José Antonio TorresEstou preso ao vazio de mim mesmo Imagem criada pela IA do Bing
Me sinto prostrado, Incapaz de reagir a esse sentimento que teima em me torturar. Minha mente foge para bem longe, Mas meu coração se recusa a desistir e grita teu nome. Loucos pensamentos e deliciosas sensações habitam meu ser E convulsionam ao rumaram para ti. Não pensei que fosse possível existir algo tão forte, intenso e conflitante. As amarras desse amor que me prendem e oprimem, São elos inquebrantáveis… Quanto mais resisto e tento me afastar, Mais preso me sinto. O que me faz sofrer, É a certeza de que esses elos não me prendem a ti. Estou preso ao vazio de mim mesmo.
Novo livro do baiano Nélio Silzantov, semifinalista do Jabuti de 2023, aborda arte, finitude, memória e o pessimismo de uma geração nos anos 90
Capa do livro ‘A Finitude das Coisas’, de Nélio Silzantov
Novo romance do escritor retrata um grupo de adolescentes mergulhados na tríade drogas, sexo e rock’n roll numa Vitória da Conquista longe do imaginário de uma Bahia solar e vibrante
“A finitude das coisas é a Vitória da Conquista (cidade natal do autor) de antes e de agora, talvez a cidade seja a verdadeira protagonista do romance, o cenário que afaga e esmaga. A concretude dessas personagens é celebrada nesse encontro entre a urbanidade e a decadência das possibilidades afetivas. A narradora empurra o leitor para as cavernas de seus traumas e para as luzes de seu estágio endurecido pelo sofrimento e pela característica falta de traquejo da juventude”
D.B. Frattini, na apresentação do livro
O cenário da contracultura no interior da Bahia nos anos de 1990 é o pano de fundo de ‘A finitude das coisas’ (editora Patuá, 240 pág), novo livro do escritor Nélio Silzantov (@neliosilzantov). Semifinalista do Prêmio Jabuti de 2023 com “Br2466: ou a pátria que os pariu”, o autor volta a cena literária e apresenta agora ao público a história de quatro amigos vivendo intensamente a juventude passeando pelos submundos da cidade regados a violências e vícios. O desenrolar da trama evidencia como as personagens tentam desafiar a profecia anunciada por um deles e que dizia que dois não chegariam à vida adulta, um se tornaria religioso e o outro se conformaria com uma vida comum e ordinária. Ao flertar com o romance de formação, o horizonte de uma vida adulta se torna um enigma a ser desvelado. O que o destino reserva ao grupo prende até a última página o leitor, que ganha, além de uma trama engenhosa, uma obra repleta de referências literárias, musicais e filosóficas.
Para o autor da obra, o livro suscita uma série de temas que permeiam desde questões sociais e relações interpessoais até a violência e a morte, além do binômio Arte-Vida. “São assuntos que me inquietam desde sempre e costumo problematizar em minha produção acadêmica e literária, sobretudo a condição humana e a arte”, pontua Nélio.
O livro é narrado em primeira pessoa por Jeane (também chamada de Simmons). A única garota do grupo divide a cena com Annibal, Pavarotti e Erick. A obra é composta por um prólogo e mais três partes intituladas: “Como se fosse ontem”, “A finitude das coisas” e “A decadência dos Deuses”. Cada capítulo é nomeado com datas, na maior parte do tempo ano, que faz referência a época do que será contado. A narrativa não é linear obedecendo uma lógica imposta pela narradora que é de puxar alguma trama do passado para explicar o presente.
Um dos méritos de ‘A finitude das coisas’ está justamente nesse quebra-cabeça que vai sendo montado a cada página virada. No início o leitor é apresentado a personagens vorazes, repletos de dramas e traumas, e à medida que a história se descortina inicia o processo de entendimento das motivações e comportamento de cada um. E nesse ponto, Nélio não alivia para as suas criações, o grupo é formado por subversivos provenientes de famílias disfuncionais —, e o autor não tenta mascarar isso, ao contrário, lhes dá o palco para que mostrem suas verdadeiras faces. Essa escrita crua e sem subterfúgios é mais uma qualidade da obra.
