Expansão de consciência

SAÚDE INTEGRAL

Joelson Mora

Expansão de consciência, ancestralidade
e os limites entre cura e risco

Joelson Mora
Joelson Mora
magem criada por IA do Bing - 14 de janeiro de 2026,  às 12:00 PM
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às 12:00 PM

A busca humana por sentido, cura e transcendência não é algo moderno. Desde os primórdios, o ser humano recorre à natureza, aos rituais e à espiritualidade para compreender sua existência, aliviar dores e responder perguntas que o corpo sozinho não explica. Dentro desse contexto ancestral surge a Ayahuasca, uma bebida sagrada utilizada há séculos por povos indígenas da Amazônia.

Mas o que, de fato, é a Ayahuasca? Ela cura? Expande a consciência? Apresenta riscos? Onde termina a espiritualidade? 

Neste artigo proponho uma reflexão sem romantização e sem demonização, unindo cultura, ciência e saúde integral.

O termo Ayahuasca tem origem no quíchua, onde ‘aya’ significa espírito ou ancestral, e ‘waska’ significa cipó ou corda. A tradução mais conhecida é ‘cipó dos espíritos’ ou ‘corda que liga o mundo físico ao espiritual’.

Tradicionalmente, a bebida é utilizada em rituais de:

  • Cura espiritual e emocional;
  • Autoconhecimento;
  • Iniciação e orientação da comunidade;
  • Reconexão com a natureza

Para os povos originários, não se trata de uma substância recreativa, mas de um sacramento, conduzido com respeito, preparo e propósito.

A Ayahuasca é preparada a partir da combinação de duas plantas principais:

  • Banisteriopsis caapi (cipó-mariri), rica em beta-carbolinas, que inibem a enzima MAO;
  • Psychotria viridis (chacrona), que contém DMT (dimetiltriptamina), uma substância psicoativa potente.

Essa combinação permite que o DMT atue no cérebro, provocando alterações profundas na percepção, nas emoções e na consciência.

Do ponto de vista fisiológico, o corpo entra em um estado de estresse controlado, com possíveis efeitos como:

  • Náuseas e vômitos (tradicionalmente chamados de ‘purga’);
  • Alterações na pressão arterial;
  • Aumento da frequência cardíaca;
  • Dilatação das pupilas.

No cérebro, ocorre uma modulação intensa do sistema serotoninérgico e uma redução temporária da chamada default mode network (rede de modo padrão), área relacionada ao ego e à identidade pessoal.

Os relatos mais comuns incluem:

  • Revisitação de memórias profundas e traumas;
  • Emoções intensas, como choro, medo ou euforia;
  • Sensação de dissolução do ego;
  • Experiências simbólicas de morte e renascimento.

É fundamental compreender que a Ayahuasca não entrega apenas experiências agradáveis. Muitas vezes, ela confronta o indivíduo com aquilo que ele evita: culpas, feridas emocionais e incoerências de vida.

Estudos científicos vêm investigando o potencial da Ayahuasca em casos de:

  • Depressão resistente;
  • Ansiedade;
  • Dependência química;
  • Transtorno de estresse pós-traumático.

Embora os resultados iniciais sejam promissores, é importante ressaltar: a Ayahuasca não é um tratamento médico reconhecido. Ela não substitui terapia, acompanhamento psicológico, atividade física regular, alimentação equilibrada ou espiritualidade vivida no cotidiano.

A Ayahuasca não é segura para todos.

Ela é contraindicada para pessoas que:

  • Utilizam antidepressivos ou medicamentos psiquiátricos;
  • Possuem transtornos psicóticos, como esquizofrenia ou bipolaridade;
  • Apresentam doenças cardiovasculares graves;
  • Têm histórico de surtos psicológicos.

O uso irresponsável pode desencadear crises severas, tanto físicas quanto emocionais.

No Brasil, o uso da Ayahuasca é permitido exclusivamente em contextos religiosos, conforme regulamentação do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD).

Seu uso comercial, recreativo ou turístico não é permitido.

Dentro da visão de saúde integral, é essencial afirmar:

nenhuma substância, ritual ou experiência isolada transforma um ser humano por completo.

O verdadeiro processo de cura envolve:

  • Movimento do corpo;
  • Disciplina emocional;
  • Consciência espiritual;
  • Responsabilidade com escolhas diárias

A Ayahuasca, quando usada, pode até abrir portas internas, mas quem caminha é o indivíduo, todos os dias, em suas atitudes.

