurarão consolo em salmos 151, inventando escrituras tardias para justificar o que jamais foi justificável. Os seus bens serão repartidos entre os pobres empobrecidos pelos ricos, ricos que não passam de simples endinheirados e os seus descendentes carregarão a vergonha dos nomes que herdaram.

Depois da antiga quinta, a árvore frondosa ao redor da quinta ousará finalmente florir. As suas raízes alargar-se-ão de tanta felicidade contida. O ar, antes poluído, fará falta àqueles que o contaminaram. Os arames farpados que mantiveram intacto o perímetro da exclusão servirão agora para fabricar carros de arame para as crianças de pés descalços.

Os cães fardados reconhecerão os ímpios, mas não lhes obedecerão. Declararão caça não aos executores menores, mas aos emissores das ordens superiores. Os contratos assinados sob a lógica da exploração eterna dos recursos naturais serão desfeitos. Os seus assinantes serão obrigados a engoli-los, tal como foram engolidos os sapos sob o pretexto da paz. Haverá quem queira vê-los incinerados, como foram incinerados, em outros tempos, os críticos que ousaram falar quando ainda havia muros.

Depois da quinta, também aqueles que ruíram a velha quinta serão vigiados, para que não se convertam nos ímpios de amanhã. Porque aquele que diz “eu vos libertei” é mais perigoso do que aquele que explorou. Mesmo mortos, os seus corpos serão vitrificados para que, ao reanimarem, não possam revelar o caminho por onde foi enterrada a chave da velha quinta.

Depois da quinta, nada garante justiça plena. Mas já não há inocência possível. Cada um será obrigado a sujar as mãos para que o jardim prometido em Candide, de Voltaire, seja finalmente cultivado com vida para que cada um se torne digno das flores desse jardim.

Depois da quinta, ninguém pode assegurar que não surgirão novos traidores. Mas estes serão vigiados e, quando descobertos, serão vilipendiados na praça pública. As estátuas erguidas no interior da quinta serão vaiadas, laçadas pelo pescoço e arrastadas para vitalização nas redes sociais. As que resistirem à humilhação serão queimadas, enquanto os ímpios, já impotentes, assistirão à cena sem poder fazer nada. Pedirão que se paute pelo respeito à vida, à liberdade e à propriedade, mas se esquecerão de que jamais permitiram que os catadores de rua tivessem vida, liberdade ou propriedade.

Nesse tempo, este texto não terá circulação clandestina. A sua leitura será obrigatória nas escolas, nos comboios, nos transportes semicoletivos e nas igrejas, e o seu autor já não pensará em continuar o seu livro sobre ‘O País de Questões Silenciadas’. Tudo isso para lhes recordar que estão sozinhos neste buraco chamado mundo. Por isso, nada de desculpas.

Ramos António Amine

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Meigo olhar

Márcia Nàscimento: Crônica ‘Meigo olhar’

Márcia Nàscimento
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Eu estava tão feliz, andei por quilômetros de distância para lhe encontrar e, quando lhe vi pela primeira vez, a alma o reconheceu e fiquei imersa apenas naquele meigo olhar.

Um olhar tão dócil que ama sem ter a necessidade de verbalizar nenhuma palavra, olhar tão puro e amigo, nobre e verdadeiro, daqueles que o mundo, há muito tempo, já se esqueceu, mas que ao lhe vir, pude sentir, que ainda há esperança em um mundo melhor que já advém até nós pela grandeza e força transmitida naquele olhar.

Há uma espécie de segredo, mistério profundo, um misto de encanto e poesia, amor em demasia, saberes, conhecimento e sabedoria que alcançou o âmago do meu ser através deste teu olhar.

E como o rio se deleita indo ao encontro do mar, assim minha alma se alegrou ao vê-lo pessoalmente, e o vendo também o reconheceu de mundos e galáxias distantes, luzes reluzentes como o brilho de uma constelação a iluminar, eu o reconheci através do teu meigo olhar.

Sementes universais do amor incondicional, irmãos das estrelas com missões de elevar as consciências aqui na Terra, que se comunicam telepaticamente através da pureza deste meigo olhar.

Márcia Nàscimento

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Até quando?

Karla Dornelas: Poema ‘Até quando?’

Logo da seção O Leitor Participa
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Imagem gerada por IA do ChatGPT – 08 de março de 2026, às 10:15

Somos atacadas
porque somos mulheres?
A sentença
já nasce no ventre?

Por sermos mulheres
pagamos antes mesmo
de existir?

Pela roupa.
Pelo corpo.
Pela liberdade
que insistem em dizer
que não podemos ter.

Dizem que foi a roupa.
Dizem que foi o horário.
Dizem que foi o comportamento.
Mas nunca dizem
que foi a violência.