O livro, que começou a ser escrito em 2019 e levou quatro anos para ser finalizado, é considerado pelo autor como o mais maduro da sua carreira literária. “Em termos estéticos, ele representa uma síntese dos dois romances anteriores e em certa medida solidificou um estilo que vinha construindo, ou tentando encontrar o que alguns chamam de voz autoral”, afirma.
Para os adolescentes que viveram a intensidade da última década do século 20, com seus quartos repletos de posters de bandas e estantes cheias de discos e CDs dos artistas favoritos, o livro ‘A finitude das coisas’ pode ser um acesso a referências compartilhadas e um mergulho em memórias coletivas, como o luto pela morte de Renato Russo, lamentada pelos protagonistas da obra num momento catártico. Para aqueles que não viveram a juventude naquela época, o livro se apresenta como uma cartografia para entender a geração que chegou nessa década aos 40 anos oscilando entre a nostalgia e o pessimismo.
Interior da Bahia: o coadjuvante que inspira
Nélio Silzantov
Nélio Silzantov é licenciado em Filosofia pela Universidade Estadual Do Sudoeste Da Bahia (UESB), mestre em Estudos de Literatura e doutorando em Educação, ambas pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Além de escritor, é também crítico literário e professor. Atua ainda como editor no blog Ágora Literária e no Foro Literário Sertão da Ressaca.
Nélio é coautor do livro de não-ficção “Ética, Estética e Representações Sociais” (iVentura, 2021), organizador da coletânea “A novíssima literatura do Sertão da Ressaca” (Ressacada Edições, 2023), autor da coletânea de contos “BR2466 ou a pátria que os pariu” (Penalux, 2022), esse indicado ao 65º Prêmio Jabuti 2023, e do romance “Desumanizados” (Penalux, 2020).
O autor, que nasceu em Vitória da Conquista, interior da Bahia, e vive atualmente em São Paulo, tem um vínculo intenso com o município nordestino e leva essa conexão para as suas obras literárias. Longe de ser um tributo bairrista, em “A finitude das coisas”, a cidade opera como uma coadjuvante, servindo tanto de cenário como de inspiração e, paradoxalmente, de aversão das personagens pelo local.
O município é lugar enevoado num contraponto, ainda que inaudito na obra, a solar e carismática Salvador. Se a capital baiana é conhecida pela exportação do Axé para todo o território nacional, a Vitória da Conquista de Nélio nos anos de 1990 vibra em outra frequência e pulsa no movimento contracultural, ensejados pelo rock e seus congêneres.
Segundo o escritor, o livro faz parte de um projeto literário em que problematiza a cidade natal a partir da cotidianidade local e das questões que assolam o país como um todo. “Durante algum tempo a escrita deste livro me atormentou por não saber lidar com algumas questões incontornáveis em seu enredo, depois, no desenvolvimento da escrita, outros temas ganharam relevância como: hedonismo, decadentismo, a formação da cidade, (Imigrantes e Emigrantes, ou os Retirantes, Retornados e Remanescentes), a ascensão das igrejas neopentecostais, a formação familiar e a condição operária”, esclarece.
Ainda que transite por temas densos e desafiadores para o autor, as mensagens da obra se sobrepõem a esses aspectos em busca de reflexões mais profundas sobre os sentidos da existência. “O livro enfatiza que a vida é um sopro; que poder contar com aqueles que nos amam e com os que nos aceitam sem nenhuma condição é um dos bens mais preciosos; que conhecer a si mesmo não é uma tarefa fácil, mas é um dever a ser encarado por todos; que a relação entre arte e vida vai além do mero entretenimento”, destaca Nélio.
Confira um trecho do livro (págs. 29 e 30):
“Medíamo-nos dos pés à cabeça, como quem confere se a imagem real se assemelhava com aquela guardada na memória. Era óbvio que havíamos mudado e permanecemos os mesmos durante todo esse tempo. Tínhamos tanta conversa para pôr em dia, e outros tantos silêncios e não-saber-o-que-dizer para compartilhar. Quanto tempo levaríamos para perdoar o que fosse preciso, virar a página, ou abandonar em definitivo essa história? Taí uma coisa que naquele instante passou por minha cabeça e mesmo agora não saberia dizer.