A Ayahuasca não é milagre, não é moda e não é atalho.

Ela é parte de uma herança cultural ancestral que exige respeito, preparo e discernimento.

Expansão de consciência sem responsabilidade não é iluminação — é risco disfarçado de espiritualidade.

O corpo continua sendo templo.

A mente, um campo sagrado.

E a saúde, um compromisso diário.

Joelson Mora

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Primeira tentativa

Loide Afonso: Poema ‘Primeira tentativa’

Loid Portugal
Loid Portugal
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Não vou fugir
Desta vez , não
Não vou correr
Pra me esconder

Se vais cavar
Minha cova
Que seja
Com honra

Ou queres cremar?
Seja lá como quiseres
Eu vou
Sem medo
Ou dor

Já me magoei
Por ti
Por nós
Por todo esse sentimento

Estou fora agora
E olha pra tua vida
Está fria
Crua
E feia

Se eu fosse tu, nem suicídio cometeria.

Loid Portugal

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II Prêmio Personalidades Literárias e Culturais 2025

Eduardo Martínez recebe o II Prêmio Personalidades Literárias e Culturais 2025

Card sobre o II Prêmio Personalidades Literárias e Culturais 2025
Card sobre o II Prêmio Personalidades Literárias e Culturais 2025

O escritor e colunista carioca Eduardo Martínez foi anunciado como um dos vencedores do II Prêmio Personalidades Literárias e Culturais 2025. A premiação, realizada pela Editora Holandas em conjunto com a Academia Interamericana de Escritores (AINTE), busca homenagear autores que contribuíram para o cenário intelectual e cultural do país ao longo do ano.

A escolha de Martínez pela comissão organizadora baseou-se em sua atuação recente no setor. Além de colunista do Jornal Cultural Rol, o escritor acumula outras distinções em 2025, como o Prêmio Clarice Lispector. Atualmente, ele também atua como editor e escritor do espaço Café Literário, no portal Notibras.

De acordo com os organizadores, o reconhecimento reflete dois pilares do trabalho de Martínez:

Produção Literária: A regularidade e o impacto de seus textos nos veículos em que colabora.

Fomento a Novos Autores: O papel do escritor na abertura de espaços para novas vozes na mídia digital e na mentoria de talentos iniciantes.

Com este novo prêmio, Martínez consolida sua presença entre os nomes em evidência na literatura brasileira contemporânea, unindo a escrita tradicional ao alcance das plataformas digitais.

Sobre o autor

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez

Eduardo Martínez é um premiado escritor carioca, atualmente radicado em Porto alegre, cidade pela qual é apaixonado.

Seu primeiro livro, o romance ‘Despido de ilusões’, 2004, figurou entre os mais lidos do Centro Cultural Banco do Brasil. 

Em 2025, foi o vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector, na categoria livro de contos com ’57 Contos e crônicas por um autor muito velho’, que saiu pela Joanin Editora. 

Seus contos e crônicas, que já ultrapassaram a incrível marca de 1.000 publicações, são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP.

É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).

Divide a editoria Café Literário do Notibras com o poeta e escritor Daniel Marchi e a jornalista e poeta Cecília Baumann.

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Da costa paradisíaca de Moçambique, Ramos Amine!

Versado na poesia crítica e de textos literários marcados pela reflexão filosófica e social, Ramos António Amine abrilhanta o Quadro de Colunistas do ROL

Ramos António Amine
Ramos António Amine

Escritor e ensaísta, Ramos Amine dedica-se à escrita de poesia crítica e de textos literários marcados pela reflexão filosófica e social e tem textos publicados na revista Uphile, uma plataforma digital, física e eletrônica de divulgação e promoção do Niassa, através da cultura e de outras iniciativas sociais que fortalecem a fraternidade e a irmandade entre os povos.

Possui vários artigos científicos publicados no site webartigos.com e é colunista do Jornal Destaque, onde assina artigos de opinião.

Produz ainda vídeos de teor poético, nos quais cruza palavra, pensamento e sensibilidade estética.

A sua escrita dialoga com os dilemas contemporâneos da sociedade moçambicana.

Ramos se apresenta aos leitores do ROL com o reflexivo conto A guardiã dos avisos ignorados.