Então responda —
com coragem e sinceridade:

Qual das mulheres que você ama
você entregaria
à dor,
ao medo,
ao sangue?

Qual delas aceitaria ver
espancada,
violentada,
assassinada…
e ainda assim
procuraria uma justificativa
para torná-la culpada?

Porque toda vez
que se culpa uma mulher
apenas por ser mulher —
por viver,
errar,
existir
como qualquer ser humano —
a violência encontra abrigo.

Justificar agressões
é participar do silêncio.
É normalizar o horror.

É permitir
que matem uma mulher
antes mesmo
de tirarem sua vida.

Porque a violência contra uma mulher
começa no julgamento.

Culpada
porque é mulher.
Culpada
porque terminou.
Culpada
pela roupa curta.
Culpada
porque falou.
Culpada
porque existiu.

Culpada.
Culpada.
Culpada.

E o veredito final:
apagar quem somos,
silenciar o que amamos.

Até quando?

Karla Dornelas

Karla Dornelas
Karla Dornelas

Karla Dornelas, natural de Caratinga (MG), é escritora e poetisa. Membro da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA e da Academia Brasileira de História e Literatura -ABHL, com projetos literários em desenvolvimento, incluindo a reedição de seu primeiro livro de poesias, ‘Simplesmente Você’.

Ao longo de sua trajetória, foi contemplada com menções honrosas por sua dedicação à arte e à literatura.

Sua escrita nasce do olhar sensível sobre o cotidiano, transformando o mundo em experiências poéticas e afetivas.

Com linguagem marcada pela delicadeza, musicalidade e criação de vocabulário próprio, busca dar voz ao invisível e valorizar o que é essencialmente humano, dedicando-se à construção de uma trajetória literária voltada à arte de tocar e transformar o leitor por meio da palavra.

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Horizonte humano

Taghrid Bou Merhi: Prosa poética ‘Horizonte humano’

Taghrid Bou Merhi
Taghrid Bou Merhi
Imagem criada pela IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69ac644b-0acc-832a-9e76-9c1a1fb06d18

Neste mês que abre suas janelas para a memória da mulher, o tempo faz uma breve pausa para escutar um antigo pulsar que habita o coração da história.

A mulher caminha pelas estradas da vida carregando o segredo dos começos, como se fosse a nascente onde se formam as primeiras narrativas da existência.

De seus passos crescem os significados, e de sua paciência os dias aprendem a ouvir a voz da justiça.

A mulher é a memória da terra quando narra seu cansaço, e a voz da alma quando busca um sentido mais profundo para a vida.

Em sua presença a linguagem se renova, e a ideia se amplia até tornar-se humana o suficiente para abraçar o mundo.

Quando escreve sua experiência nas páginas do tempo, desenham-se os contornos de um futuro mais caloroso.

Quantos sonhos nasceram no coração de uma mulher antes de encontrar o caminho da luz.

Quantas ideias atravessaram seu silêncio até transformarem-se em passos rumo à liberdade.

Ela é o ser que aprende com a dor a sabedoria do caminho e transforma a espera em energia de vida.

No seu dia internacional, as vozes das mulheres encontram-se como asas de luz atravessando os continentes.

Cada voz carrega uma história, e cada história abre uma janela para o significado da dignidade humana.

Desse encontro nasce uma nova linguagem que o coração compreende antes que as palavras a traduzam.

A mulher não é apenas um motivo passageiro de celebração no calendário dos dias.

Ela é uma presença profunda no tecido da civilização e um ritmo oculto que acompanha o crescimento da consciência humana.

Onde quer que esteja, nasce a possibilidade de mudança e desperta no ser humano um sentimento mais puro de justiça.

Por isso este dia surge como um espelho onde o mundo contempla seu rosto humano.

Nele percebe que a dignidade cresce quando o espaço para o sonho e o conhecimento se amplia.

E a mulher vê em seu reflexo um caminho que continua a estender-se em direção a um horizonte mais luminoso.

Assim a luz continua sua viagem através do tempo,
carregada pelo coração de uma mulher que acredita que a vida pode tornar-se mais compassiva.

Taghrid Bou Merhi

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Mulher moderna

Evani Rocha: Poema ‘Mulher moderna’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada por IA do Bing - 6 de março de 2026, às 11h45
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Ela passa perceptível
Exala perfume, espalha sorriso
Ela é mais que um rosto bonito
É força, coragem e equilíbrio

Ela passa pela avenida
A passos rápidos
De salto alto
Ela é mais que um belo sorriso
Ela é semente, ela é abrigo!

Ela não se desvanece
Pois é rocha e terra fértil
Mas floresce na aridez
Se for preciso, no deserto!

Ela é apenas uma mulher
Que assumiu seu valor
Que aceitou seus ‘defeitos’
Não tem medo da idade
Muito menos, do espelho!

Evani Rocha

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