Às vezes a paz de espírito não vai além de uma leve dormência. Basta uma música, a cena de um filme, uma fotografia, ou até mesmo uma palavra grafada ou dita para trazer à tona sentimentos adormecidos no abismo do esquecimento”
Adquira ‘A finitude das coisas’ pelo site da editora Patuá:
Nilton da Rocha“No amanhecer tão belo e apressado, corro atrás do tempo, não posso ser tardado“ Imagem criada pela IA do Bing
No amanhecer tão belo e apressado, Corro atrás do tempo, não posso ser tardado, O amanhã não cessa, impõe-se com vigor, Tenho pressa de viver, não há tempo a perder, só amor.
Deságua em versos rápidos o fluxo da existência, Sem saber ao certo a próxima sentença, Lágrimas caem como poesia não escrita, Em cada chão, uma história aflita.
O vate profetiza o amor que a prende, Em um destino entrelaçado que se estende, Os olhos marejam, as mãos seguram a dor, A espera se alonga, mas o amanhã traz vigor.
Monotonia vencida apenas pela emoção austera, Uma espera longa, mas não passageira, O dia se vai, o Sol não se atrasou, No ciclo implacável do tempo, o amor se firmou.
Tia Bêa havia chegado do interior recentemente e não abandonara alguns costumes, como frequentar a feira no sábado de manhã com o pretexto de encontrar melhores hortaliças, quando na verdade era algo meio que um acordo velado da confraria das fofoqueiras de plantão para trocar informações sob o sino da igreja. Aliás, esse era outro costume de tia Bêa, ir à missa todo domingo; as manhãs dominicais eram sagradas para ela. Agora descanse em paz ao lado do nosso Senhor, querida tia Beatriz de Castilho.
Tia Bêa tinha ascendência portuguesa e certo orgulho disso. Entender o latim das missas era uma imodesta glória da qual ela não se disfarçava. Vir para a capital mineira e descobrir que as missas estavam sendo realizadas em Português, coitada, foi uma decepção desconcertante, mas nada que a fizesse desanimar de ouvir as missas todos os domingos, fizesse sol ou chuva.
Certo dia, ela ouviu dizer que o padre Sérgio, pároco da cidade onde ela cresceu e construiu quase todas as suas relações sociais, iria visitar uma igreja em Belo Horizonte. Óbvio que ela não poderia deixar passar a oportunidade de rever o pároco da sua cidade natal. Soube que ele estaria celebrando a missa do domingo na paróquia de São Mateus, num bairro da periferia. Tia Bêa colocou seu melhor vestido, fez penteado, unhas e arrumou a maquiagem para essa manhã festiva. O pároco daquela jurisdição fez o anúncio da visita ilustre do padre Sérgio e inteirou que ele iria executar algumas músicas ao órgão que raramente era usado por falta de quem o soubesse tocar. Tia Bêa se impressionou muitíssimo a cerca do talento de padre Sérgio. Ela ouviu com alma enlevada e dizia em voz baixa:
– Que maravilha. Nem sabia que padre Sérgio tinha esse talento… Que maravilha!
Ao fim da missa, ela não se aguentava e dizia:
– Gente, preciso ir dar um abraço no padre Sérgio e dar-lhe os parabéns. Eu estou encantada!
E, no meio da multidão, surge o pároco interiorano. Quando ela o vê, vai chamando em alta voz:
– Padre Sérgio, padre Sérgio… Eu não sabia que o senhor tocava tão bem assim. Que maravilha de músicas. parece realmente coisa do céu. SE O SENHOR SOUBESSE COMO O ÓRGÃO DO SENHOR ME FEZ BEM…
Maze OliverA criança e o adolescente no mundo virtual Imagem criada pela IA do Bing
Hoje a tecnologia digital domina os lares. Crianças muito pequenas antes de falar já veem vídeos no celular de alguém da família. O que isso afeta na criança? E ao adolescente? É recomendável? O que fazer diante do vício? Existem estudos científicos que provam que o exagero da tecnologia na criança muito pequena é muito prejudicial ao cérebro, ao relacionamento com o outro e à saúde física e mental das crianças e dos adolescentes.