A guardiã dos avisos ignorados

Imagem criada por IA da Meta
Imagem criada por IA da Meta

Nada estava visível naquela noite. Mas algo pairava, em surdina, nas pequenas coisas que costumamos ignorar: a Guardiã dos avisos ignorados.

Uma alta dirigente distrital decidiu partir para a cidade a fim de passar a quadra festiva junto da família. Fora avisada de que a lei não concede diferimentos favoráveis a viagens impulsivas de quem detém autoridade. Ainda assim, escolheu ouvir o coração, pois, em tempos festivos, o coração costuma falar mais alto do que a norma. A regra foi relegada ao segundo plano, dobrada e esquecida, enquanto à frente da dirigente seguia apenas o desejo de estar entre os seus.

Não faltou alguém que tentou dissuadi-la. Não com gritarias nem com processos disciplinares, mas com a frieza de quem conhece o peso da responsabilidade. O aviso foi simples e claro: quem serve o distrito não deve servir-se dele sem consequência. Contudo, a decisão já estava tomada. Quando o poder se habitua a mandar e passa a ouvir apenas a si próprio, aprende também a ignorar os avisos.

Naquele dia, apesar de esburacada e lamacenta, a estrada comportou-se silenciosa, como sempre é a Guardiã dos avisos ignorados.

No caminho, o mundo cobrou o preço da decisão. O irreparável sucedeu. Um corpo ainda marcado pelas ressacas das vésperas atravessou a estrada e, num instante, tudo se desencadeou: decisão em absurdo, movimento em culpa, pressa em tragédia, quadra festiva em luto. A estrada manteve-se indiferente, enquanto uma vida se despedia sem temor nem tremor.

Em delírio, a dirigente recorreu ao gesto mais antigo do mundo moderno: ligou para casa. Do outro lado da linha, o marido correu para socorrer quem amava. Mas o absurdo: hóspede discreto da condição humana, ainda não havia concluído a sua obra.

Ao calçar os sapatos à pressa, o marido foi mordido por uma cobra, escondida onde ninguém espera a morte: no abrigo quotidiano do pé. Assim, num só encadeamento de factos, uma decisão tomada no distrito gerou tragédia na estrada; a tragédia clamou por auxílio; e o auxílio quase gerou outra tragédia. Nada disso constava nos planos da dirigente. É assim que o absurdo opera.

Houve conspiração contra a dirigente? Intenção malévola visando a sua queda? Não se sabe. Sabe-se apenas que houve consequência. A exceção aberta à interpretação da lei abriu caminho; a pressa acelerou; e a Guardiã dos avisos ignorados, amontoada nos sapatos, respondeu como sempre: silenciosa, inevitável.

Talvez seja isso que mais nos vulnerabiliza: o mundo não nos castiga, apenas responde. Responde ao orgulho, à arrogância institucionalizada, às escolhas impulsivas, ao descuido, à crença perigosa de que o cargo nos coloca acima da lei, dos outros ou do absurdo.

Na origem desta tragédia esteve uma decisão. No fim, restou a estrada. 

E a estrada resta sempre para ensinar, sem alarde, que o poder é efémero, que a vida é um sopro e que o absurdo nos acompanha justamente onde julgamos estar seguros: na exceção que toleramos, na viagem que consentimos a nós mesmos, no otimismo que nos dispensa da prudência.

Equanto os homens celebram datas e inventam hierarquias, a natureza permanece silenciosa e atenta, indiferente às nossas justificações. E a Guardiã dos avisos ignorados, paciente, continua onde poucos ousam procurar: no intervalo entre avisos a decisão.

Ramos António Amine

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Penso na minha vida

Denise Canova: Poema ‘Penso na minha vida’

Denise Canova
Denise Canova
Imagem criada por IA da Meta – 14 de janeiro de 2026,
às 07:21 PM

Penso na minha vida

A mulher que eu sou

e no que eu quero

Faz mal?

Sim, mas eu penso

O futuro assusta,

eu gostaria de evitar isso

Evitar o meu medo

Dama da Poesia

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Das montanhas alterosas de Minas Gerais para o ROL, Marli Freitas!

Professora, historiadora, escritora e poeta, Marli Freitas traz para o ROL as Letras de Minas Gerais!

Marli Freitas

Marli Firmina de Freitas, natural de Dom Cavati (MG) é professora, historiadora, escritora e poeta. Cursou História e Geografia e lecionou durante 29 anos.

A literatura sempre fez parte de sua vida através das histórias narradas de forma teatral por seu pai. Quando aprendeu a ler passava horas lendo na Biblioteca Municipal e tinha um gosto especial pelas obras dos irmãos Grimm. Durante a vida escolar foi se encantando por vários autores, com apreço especial pela poesia de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, entre outros.

É autora de cinco livros, dentre os quais: Entre a Terra e o Céu – Estou Feliz, Estou Passarinho; Entre o Balanço e o Voo – O Vento Amou As Asas Recém-nascidas; Entre o Elo e a Auxese – Teus São Os Olhos Meus.

Condecorada com várias comendas, dentre as quais: Ruy Barbosa; Princesa Isabel; Ludwig van Beethoven; Fiódor Dostoiévski; William Shakespeare e Mérito Científico Galileu Galilei.

Membro de várias academias, dentre as quais: Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes; Académie des Lettres et Arts Luso-Suisse; Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Portugal

Marli Freitas inaugura a colaboração no ROL com uma belíssima declaração de amor a sua terra Natal, Dom Cavati (MG), com o o poema Assim é a terra onde nasci.

Assim é a terra onde nasci

Poema publicado na obra de Marli Freitas, intitulada ENTRE O ELO E A AUXESE – Teus São Os Olhos Meus

Dom Cavati (MG) - Foto por Marli Freitas
Dom Cavati (MG) – Foto por Marli Freitas

Notável beleza entre montes!
Assim é a terra em que nasci.

Madrigal de amor e céu.
Insígnia de dulçor e alegria… De
Natureza singular,
Horizonte mesclado e
Abençoado de singularidade e cordialidade.

Terra mãe gentil! Sou observadora de realidades
E o que guardo de si, são as
Relíquias lapidadas na cumplicidade, a
Resistência e a profundidade de suas raízes,
A admiração e o respeito aos seus filhos.

Terra enfeitada pela fé,
Exímia formosura campestre,
Mestria no bem viver esperança…

Uníssona no acolhimento aos viajantes,
Memorial de sorrisos e amigos…

Pátria que inspira sonhos e voos.
Ode que acarinha meus passos… Há
Um pouco de mim em
Cada espanto que causei e em cada
Oportunidade que abracei.

Delineada por vozes passarinhas,
Estou para si…

Mergulho profundo, no seu
Infinito de possibilidades (do
Micro ao macro), sou filha de cada…

Universo que vislumbrei,
Mantenedora da ousadia de pensar…

Mansidão de alma e coração.
Unanimidade bendita e digna, eu a proclamo pela
Inefável presença, que me faz
Ternura e desperta a menina, que, com
Olhos macios a beija…

Dia e noite com um
Amor que transcende o espaço e o tempo e a…

Vida é reverenciada com
Imprescindível zelo, prudência e temperança e o
Dia nasce sempre mais belo aos meus olhos
Apaixonados e cheios de estima.

Marli Freitas

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Trauma de infância

Eduardo Martínez: Conto ‘Trauma de infância’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez
Imagem criada por IA doGemini – 11 de janeiro de 2026, às 1:00 PM

Boris Scherer, 56 anos, alto, loiro, olhos azuis, pele tão branca, que lhe dava aquele aspecto de boneco de cera, parou diante da porta. A placa indicava que estava no local certo: Dr. José Oliveira Silva, psicólogo. Não foi preciso se anunciar, haja vista um homem quase tão alto, pele escura, olhos profundos e sorriso largo o recebeu, ao mesmo tempo em que o cumprimentou. Era o dono não só da placa, mas daquela sala inteira, que se abriu de maneira acolhedora para o paciente. Primeira consulta. 

          — Fale sobre você.

          — O que você quer saber?

          — Tudo o que você quiser falar.

          Boris, com os olhos voltados para o tapete com formas geométricas, tentou buscar seu passado mais longínquo, onde se encontrava com seus lá quatro, cinco anos. Estava brincando no canto do escritório do pai, Klauss Scherer. 

          O agora paciente herdou a aparência do pai, que, àquela época, era mais jovem que ele é hoje. Não mais de 40 anos, talvez 36. Detalhes sem a menor importância. Quanto ao temperamento, por mais que Klauss tivesse tentado incutir seu modo de ser no filho, o fruto não poderia ter caído mais longe do pé. 