Para uma criança muito pequena, até seis anos, uma hora de tecnologia é o indicado. A criança precisa se relacionar com as pessoas: ser estimulada a falar, a ouvir, a cantar, a amar etc. A Psicanálise afirma que esse grande outro (adulto) é fundamental na formação da identidade da criança. Convivendo com um aparelho, onde está a intervenção direta com a criança? Ela vai aprender a falar com os vídeos? É provável que sim. Mas, e a parte emocional? A Interação pessoal? Não estaremos criando robôs? Para o Psicólogo, Leo Fraiman, “tecnologia para crianças somente após os seis anos”. Está comprovado que somente após, essa idade, dependendo da criança, ela será capaz de separar a realidade da fantasia. Qual a repercussão do exagero? As pesquisas mostram que 80% de nossas crianças, antes dessa faixa etária, estão na internet; vendo toda a sorte de violência, e muitos vezes conteúdos, até impróprios.
Passar muito tempo no celular, vídeogames e computador, restringe os movimentos da criança. Ela precisa andar, correr, descer, subir etc. Limitar a criança é prejudicial ao seu crescimento físico. O corpo, é um organismo completo que necessita estar integrado com todas as suas necessidades nos anos iniciais para crescer saudável. Quanto ao cérebro, também já foi comprovado pela Neurociência que os jogos e os vídeos estimulam a produção de Dopamina, e outras substâncias responsáveis pelo prazer. Assim, estaremos viciando nossas crianças e jovens, desde muito cedo com uma dose extra de substâncias e estimulando a se afastarem de outras atividades, menos prazerosas, porém mais saudáveis ao crescimento integral, o brincar, que é tão necessário ao crescimento mental e físico. Sabemos que o mundo proporcionará desafios para eles no futuro. Como enfrentarão as dificuldades? As responsabilidades? E as frustrações? Se estarão totalmente viciados em atividades prazerosas, e em grandes quantidades, pois todos os dias surgem novos jogos, novos vídeos, de todas as formas e níveis. E sabemos que em muitas famílias, não há nem mesmo uma seleção de conteúdo ou horários, para os filhos.
Paiva NMN e Costa JS, no artigo científico: A influência da tecnologia na infância: desenvolvimento ou ameaça? Afirmam que:
“… o mundo virtual utilizado de forma indiscriminada desestrutura os processos psicológicos da criança levando-a a apresentar o comportamento antissocial, instabilidade emocional e atitudes de agressividade”…01.
A pesquisa da Revista Psicopedagogia, cita que:
…“A utilização da tecnologia de forma indiscriminada pelos adolescentes provoca o desequilíbrio cognitivo do ser. Com isso, ela potencializa os transtornos de atenção, transtornos obsessivos, de ansiedade e problemas com a linguagem e a comunicação, o que afeta diretamente aprendizagem”. 02
…“A Associação Psicológica Americana incluiu a dependência de jogos e de internet no apêndice do DSM-VVII, o que aumenta a legitimidade clínica do transtorno e favorece o entendimento científico da natureza dessa dependência” 02.
Assim, teremos alguns desafios para as futuras gerações pois com todos os problemas que já tínhamos com as crianças praticamente criadas por terceiros, devido ao enfrentamento dos pais no mercado de trabalho, o desemprego, alcoolismo, negligência familiar, drogas e outras violências, agora nos deparamos com mais um problema, o excesso do uso inadequado de tecnologia por crianças e jovens, a “over dose digital”. Eis aí, que devemos rever nossos padrões de comportamento que não servem mais, para essa nova sociedade que ora estamos vivendo. Limitar horários, selecionar conteúdos, alertar para os perigos da Net e fortalecer os laços familiares, são algumas providências urgentes.
OBS. Conheça a obra A poção mágica, Maze Oliver, primeira edição 2016, que se encontra publicada no saite Clube de Autores, à disposição dos pais. Para um diálogo com a criança de forma lúdica sobre o assunto: a questão do retorno às brincadeiras tradicionais.