          — Meu pai era controlador. Era um bom homem, mas gostava de manter as rédeas firmes. Bruto, mas creio que todos os homens eram assim naquela época. Minha mãe sempre me falava para respeitar meu pai, pois era ele que mantinha a família unida. Ele era o homem da casa, o sustento de todos nós. 

          Pelas próximas quase duas horas, o psicólogo escutou atentamente o paciente e, ao final, os dois se despediram com um forte aperto de mãos. Boris, apesar de contido nas emoções, não conseguiu esconder a fragilidade no olhar ao remexer o passado. Mas parece ter saído aliviado e, caminhando pelo amplo corredor, chegou ao elevador, que o levou até a garagem do edifício. Ligou o automóvel e voltou para casa, onde encontrou a esposa e os dois filhos adolescentes.

          — Como foi a consulta, meu amor?

          — Boa.

          — Gostou do psicólogo?

          — Sim. Agendei nova sessão para semana que vem.

          A semana caminhou a passos lentos. Boris queria porque queria contar tantas outras coisas para o psicólogo. É verdade que pensou em desmarcar a consulta, pois não queria relembrar tempos tão difíceis. Todavia, ao recordar da sensação de leveza que o acompanhou no caminho de volta para casa, desejou reencontrar novamente o profissional.

          Pouco antes do horário, Boris estava diante da porta do consultório. José o recebeu de braços abertos, o que fez o paciente se sentir acolhido de maneira incomum para o mundo que lhe fora apresentado desde a mais tenra idade.

          — Meu pai, sempre autoritário, não aceitava que eu chorasse. Sempre dizia que homem não chora. Minha mãe, talvez receosa da reação do marido, nada dizia. E, quando estávamos sozinhos, ela enxugava minhas lágrimas em sua saia e me mandava lavar o rosto antes que meu pai retornasse. Aquilo sempre me pareceu algo normal, que certamente acontecia em todas as famílias. Levei anos para perceber que, apesar de acontecer com bastante frequência, aquilo não era normal.

          Boris, após quase seis meses de consultas, conseguiu se livrar de vários traumas de infância. No entanto, um ainda estava instalado bem lá no fundo do seu subconsciente. Mas, naquela sessão de agosto, tudo veio à tona. 

          — Sei que estava prestes a completar dez anos, pois acompanhei meus pais até o supermercado para comprar refrigerante. Estava eufórico, mas contido para não tomar bronca do papai. Ele segurava firme o meu pulso, como um carcereiro conduzindo o preso. Percebi um menino, praticamente da minha idade, empurrando um carrinho de compras pelos corredores. Ele me pareceu bem feliz e, obviamente sem querer, esbarrou o carrinho na minha perna. O garoto se voltou para mim e tentou se desculpar, mas meu pai, ríspido, o segurou pelo braço. Comecei a chorar, não sei se pela dor ou se por presenciar aquela violência. Meu pai, ainda segurando firme o braço do menino, me mandou chutar a sua perna. Eu não queria agredi-lo, mas meu pai me ordenou. Chutei a perna do menino uma, duas, três, dez vezes. Não me lembro de quantas, até que a minha perna ficar doendo demais para prosseguir. O menino, imóvel, aguentou sem derramar lágrimas. Meu pai o soltou, e o menino foi embora. Desde então, isso me consome de tal modo, que até hoje procuro por aquele menino para lhe pedir desculpas. 

          O psicólogo abraçou o paciente, que chorou copiosamente por minutos. Soluços, pedidos de desculpas para aquele menino do supermercado. Após quase meia hora, Boris se despediu de José. A próxima sessão seria na semana seguinte.

          Naquele dia, José entrou em seu apartamento. Não sentiu vontade de acender a luz. A escuridão era necessária para acalmá-lo após mais um dia de trabalho. Que turbilhão de emoções! Pensou em se servir uma dose de uísque, mas preferiu manter a mente limpa. 

          O psicólogo se dirigiu ao banheiro, onde ligou o chuveiro, enquanto retirava a roupa e a jogava no cesto ao lado. Sentiu a temperatura da água, entrou debaixo da ducha. A água morna caiu sobre sua cabeça, seus ombros largos, como se tirassem toneladas de angústias guardadas há tempos. Com o rosto virado para o chuveiro, as lágrimas foram levadas pela água. Passou a mão pela perna esquerda. Ele não era o único que carregava o trauma daquele dia.

Eduardo Martínez

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